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Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária

On-line version ISSN 1984-2961

Rev. Bras. Parasitol. Vet. vol.16 no.3 Jaboticabal July/Sept. 2007

https://doi.org/10.1590/S1984-29612007000300012 

NOTA DE PESQUISA

 

Haemaphysalis juxtakochi Cooley, 1946 (Acari: Ixodidae) parasitando Mazama nana (Hensel, 1872) (Artiodactyla: Cervidae) no estado do Rio Grande do Sul*

 

Haemaphysalis juxtakochi Cooley, 1946 (Acari: Ixodidae) parasitizing Mazama nana (Hensel, 1872) (Artiodactyla: Cervidae) in the State of Rio Grande do Sul

 

 

João Ricardo MartinsI; Edson Luís SalomãoII; Rovaina L. DoyleI; Valéria OnofrioIII; Darci M. Barros-BattestiIII; Alberto A. GuglielmoneIV

IInstituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor. Estrada do Conde, 6000, Eldorado do Sul, RS 92990-000. E-mail: joaorsm@terra.com.br
IIClínica Veterinária Dr. Edson Salomão, Cachoeira do Sul, RS
IIIInstituto Butantan. Av. Vital Brasil, 1500, São Paulo, SP 05503-900
IVInstituto Nacional de Tecnología Agropecuaria (INTA), Estación Ex perimental de Rafaela, Rafaela, CC 22, Santa Fé, Argentina

 

 


RESUMO

O encontro de Haemaphysalis juxtakochi Cooley, um carrapato ixodídeo, no veado bororó-do-sul, Mazama nana (Hensel), representa novo relato de ocorrência, após 34 anos de seu registro no Estado do Rio Grande do Sul. Os exemplares de carrapatos (3 machos e 1 fêmea) foram encontrados em Cachoeira do Sul, RS (30º02’21"S, 52º53’38"W). O local está a 72 m acima do nível do mar, com uma média anual de temperatura de 18,8°C, e uma precipitação média anual de 1.438 mm. Este é o primeiro registro de H. juxtakochi nesta espécie de cervídeo e um segundo relato de ocorrência para o Estado do Rio Grande do Sul.

Palavras-chave: Haemaphysalis juxtakochi, Ixodidae, Mazama nana, Cervidae, Rio Grande do Sul.


ABSTRACT

The record of Haemaphysalis juxtakochi Cooley, an ixodid tick, on the brocket deer, Mazama nana (Hensel), represents a new report after 34 years of its last report in the State of Rio Grande do Sul. The tick specimens (three males and one female) were found in Cachoeira do Sul, RS (30º02’21"S, 52º53’38"W). This place is elevated 72 m sea above, with an annual average temperature of 18.8°C, and annual average rainfall of 1.438 mm. This is the first record of this tick species in a Cervidae and it is the second occurrence report for the State of Rio Grande do Sul.

Key words: Haemaphysalis juxtakochi, Ixodidae, Mazama nana, Cervidae, Rio Grande do Sul.


 

 

O gênero Haemaphysalis é o segundo maior gênero de Ixodidae em espécies no mundo. Dentre elas, somente três espécies ocorrem na região Neotropical: H. cinnabarina Koch, 1844, que é uma espécie conhecida apenas pelos espécimes tipo, originalmente descrita do Estado do Pará de hospedeiro ignorado; H. leporipalustris (Packard, 1869), comumente encontrada em coelhos silvestres e H. juxtakochi Cooley, 1946 que parasita preferencialmente mamíferos da família Cervidae (ONOFRIO et al., 2006).

O prévio relato conhecido de H. juxtakochi para o Rio Grande do Sul, corresponde a uma ocorrência registrada por Freire (1972) no veado-pardo ou veado-virá, Mazama sp., capturado no município de Arroio Grande (32º14’S, 53º05’W).

