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Fractal: Revista de Psicologia

On-line version ISSN 1984-0292

Fractal, Rev. Psicol. vol.25 no.3 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-02922013000300016 

Adolescentes e crack: pelo caminho das pedras*

 

Adolescents and crack cocaine: through the rocky path

 

 

Eduardo Tomm; Adriane Roso**

Universidade Federal de Santa Maria, Camobi, Santa Maria, RS, Brasil

 

 


RESUMO

Nos últimos anos, a sociedade tem observado uma rápida expansão no uso de crack, especialmente por adolescentes e jovens. É evidente a necessidade de ouvir esses sujeitos de para melhor compreender sua situação. Para atender a essa necessidade, desenvolvemos uma pesquisa qualitativa descritivo-exploratória cujo foco foi um grupo terapêutico para adolescentes usuários de crack que ocorreu no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (CAPSi) em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, Brasil. Amparados na modalidade expost-facto, analisamos documentos produzidos nessa instituição. O resultado foi uma cartografia que acompanhou discursivamente os adolescentes pelo "caminho das pedras": os lugares, tratamentos, pessoas, ideias e momentos dos quais falam.

Palavras chave: psicologia social; Psicanálise; cartografia; centros de atenção psicossocial infanto-juvenil (CAPSi); drogas (Crack).


ABSTRACT

In the last years society has watched a fast expansion of crack cocaine use, especially by adolescents and young adults. The need of listening these subjects in a way of acquiring insights about their situation is made clear. In order to attend this need we developed a descriptive-exploratory qualitative research whose main target was a therapeutic group for adolescents crack users that occurred in the Center of Infant-Juvenile Psychosocial Attention (CAPSi), located in a countryside city of Rio Grande do Sul, Brazil. Supported by an expost-facto modality, we analyzed documents produced in this institution. The result was a cartography that went along with the adolescents' discourses through the "rocky path": the places, treatments, persons, ideas and the moments they talk about.

Keywords: social psychology; psychoanalysis; cartography; center of infant-juvenile psychosocial attention (CAPSi); drugs (Crack).


 

 

A utilização de drogas pela humanidade é uma prática que teve lugar em variados grupos sociais, contextos culturais e funções específicas ao longo de diversos períodos históricos, ou seja, acompanha a humanidade em sua trajetória. Entretanto, a droga nem sempre foi associada, como é atualmente, a algo nocivo à sociedade e aos seus indivíduos. Em várias culturas antigas, o uso de algumas substâncias era permitido e até mesmo estimulado, sendo que era regulamentado socialmente. Nas palavras de Raupp (2006, p. 22), foi somente "a partir da segunda metade do século XX que tais substâncias passam a relacionar-se, cada vez mais, com graves problemas de saúde pública, de desordem e de violência social".

Os discursos contemporâneos que enfocam a droga (em si) em vez da toxicomania (certa relação que os usuários estabelecem com o objeto drogas) têm colocado a droga crack em destaque. O II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil (CARLINI, 2006) indica que a porcentagem de uso na vida de crack na região Sul passou de 0,5%, em 2001, para 1,1%, já em 2005.Porém, nos últimos anos o número de casos de usuários de crack está se expandindo ainda mais rapidamente, gerando um quadro de proporções preocupantes. O crack se caracteriza pelos seus efeitos rápidos e poderosos, capazes de provocar dependência.

Não podemos ignorar o fato de o crack ser uma droga potencialmente prejudicial à saúde, mas se tomarmos a perspectiva da promoção da saúde1 como norte, devemos alocar nossos esforços de compreensão da drogadição sob um viés que inclua o sujeito toxicômano – um sujeito construído sócio-historicamente, culturalmente e economicamente, já que entendemos a toxicomania como "o sintoma social por excelência da sociedade de consumo; pois a partir do sujeito fiel ao produto que consome, representa de forma radical o discurso dominante e seu objeto, a droga, é tomado como o maior aliviador do sofrimento humano" (GONÇALVES; DELGADO; GARCIA, 2003, p. 125).

Pensar a toxicomania a partir da promoção da saúde implica uma atitude de questionamento ético dos fatos, dos acontecimentos e dos processos. Uma coprodução de saúde como uma obra aberta, sempre inacabada e produzida pela ação política. Assim, em uma tentativa de recolocar o usuário do crack nas análises que envolvem a toxicomania e de olhar mais de perto e escutar o que pensam, dizem e sentem os usuários, construímos esta proposta de pesquisa.2

As questões que envolvem esta pesquisa estão relacionadas à nossa aproximação teórico-prática com o campo da promoção em saúde de usuários de drogas, a começar pelo grupo de pesquisa onde temos desenvolvido estudos sobre o que tem sido denominado, incorretamente – a nosso modo de ver – "a epidemia do crack" . Acreditamos ser incorreto pois esta alcunha coloca o fenômeno como uma doença ou um vírus que se propaga à revelia dos sujeitos usuários, ou negando sua característica de sintoma socialmente constituído. Pensamos que a própria mídia, ao empregar essa expressão, se encarrega de difundir e alarmar a população numa proporção que não corresponde a medidas de promoção da saúde (veja ROMANINI; ROSO, 2012).

Além de nossas reflexões no grupo de pesquisa, a participação em atividades no/do Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil (CAPSi) com adolescentes usuários de crack e outras drogas também apresenta-se como um dos elementos desencadeadores de nossas inquietações. Não esperávamos, a princípio, encontrar a demanda desse público nesse local, já que o município em que desenvolvemos nosso estudo conta com uma instituição especializada em atendimento a usuários de drogas – o Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPSad).

No CAPSi de nossa cidade, percebemos algumas peculiaridades em relação ao atendimento aos adolescentes usuários de substâncias, que nos chamaram muito a atenção e curiosidade logo na chegada. Uma delas foi que, enquanto a maioria do público do CAPSi tinha uma pasta individual com seu nome, contendo seu prontuário e seus dados, os integrantes desse grupo tinham suas informações em envelopes, que eram guardados todos juntos em um único arquivo. Outra delas foi a fala de uma mãe de um paciente em uma reunião com a comunidade, que indagou quando o "CAPS novo" (um segundo CAPSad que estava sendo instalado na cidade e que previa atender especialmente usuários de crack) iria começar a atender o público, para que "essa gente" (SIC)3 pudesse ir para lá e assim sair do CAPSi.

