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Fractal: Revista de Psicologia

On-line version ISSN 1984-0292

Fractal, Rev. Psicol. vol.21 no.3 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-02922009000300008 

Tornando-se Jane: a individuação retratada em filme

 

Becoming Jane: the individuation represented by movie

 

 

Luiza Bontempo e Silva

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Viçosa - UFV, pós-graduanda em psicologia jungiana pelo IBMR. E-mail: luizaufv@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Este é um trabalho de fundo explicativo que pretende estabelecer um diálogo entre o filme Becoming Jane (traduzido, no Brasil, como Amor e inocência), de Julian Jarrold, com a concepção junguiana de processo de individuação. Foi observado que o filme faz várias referências à obra de Jung, sendo a trama principal um exemplo (intencional ou não) do conceito junguiano de processo de individuação. No filme analisado a personagem principal passa por um processo difícil de descobrimento de si mesma e de confronto com o senso comum, processo também vivido por muitos e essencial para a realização ou formação da personalidade.

Palavras-chave: individuação; Jung; cinema.


ABSTRACT

This is a explanatory work with the intent to establish a dialogue between the Julian Jarrold's movie Becoming Jane and the Jungian conception of the individuation process. It was observed that the movie makes many references to the Jung's work, being, the main plot, a perfect example (intentional or not) of the process of personal development, by the junguians known as individuation process. On the analyzed movie, the main character passes through the difficult process of discovering of one self. This is a very common experience which can be noted on many people's life and is essential to self realization.

Keywords: individuation; Jung; movies.


 

 

INTRODUÇÃO

O filme Becoming Jane (2007), traduzido no Brasil como Amor e inocência, conta a história da escritora Jane Austen, uma das maiores escritoras da língua inglesa. Jane viveu no interior da Inglaterra durante o final do século XVIII e início do XIX. Sua obra foi uma grande crítica à sociedade da época, pautada pela injustiça e mesquinhez, e nela a autora critica especialmente o casamento por interesse e a grande importância dada ao status social e financeiro.

Becoming Jane (2007) foi dirigido por Julian Jarrold, com base nas cartas trocadas entre a escritora e sua irmã mais velha, Cassandra, e em especulações sobre as suas obras. A trama principal envolve o romance da jovem Jane, então com 20 anos de idade, e um jovem irlandês que estudava direito em Londres. Como era o costume da época, os casamentos eram arranjados, visando ao estabelecimento financeiro e ao status das famílias, um acordo no qual, é claro, o afeto não tinha lugar. A frase da mãe de Jane, no filme, sintetiza o pensamento da época: "Afeto é desejado. Dinheiro é absolutamente indispensável!". Porém, a jovem, com seu espírito independente, recusa-se a participar de tal costume, chocando a família Austen e a aristocracia local. Assim, a história mostra como a jovem romântica, sonhadora e muito inteligente torna-se a mulher, romancista e independente Jane Austen.

O filme de Jarrold traz elementos que dialogam com o pensamento do psiquiatra Carl Gustav Jung, principalmente, com o que esse chama de processo de individuação. Assim, a intenção do presente trabalho é fazer um paralelo entre a concepção junguiana de individuação e a obra de Jarrold.

 

JUNG E A INDIVIDUAÇÃO

De acordo com Jung (2000), individuação é a tendência do indivíduo a aproximar-se de sua essência e o processo pelo qual o faz, integrando os conteúdos inconscientes à consciência. Assim, o sujeito torna-se mais próximo daquilo que é realmente, consequentemente, afastando-se do que gostaria de ser ou mesmo do que acredita ser, uma vez que esses são muito influenciados pelo meio externo. Quando alienado de si mesmo, o indivíduo projeta suas qualidades nos outros e as ideias coletivas em si, não conseguindo distinguir o que é ele e o que é o outro. Se não tomar consciência desse movimento, o indivíduo poderá não conhecer sua totalidade, ou seja, distante do seu centro distancia-se também da sua totalidade.

