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Mercator (Fortaleza)

versão On-line ISSN 1984-2201

Mercator (Fortaleza) vol.15 no.2 Fortaleza abr./jun. 2016

https://doi.org/10.4215/RM2016.1502.0002 

ARTIGOS

CIRCUITO INFERIOR DA ECONOMIA URBANA E CIDADES LOCAIS-HÍBRIDAS

Cláudia Marques Roma* 

(*)Profª. Drª da Universidade Federal da Grande Dourados - Rua Espanha, 415, CEP:79.826-380, Dourados-MS, Brasil. Tel: (+55 67) 3427-3590 - marquesroma@yahoo.com.br


Resumo

No período atual, marcado por processos de globalização e fragmentação, se dota o espaço de fluidez, ciência, técnica, informação e racionalidade, no qual se inscreve, também, o aumento do desemprego e da precarização das relações de trabalho e da pobreza estrutural. Diante deste contexto, a teoria dos dois circuitos da economia urbana se reforça ainda mais como uma possibilidade de apreensão das dinâmicas urbanas contemporâneas. Neste sentido, no presente artigo discutimos a teoria dos circuitos da economia urbana para a realidade socioespacial de três cidades locais - híbridas -, localizadas no extremo oeste do estado de São Paulo - Brasil. Nossas análises pautam-se, principalmente, no entendimento das dinâmicas do circuito inferior da economia urbana, na possibilidade de leitura dialética entre ambos os circuitos e numa análise que engloba a divisão interurbana do trabalho. Por fim, pensar o circuito inferior da economia urbana para realidade socioespacial de cidades locais - híbridas, permite-nos compreender a relação entre pobreza e circuito inferior.

Palavras-chave: Circuito inferior da economia urbana; Cidades locais - híbridas; Pobreza urbana

Résumé

Dans la période actuelle, marquée par les processus de mondialisation et de fragmentation, l'espace est doté de fluidité, de science, de technologie, d'information et de rationalité et s'y inscrit aussi la hausse du chômage et de la précarisation des relations de travail et de la pauvreté structurelle. Dans ce contexte, la théorie des deux circuits de l'économie urbaine est encore plus renforcée comme une possibilité de compréhension des dynamiques urbaines contemporaines. En ce sens, dans cet article, on discute la théorie des circuits de l'économie urbaine au sein de la réalité socio-spatiale de trois villes locales - hybrides - situées à l'extrême ouest de São Paulo - Brésil. Nos analyses sont guidées, principalement, par la compréhension des dynamiques du circuit inférieur de l'économie urbaine, par la possibilité de lecture dialectique entre les deux circuits et par une analyse qui inclut la division interurbaine du travail. Enfin, penser le circuit inférieur de l'économie urbaine pour la réalité socio-spatiale des villes locales - hybrides, nous permet de comprendre la relation entre la pauvreté et le circuit inférieur.

Mots-clés: Circuit inférieur de l'économie urbaine; Ville locales-hybrides; Pauvreté urbaine

Abstract

In the current period, marked by processes of globalization and fragmentation, endows fluidity space, science, technique, information and rationality, in which part, also, the increase of unemployment, the precariousness of labour relations and structural poverty. In this context, the theory of the two circuits of the urban economy further strengthens as a possibility of seizure of contemporary urban dynamics. In this sense, in this article we discuss the theory of circuits of urban economics to three local cities socio-spatial reality - hybrid-, located in the extreme west of the State of São Paulo - Brazil. Our analyses are, mainly, in the understanding of the dynamics of the lower circuit of the urban economy, the possibility of dialectical reading between both circuits and, in an analysis that includes the interurban division of labor. Finally, think of the urban economy lower circuit for socio-spatial reality of local cities - hybrids, allows us to understand the relation between poverty and lower circuit.

Key words: Lower circuit of the urban economy; Local cities; Urban poverty hybrid

INTRODUÇÃO

Para melhor compreender a reprodução da desigualdade na economia urbana dos países mais pobres, geógrafos passaram a analisar as cidades através de dois subsistemas da economia urbana: o circuito superior ou "moderno" e o circuito inferior ou marginal (SANTOS, 2004 [1979]). Mas o que caracterizaria cada um dos dois circuitos? Qual a diferença fundamental entre eles? A teoria dos dois circuitos, formulada na década de 1970, possui força explicativa para compreender processos atuais em um período de globalização?

Para Oliveira (2009), os circuitos da economia urbana são expressões das divisões territoriais do trabalho nos lugares e frisa que discutir sobre eles, em consequência do projeto neoliberal dos anos 1990, se torna de extrema relevância, pois atualmente multiplicam-se os trabalhadores ditos "informais", aumentam-se as dívidas sociais e se acelera o processo de urbanização, intensificando, ainda mais, a concentração de renda e a segmentação da produção e do consumo que, para o autor, está na base da existência dos circuitos. Ele destaca, ainda, que a intensificação do consumo e da circulação, em conjunção com o desemprego crônico e o fortalecimento da pobreza urbana, incide sobre as dinâmicas dos circuitos, especialmente do circuito inferior.

Portanto, de acordo com Oliveira (2009):

Em face às características do período atual, a teoria dos dois circuitos, especialmente o conceito de circuito inferior, oferece possibilidades realmente heurísticas de interpretação da dinâmica de atualização da pobreza urbana.

Assim, observa-se que, no período atual, marcado por processos de globalização e fragmentação, se dota o espaço de fluidez, de ciência, técnica, informação e racionalidade, no qual se inscrevem, também, o aumento do desemprego, da precarização das relações de trabalho e da pobreza estrutural. Sendo assim, a teoria dos dois circuitos da economia urbana se reforça ainda mais como uma possibilidade de apreensão das dinâmicas urbanas.

Nesse sentido, se faz de extrema relevância compreender as dinâmicas do circuito inferior da economia urbana em "cidades locais - híbridas", considerando que essas localidades estão inseridas na rede urbana, enquanto produtoras e na condição da divisão territorial do trabalho, processo que engendra transformações nos conteúdos socioespaciais desses localidades.

