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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.11 no.25 São Paulo Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201811252 

ARTIGOS

TRÊS É DEMAIS! (OU POR QUE GARNIER NÃO TRADUZIU MACHADO DE ASSIS?)

THREE IS TOO MANY! (OR WHY DIDN’T THE GARNIER TRANSLATE MACHADO DE ASSIS'S WORK?)

1Universidade Estadual Paulista (Unesp). São José do Rio Preto, São Paulo, Brasil

Resumo

Por que Garnier, o editor de Machado de Assis, teria impedido os passos do escritor rumo à tradução e consequente internacionalização? Este artigo propõe uma resposta a essa questão intrigante, a partir da análise da história dos editores Garnier Frères, sobretudo de seus negócios com o Brasil. Na verdade, a relação de Machado de Assis com os Garnier envolve três editores diferentes, embora da mesma família, e portando o mesmo sobrenome. Além disso, a análise dos contratos entre autor e editores mostra que Machado tinha domínio sobre suas cláusulas e conquistava condições contratuais cada vez mais favoráveis, o que pode tê-lo feito esbarrar nos objetivos dos editores. Talvez essa seja a razão principal de a obra machadiana ter aguardado até 1910 para ser traduzida em língua francesa, importante mediação para a circulação internacional de um texto, à época.

Palavras-Chave: Machado de Assis; Baptiste-Louis Garnier; Garnier Frères; tradução; edição

Abstract

Why would The Garnier Brothers, Machado de Assis's publishers, have prevented the translation and consequent internationalization of the writer’s works? This article suggests an answer to this intriguing question based on the analysis of the history of the Garnier Frères publishers, especially regarding their business with Brazil. In fact, the relationship between Machado de Assis and the Garnier Brothers involves three different editors, albeit from the same family and therefore bearing the same surname. Additionally, studying the agreements between the author and his publishers shows that Machado was in charge of his clauses and managed to obtain increasingly favorable conditions, which may have put him at odds with the publishers' goals. Perhaps this is the main reason why Machado de Assis's work was not translated into French until 1910, an important step at the time for the international circulation of a literary text.

Key words: Machado de Assis; Baptiste-Louis Garnier; Garnier Frères; translation; publishing

Uma questão intrigante

A pergunta é frequente e intrigante: por que Garnier, o editor de Machado de Assis, impediu os passos do escritor rumo à tradução e internacionalização de sua obra?

A resposta, se não é simples, pode ser composta a partir do conhecimento mais detalhado da história dos editores Garnier Frères, sobretudo em sua relação com o Brasil. Em primeiro lugar, é preciso que se reconheça que Machado de Assis não foi um autor ligado aos "irmãos Garnier", como se tem acreditado. Analisando de perto a história da editora Garnier no Brasil, fica evidente que a relação de Machado de Assis com "os Garnier" envolveu, em três fases diferentes, três editores que se sucederam, embora da mesma família, e portando o sobrenome que adquiria prestígio no meio editorial francês, com extensão de negócios nas Américas. As características de cada um desses editores e as peculiaridades da relação estabelecida entre autor e editores são, certamente, uma das razões (talvez a principal) de a obra machadiana ter aguardado até 1910 a tradução para a língua francesa, importante mediação para a circulação internacional de um texto, à época.

Baptiste-Louis Garnier: da França ao Brasil

O caçula dos nove irmãos Garnier, Baptiste-Louis (1822-1893), fixou-se no Rio de Janeiro em 1838 ou 18441 e se tornou pioneiro da internacionalização dessa grande editora do século XIX (MOLLIER, no prelo). Por cerca de vinte anos, foi livreiro e comerciante de artigos em geral, mas, nos anos 1860, iniciou seu voo solo como editor, contando, nessa fase inicial, com o apoio de um círculo de literatos que o ajudavam em suas escolhas e o apoiavam em suas atividades editoriais.2 Viria a contar logo mais com o mecenato do Imperador D. Pedro II, de modo que, em meados dos anos 1870, os catálogos do já estabelecido editor Baptiste-Louis Garnier traziam 82 entradas de títulos em português na seção "Poesias e Literatura", com destaque, dentro dessa coleção ampla, para a "BRASÍLIA, Biblioteca Nacional dos melhores autores antigos e modernos, publicada sob os auspícios de S. M. O Sr. D. Pedro II" (GARNIER, s.d., grifo nosso). Apesar dos testemunhos dissonantes por parte dos escritores, sobretudo em relação aos métodos e ao perfil de explorador-capitalista do livreiro-editor,3 as estratégias comerciais de Baptiste-Louis Garnier, juntamente ao trabalho e escolhas dos literatos e aproximações com o campo do poder, contribuíram para que ele passasse a ser definido e reverenciado como o grande editor dos textos brasileiros do século XIX, e como inspiração para aqueles que continuaram essa atividade.