Acreditamos que referir o usuário com pronomes carregados por preconceitos ("eles" e "essa gente") é tratá-lo como uma subclasse de doente, marginalizando-o e circunscrevendo-o como um objeto. Dessa forma, nivelam-se essas pessoas, perdendo-se as peculiaridades de suas vidas, assim como leva à enganosa compreensão de que esta é uma condição que acomete as pessoas à sua revelia. Pensamos também que ligá-lo exclusivamente à delinquência, colocando-o no âmbito da criminalidade e da ilegalidade é fazer apologia às práticas policialescas que desde sempre se mostraram ineficazes na ressocialização desses indivíduos, além de focar no fenômeno droga, em vez da toxicomania. Abordá-lo somente como um problema socioeconômico também não dá conta da temática, já que se percebe que o uso da droga não está restrito somente às camadas mais pobres da população. A tarefa de entender o que se passa parece se tornar difícil e complexa quando esquecemos de ouvir os próprios sujeitos.

Acompanhando Ribeiro (2003), também preferimos compreender que o toxicômano não existe.

Existem sim, sujeitos que sofrem por não conseguirem assumir sua dependência em relação, nem aos significantes que determinaram suas histórias (sua relação com o Outro), nem a seus semelhantes (os outros), com quem poderiam construir relações capazes de sustentar uma posição subjetiva. Sujeitos que se veem confrontados com um imperativo social de liberdade e sentem-se despreparados para responder a ele. Enfim, sujeitos que se deparam com impasses semelhantes aos que fazem parte da vida de qualquer um de nós (RIBEIRO, 2003, p.16-17).

Nesse sentido, nossa intenção neste estudo é justamente nos aproximar desses sujeitos de uma maneira singular e, assim, poder obter uma compreensão que seja interior a essa população, ou seja, advinda dela. Buscamos um discurso que provém dos próprios adolescentes, e não de uma fonte externa, como de algum campo teórico preestabelecido e imposto sobre ele, sem com isso querer dicotomizar o interno do externo, o sujeito do pesquisador, mas valorizar uma posição de implicação ética entre pesquisador e participante da pesquisa. De maneira singular significamos escutá-los a partir dos dispositivos que nos são acessíveis, já que o grupo no CAPSi veio a se extinguir quando os adolescentes passaram a ser transferidos a um CAPS novo e dele restou apenas um caderno que relata sua existência, escrito pelos terapeutas. Na impossibilidade de acessar diretamente esse grupo, porém sabendo de sua problemática (e a de seus participantes), cabe a alternativa de trabalhar com os materiais derivados dessa experiência. Pretendemos recolocar (recriar) em um mesmo território (virtual e engendrado) os elementos dispersos sobre o grupo por meio de nossa interação com esse material e da nossa inserção e deslocamento junto ao campo (de pesquisa/de observação). Esse trabalho se dá pelo que se produz no ponto de contato entre nossa experiência com o grupo, nossa subjetividade, nossas leituras, e o campo – o material deixado sobre o grupo, os profissionais, a instituição4. O intento é, no contato vivo com esse material, recriar o jogo de forças que havia nesse campo, em uma empreitada que visa a criação de sensibilidades – e não apenas compreensões – acerca do campo em questão.

 

PRODUZINDO COMPREENSÕES: POR UM "MÉTODO" CARTOGRÁFICO

Trata-se de um estudo qualitativo exploratório de um grupo terapêutico para usuários de crack e outras drogas a partir da observação de documentos produzidos na instituição (prontuários e caderno dos terapeutas) e da vivência na própria instituição. Como o grupo em questão já está extinto, a pesquisa se dá na modalidade expost-facto, ou seja, quando o estudo se realiza depois dos fatos (GIL, 1991). Essa produção comporta uma posição com contornos nem tão definidos quanto à forma como se produz, isto porque ela se faz com duas aparelhagens que, distintas, não exatamente se opõem, sem ser, por isso, contíguas: (a) procedimentos metodológicos e (b) cartografia.

A primeira diz respeito aos mecanismos articulados, passíveis de repetição e reprodução, que podemos com alguma segurança chamar de metodologia. Iniciamos pela coleta de dados sobre o grupo terapêutico para usuários de crack no CAPSi, nos deparando com documentos escritos a respeito do grupo e seus participantes – atas de reuniões de equipe, prontuários dos pacientes e um caderno "extraoficial" (doravante denominado "caderno dos terapeutas"), onde os coordenadores do grupo descreviam suas sessões. Este último documento se revelou o mais rico dos substratos de pesquisa sobre o qual nos debruçamos na confecção deste trabalho, tornando-se, assim, o principal material que utilizamos.

Após certo período de convivência com o "caderno dos terapeutas", surgiu espontaneamente o intento de operacionalizar um modo como esse material produziria efeitos à pesquisa. Assim, foi feita uma leitura sobre cada sessão, quando, simultaneamente, ia se produzindo outro documento que realçava quantos e quais participantes compareceram, falas de adolescentes e terapeutas, momentos e assuntos abordados. Por meio desse documento – que denominaremos "catálogo" – poderíamos localizar, com alguma facilidade, no "caderno dos terapeutas" as informações relativas aos objetivos da pesquisa, assim como ter uma noção geral da existência do grupo em um material "miniatura".

Na parte seguinte dessa "operação", fez-se uma leitura do "catálogo", produzindo simultaneamente uma lista que continha "disparadores" de relevos problemáticos do campo, ou melhor (e melhor), os reconhecemos como "analisadores", noção advinda do campo da Análise Institucional, cujo significado remete a

um acontecimento ou movimento social, que vem a nosso encontro, inesperadamente, condensando uma série de forças até então dispersas. Nesse sentido, realiza a análise por si mesmo, à maneira de um catalisador químico de substâncias (RODRIGUES; LEITÃO; BARROS, 2002, p. 42).

