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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.11 no.25 São Paulo Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-68212018112511 

RESENHAS

RESENHA DE HISTOIRES DIVERSES, DE SAULO NEIVA

REVIEW OF HISTOIRES DIVERSES, BY SAULO NEIVA

LUANA FERREIRA DE FREITAS1 

CYNTHIA BEATRICE COSTA2 

1Universidade Federal do Ceará Fortaleza, Ceará, Brasil

2Universidade Federal de Uberlândia Uberlândia, Minas Gerais, Brasil

ASSIS, Machado de. Histoires diverses. Organização e tradução de Saulo Neiva. Paris: Classiques Garnier, 2015. 342 p.

Lançada em 2015 e reeditada em 2017, a antologia Histoires diverses faz parte da célebre coleção "Classiques jaunes" (on-line), que desde 1896 "publica obras das grandes literaturas do mundo. Essas edições caracterizam-se por um texto rigoroso, aparato crítico dos maiores especialistas [...]".1 A coleção conta com oitenta títulos subdivididos em oito séries: "Antiquités", com um título; "Documents", com um; "Économies", com dois; "Essais", com seis; "Lettres médiévales", com um; "Littératures francophones", com 56; "Philosophies", com três; e "Textes du monde", com dez, da qual Histoires diverses faz parte.

Dos dez autores da série "Textes du monde", uma é mulher (Mary Shelley), três são do continente americano (Manuel Ugarte, Machado de Assis e Edgar Allan Poe), um é russo (Nikolaï Leskov), um é português (Francisco Luís Gomes), um é italiano (Nicolau Maquiavel), dois são ingleses (Shelley, já citada, e Laurence Sterne) e dois são espanhóis (Miguel de Cervantes e Ramón del Valle-Inclán). A série ganharia com mais diversidade, uma vez que, de acordo com a seleção, a literatura mundial parece ter sido produzida, em sua maioria, por homens brancos e europeus. Infelizmente, esse levantamento pontual indica mais uma regra que uma exceção.2

Com organização e tradução de Saulo Neiva, recifense e hoje professor da Universidade Clermont-Auvergne, Histoires diverses reúne os dezesseis contos da compilação machadiana Várias histórias (1896) e apresenta um importante aparato paratextual composto por uma introdução com 45 páginas e 72 notas de rodapé, uma nota sobre a edição com cinco páginas e dezoito notas de rodapé e uma cronologia da vida do autor assinadas por Neiva. Ao final do volume, há um anexo em que consta o "prefácio" do famoso tradutor de Machado, Adrien Delpech, e um índice remissivo. A edição é toda anotada pelo tradutor, chamando a atenção para a natureza crítica da empreitada.

As 78 notas da tradução chamam a atenção pela abrangência das informações e são um prazer à parte. As notas variam de referência a lugares na cidade do Rio de Janeiro, no estado ou no país:

Place de la Carioca: Largo da Carioca, place située dans le centre-ville de Rio de Janeiro. (ASSIS, 2017, p. 79)

Niterói: Ville située à une vingtaine de kilomètres de Rio de Janeiro. (ASSIS, 2017, p. 85)

Passando por aspectos históricos:

Pedro I: L'empereur Dom Pedro I (1798-1834), a d'abord été prince-régent du Portugal au Brésil (1821), déclarant en 1822 l'indépendance de cette colonie. Il est alors couronné comme premier empereur du Brésil, qu'il gouverne jusqu'en 1831, quand il abdique en faveur de son fils, le futur empereur Dom Pedro II (1825-1891). (ASSIS, 2017, p, p. 111)

Ordonnances du Royaume: Ordenações do Reino: recueil de lois portugaises qui, pour les premières, datent du XV siècle. (ASSIS, 2017, p. 123)

Aspectos culturais:

