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Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária

On-line version ISSN 1984-2961

Rev. Bras. Parasitol. Vet. vol.16 no.3 Jaboticabal July/Sept. 2007

https://doi.org/10.1590/S1984-29612007000300014 

NOTA DE PESQUISA

 

Carrapatos (Acari: Ixodidae) capturados na Reserva Natural da Vale do Rio Doce, Linhares, Espírito Santo*

 

Ticks (Acari: Ixodidae) collected in the Natural Reserve of the Vale do Rio Doce, Linhares, State of Espírito Santo

 

 

Maria OgrzewalskaI; Alexandre UezuII; Fernando FerreiraI; Marcelo B. LabrunaI

IDepartamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP 05508-270. E-mail: labruna@usp.br
IIInstituto de Pesquisas Ecológicas, Nazaré Paulista, SP

 

 


RESUMO

O presente trabalho confirma, após décadas sem novos relatos, a ocorrência dos carrapatos Amblyomma obolongoguttatum Koch, 1844, A. brasiliense Aragão, 1908, e A. humerale Koch, 1844 no Estado do Espírito Santo, Brasil, além do primeiro relato de A. naponense (Packard,1869) para este estado.

Palavras-chave: Amblyomma, carrapato, Ixodidae, Brasil.


ABSTRACT

We confirm, after decades without new registers, the occurrence of the ticks Amblyomma obolongoguttatum Koch, 1844, A. brasiliense Aragão, 1908, and A. humerale Koch, 1844 in the State of Espírito Santo, Brazil, besides the first record of A. naponense (Packard, 1869) in this state.

Key words: Amblyomma, tick, Ixodidae, Brazil.


 

 

Das 57 espécies de carrapato do gênero Amblyomma que ocorrem na região Neotropical, há 33 no Brasil, parasitandovários animais em diferentes habitats (GUIMARÃES et al., 2001; BARROS-BATTESTI et al., 2006). A Reserva Natural da Vale do Rio Doce (RNVRD) apresenta uma área de cerca de 22 mil hectares ao norte do Estado do Espírito Santo, localizada entre os municípios de Linhares e Jaguaré (19o06'-19o18' S e 39o45'-40o19' W). A vegetação da RNVRD é classificada como Floresta Estacional Semidecidual de Terras Baixas (IBGE, 1992), conhecida como Floresta de Tabuleiro. O entorno da reserva é muito fragmentado, onde predominam pastagens e cultivos de café, eucalipto e mamão (JESUS; ROLIM, 2005). Neste trabalho, registramos algumas espécies de carrapatos relativamente raras da fauna brasileira, na RNVRD no Estado do Espírito.

Entre 4 e 11 de abril 2006 foram feitas coletas de plantas na RNVRD. Aproveitando esse trabalho, foram coletados também carrapatos encontrados fixados à pele e caminhando sobre as roupas das pessoas, que trabalhavam na mata. Adicionalmente, foram encontrados nas estradas dentro da RNVRD três jabutis, Geochelone denticulata (Linnaeus). Esses foram examinados quanto à presença de carrapatos. Todos os ectoparasitos coletados foram guardados vivos e trazidos para o laboratório do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal, Universidade de São Paulo, para identificação. Os estádios imaturos foram alimentados em coelhos para a obtenção dos estádios adultos e, em seguida, identificados através de chaves taxonômicas (BARROSBATTESTI et al., 2006). Todos os carrapatos foram depositados na Coleção Nacional dos Carrapatos, Universidade de São Paulo CNC-FMVZ/USP (números do acesso 967 e 968).

Das roupas das pessoas, foram coletados três carrapatos adultos identificados como Amblyomma obolongoguttatum (dois machos e uma fêmea). Das roupas e da pele, foram coletadas 12 ninfas de Amblyomma spp, das quais 10 foram criadas até o estádio adulto em laboratório, sendo identificadas como A. obolongoguttatum (quatro fêmeas), A. brasiliense (três fêmeas e dois machos) e Amblyomma naponense (um macho). Não foi possível distinguir individualmente quais ninfas estavam parasitando as pessoas ou quais estavam somente caminhando sobre as roupas. Dos três jabutis examinados, dois estavam infestados por 43 indivíduos adultos de Amblyomma humerale (35 machos e oito fêmeas).

