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Revista Bioética

versão impressa ISSN 1983-8042

Rev. Bioét. vol.21 no.3 Brasília set./dez. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-80422013000300003 

ARTIGOS DE ATUALIZAÇÃO

 

Moderno movimento hospice: kalotanásia e o revivalismo estético da boa morte

 

El moderno movimiento hospice: kalotanasia y el revivalismo estético del buen morir

 

Modern hospice movement: kalothanasia and aesthetic revivalism of good death

 

 

Ciro Augusto Floriani

Doutor ciroafloriani@gmail.com – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz, Universidade Federal Fluminense (UFRJ/Uerj/Fiocruz/UFF), Rio de Janeiro/RJ, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo analisa o conceito de boa morte, que fundamenta o moderno movimento hospice. A partir da descrição de seus elementos constitutivos, emerge uma categoria distinta da boa morte historicamente conhecida, a eutanásia, com duas características essenciais: uma peculiar disposição de enfrentamento da doença, que dá sentido à morte, e um processo de morrer ritualizado e socialmente compartilhado. Esse modelo de boa morte, conhecido como kalotanásia, organiza um conjunto de ações que busca reviver um processo de morrer e uma morte mais suave, tendo como desafio fazê-lo em um cenário médico identificado com o uso continuado e persistente de alta tecnologia.

Palavras-chave: Atitude frente à morte. Bioética. Cuidados paliativos. Cuidados paliativos na terminalidade da vida. Assistência terminal. Tanatologia.


RESUMEN

Este artículo analiza el concepto del buen morir que fundamenta el moderno movimiento hospice. A partir de la descripción de sus elementos constitutivos, emerge una categoría distinta del buen morir históricamente conocida, la eutanasia, con dos características esenciales: una peculiar disposición de enfrentamiento de la enfermedad, que da sentido a la muerte, y un proceso de morir ritualizado y socialmente compartido. Tal modelo del buen morir, conocido como kalotanasia, organiza un conjunto de acciones que busca revivir un proceso de morir y una muerte más suave, teniendo como desafío hacerlo en un panorama médico identificado con el uso continuo y persistente de alta tecnología.

Palabras-clave: Actitud frente a la muerte. Bioética. Cuidados paliativos. Cuidados paliativos al final de la vida Cuidado terminal. Tanatología.


ABSTRACT

This article analyzes the concept of good death, grounding the philosophy of the modern hospice movement. From its essencial features emerged a category of good death distinct from the historically known one, the euthanasia, with two essential characteristics: a peculiar arrangement to cope with illness making death meaningful and a process of dying prepared for and shared socially. That model of good death, known as kalothanasia, concerns a set of actions which seek to revive a smoother process of dying , taking the challenge of doing it in a medical scenario that identifies itself with the continued and persistent use of high technology.

Key words: Attitude to death. Bioethics. Palliative care. Hospice care. Terminal care. Thanatology.


 

 

O moderno movimento hospice constitui amplo programa de cuidados a pacientes com doenças avançadas e em fase terminal, albergando duas modalidades assistenciais: cuidados paliativos, comumente organizado em hospitais gerais, quer sob a forma de interconsulta ou com unidades próprias; e cuidado hospice, oferecido em locais geograficamente distantes de hospitais, chamados hospice, organizados para acolher pacientes que estão morrendo, ambos com extensão para assistência no domicílio 1. Centrado na pessoa, diferentemente do modelo biomédico vigente, que concentra suas intervenções na doença, este movimento surge, formalmente, ao fim da década de 60 do século XX, com a construção, na Inglaterra, do St. Christopher's Hospice, em 1967 1. Desde então, sua inserção no sistema de saúde tradicional tem sido crescente 2, respondendo a uma necessidade não somente técnica, relativa ao seu campo de intervenções, no qual prepondera o uso continuado e persistente de alta tecnologia, como moral, diante das situações de abandono dos pacientes que necessitam intervenções compatíveis com o alívio do sofrimento evitável no fim da vida 3,4.

