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Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária

On-line version ISSN 1984-2961

Rev. Bras. Parasitol. Vet. (Online) vol.18 no.4 Jaboticabal Oct./Dec. 2009

https://doi.org/10.4322/rbpv.01804005 

ARTIGO COMPLETO

 

Ectoparasitos e helmintos intestinais em Felis catus domesticus, da cidade de Lages, SC, Brasil e aspectos sócioeconômicos e culturais das famílias dos proprietários dos animais

 

Ectoparasites and intestinal helminths in Felis catus domesticus from Lages city, SC, Brazil and social-economical and cultural aspects of owners of family pets

 

 

Fernanda Magalhães StalliviereI; Valdomiro BellatoII; Antonio Pereira de SouzaII; Amélia Aparecida SartorII; Anderson Barbosa de MouraII; Luciana Dalla RosaIII

ICurso de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias, Centro de Ciências Agroveterinárias, Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC
IIDepartamento de Medicina Veterinária, Centro de Ciências Agroveterinárias, Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC
IIIBolsista de Iniciação Científica, Departamento de Medicina Veterinária, Centro de Ciências Agroveterinárias, Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

Os objetivos da realização deste trabalho foram determinar a prevalência de ectoparasitos e parasitos gastrointestinais (GI) em gatos domiciliados, nas regiões central e periférica, da cidade de Lages, SC e também caracterizar as famílias proprietárias de gatos quanto as suas condições sócioeconômicas e culturais. No período de dezembro de 2005 a dezembro de 2006, foram distribuídos 600 questionários a proprietários de animais cidade de Lages, SC e coletados ectoparasitos e amostras de fezes. A prevalência para ectoparasitos foi de 13,8% (28/203) e para parasitos GI, 37,8% (42/111). A prevalência de parasitos em gatos domiciliados da região periférica foi maior que os da região central. Os ectoparasitos observados foram Ctenocephalides felis felis, C. canis e Ctenocephalides híbrido (C. felis felis × C. canis). Os ovos de helmintos intestinais identificados nas fezes de gatos foram Ancylostoma spp., Toxocara sp., Trichuris sp., família Taeniidae e Oncicola sp. Na região periférica, o maior número de animais positivos pertencia a proprietários de baixa renda salarial e pouca escolaridade. As populações residentes nos bairros da região periférica encontram-se mais expostas aos agentes com potencial zoonótico.

Palavras-chave: Parasitos, gatos domiciliados, diagnóstico


ABSTRACT

The purpose of this research was to determinate the prevalence of ectoparasites and gastrointestinal (GI) parasites in domiciliated cats, from central and peripheral region, of Lages city, Santa Catarina State and also characterize the economic, social and cultural status of families' pet owners. From the period of December 2005 to December 2006, 600 questionnaires were distributed to pet owners of Lages city and ectoparasites and faeces were collected. The prevalence of ectoparasites was 13.8% (28/203) and for GI parasites was 37.8% (42/111). The prevalence of parasites in domiciliated cats from the peripheral region were bigger than in the central region. The ectoparasites observed were Ctenocephalides felis felis, C. canis and Ctenocephalides hybrid (C. felis felis x C. canis). The intestinal helminths eggs observed in cats faeces were Ancylostoma spp., Toxocara sp., Trichuris sp., Taeniidae family and Oncicola sp. In the peripheral region, the largest number of positive animals belonged to owners of low-income wage and low education The peripheral region population are over exposed to potencial zoonotic agents.

Keywords: Parasites, domiciliated cats, diagnosis


 

 

Introdução

Animais de estimação, particularmente cães e gatos, desempenham importante papel na sociedade. Em muitos lares são importantes como companhia, contribuindo para o desenvolvimento emocional, social e físico de crianças, e no bem estar dos proprietários, particularmente idosos (ROBERTSON et al., 1990; WONG et al., 1999). Apesar dos benefícios, esses animais podem ser acometidos por ecto e endoparasitos e propagar, segundo Rey (2001), agentes responsáveis por zoonoses como larva migrans cutânea e larva migrans visceral.