Rue de l'Ouvidor: Principale rue commerçante de la ville au XIX siècle, étant un haut lieu de sociabilité et de flânerie pour la bourgeoisie, les écrivains et les journalistes cariocas. Véritable prolongement des salons, on y trouvait à la fois les boutiques les plus prestigieuses, les rédactions des principaux journaux et, par exemple, la Librairie Garnier. (ASSIS, 2017, p, p. 155)

Aspectos intertextuais:

Puritains: I Puritani (1835), opéra de Vicenzo Bellini, avec un livret de Carlo Pepoli. (ASSIS, 2017, p. 125)

"Qui est celle qui monte du désert, appuyée sur son bien-aimé?": Versets chantés par le chœur dans l'épilogue du Cantique des Cantiques. (ASSIS, 2017, p, p. 252)

Até a referência ao próprio paratexto:

Physiologie: Au sujet de l'emploi de ce terme, voir l'Introduction. (ASSIS, 2017, p. 132)

A opção por traduzir Várias histórias, que conta com clássicos da contística machadiana, como "A cartomante", "A causa secreta", "Um apólogo" e "O enfermeiro", primeiro conto traduzido para o francês (ASSIS, 1909) e entre os três primeiros traduzidos para o inglês (ASSIS, 1921), seria uma aposta interessante se fosse a introdução do autor no sistema literário francês. Contudo, Adrien Delpech, já em 1910, traduzira Várias histórias como Quelques contes (ASSIS, 1910),3 pela Garnier Frères. O trabalho de Delpech apareceu novamente em uma edição francesa mais recente (ASSIS, 1997) das Éditions Ombres, de Toulouse. O título da compilação foi modificado de Quelques contes para La cartomancienne – Histoires diverses; portanto, Neiva retoma parte deste título na sua empreitada.

Em realidade, em Várias histórias estão os contos machadianos que mais apareceram em francês até o momento. "O enfermeiro", como já mencionamos, teve traduções de Orban (ASSIS, 1909) e Delpech (ASSIS, 1910); além disso, apareceu novamente como "L'infirmier" em 1911, com tradução de Philéas Lebesgue, na revista Les Mille Nouvelles Nouvelles (ASSIS, 1911). "Um apólogo" foi traduzido como "Un apologue" por Luiz Annibal Falcão para a Anthologie de quelques conteurs brésiliens (ASSIS, 1939) e por Didier Lamaison para a revista Caravanes em 1995 (ASSIS, 1995). "Des bras", tradução de "Uns braços" de Maryvonne Lapouge-Pettorelli, está na coletânea Histoires d'amour d'Amérique Latine, da editora Métailié, de 1992 (ASSIS, 1992).4 "Conto de escola" foi publicado em 2004 pela Chandeigne em edição bilíngue e ilustrada, Le conte de l'école, com tradução de Michelle Giudicelli (ASSIS, 2004).

Dos 218 contos atribuídos a Machado de Assis (CAVALCANTE, 2003), apenas outros dezoito, além dos dezesseis do volume Várias histórias, parecem ter sido publicados em francês, o que equivale a meros 15,5% de toda a produção contística do autor brasileiro. Alguns desses outros contos, como "Missa do galo", "O espelho" e "O alienista", também ganharam mais de uma tradução ao longo do tempo.5 Assim, ao optar pela repetição e não por introduzir textos inéditos ao sistema literário francófono, Neiva reforça a tendência à retradução.

De acordo com Neiva, em sua "Note sur cette édition" ["Nota sobre essa edição"], a tradução de Delpech "vai nos servir de ponto de partida para a realização desta tradução"6 (ASSIS, 2017, p, p. 54). O texto afirma ainda que, não obstante o papel de Delpech na divulgação da obra de Machado7 na França, "a leitura que ele faz de sua [Machado] obra pode, às vezes, ser, no mínimo, polêmica"8(ASSIS, 2017, p, p. 55). Apesar de Neiva citar a opinião negativa de Gilberto Freyre sobre um livro de Delpech9 (ASSIS, 2017, p, p. 55-56) e outros textos de Delpech em que este trata de Machado, não há explicitada nenhuma razão para a retradução em si.