Nesse momento, nos deparamos com a fronteira da parcela "metodológica" da pesquisa, não sendo possível prosseguir nessa exposição sem que se apresente a segunda aparelhagem utilizada nessa produção: a cartografia. Proposta por Deleuze e Guattari (1991), a cartografia é uma forma de pesquisa que, ainda que havendo certo modo de concebê-la e pensá-la, procura desprender-se de (como ocorre nas metodologias) percorrer etapas previsíveis, ordenamentos, seqüências, enfim: mediações. Seguindo Deleuze e Guattari, Elliot (2005, p. 3) define cartografia como:

the spontaneous mapping of space without a priori design or trace. As the camera moves through the pathways and arteries of the computer-generated biological network, it randomly maps its path, forging new connections and offshoots without, ultimately, recognizing the molar divisions of flesh and gunmetal.5

Assim, a tarefa do cartógrafo é incursionar pela atenção, de modo a atingir o virtualmente dado e construir, a partir dela, os objetos-processos, em um movimento no qual a atenção não se (re)conhece, mas sim, inventa. Isso exige que esse profissional inclua ludicidade sem abandonar extremo rigor em seus procedimentos.

Dando vazão à invenção, os materiais de pesquisa foram lidos diversas vezes (leitura flutuante), não com o intuito de encontrar categorias ou um fim específico, mas buscando compreender os elementos singulares que constroem o processo grupal e os sujeitos que o experimentam. Pretende-se, dessa forma, cartografar movimentos e devires tendo como princípio a perspectiva da psicologia social crítica. Esta, por sua vez, também valoriza a singularidade, sem deixar de buscar "conhecer o indivíduo no conjunto de suas relações sociais, tanto naquilo em que ele é a manifestação grupal e social" (STREY, 2009, p. 16). Nessa perspectiva cabem diferentes correntes teóricas, como é o caso da psicanálise. A psicanálise, no nosso modo de entender, pode dialogar com a psicologia social crítica, já que ambas, conforme Dunker (2001), tematizam aspectos sociais do processo de subjetivação. Nosso movimento cartográfico caminha na direção das articulações mencionadas, uma vez que nos propomos trabalhar os analisadores que a cartografia põe em evidência e os processos de subjetivação que são comuns à psicanálise e à psicologia social crítica, articulando-as.

O grupo cartografado teve início em junho de 2008, se estendendo até maio de 2010, e tinha como alvo adolescentes usuários de crack. Em 2008, o grupo foi conduzido por uma psicóloga e uma arte-terapeuta, em 2009 por duas psicólogas, e em 2010 pelas mesmas psicólogas e também um estagiário de psicologia.

Como a pesquisa teve como enfoque principal os adolescentes participantes do grupo do CAPSi, a construção desse relato se deu através de um intenso diálogo de nossas palavras com as falas do caderno em que os terapeutas relatavam o grupo. Para demarcar quais são essas falas, elas estarão inscritas sempre em itálico e entre aspas. Buscamos manter essas falas da forma como estão escritas nesse caderno (a forma original), efetuando correções apenas quando sua escrita dificultava a compreensão do sentido da fala.6 Os nomes dos pacientes foram substituídos por nomes fictícios a fim de preservar suas identidades, e os nomes dos terapeutas serão substituídos simplesmente por "a terapeuta" ou "as terapeutas".

A seguir, iremos cartografar o "Caminho das Pedras". Numa sequência não necessariamente lógica ou cronológica, delineamos nossa escrita em quatro produções de um rizoma: "Tropeçando nas pedras do caminho", "O estouro silencioso da lata", "Três analisadores" e "Adolescência: outras possibilidades para além das relações já constituídas?"

 

CARTOGRAFANDO O CAMINHO DAS PEDRAS...

"Bernardo já estava bem agitado antes do grupo. Dizia
estar "amanhecido" há 4 dias e pedia internação."

Daqui partimos na nossa trajetória a conhecer o caminho das pedras, não sabendo ao certo se é o início, meio ou fim do caminho. Não sabendo se a trilha tem uma só via, ou se nela podemos encontrar bifurcações, cruzamentos, desvios. A certeza do fim do caminho é colocada por muitos, e "Fabricio chegou a colocar uma máscara de caveira, dizendo que era ele no futuro". Mas aceitar isto seria muito fácil, seria não somente o caminho das pedras, mas também o caminho da desistência, da desilusão, da morte, não mencionando o caminho da ruína social, da estigmatização, da falência nas formas de cuidado aos que são colocados à margem de um modo "normal" de ser.

Pensar esse caminho como o caminho dos outros, "deles", tentando regra-lo, colocar sobre ele leis, utopias, direções certas parece, justamente, o não conhecer desse caminho – um desrespeito à sua realidade gritante que insiste em atacar as formas sociais colocadas, da forma que nós as conhecemos. É por isso que, se pretendemos operar qualquer tipo de desvio nesse caminho que parece levar unicamente à falência, é preciso nos aproximarmos dele na tentativa de conhecê-lo, conhecendo também, e principalmente, os sujeitos que por ali passam.

 

TROPEÇANDO NAS PEDRAS DO CAMINHO

O início do uso das drogas7 é um evento que demarca, para os adolescentes do grupo em foco, o que seria o começo do caminho das pedras, o desvio da vida "normal" para outro tipo de existência. Parece inaugurar um abismo entre sua vida anterior e sua vida atual. Vários tipos de relatos são encontrados quando do início na droga. "Ricardo diz que foi por curiosidade. Ulisses diz que experimentou maconha depois de uma briga com a mãe". Mas mesmo que "uns diziam que uma vez que se fuma uma pedra tudo já está perdido, Alexandre disse que com ele não foi assim". Além do mais, "é incrível que de todos os amigos que vêm acompanhando, um deles parou sozinho!" Portanto, apesar de o uso ter se iniciado em algum momento, o caráter repetitivo da droga para alguns em detrimento de outros nos faz não colocar tanta ênfase nesse início, mas nas diversas sensações, momentos, motivos que levam os reincidentes ao retorno à droga, já que o uso não se basta, mas precisa sempre ser feito de novo.