Enquanto isso, na França, Hippolyte e Auguste Garnier haviam continuado a atuar como livreiros-editores à moda antiga, apostando na venda de suas coleções de clássicos latinos ou de "chefs-d'œuvre" da literatura francesa, além de obras para uso nas escolas (gramáticas e dicionários) e obras completas de escritores/homens de letras já celebrizados no mesmo século XIX, tal e qual Sainte-Beuve, por exemplo. Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro, Baptiste-Louis, sem deixar de se dedicar a obras desse tipo, que davam tiros mais certeiros nas vendas, passou a atuar como um editor moderno,4 aquele que faz pesquisa de manuscritos, relaciona-se com autores, baseia sua atividade comercial em fundos próprios (e não no comércio de livros variados), rumando para a especialização do catálogo e de coleções que passaram a dar imagem e clientela à sua casa editorial. Detalhe importante da história é que, quanto mais os estudos sobre os Garnier avançam, mais se tem certeza de que houve uma ruptura comercial importante entre os irmãos no início dos anos 1860, de modo que Baptiste-Louis deixou a condição de "representante" da Garnier Frères no Rio de Janeiro para se tornar um editor autônomo.5 Foi exatamente nesse momento que Machado de Assis e Baptiste-Louis Garnier se encontraram: um jovem homem de Letras, frequentando há vários anos o ambiente literário carioca, era um autor que precisava de um editor; enquanto isso, Garnier, um editor que tentava firmar essa atividade no país, a qual o constituiria como um "editor moderno", precisava de autores brasileiros.

A partir daí, a relação entre Garnier e os autores de sua casa cresceu nas duas décadas seguintes. Por razões que têm sido investigadas, e talvez porque a obra de José de Alencar já fugisse ao controle do editor naquele momento, esse escritor recebeu investimento especial da casa Garnier, inclusive no que se refere à circulação internacional de sua obra.6 Ao mesmo tempo, Machado de Assis foi fixado como contista ao Jornal das Famílias, para o qual colaborou entre 1864 e 1878. Enquanto ali afiava sua pena de prosador, Baptiste-Louis Garnier publicou vários (mas não todos) textos de Machado de Assis nos anos 1860-1870, entre livros de poemas, contos escolhidos e romances.

No caso de Machado de Assis, o quadro de aparentes boas relações entre escritor e editor não se traduziu em internacionalização. Considerando a separação entre os irmãos de Paris e o do Rio de Janeiro, o caminho Brasil-França pelo canal Garnier estava interrompido. E, se não fosse pela via dos Garnier, a circulação da literatura brasileira no velho continente, embora fosse possível, passava por caminhos menos evidentes, que era necessário explorar. Isso explicaria o porquê de todas as tentativas conhecidas de tradução e possível circulação da obra machadiana na Europa terem partido do próprio escritor.

Hélio Guimarães (2012) repertoriou e comentou os eventos nos quais o escritor empenhou-se na tarefa de fazer traduzir sua obra, três dessas tentativas tendo sido feitas para o alemão. Em 1882, uma carta de Miguel de Novais ao cunhado brasileiro faz com que seja "possível reconstruir, em negativo" (GUIMARÃES, 2012, p. 36), alguns dos temas discutidos pelos dois homens. Um deles é, justamente, a tradução de Memórias póstumas de Brás Cubas, assunto da correspondência que, em 2 de novembro de 1882, Novais envia a Machado: "Estimei saber que o seu Brás Cubas estava sendo traduzido para o alemão – são poucas as composições em língua portuguesa que recebem essa honra" (ASSIS, 2009, p, p. 235). Extrai-se dessas poucas linhas que Machado escolhera Memórias póstumas de Brás Cubas como sua obra a ser traduzida, a mesma que, em correspondência anterior com o cunhado, Machado lamentava ser mal compreendida; observa-se também que, como a obra "estava sendo" traduzida, havia um movimento rápido do escritor entre a publicação seriada na Revista Brasileira (1880) até o livro (pela Tipografia Nacional, 1881) e daí para o mundo via língua alemã (1882); por fim, nada se sabe sobre o tradutor e a possível editora interessada.