O centro e a totalidade do ser formam o que Jung (2000) chama de self. Esse conceito pode ser definido de várias maneiras dependendo da abordagem utilizada e dos autores consultados, e mesmo a obra de Jung refere-se a ele de diversas formas. De acordo com Colman (2000), três aspectos desse conceito basearam os modelos de autores pós-junguianos, são eles: self como a totalidade da psique (baseou a abordagem biológica de Fordham), como arquétipo (abordagem mitológica de Neumann e Edinger) e como arquétipo da subjetividade, princípio organizador da subjetividade pessoal subjacente (abordagem construtivista, representada por Young-Eisendrath e Zinkin). Porém, para Jung (2000), o self englobaria os três aspectos e muitos outros, não se tratando de uma relação de exclusão, mas de integração (é isso e aquilo). É essa abordagem que levo em conta na construção deste trabalho.

Jung (2000) define self como a totalidade da psique do indivíduo, englobando sua consciência, seus inconscientes pessoal e coletivo, portanto há no self uma porção coletiva que faz a ligação do indivíduo com a humanidade. O self, então, aparece como símbolo da totalidade e da unidade, símbolo esse também relacionado à concepção do Deus monoteísta cristão. Assim, devido à natureza arquetípica dessas imagens simbólicas que emergem na consciência para representar o self, ele é definido, ao mesmo tempo, como arquétipo central da psique, responsável pela organização e integração da mesma. Assim, como arquétipo da totalidade e do centro da psique, relaciona-se com o complexo egóico,1 que é o centro da consciência.

Uma vez que apenas um ego forte é capaz de diferenciar-se dos padrões e influências externas, o processo de individuação pode também ser considerado como o fortalecimento do complexo egóico, fortalecimento, portanto, da identidade do sujeito. Dessa maneira, Jung (1998) o considera uma diferenciação, pois, ao formar seus próprios conceitos e ao viver de acordo com eles, o indivíduo acaba negando muito da ordem vigente e dos caminhos preconcebidos e aceitos pela comunidade. Apesar de ser um processo solitário, não quer dizer que o sujeito deva se isolar. É solitário por tratar-se de conflitos internos, portanto, únicos para cada ser humano, de forma que quem aceita o desafio de se individuar não pode esperar o apoio ou a compreensão da sociedade, uma vez que se opõe a ela. Mas o processo de individuação não pode ser realizado em isolamento. É necessário o contato com o outro, porque o processo de identificação acontece pela diferenciação, ou seja, ao ser colocado em questão pelo outro, o sujeito define o que não é e, com isso, constrói aquilo que é.

Jung (1998), então, contrapõe individuação à massificação. Para ele, o ser massificado está alienado de si, segue o fluxo do senso comum, em conformidade com ele, enquanto o ser em individuação tem (ou busca ter) consciência de si, produz seus próprios valores e, com isso, retira-se da massa. Portanto, o autor acredita que o homem que não for capaz de oferecer valores equivalentes à sua presença na coletividade, não tem o direto de se individuar. Porque, quando rompe com a coletividade, a pessoa é desprezada e tratada como um desertor, o que só acaba quando é oferecido o equivalente. Assim, aquele que não for criativo o suficiente e não tiver aptidões especiais que lhe possibilitem oferecer algo em troca deve submeter-se às exigências da coletividade e permanecer imitando e trilhando os caminhos aceitos até reativar seus valores e ter algo para oferecer, mesmo que seja o amor por outro indivíduo.

Ao mesmo tempo em que trata o processo de individuação como algo que exige esforço, paciência, coragem e, até, um "chamado", uma qualidade superior, Jung (apud JACOBY, 2002) demonstra considerar esse processo como algo natural e, mesmo, inevitável. Afirma que a totalidade do homem, sua essência, tende a ser realizada como um destino do qual não se pode fugir.

Em última análise, toda vida é a realização de uma totalidade, isso é, de um Self, motivo pelo qual essa realização pode ser chamada de individuação. Toda vida está ligada a portadores individuais que o realizam e é simplesmente inconcebível sem eles. Mas cada um desses portadores está encarregado de um destino e de uma destinação individuais e somente a realização desses faz sentido na vida (JUNG, 1944 apud JACOBY, 2002, p. 102).

Então, para Jung (1998), o homem tem a individuação como destino e, ao mesmo tempo, cabe a ele a decisão de viver de forma consciente esse processo, assumindo a responsabilidade pelo seu destino e, portanto, pelas suas consequências, inclusive reconhecendo se tem ou não capacidade para assumi-lo.