Em algumas falas dos adolescentes, é possível encontrar alguns elementos que parecem precipitar esse retorno. Entre elas, por exemplo, encontramos a ansiedade e a falta de apoio familiar, a influência das amizades e do lugar onde moram, a situação financeira, experiências pessoais e o hábito de consumir álcool ou usar maconha. De maneira geral, os terapeutas do grupo descobrem que "nos momentos em que há frustração, a procura da droga existe", logo "as questões giraram em torno de que outras maneiras há de lidar com a frustração? (drogas, roubar, matar) Foi difícil construir algo para além disso". Esse impasse, essa dificuldade na construção de outra maneira de encarar as dificuldades aparece diversas vezes. Porém, em outras, o grupo no CAPSi busca alternativas para o que levaria ao uso. "Pergunto, então, o que poderia ter feito após a briga com a mãe. Ricardo sugeriu que brigasse na rua para se aliviar. Ulisses falou que teria sido melhor beber. Icaro disse que poderia ter conversado com um parente. Aponto, então, a semelhança entre fumar, beber, ou brigar: não se pensa sobre, se age. Concluíram que pensar é o mais difícil".

As falas logo nos remetem ao slogan da campanha "Crack, nem pensar" (REDE BRASIL SUL de TELECOMUNICAÇÕES [RBS], 2008). Se pensar é o mais difícil, por que não utilizar as formas simbólicas veiculadas publicamente e massivamente para instigar o pensamento, a reflexão? Precisamos nos questionar o quanto esse slogan reforça a noção da impossibilidade da mediação pelo pensamento reflexivo frente às causas e o objeto de consumo. Além de tudo, as falas de Alexandre colocam em cheque a mensagem de um dos cartazes que compõe a campanha: "Perder totalmente a dignidade. Não experimente essa sensação. O crack é uma droga tão devastadora que pode viciar logo na primeira vez". Com Alexandre e seus amigos, essa "inevitabilidade" do fim humano não aconteceu.

Percebemos que o crack não é sempre interpretado como um problema para os integrantes do grupo que compõe nosso estudo; ao contrário, o uso do crack é a solução para os seus problemas de ansiedade, brabeza, falta de apoio familiar ou desinibição. De fato, a relação entre acontecimento (causa) e busca do objeto (consumo da droga) parece não ser mediada pelo ato de pensar, refletir. Talvez por isso que o usuário não consiga enxergar outra maneira de lidar com os problemas cotidianos.

 

O ESTOURO SILENCIOSO DA LATA

Colocadas essas ocasiões e sensações que precipitam os adolescentes ao uso, questionamos o que a droga causa nesses sujeitos, que sensações têm, o efeito no corpo, enfim, sobre o momento do uso da droga em si. No entanto, se apresenta em relação a isso um grande buraco, uma ausência de relatos. O que podemos notar é que conseguem falar mais sobre os efeitos das medicações do que do crack, ou quando remetem a ele é somente através das coisas que o tangem, a saber, roubo, dinheiro, violência, recaída, fissura, noites em claro: as ações e circunstâncias envolvidas no uso. Também não é uma questão de drogas, pois em relação ao álcool e à maconha esses relatos existem no grupo.

Pela falta de relatos, somos compelidos a apelar para literaturas que nos possibilitam pensar esses adolescentes em seu contato com a droga, entre elas o conto de Theophile Gautier (1845 apud OUTEIRAL, 2003, p. 41), O Clube dos Haxixins:

"Outrora, existia no Oriente uma temível seita dirigida por um Xeque conhecido como "o Velho da Montanha" ou "Príncipe da Montanha". Este "Velho da Montanha" era obedecido sem discussão. Seus súditos, os "Assassinos", executavam todas as suas ordens com um devotamento absoluto, quaisquer que elas fossem; nenhum perigo os detinha, nem mesmo a morte mais certa. A um sinal do seu chefe, precipitavam-se do alto de uma torre ou apunhalavam um rei em seu palácio, diante de sua própria guarda. Por que meios o "Velho da Montanha" obtinha uma abnegação tão completa? Através de uma droga maravilhosa cuja receita possuía, e que tinha a propriedade de provocar alucinações deslumbrantes. Os que a haviam tomado, ao despertar de sua embriaguez, achavam a vida real tão triste e sem graça que sacrificavam-se com alegria para regressar ao paraíso de seus sonhos. Porque todo homem que morria cumprindo as ordens do Xeque ia diretamente para o céu ou, se escapava da morte, era aceito novamente para gozar as delícias da misteriosa mistura."

Podemos pensar no crack como sendo esse "Velho da Montanha" e os usuários seus súditos, se fizermos uma analogia, por exemplo, com as palavras proferidas pelo Secretário de Estado da Saúde, Osmar Terra (apud ROSA, 2010, p. 8):

Como o prazer que ele [o crack] proporciona é muito intenso e dura pouco, essas pessoas não conseguem fazer mais nada e estão sempre em função da pedra. [...]. No desespero, começam a vender tudo o que têm em casa e depois partem para o furto, para o assalto, para a violência. Na verdade, o crack seqüestra a mente e transforma a pessoa em um zumbi que só vive em função do seu vício.

Discursos como esse podem contribuir na construção do imaginário social sobre o usuário de crack como sendo um adolescente que encarna, através da droga, esses personagens desalmados e inescrupulosos. "Mesmo assim, eles não perceberam nada e continuaram a contar suas "peripécias" e dar gargalhadas. Aparentemente, além de não conseguirem falar de coisas que não estejam relacionadas à droga, eles não demonstram nenhuma empatia, mostrando uma certa nostalgia dessa vida de festas e arrumar dinheiro para fazer festas (incluindo aí o uso de drogas), nada além disso."

Essas figuras esboçadas, de "assassino" e "zumbis", por sua vez, associam diretamente o efeito da droga às condutas que os adolescentes praticam em função dela. Embora alguns estudos tendam a relativizar as drogas, afirmando que todas servem ao mesmo propósito, mas que "acabam tão mal e desviam de sua própria causalidade" (DELEUZE, 1991, p. 66), o que encontramos até esse ponto é uma diferença esboçada do crack em relação às outras drogas que não a relativiza, mas expõe claramente. Trata-se de uma substância demoníaca, seja pela forma como a usam, pela frequência com que os usuários precisam reutilizá-la, pelos absurdos que fazem para consegui-la. Demoníaca pois parece convocar nos adolescentes a sua face mais animalesca.

