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Fractal : Revista de Psicologia

versão On-line ISSN 1984-0292

Fractal, Rev. Psicol. vol.24 no.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-02922012000100008 

A psicoterapia diante da liberdade humana: uma discussão orteguiana

 

Psychotherapy in the face of human freedom: a orteguian discussion

 

 

Eloisa Nogueira Aguiar

Psicóloga, Doutorado em Letras (Literatura Comparada) pela Universidade Federal Fluminense e Universidade de Lisboa/Portugal (sanduíche), Endereço: Universidade Estácio de Sá, Campus Resende, Rua Zenaide Vilela s/n - Jardim Jalisco. Resende, RJ – Brasil, CEP: 27515-010, E-mail: eloaguiar@zipmail.com.br

 

 


RESUMO

O artigo aborda a liberdade humana a partir do legado filósofo de José Ortega y Gasset como possibilidade de caminho para a compreensão humana. Afinal, a psicoterapia lida essencialmente com o problema da liberdade, já que o homem responde ao que lhe vem ao encontro. O filósofo madrileno, ao colocar o homem como protagonista de sua vida, favorece a abertura a um modo específico de atenção, demarcando uma atitude clínica que renuncie qualquer redução do humano a dimensões meramente orgânicas, psicológicas ou sociais, reduzindo-o, portanto, à figura amorfa de quem, nada ou pouco, pode fazer por si mesmo.

Palavras-chave: psicoterapia; liberdade humana; Ortega y Gasset.


ABSTRACT

The article deals with human freedom from the legacy of philosopher José Ortega y Gasset as a possible way to human understanding. After all, psychotherapy deals primarily with the problem of freedom, as the man replies that comes to the meeting. The philosopher of Madrid, to put man as the protagonist of his life, promotes openness to the specific attention, marking a clinical attitude to abandon any reduction in the human dimensions purely organic, psychological or social, reducing it, so the amorphous figure of whom little or nothing you can do for yourself.

Keywords: psychotherapy; human freedom; Ortega y Gasset.


 

 

Considerações Iniciais

A psicoterapia lida, essencialmente, com o problema da liberdade, já que o cliente responde ao que lhe vem ao encontro. Entretanto, a noção de "liberdade humana" só pode ser devidamente compreendida a partir de um modo específico de atenção, demarcando uma atitude clínica que renuncie qualquer redução do humano a dimensões meramente orgânicas, psicológicas ou sociais. Situação esta que advém da produção de um sem-fim de saberes sobre o homem, mas nunca a partir dele mesmo. 

No viés dessas considerações iniciais, encontra-se o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955).Ele ressalta que, quando se aborda o psíquico a partir da perspectiva da ciência natural, nada se aclara do que sentimos como mais estritamente humano:

[...] o prodígio que a ciência natural representa como conhecimento de coisas contrasta brutalmente com o fracasso dessa ciência natural ante o propriamente humano. O humano escapa à razão físico-matemática como a água por uma peneira. (GASSET, 1982[1935], p. 36).

A psicologia em moldes tradicionais coloca a subjetividade como algo que existe dentro de um determinado sujeito, de onde sai um enfeixamento de valores e de concepções de mundo e de homem. Mais ainda, a essa subjetividade ninguém teria acesso, nem mesmo o próprio sujeito, exceto se submetido a um processo de autoconhecimento, à psicoterapia.

O alcance dessa forma de pensar mantém-se muito forte e presente na atualidade, apesar das várias reflexões em sentido contrário, como tem ocorrido no enfoque fenomenológico-existencial. Este, ao fazer uso de considerações filosóficas acerca do que é o homem em seu mundo, remete-nos a novos paradigmas de compreensão, direcionando-nos, dessa forma, à prática de uma psicoterapia, na qual o cliente é percebido como único em sua manifestação na vida, e não uma máquina desregulada, necessitando do "ajuste" ou da decifração de um técnico. Assim, o exercício clínico deveria se alimentar do viver, mais precisamente da experiência/relação do eu ou da subjetividade com suas circunstâncias.

Desse modo, desde sua primeira obra publicada, Meditações do Quixote, em que nos apresenta sua famosa sentença "Eu sou eu e minhas circunstâncias" (GASSET, 1967[1914], p. 52), aponta para uma subjetividade que só pode ser construída de maneira relacional, como ser-com, o que descarta a noção de ser-em-si, de substância alojada em um mundo à parte. A vida - a de cada um - corresponde a um eu que está envolto, por completo, na sua circunstância, e que se faz junto com ela.

