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Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária

On-line version ISSN 1984-2961

Rev. Bras. Parasitol. Vet. (Online) vol.17 no.3 Jaboticabal July/Sept. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-29612008000300008 

NOTA DE PESQUISA

 

Ocorrência de Ixodes loricatus Neumann, 1899 (Acari: Ixodidae) parasitando Didelphis albiventris (Lund, 1841), (didelphimorphia: didelphidae), em Campo Grande, MS

 

Occurrence of Ixodes loricatus Neumann, 1899 (Acari: Ixodidae) parasitizing Didelphis albiventris (Lund, 1841) (Didelphimorphia: Didelphidae) in Campo Grande, MS

 

 

Soraya R. MiziaraI; Fernando PaivaII; Renato AndreottiIII; Wilson W. KollerIII;  Vinicius A. LopesIV; Nara T. PontesIV; Klaudia BitencourtV

IUniversidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (UNIDERP), Rua Ceará, 333, Bairro Miguel Couto, Caixa Postal 2153, Campo Grande, MS 79003-010. E-mail: sorayamiziara@ig.com.br
IIUniversidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Cidade Universitária, CP 549, Campo Grande, MS 79070-900
IIIEmpresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa-Gado de Corte), BR 262, km 4, CP 154, Campo Grande, MS 79002-970
IVSecretaria de Meio Ambiente Cultura e Turismo, Rua Desembargador Leão Neto do Carmo snº, Quadra 03, Lote 03, Parque dos Poderes, 79031- 902, Campo Grande, MS
VCurso de Mestrado em Meio Ambiente/ UNIDERP, Rua Ceará, 333, Bairro Miguel Couto, Caixa Postal 2153 Campo Grande, MS 79003-010

 

 


RESUMO

Este é primeiro relato da ocorrência de Ixodes no Estado do Mato Grosso do Sul e primeiro caso identificado de Ixodes loricatus Neumann, 1899, parasitando Didelphis albiventris no município de Campo Grande, MS, Brasil.

Palavras-chave: Carrapato, vetor, gambá, parasito.


ABSTRACT

This is first report of occurence of Ixodes in the State of Mato Grosso do Sul and first description of Ixodes loricatus Neumann, 1899, parasitizing Didelphis albiventris in Campo Grande, MS, Brazil.

Key words: Tick, vector, Common opossum, parasite.


 

 

Os carrapatos do gênero Ixodes Latreille, 1795 pertencem ao filo Arthropoda, subfilo Chelicerata, classe Arachnida, subclasse Acari, corte Parasitiformes, ordem Ixodida, família Ixodidae, grupo Prostriata, subfamília Ixodinae que apresenta apenas o gênero Ixodes (GUIMARÃES et al., 2001; SERRA-FREIRE; MELLO, 2006).

Os ácaros do gênero Ixodes estão disseminados pelo mundo, representados por aproximadamente 240 espécies. Na região neotropical ocorrem 117 espécies de ixodídeos incluídas em cinco gêneros (Amblyomma, Dermacentor, Haemaphysalis, Ixodes e Rhipicephalus, este último contendo o subgênero Boophilus). Para o gênero Ixodes foram registradas 46 espécies das quais 38 são exclusivamente neotropicais (BARROS-BATTESTI et al., 2006). Estes carrapatos são importantes veiculadores de bioagentes podendo causar zoonoses (KEIRANS, 1992; DURDEN; KEIRANS, 1996; MULLER et al., 2005; SERRA-FREIRE; MELLO, 2006) e antropozoonoses (KEIRANS, 1992; DURDEN; KEIRANS, 1996; SERRA-FREIRE; MELLO, 2006). Estes não apresentam especificidade parasitária, pois algumas espécies podem parasitar mamíferos ou aves, em seus diferentes estádios de desenvolvimento (GUIMARÃES et al., 2001).  Em sua fase adulta a preferência é pelos vertebrados de médio e grande porte, enquanto que as formas imaturas acometem principalmente roedores e pequenos mamíferos.

Para a identificação do gênero Ixodes o caráter taxonômico principal é a presença de sulco anal anterior (MARCONDES, 2001). Além desta, apresenta: escudo não ornamentado; ausência de olhos e de festões; placas espiraculares circulares ou ovais; o hipostômio do macho pode apresentar dentes semelhantes aos da fêmea ou crenulação e os machos apresentam placas ventrais. Nas fêmeas não alimentadas, em geral, o aleoescudo é amarelo-claro ou creme enquanto, que nas ingurgitadas, pode assumir vários tons de cinza a azulado (BARROS-BATTESTI et al., 2006).