Mas, também, porque a dinâmica da economia urbana dessas cidades, quase que exclusivamente, se insere no circuito inferior da economia urbana. Neste sentido, apreender a correlação entre circuito inferior e cidades locais - híbridas nos permitirá: compreender as especificidades deste circuito para esta realidade urbana, a relação entre circuito inferior e pobreza urbana e entre as escalas intra e interurbana.

Ainda, como nota introdutória, destacamos que neste trabalho não nos aprofundaremos nas discussões referentes ao entendimento do que são as cidades locais - híbridas. No entanto, apontamos que as cidade locais estão inseridas no limite inferior da complexidade urbana e atendem, somente, as necessidades básicas da população, mantendo uma vida de relação intensa como outras localidades, conforme conceituado por Santos (1982). Portanto, seguimos as ponderações de Milton Santos para refletir sobre as cidades locais - híbridas, que tem na base do seu conteúdo as dinâmicas das cidades locais pensadas pelo referido autor.

Diante do processo de globalização, de identidades fragmentadas, expansão e qualificação da urbanização brasileira, territorialização do agronegócio e intensificação dos fluxos de todos os tipos, as relações e dinâmicas rural-urbano, sociedade-natureza, material-imaterial se alteram. A realidade socioespacial torna-se, cada vez mais complexa, exigindo novas leituras e, respectivamente, dos conceitos que buscam explica-la.

Neste contexto, a perspectiva do híbrido mostra-se muito interessante. Os debates em torno da questão do híbrido que, substanciam nossa reflexão, perpassam pelas discussões do filósofo Bruno Latour (1994), com a perspectiva de não dicotomia e proliferação dos híbridos no entendimento das dinâmicas naturais e sociais, ou sujeito e objeto. Neste sentido, Santos (2006 [1996]) e Silveira (2008) trazem a dimensão filosófica do híbrido de Bruno Latour (1994) para o entendimento do espaço geográfico e/ou território usado, o que supera dicotomias analíticas.

Nas análises de Haesbaert (2008), o hibridismo é o caminho para dar conta da complexidade do mundo contemporâneo e não perder as especificidades das ciências particulares e, destaca que o hibridismo conceitual nos traz a reinvenção de conceitos através da mescla, processo que indica não a simples superação de antigas realidades, mas emergência concomitante de situações mais complexas, pois, "conceitos, muito mais do que marcar diferenças, devem revelar multiplicidades, conexões, superposições, o que implica reconhecer sempre os elos com outros conceitos, na complexidade das questões que pretendemos desvendar". Para ressaltar, afirma que "num mundo em que, diz-se, vivemos mais (n)no 'cruzar' das fronteiras, trabalhar em áreas bem delimitadas torna-se cada vez mais difícil e, mesmo, contraproducente" (HAESBAERT, 2008).

Para Ciccolella (2010) a cidade mestiça ou híbrida consiste em uma realidade territorial marcada por crescente instabilidade entre tecido de redes e lugares, fluxos e fixos, estruturas com tempo e velocidades diferentes, uma mescla de ordem e caos e de cenários instáveis, conduzindo a cenários híbridos. Assim, "quizás deberemos acostumbrarnos a estudiar a las ciudades como resultado de processos sobreimpuestos violentamente sobre territorios heredados: ciudades híbridas o mestizas" (CICCOLELLA).

Diante deste debate conceitual que o substantivo - híbrido - procura destacar a relação, a mescla, a mistura e os conflitos entre os processos. Ou seja, nessas localidades, a cidade dos notáveis não desaparece para dar lugar à cidade econômica, mas verificamos a permanência dos notáveis, com a inserção das dinâmicas da cidade econômica, num híbrido de relações. Nessas cidades, o agrícola não elimina as dinâmicas do rural, mas há um híbrido de relações entre a tríade rural/urbano/agrícola (ROMA, 2012). Também o limite entre o urbano e não urbano deve ser pensado num processo dialético e contraditório, no qual, o híbrido entre as relações e dinâmicas permitirá uma leitura abrangente do urbano.

É a relação híbrida dos processos que nos permite entender que as transformações no período atual expressam mudanças, permanências e mesclas; que as escalas intra e interurbana se imbricam; que a dicotomia cidade e campo não é válida para entender a realidade da sociedade brasileira; e que a pobreza se processa em diferentes dimensões e se entrecruzam. Portanto, são esses elementos que produzem o conteúdo das cidades analisadas, cidades locais, por sua dinâmica de organização, que estruturam, em seus espaços, elementos que as caracterizam enquanto cidades locais - híbridas (ROMA, 2012).

Assim, como recorte empírico e analítico, iremos analisar a realidade socioespacial de três cidades localizadas no extremo oeste do estado de São Paulo: Flora Rica, Pracinha e Mariápolis, com população de 1.752, 2.863 e 3.916 habitantes, respectivamente (IBGE, 2010). Os procedimentos metodológicos pautaram-se, principalmente em Trabalho de Campo com aplicação de 75, 96, 63 questionários aplicados junto à população, das cidades de Flora Rica, Pracinha e Mariápolis, respectivamente, a fim de, apreensão das condições de vida da população, bem como perfil populacional. Para definição da amostra utilizamos à metodologia de "estimação de uma média" desenvolvida e utilizada pelo Laboratório de Epidemiologia e Estatística da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo .

Especificamente, no que tange análise do circuito inferior da economia urbana foram entrevistados a quase totalidade dos estabelecimentos comerciais e/ou de serviços, perfazendo 25, 15, 29 estabelecimentos para as cidades Flora Rica, Pracinha e Mariápolis, respectivamente. A exceção foram poucos estabelecimentos que se recusaram participar da pesquisa.

TIPOLOGIA DOS DOIS CIRCUITOS DA ECONOMIA URBANA: AS CARACTERÍSTICAS DO CIRCUITO INFERIOR EM CIDADES LOCAIS HÍBRIDAS

Segundo Santos (2004 [1979]), o que diferenciaria as atividades do circuito superior das atividades do circuito inferior seria a tecnologia empregada e o modo de organização do trabalho. Assim, o circuito superior mantém sua base diretamente relacionada à modernização tecnológica e aos grandes monopólios, detentores das novas tecnologias e de poder no mercado financeiro. Por sua vez, o circuito inferior é formado pelas atividades de pequena escala, como dos pequenos comerciantes, mascates e vendedores ambulantes, voltados para o mercado de consumo local e a população com menor mobilidade (os mais pobres). Esse circuito, entretanto, não se trata de um setor tradicional porque é produto indireto da modernização e uma parte do seu abastecimento vem do setor moderno, do qual depende (SILVEIRA, 2007).