 

TORNANDO-SE JANE

Com base nesses dados, é possível observar, no filme de Jarrold, vários elementos que dialogam com o conceito junguiano de processo de individuação. Começando pelo próprio título: Becoming Jane em português, "Tornando-se Jane" (embora tenha recebido, no Brasil, o título Amor e inocência), que sugere a existência de um modo especial de ser Jane, que não é realizado simplesmente pelo nascimento, mas que precisa ser descoberto e despertado de alguma maneira. O nome no título carrega certa importância, não se refere a uma mulher simplesmente registrada com ele, mas a uma mulher que se tornou, especialmente, "A Jane". O filme, então, mostra como é despertada a essência da personagem principal e como ela realiza esse modo de ser. Temos aí, claramente, um diálogo com o processo de individuação, que pode ser definido como a realização da totalidade do ser, como o processo pelo qual o indivíduo torna-se ele mesmo.

A srta. Austen era uma jovem inteligente, que tinha um hábito incomum para uma jovem naquela época: escrever. Ela gostava de ler e escrever e foi muito estimulada por seu pai, o clérigo da região. Tinha pensamentos livres em uma época em que as mulheres deviam permanecer silenciosas e submissas para serem respeitadas. Em um sermão, no início do filme, o sr. Austen diz: "Se uma mulher tiver uma superioridade específica, por exemplo, uma mente profunda, é melhor que essa profundidade seja mantida em segredo".

O movimento em sua vida tem início com o noivado de sua irmã mais velha, pois isso evidenciava para sua família a necessidade de ela também casar-se. Sua mãe, sra. Austen, afirma nos primeiros minutos de filme: "Essa menina precisa de um marido!". Além disso, são tempos difíceis para sua família, então, a mãe de Jane incentiva a união de sua filha com o sr. Wisley, sobrinho de uma aristocrata local, Lady Gresham. Jane revolta-se, pois não aceita a ideia de um casamento baseado em interesses financeiros, ela quer casar-se por afeto. Nesse momento, o processo de diferenciação se fortalece. Jane não pode mais adaptar-se ao mundo exterior, aos padrões morais e aos modos aceitos de viver. Ao questionar, começa a ser discriminada, primeiro por sua mãe e posteriormente pela sociedade, aqui representada principalmente pela aristocrata.

Enquanto isso, Jane conhece um espírito tão livre quanto o seu: Thomas Lefroy é um jovem inteligente, porém pobre, que vive em Londres estudando direito sob a tutela de seu tio juiz. Seu tio quer que ele o substitua e que seja digno de herdar sua fortuna, porém o jovem Tom o decepciona frequentemente, mostrando-se um jovem devasso e irresponsável. Sarcástico e bem humorado, Tom critica a Justiça e a classe dos advogados, uma justiça feita para os ricos e cuja principal função era proteger o direito à propriedade de seu grande inimigo, a plebe. Como castigo pelo seu comportamento, o juiz envia Tom para a casa de seus parentes em Hampshire, onde ele conhece Jane.

Os dois apaixonam-se, porém seu amor não é aceito pelo tio juiz e tem de ser interrompido. Nesse momento, Jane ainda não conseguiu oferecer nada à coletividade, critica e nega seus modos autorizados de viver, sua moral, seus costumes, mas ainda não pode mostrar um caminho novo, um equivalente. Então, ela vive o desprezo ao qual Jung se refere como não só natural, mas também necessário aos que vivem a individuação. Segundo o autor, esse desprezo deve-se ao fato de esse indivíduo ser um desertor na sociedade, rejeitando as normas e a ordem da mesma e, portanto, esse desprezo poderá ser superado apenas quando o sujeito for capaz de oferecer seu equivalente. Além disso, Jung (1998, p. 24) afirma que "quem não puder fazê-lo deve submeter-se à exigência direta da coletividade, isto é, [...] à imitação". Então, Jane viu-se obrigada a seguir pelos caminhos autorizados e, por sorte (ou não), o sr. Wisley ainda estava disposto a casar-se com ela.

Logo depois, o sr. Lefroy retorna para declarar-se a Jane e os dois decidem fugir. Nesse momento, os dois sentem-se obrigados a cumprir seu destino, uma vez que a tentativa de se enquadrar fora frustrante. Assumindo o amor repudiado pela sociedade, julgado como não apropriado pelo juiz e pela família Austen, eles assumiriam sua diferença e a viveriam, mesmo que por isso fossem expulsos de sua coletividade. Jane tinha de deixar sua família e seu noivo, Tom tinha de abrir mão da herança que receberia de seu tio e da possibilidade de um grande futuro profissional. Mesmo assim eles viveriam um caminho já traçado, o caminho do casamento, mesmo que fosse proibido e vivido na pobreza. Esse caminho fora seguido por muitos outros, inclusive pelos pais de Jane e de Tom que também escolheram casar-se por afeto, porém foi essa escolha que levou ambos à pobreza.