Seis anos mais tarde, observa-se uma segunda tentativa de tradução para o alemão:

Eu, abaixo assinado, declaro autorizar o Sr. Curt Busch (C. Busch von Besa) a traduzir para a língua alemã as minhas obras literárias, devendo a publicação da primeira (Memórias póstumas de Brás Cubas) não exceder de um ano. Não sendo publicadas as outras no prazo de quatro anos, só o poderão ser mediante nova autorização.

Rio de Janeiro, 10 de setembro de 1888. (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE PÚBLICA, 1939, p. 195, 198)

O rascunho para autorização de tradução das obras machadianas para o alemão restou entre os papéis do escritor, publicado no Catálogo da Exposição Machado de Assis; centenário do nascimento de Machado de Assis (1839-1939).7 Daqui, extrai-se um pouco mais do que é possível no caso anterior (a carta-reposta de Miguel de Novais a Machado de Assis): em primeiro lugar, nada se sabe sobre o tradutor Curt Busch von Besa; em segundo, não entra em questão, nesse rascunho de documento, qualquer condição financeira para a tradução; a seguir, dando autorização à tradução de suas "obras literárias", Machado, mais uma vez, prioriza Memórias póstumas de Brás Cubas, o que confirma a importância que ele mesmo conferia ao fato de se tornar internacionalmente conhecido a partir desse romance "incompreendido",8 e não de seus contos ou romances anteriores; em quarto lugar, o escritor estabelece um tempo limitado para a permissão de tradução, mantendo controle sobre a circulação de sua obra. Dado curioso é que o próprio Machado de Assis conceda permissão ao tradutor (e talvez editor), enquanto, por regra geral, essa cessão de direitos era negociada entre o autor e seu editor, primeiramente, para, logo após, haver entendimento entre editor de origem e tradutor/editor da tradução.9

Indícios sugerem que as relações entre editor e escritor não fluíam tranquilamente no início dos anos 1880. Após vários volumes "chez Garnier", Machado interrompera a publicação por meio desse editor, desde Iaiá Garcia (1878) até Histórias sem data (1884). Mas um recibo de outubro de 1882 indica a alteração desse quadro:

Recebi do Ilmo. Sr. B. L. Garnier a quantia de novecentos e cinquenta mil réis (950$000), pela primeira edição, em novecentos e cinquenta exemplares, que nesta data lhe transmito, como plena propriedade do meu livro Papeis Avulsos, obrigando-me a não reimprimi-lo antes de esgotada a dita 1a. edição.

Rio de Janeiro, 25 de outubro de 1882.

Machado de Assis.10

O documento mostra que Garnier agia como livreiro em relação a Papéis avulsos. Machado de Assis entregou a Garnier praticamente toda a primeira edição de seu livro de contos, impresso/publicado por Lombaerts, tendo recebido mil réis por exemplar (950 mil réis por 950 exemplares), ou seja, metade do preço habitual de um volume de cerca de trezentas páginas, com encadernação simples, à época. Garnier lucraria mil réis pela venda de cada exemplar, mas, curiosamente, enquanto essa edição não se esgotasse, Garnier adquiria também a "plena propriedade" sobre a "obra" Papéis avulsos, que Machado chama de "livro" em seu texto de recibo. Nesse caso, Machado transferia a propriedade da "obra" a Garnier, durante o período em que esse agia como "livreiro". Caso complicado, mas, como se vê, nesse restabelecimento de relações, Machado de Assis, ao mesmo tempo, concedia e limitava o poder de Garnier sobre a propriedade literária de sua obra, enquanto outros escritores seus contemporâneos, brasileiros e estrangeiros (e o próprio Machado, anteriormente) haviam cedido a Garnier a propriedade plena e inteira, mesmo perpétua, sobre suas criações.11 Importante salientar que o cuidado com a propriedade literária não era exclusividade de Machado de Assis.12 Eram cada vez mais frequentes os debates sobre o assunto e o próprio Machado viria a atuar ativamente, ao lado de Pardal Mallet, em uma campanha pelo direito autoral (MAGALHÃES JÚNIOR, 1981a, p. 164-170).

Tudo somado, no que se refere às tentativas de tradução de sua obra para o alemão nos anos 1880, Machado funcionou como editor de si mesmo e apresentava uma consciência editorial13 que lhe era necessária para abrir possiblidades de circulação, o que pode ter sido causa ou consequência de um choque com Garnier naquela época. Vê-se também que o mesmo Garnier não era com clareza "o" editor de Machado de Assis nos anos 1880, o que pode ter dificultado negociações entre, por um lado, um autor brasileiro e, por outro, um tradutor e editor alemães. A um fato, portanto, a não tradução da obra de Machado de Assis, juntam-se algumas motivações.