Já o circuito superior marginal, nascido sobretudo em função da relevância que adquire a circulação, está próximo do circuito superior pela funcionalidade de seu trabalho, mas se relaciona com o circuito inferior pelo comportamento de seus atores (SILVEIRA, 2004). O circuito superior marginal é importante para difundir novas tecnologias inserindo em sua dinâmica algo moderno, mas é, ao mesmo tempo, residual.

Nas análises de Maria Laura Silveira, a cidade não é apenas lugar do circuito superior, "mas também do trabalho não especializado, das produções e serviços banais, das ações ligadas aos consumos populares" (SILVEIRA, 2004, p. 60). Assim, para a autora, o circuito inferior e superior marginal, nos dias atuais, encontram maior desenvolvimento. Ela ainda acrescenta que os circuitos da economia urbana são "vasos comunicantes, pois sendo ambos um resultado da modernização, encontram, atualmente, as condições de sua reprodução" (SILVEIRA, 2004, p. 66).

Os circuitos não são estanques e, assim, não podem ser analisados separadamente, mas são "vasos comunicantes" (SILVEIRA, 2007), em movimento. Cada nova divisão territorial do trabalho modifica suas lógicas e a estruturação do espaço urbano.

Nos espaços urbanos metropolitanos, por exemplo, coexistem inúmeros elementos constituintes dos dois circuitos, porém, nas cidades locais - híbridas, a economia urbana é marcada, predominantemente, pelo circuito inferior. Devemos destacar que não se trata de uma tipologia, pois há elos que as articulam também ao circuito superior, mas, a base da economia urbana são as relacionadas ao circuito inferior.

No entanto, não podemos trabalhar com os circuitos da economia urbana em cidades que apresentam somente as dinâmicas do circuito inferior, como nas locais - híbridas, pois para a estruturação dos circuitos é necessária a dialética entre ambos.

Portanto, a análise do circuito inferior dessas localidades se faz possível pela intensa vida de relações existente com outros aglomerados que desenvolvem as dinâmicas do circuito superior e superior marginal, permitindo-nos a compreensão de uma economia política da urbanização e da cidade.

A complementaridade dos circuitos, através das relações interurbanas, se apresenta pelo acesso da população às instituições financeiras, aos supermercados inseridos no circuito superior e superior marginal e às lojas de departamentos como, por exemplo, Casas Pernambucanas e Casas Bahia, entre inúmeros outros nexos. Nesse processo, o circuito inferior existente nas cidades locais - híbridas encontra condições para sua reprodução. Isso demonstra-nos que a economia urbana é um conjunto solidário e contraditório de divisões do trabalho, como indicado por Silveira (2004) para pensar as cidades.

A prevalência do circuito inferior, nas localidades analisadas, não significa que essa população não consuma objetos técnicos modernos. Ao contrário, a interdependência com o circuito superior e superior marginal pelas relações interurbanas possibilita, como indicado por Silveira (2007, p. 12), "a participação dos pobres nos eventos contemporâneos". E é, nesse sentido, que concordamos com a autora quando afirma que todas as classes podem consumir fora dos circuitos ao qual estão ligados.

A população empobrecida das cidades locais - híbridas, mesmo não tendo pleno acesso aos meios de consumo coletivo - bens coletivos -, consome alguns objetos técnicos modernos, mas mantem a pobreza estrutural. Assim, Silveira (2007) destaca que há um equívoco quando se pretende associar pobreza e falta de consumo, pois o crédito se processa em todos os lugares e classes sociais.

Portanto, circuito superior e inferior se correlacionam sendo opostos e complementares, e, no período atual de globalização, o hibridismo existente em suas relações se intensifica. Cada circuito apresenta suas próprias características, mas a complementariedade para o circuito inferior ganha forma de dominação (SILVEIRA, 2007).

Na estruturação do circuito inferior nas três cidades analisadas (Flora Rica, Pracinha e Mariápolis), observamos que os motivos que levaram a população a desempenhar as atividades observadas nessas localidades se relacionam, principalmente, às questões ligadas a melhores oportunidades financeiras, obtenção de renda, melhor lucro, liberdade financeira, trabalhar por conta própria e, também, a falta do comércio ou serviços na cidade. Esses motivos demonstram-nos duas questões.

A primeira é que um dos fatores preponderantes para abertura de um comércio ou serviço ligados ao circuito inferior é a pobreza material, pois com pouco capital inicial um cidadão tem a oportunidade de aumentar sua renda, alternativa ao desemprego, além de trabalhar por conta e ser dono do seu próprio negócio. A segunda questão está relacionada à reduzida quantidade de comércios e serviços existentes nessas localidades, como destacado pelos entrevistados, ou seja, a falta desse tipo de atividade para suprir a necessidade da cidade, dentre outros.

No entanto, ainda no que tange aos motivos para desempenharem determinada atividade, destaca-se, para as três cidades, a questão da herança. Esse fator demonstra que a dinâmica desse circuito nas cidades locais - híbridas se difere das demais realidades urbanas, pois a questão herança indica que a abertura e duração das atividades não é efêmera. Dito de outra maneira, a mortalidade dessas atividades existe, mas a forte permanência predomina.

Silveira (2004), ao analisar a cidade de São Paulo, destaca que graças aos baixos custos de produção, ampla oferta de insumos, mão de obra e clientes surge um considerável número de pequenas empresas e, mesmo que a mortalidade seja alta, a demanda possibilita que outras possam nascer. Nas cidades locais - híbridas, ao contrário, onde não há o dinamismo das grandes metrópoles, é reduzida a possibilidade de expansão do número de atividades e a dinâmica de abertura de novas empresas.