Porém, no meio do caminho, a carruagem em que eles fugiam atola. O que antecipa o desfecho da história, não será assim tão simples. Enquanto Tom ajuda a empurrar a carruagem, Jane encontra nas coisas dele uma carta da Sra. Lefroy, mãe de Tom, agradecendo a ele o dinheiro que mandara, pois viviam em situação financeira muito problemática e era, portanto, essencial que o filho dividisse com eles a mesada que recebia de seu tio. Assim, Jane percebe que o amor dos dois deveria ser sacrificado, pois não deveria ser vivido de forma egoísta, prejudicando todos à volta. Mesmo porque, caso contrário, ao ser responsável pela miséria da família Lefroy, o amor poderia ser consumido pela pobreza, pelo arrependimento e pela culpa. Como disse seu pai, sr. Austen: "Nada destrói o espírito como a pobreza".

Essa foi a decisão mais importante do filme, mas Jane a toma de maneira segura e ética, percebendo que a individuação não pode ser um processo individualista, não pode ser vivida sem levar em consideração o outro. Então, abre mão de mais um caminho traçado para viver o seu destino e seguir o seu padrão moral e ético.

Volta para Hampshire, onde suporta o desprezo da sociedade por desonrar o compromisso assumido com o sr. Wisley. Ela vive um processo de individuação solitário por ser incompreendida e por não ter, no caso de Jane, o seu amor. Ela já não se identifica com a persona, que foi devolvida ao inconsciente, de forma a fazer surgir o outro pólo, a individualidade. Ou seja, já não se identifica com a figura da esposa, posição aceita para as mulheres na época, mas apenas com a escritora, solteira e independente, porém ainda não produziu seu equivalente, para ser absolvida pelo rompimento com os valores da coletividade.

E assim a individualidade surge como um pólo que polariza também o inconsciente que, por sua vez, produz o pólo oposto: o conceito de Deus [aqui, opondo-se à sociedade, que era representada pelo inconsciente da psique coletiva].

O indivíduo precisa agora consolidar-se, separando-se totalmente da divindade e tornando-se ele mesmo. Com isso e ao mesmo tempo separa-se da sociedade. Exteriormente mergulha na solidão e internamente, no inferno, no afastamento de Deus. E, assim, carrega-se de culpa. Para expiar essa culpa, entrega seu bem à alma, que o leva a Deus (inconsciente polarizado), e Deus dá um presente (uma reação produtiva do inconsciente) que a alma traz para o indivíduo que o entrega para a humanidade. (JUNG, 1998, p. 25)

Assim, o presente que Jane recebe de seu inconsciente é a criatividade para produzir sua obra literária, que é o que ela entrega à humanidade, seu legado, seu equivalente. Sua obra expia sua culpa e a absolve perante a sociedade, de forma que ainda hoje, séculos depois, Jane Austen é considerada uma das maiores escritoras da língua inglesa. No filme, seu coroamento acontece no final, quando é reconhecida em um teatro por fãs de seu trabalho, mulheres inspiradas por seus romances.

Outra referência que o filme faz a Jung é a mandala. Quando o filme insinua que Jane se tornou escritora, ela é mostrada em sua escrivaninha, escrevendo enquanto os outros festejam o casamento de seu irmão,2 então, sua imagem é sobreposta por uma grande mandala, ficando Jane no centro dessa imagem.

O conceito de mandala, palavra que, em sânscrito, significa círculo, foi trazido do pensamento oriental: são figuras circulares ou retangulares que tendem para o centro, geralmente são simétricas, mas podem não ser. Na cultura oriental, são usadas para contemplação e meditação, visando que o sujeito perceba interiormente Deus e, assim, se perceba como deus. Jung (2000) observou em seus pacientes o surgimento desse símbolo, em sonhos e fantasias, em momentos de sérias crises, trazendo consigo uma sensação de equilíbrio e ordem. Com isso, concluiu que se tratava de representações do self, da totalidade organizadora do indivíduo.