Um dos conceitos nucleares do moderno movimento hospice é o da boa morte, que do ponto de vista semântico se configura em um conjunto de características de enfrentamento da morte, buscando, por meio de ações interdisciplinares, melhorar a qualidade de vida dos pacientes no período de vida que lhes resta 5. Trata-se de um modelo de morte cujos objetivos são conseguir um processo de morrer socialmente compartilhado e, ao mesmo tempo, mais suave, criando condições para uma peculiar disposição de enfrentamento durante esse processo, dando um sentido à morte 6.

A boa morte tem sido um conceito tão importante e central para o moderno movimento hospice que, na atualidade, os cuidados paliativos e o cuidado hospice podem ser entendidos como sinônimos de "boa morte", o que cria uma expectativa sobre o modo peculiar de como se morre, quando se fala em cuidados paliativos ou cuidado hospice. Falar em cuidados paliativos ou cuidado hospice implica na busca desse ideário e representa verdadeiro leitmotiv para os profissionais envolvidos com sua prática diária: o jeito hospice de cuidar, o jeito hospice de morrer 7,8.

Neste artigo caracterizar-se-á histórica e conceitualmente a boa morte que fundamenta a filosofia do movimento hospice. Será possível verificar que esse conceito incorpora características de compartilhamento comunitário associado à disposição peculiar do paciente de enfrentamento durante sua jornada de doença. Tal modelo de morte tem suas origens em sociedades antigas, como as sociedades agrícolas, nas quais a ritualização social da morte se estabelece, e em elementos éticos e estéticos da Grécia antiga, especialmente na sociedade espartana, onde a disposição de enfrentamento durante a jornada de luta era tida como virtuosa. Essa dupla configuração organiza um modelo de boa morte que dá sentido ao moderno movimento hospice e encontra nele sua plena expressão.

Com essa contextualização, será possível identificar a categoria boa morte que sustenta o saber-fazer do moderno movimento hospice – a kalotanásia –, distinta da boa morte comumente referida e historicamente conhecida – a eutanásia. Trata-se, como veremos, de um conjunto de características que pretende reviver um processo de morrer transformador e ritualizado socialmente, porém com o desafio de fazê-lo em um cenário médico submetido a constante e crescente incorporação tecnológica, de acordo com o vigente paradigma biotecnocientífico.

Em nosso meio, tem-se utilizado o termo ortotanásia (de orto: certa, correta, justa; thánatos: morte) para caracterizar um tipo de morte que se considera mais natural e no tempo certo 9. A caracterização descrita neste artigo a respeito da boa morte do movimento hospice – a kalotanásia –, com a descrição de seus elementos históricos e culturais, não exclui e, ao contrário, pode contribuir para melhor sistematização do significado da ortotanásia. Portanto, para efeitos do que aqui se pretende, poder-se-á verificar que a kalotanásia poderá fornecer importantes subsídios à construção conceitual da ortotanásia.

 

A ritualização social da morte

A despeito de a boa morte do moderno movimento hospice ser cultural e historicamente circunscrita, os fundamentos de sua categorização podem ser identificados em diferentes épocas e culturas e dizem respeito ao morrer que permite a cada um preparar-se para a morte com a cooperação da família e da comunidade 10. Nas mais variadas sociedades, essa ritualização coletiva da morte é parte constitutiva da sustentação e proteção da organização social.

O desaparecimento físico com a morte do indivíduo ameaça a coletividade em que vive, levando-a a ritualizar essa perda para fortalecer os vínculos entre seus membros. Fecha-se um ciclo de autorregulação social a partir da morte de um de seus entes, pois parece natural pensar que para os mortos nada [parece] mais evidente do que frequentar os vivos e que para os vivos [o] de esquecer [desta maneira] os mortos 11. Desse modo, a autopoiese social pode ser organizada pela morte individual 12,13.