A espécie Ixodes loricatus Neumann, 1899, denominado popularmente de carrapato de pernas pretas (FLECHTMANN, 1977), ocorre desde o México até a Argentina, sendo que I. coxaefurcatus Neumann, 1899 e I. didelphidis Fonseca e Aragão, 1952 foram sinonimizados com Ixodes loricatus Neumann, 1899 (MARQUES et al., 2004). De acordo com Labruna et al. (2002) os resultados morfológicos, biológicos e moleculares fornecem evidências para considerarmos I. loricatus e I. didelphidis como sendo uma mesma espécie.

Segundo Aragão (1936), é a espécie mais comum em didelfídeos nos quais se encontram as larvas, ninfas e adultos. Os roedores silvestres são os hospedeiros para larvas e ninfas deste ixodídeo. A fase adulta parasita gambás (Didelphis aurita e D. albiventris), cuíca (Philander opossum) e catitas (Monodelphis sorex) (BARROS-BATTESTI; KNYSAK, 1999; MULLER et al., 2005). Didelphis albiventris Lund, 1841 é um mamífero popularmente conhecido por gambá ou gambá-de-orelha-branca (MULLER et al., 2005), cuja classificação é a seguinte: classe Mammalia, subclasse Theria, infraclasse Metaheria, ordem Marsupialia, família Didelphidae. Os membros desta família possuem tamanho que varia de pequeno a médio porte (85 a 500mm) e apresentam ampla distribuição na América do Sul. Possuem hábitos crepusculares, noturnos e alta sinantropia, sendo seu habitat natural às matas primárias e secundárias (ORR, 1986). De acordo com Muller et al. (2005), em decorrência de seus hábitos, o gambá é um disseminador de patógenos em potencial, tanto entre animais silvestres quanto em relação aos animais domésticos e o homem.

Neste relato, notifica-se a presença de Ixodes no Estado do Mato Grosso do Sul e descreve-se o primeiro caso identificado de I. loricatus parasitando D. albiventris, proveniente de um levantamento de fauna terrestre, realizado no Parque Estadual do Prosa (PEP). Este parque encontra-se situado dentro do perímetro urbano de Campo Grande, capital do Estado do Mato Grosso do Sul (20º26'S; 54º38'W). O PEP é caracterizado por floresta estacional semidecidual secundária em avançada regeneração, constituídos por cerrados e matas de galerias. Compreende uma área 133,5 hectares e altimetria 600m, situada no planalto da Serra de Maracaju.

Em um projeto sobre pequenos mamíferos no Parque Estadual do Prosa no qual foram utilizadas armadilhas SHERMAN, TOMAHAWK (20 X 20 X 40 cm) e PITFALL com iscas constituídas por pedaços de abóbora in natura e uma mistura de banana, pasta de amendoim, sardinha, fubá e óleo de fígado de bacalhau, foram capturados dez gambás. Todos os indivíduos capturados foram marcados com microchip eletrônico, mensurados, pesados, sexados, removidos os ectoparasitos e liberados no local de captura. Para estes procedimentos, os animais eram sedados utilizando-se éter. As observações no campo ocorreram no período de maio a agosto de 2006.

Dos gambás capturados somente três estavam parasitados por carrapatos, os quais foram acondicionados em frascos de vidro devidamente identificados, conservados em álcool 70º GL e enviados ao laboratório de Parasitologia Animal, da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal - PA/UNIDERP, em Campo Grande, MS.

Os ixodídeos coletados foram identificados utilizando-se esteromicroscópio, segundo chaves específicas de Aragão e Fonseca (1961); Barros-Battesti et al. (2006) e descrições realizadas por Marques et al. (2004).

O primeiro gambá, fêmea, foi capturado em armadilha tipo TOMAHAWK, identificado com o número de "chip" 39174, medindo 59,5 cm de comprimento e pesou 1,836 Kg. Neste foram recuperados quatro machos, uma fêmea, três larvas e duas ninfas de ixodídeo.

O segundo gambá, macho, capturado em armadilha tipo TOMAHAWK, "chip" número 003000040467, medindo 22,6 cm, peso 700g. Foram coletados: um macho e uma fêmea de ixodídeo.

O terceiro hospedeiro, fêmea, foi capturado em armadilha tipo PITFALL, não foi identificado porque foi a óbito, media 22,2 cm, o pesava 685g. Foram coletadas uma fêmea e duas ninfas de carrapato.

Todos os carrapatos foram identificados como I. loricatus.

A importância deste relato, se deve ao fato, do PEP localizar-se dentro da Cidade de Campo Grande em uma região utilizada pela população local como área de Lazer, além de ter sido constatada a presença de todos os estádios evolutivos em uma mesma espécie de hospedeiro.

 

Agradecimentos

À Dra. Darci Barros-Basttesti, pela confirmação da identificação de alguns exemplares.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 12 de julho de 2007
Aceito para publicação em 02 de setembro de 2008