Some-se a essa questão de política literária para a não internacionalização de Machado de Assis um acontecimento incontornável. Garnier faleceria em 1893 e, segundo vários relatos, teria permanecido, nos três anos anteriores, muito doente. Assim sendo, pode ser que os dez anos que envolveram todos esses fatos, inclusive moléstia e morte, não tenham sido suficientes para que Baptiste-Louis Garnier colocasse em marcha um projeto de tradução para os escritores brasileiros, embora investisse fortemente, desde os anos 1870, em traduções de romances estrangeiros para o português do Brasil (BEZERRA, 2018b), atividade que deve ter contribuído para o aumento de seu capital entre os anos 1870-1880.14

De François-Hippolyte a Auguste-Pierre Garnier

Nova tentativa conhecida de tradução da obra de Machado de Assis para o alemão acontece em 1899. Alguma novidade pode emergir da análise do documento vinculada à história das casas Garnier. Quando da morte de Baptiste-Louis Garnier em 1893, Auguste Garnier já havia falecido há alguns anos na França, em 1887. Nesse caso, François-Hippolyte Garnier era quem dava continuidade aos negócios dos irmãos franceses. Sendo o mesmo Hippolyte o principal herdeiro de Baptiste-Louis, uma atitude que tomou nos mostra que o editor parisiense não tinha conhecimento dos negócios da livraria e editora Garnier do Rio de Janeiro. Uma procuração de 26 de dezembro de 1893 (GARNIER, 1893), ou seja, menos de três meses depois do falecimento do irmão que vivera sob os trópicos, mostra que Hipollyte enviou Julien Emmanuel Bernard Lansac ao Rio de Janeiro (aquele que viria a ser gerente da livraria no início de sua nova fase) para liquidar e vender todos os negócios, bens e propriedades deixados por Baptiste-Louis. Mas pouco a pouco, a partir de 1896, tudo mudou. Hippolyte Garnier, provavelmente depois de ter sido aconselhado por Lansac, decidiu manter os negócios no Rio de Janeiro e continuou, por meio dos gerentes da sucursal brasileira, a investir no quadro de autores que o irmão havia formado, sobretudo em Machado de Assis. Foi nesse quadro de retomada dos negócios dos irmãos Garnier no Brasil e reinauguração da livraria (em janeiro de 1899) que Machado escreveu a Hippolyte Garnier, tentando ser traduzido para o alemão pela terceira vez:

Rio de Janeiro, le 10 juin 1899.

Monsieur Garnier,

Je viens de recevoir une demande d'autorisation pour la traduction de mes ouvrages en allemand. C'est de la part de Madame Alexandrina Highland, qui demeure à Saint-Paul (Brésil) et doit retourner en Allemagne dans huit mois. Comme je n'ai pas réservé, dans notre contrat le droit de traduction, je vous écris pour demander votre autorisation directe à cette dame.

Pour moi, Monsieur, je ne lui exigerait (sic) aucun autre bénéfice, trouvant que c'est déjà un avantage de me faire connaître dans une langue étrangère, qui a son marché si différent et si éloigné du nôtre. Je pense que c'est aussi un avantage pour vous. Si vous le pensiez aussi, envoyez-moi une autorisation en due forme, sans aucune condition pécuniaire. […]

Agréez, Monsieur, mes salutations,

Machado de Assis. (ASSIS, 2011, p. 378-379)15

Como se vê acima, Machado de Assis dirige-se a Hipollyte, em nome da possível tradutora, Alexandrina Highland, solicitando autorização para a tradução de sua obra, e abrindo mão de quaisquer vantagens pecuniárias. Curiosamente, ainda que absolutamente ciente de como funcionavam os contratos entre autores e editores, solicita a Garnier que não imponha nenhuma condição pecuniária. A resposta não tardou e foi avassaladora:

Paris, le 8 juillet 1899.

Monsieur Machado de Assis

Rio de Janeiro

J'ai l'honneur de vous accuser la réception de votre estimée du 10 Juin me demandant pour Madame Alexandre (sic) Highland de (…) mon autorisation de traduire vos ouvrages en allemand.

Vous n'ignorez pas, Monsieur, qu'un auteur quelque bien traduit qu'il soit, perd toujours de son l'originalité dans une langue autre que la sienne; les admirateurs d'un écrivain aiment mieux le lire dans sa langue mère. Vous n'avez rien à gagner à être traduit en allemand.