Ortega não assume, portanto, a proposta de Dilthey de ciência do espírito para enquadrar o saber psicológico, pois em seu entender tal perspectiva persegue um objetivo similar ao das ciências da natureza: o estudo de uma substância (GASSET, 1983[1932]). Por isso, dá um salto à perspectiva existencialista, ao negar que a psicologia seja tanto ciência da natureza como do espírito; opta, então, por uma ciência da existência, isto é, da vida como drama.

Dessa forma, com o auxílio de Ortega, propomos repensar a compreensão humana e, com ela, a postura diante do ato clínico, em que acolher o outro em seu sofrimento subjetivo é também considerar sua circunstancialidade, o que leva à des-reificação de uma concepção de natureza universal. Mas, então, como introduzir a liberdade humana num campo de saber e numa práxis na qual a ordem intrapsíquica dos processos psicológicos ainda é dominante?

As concepções de Ortega y Gasset nos convidam a uma determinada postura diante do outro, entendendo-o como sujeito ativo, que pensa, constrói e desconstrói sentidos em sua abertura ao mundo. Afinal, o que está em foco na clínica é a compreensão da vida humana, não genérica, mas aquela que é saboreada por cada um no embate com as circunstâncias. Ou seja, o que é denunciado no cenário da psicoterapia é a nossa singular degustação da vida com os mais diversos e antagônicos sabores. De outro modo, o fenômeno radical Vida não seria o enigma que é (GASSET, 1971[1958]).

 

O raciovitalismo ou o resgate da vida: a proposta filosófica de Gasset

Ortega y Gasset entende o método das ciências particulares como abstrato, referindo-se apenas ao geral. Ora, mas o geral não existe. Assim, propõe que os "vazios" dos conceitos devam ser preenchidos com determinações concretas a fim de que seja captada a concretude do real, pois a tristeza que  invade o indivíduo não é "a tristeza em geral". A tristeza enquanto vida, vivida por mim, não é uma ideia genérica; é também algo concreto, único, individual (GASSET, 2002[1910]).

Dito isso, podemos melhor entender sua proposta filosófica: o "raciovitalismo", filosofia da razão vital. O filosofar, segundo a razão vital, é o procedimento que traz novas possibilidades para pensar o mundo e entender nossa existência nele. Afinal, para Ortega y Gasset, o homem tem a luz como imperativo, ou seja, é ontologicamente abertura vital doadora de sentido. Eis o significado do termo "razão" em sua filosofia.

A razão vital é a razão aberta que considera o homem tal como aparece, isto é, que tenta compreender a vida humana na sua realidade surgente originária. Revela a vida, porque toma o homem na originalidade da sua consistência; não parte de uma definição para, em seguida, deduzir, "more geométrico", largas cadeias de raciocínio sobre o homem; a razão vital não é uma teoria pura, formal sobre a vida, embora seja logos, conceito rigoroso (GASSET, 1982[1935]). É a única que dá razão do real concreto; a razão pura é incapaz de olhar as coisas senão como "casos" perfeitamente intermutáveis e submetidos unicamente a leis genéricas (GASSET, 2002[1910]).

É preciso esclarecer que a razão vital não nega o valor da razão pura, apenas recusa sua absoluta hegemonia e a pretensão de ser a razão originária, primordial, que é uma e a mesma coisa que "viver". Por isso, sem ela, não pode passar o homem. Ora, originariamente, "razão" significa "dar a razão" a alguma coisa, o que supõe ter-se previamente "dado conta" de algo. E isso é a vida: dar-se conta, sem que obrigatoriamente se "conheça" aquilo de que se dá conta. Este é o motivo que faz o filósofo dizer que a vida é problemática e o homem, "o problema da vida" (GASSET, 2002[1910]), ou seja, aquele que lhe coloca questões.

O animal, por exemplo, não faz da vida um problema porque, embora viva, não se dá conta de que vive. A vida cuja consistência reside em "dar-se conta" e "dar conta de" traz em si, radicalmente, o sentido originário do conceito de "razão": a razão primordial é a da "vida", que funciona na vida e em vista dela; a que faz parte integrante do viver.