Isso se refletiu quando analisamos o tempo de abertura das empresas nas cidades estudadas: a maioria das empresas abertas em Mariápolis estão ativas há mais de dez anos, num total de 57,14%; em Pracinha a maioria está aberta entre mais de um até cinco anos, 46,67%, enquanto as empresas de cinco a dez anos correspondem a 33,33% e as empresas com mais de dez anos perfazem 20,00%; em Flora Rica observa-se que as empresas abertas até um ano satisfazem um total de 12,00%, com mais de um até cinco anos, 32,00%, mais de cinco até dez anos, 28,00%, e com mais de dez anos de abertura apresentam um total de 28,00%.

Entre as principais características que compõem o circuito superior e inferior, destacamos as mudanças ocorridas em ambos os circuitos na era da globalização, pautada em inovações tecnológicas, telecomunicações e uma maior e crescente organização do mercado financeiro global.

TECNOLOGIA E ORGANIZAÇÃO

No circuito inferior está havendo uma adoção de tecnologia, como observamos com a utilização de computadores e máquinas de cartão de crédito, pois, das empresas entrevistadas, as que têm computador perfazem 57,14%, 53,33% e 28,00% para Mariápolis, Pracinha e Flora Rica, respectivamente. As que possuem máquina de cartão de crédito correspondem 25,00%, 60,00% e 16,00%, respectivamente. Assim, mesmo que em um ritmo mais lento, está havendo uma mudança nas características do circuito inferior dessas localidades seguindo as dinâmicas de transformações do período atual.

No entanto, mesmo com a introdução de tecnologia, o trabalho continua sendo intensivo, ao contrário do que acontece com o capital, pois o que gera renda é o trabalho, seja o familiar, doméstico, ou o trabalho assalariado, de baixa qualificação e remuneração. Nesse mesmo sentido, a organização continua sendo primitiva, como, por exemplo, no que tange os estoques e a forma de demarcação dos preços, necessitando de trabalho intensivo.

Assim, referindo-se a essas duas variáveis, observamos que na organização dos estoques, em Mariápolis, 53,57% das empresas realizam esse procedimento manualmente, 21,43% computadorizado e 14,29% utilizam as duas formas; em Pracinha, 73,33% procedem de forma manual e apenas 6,67% o procedem de forma computadorizada; já em Flora Rica, temos 92,00% utilizam o procedimento manual e apenas 4,00% o computadorizado, e para a demarcação de preços segue-se a mesma dinâmica.

Ainda no sentido de discutir a organização do circuito inferior que continua sendo primitiva, temos os dados referentes à estrutura administrativa dessas empresas. Os dados demonstram que, na grande maioria, não há tarefas específicas e, predominantemente, as funções não são fixas. Isso significa que uma mesma pessoa realiza diferentes atividades no mesmo estabelecimento, representando 96,43% dos funcionários das empresas observadas em Mariápolis, 63,33% em Pracinha e 88,00% em Flora Rica.

Assim, a inserção de tecnologia não modifica substancialmente a organização e as formas de trabalho predominantes no circuito inferior dessas cidades. Esse mesmo fator foi observado por Montenegro (2006) ao trabalhar com o circuito inferior na cidade de São Paulo, demonstrando que essas dinâmicas podem estar ocorrendo em diferentes espaços.

CAPITAL

O que substancia o circuito inferior não é, como apontamos, capital intensivo. Nas questões sobre o capital das empresas, constatamos que, nas três cidades, os investimentos realizados para melhoria dos estabelecimentos é quase inexistente e, quando ocorre, se limita a reparos na pintura e pequenas reformas. Apenas um estabelecimento na cidade Mariápolis investe, anualmente, na troca e manutenção dos equipamentos (computadores) e renovação dos móveis.

O capital/faturamento das empresas está relacionado à renda familiar, pois, mesmo com a existência de conta bancária específica para a empresa - 57,17% dos estabelecimentos de Mariápolis, 66,67% de Pracinha e 24,00% de Flora Rica - a separação entre o capital da empresa e a renda familiar é de apenas 28,57% para Mariápolis, 46,67% para Pracinha e somente 4,00% para Flora Rica.

Assim, no que tange ao grau de capitalização das empresas, observamos, que este é baixo e/ou praticamente nulo. Dentre os elementos já apontados, três fatores se destacam: a) pobreza material, fator indicativo de baixo grau de capitalização; b) baixo capital inicial, considerando que este tipo de comércio e serviço não exige grandes investimentos de capital; c) herança, fator importante para realidade analisada que, perpassa pelos elementos anteriores, como pobreza material, baixo capital de investimento, além do trabalho intensivo. Oposto ao existente no circuito superior da economia urbana que apresenta um elevado grau de capitalização.

ARRANJO ORGANIZACIONAL

As poucas e pequenas empresas instaladas nas cidades locais - híbridas estão baseadas em um arranjo organizacional não burocrático e mantêm a forma de contratação familiar, típico do circuito inferior da economia, com pouca introdução do trabalho assalariado. Esse quadro se apresenta distribuído da seguinte maneira: para Mariápolis 53,57% de mão de obra familiar e 46,43% assalariada; para Pracinha 40,00% familiar, 46,67% assalariada e 13,33% mista; para Flora Rica temos 64,00% de mão de obra familiar e 36,00% assalariada.

Devido ao pequeno porte dos estabelecimentos, nos quais a relação com a clientela é direta e personalizada, persiste o sistema de registro das despesas em cadernetas, com pagamento mensal. Mesmo que a adoção de novas tecnologias tenha permitido a inserção do sistema de crédito, baseado no cartão de débito e crédito - em alguns estabelecimentos das cidades locais - híbridas a grande maioria das transações ainda consiste no registro em cadernetas.

Essa característica do circuito inferior presente nas cidades locais - híbridas se reforça devido à pobreza existente nesses espaços, ou seja, a falta de crédito ou dinheiro líquido faz com que a população mais pobre adquira os produtos, mesmo sendo estes sensivelmente mais caros, por causa da possibilidade de crédito via caderneta, "fiado", além da possibilidade de diminuir os deslocamentos para outras cidades a fim de adquirir bens e produtos.

O trabalho de Montenegro (2006), com base na cidade de São Paulo, faz um contraponto interessante ao nosso estudo. Diferentemente das cidades locais - híbridas, para as metrópoles, mesmo com a intensificação do circuito inferior, as formas de créditos via cartão de crédito, cheque e boleto bancário prevalecem, tornando o "fiado" quase inexistente.