Aussi ai-je le regret de ne pas pouvoir accorder gratuitement le droit de traduction demandé – Les allemands savent fort bien se faire payer de leur côté; Madame Highland devra donc me verser cent francs par chaque volume de vous qu'elle se proposerait de traduire.

Je suis ennuyé de ne pas pouvoir déférer à votre désir en pareille circonstance et je vous renouvelle Monsieur l'expression de mes meilleurs vœux de considération.

F. H. Garnier. (ASSIS, 2011, p. 387-388)16

Com "irritação" e "grosseria", nas palavras de Magalhães Júnior (1981b, p. 91), a carta de François-Hippolyte Garnier a Machado de Assis desdenha das intenções de internacionalização do escritor, mas deixa claro, a seguir, que as objeções desapareceriam mediante pagamento. Magalhães Júnior lembra também que alguns meses antes, em 16 de janeiro de 1899, o escritor vendera ao editor francês a propriedade plena e inteira de quase todos os livros que publicara até então, obrigando-se contratualmente em relação ao francês.

Se a morte de Baptiste-Louis e o estabelecimento de relações com esse desconhecido (de Machado) irmão Garnier não facilitou os negócios para o escritor brasileiro, hoje em dia, avaliando o editor François-Hippolyte, vê-se que a frieza e a rudeza da resposta estão previstas em sua própria atuação à antiga, que determinava a forma como se relacionava com seus autores e a prioridade que dava aos lucros. Além disso, nem ele nem o falecido Auguste se haviam interessado pelas relações entre Baptiste-Louis e a literatura brasileira. Mesmo assim, François-Hippolyte, ao retomar de vez por todas os negócios, tratou de agrupar os romances, contos e poemas machadianos publicados até 1899 em um contrato geral mais ou menos vantajoso para o autor: Machado de Assis recebeu oito contos de réis por seus romances, contos e poemas completos17 – exceto Várias histórias, que saíra em 1896 pela Laemmert; por outro lado, o escritor voltava o regime de "venda, de hoje para sempre, da propriedade inteira e perfeita, das ditas obras",18 ou seja, os Garnier disporiam enquanto desejassem dos direitos sobre a obra praticamente completa de Machado de Assis.19

Começava nesse contrato geral a terceira fase das relações entre Machado e os Garnier. O editor à moda antiga, que não se interessava pela pesquisa de autores, cedia espaço a seu sobrinho-neto, Auguste-Pierre Garnier, às vezes confundido com o Auguste que falecera em 1887. Em 1899, recusando-se a traduzir Machado de Assis para o alemão, François-Hippolyte , nascido em 14 de março de 1815, já tinha 84 anos. Ele estivera à frente dos negócios dos Garnier de Paris por 66 anos, sozinho nisso havia doze anos, desde o falecimento de Auguste, o grande parceiro. Bom também mencionar que, na divisão de tarefas entre os irmãos parisienses, fora Auguste o verdadeiro diretor da livraria, enquanto Hippolyte cuidava de negócios mais arriscados, sem envolver-se com autores e trabalho editorial.20

Quando Hippolyte Garnier faleceu em 1911, aos 96 anos, Auguste-Pierre tornou-se herdeiro dos três tios-avôs editores e livreiros (Paris-Rio). Nascido em 1885, o rapaz assumiu cedo a tarefa de dirigir a prestigiosa empresa, o que fez até 1966, quando seus dois filhos a venderam para o grupo Presses de la Cité. Lá na primeira década do século XX, os fatos mostram que ele, progressivamente, tomou o lugar de Hippolyte e reestruturou os negócios em espanhol e em português. Evidenciam a última afirmação os catálogos da época, cuja leitura assegura que, na fase Pierre-Auguste, houve uma renovação do português e do espanhol, tanto no selo "Garnier Frères", que podia traduzir alguns textos dessas línguas para o francês, quanto no selo "Garnier Hermanos", que os publicava em espanhol, além de traduzir os franceses para o mundo hispanofônico. Auguste-Pierre Garnier inclusive viria a receber, em 1930, a condecoração nacional francesa da Legião de Honra, graças aos serviços prestados, no que se refere à expansão comercial francesa na França e no estrangeiro, destacando-se a "difusão de autores clássicos franceses no exterior, especialmente nos países da América do Sul; edições em língua espanhola e portuguesa de autores franceses clássicos e contemporâneos; [...]" (ARCHIVES NATIONALES DE FRANCE, 1921-1962, tradução e grifos nossos). Clássicos franceses em espanhol e em português, autores de língua espanhola e portuguesa em francês: Machado de Assis havia atingido, "não aos saltos, mas aos saltinhos", a Europa. Em 1910, a Garnier Frères publicou Quelques contes (Várias histórias) e, em 1911, Memoires posthumes de Braz Cubas, ambos traduzidos por Adrien Delpech. Em 1911, a Garnier Hermanos publicou Varias historias, Memorias postumas de Blas Cubas e Don Casmurro, todos traduzidos por Rafael Mesa Lopes. Até 1913, sairia Quincas Borba, traduzido por J. Amber.21 Afinal, os Garnier possuíam plenos poderes sobre a obra de Machado, inclusive o de tradução.