Kellehear 14 encontrou os elementos estruturantes da boa morte estudando o desenvolvimento das sociedades agrícolas há doze mil anos. Esses elementos foram cruciais para o processo adaptativo dessas sociedades em seu transcurso histórico: participação ativa de quem estava morrendo, incluindo o controle na distribuição de seus bens e o modo como seu funeral deveria ocorrer; presença dos familiares no momento da morte e as cenas íntimas de despedida; reuniões preparatórias com quem está morrendo, tendo, como consequência, uma morte mais previsível e dentro de determinados direitos garantidos.

Com isso, em uma sociedade intensamente influenciada pelos ritmos de sucessivas repetições de ciclos, o morrer e a morte tornaram-se, como o casamento e o nascimento, como semear e colher, como boas estações e [períodos de] fome, parte da sucessão de ciclos previsíveis 15. O processo do morrer e a morte passaram a fazer parte desses ritmos e deram a seus membros uma compreensão fatalista da morte. O modo como os indivíduos deveriam se preparar para a morte seria forjado durante as escolhas feitas em suas vidas, com direitos e deveres a serem assumidos. Para essa sociedade, pode-se dizer que a jornada para outro mundo iniciava-se já nesta vida terrena.

Ainda hoje é possível verificar a importância do ritual de preparo para a morte e do próprio cerimonial fúnebre e de luto nas sociedades agrícolas, especialmente nos primeiros dias após a morte até um período de seis semanas 16. No conto Senhor e servo, de Tolstói, encontramos exemplo do ritual de morte nessas sociedades, na narrativa da vivência da morte por um camponês russo ao fim do século XIX:

Nikita acabou morrendo em casa, como desejava, sob as imagens dos santos e com uma vela de cera acesa na mão. Antes de morrer, pediu perdão à sua velha e, por sua vez, a perdoou pelo toneleiro. Despediu-se também do filho e dos netinhos, e morreu sinceramente feliz porque, com sua morte, livraria o filho e a nora do fardo de uma boca a mais e porque, ele mesmo, já passava desta vida da qual estava farto para aquela outra vida, que, a cada ano e hora, se lhe tornava mais compreensível e sedutora 17.

Em síntese, a morte compartilhada no seio familiar e com forte participação comunitária são duas características historicamente importantes da boa morte. Esse modelo ritualizado de morte, tão necessário para a construção contemporânea da jornada de luta e do jeito hospice de morrer, encontra também na Grécia antiga um dos fundamentos para a construção de seu conceito.

 

A jornada de luta como critério de felicidade

O termo boa morte tem duas origens. Uma proveniente de eu, thánatos (eu: boa; thánatos: morte), de onde se origina a palavra eutanásia, significando, em seus primórdios, a morte suave, indolor, rápida, o morrer bem – atualmente entendida como a morte desejada e sustentada temporalmente por seu solicitante, fundamentada em decisão autônoma 18.

A outra origem do termo provém de kalós, thánatos (kalós: boa, bela; thánatos: morte), significando a morte bela, nobre e exemplar 14. Esse tipo de enfrentamento da morte, de morrer nobremente – de kalós thanein –, situa-se entre as categorias do belo e do heroico e, de fato, as categorias da beleza e do heroísmo são construções a partir da aisthesis, a qual indica, ao mesmo tempo, a sensibilidade (ou faculdade de sentir) e a sensação (ou ato de sentir), que, por sua vez, se referem tanto ao conhecimento sensorial de um objeto (ou percepção) como ao conhecimento sensorial de uma de suas qualidades 19. Mas a boa morte da eutanásia também não está separada da aisthesis. Pode-se dizer que há uma relação complexa entre a eutanásia – com sua dimensão espiritual presente na palavra grega eu – e a kalotanásia, vez que ambas são produto da aisthesis, a qual se refere tanto a um fenômeno corporal quanto simbólico.