ESTOQUES

Anteriormente, no modelo da sociedade industrial, os estoques para o circuito superior deveriam ser em grande quantidade. Já no período atual, com as facilidades de deslocamento e comunicação, este sistema de estoque baseia-se no modelo just-in-time, no qual os estoques são nulos, ou quase nulos, dependendo da demanda. No circuito inferior os estoques reduzidos continuam sendo característicos, devido à limitação financeira dos estabelecimentos para realização de grandes estoques e também, em certo sentido, seguindo a lógica do circuito superior e superior marginal.

No que concerne aos estoques para cidade de Mariápolis, a forma mais usual de realização dos pedidos é através do vendedor, representando 39,29% dos pedidos, seguido de vendedor e telefone; vendedor, telefone e internet; telefone, internet e outra forma (adquire diretamente em outras cidades), apresentando uma variação, em meio a essas formas de pedido, entre 17,14% e 17,86%. O tempo para recebimento das mercadorias varia de um a três dias em 28,57% dos casos enquanto que mais de 15 dias corresponde a 14,29% dos casos. Para Pracinha e Flora Rica temos, respectivamente, 46,67% e 52,00% dos pedidos realizados por vendedores, seguido de vendedor e telefone com 33,33% para Pracinha e, na categoria vendedor e outra forma (busca em outras cidades), 36,00% para Flora Rica. Referente ao tempo necessário para recebimento das mercadorias, tem-se: um a três dias correspondendo a 60,00% dos pedidos em Pracinha e 20,00% em Flora Rica, seguido de oito a quinze dias com 6,67% para Pracinha e quatro a sete dias correspondendo a 48,00% dos pedidos para Flora Rica.

Podemos observar que, mesmo com a introdução de tecnologia, em algumas empresas os pedidos via internet ainda continuam limitados, principalmente para as cidades de Pracinha e Flora Rica. Isso demonstra, acoplado a outros fatores pontuados, que o circuito inferior nas cidades locais - híbridas mantém, em sua organização, uma dinâmica da divisão territorial do trabalho característica de um momento anterior, mas que se insere numa nova forma de divisão do trabalho, alterando as dinâmicas de estruturação do circuito, sem destruir por completo as formas pretéritas.

LUCROS

Para o circuito inferior, ainda que o lucro por unidade comercializada nas vendas possa parecer alto, em comparação com os preços das mercadorias adquiridas nas cidades sub-regionais, (Lucélia, Adamantina, Dracena), como informam os entrevistados, ele se reduz em função do pequeno montante comercializado. Esse fato associa-se às relações interurbanas que se estabelecem entre as cidades locais - híbridas e as cidades maiores da região, determinadas, justamente, pela reduzida oferta e os elevados preços dos produtos nos estabelecimentos locais.

PUBLICIDADE

A publicidade no circuito inferior passa de nula para pequena, mas é existente. Dentre as três localidades analisadas, a cidade de Mariápolis foi a que mais introduziu na dinâmica do circuito inferior essa questão. Assim, das empresas entrevistadas, 64,29% já realizaram algum tipo de publicidade enquanto 35,71% declararam que nunca realizaram. Em Pracinha, 40,00% afirmaram buscar o recurso da publicidade e 60,00% não. E, para Flora Rica, apenas 8,00% das empresas fazem publicidade enquanto 92,00% nunca realizaram algum tipo de publicidade. As formas utilizadas para publicidade são: propagandas em rádios AM e FM, jornal da cidade, anúncios em agenda telefônica, internet, panfletos, sistema de alto falantes em carro de som, sacolas plásticas, calendários e propagandas em eventos realizados na cidade.

CRÉDITO

Como destacado por Silveira (2007), as transformações atuais ocorridas no circuito inferior também podem ser observadas em relação ao crédito. As camadas da sociedade inseridas no circuito inferior passam a usufruir, cada vez mais, de linhas de crédito, pois a organização do sistema financeiro ligado ao circuito superior se utiliza do crédito para drenar a renda dos inseridos no circuito inferior.

Nas cidades locais - híbridas, 100% das empresas entrevistadas declararam nunca ter recebido ajuda governamental, como empréstimos para manutenção dos estabelecimentos dentre outros. Considerando que a relação entre capital da empresa e renda familiar é intensa, podemos dizer que a questão do crédito pode estar atrelada à dimensão pessoal, mesmo que este seja utilizado na empresa. Como aponta Silveira (2007), a expansão dos nexos financeiros - crédito - se relaciona à população inserida no circuito inferior, drenando a renda dos que estão inseridos nesse circuito, aumentando a pobreza do circuito inferior e as conexões entre os circuitos da economia urbana.

Ainda no sentido dos nexos entre os circuitos, destacamos, novamente, a vida de relações, mas, também, a presença das usinas e/ou destilarias de cana de açúcar na região e a Cooperativa de Consumo de Inúbia Paulista, que geram processos que fortalecem a presença do circuito inferior da economia urbana nessas localidades.

A grande quantidade de usinas e/ou destilarias na região da Nova Alta Paulista pauta-se na monocultura com concentração de terra e renda, desapropriando os camponeses de suas terras. Esses, por sua vez, passam a residir nas cidades e, com o tempo, vivenciam ainda mais o empobrecimento, participando, desta maneira, como consumidores - como já o faziam - e, com o tempo, integram-se no circuito inferior enquanto trabalhadores desse circuito.

Pensando na mecanização da cana-de-açúcar, processo que começa a se desenvolver na região, pode-se dizer que os trabalhadores manuais dessa monocultura vivenciam a substituição da mão de obra humana pela mecanizada e esse processo leva, consequentemente, ao aumento do desemprego . Nesse sentido, o circuito inferior se reforça ainda mais nessas cidades locais - híbridas perpetuando a pobreza, mas sendo a única opção de obtenção de renda.