Eis aí o motivo pelo qual Ortega y Gasset repete incansavelmente que o pensamento é uma função vital; consiste no uso do intelecto para esclarecer a vida, descobrindo-nos o sentido do enigma circunstancial. Em outras palavras, com o homem o mundo enche-se de sentido, e quando o mundo se esvazia é de sentido que se torna vazio. Ou seja: "[...] o homem é uma entidade estranhíssima que para ser o que é necessita antes averiguá-lo, necessita, queira ou não, perguntar-se o que são as coisas a seu redor e o que ele é em meio às coisas." (GASSET, 1989[1933], p. 31).

Além disso, "[...] se a inteligência humana fosse de verdade o que a palavra indica - capacidade de entender - o homem teria imediatamente entendido tudo e estaria sem nenhum problema, sem lide penosa pela frente" (GASSET, 1989[1933], p. 32). É, portanto, essa "lide" que o define e ela se chama "viver". Portanto, o homem pode passar sem a razão pura, como de fato viveu longo tempo sem a razão físico-matemática, mas sempre o acompanhou a forma de razão constitutiva da "vida", ou, nas palavras de Ortega y Gasset :

[...] Pode-se viver sem raciocinar geometricamente, fisicamente, economicamente, politicamente. Tudo isso é razão pura, e a humanidade viveu de fato milênios e milênios sem ela - ou só com rudimentos dela. [Mas o homem não pode libertar-se] [...] da outra razão, da irremediável; da que, queira-se ou não, é impossível prescindir porque é uma mesma coisa que viver: a razão vital (GASSET, 1989[1933], p. 79).

Se o homem tem uma missão de claridade, se a luz é "imperativo humano"  --aliás, título de um parágrafo de Meditações do Quixote --, é por ele ser ontologicamente abertura vital doadora de sentido, isto é, a "razão" (GASSET, 1967[1914], p. 105-108). Assim, a razão pura deixa de ser a Razão para se tornar uma forma derivada e secundária de uma "razão" mais englobante: a razão vital. Não há, portanto, uma oposição irredutível entre a vida e a razão.

A razão vital, ao contrário da razão naturalista, leva ao conhecimento do indivíduo. E apenas um método biográfico conseguirá definir a "vida", ensinar o que é "este" homem (não qualquer um), recriando sua trajetória vital.

Nesse sentido, compreender o homem não consiste em prever sua conduta mediante o conhecimento antecipado das leis que, por hipótese, regem sua "natureza", mas recolocá-lo em um contexto, em uma "circunstância" cujo principal ingrediente é o tempo. Compreender o homem é, portanto, restituí-lo à história, historizá-lo (GASSET, 1982[1935]). Afinal, ele está aberto ao mundo e às coisas, e é nesta recíproca relação que desenvolve sua racionalidade. Por isso, a razão não é um arquivo ou ordenador frio e insensível, conforme pensavam os racionalistas, empiristas e kantianos, mas, sim, função da vida, é uma razão vital, e consequentemente, histórica. O homem é o que lhe ocorreu, o que fez.

[...] O homem não tem natureza, senão que... tem história. [...] Porque o ontem não pode ser esclarecido sem o anteontem, e assim por diante. A história é um sistema - o sistema das experiências humanas, que formam uma corrente inexorável e única (GASSET, 1982[1935], p. 49-51).

Então, para comprovar algo humano, pessoal, é preciso contar uma história fundamentada na concretude da vida, da vida de cada um (GASSET, 1982[1935]). Por exemplo, suponhamos que alguém que conhecemos tenha tentado se matar. Ora, não estamos diante de uma figura abstrata; seria inútil, portanto, para compreender o gesto do desesperado, ler "ensaios" sobre o suicídio. Importa, sim, saber por que motivos este ente determinado, aqui e agora, teve este gesto. A compreensão do gesto implica, então, o conhecimento de todos os seus antecedentes, pois o gesto não passa de um desenlace, de um desfecho, que tentou pôr termo à vida, e, portanto, à história de um homem.

Dito de outra forma, a realidade humana se expressa de muitos modos, nasce de uma história particular que reúne experiências que não se repetem. É, pois, um fato normal que cada pessoa se mostre de um modo, mesmo partilhando de uma cultura comum. Consequentemente, os parâmetros metodológicos para que possamos aprofundar e desenvolver uma compreensão acerca do homem ou uma ajuda terapêutica, por exemplo, têm de estar fundados nessa especificidade.