Curiosamente esse autor também mencionou a presença de um exemplar de H. leporispalustris em M. americana (Erxleben) capturado em Três Passos. No entanto, esse relato é sugestivo de um eventual equívoco já que esta espécie de carrapato, no estágio adulto, parasita preferencialmente lagomorfos, embora os estágios imaturos sejam freqüentes em aves (KINSEY et al., 2000; BELDOMENICO et al., 2003). Evans et al. (2000) mencionaram ambos os registros de Freire (1972), mas enfatizaram a necessidade de novos encontros para confirmar a atual existência dessas espécies no Estado do Rio Grande do Sul.

Somente recentemente, durante a vistoria da pelagem de Mazama nana (Hensel), popularmente conhecida como veado-bororó-do-sul, foram retirados 3 machos e uma fêmea de H. juxtakochi confirmando assim a ocorrência desta espécie para o Rio Grande do Sul. O animal foi capturado no município de Cachoeira do Sul (30º02’21"S, 52º53’38"W), cuja altitude média é de 72 m acima do nível do mar, com uma média anual de temperatura de 18.8°C, e uma precipitação média anual de 1.438 mm. Os carrapatos foram identificados através da chave dicotômica de Aragão (1936) e depositados na coleção de carrapatos do Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor, Eldorado do Sul.

Dentre as características peculiares na morfologia desta espécie de carrapato, destacam-se a existência de um longo prolongamento retrógrado ventral no 3º artículo (genu) dos palpos, e a presença de 4 ou 5 fileiras de dentes de cada lado da linha média do hipostômio (Figura 1). Outros aspectos morfológicos desta espécie comuns a outras do gênero são: expansão lateral do 2º artículo (fêmur) dos palpos, base retangular do capítulo e a presença de espinhos nos trocânteres das coxas I-IV (Figuras 1 e 2).

Embora tenha sido registrada em roedores, anta, quati e porcos selvagens do Panamá e Venezuela (FAIRCHILD et al., 1966; JONES et al., 1972), H. juxtakochi realiza seu ciclo biológico utilizando três hospedeiros, preferencialmente mamíferos da família Cervidae. Na Argentina, há registros de parasitismo em cão doméstico, bovino, suíno e em aves da família Corvidae (BOERO, 1957; GUGLIELMONE et al., 1992; BELDOMENICO et al., 2003). No Brasil, sua ocorrência abrange os Estados de Pernambuco, Rondônia, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul (ARAGÃO, 1936; KOHLS, 1960; FREIRE, 1972; BARROS; BAGGIO, 1992; SERRA-FREIRE et al., 1996; ARZUA et al., 2005; LABRUNA et al., 2005). Além de Cervidae e outros grupos de mamíferos, H. juxtakochi foi também assinalada em ave da espécie Pyrrhocoma ruficeps (Strickland) (Passeriformes: Emberizidae) por Arzua et al. (2005), e acidentalmente, pode parasitar humano (GUGLIELMONE et al., 2006).

Do ponto de vista epidemiológico, a espécie H. juxtakochi pode potencialmente participar de ciclos enzoóticos na natureza. Labruna et al. (2005) reportaram o isolamento da bactéria da Rickettsia rhipicephali em exemplares de H. juxtakochi provenientes de Rondônia. Segundo Labruna e Machado (2006), apesar desta bactéria não causar doença em humanos e animais, a história mostra que nenhuma espécie de Rickettsia deve ser considerada não patogênica, até que se mostre o contrário.

Este é o primeiro registro de H. juxtakochi em M. nana e um segundo relato de ocorrência para o Rio Grande do Sul. Dessa forma, a presente nota contribui para o conhecimento da distribuição geográfica de H. juxtakochi e confirma sua presença neste Estado, após um período de 3 décadas sem notificação.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 07 de fevereiro de 2007
Aceito para publicação em 03 de agosto de 2007.

 

 

* Apoio FAPESP (processo No. 99/05446-8) e CNPq (processo No. 478950/2004-7).

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