Os registros para A. obolongoguttatum incluem México, Belize, Guatemala, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Suriname, Guiana Francesa, Guiana Inglesa, Venezuela, Peru, Bolívia e os estados brasileiros do Acre, Rondônia, Pará, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo (GUGLIELMONE et al., 2003; MENDONZA-URIBE;CHÁVEZ-CHOROCCO, 2003; LABRUNA et al., 2005). No Espírito Santo, o último relato datava de mais de 70 anos atrás(ARAGÃO, 1936). Várias espécies de animais silvestres, tais como anta (Tapirus terrestris Linnaeus), porco do mato (Tayassu spp.), carnívoros e animais domésticos, tais como cães, suínos e bovinos, foram relatadas como hospedeiros de A. oblongoguttatum (ROBBINS et al., 1998; LABRUNA etal., 2000; GUIMARÃES et al., 2001; LABRUNA et al., 2002b; LABRUNA et al., 2005; TERRASSINI et al., 2006).

Além de Argentina e Paraguai (GUGLIELMONE et al., 2003), A. brasiliense tem registros de ocorrência para os estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Pará no Brasil, sendo freqüentemente encontrado nos mamíferos dasordens Artiodactyla e Perissodactyla (ARAGÃO, 1936; GUIMARÃES et al., 2001). O último registro de A. brasiliense no Espírito Santo também foi há mais de 70 anos atrás(ARAGÃO, 1936).

Em relação a A. naponense, seus registros de ocorrência incluem Costa Rica, Panamá, Colômbia, Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia e Brasil (GUGLIELMONE et al., 2003). No Brasil, foi encontrado nos estados do Amazonas, Pará, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná (GUIMARÃES et al., 2001; LABRUNA et al., 2005), sendo este o primeiro registro para o estado do Espírito Santo. Essa espécie de carrapato parasita vários mamíferos silvestres de grande e médio porte, no entanto, é mais freqüente em porcos do mato Tayassu spp. Há registros de A. naponense no porco doméstico (ROBBINS et al., 1998; LABRUNA et al., 2002b). Há vários registros de adultos e ninfas de A. obolongoguttatum, A. brasiliense e A. naponense em humanos (JONES et al., 1972; LABRUNA et al., 2000;2005; GUGLIELMONE et al., 2006; SZABÓ et al., 2006).

Na América do Sul, onde a espécie A. humerale é endêmica, esse carrapato não possui registros válidos apenas para a Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile (LABRUNA et al., 2002a; GUGLIELMONE et al., 2003). No Brasil, esta espécie está distribuída pelos estados do Amapá, Amazonas, Acre, Rondônia, Pará, Roraima, Tocantins, Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. Essas são também áreas de ocorrência dos jabotis, G. denticulata e G. carbonaria (Spix), principais hospedeiros dos estádios adultos dessa espécie do carrapato (LABRUNA et al., 2002a). Os estádios imaturos de A. humerale parecem preferir pequenos répteis e mamíferos, tendo LABRUNA et al. 2002a encontrado ninfas em lagartos Plica plica (Linnaeus), Plica umbra (Linnaeus), Kentropyx calcarata Spix e em mamíferos Didelphis marsupialis Linnaeus e Ciclopes didactylus Linnaeus. Nos jabutis capturados, os machos foram encontrados fixados na carapaça, em um aglomerado, sendo que a maioria das fêmeas estava fixada nas pernas, como observado previamente por Labruna et al. (2002a).

O presente trabalho relata o primeiro registro de A. naponense no Estado do Espírito Santo e, após décadas sem novos relatos, confirma a presença de A. oblongoguttatum, A. brasiliense, e A. humerale no estado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 15 de fevereiro de 2007
Aceito para publicação em 30 de julho de 2007.

 

 

* Financiado pela Fapesp (05/56708-5)

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