Os dados de literatura evidenciam a importância dos pulicídeos, como ectoparasitos em gatos, em especial a subespécie Ctenocephalides felis felis. Assim, Fernandes et al. (1996) avaliaram a prevalência de pulicídeos em gatos atendidos no Hospital Veterinário da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e em clínicas particulares da cidade do Rio de Janeiro, onde constataram 68,8% de positividade para C. felis felis, enquanto Mendes-de-Almeida et al. (2007), no jardim zoológico, prevalência em gatos para C. felis de 38,6% em 2002; 72,3% em 2003 e de 42,2% em 2004. Castro e Rafael (2006) obtiveram, em gatos domiciliados da cidade de Manaus, no Estado do Amazonas, uma prevalência de 72,7% para C. felis felis. Linardi e Nagem (1973) afirmaram que a distribuição das espécies C. felis felis e C. canis está relacionada a fatores climáticos, em que a ocorrência de C. canis está associada a climas mais frios, fato também verificado por Oliveira e Ribeiro (1982/1983), em Porto Alegre, RS, onde constataram infestações por C. canis em caninos, com maior intensidade nos meses mais frios.

Com relação a estudos sobre helmintos, Gennari et al. (1999), em São Paulo, SP, observaram em amostras fecais de gatos domiciliados a ocorrência de 13,37% para Ancylostoma spp.; 34,22% para Toxocara cati; 10,69% para Dipylidium caninum e 4,81% para Physaloptera spp. Na mesma cidade e em Guarulhos, SP, Ragozo et al. (2002) verificaram, em amostras de fezes de gatos capturados nas ruas, frequência de 31,16% para T. cati; 8,7% para Ancylostoma spp.; 1,45% para D. caninum ; 1,45% para Platynosomum fastosum. Funada et al. (2007), por meio de exames de fezes em gatos domiciliados e atendidos no hospital veterinário da USP, constataram 6,1% de animais positivos para T. cati e 2,1% para Ancylostoma spp. Serra et al. (2003), no Rio de Janeiro, RJ, observaram, por meio de exames coprológicos de 65 gatos domiciliados, prevalência de 26,1% para Ancylostoma sp. e 9,2% para Toxocara sp. Na mesma cidade, Labarthe et al. (2004), por meio de necropsias, verificaram que a prevalência foi de 89,6%, sendo para D. caninum 52,6%; Ancylostoma braziliensis 65,9%; A. tubaeforme 8,9%; Toxascaris leonina 11,9%; T. cati 25,2% e Physaloptera praeputialis 9,6%. Lorenzini et al. (2007), examinaram fezes de gatos domiciliados da cidade de Porto Alegre, RS, e constataram prevalência para Toxocara spp. de 5,9%; Ancylostoma spp. 3,8%; D. caninum 1,4%; Strongyloides spp. 1,7%; Taenia spp. 0,7% e T. leonina. 0,4%

O aumento da população de gatos influencia na propagação de agentes patogênicos ao homem e a outros animais. Mc Glade et al. (2003) afirmaram que para cada gato a mais no domicílio, o risco de parasitismo aumenta 1,3 vezes. No Estado de São Paulo, foram realizados estudos sobre a proporção homem/gato, por Dias et al. (2004), que verificaram a razão entre a população humana e a felina de 30,57:1 e concluíram que a adoção de uma metodologia de estimativa populacional canina e felina domiciliada, baseada em indicadores populacionais humanos, é a mais indicada e facilmente exequível quando comparada ao censo animal e Alves et al. (2005) que constataram em 41 municípios do interior de São Paulo, que a relação entre a população humana e felina foi de 16,4:1 e, que o conhecimento do tamanho da população felina, permite maior efetividade no planejamento e na avaliação dos resultados de ações desenvolvidas no sentido da proteção e preservação da saúde dos homens e dos animais. Trabalhos para avaliar o grau de contaminação ambiental parasitária foram realizados por Coelho et al. (2001) que coletaram amostras de solo de 30 praças de Sorocaba, SP, e verificaram que mais de 50% destas estavam contaminadas com ovos de Toxocara spp. Muradian et al. (2005), em São Paulo, SP, verificaram 29,7% de amostras positivas para Toxocara spp., 16,2% para Ancylostoma spp., 5,4% para Ascaris lumbricoides e 5,4% para Trichuroidea. As áreas mais comprometidas pela presença de Toxocara spp. foram playground e os quintais das casas, ambos com 66,7%.

O presente trabalho foi realizado com os objetivos de determinar a prevalência de ectoparasitos e helmintos intestinais em gatos domiciliados, das regiões central e periférica, da cidade de Lages, SC; caracterizar as famílias proprietárias dos gatos quanto as suas condições sócioeconômicas e culturais e conhecer a proporção das populações humana e felina.

 

Material e Métodos

A cidade de Lages está situada no Planalto Serrano do Estado de Santa Catarina, com altitude de 916 m, latitude de 27º 48' 57" S e longitude de 50º 19' 33" W (BPM, 2006). O clima é subtropical com temperatura média de 14,3 ºC, máxima de 35 ºC e mínima de -7,4 ºC, com umidade relativa média de 79,3%, apresentando os meses de dezembro a março como os mais quentes (PML, 2007). A população humana aproximada é de 153.582 habitantes, distribuídos em 68 bairros (IBGE, 2000).