Trata-se de pensar o "eu com as coisas", ou melhor, o eu transformando as coisas, porque viver é fazer algo, é escolher, dentro das inúmeras possibilidades que a circunstância apresenta, aquela que se aproxima da espontaneidade mais íntima da vida de cada um. Pode-se dizer, então, que a pretensão de Ortega y Gasset é pensar uma relação complementar entre o homem e o mundo. O sentido dessa coexistência (eu e minha circunstância) não é um simples "estar aí sem nada a ver um com o outro" (GASSET, 1973[1957], p. 124), mas uma disposição ao diálogo. Desse defrontar do eu com a circunstância é que surgirá o "quefazer" vital a impulsionar a dramática condição da vida humana no incessante ocupar-se com o mundo de  forma livre.

 

O defrontar do eu com o mundo: o apelo ao exercício da liberdade

Dissemos anteriormente, ancorados no pensamento orteguiano, que se o homem fosse dotado de inteligência, entendida como capacidade de compreensão, estaria livre de questões, de problemas, enfim, estaria liberto de uma lida penosa pela frente.   Essa lida chama-se "viver", e este, por sua vez, pressupõe um homem sempre inserido em uma determinada circunstância, ou seja, encontra-se, de imediato e sem saber, como submerso em um contorno insubstituível, neste de agora (GASSET, 1989[1933]). Ou, em suas palavras, "viver é, evidentemente, em sua própria raiz, achar-se diante do mundo, com o mundo, dentro do mundo, submerso em seu tráfego, em seus problemas, em sua trama irrequieta" (GASSET, 1971[1958], p. 167).

Porém, a vida a que somos lançados ou arrojados, aquela em que facticamente estamos, não nos é oferecida pronta; é-nos outorgada como tarefa problemática. O que se coloca à nossa disposição é algo vazio, uma possibilidade. Esse caráter da vida, colocado por Ortega y Gasset em obras como Meditação da Técnica (1939) e História como Sistema (1935), foi também visto por Jean-Paul Sartre. O filósofo francês, em sua famosa conferência O Existencialismo é um Humanismo, proferida em 1946, anuncia que "o homem [...] de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo" (SARTRE, 1987[1946], p. 6).

Assim, a vida, a "nossa" vida, a de cada qual, é pura tarefa e inexorável "quefazer":

A vida dá muito que fazer; mas, de resto, não é senão essa tarefa que dá a cada um. [...] O homem (...) tem que fazer-se a si mesmo, autofabricar-se [...] Para o homem, viver é, evidentemente e antes de qualquer coisa, esforçar-se em que tenha o que ainda não tem; isto é, ele, ele mesmo [...]; em suma, é produção (GASSET, 1963[1939], p. 43-44).

Portanto, no fazer a própria vida o homem tem de levar em conta a circunstância em que se encontra. Em suma, fazer a própria vida começa por ser a invenção dela: "Com isto quero dizer que a vida não é fundamentalmente como tantos séculos acreditaram: contemplação, pensamento, teoria. Não; é produção, fabricação [...]." (GASSET, 1963[1939], p. 44). E, adiante, complementa:

O homem, queira ou não, tem que se fazer a si mesmo, autofabricar-se. Esta última expressão não é de todo inoportuna. Ela sublinha que o homem, na própria raiz de sua essência, encontra-se, antes que em qualquer outra, na situação de técnico (GASSET, 1963[1939], p. 44).

Daí Ortega y Gasset ressaltar o caráter essencialmente dramático da vida humana, que aponta para sua natureza, literalmente, po(i)ética, por não nos ser dada pronta, mas por fazer. Dramático no sentido de um incessante "quefazer", e insegurança de alcançar aquilo que com o fazer se persegue. Aliás, a palavra grega "drão" significa, precisamente, atuar, executar (drama é a forma nominal do verbo "drão"). Mas, é um atuar sem garantias, inseguro (GASSET, 1978[1936]).

