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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.11 no.25 São Paulo Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201811254 

ARTIGOS

CRÔNICAS DE MACHADO DE ASSIS EM TRADUÇÃO: MARCAS DE EDIÇÕES VERNÁCULAS NA TRADUÇÃO PARA O CASTELHANO

CHRONICLES OF MACHADO DE ASSIS IN TRANSLATION: THE TRACES OF VERNACULAR EDITIONS IN TRANSLATIONS INTO SPANISH

ROSARIO LÁZARO IGOA1 

1Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

Resumo

O presente trabalho pesquisa a circulação das crônicas de Machado de Assis através da tradução para o castelhano. Objetiva constatar se as operações realizadas na edição em língua vernácula se repetem na edição em tradução. Parte da hipótese de que certas estratégias editoriais e tradutivas anexam a crônica ao domínio do conto, mais traduzido do que a crônica de Machado de Assis. Primeiramente, o trabalho discute as particularidades da tradução de escritas ligadas ao universo jornalístico e às reconfigurações editoriais que experimentam esses textos na passagem do jornal para o livro, tomando como exemplo operações constatáveis em Páginas recolhidas (1899): escolha de textos independentes do contexto; introdução de títulos; corte de trechos textuais ligados ao contexto; e eliminação de data de publicação. A seguir, analisa, tanto em termos paratextuais quanto textuais, Crónicas escogidas (2008), o único volume de crônicas de Machado de Assis traduzido para o castelhano.

Palavras-Chave: Machado de Assis; crônica brasileira; estudos da tradução

Abstract

This paper looks at the circulation of Machado de Assis' chronicles through translation into Spanish to verify whether the actions taken in the vernacular edition are reproduced in the translated edition. The hypothesis is that certain editorial and translational strategies connect the chronicle to the realm of the short-story, a genre which, in the case of Machado de Assis, has been translated more than the chronicle. Firstly, this work discusses the peculiarities of the translation of printed writings related to journalism and the editorial reconfigurations they undergo in the process of moving from newspaper to book format, as seen in Páginas recolhidas (1899): choosing texts that are separate from the original context; adding titles; cutting passages from the text that are related to the context; and eliminating the date of publication. The article then analyzes Crónicas escogidas (Selected Chronicles) (2008), the only volume of Machado de Assis's chronicles translated into Spanish, on both the paratextual and micro-textual level.

Key words: Machado de Assis; Brazilian chronicle; translation studies

Introdução

As crônicas de Machado de Assis são uma das partes da extensa obra do autor menos traduzidas para outras línguas. Em castelhano, existe uma edição intitulada Crónicas escogidas, publicada em 2008 pela editora Sexto Piso na Espanha e no México com tradução de Alfredo Coello. Iniciativas isoladas podem encontrar-se, por exemplo, na imprensa uruguaia com a tradução de "El puñal de Martinha", realizada por Pablo Rocca e publicada em 26 de fevereiro de 2018. De modo ainda mais recente, a editora norte-americana New London Librarium lançou a obra Good Days!: The Bons Dias! Chronicles of Machado de Assis (1888-1889), com tradução de Ana Lessa-Schmidt, em 2018. Ao revisar o catálogo de traduções de Machado de Assis financiadas desde 2011 pelo Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil,1 constata-se que, dentre as 36 obras de Machado financiadas (trata-se do segundo autor mais traduzido para o total de línguas depois de Clarice Lispector, que conta com 38 traduções), a tradução da editora New London Librarium seria a única que se dedica às crônicas do autor, enquanto há, por exemplo, catorze traduções dos contos. Ao mesmo tempo, em termos de língua de destino do programa, seis das 36 traduções de Machado são para o castelhano (16%). Se levarmos em consideração que, das 809 obras financiadas para o total de línguas com bolsas do programa, 194 correspondem ao castelhano (um expressivo 23,98%),2 veremos que há, nas traduções de obras de Machado, uma menor concentração para essa língua do que no total do programa, mas não se trata de uma tendência significativamente diferente.3 Em consequência, poder-se-ia entender que o castelhano fosse uma língua na qual existe um fluxo significativo de traduções, que habilitasse a "raridade" do surgimento de uma tradução de crônicas. Por outro lado, observando a quantidade de volumes machadianos de contos traduzidos, percebemos que não é somente a preferência das editoras internacionais pelos romances de Machado que determinaria a escassa circulação das crônicas fora de fronteiras. O conto também é traduzido. Aqui cabe introduzir uma variável ligada a certo desconhecimento ou indiferença com relação à produção cronística machadiana, além do preconceito de que a crônica é um gênero que não "viajaria" tão bem.

