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Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária

On-line version ISSN 1984-2961

Rev. Bras. Parasitol. Vet. (Online) vol.17 no.3 Jaboticabal July/Sept. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-29612008000300012 

NOTA DE PESQUISA

 

Helmintos parasitos do pirarucu, Arapaima gigas (Schinz, 1822) (Osteoglossiformes: Arapaimidae), no rio Araguaia, estado de Mato Grosso, Brasil

 

Helminth parasites of pirarucu, Arapaima gigas (Schinz, 1822) (Osteoglossiformes: Arapaimidae) from Araguaia River, State of Mato Grosso, Brazil

 

 

Sonia M. C. dos SantosI; Paulo S. CeccarelliII; José L. LuqueIII

ICurso de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), BR-465 km 7, Seropédica, RJ 23890-000 e Departamento de Biologia, Universidade de Taubaté, Taubaté, SP
IICentro Nacional de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais, Instituto Chico Mendes da Conservação de  Biodiversidade, EQSW 103/104, Bloco "C", Complexo Administrativo, Setor  Sudeste,  Brasília, DF 70670-350
IIIDepartamento de Parasitologia Animal, Instituto de Veterinária, UFRRJ, Caixa  Postal  74.508,  Seropédica,  RJ  23851-970,  Brasil.  E-mail: jlluque@ufrrj.br  - Bolsista CNPq

 

 


RESUMO

Foram examinados 65 exemplares de pirarucu em agosto de 2004, provenientes do rio Araguaia, Estado de Mato Grosso, Brasil para o estudo dos seus helmintos parasitos. Cinco espécies foram registradas parasitando Arapaima gigas: Dawestrema cycloancistrium (Monogenea) nas brânquias, Nilonema senticosum e Goezia spinulosa (Nematoda) na vesícula gasosa e no estômago respectivamente; Caballerotrema brasiliense (Digenea) e Polyacanthorhynchus rhopalorhynchus (Acanthocephala) no intestino. Os valores mais altos de prevalência foram observados para D. cycloancistrium (100%) and P. rhopalorhynchus (96,9%). Os maiores valores de intensidade e abundância média foram calculados para C. brasiliense e N. senticosum (61 e 46,9, respectivamente). Todas estas espécies são registradas pela primeira vez na Bacia do Rio Araguaia.

Palavras-chave: Arapaima gigas, Helmintos parasitos, Nematoda, Acanthocephala, Digenea


ABSTRACT

Sixty-five specimens of pirarucu collected in August 2004 from Araguaia River, State of Mato Grosso, Brazil, were examined to study their helminth parasites. Five species were recorded parasitic Arapaima gigas: Dawestrema cycloancistrium (Monogenea) in gills, Nilonema senticosum and Goezia spinulosa (Nematoda) in the swimbladder and stomach, respectively; Caballerotrema brasiliense (Digenea) and Polyacanthorhynchus rhopalorhynchus (Acanthocephala) in the intestine. Highest prevalence values were detected for D. cycloancistrium (100%) and P. rhopalorhynchus (96.9%). Highest values of mean intensity and mean abundance were detected for C. brasiliense and N. senticosum (61 and 46.9, respectively). All these species are recorded by the first time in the Araguaia River basin.

Key words: Arapaima gigas, helminth parasites, Nematoda, Acanthocephala, Digenea.


 

 

O pirarucu Arapaima gigas (Schinz, 1822) é um dos maiores peixes de água doce da América do Sul, podendo atingir até três metros e pesar mais de 200 kg (PARKER, 2002; ALCÁNTARA-BOCANEGRA et al., 2006). Sua distribuição geográfica é restrita à América do Sul, ocorrendo desde a nascente do rio Amazonas nos Andes peruanos; nos tributários do Amazonas, no sistema dos rios Essequibo e Rupumuni na Guiana (MIGDALSKI, 1957; SAINT-PAUL, 1986); e na bacia do Araguaia-Tocantis (IMBIRIBA et al., 1993). Arapaima gigas tem hábitos piscívoros, mas seus itens alimentares variam de acordo com o seu desenvolvimento, iniciando com a ingestão de crustáceos e moluscos, sendo que os peixes aparecem na sua dieta a partir do primeiro ano de vida se tornando o item mais importante da dieta (QUEIROZ; SARDINHA, 1999; IMBIRIBA, 2001). Esses animais que fazem parte da dieta alimentar do pirarucu podem constituir hospedeiros intermediários de trematódeos, cestóideos, acantocéfalos e nematóides. A dieta e os hábitos alimentares dos peixes são considerados determinantes na composição da fauna parasitária podendo ter uma forte influência sobre a população de parasitos transmitidos troficamente (KNUDSEN et al., 2004). A identificação e quantificação dos parasitos do pirarucu no ambiente natural podem fornecer subsídios para o desenvolvimento de estratégias de controle de enfermidades em ambientes controlados e ainda como indicadores de qualidade ambiental para esta espécie ameaçada de extinção (QUEIROZ; SARDINHA, 1999).