É isso mesmo? Não tornemos essa parada provisória um ponto de chegada, tomando conclusões precipitadas, vendo apenas o pequeno retrato até então esboçado. O desafio é justamente superar as dificuldades e aversões que essa temática impõe e, paradoxalmente, nos aproximarmos ainda mais dela, observando, cuidadosamente, alguns dos elementos que se apresentam em relação ao crack: o roubo, a violência e a função do dinheiro.

 

TRÊS ANALISADORES

A concomitância entre o uso do crack e os roubos é praticamente absoluta entre os participantes do grupo, relação esta traçada em diversas reportagens de mídias de massa, segundo ROSO (2010). A necessidade de sustentar o vício propõe uma linha direta: rouba porque fuma crack. Exemplo disso é um participante que "disse que vendia DVDs e usava o dinheiro para drogas, sendo que inicialmente não roubava".

No entanto, algumas afirmações fazem balançar a certeza dessa relação, parecendo desvincular a droga dos roubos e assaltos. "Lauro falou que está sendo bom para ele estar no CASE8 e que continua usando drogas nos finais de semana porque tem vontade, se não quisesse, pararia. Falou de assaltos que tem cometido, sem ter nenhuma crítica sobre isso". Se esse adolescente afirma não precisar da droga e mesmo assim comete assaltos, é porque talvez os assaltos e roubos tenham para alguns desses adolescentes um estatuto próprio, o que fica evidente quando "Ulisses deixa claro que seu maior vício é o roubo e que não está aqui porque quer" (o "estar aqui" significando o estar em um CAPSi compulsoriamente – pois muitos eram encaminhados por Medida socioeducativa – com a finalidade de tratar a drogadição, o problema em questão a ser trabalhado no grupo).

Logo, podemos procurar por alguns indicativos sobre furtos fora da relação com a droga: "Enquanto fazia a atividade, Dédalo falava da vontade que ainda sente de roubar e que este sentimento o acompanha desde a infância, mesmo que seus pais tenham lhe ensinado a não roubar nem uma laranja do pé do vizinho (SIC). Contava dos assaltos com muita satisfação, enfatizando que nada o detia, que roubava carros e vendia por R$4.000, "torrando" tudo em festas".

Assim, pode-se notar que, em muitos casos, a questão dos roubos era anterior ao seu envolvimento dos sujeitos com drogas ("Falaram também sobre acontecimentos da infância, sendo que descreveram episódios de furtos aos 7, 8 anos"), desmistificando a prática de empacotar a toxicomania junto aos roubos, sob o rótulo da delinquência.

Ligado ao roubo, mas não necessariamente, temos a questão da violência, pois não é difícil verificar que, apesar de ela coexistir com o uso da droga, não mantém com ela uma ligação obrigatória.

"Emerson contou que visitou o irmão Lauro no CASE – está esperando ele sair para "pegarem" uns caras que o ameaçaram de morte. Hélio contou que a briga que havia falado na semana passada será hoje e que levarão 'uns 38'. [...] Falaram em 'lei da rua' e que se não for desta forma não continuam vivos (é matar ou morrer). Disseram que a vida não vale nada, que é cada um por si, 'morreu, morreu'. Ao final, Emerson disse que 'essa vida leva pro caixão ou pra cadeia' e Hélio disse que iria pensar sobre o que conversamos".

A violência parece, sim, estar muito mais ligada a uma chamada "lei da rua" do que à própria droga. E o que seria essa "lei da rua", às vezes também chamada "lei da selva"? Primeiramente, seria uma forma única que os adolescentes encontram para continuarem vivos, precisando, para isso, utilizar obrigatoriamente a violência. Além disso, há outro elemento a ser destacado neste trecho, que é a sedimentação da violência no cotidiano e a própria ideia de uma cultura do crime. Parece haver uma aproximação entre contravenção (uso da droga) e crime (tráfico) que submerge os usuários a essa cultura, bem como a relação entre a cultura da violência, sua banalização, e a dificuldade de perceber certas circunstâncias do uso da droga (como a ausência de cuidados pessoais, a irritabilidade etc.) como uma autoviolência.

Passos (2004) lembra como em muitas análises de problemas sociais se encontra como causa a violência, mas que, chegando a essa conclusão, se naturaliza a "violência" como se esse termo se explicasse por si só, como se fosse algo da ordem natural e instintiva, em vez de algo da ordem humana, pulsional e, portanto, também engendrada socialmente. Daí, parte, então, para um estudo da violência que, concordando com o que encontramos em nossa pesquisa, diz que a violência social

não é o resultado de uma ausência de regra. Ela não é o resultado de um esgaçamento do tecido social, mas é uma regra de organização da sociedade. [...]. São regras da violência que produzem o efeito de homogeneização e todo mundo tem que ficar igual, senão leva um tiro. Todo mundo tem que entrar num esquema de padronização que é muito violento (PASSOS, 2004, p. 51).

Para além de apenas uma tática de sobrevivência, a "lei da rua" diz respeito a um conjunto de valores que insere os adolescentes em certa ordem social, e que tem como um de seus pilares a redução do outro a objeto de satisfação. Nessa direção, se percebe, às vezes, uma repetição de comportamentos engendrados por modelos de autoritarismo a que são cotidianamente submetidos (por exemplo, polícia, abrigos etc.), uma espécie de identificação com a ordem estabelecida.

Os outros também falavam de furtos e do quanto era "legal" fazer assaltos para ver as caras dos otários (SIC). Chegaram a falar que tentavam se colocar no lugar da vítima e, às vezes, ficavam com pena, mas no próximo minuto pensavam na festa que iriam fazer com o dinheiro e esqueciam (SIC). Também falaram nos policiais que batem neles quando os pegam e a terapeuta tentou fazer um comparativo com as atitudes que eles têm com as pessoas que assaltam, 'batendo nelas só para ver a cara de medo.