Ainda nesse sentido, destacamos a presença da Cooperativa de Consumo na cidade Inúbia Paulista que gera um elevado fluxo de pessoas para a cidade contribuindo para o fortalecimento e, ao mesmo tempo, enfraquecimento do circuito inferior. Ao possibilitar a aglomeração de diversos camelôs nos seus arredores, prolifera-se o número de pequenos trailers de venda de lanches, pastéis etc. Também o número de vendedores de roupas e outros produtos aumenta e dinamiza o circuito inferior, mas enfraquece o pequeno comércio ligado ao circuito inferior existente na cidade, justamente pela presença da cooperativa .

Dentre as três cidades analisadas, podemos perceber que Flora Rica, na estruturação do circuito inferior da economia urbana, foi a localidade que menos absorveu as transformações do período atual. A dinâmica do circuito inferior presente nesse aglomerado mantém, dentre as três cidades, o modelo de organização mais primitivo, com menos inserção de tecnologia, dentre outros. E a pobreza urbana, como nas demais localidades, continua sendo parte de seu conteúdo estruturador.

Mariápolis e Pracinha, mesmo de maneira mais lenta, inserem na dinâmica do circuito inferior transformações tangenciadas pelos processos de modernização tecnológica, mas, ao mesmo tempo, mantêm elementos característicos do circuito inferior da economia urbana observados na década de 1970.

Assim, diante do exposto, para as cidades locais - híbridas por nós analisadas, podemos refletir sobre as características dos circuitos da economia urbana, principalmente do circuito inferior. Porém, destacamos que as ponderações sobre o circuito superior, no quadro 1, vêm substanciadas pelo referencial teórico utilizado nesse trabalho e, para o circuito inferior, as informações referem-se às dinâmicas presentes nas cidades locais - híbridas.

Quadro 1 Características dos dois circuitos da economia urbana 

Circuito Superior Circuito Inferior
Tecnologia capital intensivo trabalho intensivo, mas adoção de tecnologia
Organização do trabalho burocrática primitiva mesmo com introdução de tecnologia
Capital elevado reduzido
Emprego reduzido volumoso
Relações de trabalho assalariado dominante Familiar e assalariado
Estoques quantidade reduzida alta qualidade pequena quantidade qualidade inferior
Preços fixos (em geral) submetida à discussão entre comprador e vendedor
Crédito bancário institucional pessoal não-institucional
Margem de Lucro reduzido ou por unidade, mas importante pelo volume de negócios elevado por unidade, mas pequena em relação ao volume de negócios
Relação com a clientela (exceção produtos de luxo) impessoais e/ou com papéis diretas personalizadas
Custos fixos importantes desprezíveis
Publicidade necessária Passa de inexistente para incipiente, vem se transformando em necessária
Reutilização dos bens nula frequente
Ajuda governamental importante para cidades analisadas, inexistentes
Dependência direta do exterior grande, atividade voltada para o exterior reduzida ou nula

Fonte: Santos (2004[1979]), Silveira (2004, 2007, 2008), Montenegro (2006) e Trabalho de Campo, 2012.

Pontuamos que a predominância do circuito inferior da economia urbana nas cidades locais - híbridas reforça a necessidade de deslocamento de seus moradores para outras cidades para o acesso a bens e serviços na rede urbana, intensificando a inter-relação entre os circuitos da economia urbana e, nesse sentido, a possibilidade do circuito inferior em "cidades pequenas".

Portando, reforçamos nosso entendimento de que, sem levar em consideração o circuito inferior, a compreensão da cidade é incompleta, principalmente se considerarmos, para as cidades locais - híbridas, a relação entre circuito inferior e pobreza, sendo que "pobreza e circuito inferior aparecem com relação de causa e efeito inegável" (Santos, 2004 [1979], p. 196). Discutiremos esse assunto no próximo item.

POBREZA E CIRCUITO INFERIOR DA ECONOMIA URBANA

No que se refere à pobreza e circuito inferior da economia, Santos (1978) demonstra que a abordagem sobre a pobreza urbana deve ser considerada sob os efeitos da modernização, tanto em nível internacional como local, ou o funcionamento da economia pobre com a economia moderna. Assim, para entender a pobreza urbana é indispensável analisar a economia urbana não como um sistema único, mas composto de dois subsistemas - circuito superior e circuito inferior (SANTOS, 1978, p. 33). Nesse sentido, para as cidades locais - híbridas é preciso pensar a pobreza urbana através dos circuitos da economia urbana. Relacionar pobreza e circuito inferior nos permite entender a pobreza material que se processa nesses espaços.

Santos (1978) aponta que a pobreza urbana, pensada através dos dois subsistemas da economia urbana, está relacionada com o consumo e que a sociedade urbana é dividida entre os que têm acesso permanente às mercadorias e serviços e aqueles que, com as mesmas necessidades, não estão em condições de satisfazê-las.

Seguindo a linha de pensamento de Santos (1978 e 2004 [1979]) e de Corrêa (1999), verificamos que uma das principais formas - mas não exclusiva - de inserção das cidades pequenas na rede urbana é através da constituição do circuito inferior da economia, destacando, porém, que essa constatação não implica uma tipologia, segundo a qual a metrópole estaria ligada ao circuito superior e as cidades pequenas ao circuito inferior. As cidades pequenas não se inserem na rede urbana unicamente pelo circuito inferior, pois há elos que as articulam também ao circuito superior, mesmo porque ambos compreendem uma totalidade que não pode ser pensada apenas a partir de um deles.

No que tange as correlações dos circuitos da economia urbana, Santos (1978) explica que:

O circuito superior emana diretamente da modernização tecnológica, mais bem representado atualmente, nos monopólios, não está ligado ao local ou regional, mas sim dentro da estrutura de um país ou de países. O circuito inferior é formado de atividades de pequena escala, servindo, principalmente, à população pobre; ao contrário do que ocorre no circuito superior, essas atividades são profundamente implantadas dentro da cidade, usufruindo de um relacionamento privilegiado com sua região.

No sentido de pensar os nexos financeiros entre os dois circuitos da economia urbana, Silveira (2009) destaca que:

Os agentes do circuito inferior, que precisavam de liquidez, tornavam-se uma clientela cativa e dependente, e o agiota era um traço de união na economia urbana. As instituições financeiras bancárias e não-bancárias passam a cumprir esse papel. Podemos dizer que, hoje, o circuito superior reconhece a importância de desburocratizar o crédito, para estender suas oportunidades de lucro e, assim, os requisitos exigidos são mínimos.