Segundo Soares, o grego antigo espartano encontrava no kalós thánatos o corolário de uma vida, a dignidade na morte 20. Essa possibilidade não era restrita ao guerreiro, que estava submetido a um código (nomos) de honra militar, mas a todos os membros da sociedade, pois o tratamento reservado, em particular, aos cadáveres dos soldados e, de um modo geral, a qualquer homem, é determinante para a realização do ambicioso desígnio de 'morrer com dignidade' 21.

Esse modo de morrer era a coroação da trajetória de vida, o reconhecimento de sua eudaimonia (felicidade) 22. Pode-se verificar esse padrão simbólico e ritual no registro de Heródoto, em suas Histórias, na resposta dada pelo sábio grego Sólon, ao ser indagado pelo bárbaro Lídio de Creso sobre se ele, Lídio, na visão de Sólon, havia atingido a felicidade: Aos meus olhos vós dais mostras de possuir uma fortuna colossal e de ser senhor de uma multidão de homens. Porém, à pergunta que me fizestes, não vos respondo sem antes tomar conhecimento de que terminastes bem o vosso percurso de vida 23.

Para a sociedade espartana da época, a boa morte estaria configurada quando determinados elementos fossem identificados: ao guerreiro, era necessário ter plena consciência de que sua jornada empreendida era ou vencer ou morrer em luta –este risco assumido não poderia fazê-lo recuar, nem fugir, se matar ou ficar refém. Essas situações seriam uma desonra para ele e seus familiares, com a quebra – anomia – do nomos vigente. Morrer ou viver nessas circunstâncias era uma desonra, a expressão do sofrimento imposto a ele e seus familiares: o kakós thánatos (kakós: mau; thánatos: morte). Em outras palavras, era a morte em sofrimento, a antítese à felicidade almejada em vida 24.

Apesar da indiscutível interface entre a concepção simbólica da morte no contexto grego e aquela vivenciada no movimento hospice, o interesse deste artigo não é aprofundar o cenário, detalhando a especificidade da morte em combate do lutador espartano. O que se objetiva é reconhecer que elementos do kalós thánatos poderiam fundamentar a boa morte, a qual se configuraria na expressão desse ideário de morte para o moderno movimento hospice. Um ideário inscrito não somente em um tipo específico de morte, mas em um específico processo de morrer, forjado em uma jornada de luta, um "morrer nobremente", ou seja, uma concepção estética profunda do belo, do nobre e que perpassa esse peculiar modo de lidar com a morte, uma morte bela, uma morte ideal ou exemplar 14.

Assim, o kalós thánatos – e seu advérbio kalós thanein – dão sentido estético e ético à morte e ao processo do morrer de beleza, de nobreza e de transcendência. Ou, como sintetiza Kellehear, configuram-se como conjunto de tendências comportamentais culturalmente sancionadas e prescritas, colocadas em movimento por quem está morrendo, e designadas a tornar a morte, tanto quanto seja possível, plena de sentido 25,26.

Na atualidade, faz-se necessária forte motivação interna para inscrever-se no espírito do kalós thánatos, até porque há quem não veja sentido na morte que, por não poder ser percebida, nem visua­lizada ou representada seria, antes de qualquer outra coisa, um absoluto nada (grifo no original) e um absoluto nada não faz sentido 27. Mas, há quem veja um reducionismo neste nada ontológico, como expressa Levinas: Mas o que é que se abre com a morte, será nada ou desconhecido? Estar às portas da morte, reduzir-se-á ao dilema ontológico ser-nada? Eis a questão que aqui é colocada. Porque, a redução da morte ao dilema ser-nada é um dogmatismo às avessas, independentemente do sentimento de toda uma geração desconfiada do dogmatismo positivo da imortalidade da alma tido como o mais suave 'ópio do povo' 28.

 

Kalotanásia e seu significado para o campo do fim da vida

A kalotanásia representa um tipo peculiar de luta. Para não ser vencida pela morte, mesmo sabendo que vai morrer, a pessoa trava uma luta em instâncias mais profundas de sua natureza, dando-lhe um sentido e disposição de enfrentamento. Uma luta para não sucumbir à morte, uma disposição peculiar para transcendê-la. Ou seja, para esse tipo de enfrentamento a luta não seria contra a morte, mas com a morte.