Outro aspecto peculiar que guarda relação estreita com o uso da droga é a questão do dinheiro. "Falaram também sobre o lado bom e ruim do crack, evidenciando que ficavam mais tempo correndo atrás de dinheiro do que curtindo (SIC)". A equação que resultaria disso é a de que o dinheiro estaria em função da droga, mesmo que para isso passassem mais tempo em função dos meios (recursos) do que em função do fim (droga). Esse atrelamento do dinheiro com a droga é tão forte que pode ser exemplificado no fato de que um adolescente do grupo do CAPSi usa a posse de dinheiro como prova central de que não está usando crack. "Estavam agitados, queriam sair, comprar um refri no Cachorrão. Desconfio que estavam combinando algo; Cássio chegou a dizer que a prova que está bem é que está com dinheiro no bolso e fez questão de mostrar aos outros".

Mas "isso" no que se transforma o dinheiro em suas mãos, também se transformam vários outros bens. Parece haver uma liquefação de tudo que se transforma, para eles, nesse "isso", operação que ao mesmo tempo transforma os adolescentes nos melhores consumidores, pois gastam não somente seu dinheiro para comprar o produto que desejam, mas, também, tudo que estiver em sua posse, gerando um escambo pós-moderno. É possível adquirir a droga com qualquer coisa, já que, para essa finalidade, servem várias coisas, dinheiro, bens e, muitas vezes, até mesmo o corpo. Houve ocasiões em que os adolescentes mencionaram que haviam trocado um tênis ou uma bicicleta roubada pela droga. Quanto ao corpo, estudos apontam a relação entre a comercialização do corpo em troca da droga (e.g., NUNES; ANDRADE, 2009), mas este caso em específico não apareceu no grupo em questão.

Embora, por vezes, o gasto com drogas relatado nas sessões como algo ruim, vem muitas vezes acompanhado de exageros e exibicionismo. "Dédalo disse que seu pai 'liberou' para ele sair e que as meninas que estavam com eles no final de semana queriam usar 'pedra'. Disse que uma delas comprou R$1000 em pó e pedra e que ele cheirou cocaína até ficar 'trincado'. Acreditamos que a história parece exagerada e que Dédalo estava 'querendo plateia'". No ponto em que chegamos, ficamos confusos com essa dupla perspectiva que se afigura: a de que o dinheiro (assim como tudo) estaria em função da droga, mas também de que o ato de gastar o dinheiro parece também constituir uma finalidade em si.

Podemos tentar fazer agora uma breve reflexão que reúne os três elementos desmistificados (roubo, violência, dinheiro) vistos à luz da contemporaneidade. Observando mais cuidadosamente esses três analisadores, podemos notar que, embora guardem ligações fortes com a toxicomania, intensificando-a, parecem, em muitos aspectos, ser independentes ao uso de substâncias, inclusive, em muitos casos, antecedendo o contato dos adolescentes com as drogas. Isso parece indicar que

Os usuários de drogas e os toxicômanos não são absolutamente criminosos. A criminalização destes indivíduos impede a aproximação deles de forma produtiva, já que dessa maneira eles são inseridos em um circuito diabólico regulado por acusações e culpabilizações. Dessa maneira, não existe mais qualquer possibilidade de soluções para seus impasses existenciais. A criminalização faz com que os consumidores de drogas estejam fadados a uma mortificação perpétua, que não mais lhes oferece qualquer caminho para a solução de seus impasses (BIRMAN, 2007, p. 223).

Assim, segundo Rotelli (1991, p. 67), "droga é ênfase, não é nem demoníaca e nem paradisíaca: é um agente químico que amplifica os fenômenos, os processos micro/macrossociais".

"Dédalo novamente queria falar sobre os assaltos que cometia e tentamos ir por outra via, enfatizando o quanto isto já foi falado no grupo. Dédalo, em seu discurso, demonstra sempre as dificuldades que está tendo em morar 'para fora', sendo estas, acordar cedo (tomando medicação), caminhar até a parada de ônibus. Conta coisas como ter tomado medicação até ficar chapado para ir no 'beco' e não ter vontade de fumar ou, que o motorista do ônibus reclamou que ele chegou atrasado e ele iria apedrejar o ônibus. Aparentemente, Dédalo tem dificuldade em ter saído de uma posição de poder (era traficante, assaltante de carros, aceitou ser internado para não ser morto, ...) para a situação atual e acaba usando o grupo como plateia'.

Nesse relato, fica evidente o desconforto do adolescente em ter que fazer coisas "normais" do cotidiano, coisas sem sal, sem crédito, sem graça, sem espetáculo. A droga parecia servir como um modo de buscar "um lugar ao sol" em nossa sociedade, na qual o valor se localiza no que brilha, na exterioridade.

Incapazes de encontrar um lugar assim, e em uma sociedade imediatista onde a "curtição" das tristezas, realidades e do processo de amadurecimento é um contrassenso, restam duas opções: tomar algum tipo de suplemento que os eleve ao estrelato ou tomar algo que não os faça sentir o desconforto de não ser especial, que os anestesie. Na droga, parecem encontrar ambas as soluções ao mesmo tempo.

Assim, as toxicomanias foram produzidas como uma peste na pós-modernidade, na medida em que se inscrevem nos pressupostos antropológicos daquela. Considerando, então, os fundamentos morais da cultura do narcisismo e da sociedade do espetáculo, as toxicomanias são os efeitos mais evidentes de seus imperativos éticos, daquilo que devemos ser. Produzidas pela medicina clínica, pela psiquiatria e pelo narcotráfico, as toxicomanias são os contrapontos das depressões e da síndrome do pânico, no sentido de que é pelo consumo massivo de drogas que o sujeito tenta regular os humores e efeitos maiores do mal-estar da atualidade. O sujeito busca, pela magia das drogas, se inscrever na rede de relações da sociedade do espetáculo e seus imperativos éticos (BIRMAN, 2007, p. 249).