Para este estudo, a cidade foi dividida em duas regiões: central e periférica; destas, foram incluídos, por sorteio, 10 bairros, sendo cinco localizados na região central, Sagrado Coração de Jesus, Coral, Centro, Universitário e São Cristóvão; e cinco bairros ou conjunto de bairros na região periférica, Tributo-Guarujá, Nossa Senhora da Penha, Santa Catarina, Popular-Várzea-Habitação e Caroba-Santa Mônica. Na coleta dos dados, foram sorteadas seis ruas em cada bairro e, em cada rua, iniciando-se pelo lado direito, a cada duas residências, a terceira foi visitada para coleta de dados, perfazendo um total de 600 domicílios.

Os dados foram coletados no período de dezembro de 2005 a dezembro de 2006, por meio de entrevista estruturada. Foram considerados critérios de inclusão na pesquisa a concordância em participar da investigação e responder ao questionário formulado, segundo Richardson et al. (1999), Costa e Costa (2001), Demo (1992) e IBGE-PNAD (2004). A faixa salarial (salário mínimo de R$ 300,00) e a escolaridade foram os critérios utilizados para avaliação dos aspectos sócioeconômico e cultural dos proprietários.

Aos entrevistados que possuíam animais, foram esclarecidos os procedimentos para coleta de dados. Após preenchimento de uma ficha clínica para cada animal, foi realizado o exame clínico. Os ectoparasitos presentes no pelo foram coletados de forma manual e/ou com auxílio de pente fino, acondicionados em frascos de vidro, identificados por número de protocolo, e conservados em álcool 70 ºGL. Em animais com suspeita de ácaros, realizaram-se raspados da pele, e o material colocado entre duas lâminas até a chegada ao laboratório. Nos animais com suspeita de Otodectes sp. utilizaram-se zaragatoas para coleta do cerúmen.

As amostras de fezes, recentemente eliminadas, foram recolhidas, acondicionadas em sacos plásticos, identificadas, mantidas em caixas de isopor com gelo e transportadas ao Laboratório de Doenças Parasitárias e Parasitologia do Centro de Ciências Agroveterinárias - CAV/UDESC, Lages, SC, onde foram mantidas sob refrigeração entre 2 e 8 ºC. Nas residências onde não houve coleta de fezes dos animais, destes foram contabilizados na amostragem para estabelecer a proporção homem/gato.

Os ectoparasitos foram processados e montados entre lâmina e lamínula de acordo com o descrito por Rey (2001). A identificação foi realizada segundo morfologia descrita por Flechtmann (1973), Soulsby (1987), Bicho e Ribeiro (1998), Linardi e Guimarães (2000), com auxílio de microscópio óptico (aumento 100X). As amostras de fezes foram analisadas pelas técnicas parasitológicas de Willis (1921), Gordon e Whitlock (1939) modificada e de Dennis, Stone e Swanson (1954) modificada. A identificação dos ovos de helmintos foi realizada de acordo com o descrito por Soulsby (1987).

As variáveis analisadas foram o número de gatos infestados e infectados, sendo os resultados expressos em porcentual de animais positivos. O efeito da região da cidade sobre a porcentagem de animais parasitados foi avaliado pelo Teste de χ2. O efeito da região da cidade, da classe de idade dos animais e da interação entre essas variáveis sobre o número de animais infectados com Toxocara sp. e total de endoparasitos foi analisado por um modelo linear generalizado binomial (KAPS; LAMBERSON, 2004). Nas classes de idade em que não foram encontrados animais infectados com Toxocara sp., atribuiu-se um valor de 0,5 para animais positivos. Foi utilizado o pacote estatístico SAS (SAS Institute, 1999).

O projeto foi aprovado junto à Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, pelos Comitês de Ética em Pesquisa com Seres Humanos e de Ética em Experimentação Animal.