Este é um dos significados da kalotanásia, disposição possível de ser verificada em determinados pacientes que escapam à referida dicotomia que com frequência são vistos os pacientes no umbral da morte 29. Dicotomia essa que se verifica, por um lado, no uso obstinado de intervenções, prolongando-se o processo de morrer, porém sem melhorar a qualidade deste morrer – a morte como inimiga da vida, a ser constantemente combatida –, e que deve ser entendida como uma jornada de luta obstinada e, portanto, diversa da kalotanásia: trata-se, aqui, de um lutar até o fim para não morrer.

Em contrapartida, há a recusa voluntária e autônoma a continuar vivendo, o querer ir ao encontro da morte – a morte como desejo, em uma vida insustentável –, o fundamento da eutanásia/suicídio assistido: pôr fim à luta.

Já o kalós thanaein, esse modo de enfrentamento virtuoso possível de ser encontrado no paciente em direção à morte, tirar-lhe-ia toda a enganadora e aparente resignação externa e o revestiria de disposição interna de extrema coragem, em um cenário de luta para além da morte, não desejando a morte imediata, por não suportar o modo de vida imposto por sua condição, nem desejando a vida custe o que custar, por não suportar a morte como realidade. A kalotanásia é a síntese de uma terceira via de possibilidades a ser oferecida nos cuidados no fim da vida. E essa terceira via é a expressão da filosofia do moderno movimento hospice.

Nesse sentido, a kalotanásia pode ser visualizada como importante conjunto de comportamentos e de tendências que fundamenta o moderno movimento hospice. Constituiu-se em substrato que organiza e dissemina um conjunto de ações amorosas e transformadoras de cuidados a quem está morrendo, em um cenário que independe do modo como cada qual enfrenta sua morte e seu morrer. Pode-se encontrar essa disposição típica da kalotanásia no movimento hospice, por exemplo, nas palavras de Twycross: a doença terminal não deveria ser encarada como uma intromissão na vida; ela é parte da vida e pode ser um tempo de crescente maturidade e aprofundamento da experiência espiritual para todos os envolvidos. É nosso trabalho como médicos ajudar a ser assim 30.

Pode-se, igualmente, visualizá-la nas palavras da fundadora do movimento hospice, Cicely Saunders, ao se dirigir para uma plateia de médicos na Associação Britânica de Medicina: Mas falar de aceitação da morte quando sua abordagem se torna inevitável não é mera resignação ou fragilidade por parte do paciente, tampouco é derrota ou negligência por parte do médico. Para ambos, é [justamente] o oposto de não fazer nada. Nosso trabalho, então, é o de alterar a característica desse inevitável processo, de modo que ele não seja visto como uma derrota da vida, mas como uma positiva conquista no [processo do] morrer; um feito heroico intensamente individual para o paciente 31.

Também encontramos na literatura relatos dessa peculiar disposição de enfrentamento da morte no fim da vida. Tolstói 32, na novela A morte de Ivan Ilitch, escrita em 1886, oferece-nos descrição detalhada de como é possível um processo transformador, mesmo nos momentos derradeiros. Ivan, o personagem central do conto, acometido por um câncer, teve o processo de morrer extremamente difícil, com grande sofrimento físico e psíquico, isolado de sua família e com um médico distante. A exceção era seu copeiro Guerássim, um mujique que o acolhe e cuida dele de um modo amoroso e com eficiência – dir-se-ia, hoje, um cuidador –, dentro da milenar tradição campesina de cuidados no fim da vida, já descrita. Com esse cenário, pode-se concluir que há algo extremamente atual nesse conto do fim do século XIX.