Nesse cenário, os roubos e a violência são meios de enaltecimento do narcisismo, o que acontece quase invariavelmente de uma forma perversa, à custa do outro. São golpes que tentam "virar a mesa" para quem não vê perspectivas para si mesmo. A violência, como vimos, não é a falta de leis, mas constitui um código próprio: o código que diz que para ser alguém é preciso aniquilar o outro, eliminar o diferente, a alteridade, transferir para si a vitalidade e os bens que estão em posse do outro. Quanto à forma de se relacionar com o dinheiro, ser um consumidor é a única forma de estar inserido em uma sociedade em que ter é ser, comprar é existir, sendo que a felicidade está obrigatoriamente contida nos bens de consumo, quaisquer que sejam.

Entretanto, essa não é a realidade exclusiva desses adolescentes, mas apenas na qual esses valores sociais encontram sua faceta mais violenta. De certa forma, conhecer esses adolescentes, seu devir, é conhecer o que acontece a todos, mesmo que em uma escala na qual isso tudo ainda se sustenta e é minimamente suportável. Talvez eles não sejam esses "zumbis assassinos" que certos discursos insistem em criar e reforçar.

 

ADOLESCÊNCIA: OUTRAS POSSIBILIDADES PARA ALÉM DAS RELAÇÕES JÁ CONSTITUÍDAS?

No contexto da pesquisa que aqui expomos, ao focarmos os adolescentes, acabamos por dissertar sobre o que surge a partir deles em relação à drogadição e aos caminhos a que ela conduz. Contudo, haveria o que dizer sobre esses adolescentes fora dessas relações? Estariam eles se subjetivando exatamente por meio dessas relações, negando a possibilidade de existência de sujeitos genéricos? Perguntas que parecem ser o eco de outra que ocorreu no grupo. "Emerson falou incansavelmente até que o grupo se questionasse qual era a finalidade de estarem ali, já que "a gente só fala sobre droga e roubo"".

A tentativa de demonstrar o que os adolescentes subjetivam fora dessa relação com a droga torna-se difícil. Na sessão em que "brincaram" com argila, "o objetivo da proposta seria de modelar uma caverna ou uma parede onde seria deixado 'gravado' algum sinal de alguma coisa que seja importante ou que tenha algum significado, algum desenho. Kevin fez a caverna sendo atacada por cupins". A impressão que poderíamos ter é que as experiências com o crack são altamente significativas, fundantes, profundamente violentas ou desestabilizadoras, deixando marcas importantes cuja autoria os adolescentes não reconhecem.

Porém, a história dos adolescentes não termina por aí. Divagar um pouco por metáforas pode nos ajudar a pensar e, quem sabe, reforçar as expectativas neles. A forte impressão que tivemos é que o encontro com a droga proporcionou para esses adolescentes um desvio no que seria o caminho "socialmente esperado" de suas vidas. Uma redefinição considerável de quase tudo que cerca essas vidas se operou a partir daí, considerando que o encontro com a droga levou a possibilidades de subjetivação altamente divergentes das representações sociais cotidianas, muitas vezes intensificando rupturas com as expectativas sociais, bem como com os laços e significações anteriormente constituídos. Ainda, os sofrimentos e fatalidades que os jovens passaram em função desse encontro indicam um caminho para o fim, e o crack se apresenta como "a pedra no caminho" que o interrompe. Para muitos é realmente o que acontece, mas não é a única forma de pensar o assunto.

Podemos pensar que o que se instala a partir desse encontro com a droga é "o caminho das pedras" que, apesar de difícil como o próprio nome sugere, é um caminho possível de ser percorrido e sobre o qual os adolescentes podem andar. Pode ser compreendido não só como um desvio, mas como um trecho de suas vidas, nem melhor, nem pior, apenas um trecho entre outros... Operação mesma que justifica pensarmos que talvez o crack não seja a "pedra no caminho", e sim o "caminho das pedras" por onde o adolescente pode, momentaneamente, transitar, e que não constitui necessariamente o fim do caminho, mas um trecho pedregoso que faz parte do caminho maior de sua vida.

"Falaram sobre aniversário, infância feliz e adolescência como uma fase complicada, negativa, mas que já passaram por experiências, não se arrependem, mas não querem repetir. Hélio contou que no seu aniversário do ano passado fumou R$2000 em pedra. Ao final, disseram que o aniversário ideal agora não é nem com bolo e balões, como na infância, nem com drogas e furtos, mas com amigos, churrasco e cerveja".

Como podemos perceber, o campo em que se cruzam a adolescência e drogas é, por um lado, extremamente problemático e, por outro, oportuno. Oportuno no sentido dos desafios em potencial a serem desenvolvidos na tarefa de sustentação dos sujeitos em um "lugar" até que seus processos de subjetivação encontrem expressão amplificada.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em uma tentativa de representar (sintetizar) a uma só vez a cartografia produzida, uma notícia com uma figura vem ao nosso encontro nos precipitando em direção a uma (possível) resolução. A notícia diz respeito à descoberta de uma medusa imortal, chamada Turritopsis Nutricula9. Essa água-viva é dita "imortal" porque depois de se tornar sexualmente madura, em vez de se encaminhar para sua morte, algo faz com que ela possa reverter ao seu estado anterior, repetindo o ciclo indefinidamente.

Essa reversibilidade nos pareceu dizer respeito à compreensão do uso de substâncias psicoativas que acompanham a humanidade desde que se têm referência sobre ela, como um fato inerente à existência do ser humano. Esse uso nem sempre esteve associado a um problema, mas pode-se tornar um (como os tentáculos da medusa que queimam superfícies orgânicas). De qualquer forma, permanece viva. Isso demonstra, principalmente, o caráter processual do uso de drogas, dinâmico, que se contrapõe à estática dos diversos enquadramentos que os diferentes segmentos da sociedade lançam sobre ele.

