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Revista Bioética

versão impressa ISSN 1983-8042versão On-line ISSN 1983-8034

Rev. Bioét. vol.25 no.3 Brasília out./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422017253216 

Pesquisa

Espiritualidade nos serviços de urgência e emergência

Chrisne Santana Biondo1 

Mariana Oliveira Antunes Ferraz2 

Mara Lucia Miranda Silva3 

Sérgio Donha Yarid4 

1. Mestra tity_biondo_enf@hotmail.com – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb)

2. Mestra marianaferraz.enf@gmail.com – Uesb

3. Mestranda maramirandas@hotmail.com – Uesb

4. Doutor syarid@hotmail.com – Uesb, Jequié/BA, Brasil.

Resumo

É crescente o interesse sobre a relação da espiritualidade com o processo saúde-doença, devido a seu potencial de proteção em situações difíceis, como nos atendimentos de urgência e emergência, que são apontados como causadores de estresse devido a suas características. Este estudo objetivou verificar como a espiritualidade é abordada nos ambientes de atendimento. Para tanto, foi feita revisão de literatura a partir de publicações indexadas no Medline e no Scopus entre 2000 e 2014, selecionando-se sete artigos. Observou-se que espiritualidade é apontada como necessária a pacientes e familiares, e especialmente relacionada às situações de fim de vida. Entretanto, a compreensão dessa dimensão no contexto de urgências e emergências ainda é um desafio, por não ser percebida como cuidado prioritário e pelas dificuldades no trabalho dos serviços de saúde.

Palavras-Chave: Espiritualidade; Serviço hospitalar de emergência; Serviços médicos de emergência

O serviço de emergência ocorre em ambiente onde pacientes gravemente enfermos e com risco de morte recebem atendimento mais adequado a reversão ou estabilização de quadro clínico. O sofrimento percebido por profissionais e usuários decorre da gravidade do quadro clínico e de entraves encontrados, como estrutura insuficiente da rede de urgências e superlotação dos locais, resultando em baixa qualidade de atendimento e uso irracional de recursos disponíveis 1.

A alta demanda da modalidade, atrelada à necessidade de medidas rápidas e efetivas, e o consequente estresse vivenciado pelos profissionais contribuem para perpetuar práticas que comprometem a assistência humanizada 2. São reflexos dessa realidade alguns fenômenos como o endurecimento de relações interpessoais e o distanciamento de cuidados integrais para melhorar a qualidade de vida (QV) e de saúde 3.

A humanização depende, entre outros fatores, da transformação das pessoas em prol de valores ligados à vida e, devido a sua vulnerabilidade, da solidariedade e apoio social 3. A espiritualidade, em sua dimensão existencialista, pode ser modo de atribuir sentido à vida pelas interações com o próprio eu, o outro e o meio no qual se insere 4, estimulando o surgimento de atitudes solidárias. Além disso, seu caráter intrínseco relaciona-a com a humanização do trabalho no contexto organizacional, reorientando valores e práticas 5.

A compreensão da espiritualidade ultrapassa a religiosidade, associando-se à adaptação à vida e aos significados atribuídos à própria existência 6. A prática religiosa é citada como a forma mais difundida de aproximar pessoas da dimensão espiritual 7.

Em 1998 a Organização Mundial da Saúde (OMS) reformulou o conceito de saúde em sua constituição, incluindo o aspecto espiritual, além dos físicos, mentais e sociais 8. Desde então, a espiritualidade é apontada na área da saúde como importante fator de adaptação em situações difíceis ou estressantes, devido a sua capacidade de desenvolver competências do ser humano na manutenção e no cuidado da vida 9. Estudos internacionais associam espiritualidade à saúde, considerando seu potencial de auxiliar a recuperação de doenças 10. Nesse sentido, este estudo objetiva verificar de que modo a espiritualidade é abordada nos serviços de urgência e emergência, baseando-se na literatura atual.