Para fins deste artigo, interessa-nos o relato de Tolstói do momento final da vida de Ivan: Ele procurava o seu antigo e costumeiro pavor da morte, mas não o encontrava. Onde está ela? Que morte? Não havia pavor nenhum, porque não havia morte. Em vez da morte havia luz. Então é isto! – disse ele de repente, em voz alta. – Que alegria! Para ele, tudo isso passou num só instante, e o significado desse instante já não mudou mais. Para os presentes, entretanto, a sua agonia durou ainda duas horas. Do seu peito escapavam estertores; seu corpo emaciado estremecia. Depois ficaram cada vez mais espaçados os estertores e os arquejos. Acabou-se! – disse alguém debruçado sobre ele. Iván Ilitch ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. 'Acabou-se a morte', disse consigo mesmo. 'Ela não existe mais.' Inspirou o ar, parou no meio do suspiro, entesou-se e morreu 33.

Ivan Ilitch encontra sozinho seu tempo de morrer e com controle sobre seu corpo sabe ter chegado sua hora. Lutando contra tudo e contra todos à sua volta, e a despeito de uma jornada inglória e solitária, no seu tempo possível, parece realizar o sentido pleno do kalós thánatos.

 

A boa morte na contemporaneidade e o jeito hospice de morrer

Em 1997, o Institute of Medicine definiu "boa morte" como: uma boa morte ou [uma morte] apropriada é aquela que é livre de uma sobrecarga evitável e de sofrimento para o paciente, as famílias, e os cuidadores; [ocorrendo] em geral, de acordo com os desejos dos pacientes e das famílias; e razoavelmente consistente com as normas clínicas, culturais e éticas 34. Um grupo de estudo britânico sobre o envelhecimento, por sua vez, identificou doze características da boa morte:

1. Saber quando a morte está próxima e compreender o que pode ser esperado;

2. Ser capaz de ter controle sobre o que ocorre;

3. Ter dignidade e privacidade garantidas;

4. Ter controle sobre o alívio da dor e sobre outros sintomas;

5. Ter controle e poder escolher onde morrer (em casa ou em qualquer outro lugar);

6. Ter acesso à informação e à "expertise" necessárias;

7. Ter acesso a qualquer suporte espiritual ou emocional requerido;

8. Ter acesso aos cuidados paliativos em qualquer lugar, não somente em hospitais;

9. Ter controle sobre quem está presente e com quem irá compartilhar o fim de sua vida;

10. Ser capaz de encaminhar diretivas antecipadas que assegurem que seus desejos serão respeitados;

11. Ter tempo para dizer adeus e controle sobre outros aspectos do tempo;

12. Ser capaz de partir quando for o tempo de ir e não ter a vida prolongada inutilmente35.

Todas essas características são encontradas em diversas narrativas sobre o que seria a boa morte. Nelas verificam-se, entre outras: 1) o controle rigoroso de sintomas tratáveis, como, por exemplo, a dor; 2) a consciência da morte pelo paciente; 3) o respeito aos desejos do paciente, uma tradução do respeito à sua autonomia no fim de vida; 4) o compartilhar com os entes queridos os momentos derradeiros; 5) a redução do conflito interno com a morte e a preparação pessoal para ela; 6) os ajustes sociais, com os resgates e ajustamentos possíveis; 7) os momentos de despedida; 8) a ajuda em vários níveis, tanto para o paciente quanto para os entes próximos (cuidador, família e amigos íntimos), incluindo-se a fase de luto e; 9) um ideário que perpassa muitos dos profissionais engajados na busca desse modo de morrer, expectativas idealizadas de uma boa morte ocorrendo de modo sereno e pacífico 6,7,36-43.