Tal situação é bem exemplificada em um fragmento de seu curso ministrado em 1929, e que se transformou na obra Que é filosofia?, publicada postumamente em 1958. Aqui, o filósofo espanhol nos oferece uma metáfora da vida humana que antecipa perfeitamente a ideia sartriana da precedência da existência sobre a essência:

Nossa vida começa por ser a perpétua surpresa de existir, sem nossa anuência prévia [...] Um símile esclarecedor seria o de alguém que, adormecido, é levado aos bastidores de um teatro e ali, despertado por um empurrão, é lançado a toque de caixa diante do público. [...] Esse personagem [...] se acha envolvido numa situação difícil sem saber como nem por que, numa peripécia: a situação difícil consiste em resolver de algum modo decoroso aquela exposição diante do público, que ele não procurou nem preparou nem previu. [...] A vida é sempre imprevista. Não nos anunciaram antes de entrar nela [...], não nos prepararam" (GASSET, 1971[1958], p. 168).

O homem, portanto, faz-se a si mesmo, a partir de um script que ele próprio compõe, "é o romancista de si mesmo, original ou plagiário" (GASSET, 1982[1935], p. 43).

A realidade da vida consiste, pois, não no que é para quem de fora a vê, mas no que é para quem de dentro dela a vive. Daí decorre que conhecer outra vida, que não é a nossa, obriga a intentar vê-la não a partir de nós, mas dela mesma, a partir da pessoa que a vive. Por essa razão, em vários pontos de suas aulas( muitas das quais foram publicadas nos volumes de suas Obras Completas), Ortega y Gasset apressa-se em dizer que a vida é drama: o caráter de sua realidade não é como o de uma mesa cujo ser consiste não mais que estar aí, mas em termos que ir fazendo cada qual por si mesmo a própria vida, instante após instante, em perpétua tensão de angústias e alvoroços, sem que nunca haja plena segurança. Não é essa a definição de drama? Drama não é uma coisa que está aí - não é em nenhum bom sentido uma coisa, um ser estático --, mas o drama passa, acontece, exige atuação.

Nesse sentido, o homem se define por sua ação, por seus atos; e, o que define o teatro, pelo menos o teatro ocidental, o teatro que nós conhecemos, é a ação; os personagens têm uma ação a cumprir. O homem não é uma "res cogitans", mas uma "res dramática",  um "drama", uma unidade dramática do eu e mundo, ou seja, do eu e sua circunstância, a qual lhe oferece enormes dificuldades com as quais tem de lutar para realizar seu programa vital.

E só há drama quando não se sabe o que vai acontecer, ou quando cada instante é puro perigo e trêmulo risco. Portanto, em vez do imperativo nietzschiano "vivei em perigo", Ortega y Gasset (1973[1957], p. 66) propõe "vivei em alerta". A condição ontológica do homem é de perigo; portanto, no plano decisivo de sua vida, não cabe uma escolha deste gênero. Recomendar o perigo é redundância; não há vida humana sem risco.

A vida é, pois, drama, algo que se passa a alguém e consiste, como o drama, nisso que passa e nisso que o personagem faz, por algo e para algo, porque se encontra em uma situação determinada e pretende ser justamente esse personagem e não outro. É eleição, justificação, responsabilidade, porque apenas posso escolher por algo e para algo. Daí o homem ser forçosamente livre, porque não tem sua vida feita, mas necessita fazê-la, essencializá-la (como diria Sartre). Ou, nas palavras de Ortega y Gasset, "A vida é um gerúndio, e não particípio: um faciendum, e não um factum" (GASSET, 1982[1935], p. 42, grifo do autor).

Pode-se vislumbrar que o conceito de liberdade na filosofia orteguiana se insere numa perspectiva criadora da vida: o humano se encontra frente às suas decisões, comprometido com o que projeta ser, lançado no mundo das possibilidades sem indicativos a priori que possam assinalar pressupostos no caminho do existir. Ser livre é, então, não predispor de identidade constitutiva.

A grande tarefa do homem é, portanto, sua própria construção, sua própria fabricação (GASSET, 1963[1939]). Sua condição de estar aberto ao que lhe vem de encontro, retira-lhe a inoperância frente à vida. Portanto,

É um erro crer que a vida é uma operação receptiva, um transitar por entre as coisas, um sofrer passivo e gozar o que nos vem de fora [...]; pelo contrário [...] viver é interferir; [...] um processo de dentro para fora, em que invadimos nosso contorno com atos, obras, costumes, maneiras, produções, segundo o estilo originário que está prescrito na nossa sensibilidade (GASSET apud ARAÚJO, 2007, p. 6).