Vários fatores vieram a favorecer a tradução da obra de Machado de Assis para o francês e, quase simultaneamente, para o espanhol. No final da história, o atento empresário Auguste-Pierre Garnier beneficiou-se do crescimento das relações França-Brasil, devido à expansão dos interesses geopolíticos franceses no Brasil, que resultaram, entre outras ações, em missões de escritores e intelectuais franceses nos trópicos e, no sentido contrário, na realização da "Fête de l'intellectualité brésilienne", organizada pela Société des Études Portugaises de Paris e pela Mission Brésilienne de Propagande, em 3 de abril de 1909, sob a presidência de Anatole France. Nessa ocasião, Machado de Assis foi escolhido como o escritor que representaria o Brasil e definido pelo escritor e acadêmico francês como "le génie latin" (FRANCE, 1917, p. 12).

Nessa sua hora e vez, Machado de Assis já não vivia.

Referências

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1 As fontes que narram a chegada de Baptiste-Louis Garnier ao Brasil divergem. Gustave Vapereau define o ano de 1838; Senna estabelece a data de 1844, reproduzida por historiadores do livro no Brasil (VAPEREAU, 1858, p. 648; SENNA, 1910, p. 45).

2 Pouco a pouco, os conflitos entre editor e os escritores começariam a eclodir. Isso está expresso, por exemplo, nas mudanças de condições dos sucessivos contratos assinados entre Machado de Assis e Baptiste-Louis Garnier, no início dos anos 1870. Além disso, Machado de Assis conseguiu rever e modificar cláusulas do contrato em que se propõe a entregar a Garnier os manuscritos de Ressurreição, O manuscrito do licenciado Gaspar e Histórias de meia-noite até o fim do ano de 1870.

3 Machado de Assis o reverencia na famosa crônica que escreveu por ocasião da morte do livreiro-editor, republicada em Páginas recolhidas. Porém, como lembraram Lajolo e Zilberman, Adolfo Caminha, em suas Cartas literárias de 1895, mostra-se rancoroso em relação aos editores, especialmente Garnier (LAJOLO; ZILBERMAN, 2011, p. 79-80). Outro exemplo vem do manifesto dos trabalhadores gráficos, de 1867, que as autoras citam à página 93 da mesma obra: "Desta boa capital [Garnier] envia as obras ao seu grande Paris; lá é composta, revista, encadernada etc., e volta ao Rio de Janeiro; aqui é vendida pelo preço que convém dar a cada exemplar, e desta forma a mão de obra é sempre estrangeira ao passo que as nossas oficinas tipográficas definham e os tipógrafos brasileiros veem-se a braços com todas as necessidades e muitos compositores por aí andam sem achar trabalho". Sobre esse mesmo assunto, conferir Schapochnik (2008, p. 374-411).

4 A definição de "editor moderno" está em Chartier e Martin (1990, p, p. 6).

5 Segundo Hallewell, teria havido um rompimento final entre os irmãos Garnier por volta de 1864-1865 (HALLEWELL, 2005, p, p. 199). Há quatro anos, Jean-Yves Mollier tem argumentado que essa ruptura teria sido uma mera mudança de razão social, por motivações políticas, ou a imagem negativa projetada pela França no Brasil e nas Américas em geral, após a intervenção no México, em 1863 (MOLLIER, no prelo). Documentos recentemente encontrados trazem mais indícios da tese da separação comercial completa: Auguste e François-Hippolyte passaram a investir no mercado dos livros em português, sobretudo de gramáticas e dicionários, mas via Portugal. Um exemplo é o contrato assinado entre os irmãos Garnier de Paris e Arnaldo Gama, do Porto, para a elaboração de um dicionário português-francês, contrato de 13 de junho de 1863, constante dos "Fundos Garnier", do Institut Mémoire de L'Édition Contemporaine (Imec), Abbaye d'Ardennes, Saint-Germain-la-Blanche-Herbe, França.