Encontramos na literatura especializada outras designações para a boa morte do movimento hospice e que resumem – a despeito de muitas vezes serem expressões valorativas e sem precisão conceitual – esse modo peculiar de enfrentamento, sempre encontrando em suas descrições a ritualização e a busca de resolução de importantes conflitos pelo paciente na jornada de luta ante uma doença ameaçadora à sua vida. Em outros termos, nestas expressões encontramos os elementos constitutivos de uma trajetória percorrida de lutas contra a doença; trajetória identificada nas características sociais de aceitação e acolhimento e que dão sentido àqueles que dela participam: morte digna; morte serena; morte em paz, morte feliz, morte saudável; morrer bem; morte certa (muitas vezes descrita, em nosso meio, como ortotanásia; morte natural; morte heroica) 9,44-49.

O que está por trás dessas construções é um conjunto de características que aglutinam expectativas de condutas médicas mais suaves de alívio do sofrimento, de acolhimento incondicional, de respeito pelas decisões de quem está morrendo e de um processo de morrer que possa ser enfrentado pelo paciente e ritualizado socialmente, em um cenário médico identificado com o uso continuado e persistente de alta tecnologia. São metamorfoses de processos historicamente identificados na morte familiar e comunitária das sociedades agrícolas e na jornada ética e estética do kalós thánatos grego, que se resignificam para organizar o modo hospice de cuidar e de morrer.

A boa morte representa, por conseguinte, a expressão de tendência constatada no movimento hospice na atualidade: o leitmotiv do movimento não seria mais a compaixão pelo outro que está morrendo – aspecto fundamental em suas origens –, mas, o que se evidenciaria como mais importante, e que se confunde, na atualidade, com o próprio movimento hospice: seria o modo como se morre, ou seja, o processo do morrer em si, a kalotanásia 50.

 

Considerações finais

A kalotanásia configura-se em um conjunto de prerrogativas que norteiam o saber-fazer do moderno movimento hospice. Trata-se do eixo central para esse movimento, edificando seu ethos em torno da ritualização da morte, buscando dar-lhe sentido e transcendência, sendo um importante motivador para suas práticas.

O moderno movimento hospice pleiteia, com a construção de seu modelo de "boa morte", a delicada posição de oferecer um modo certo de se morrer, um modelo de morte considerado digno e belo, pleno de sentido, em um cenário médico identificado com o uso continuado de alta tecnologia. Por detrás das várias características constitutivas da boa morte defendida por esse movimento, encontrar-se-á uma morte esteticamente percebida e eticamente desejável: a kalotanásia.

A crescente institucionalização da boa morte do moderno movimento hospice é uma realidade do sistema tradicional de saúde de vários países, em maior ou menor intensidade, incluindo-se o Brasil. É esse arcabouço teórico que mobiliza parcela expressiva dos profissionais envolvidos com o movimento hospice e que deu importantes subsídios para a construção de seu edifício filosófico, em seus primórdios. De fato, identifica-se no moderno movimento hospice um modelo de assistência que se supõe, em seu ativismo, se plenamente seguido, ser o modelo de morte mais adequado a quem está no limiar da morte, conduzindo a uma morte mais suave. O moderno movimento hospice pretende, com isso, ser importante via de realizações e de cuidados em um sistema de saúde no qual, com bastante frequência, há uma prática médica no fim da vida que se caracteriza ou por excessivas intervenções ou por abandono, ou pelas duas situações ao mesmo tempo.

Porém, a robustez ou fragilidade da boa morte do movimento hospice, em sua crescente interface com a biomedicina, dependerá, de modo significativo, de o quanto as pessoas que estão no umbral da morte serão ouvidas em suas necessidades e respeitadas em suas decisões; isto é, dos meios adotados para que a pessoa que está morrendo possa apropriar-se do processo de seu morrer, tornando-se sujeito de sua vida e de sua morte, aspectos essenciais de sua existência.

Trabalho produzido no âmbito do Programa de pós-graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva, da UFRJ/Uerj/Fiocruz/UFF.

 

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Correspondência:
Rua Dr. Herotides de Oliveira, 44 aptº 1003
CEP 24230-230. Niterói/RJ, Brasil.

 

 

Recebido: 25.2.2013
Revisado: 13.5.2013
Aprovado: 18.7.2013
Declara não haver conflito de interesse.

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