Método

Trata-se de revisão de literatura sistematizada em bancos de dados Medline, por meio da busca na Biblioteca Virtual da Saúde (BVS) e Scopus. No primeiro, foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), em português, inglês e espanhol, “hospitais de emergência”; “tratamento de emergência”; “serviço hospitalar de emergência”; “socorro de urgência”; “serviços médicos de emergência”, relacionando-os ao descritor “espiritualidade”, por intermédio do operador booleano “and”. No Scopus, pesquisaram-se os termos correlatos em inglês utilizando o Medical Subject Headings (MeSH).

Os critérios de inclusão definidos foram publicações em formato de artigo, entre 2000 e 2014 – período posterior à divulgação da nova definição de saúde pela OMS –, nos idiomas português, inglês ou espanhol, disponibilizadas na íntegra, uma vez que seria difícil analisar resultados a partir apenas de resumos. Foram excluídos documentos em formato de tese, dissertação e monografia, duplicatas, e aqueles que não se encaixavam no intervalo de tempo mencionado ou que fugiram ao tema após a leitura do resumo.

A busca na BVS, utilizando os descritores “serviços médicos de emergência” and “espiritualidade”, resultou em dois estudos, um deles excluído por não estar publicado na íntegra. Os termos “serviço hospitalar de emergência” and “espiritualidade” levaram a oito publicações, sendo descartadas quatro pelo mesmo motivo mencionado. Por fim, com a busca de “tratamento de emergência” and “espiritualidade” foram obtidos e desconsiderados quatro artigos: dois por não constarem integralmente, um por ter divergido do tema e um por ser redundante.

No Scopus, a pesquisa com os termos “emergency medical services” and “spirituality” resultou em dois estudos, também eliminados de acordo com os critérios de exclusão. Os termos “emergency service, hospital” and “spirituality” resultaram em nove publicações, sendo descartadas duas por não se encaixarem na categoria “artigo científico”, duas por indisponibilidade integral e três duplicatas. Encontraram-se e excluíram-se quatro estudos na busca com os termos “emergency treatment” e “spirituality”, que foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão.

Em ambas as bases de dados, não foram encontrados documentos, após pesquisa, relacionados aos termos “hospitais de emergência” e “socorro de urgência” com “espiritualidade”. Portanto, apenas sete artigos atenderam aos objetivos e critérios de inclusão nesta revisão. A partir da coleta de dados, categorizaram-se informações constantes em unidades temáticas examinadas segundo a técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin 11.

Resultados

Os estudos selecionados são artigos de pesquisa originais. Desses, seis foram publicados em inglês, um em português e nenhum em espanhol; cinco estavam indexados no banco de dados Medline e dois no Scopus.

Com relação ao ano de publicação, dois artigos são de 2010 e os demais de cada ano a seguir: 2004, 2008, 2009, 2011 e 2012. Esse achado revela que, apesar da atual discussão sobre o tema, são escassas as pesquisas que abordam espiritualidade em serviços de saúde de urgência e emergência.

A Tabela 1 apresenta alguns itens dos estudos eleitos para revisão: autor(es), título, periódico, ano de publicação, plataforma de indexação e principais pontos discutidos.