À diferença de outros seres, o homem não tem "identidade constitutiva"; tem que se programar a si mesmo, e isso é a liberdade. Na tensão dialética do eu com as circunstâncias, cada qual se determina, forja sua realidade, constrói sua biografia. Analogamente como formularão os filósofos existenciais, Ortega y Gasset proclama que "viver é sentir-se 'fatalmente' forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo" (GASSET, 1962[1929], p. 102, grifo do autor).

Desse modo, é um erro pensar o homem como "[...] arremessado para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajetória está absolutamente predeterminada" (GASSET, 1962[1929], p. 102). Em outras palavras, é um erro ver o indivíduo com um psiquismo universal. Aliás, o que se denomina de "eu", na sentença "eu sou eu e minhas circunstâncias", não se resume à nossa pessoa, nem o encontramos dentro de nós, mas revela-se por meio de nossas ações com as quais realizamos o percurso da nossa existência. Nesse percurso biográfico encontram-se as respostas sobre o sentido da vida e o sentido que fazemos nela. Uma vez que nossa biografia é uma história em construção, toda busca do sentido dessa biografia é o que nos pode ajudar para o redirecionamento dos nossos rumos e destinos singulares.

O que é fundamental para Ortega é essa correlação insuperável entre o sujeito e o mundo. É preciso, pois, a libertação da sugestão tradicional que faz sempre consistir a realidade em alguma coisa, seja corporal, seja mental. O homem não é coisa nenhuma, mas simplesmente aquele que tem que viver com as coisas, entre coisas (GASSET, 2006[1940]). Por isso, o viver não é oculto para quem vive, ao contrário, é o próximo, já que obriga a uma conduta respondente, operante e responsável.

É claro, no entanto, que boa parte das pessoas procura evitar a "preocupação", ou seja, busca não se ocupar com a própria vida, entregando-se à impessoalidade; mas Ortega se apressa em convidar-nos a aceitar "esse mundo de aljofre como matéria para fazer uma vida mais completa", mais autêntica (GASSET, 1971[1958], p. 192). Afinal, apenas o homem pode subtrair-se da imediatez das coisas e voltar-se às ideias que criou na intimidade de sua reflexão. Ou seja, primeiramente,

O homem se sente perdido, naufragado nas coisas; é a alteração. [Depois], com enérgico esforço, recolhe-se à sua intimidade para formar idéias sobre as coisas e seu possível domínio; é o ensimesmamento, a vita contemplativa como diziam os romanos (...) [Por fim], torna a submergir no mundo para atuar nele conforme um plano preconcebido; é a ação, a vida ativa, a práxis (GASSET, 1973[1957], p. 62, grifo do autor).

Por isso, Ortega y Gasset afirma que "não se pode falar de ação senão na medida em que esteja regida por uma prévia contemplação; e vice-versa, o ensimesmamento não é senão um projetar a ação futura" (1973[1957], p. 62). Na formulação de Ortega, a seguir, fica evidenciada a visão de homem a partir da negação dos instintos e da afirmação da capacidade de valorar:

[...] é coisa notória que no homem os instintos estão quase apagados, pois o homem não vive, em definitivo, de seus instintos, já que se governa mediante outras faculdades, como a reflexão e a vontade, que reatuam sobre os instintos. (GASSET, 1963[1939], p. 6).

O filósofo destaca, então, a capacidade de "ensimesmar-se", que é a habilidade que o ser humano tem de desvincular-se das imposições externas, das circunstâncias. É o momento efetivo da criação de outra racionalidade, que não pode ser desprezada quando se pretende entender a complexidade do indivíduo humano. Desta feita, a vida, ou como prefere Ortega, "minha vida", é "encontro com a situação concreta onde estou e a partir da qual tenho que fazer algo para continuar vivendo" (GASSET, 1971[1958], p. 190). Viver é desafio de alterar a circunstância para dar sentido à vida, "minha vida"; é "preocupar-se", ou Sorge (como nos assinala Heidegger e com quem, nessa concepção, Ortega concorda).

No âmbito da afirmação que se tornou emblemática na filosofia orteguiana: "Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim" (GASSET, 1967[1914], p. 52) -  expressa pela primeira vez em Meditações do Quixote - , mundo não é por si só junto a mim e eu por meu lado aqui, junto a ele. Não! Mundo é o que está sendo para mim, no dinâmico ser frente e contra mim, e eu sou o que atua sobre ele, o que o olha e o sonha e o sofre e o ama ou o detesta. "Mundo é sensu stricto o que nos diz respeito", nos afeta - afirma (GASSET, 1971[1958], p. 167). Viver é, pois, este se ocupar com o mundo e saber-se ocupado com ele; é encontrar-se nele, afetar e ser afetado.