7 O documento pertencia, à época da exposição, à Ruth Leitão de Carvalho, herdeira de Laura Costa Leitão de Carvalho, ou Laura Braga e Costa quando solteira, sobrinha-neta e afilhada de Machado de Assis, beneficiária do testamento do escritor (MAGALHÃES JÚNIOR, 1981b, p. 379).

8 Confirma-se também a interpretação que Hélio Guimarães dá ao fato de Machado de Assis ter operado um deslocamento na discussão sobre condições difíceis de produção, circulação e recepção da literatura. Cf., por exemplo, Guimarães (2012, p. 37).

9 Por várias razões, é possível comparar as relações entre dois escritores e seus editores à época, Jules Verne/Pierre-Jules Hetzel e Machado de Assis/Baptiste-Louis Garnier. Ambos escritores foram fixados aos periódicos de seus editores como contistas, em uma primeira fase de suas carreiras, aliás rigorosamente contemporâneas; em seguida, ambos os editores organizaram/publicaram coletâneas que reuniram alguns desses contos da juventude. Mas Hetzel tinha todo o interesse na internacionalização de Verne e restam alguns contratos assinados entre ambos que nos mostram ser a negociação da tradução entendida como tarefa do editor, e não do autor, embora os direitos possam ser igualmente divididos entre ambos. Embora eu tenha consultado os contratos firmados entre Hetzel e Verne na "Seção de Manuscritos" da Bibliothèque Nationale de France, site Richelieu, foi a leitura da tese de doutorado de Edmar Guirra (2016) que me chamou a atenção para a rigorosa simultaneidade, as semelhanças e diferenças entre as duplas Verne/Hetzel e Machado/Garnier. Foi nessa tese, inclusive, que li, pela primeira vez, a transcrição de três dos contratos assinados pela dupla francesa.

10 Após o final da editora Garnier no Brasil, Ferdinand Briguiet comprou seus fundos (1934), que foram, pouco mais tarde, vendidos à editora Martins de São Paulo e, também, à editora Jackson. No final da cadeia, foi Pedro Paulo Moreira, o editor-proprietário da Vila Rica Editoras Reunidas, antiga Editora Itatiaia, quem guardou os documentos de Garnier, que lhe haviam chegado pela aquisição dos fundos da Editora Martins. Os documentos de que trato, material captado junto a esse editor, podem ser visualizados e lidos na aba "dossiês" do site do projeto Circulação Transatlântica dos Impressos (on-line).

11 Ainda não havia convenções claras em torno da propriedade literária e intelectual no Brasil e, mesmo na Europa, negociações e documentos vinham sendo estabelecidos e reelaborados. Assim, para os contratos de edição, o editor muito frequentemente adquiria a propriedade plena e inteira sobre as obras, estendendo muitas vezes essa obrigação aos descendentes do escritor, como lemos em vários contratos de B. L. Garnier, inclusive nos que Machado de Assis assinou para os Contos fluminenses e Falenas (contrato assinado em 11 de maio de 1869, incluindo os dois livros). Também no que se refere à tradução, Garnier adquiria a propriedade sobre o trabalho do tradutor.

12 Desde 1856, três projetos de lei em torno da propriedade literária haviam sido propostos na Câmara dos Deputados, sendo o último deles, de 1875, saído da pena de José de Alencar. Em 1880-1881, a Revista Brasileira acolheu um longo artigo do jurista J. M. Pinto Vaz Coelho, publicado em duas partes, no qual, referindo-se ao Código Penal de 1830, onde se garantia a propriedade intelectual, Vaz Coelho propunha que, se havia essa primeira garantia, por extensão, garantia-se também o direito do autor à propriedade intelectual. Sobre o assunto, conferir: Godói (2017), Augusti (2012), Lajolo e Zilberman (2015).

13 Marisa Lajolo e Regina Zilberman já observaram que há um aprimoramento nos contratos assinados entre Machado de Garnier, ao longo dos anos. (LAJOLO; ZILBERMAN, 2011, p, p. 94-95).

14 Documentos recentemente localizados, ligados às disposições de Baptiste-Louis Garnier antes de falecer, mostram que ele adquiriu pelo menos três imóveis comerciais/residenciais em 1878.