Tabela 1 Artigos de 2000 a 2014 sobre espiritualidade em setor de emergência 

Artigo Síntese da abordagem e contribuições
Rolniak S, Browning L, MacLeod BA, Cockley P. Complementary and alternative medicine use among urban ED patients: prevalence and patterns. J Emerg Nurs. 2004;30(4):318-24. (Scopus) 12 Aborda prevalência e padrões de consumo de medicina complementar e alternativa de pacientes do setor de emergência de um hospital católico; apresenta a espiritualidade como forma de cuidado a ser estimulada. A oração/espiritualidade foi uma das terapias alternativas e complementares mais difundidas entre os pacientes. Foram feitas inferências acerca das características sociodemográficas para explicar a adoção de oração como prática de menor custo.
Girardon-Perlini NMO, Pilatto MTS. Entre o medo da morte e a confiança na recuperação: a experiência da família durante um atendimento de emergência. Rev Eletrônica Enferm. 2008;10(3): 721-32. (Medline) 13 Descreve experiências de famílias de pacientes atendidos em pronto-socorro, abrangendo sentimentos e rede de apoio; aponta duas categorias, uma de sentimentos e dificuldades, como medo da morte, e desconfortos causados por insegurança e imprevisibilidade; e outra de recursos de apoio da família, destacando-se espiritualidade, união familiar e assistência prestada por profissionais de saúde. A espiritualidade é concebida como mecanismo de enfrentamento, pelo qual as famílias procuram lidar com fragilidades advindas de situações difíceis, manifestando-se pela oração e crença em Deus.
Ziel R, Kautz DD. The highest priority in the emergency department may be a patient’s spiritual needs. J Emerg Nurs. 2009;35(1):50-1. (Medline) 14 Retrata a dificuldade de valorizar a dimensão espiritual de pacientes e familiares, devido ao processo de trabalho do serviço de emergência; sinaliza a importância de se considerar a extensão espiritual pela experiência de ser enfermeira. A espiritualidade é percebida como necessidade de familiares e pacientes, inclusive em situações de risco de morte.
Grudzen CR, Richardson LD, Morrison M, Cho E, Morrison RS. Palliative care needs of seriously ill, older adults presenting to the emergency department. Acad Emerg Med. 2010;17(11):1253-7. (Scopus) 15 Identifica a utilidade de cuidados paliativos, especialmente em idosos com doenças graves, em unidades de emergência; expõe fatores considerados imprescindíveis para o atendimento de emergência. As necessidades mais frequentes referem-se a questões financeiras, acesso a cuidados gerais e pessoais, auxílio em atividades diárias ou saúde física e mental. A espiritualidade foi apontada como necessidade associada aos demais cuidados.
Jose MM. Cultural, ethical, and spiritual competencies of health care providers responding to a catastrophic event. Crit Care Nurs Clin North Am. 2010;22(4):455-64. (Medline) 16 Discute espiritualidade como importante dimensão de cuidado integral e a preparação dos profissionais envolvidos em resgates ou situações de catástrofe, relacionando aspectos culturais, religiosos e éticos. Uma das dificuldades nesses casos é conviver com diferenças espirituais e culturais. Sinaliza a teoria de enfermagem transcultural de Leininger como ferramenta para profissionais de saúde.
Norton CK, Hobson G, Kulm E. Palliative and end-of-life care in the emergency department: guidelines for nurses. J Emerg Nurs. 2011;37(3): 240-5. (Medline) 17 Sintetiza a pesquisa atual sobre cuidados paliativos e propõe orientações específicas para áreas de emergência, apresentando precauções que podem ser tomadas em situações de fim de vida, abrangendo família, pacientes e enfermeiros. As recomendações foram organizadas em quatro grupos: lidar com morte súbita, reanimação testemunhada pela família, considerações culturais e espirituais, e mudanças institucionais. A espiritualidade é discutida em relação a questões culturais, sendo considerada necessária por familiares e pacientes. Salienta que enfermeiros devem prestar auxílio e respeitar a diversidade cultural.
Ronaldson S, Hayes L, Aggar C, Green J, Carey M. Spirituality and spiritual caring: nurses’ perspectives and pratice in palliative and acute care environments. J Clin Nurs. 2012; 21(15-6):2126-35. (Medline) 18 Identifica e compara o perfil de cuidado espiritual entre enfermeiros de assistência paliativa e de agravos clínicos agudos; reflete sobre diferenças de perspectiva e atenção espirituais entre esses profissionais que atuam em assistências distintas, concluindo que a consideração a esses aspectos e a cuidados paliativos foram mais frequentes em enfermeiros. Foram associados maior faixa etária, tempo de atuação no ramo e no setor estudado. As maiores dificuldades apontadas pelos dois grupos na prestação de cuidado espiritual foram o tempo insuficiente e a privacidade do paciente.

Discussão

A partir dos resultados, identificaram-se temas centrais acerca da espiritualidade em serviços de emergência, categorizados em: necessidade do paciente de cuidado espiritual; espiritualidade em contexto profissional; e diretrizes para esse cuidado.