Thatcher (2006) listou 17 espécies de metazoários parasitos de A. gigas, sendo nove de ectoparasitos e oito de endoparasitos. Recentes trabalhos sobre a taxonomia e sistemática destas espécies foram publicados por (MORAVEC et al., 2006; SANTOS; GIBSON, 2007). Entretanto, a maioria destes registros é proveniente de hospedeiros coletados na bacia amazônica. Não há relatos de parasitos do pirarucu provenientes do rio Araguaia.

O rio Araguaia, nasce no cerrado na serra do Caipó, divisa entre o estado de Goiás (GO) e Mato Grosso (MT) possuindo 2.600 km de extensão, sendo um dos maiores rios do Brasil. O relevo é plano e favorece constantes alagamentos. No período chuvoso, há formação de numerosos lagos perenes ou sazonais (FRANCO; PINHEIRO, 1982).

Em expedição realizada em agosto de 2004 ao rio Araguaia, região do Município de Cocalinho, MT (13º23'07.3''S, 50º39'58.1''W), 65 exemplares de pirarucu foram examinados. Os peixes foram capturados em lagoas temporárias isoladas do rio (formadas por depressões naturais do terreno ou construídos para reservar água para o gado) e em uma lagoa de boca franca (uma das extremidades com ligação permanente com o rio). Em lagoas temporárias os peixes foram capturados utilizando-se rede de arrasto de nylon de 2 metros de altura e 30 metros de comprimento com malha de 3 cm. Em lagoas de boca franca foram utilizadas redes de emalhar de nylon multifilamento com 4 metros de altura, 30 metros de comprimento e malha de 20 cm.

Todos os peixes capturados foram examinados para endoparasitos, um número menor (N = 21) foi examinado para parasitos branquiais. A identificação dos helmintos está baseada em Kritsky et al. (1985), Moravec (1998, 2006), Kostadinova e Gibson (2001) e Thatcher (2006). Os valores de prevalência, intensidade média de infecção, abundância média foram calculados de acordo com Bush et al. (1997).

Foram identificadas cinco espécies de helmintos parasitos, cujos espécimes representativos foram depositados na Coleção Helmintológica do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil (CHIOC): Dawestrema cycloancistrium Price e Nowlin, 1967 em brânquias (CHIOC No 31180a,b) (Monogenea), Nilonema senticosum (Baylis, 1927) (CHIOC No 31181) e Goezia spinulosa (Diesing, 1839) (CHIOC No 31182) (Nematoda) encontrados na bexiga gasosa e no estômago respectivamente, Polyacanthorhynchus rhopalorhynchus (Diesing, 1851) (CHIOC No 31183) (Acanthocephala) e Caballerotrema brasiliense Prudhoe, 1960 (CHIOC No 31184a,b) (Digenea) encontrados no intestino. Todas estas espécies foram encontradas anteriormente em A. gigas provenientes da bacia do Rio Amazonas (THATCHER, 2006).

Foram coletados um total de 8244 parasitos com média de 126 ± 40,9 e amplitude de 1-260 (estes valores não incluem os espécimes de D. cycloancistrium). Todos os peixes examinados estavam parasitados com pelo menos um metazoário, sendo que a maioria dos indivíduos (56,9%) se encontrava parasitado por três espécies. As espécies de helmintos com maior prevalência foram N. senticosum (81,5%) e G. spinulosa (80,0%). Os maiores valores de intensidade e abundância média foram observados para C. brasiliense e N. senticosum (61 e 46,9 respectivamente) (Tabela 1). Dados quantitativos sobre parasitos de A. gigas no Brasil não são disponíveis. Espécimes de G. spinulosa foram observados no interior de cistos na mucosa do estômago de A. gigas, com uma amplitude de variação de um a dois cistos por hospedeiro, alterando notoriamente o tecido e sugerindo possibilidade de patogenia nesses peixes. Freitas e Lent (1946) citaram esse parasito em alevinos de apaiarís e pirarucus no Posto de Piscicultura do Estado do Ceará, levantando a suspeita que esse parasito seria responsável por não ter se conseguido criar essas espécies de peixes.

 

 

Agradecimentos

O presente trabalho foi desenvolvido no marco do Acordo de Cooperação Técnica celebrado entre a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais, Instituto Chico Mendes da Conservação de Biodiversidade.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

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Recebido em 15 de maio de 2007
Aceito para publicação em 06 de novembro de 2008

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