15 A tradução foi feita por Sérgio Paulo Rouanet, coordenador da coleção que reúne a correspondência de Machado de Assis, publicada há poucos anos, em cinco volumes: "Rio de Janeiro, 10 de junho de 1899./ Senhor Garnier:/ Acabo de receber um pedido de autorização para a tradução de minhas obras em alemão. É da parte da Senhora Alexandrina Highland, que reside em São Paulo (Brasil) e deve retornar à Alemanha dentro de oito meses. Como não reservei, em nosso contrato, o direito de tradução, escrevo-lhe para solicitar o envio direto dessa autorização àquela Senhora./ No que me diz respeito, eu não exigirei nenhum outro benefício, pois considero que já é uma vantagem tornar-me conhecido numa língua estrangeira, cujo mercado é tão diferente e afastado do nosso. Penso que é uma vantagem também para o Senhor. Se partilha essa opinião, envie-me uma autorização em boa e devida forma, sem qualquer condição pecuniária. [...]/ Receba, prezado Senhor, minha saudações./ Machado de Assis."

16 A tradução foi feita por Irene Moutinho, organizadora da correspondência de Machado de Assis, recém-publicada em cinco volumes: "Paris, 8 de julho de 1899./ Senhor Machado de Assis/ Rio de Janeiro/ Tenho a honra de acusar o recebimento de sua estimada (carta de) 10 de junho pedindo-me para a Senhora Alexandra Highland de (...) minha autorização para traduzir suas obras em alemão./ O Senhor não ignora que um autor, mesmo bem traduzido, perde sempre sua originalidade numa outra língua; os admiradores de um escritor preferem lê-lo na sua língua materna. O Senhor não teria ganho algum se traduzido para o alemão./ Lamento não poder conceder gratuitamente o direito de tradução solicitado – Os alemães sabem muito bem como pagar por sua parte; a Senhora Highland deverá portanto me mandar cem francos por cada volume seu que ela se proponha a traduzir./ Aborrece-me não poder deferir o seu desejo em tal circunstância e lhe renovo, Senhor, a expressão dos meus melhores sentimentos de consideração./ F. H. Garnier."

17 Em termos de comparação, Baptiste-Louis Garnier tentou vender a sua livraria (livros, direitos de edição e clichês) por dois contos e quinhentos mil réis quando adoeceu, nove anos antes (SENNA, 1910, p, p. 54).

18 Certidão de escritura de venda da propriedade plena e perfeita da obra de Machado de Assis a François-Hipollyte Garnier (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE PÚBLICA, 1939, p, p. 185-186, grifo nosso).

19 Até o final da vida, Machado ainda cedeu aos Garnier, por instrumentos específicos, as suas Poesias completas, Várias histórias (que saíra pela Laemmert em 1896), Esaú e Jacó, Relíquias de casa velha e Memorial de Aires.

20 Como relembra Mollier, citando testemunhos e correspondências da época, Auguste era calmo, frio, austero, enquanto Hipollyte, tipo descontraído e brincalhão, fazia negócios na Bolsa (MOLLIER, 1985, p. 242).

21 Bom lembrar que Memorias póstumas de Brás Cubas recebeu tradução em espanhol na América do Sul em 1902 (publicado em folhetins por La Razón, tradução por Julio Piquet, em 1902); em 1905, seria a vez de Esau y Jacob, publicado em volume na "Biblioteca de La Nacíon", sem tradutor conhecido).

Recebido: 27 de Agosto de 2018; Aceito: 15 de Outubro de 2018

A Berthold Zilly

LÚCIA GRANJA é professora de Literatura e Cultura Brasileiras na Unesp (campus de São José do Rio Preto), livre-docente em Literatura Brasileira pela Unesp (2016), doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp (1997). Pesquisadora da obra de Machado de Assis, especializou-se no estudo das crônicas do escritor e das relações entre literatura e jornalismo em sua obra. Estuda também a história do livro e da edição no Brasil e em suas relações com a França, sobretudo a história dos livreiros e editores Garnier. É autora de Machado de Assis, escritor em formação: à roda dos jornais (Editora Mercado das Letras, 2000) e Machado de Assis – antes do livro o jornal: suporte, mídia e ficção (Editora da Unesp, 2018). Agradecimentos ao apoio da Fapesp (Projeto Temático 2011/07342-9) e CNPq (Bolsa Pq-CNPq). O presente trabalho foi também realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (Capes) PROED 0747/2018. Identificador ORCID: http://orcid.org/0000-0002-2695-5345. E-mail: lucia.granja@unesp.br

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