Necessidade de cuidado espiritual

Em serviços de emergência são vivenciadas situações que perpassam por questões existenciais, como nascimento e morte 17. Portanto, nesses espaços é importante abordar a espiritualidade na assistência à saúde. Considerando que a OMS inclui desde 1998 tal aspecto nos domínios que devem ser levados em conta na avaliação para promover a saúde 8 – e que a doença pode alterar condições biológicas, psicológicas, sociais e espirituais dos pacientes 7 –, ações de tratamento visando tanto cura como qualidade de vida devem considerar esses fatores complementares.

Estudo demonstra que pacientes em situação de risco iminente à saúde relatam a importância de profissionais de saúde abordarem suas necessidades espirituais e aponta o procedimento, resguardados os princípios éticos, como fator preponderante de benefícios significativos para o tratamento 19. Outras pesquisas corroboram a relevância da atenção espiritual, visto que algumas pessoas se beneficiam quando compreendem fé e oração como modos de enfrentar adversidades e amenizar o sofrimento 13,20-22.

Indivíduos mais velhos, gravemente doentes e que demandam cuidados paliativos indispensáveis, compõem perfil de enfermos cuja quantidade de atendimentos em urgência está aumentando substancialmente. Tal fato associa-se ao aumento da sobrevida populacional e das doenças crônicas 15,23. Nesses casos, a medicina de emergência tradicional, em que assistência se orienta pela doença, não alcança os objetivos de tratamento, visto que as necessidades englobam tanto intervenção em sintomas físicos como perspectivas psicossociais e espirituais 15, contribuindo para a integralidade da atenção à saúde.

Com o aumento de doenças crônicas, observaram-se piores escores das esferas de qualidade de vida desses pacientes se comparados àqueles com doenças que não apresentam cronicidade, excetuando-se religiosidade/espiritualidade e crenças pessoais. Esses aspectos se manifestam positivamente e têm mais importância entre grupos de pacientes doentes 24. A interação de aspectos espirituais e parâmetros de saúde demonstra a influência que exercem sobre a qualidade de vida e, consequentemente, sobre o cuidado em saúde 19.

Estudo indica que aspectos relacionados a comportamentos saudáveis, fatores emocionais e psicológicos e vivências familiares associam as questões ligadas à dimensão espiritual com mais tranquilidade e bem-estar nos casos de doenças crônicas e melhor prevenção e recuperação dos pacientes 25.

Pesquisa sobre o processo de tratamento das doenças 12 verificou que entre as terapias complementares, a oração foi o tipo mais comum utilizado por pacientes, associada à crença de maior eficácia da prática para uma cura mais rápida, o que confirma a necessidade de abordar a espiritualidade, visando o cuidado holístico do paciente. A operacionalização de práticas de saúde para a assistência de qualidade e para o acolhimento integral induz atitudes de escuta qualificada e direciona o atendimento considerando o cuidado humanizado 26.

Além dos pacientes assistidos, diversas pessoas estão envolvidas nos atendimentos de emergência e urgência. Familiares muitas vezes não estão presentes no atendimento inicial e são comunicados por telefone sobre a situação de seu parente, e acabam projetando eventos graves ou fatais. Diante dessa situação, muitos deles, por conta do medo, apoiam-se na espiritualidade para enfrentar momentos difíceis 15,23.

Em estudo sobre a qualidade de vida dos cuidadores familiares durante a permanência do doente em unidades de urgência e emergência, a espiritualidade/religiosidade foi recurso de enfrentamento para os que sofrem com a vulnerabilidade de sua qualidade de vida 24, inclusive para mães que vivenciam a morte de seus filhos, uma vez que a espiritualidade resgata sentidos de vida e morte, atenuando a dor da perda 27.

Espiritualidade no contexto profissional

O processo de trabalho na urgência caracteriza-se pela assistência a pacientes tanto com risco de morte quanto com demandas não urgentes, que sobrecarregam os profissionais de saúde e dificultam o atendimento adequado a todas as necessidades 28,29. O fato contribui para a “negação” da assistência espiritual, em tempo oportuno, aos pacientes que a desejem, desrespeitando sua autonomia.