O pressuposto acerca da "intraduzibilidade" dessas escritas da imprensa é difundido, e poderia ser em parte responsável pelo fato de os textos escritos por Machado de Assis para o jornal entre 1859 e 1899, em diferentes séries, ficarem restritos ao português.4 Em um ensaio sobre a crônica, Paulo Rónai reconhecia seu interesse por ter organizado uma antologia em tradução de textos deste gênero, iniciativa que teria deixado de lado porque "se a crônica possui alguma característica substancial, é precisamente sua intraduzibilidade" (RÓNAI, 2014, p. 176). As razões que Rónai citava como argumentos eram a vinculação com a "terra", com questões sentimentais, com hábitos linguísticos e com a realidade social, o que demandaria, segundo ele, tantas notas que extinguiriam a característica mais notável da crônica: a "leveza". Outra razão para evitar uma explicação única na relativa ausência de crônicas machadianas em outras línguas seria a força do movimento de tradução das crônicas de Clarice Lispector para várias línguas, como demostram Costa e Freitas (2017). Isso problematiza a generalização da "intraduzibilidade" com relação ao gênero crônica como um todo homogêneo, revelando que em certos autores esse gênero viaja, e viaja bem.

A posição de Rónai, exímio tradutor, não deixa de ser sugestiva. Ele prioriza a preservação das marcas de filiação sócio-histórica do texto. Vai na mesma direção a posição de John Gledson quanto à traduzibilidade:

Quando a gente pensa em traduzir esses textos para estrangeiros, há dificuldades, já que teria que circundar a crônica de paratextos, notas, o que se torna um pouco chato. Há algumas crônicas nas quais não se aplica essa ideia, como por exemplo, "O punhal de Martinha", que não precisa muito contexto. Mas como traduzir "Eu lhe furo", que são as palavras da protagonista? Há crônicas como a de Abílio, "O autor de si mesmo" segundo o título de Mário de Alencar, que trata de um – horroroso – fait divers no Rio Grande do Sul, a morte de um menino, que é dos textos mais traduzíveis. (LÁZARO IGOA; COSTA, 2016, p, p. 315)

Mesmo assim, é válido nos perguntarmos se essas marcas não pertencem a outros gêneros que são efetivamente traduzidos, com estratégias diversas, tais como a introdução de notas de rodapé ou a apresentação de prólogos críticos, que Gledson tem utilizado amplamente nas suas edições.5 Dessa maneira, a "intraduzibilidade" da crônica deixa de ser explicação única da escassez de traduções da crônica machadiana para outras línguas, e surgem condicionamentos como a acessibilidade do corpus, só nos últimos anos digitalizado no suporte jornal, paralela à crescente tendência de novas edições vernáculas das crônicas do autor.

Edição vernácula

A crônica escrita para o jornal, e para as revistas, logo passou a obter um lugar mais duradouro na edição em livro, embora com modificações. Machado de Assis fez um apanhado de algumas de suas crônicas no volume Páginas recolhidas (1899) e realizou ajustes nos textos para adaptá-los ao novo suporte. No prólogo, admite que a razão pela qual fez a escolha do pequeno corpus é "[...] porque o objecto não passasse inteiramente, seja porque o aspecto que lhe achei ainda agora me fale ao espirito. Tudo é pretexto para recolher folhas amigas" (ASSIS, 1899, p. VIII). Ali encontramos, com títulos e somente mês e ano de publicação, as crônicas "Vae Soli!", "Salteadores da Thessalia", "O Sermão do Diabo", "A Scena do Cemiterio", "Canção de Piratas" e "Garnier", que com o tempo passariam a ser crônicas antologizadas em outros volumes, talvez pelas mesmas razões que o próprio Machado detectasse: atemporalidade ou inovações no tratamento dos assuntos.