Seu tema básico é o pressentimento de um centro da personalidade, por assim dizer um lugar central no interior da alma, com o qual tudo se relaciona e que ordena todas as coisas, representando ao mesmo tempo uma fonte de energia. A energia do ponto central manifesta-se na compulsão e ímpeto irresistíveis de tornar-se o que se é, tal como todo organismo é compelido a assumir aproximadamente a forma que lhe é essencialmente própria. Este centro não é pensado como sendo o eu, mas, se assim se pode dizer, como o Si-mesmo. (JUNG, 2000, p. 353)

Jung (2000) faz questão de frisar que o self (ou si-mesmo), não corresponde somente ao centro da mandala, mas a todo o seu entorno, que estaria incluindo tudo o que faz parte do self como arquétipo da totalidade.

Essas imagens, então, insinuam que Jane alcançou seu centro e, assim, realizou sua essência, ou seja, tornou-se quem era de fato e, com isso, tornou-se uma pessoa completa, centrada, ordenada e equilibrada, apresentando, assim, os atributos da mandala.

É claro que, na realidade, esse processo não tem fim em vida, terminando apenas com a morte do indivíduo, e, portanto, não pode ser coroado em um dado momento, como foi no filme.

 

CONCLUSÃO

A partir da presente análise foi possível perceber um diálogo entre a obra de Jarrold e a de Jung, de maneira que o filme nos mostra um exemplo de um processo de individuação que não foi fácil, mas que também parecia inevitável. Assim, como um destino já traçado, toda a vida da personagem principal a leva para a realização de sua totalidade, de seu self. Como foi dito, a proposta deste trabalho era mostrar os elementos do longa-metragem que fazem referência ao conceito junguiano de individuação e possibilitar, assim, um novo olhar sobre a obra de Jarrold.

Foram mostradas, a partir desta análise, as dificuldades por que passam os indivíduos ao se diferenciarem da coletividade, como o caminho é árduo e solitário e como exige paciência, força e coragem. Segundo Von Franz (1999), o processo de individuação é um processo natural, que pode ser vivido satisfatoriamente por qualquer indivíduo que tenha honestidade e perseverança para trabalhar em si mesmo.

 

NOTAS

1 De acordo com Nise da Silveira (1981), Jung define os complexos como constelações afetivas que possuem um núcleo arquetípico, portanto coletivo, e um conteúdo pessoal, composto pelas experiências pessoais consteladas pelo núcleo. Esses complexos possuiriam uma carga energética própria e também certa autonomia em relação à consciência, capazes de influenciar a reação do indivíduo quando "despertado" por algum conteúdo externo. Foram conceituados com base nas experiências de associação de palavras, nas quais foram observadas intensas reações dos pacientes a certas palavras que "tocariam" direta ou indiretamente um complexo afetivo.
O complexo egóico seria, portanto, o principal complexo da pisque, cujo núcleo arquetípico seria o arquétipo do self. Ele constituiria o centro da consciência, de forma que todo conteúdo, para tornar-se consciente, teria que se relacionar com esse complexo.

2 Seu irmão casa-se por interesse com sua prima viúva, Condessa de Feuillide. Nesse momento, aparece também esse contraste, ele casando-se por interesse e Jane solteira, escrevendo, abrindo mão de privilégios e status.

 

REFERÊNCIAS

BECOMING Jane. Direção: Julian Jarrold. Produção: Scion Films; Julian Jarrold. Blueprint Pictures, 2007. 1 DVD (121 min.         [ Links ]).

COLLMAN, W. "Models of the Self". In: CHRISTOPHER, E., SOLOMON, H. (Org.). Junguian thought in the modern world. London: Free Association Books, 2000.         [ Links ]

JACOBY, M. Individuation and Narcissism: the psychology of the Self in Jung and Kohut. New York: Routledge, 2002.         [ Links ]

JUNG, C. G. A vida simbólica: escritos diversos. In: ______ Obras completas de C. G. Jung. Tradução Edgar Orth. Petrópolis: Vozes, 1998. v. 18, n.2.         [ Links ]

______. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. In: ______. Obras completas de C. G. Jung. Tradução Maria Luiza Appy e Dora Mariana R. Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2000. v. 9, n.1        [ Links ]

SILVEIRA, N. Jung: vida e obra. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.         [ Links ]

VON FRANZ, M. L. Archetypal dimensions of the psyche. London: Shambala, 1999.         [ Links ]

 

 

Recebido em: novembro de 2008
Aceito em: setembro de 2009

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