Imaginando essa construção, a cabeça da medusa poderia ser o uso das substâncias psicoativas, cabeça que se conecta aos vários tentáculos que se espalham à sua maneira, ocupando outros espaços. Esses tentáculos seriam as diversas situações (discursos, pessoas, instituições, saberes) com as quais os adolescentes entram em contato em função do uso de drogas. Mas entramos assim em uma dúvida. Se o crack (as drogas) está no centro, seriam os adolescentes apenas mais um dos tentáculos? Nos pareceu que não, pois são eles que se relacionam à tudo isso. Então seria o crack um tentáculo? Também não, pois se o fosse, seria necessário só cortar esse tentáculo e o "problema" estaria resolvido. Como as reflexões nos conduziam, nos permitimos uma dobra nessa construção que diz que, de algum modo, os adolescentes e o uso de drogas se sobrepõem no centro de toda a nossa problemática de pesquisa. A cabeça da medusa poderia significar os próprios adolescentes e sua relação com o mundo. Alguns dos tentáculos representariam o uso de substâncias psicoativas, que fazem parte do corpo da medusa, mas não constituem a única experiência ou significação possível, e, portanto, cortá-los significaria mutilação, e não cura. Para repensar o uso, seria necessário, então, transformar o próprio corpo e seu uso, a própria experiência.

Isso não significa dizer que os adolescentes são as drogas, e, sim, que o uso de substâncias se constitui em um devir, e arriscamos dizer que esse devir não acompanha só os adolescentes como também a humanidade em geral. Um devir que não morre (por mais que tentem matá-lo), mas toma expressões diferentes, mais ou menos maduras, dependendo da maneira como se lida com ele.

Talvez seja essa expressão tentaculosa que melhor absorve a dimensão complexa do problema em questão, o motivo pelo qual o uso do crack tenha se tornado em nossa sociedade algo tão difícil de lidar. Dada a multiplicidade do problema, nenhuma área sozinha consegue resolvê-lo. Assim, nem as medidas do âmbito jurídico (que geralmente tratam o usuário pelo seu lado da delinquência), nem as internações (que os tratam na condição de doentes), nem as investidas puramente psicológicas (que muitas vezes desconsideram suas condições sociais reais), nem as perspectivas que julgam a toxicomania como repercussão de pobreza parecem isoladamente abordar eficientemente essa problemática do crack.

O consumo e a circulação de drogas em larga escala colocam na atualidade uma multiplicidade de questões relacionadas em diferentes níveis de complexidade. Essas questões se inscrevem nos registros teórico, clínico, social, político e ético. Em torno desse entrelaçamento de registros, constituiu-se uma problemática de investigação, que incide diretamente em diferentes saberes (BIRMAN, 2007, p. 219).

Enfim, a princípio, uma leitura descuidada e simplista pode levar ao entendimento de que o crack parece transformar seus usuários em "zumbis" desalmados, que perdem toda a sua dignidade em função da droga, mas atentando mais cuidadosamente para suas falas podemos notar que, embora alguns comportamentos sejam intensificados pelo uso da droga, têm um estatuto independente e, muitas vezes, anterior a ela.

Desse modo, nossos achados nos levam a crer que a melhor forma de aproximação à questão da drogadição, em específico em relação ao crack, é aquela que admite a complexidade dessa problemática, movendo a atenção dos discursos de saberes preconstituidos (e preconceituosos) para os discursos dos próprios usuários – ato fundante das subjetividades.

 

NOTAS

1 Entendida aqui como aquela que resgata a concepção da saúde como produção social e busca desenvolver políticas públicas e ações de âmbito coletivo que extrapolem inclusive o enfoque de risco (campo da prevenção), valoriza mais intensamente determinantes socioeconômicos, instiga o compromisso político e fomenta as transformações sociais (SÍCOLI; NASCIMENTO, 2003).

2 Pesquisa intitulada" Cartografando o caminho das pedras: adolescência e crack em um CAPSi, aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM (CAEE 23081.015917/2010-31), vinculada ao projeto Guarda-Chuva "Cenários Midiáticos/ Institucionais, Relações de Poder e Representações: Desafios Atuais na Saúde Pública" (GAP/CCSH- UFSM N. 028411).

3 SIC – Segundo Informações Colhidas, anotadas em Diário de Campo.

4 Agradecemos ao CAPSi, aos terapeutas do grupo e aos adolescentes que participavam do grupo por terem criado as possibilidades da reflexão que aqui apresentamos.

5 Tradução livre dos autores: "o mapeamento espontâneo do espaço sem um traçado ou esquema a priori. Ao longo do deslocamento pelos caminhos e artérias da rede biológico-informática, a câmera mapeia randomicamente seu caminho, gerando novas conexões e ramificações sem, necessariamente, ir reconhecendo as divisões molares entre carne e metal".

6 Essas falas foram escritas pelos terapeutas do grupo sobre ele e que, portanto, aspas dentro de aspas podem ser falas dos adolescentes do grupo.

7 Neste trabalho, os termos "dependência", "toxicomania", "uso de substâncias", "drogadição" são utilizados como sinônimos, não pelo desconhecimento das particularidades de cada um dos termos ou de sua implicação junto a uma área específica do saber (por exemplo, a toxicomania como advinda do campo da psicanálise), mas pelo enfoque no saber que emerge do campo de pesquisa em detrimento do que é lançado sobre ele pelas áreas já constituídas.

8 CASE é um o Centro de Atendimento Sócio-Educativo, instituição que destina-se à internação em regime fechado de adolescentes e jovens adultos com origem na região de Santa Maria. É amparada pela Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul (FASE).

9 Notícia extraída do THE TELEGRAPH (2009). Wildlife. The Telegraph. 27 jan 2009. Disponível em <http://www.telegraph.co.uk/earth/wildlife/4357829/Immortal-jellyfish-swarming-across-the-world.html>. Acesso em: 28 nov. 2010.

 

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Recebido em: 29 de maio de 2013
Aceito em: 11 de setembro de 2013

 

 

* Gostaríamos de reconhecer o apoio do CAPSi e dos profissionais envolvidos na condução do grupo terapêutico em foco.
** Endereço para correspondência: Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Sociais e Humanas. Rua Marechal Floriano Peixoto 1750/321 – Centro - 97015-372 - Santa Maria, RS – Brasil. E-mail: eduardotomm@gmail.com, adrianeroso@gmail.com.

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