Na edição de Garnier de 1899, são realizadas quatro operações na edição das crônicas: a escolha de textos que funcionem com relativa independência do contexto histórico imediato; a introdução de títulos; o corte daqueles trechos textuais ligados a determinados fatos pontuais; e a eliminação da data de publicação. É Machado quem assinala, como foi citado no parágrafo anterior, a sua preferência por crônicas mais atemporais. Quanto à titulação, essa adição paratextual ajuda na introdução ao texto antologizado, separando-o da série periódica em que indistintamente estava inscrito. Assim, a titulação se torna elemento distintivo da crônica, como no caso de "O Sermão do Diabo", reconhecida pelo título e não mais pela data de publicação. Exemplo do corte textual é a crônica "Vae Soli!", em que é eliminada a segunda parte do texto e mantida somente a leveza do começo. Ou seja, fica somente a viúva que escreve para o jornal procurando um marido e o cronista associando essa carta com aquela de um capitão da guarda de Nero em um ensaio de Sêneca, extrapolando as inquietações amorosas e supostamente elevando-as.

A eliminação da data termina por desvincular a crônica de sua origem na imprensa para colocá-la na atemporalidade de um texto semelhante a um conto. A estratégia é ambígua, na medida em que são mantidos os meses e anos em que essas seis crônicas foram publicadas originalmente, razão pela qual a referência fica truncada. Devemos ter em conta que os contos publicados em Páginas recolhidas também foram publicados primeiro no jornal, mas no livro é omitida qualquer menção à data. O movimento é usual, porque a edição em livro sempre implica retirar a crônica da página heterogênea do jornal; quando ela aparece em forma de livro, como escreveu Antonio Candido, "nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava" (CANDIDO, 1992, p. 15). Tirar a data e colocar um título implica deslocar o texto para o domínio menos jornalístico e mais literário.

O público ao qual está dirigido o volume parece não ser o único fator determinante para esse deslocamento, também contribuindo para isso o avanço da pesquisa e edição da crônica no Brasil. Para sustentar isso, vale observar a antologia Crônicas escolhidas (ASSIS, 2013), publicada pela união entre as editoras Penguin e Companhia das Letras em 2013. A novidade desse volume tem a ver com o fato de ela propor uma seleção, o que a afasta da proposta abarcadora das obras completas, e de fazer isso com rigor e no âmbito de uma série de edições de Machado publicada pela mesma editora. Embora se trate de um livro em edição popular (capa brochura, dimensão reduzida de treze por vinte centímetros e preço acessível), ele traz informação sobre Machado de Assis e sobre o editor, John Gledson, além de uma extensa introdução do professor inglês (ASSIS, 2013, p. 9-38), justificando o valor das crônicas, a revalorização das últimas décadas e o lugar delas na obra machadiana. Seu olhar é direcionado para sustentar "[…] a história da relação de Machado com a crônica, ao longo de mais de quarenta anos, e mostrar como essa história interage com a história do Brasil, da imprensa brasileira, e com a vida do autor" em uma edição orientada por critérios de "[…] variedade e interesse da produção machadiana" (ASSIS, 2013, p. 11). Aliás, Gledson introduz uma "Cronologia" (ASSIS, p. 322-330) do autor e da obra, uma pertinente "História das edições das crônicas machadianas" (ASSIS, p. 313-319), uma "Tabela das séries de crônicas" (ASSIS, p. 320-321) e uma "Bibliografia" (ASSIS, p. 331-336) específica. Na disposição das crônicas, são mantidas as datas originais de publicação, não existem títulos que não sejam os que Machado propôs, inserem-se numerosas notas de rodapé, e na nota prévia a cada crônica se indica tanto o jornal em que foram publicadas quanto seu contexto histórico. Há notas elucidativas, como aquelas que ligam os textos ao suporte material do jornal, ao qual Gledson teve amplo acesso e com relação ao qual esclarece aspectos-chave, como os diálogos com notícias do dia, que ajudam a visualizar o universo do jornal e a ligação da crônica com ele.

Como podemos observar, essa recente edição demostra que a sofisticação e o rigor nas edições da crônica machadiana não estão restritos ao âmbito acadêmico, sendo encampado também por grandes editoras, como é o caso da Penguin-Companhia das Letras. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que observamos o cuidado editorial em uma edição de bolso vernácula, as estratégias vistas na composição do livro de 1899 de Garnier, que assimilam a crônica ao domínio da ficção breve sem ter em conta as particularidades desse gênero como intersecção entre o fatual e o ficcional, se repetem na única tradução das crônicas de Machado de Assis para o castelhano, na edição de Sexto Piso, como veremos a seguir.

Tradução

A edição de Crónicas escogidas (ASSIS, 2008b) surge mais como uma exceção no panorama das traduções da obra de Machado de Assis do que como um vetor que consolide uma mudança nesses fluxos tradutivos. Trata-se de um livro de uma editora independente, e nova naquele momento, que é publicado simultaneamente no México e na Espanha. Vale destacar que a editora possui hoje só quatro obras de autores brasileiros: Crónicas escogidas e Memorias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; Labranza arcaica, de Raduan Nassar; e Todos los perros son azules, de Rodrigo de Souza Leão.