 A vida humana é a coexistência do eu com o mundo: "A verdade fundamental é a coexistência de mim com o mundo. Existir é primordialmente coexistir - é ver eu alguma coisa que não sou eu, amar eu a outro ser, sofrer eu das coisas" (GASSET, 1971[1958], p. 159). Nesse viés, como afirma Julián Marías, um de seus maiores discípulos, "o decisivo não é, nem as coisas, nem o eu, que são ingredientes parciais e abstratos de minha vida, senão o que faço com elas, o drama com personagem, argumento e cenário, que chamo minha vida" (MARÍAS, 1967[1949], p. 81).

O homem, então, é convocado à ação, a ocupar-se com o mundo, quer dizer, amar, odiar, pensar, imaginar, transformar, afetar e ser afetado, enfrentar o repertório de facilidades e dificuldades que ele nos impõe. Enfrentar no sentido de compreender, apreender, meditar. Salvaremos a circunstância se a entendermos em suas conexões efetivas, ao ligar coisa com coisa e tudo conosco, numa viva pertinência recíproca entre nós e nossa circunstância (KUJAWSKI, 1984). Ortega incita-nos à revisão da noção de "eu" substancializado, apontando para a perspectiva de um sujeito que constrói e se constrói nas interações com o mundo. Afinal, o gosto da maçã não está nem na maçã e nem na boca, mas no encontro das duas.

 

Palavras finais: a costura dos alinhavos

Vimos que, para Ortega y Gasset, o homem é lançado na vida como um tiro à queima-roupa. Sendo nos dada vazia, a vida nos é dada como tarefa, pairando, portanto, sobre nós o faciendum vital e a impossibilidade de evasão da circunstância existencial.

A vida é "quefazer" porque o homem tem que escolher o caminho-de-ser que prefere. A escolha mostra que a circunstância não é massa compacta de facticidade, sem fendas por onde respirar a liberdade. A circunstância não nos impõe um estilo de vida como se impõem ao aparelho as músicas que vai tocar (GASSET, 1982[1935]).

O homem é, pois, pura expectativa, e sua vida, puro projeto. Por isso, a vida é drama, luta que nos obriga a uma atuação imprevista. Assim, em vez de um "quefazer" já pronto, somos solicitados a inventar a vida, a nossa vida. Cabe a nós inventarmos, na pauta de nossa circunstância, quem vamos ser.

A margem deixada ao homem - mesmo nas situações mais dramáticas - que lhe permite viver a autenticidade do projeto de sua vida é a margem da liberdade. Assim, o conceito de "eu" não tem um sentido genérico abstrato, esquemático, permitindo atribuí-lo a A, B ou C, mas ganha em concretude quando o referimos a uma situação determinada, com suas próprias circunstâncias. Por isso, não podemos aplicar aos fenômenos humanos conceitos esvaziados das formas concretas de ocupação humana.

A liberdade entra em ação pelo estranhamento que o homem tem para com a realidade exterior que lhe é diferente de seus anseios. O fato de a vida humana ser "quefazer" implica a reação do homem às condições que se lhe apresentam.

A circunstância compreende o contorno físico composto pelas coisas que me são presentes ao sentido e o horizonte de possibilidades latentes, que Ortega denomina de "crenças". Fazem parte do contorno físico meu corpo e outros corpos que se apresentam como localizações, a realidade social, a sociedade stricto-sensu, a história e o repertório de crenças. Temos, pois, que fazer nossa vida contando com este horizonte de possibilidades, facilidades e dificuldades que a vida nos apresenta. "[...] Viver é achar-se num âmbito de temas, de assuntos que lhe dizem respeito. [...] Todo viver é ocupar-se com o outro que não é ele mesmo, todo viver é conviver com uma circunstância" (GASSET, 1971[1958], p. 167).

Com esses ingredientes, construímos nosso "projeto vital", que consiste em antecipar nosso viver efetivo, nossa vida como possibilidade. São nossos "projetos" que fazem com que existam para nós não simples atividades, mas literalmente "quefazer". A vida é, pois, antecipação de si mesma ou, nas palavras de Ortega, "futurização" (GASSET, 1971[1958], p. 171).