Quanto ao tratamento linguístico, em comparação com Delpech, Neiva ora se aproxima do texto machadiano, como no caso do título "Conte d'écolier" ("Conto do estudante"), que ele passou para "Conte d'école" ("Conto de escola", como em Machado), ora se afasta. Nota-se essa segunda tendência, por exemplo, no trecho "Il lui jura qu'il aimait beaucoup et que ses craintes n'étaient pas fondées" (ASSIS, 2017, p. 73), de "La cartomancienne" ("A cartomante"). Delpech o havia traduzido como "Il jura qu'il aimait beaucoup et que ses craintes étaient puériles" (ASSIS, 1910, p. 4), mais próximo de "Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança" (ASSIS, 2008, p. 351), com "puériles" ("pueris") para "de criança" – Neiva, por sua vez, optou por "pas fondées", ou seja, "infundados". Há casos, também, em que Neiva se utiliza de estratégias semelhantes às de Delpech, como em "Dona Paula". A pergunta "Cantora e ministério, coisas frágeis, não o eram menos que a ventura de ser moça, e onde iam essas três eternidades?" foi separada em duas frases por ambos: "La cantatrice et le ministre, choses fragiles, ne l'étaient pas moins que le délice d'être jeune. Où étaient passées ces trois éternités?", por Delpech (ASSIS, 1910, p. 276), e "Une cantatrice et un cabinet ministériel, choses fragiles, ne l'étaient-elles pas moins que la fortune d'être jeune? Et où étaient passées ces trois éternités?", por Neiva (ASSIS, 2017, p. 227).

A ironia e a ousadia da prosa machadiana, assim como o seu caráter conciso, que invariavelmente gera problemas para tradutores, por vezes se perdem. Por exemplo, em "Uns braços" – traduzido por Delpech como "Les bras" ("Os braços") e por Neiva como "Ses bras" ("Seus braços") –, a passagem "Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era propriamente menino" (ASSIS, 2008, p. 377) foi traduzida como "Je ne dirai pas qu'il demeura en paix avec les enfants, car Ignace n'en était plus un, à tout prendre" por Delpech (ASSIS, 1910, p. 46) e como "Je ne dirai pas qu'il resta en paix avec les enfants, car Inacio n'en était plus un, à proprement parler" (ASSIS, 2017, p. 98). Não apenas os tradutores aumentaram um pouco o texto (Delpech, em dez caracteres; Neiva, em treze), como nenhum manteve o muito machadiano "nosso Inácio".

São minúcias, pois as duas traduções se beneficiam do parentesco neolatino das línguas portuguesa e francesa. Não são operadas modificações gritantes com relação ao texto de partida. São os paratextos, entretanto, que tornam relevante a nova edição de Neiva, que enriquece o conhecimento a respeito de Machado de Assis para o leitor francófono, oferecendo também uma ótima bibliografia sobre o autor ao final do livro.

Referências

ASSIS, Machado de. Machado de Assis et son œuvre littéraire. Trad. Victor Orban. Paris: Louis Michaud éditeur, 1909. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Quelques contes. Trad. Adrien Delpech. Paris: Garnier Frères, 1910. Disponível em: <http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k853799b/f13.image>. Acesso em: 19 jun. 2018. [ Links ]

ASSIS, Machado de. L'infirmier. Trad. Philéas Lebesgue e Manoel Gahisto. Les mille nouvelles nouvelles, Paris, n. 14, La Renaissance du livre, mars 1911. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Brazilian Tales. Trad. e org. Isaac Goldberg. Boston: The Four Seas Company, 1921. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Un apologue. Trad. Luiz Annibal Falcão. In: ACADÉMIE BRÉSILIENNE DE LETTRES. Anthologie de quelques conteurs brésiliens. Paris: Le Sagittaire, 1939. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Des bras. Trad. Maryvonne Lapouge-Pettorelli. In: COUFFON, Claude (Org.). Histoires d'amour d'Amérique latine. Paris: Métailié, 1992. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Un apologue. Trad. Didier Lamaison. Caravanes, n. 5, 1995. [ Links ]