Chama a atenção a ausência no livro de paratextos que ajudem o leitor a situar o autor das crônicas, pouco conhecido nesses dois espaços editoriais, como estabelece John Gledson quando sugere: "the unpleasant fact that, for a writer of his stature, Machado remains relatively unknown outside Brazil" (GLEDSON, 2013, p. 6). O livro não possui textos na contracapa nem prólogo, e na orelha leem-se somente dados biográficos do autor. Na segunda orelha há informação da produção cronística machadiana e uma referência à importância que Harold Bloom outorgou à sua obra em geral: "considerado por Harold Bloom uno de los genios de la humanidade". Escreve-se que o livro contém "historias", e não crônicas, gesto significativo, porque desloca os textos para um território longe da hibridez da crônica. Mesmo assim, estabelece: "Lo único que el lector necesita es un poco de credulidad, pues el fundamento de la crónica es la realidad y ésta, como bien lo afirma nuestro autor, 'es más difícil de creer que la invención y la fantasía'" (ASSIS, 2008b).

No texto em si, advertimos que a antologia da editora Sexto Piso reproduz a seleção de Crônicas escolhidas, editada por Fernando Paixão (ASSIS, 1994),6 e publicada pela editora da Folha em 1994, sem que isso seja indicado em nenhum outro local além da ficha bibliográfica do volume, com uma nota que não afasta a ambiguidade: "Título original: Crônicas escolhidas" (ASSIS, 2008b, p. 6). Os textos estão organizados de maneira cronológica e precedidos por um título, mas não é estabelecido o jornal em que apareceram pela primeira vez nem a edição utilizada para a fixação do texto. O conjunto de decisões editoriais tem como consequência a dificuldade em estabelecer qual seria o leitor que se procura com esta tradução: haveria na Espanha e no México um conhecimento tão amplo de Machado de Assis e de suas crônicas que permitisse prescindir de qualquer menção à novidade que constitui o livro em castelhano? Levando em conta a ausência de traduções de crônica anteriores, a resposta seria negativa. Para um leitor menos erudito, e mais popular, o conjunto de textos parece mais um apanhado de contos, ou de prosas breves, com uma relação obscura com o momento histórico em que foram produzidos.

Notas sobre a tradução

A reprodução de um corpus já existente, paralela à estratégia de introdução de títulos e à omissão de datas e do veículo midiático original, guarda na antologia Crónicas escogidas certa correlação com as decisões textuais de tradução. Comentaremos agora alguns trechos da tradução realizada por Alfredo Coello.

ORIGINAL COELLO
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post facto, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. (ASSIS, 2008a, p. 107) Yo pertenezco a una familia de profetas après coup post factum, lo que significa "después del gato muerto" o, entonces, como mejor se diga en holandés. (ASSIS, 2008b, p. 61)

Há três elementos a serem comentados nesse fragmento: a reprodução do pronome pessoal em castelhano no começo da oração, cuja necessidade é discutível; a ausência de vírgulas entre as duas sentenças em língua estrangeira "après coup" e "post facto", que estavam separadas na edição da Folha que toma como base; e mais um elemento que parece relevante destacar, a saber, a paráfrase que o tradutor realiza através da adição de "lo que significa" e do advérbio temporal "entonces", entre vírgulas. Tais acréscimos à sintaxe machadiana introduzem uma sequência causal e lógica alheia ao texto e também quebram o ritmo das orações concisas enumerativas do original.

Eis mais um exemplo da tradução:

ORIGINAL COELLO
Por isso digo, e juro se necessário for, que [...]. (ASSIS, 2008a, p. 107) Por eso digo y juro, si es necesario, que […]. (ASSIS, 2008b, p. 61)

Neste caso, a tradução não somente associa o "decir" ao "jurar", assemelhando-os no mesmo nível, senão que omite a inversão sintática adjetivo + verbo, "se necessário for". Na mesma linha dessa tendência à paráfrase, está o exemplo a seguir:

ORIGINAL COELLO
Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar. (ASSIS, 2008a, p. 107) Concederle la libertad era lo de menos; lo que sí me quedó claro es que había perdido entre mil y mil quinientos y, entonces, ofrecí una cena. (ASSIS, 2008b, p. 61)

Aqui o tradutor amplia de maneira explicativa a referência ao "perdido por perdido" de Machado, introduzindo "lo que sí me quedó claro" como tradução de "entendi", que é bastante tênue como afirmação de certeza. Ao mesmo tempo, observamos novamente a inserção do conector "entonces", que introduz uma linearidade não existente no texto machadiano. No geral, isso não contribui com a ironia radical de oferecer um jantar com o motivo da libertação de um escravo.