O filósofo espanhol utiliza o termo "futurização" para destacar o primado do futuro na vida humana. Como "[...] nossa vida consiste em decidir o que seremos [...] na própria raiz de nossa vida há um atributo temporal: decidir o que seremos - portanto, o futuro" (GASSET, 1971[1958], p. 171). Assim, sempre nos deparamos com o futuro:

[...] Eis aqui outro paradoxo. Não é o presente ou o passado o primeiro que vivemos, não; a vida é uma atividade que se executa para frente, e o presente ou o passado se descobrem depois, em relação com esse futuro. A vida é futurização, é o que ainda não é (GASSET, 1971[1958], p. 171).

Em outras palavras, o que nos move é o que pretendemos ser. Mas, dada a margem de liberdade que temos ante nosso contorno, tanto podemos ser fiéis ao nosso projeto, como negar-nos e falsificarmos nossa vida. Isso é possível porque não vivemos fechados em sua subjetividade, somos abertos às coisas e aos outros que nos vêm ao encontro. Portanto, pode o homem "alterar-se" (GASSET, 1973[1957]), menosprezar o exercício da liberdade, reproduzir, como uma máquina, um programa impessoal, fazer da vida, consequentemente, algo hermético.

No entanto, a filosofia de Ortega nos convoca à ação, ao nosso privilégio de poder alterar configurações, já que não encontramos coisas, senão que as colocamos ou as supomos. Afinal, o "problema" precisa de nós para ser problema; ele não existe aparte de nós.  É verdade que boa parte das pessoas evita a preocupação, ou seja, não deseja se ocupar com a própria vida. "[...] Para elas viver é entregar-se ao unânime, deixar que os costumes, os preconceitos, os usos, os tópicos se instalem em seu interior [...]" (GASSET, 1971[1958], p. 191). Na concepção orteguiana, essas pessoas seriam medíocres já que se ocupam de tirar de si o peso da própria vida, fogem da responsabilidade diante do próprio destino. É este o ideal do homem fraco: "fazer o que faz toda gente é sua preocupação" (GASSET, 1971[1958], p 191). Talvez, então, a psicoterapia seja o palco onde o cliente possa se deparar com isso.

Conclui o filósofo, "aceitemos esse mundo de aljofre como matéria para fazer uma vida mais completa" (GASSET, 1971[1958], p. 192). Este é o convite de Ortega, pois viver é intransferível. Ninguém pode viver por mim, responder aos desafios que tenho que resolver. É nesse sentido que a vida humana é responsabilidade inalienável:

O homem, cada homem, tem que decidir a cada instante o que vai fazer, o que vai ser no seguinte. Essa decisão é intransferível; ninguém pode substituir-me na faina de me decidir, de decidir minha vida. Quando me ponho nas mãos de um outro, fui eu quem decidiu e continuo decidindo que ele me dirija: não transfiro, pois, a decisão, mas apenas o seu mecanismo (GASSET, 1989[1933], p. 33).

É o que frequentemente vemos acontecer no cenário da clínica psicológica, em que clientes esperam não propriamente ser ajudados em seus problemas, mas tutelados. Ou seja, fogem do confronto (o que, sem dúvida, é mais confortável) com o que deixa de executar na tarefa intransferível de fazer-se, e buscam refúgio na suposta solução mágica delegada ao especialista.

Nesse sentido, a psicoterapia é ou deveria ser, tal qual o convite de Ortega, uma oportunidade para o cliente se deparar com a obrigatoriedade de seu "quefazer" e, não uma prática ortopédica, na qual o psicólogo, então, efetiva-se como o agente da "mudança" do outro, suprimindo do cliente sua autonomia e participação em seu processo constante de vir-a-ser. É preciso, pois, na esteira do legado orteguiano, abrir na clínica psicológica espaço para vislumbrar o cliente como perpétuo ultrapassamento da psique (o já feito) em um eterno salto para o fazer-se. Assim, a palavra "clínica" que, originariamente em seu sentido médico conduz ao significado de "passividade", passa a ganhar o status que precisa há tempos ter no campo específico de sua utilização na ciência psicológica: abertura à atividade humana.

 

Referências

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Recebido em: 24 de fevereiro de 2010
Aceito em: 07 de março de 2012