ASSIS, Machado de. La cartomancienne – Histoires diverses. Trad. Adrien Delpech. Toulouse: Éditions Ombres, 1997. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Le conte de l'école. Trad. Michelle Giudicelli. Ilustr. Nelson Cruz. Paris: Chandeigne, 2004. [ Links ]

ASSIS, Machado de. 50 contos de Machado de Assis. Org. John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Joaquim Maria Machado de Assis: Histoires diverses. Ed. e trad. Saulo Neiva. Paris: Classiques Garnier, 2017. [ Links ]

CAVALCANTE, Djalma (Org.). Machado de Assis: contos completos. São Paulo; Juiz de Fora: Imprensa Oficial; UFJF, 2003. [ Links ]

Classiques jaunes. Disponível em: <https://classiques-garnier.com/classiques-jaunes-1.html>. Acesso em: 11 jun. 2018. [ Links ]

LIBRAIRIE COMPAGNIE. Dictionnaire des auteurs: Assis, Machado de. Paris: Librairie Compagnie. Disponível em: <http://www.librairie-compagnie.fr/ catalogues/3/82/4154>. Acesso em: 19 jun. 2018. [ Links ]

LITTÉRATURES du monde. Disponível em: <https://classiques-garnier.com/ litteratures-du-monde.html?category_id=74&page=1>. Acesso em: 19 jun. 2018. [ Links ]

1 Em francês: "publie les œuvres des grandes littératures du monde. Ces éditions se caractérisent par un établissement du texte rigoureux, des appareils critiques assurés par les meilleurs spécialistes".

2 Para uma comparação, ver, por exemplo, coleção "Littératures du monde" (on-line).

3 Disponível também em: <https://fr.wikisource.org/wiki/Quelques_Contes_(Machado_de_Assis)>. Acesso em: 11 jun. 2018.

4 Dados compilados pela Librairie Compagnie, de Paris (LIBRAIRIE COMPAGNIE, on-line).

5 Lista disponível em Librairie Compagnie (on-line).

6 Em francês: "[...] qui nous a servi de point de départ pour la réalisation de la présente traduction".

7 Além de Várias histórias, Delpech traduziu Memórias póstumas de Brás Cubas.

8 "[L]a lecture qu'il fait de son œuvre peut parfois être, pour le moins, polémique.

9Roman brésilien, mœurs exotiques. Paris: V. Havard, 1904.

Recebido: 29 de Junho de 2018; Aceito: 24 de Setembro de 2018

LUANA FERREIRA DE FREITAS é doutora em teoria literária pela Universidade Federal de Santa Catarina, com pós-doutorado na Vrije Universiteit Brussel, em 2017-2018, e na Universidade Federal de Santa Catarina, em 2010. É atualmente professora na Universidade Federal do Ceará, onde atua na área de literatura inglesa e de estudos literários da tradução, em especial com os temas autoria e estilo. Desenvolve atualmente as pesquisas: "Internacionalização da literatura brasileira" e "Tradução Comentada e Anotada". É uma das fundadoras e coordenadora da Pós-Graduação em Estudos da Tradução, UFC (POET), coordenadora do GT de Estudos da Tradução da ANPOLL, gestão 2018-2020, membro da Centrum voor Literatuur in vertaling (CLIV) desde 2017. E-mail: luanafreitas.luana@gmail.com

CYNTHIA BEATRICE COSTA é mestre em literatura e crítica literária pela PUC-SP e doutora em estudos da tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina, com tese sobre a recepção de Machado de Assis no sistema literário anglófono. Atua como professora do curso de Tradução da Universidade Federal de Uberlândia e é membro do Grupo de Estudos em Tradução e Expertise (GESTE). E-mail: cynthia_costa@uol.com.br

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