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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.11 no.25 São Paulo Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-68212018112512 

RESENHAS

RESENHA DE A VOLUPTUOSIDADE DO NADA: NIILISMO E GALHOFA EM MACHADO DE ASSIS, DE VITOR CEI

REVIEW OF A VOLUPTUOSIDADE DO NADA: NIILISMO E GALHOFA EM MACHADO DE ASSIS, BY VITOR CEI

REGINA SANCHES XAVIER1 

1Universidade Federal de Minas Gerais Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

CEI, Vitor. A voluptuosidade do nada: niilismo e galhofa em Machado de Assis. São Paulo: Annablume, 2016. 365 p.

Historicamente, a obra de Machado de Assis tem sido classificada como niilista ou pessimista por parcela representativa da crítica literária, rótulo reproduzido em artigos, livros, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Cabe observar que os trabalhos que se propõem a caracterizar o autor ou sua obra com os epítetos "niilista" ou "pessimista" nem sempre se apoiam numa análise crítico-filosófica que fundamente essa adjetivação. Focadas na análise do texto literário ou na biografia do escritor, as pesquisas seguidamente deixam de lado maiores considerações sobre aquilo que está na sua base: os próprios conceitos filosóficos de niilismo e pessimismo.

O livro A voluptuosidade do nada: niilismo e galhofa em Machado de Assis, de Vitor Cei, professor da Universidade Federal de Rondônia, se justifica como alternativa interpretativa ao consenso em torno do suposto niilismo de Machado. Contra a corrente dessa tendência, Cei nos convida a pensar o relevante conceito de niilismo machadiano, apresentando-o como um motivo condutor – em perspectiva a ser galhofada – dos romances Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Por meio de sua investigação, a princípio teórico-crítica, mas de forte vocação histórico-literária, o autor contribui com a fortuna crítica machadiana e oferece ao leitor brasileiro acesso a um universo cultural pouco aprofundado pelos estudos literários.

O eixo norteador do livro de Vitor Cei pode ser sintetizado pelo subtítulo escolhido. Observa-se que ele reconfigura o conceito de niilismo e suas definições e discute a sua constituição como signo literário, com a pena da galhofa. Igualmente, nos traz um diálogo com as principais influências e leituras filosóficas de Machado de Assis.

Vitor Cei, na esteira desse esforço crítico pioneiro, parece seguir a lição de Kant, que sugere colocar a crítica "no lugar da teoria" (KANT, 2010, p. 14), mesmo que (ou talvez exatamente porque) a crítica permaneça como algo indeterminado a priori, e tendo de ser "construída" a cada vez pelo sujeito da experiência. Recusando-se a fornecer qualquer teoria prévia sobre os sentidos do niilismo na prosa de Machado de Assis, o autor incorpora novas noções conceituais a partir da análise da ficção machadiana, tais como "voluptuosidade do nada" (Brás Cubas), "arquitetura de ruínas" (Rubião), "prazer das dores velhas" (Bento Santiago) e "ascetismo gamenho" (Conselheiro Aires).

Assim como John Gledson (1984), Vitor Cei apresenta uma "reinterpretação divergente" (dissenting interpretation) de um aspecto da obra de Machado de Assis, contrariando uma opinião geralmente aceita pela fortuna crítica. Enquanto o crítico inglês se voltou contra as escolas de crítica modernista, reivindicando que Dom Casmurro é uma alegoria política, representando a fase de transição na política brasileira no fim do Segundo Reinado, o crítico brasileiro defende que o niilismo é um dos motivos condutores dos romances machadianos, de Memórias póstumas de Brás Cubas a Memorial de Aires, aparecendo como perspectiva a ser galhofada.

O consenso contra o qual o livro visa dissentir está bem documentado no primeiro capítulo, em seção dedicada a revisitar os olhares da crítica machadiana sobre o problema do niilismo, de Sílvio Romero a Ravel Giordano Paz, passando por Alcides Maya, Augusto Meyer, Lúcia Miguel Pereira, Octávio Brandão, Alfredo Bosi, Benedito Nunes, Gustavo Bernardo, José Raimundo Maia Neto, Katia Muricy, Patrick Pessoa, Roberto Schwarz, entre outros. Os principais críticos machadianos estão presentes, resumidos ou discutidos. Podemos dizer que existe uma política na intervenção crítica de Cei: antes de analisar o texto, ele faz uma crítica das leituras que já foram feitas sobre o niilismo na obra de Machado.