Haveria outros exemplos dessa tendência explicativa e normalizadora da tradução, que termina por oferecer textos menos condensados, menos irônicos talvez. Essas estratégias textuais, somadas a algumas operações que vemos repetirem-se na edição vernácula e na edição em castelhano (omissão de datas, introdução de títulos, apagamento do veículo de imprensa), terminariam anexando as crônicas ao domínio da ficção breve, o conto, mais traduzido do que a crônica de Machado de Assis. Esse fenômeno não pode ser explicado somente pelo fato de o livro demandar adaptações dos textos publicados originalmente no jornal, pois existe uma tendência na edição vernácula da crônica machadiana que tem demostrado progressiva sofisticação e cuidado nessa tarefa.

Uma antologia como a de Penguin-Companhia das Letras, que possui um rico aparato paratextual e que ressalta a vinculação midiática original desses textos, confirma que o rigor no retorno à fonte não implica menos independência e circulação da crônica apresentada. Com relação à análise de Crónicas escogidas, da editora Sexto Piso, é possível observar a repetição exata de uma antologia vernácula que não reflete o que há de mais avançado nos estudos e na edição da crônica no Brasil. Assim, o que termina por ser oferecido em tradução é um volume que procura ser lido como ficção breve, sem realçar as particularidades de um gênero que surge, precisamente, na intersecção do factual e do ficcional. Caberia, como possibilidade de pesquisa futura, analisar as estratégias tradutivas e editoriais com relação à crônica de Clarice Lispector e contrastá-las com as de Machado evidenciadas neste trabalho, para assim também gerar indicadores mais específicos da relação tradução-crônica em autores de momentos e estéticas bastante diferentes.

Referências

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1 Agradeço a informação sistematizada das bolsas, concedida por Fabio Lima, da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil. Mais informação sobre o programa e os resultados, ano a ano, pode ser encontrada em BIBLIOTECA NACIONAL (on-line).

2 Para uma discussão da Espanha como destino da literatura brasileira, ver Guedes (2012).

3 Uma análise do programa, com relação ao total de línguas, pode ser consultada em Feres e Brisolara (2016).

4 Discuto a ligação entre as estratégias editoriais com relação à crônica e à tradução para o castelhano na minha tese de doutorado, que oferece também uma antologia de vários cronistas brasileiros traduzidos para o castelhano, entre eles Machado de Assis (LÁZARO IGOA, 2016).

Bons dias! (ASSIS, 1990; ASSIS, 2008a), A semana (ASSIS, 1996) e, com Lúcia Granja, Notas semanais (ASSIS, 2008c), além da antologia intitulada Crônicas escolhidas (ASSIS, 2013). Por outro lado, publicou em Portugal a antologia de vários cronistas brasileiros, intitulada Conversas de burros, banhos de mar e outras crônicas exemplares (GLEDSON, 2006), que não possui notas de rodapé.

6 Poeta, editor e ensaísta português que atua no Brasil em vários âmbitos da cultura (PAIXÃO, on-line).

Recebido: 02 de Agosto de 2018; Aceito: 13 de Outubro de 2018

ROSARIO LÁZARO IGOA é tradutora e jornalista. Pós-doutoranda na Pós-Graduação em Estudos da Tradução (UFSC, Brasil), onde fez mestrado e doutorado (2011; 2016). Defendeu a tese Crónica brasileña del Siglo XIX y principios del Siglo XX en castellano: una antología en traducción comentada. Formada em Comunicação (Udelar, 2006). Pesquisa em crônica ibero-americana, tradução literária e jornalismo. Colaboradora do jornal uruguaio la diaria e da revista Lento. Traduziu para o espanhol romances de Raimundo Carrero, Beatriz Bracher e Rodrigo Lacerda, além de contos de Dalton Trevisan e outros autores. Co-organizou e traduziu uma antologia de crônicas de Mário de Andrade intitulada Crónicas de melancolía eufórica (2016). Como escritora, tem publicado dois livros de prosa e contos em várias antologias. E-mail: rosilazaro@gmail.com

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