A crise enfrentada atualmente, que ameaça a dimensão humana 3,5, tem afetado profissionais nas instituições de saúde, prejudicando seu envolvimento social no contexto de trabalho, muitas vezes é relacionada à falta de crença em questões espirituais 7.

As práticas de cuidado espiritual podem apresentar diferenças, considerando o ambiente em que a assistência à saúde é prestada 18. Esse cuidado não é percebido como prioridade no atendimento de emergência, devido à própria essência do serviço, que visa reverter ou estabilizar o quadro clínico do paciente.

Porém, trata-se de fator importante para familiares e pacientes que professam alguma religião ou admitem a religiosidade, especialmente no processo de morte 14. A prioridade do atendimento tradicional em emergência está relacionada a ações técnico-científicas visando intervir no agravo da saúde, que causaria risco de morte, e prolongar a vida 27. Portanto, para complementar e aprimorar o cuidado devem ser incentivadas medidas cabíveis quando identificadas as necessidades espirituais de pacientes e familiares.

Em contrapartida, é notável a contribuição da espiritualidade/religiosidade como fator de prevenção de doenças e redução de impactos de agravos à saúde 30,31. Com isso, a relação entre saúde e espiritualidade é alvo de pesquisa e de inclusão do tema no ensino profissional de saúde 6, demostrando que crenças relacionadas ao aspecto espiritual do paciente devem ser respeitadas pelos médicos, mesmo quando estes não as reconhecem 5, pautando suas ações em princípios da bioética, principalmente autonomia e beneficência.

Destaca-se que os enfermeiros são mais citados que outros profissionais nos estudos que discutem a espiritualidade no enfrentamento de doenças 14,17,18. Observa-se ainda que a teoria de enfermagem transcultural de Leininger é abordada 16 como ferramenta útil a ser desenvolvida pelos demais profissionais da área, considerando a diversidade cultural e incluindo aspectos espirituais no processo de saúde e doença quando desejado pelo paciente ou familiar.

A espiritualidade na área da saúde deve ser entendida como meio social, profissional e de relações interpessoais 26, e constitui espaço de interação entre os atores envolvidos no processo de cuidado. A configuração desses espaços, portanto, contribui para o bem-estar do paciente, por resguardar a privacidade e o respeito. Tal situação colabora para promover atenção mais resolutiva e com características mais humanas 25.

Essas características, por vezes difíceis de ser implementadas 25, corroboram e fortalecem o sentido real de assistência, que trata o ser humano dimensionado em sua subjetividade e com valores próprios e intrínsecos ao ser espiritual 3. Portanto, a espiritualidade em nosso contexto se mostra como caminho para sensibilizar e promover a realização profissional, a partir do desenvolvimento de uma consciência em favor do bem-estar e da orientação de valores que serão traduzidos nas práticas do trabalhador 5.

Diretrizes para o cuidado espiritual

Em busca de fortalecer o cuidado nos serviços de emergência, propuseram-se recomendações 17 para que família e profissionais lidem com a situação de morte incluindo o cuidado espiritual. As recomendações foram divididas em quatro temas: lidar com morte súbita no serviço de emergência; reanimação testemunhada pela família; considerações culturais e espirituais; e alterações institucionais.

A presença do familiar durante a reanimação garante fatores benéficos 32, como possibilitar que a família enlutada encare a morte como uma realidade, o que contribui para a saúde mental do familiar que testemunhou os esforços de reanimação. Nesse sentido, alguns cuidados devem ser instituídos, como a sensibilização da equipe e o treinamento efetivo para a reanimação cardiopulmonar (RCP), já que muitos estudos mostram que pessoas mais seguras se sentem mais confortáveis na presença dos familiares 33. Sendo assim, é necessário estabelecer uma relação de respeito e colaboração entre família e profissionais.

Apesar desses benefícios e da importância atribuída à presença da família na RCP, alguns pontos negativos foram apontados 34, já que em algumas situações essa presença pode interferir no progresso da intervenção, não sendo possível, nesses casos, a permanência do familiar.