Dentre os méritos de A voluptuosidade do nada, vale destacar, em primeiro lugar, a tentativa (a meu ver bem-sucedida) de procurar cobrir uma lacuna na fortuna crítica machadiana sobre o tema do niilismo. Resultado de anos de pesquisa atenta a um aspecto obliterado ao longo de décadas de recepção crítica, o livro aborda a presença do niilismo em momentos distintos da produção machadiana e da própria história do país. Desse modo, mostra que a realidade brasileira é a principal agente da transformação do niilismo e que é necessário colocar o niilismo em face do percurso sócio-histórico machadiano, ainda que Cei não tenha dado conta da empreitada.

Em segundo lugar, trata-se de uma abordagem do "niilismo europeu" (NIETZSCHE, 2005) capaz de fornecer uma nova chave interpretativa para o pensamento de Nietzsche: ainda que a posição e o valor do niilismo na obra do filósofo alemão já tenham sido largamente debatidos e entendidos em diferentes chaves de resposta, o que ressalta aos olhos é o jogo crítico impulsionado pela leitura literária e filosófica de Cei sobre o tema. Nesse sentido, o livro é ímpar quanto a seu conteúdo e representa uma grande contribuição para os estudos da literatura e da filosofia

Apoiando-se em leituras de Blaise Pascal, Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Fiódor Dostoiévski e outros autores, Cei busca demonstrar o quanto, na realidade, a ficção machadiana se distancia das concepções tradicionais de pessimismo e niilismo, na medida em que as aborda com a pena da galhofa. Ainda que recorra a citações e interpretações do cânone ocidental, Cei segue a lição de Roberto Schwarz. Em vez de ler a obra de Machado de Assis pelo código cultural da filosofia europeia, o autor de A voluptuosidade do nada relê a filosofia pela ótica da obra de Machado de Assis, repensando a interpretação canônica do autor e ressignificando o conceito de niilismo, revelando a distância entre os conceitos europeus e a experiência histórica do Brasil. Nesse sentido, o livro tem a força de não desconhecer a discrepância e, também, de não considerar que ela anula o estudo da tradição filosófica.

Como toda reflexão de tal porte, a de Cei está sujeita a falhas e impasses. A interpretação de Machado como um reestruturador da questão do niilismo, uma vez que ele o submete ao crivo da galhofa, é de fato um achado original, mas me parece que, ao procurar fundamentar filosoficamente a questão, o niilismo se sobrepõe à galhofa. Os paralelismos das ideias machadianas e dos fundadores do niilismo por vezes dão a ideia de

que, ao se procurar uma teoria machadiana do niilismo, oblitera-se o fato de que o niilismo é parte da ficção machadiana. O paralelismo – se levado a cabo – pode incorrer na preservação do núcleo conceitual do niilismo em prejuízo de sua figuração na obra machadiana, isto é, em prejuízo da galhofa.

A voluptuosidade do nada não apenas se soma à alentada fortuna crítica sobre a obra do escritor brasileiro, mas a ela agrega pontos de vista inovadores, com atenção às particularidades da prosa de Machado de Assis, conhecimento rigoroso de sua recepção, abertura para o amplo debate de ideias e um nem tão sutil apreço pela polêmica.

Com Cei, podemos concluir que Machado de Assis consegue ser um dos mais filosóficos dos escritores brasileiros, tendo de fato conseguido conciliar forma artística e conteúdo filosófico de um modo indiscutivelmente original e autêntico, ultrapassando o terreno puramente estético e literário em direção a uma problemática ético-política ainda atual.

Nesse cenário de múltiplas possibilidades interpretativas, o livro A voluptuosidade do nada: niilismo e galhofa em Machado de Assis não deixa de contribuir com uma nova interpretação de inegável valor para os estudos machadianos. Recomenda-se, assim, a presente obra, como estudo obrigatório, em sua inteireza, para todos aqueles que se interessarem pela instigante questão do niilismo em geral e pela obra de Machado de Assis em particular.

Referências

CEI, Vitor. A voluptuosidade do nada: niilismo e galhofa em Machado de Assis. São Paulo: Annablume, 2016. [ Links ]

GLEDSON, John. The Deceptive Realism of Machado de Assis: a Dissenting Interpretation of Dom Casmurro. Liverpool: Francis Cairns, 1984. [ Links ]

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Trad. Valério Rohden e Antonio Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. [ Links ]

NIETZSCHE, Friedrich. O niilismo europeu: Lenzer Heide. Trad. Oswaldo Giacoia Jr. Clássicos da Filosofia: Cadernos de Tradução, Campinas, n. 3, p. 55-61, 2005. [ Links ]

Recebido: 05 de Agosto de 2018; Aceito: 28 de Setembro de 2018

REGINA SANCHES XAVIER é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMG, na linha de pesquisa em Estética e Filosofia da Arte. Também concluiu o mestrado e a graduação em Filosofia na UFMG. Atualmente atua como Professora na Licenciatura em Filosofia EAD da Ufes. E-mail: reginasanches8@hotmail.com

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