Ao dotar o território de técnica, ciência e informação, o meio-técnico-científico-informacional intensifica a fluidez, reforçando a importância dos fluxos, sobretudo da circulação de dinheiro, ainda mais na região concentrada - onde se insere nossa área de pesquisa - que apresenta uma extrema divisão do trabalho e uma relevante vida de relações (SANTOS E SILVEIRA, 2006 [2001]).

Ainda nesse sentido, Silveira (2009) acrescenta que as firmas comerciais, se tornando financeiras, têm-se orientado em direção às camadas mais baixas, aumentando o consumo, mas com menos oportunidade de produzir. Assim, o consumo dos pobres passa a se realizar crescentemente no circuito superior e, "em consequência, aumenta a distância entre o circuito superior, portador de mais lucros e menos capacidade ociosa, e o circuito inferior, cada dia mais pobre e endividado" (SILVEIRA, 2009).

Como discutido, a população das cidades locais - híbridas tem acesso aos nexos financeiros e cada vez mais o consumo é drenado para o circuito superior e superior marginal, já que a vida de relações é intensa.

Sendo assim, Santos e Silveira (2006 [2001]) apontam para o efeito do tamanho da população:

O efeito do tamanho tem importante papel na divisão interurbana e também na divisão intra-urbana do trabalho; quanto maiores e mais populosas as cidades, mais capazes são eles de abrigar uma extensa gama de atividades e de conter uma lista maior de profissões, estabelecendo, desse modo, um tecido de inter-relações mais eficaz do ponto de vista econômico.

O tamanho populacional é um fator importante para que as funções urbanas sejam destinadas apenas a suprir as necessidades básicas da população. Nesse contexto, essas características não permitem que se desenvolva um elevado número de empregos. Assim, o desemprego torna-se uma questão latente nesses espaços urbanos.

Nas três cidades estudadas, constatamos que a falta de oportunidade de emprego é um dos principais problemas encontrados, conduzindo a uma elevada pobreza material. Na cidade de Pracinha, por exemplo, dos entrevistados que estão em idade ativa, 36,92% declararam trabalhar e 44,61% não estão trabalhando no momento pela falta de oportunidades de emprego na cidade. Os serviços e comércios presentes nessas localidades, em número e tamanho reduzidos, geram uma demanda limitada por mão de obra que, na maioria das vezes, é suprida pelo trabalho familiar.

Além da falta de oportunidade de emprego, observamos que as ocupações dos entrevistados mantêm uma predominância de ocupações usualmente exercidas pelos segmentos sociais de menor poder aquisitivo, pois são ocupações que comumente requerem baixo nível de escolaridade, pouca qualificação profissional e, no geral, são mal remuneradas, com destaque para as seguintes: diarista, boia-fria, empregada doméstica, pedreiro, trabalhador agrícola (cortador de cana-de-açúcar), dentre outras. As profissões declaradas pelos entrevistados que se diferenciam das demais foram de professor, funcionário público municipal e trabalhador agrícola, como maquinista, tratorista, etc.. Ainda nesse sentido, foi constatado, entre os entrevistados, somente a ocupação de professor exige maior qualificação. Para as cidades analisadas, além de professor, não constatamos ocupações que conferem maior qualificação e/ou remuneração mais elevada como, por exemplo, empresários, advogados, magistrados, médicos, veterinários, engenheiros, dentre outros.

No que tange a renda familiar dos entrevistados, observamos que nas três cidades pouco mais de 50% dos entrevistados recebem até dois salários mínimos, configurando uma população empobrecida.

Devemos ponderar, ainda, que a prevalência do circuito inferior em uma economia urbana propicia a criação de riquezas, pois sua dinâmica é baseada no trabalho intensivo, ao invés de capital intensivo, fator que proporciona a geração de empregos e diversificação das funções, mas, mesmo assim, prevalece a perpetuação da pobreza.

Silveira (2007, p. 19), ao trabalhar nessa questão, pondera que:

O problema é imaginar que essa economia, que corresponde à maioria da nação e do território, não cria riqueza, emprego nem é produtiva. Na realidade, o circuito inferior e, tantas vezes, o circuito superior marginal criam riqueza mais lentamente e, por isso, menos desigualmente. Com menos capital cria-se mais emprego.

Ainda nesse sentido, mas referindo-se ao mercado consumidor do circuito inferior, Silveira (2004, p. 66) destaca:

A concentração de pobres na cidade de São Paulo acaba tendo um efeito positivo sobre os volumes produzidos e comercializados. Cria-se um mercado que, apesar das demandas individuais limitadas, constitui, pelo grande número de famílias, um efeito ampliado.

Essa dinâmica é denominada economia da pobreza, pois esses não podem consumir muito, mas são muitos (SILVEIRA, 2004). Portanto, observa-se uma diferença clara entre a dinâmica do circuito inferior existente nas metrópoles, como São Paulo, e o circuito inferior das cidades locais - híbridas. Enquanto a concentração de pobres na metrópole permite um efeito positivo sobre os volumes produzidos e comercializados criando um mercado consumidor, nas cidades locais - híbridas - mesmo o circuito inferior sendo o grande responsável pelo movimento da economia urbana o seu mercado consumidor é restrito e limitado. Associado a isto, devemos considerar também a localização desses aglomerados, a capacidade de aquisição de bens e produtos e o desvio de oferta e demanda de bens e produtos.

Assim, Santos (1985 ) aponta que o lugar atribui aos elementos constituintes do espaço um valor particular. Cada elemento do espaço - homens, firmas, instituições, meio - adquire características próprias, mesmo estando subordinados ao movimento do todo. O autor destaca que fábricas com o mesmo poder econômico e político apresentam diferenciações de resultados se considerarmos suas localizações e, também, indivíduos dispondo da mesma formação e virtualidades "não têm a mesma condição como produtores, como consumidores e até mesmo como cidadãos" (SANTOS, 1985) devido à localização.

Assim, estar localizado em uma cidade local - híbrida, no interior do estado de São Paulo, é um fator preponderante no fortalecimento da pobreza urbana, pois nesses espaços as empresas, fábricas e indivíduos não encontram as mesmas condições como produtores, consumidores e cidadãos, intensificando ainda mais o aumento do desemprego e uma diminuição do valor do trabalho.