Durante todo o cuidado prestado, as questões religiosas/espirituais e culturais devem ser respeitadas na tomada de decisão sobre o tratamento, pois, ainda que sejam empregados conhecimentos técnicos e científicos de qualidade, estes devem estar de acordo com a cultura das pessoas atendidas, para não gerar desconforto aos envolvidos ou serem percebidos como atos de agressão a seus valores 16.

Em consonância com a integralidade do cuidado, a observância de religiosidade e espiritualidade pode ser fundamental para melhor aceitação da assistência em saúde 16, pois, ao valorizar as crenças do paciente, o indivíduo tende a aceitar o tratamento mais facilmente, sem que se sinta coagido diante de diferenças culturais 35.

Como as questões culturais e espirituais são diversas, é impossível a plena apreensão de suas particularidades. Enfermeiros e demais profissionais dos serviços de emergência devem estar abertos para as necessidades cultural e espiritual de familiares e pacientes 17.

Dessa forma, os profissionais de saúde devem adotar postura imparcial e respeitosa diante do indivíduo, e assim estabelecer uma relação de confiança no cuidado ao paciente de cultura ou religião distintas. Nesse sentido, a teoria de enfermagem transcultural de Leininger é retratada como alternativa dos demais profissionais de saúde 16. Utilizada no campo da enfermagem com o intuito de compreender e respeitar a diversidade cultural da população assistida, a teoria favorece o planejamento de ações para alcançar os resultados desejados 35.

Considerações finais

A espiritualidade é concebida como necessidade pessoal de pacientes e familiares e auxilia a enfrentar dificuldades, relacionadas principalmente a situações-limite, como o fim da vida. Apesar do interesse crescente sobre o tema e sua relação com a saúde, são incipientes as pesquisas que tratam da espiritualidade nos serviços de urgência e emergência.

Trabalhar com a dimensão espiritual ainda é um desafio, pois não é cuidado prioritário no atendimento de emergência, além de exigir preparo profissional. Quando há tarefas relacionadas à organização do trabalho em saúde, com sobrecarga de atividades e escassez de recursos humanos, tornam-se ainda mais evidentes as dificuldades de considerar a dimensão espiritual no plano de cuidados.

A espiritualidade de pacientes e familiares foi o tema mais abordado nos estudos. Dessa forma, pesquisas que demonstrem a relação de cuidado e espiritualidade são necessárias para que se conheça melhor o tema – especialmente o modo como a espiritualidade pode ajudar o profissional em seu cotidiano em serviços de emergência – e favoreça o acolhimento da necessidade espiritual dos pacientes assistidos. Destaca-se que atenção também deve ser dada ao paciente que não deseja apoio espiritual, o que remete ao princípio bioético da autonomia.

Há poucos artigos sobre o tema abordado, porém o corpus selecionado se mostrou suficiente para apontar a real necessidade de assimilar espiritualidade nos serviços de saúde de urgência e emergência, principalmente no que tange a familiares e pacientes. Evidenciou-se a necessidade de modificar a arquitetura das emergências, incluindo espaços reservados para acolhimento e contato com familiares, com o intuito de efetivar a abordagem espiritual.

Sugere-se, portanto, que novos estudos sejam realizados, principalmente no contexto brasileiro, já que foram escassas as publicações encontradas, o que reflete a necessidade de ampliar o debate sobre o tema, visto que o país apresenta particularidades como sua diversidade cultural e o sistema de saúde vigente.

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Recebido: 14 de Setembro de 2016; Revisado: 31 de Maio de 2017; Aceito: 2 de Junho de 2017

Correspondência. Chrisne Santana Biondo – Rua Juscelino Kubistchek, 363, São Luís CEP 45203-260. Jequié/BA, Brasil.

Declaram não haver conflito de interesse.

Participação das autoras

Chrisne Santana Biondo, Mariana Oliveira Antunes Ferraz e Mara Lucia Miranda Silva cooperaram em todas as fases da produção do manuscrito. Sérgio Donha Yarid trabalhou na concepção, análise e interpretação dos dados e revisão crítica.

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