O desemprego e a baixa remuneração interferem na capacidade de aquisição dos bens e produtos que dependem da disponibilidade de recursos econômicos, mas "também pela acessibilidade do bem ou do serviço demandado" (SANTOS, 1985).

Nas cidades locais - híbridas, os repasses governamentais, como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), por exemplo, são as principais fontes de recursos disponíveis para o Poder Público local. Além disso, o número de serviços e equipamentos comerciais é reduzido, há alta taxa de desemprego e baixa remuneração e os empregos públicos, em muitos casos - principalmente aqueles que exigem maior qualificação -, são preenchidos por pessoas residentes em outras localidades. Esses fatores indicam que a capacidade de consumo de bens e serviços pela população esbarra na disponibilidade financeira.

Outro fator relacionado ao acesso de bens e serviços se refere à acessibilidade, pois sua demanda é suprida, em sua grande maioria, em cidades maiores. Assim, as pessoas necessitam deslocar-se esbarrando em horários de ônibus, recursos financeiros para tarifa e tempo de deslocamento.

Os estabelecimentos existentes nas cidades locais - híbridas não dispõem de uma elevada oferta de bens e serviços. A demanda é desviada ou suprida para cidades sub-regionais ou médias. Este fator, por sua vez, reduz a oferta existente nessas cidades devido à falta de demanda. Além disso, esse desvio de demanda tende a elevar o preço dos produtos, reduzindo a clientela e, em pouco tempo, esses estabelecimentos não estarão mais em condições de atender à população local que buscará os bens e produtos em outros núcleos. Esse processo é constatado em todas as cidades analisadas, sendo o caso mais emblemático o da cidade de Flora Rica, onde apenas 10,53% dos entrevistados declararam adquirir os produtos alimentícios na cidade. No que tange à aquisição de confecções, calçados e armarinhos, apenas 3,94% dos entrevistados os adquirem exclusivamente em Flora Rica, enquanto 2,64% declaram obter esses produtos em Flora Rica e em outras localidades, fator atribuído aos elevados preços e reduzida oferta dos produtos.

Santos (1985, p. 84), ao analisar os fatores indicados acima, aponta que:

Torna claro que as opções de organização espacial e urbana têm relação direta com as tendências à redução ou ao aumento da pobreza. Se as condições de organização da economia, da sociedade e do espaço conduzem a agravar a pobreza, isto é, a reduzir a participação dos trabalhadores urbanos e rurais no fruto do seu trabalho, a organização do espaço e o perfil urbano resultantes serão um fator suplementar de pobreza, isto é, farão com que os pobres se tornem ainda mais pobres.

O autor acrescenta que a organização espacial tende a contribuir para o aumento da pobreza e que a pobreza também é um fator na organização do espaço, afinal, as "condições", as "circunstâncias" e o meio histórico, que é também meio geográfico, devem, paralelamente, ser considerados, pois "não podem ser reduzidos à lógica universal" (SANTOS, 2006).

No entanto, podemos dizer que esta estreita relação da cidade local - híbrida e circuito inferior da economia propicia a estruturação da pobreza, que se processa nas incipientes funções urbanas, na precariedade dos serviços e equipamentos urbanos, na questão do desemprego e da má remuneração, na redução do valor do trabalho, na localização, no acesso aos bens e produtos e no desvio de demanda. Portanto, as características presentes nas cidades locais - híbridas propiciam uma organização espacial que conduz à pobreza urbana, sendo que, como apontamos anteriormente, "pobreza e circuito inferior aparecem com relação de causa e efeito inegáveis" (SANTOS, 2004 [1979]). Assim, corroboramos com Maria Laura Silveira que, ao analisar o circuito inferior, aponta a existência de uma pobreza estrutural como produto da crescente racionalização da sociedade e do território, e esse processo de racionalização se globalizando também faz seus produtos, como a pobreza. "Desse modo, la división del trabajo nacida del neoliberalismo ha sido productora de pobreza y deudas sociales", e é com a superposição da divisão do trabalho das grandes corporações baseadas em técnica, ciência e informações e mecanismos financeiros que as formas de trabalhar e os lugares se desvalorizam, "de allí los mecanismos de exclusión y pobreza" (SILVEIRA, 2008).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Analisando alguns itens da tipologia presente na teoria dos dois circuitos da economia, observamos quais as principais diferenças existentes entre os dois circuitos e como o circuito inferior - nosso foco de análise - se utiliza das variáveis existentes no período. Ressaltamos que, cada vez mais, a teoria nos permite entender a realidade da economia urbana, principalmente em um período marcado por processos acelerados de modernizações, que levam consigo o desemprego crônico, a obsolescência dos saberes, as técnicas de automação, a concentração de propriedade e do excedente, resultando em uma pobreza estrutural (SILVEIRA, 2007).

Para a realidade da economia urbana das cidades locais - híbridas, apreendemos que as dinâmicas do circuito inferior se modificam diante das transformações presentes no período atual, mas também constatamos que algumas variáveis mantêm suas características enquanto outras se mesclam.

Para as cidades que mantêm em sua economia urbana a predominância do circuito inferior, como as cidades locais - híbridas, somente podemos pensar a questão dos circuitos acoplada à análise da divisão interurbana do trabalho, pois a relação entre os circuitos é dialética. Nesse sentido, a relação entre as escalas intra e interurbana permite-nos visualizar as dinâmicas dos circuitos da economia urbana na produção da cidade, que para as locais - híbridas se expressam no circuito inferior.

Assim, destacamos que o circuito inferior, no contexto das cidades locais - híbridas, é produtivo e responsável pela geração de emprego e renda, possibilitando a sobrevivência, mas apresenta poucas condições de criar riqueza e emprego pelo pequeno número do seu mercado consumidor, influindo, ainda, para manter a incipiência das funções urbanas existentes nessas localidades. Esses fatores corroboram para que o desemprego, o trabalho mal remunerado e a pobreza sejam questões latentes nesses espaços.

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Recebido: Abril de 2016; Aceito: Maio de 2016

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