 

Resultados e Discussão

Ectoparasitos: das 600 residências visitadas, em 118 foi observada a presença de gatos, totalizando 203 animais. Somente pulicídeos foram encontrados e identificados. Dos animais examinados, 13,8% (28/203) foram positivos, sendo seis (2,9%) de bairros da região central, e 22 (10,8%) de bairros da região periférica. Considerando -se os gatos examinados da região periférica, o percentual de infestados foi de 17,9% e, da região central, 7,4% (Tabela 1). A prevalência da espécie Ctenocephalides felis felis foi 11,3%. Esse porcentual foi menor que os obtidos por Castro e Rafael (2006), na cidade de Manaus, no Amazonas, 72,7%: por Fernandes et al. (1996), na cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos, 68,8%: e por Mendes-de-Almeida et al. (2007), na cidade do Rio de Janeiro, que verificaram para C. felis prevalências de 38,6% em 2002, 72,3% em 2003 e 42,4% em 2004. A prevalência da espécie Ctenocephalides canis foi de 0,5%. Linardi e Nagem (1973), afirmaram que a distribuição das espécies C. felis felis e C. canis, está relacionada a fatores climáticos, em que a ocorrência de C. canis está associada a climas mais frios. A influência da temperatura também foi verificada por Oliveira e Ribeiro (1982/1983), em Porto Alegre, RS, onde constataram infestações por C. canis em caninos, com maior intensidade nos meses mais frios, julho a novembro. Considerando que o presente experimento foi realizado numa região com temperatura média de 14,3 ºC (PML, 2007), o percentual de 0,5% pode ser considerado baixo, todavia, Brum et al. (1987), na zona sul do Rio Grande do Sul, citaram a espécie C. canis parasitando cães, porém, em gatos, identificaram somente C. felis. Deve-se considerar ainda que, em coletas realizadas em cães e gatos, em regiões mais quentes, não foi identificada e espécie C. canis (FERNANDES et al., 1996; CASTRO; RAFAEL, 2006; MENDES- de-ALMEIDA et al., 2007). A variação de percentuais constatada na literatura pode estar relacionada, além de fatores climáticos, à concentração de animais e procedência (domiciliados ou não), e a medidas profiláticas, como tratamentos pulicidas. Esses tratamentos foram relatados por 43,8% dos proprietários da região central e 38,6% da periférica, sendo possivelmente uma das causas do maior número de gatos infestados na região periférica em relação a central (Tabela 1).

 

 

A prevalência de exemplares com atributos morfológicos de C. felis felis e C. canis foi de 2,0%. Relatos da presença de híbridos foram realizados por autores como Ewing e Fox (1943), Amin (1976) . Segundo Linardi e Guimarães (2000), variações da quetotaxia metatibial são comuns em certas regiões do Brasil onde as duas espécies ocorrem simultaneamente, como constatado no presente trabalho.

Helmintos intestinais: dos 203 gatos computados, foram coletadas amostras de fezes de 111 (54,7%), com prevalência de 37,8% (42/111) para helmintos intestinais. Das 43 amostras coletadas de bairros da região central, 18,6% (8/43) foram positivas, sendo todas para Toxocara sp. e, das 68 de bairros da região periférica, 50% (34/68) apresentaram infecções simples ou múltiplas, sendo 35,3% para Toxocara sp.; 8,8% para Ancylostoma spp.; 1,4% para

Oncicola sp.; 2,9% para Ancylostoma spp. e Toxocara sp. e 1,4% para família Taeniidae, Toxocara sp. e Trichuris sp. Houve diferença estatística (p < 0,01) entre o número de animais positivos nas duas regiões (Tabela 1). Resultados de predominância de Ascaridae sobre os demais helmintos estão de acordo com Ogassawara et al. (1986), em SP, que constataram maior prevalência de Ascaridae (22,3%) sobre Ancilostomatidae (19,5%); Ragozo et al. (2002), em SP, que verificaram a ocorrência principalmente de T. cati (28,26%) e Ancylostoma spp. (8,7%); Gennari et al. (1999), em SP, ocorrência de 34,22% para T. cati, 13,37% para Ancylostoma spp. Funada et al. (2007) em São Paulo, observaram 6,1% de animais positivos para T. cati e 2,1% para Ancylostoma spp e Lorenzini et al. (2007), em Porto Alegre, RS, 5,9% para Toxocara spp., 0,4% para T. leonina e 3,8% para Ancylostoma spp. Para Martínez-Barbabosa (2003), a predominância de T. cati, deve-se aos gatos, pois, ao defecar no mesmo lugar, solo, areia ou algum material similar, os ovos permanecem e a forma infectante se desenvolve. Quando os gatos limpam-se após a defecação, podem também se contaminar por ingestão de ovos infectantes. Por outro lado, Labarthe et al. (2004), no RJ, observaram maior prevalência para Ancilostomatidae (A. braziliensis 65,9% e A. tubaeforme 8,9%) em relação à Ascaridae (T. leonina 11,9% e T. cati 25,2%), todavia, os autores afirmaram que a idade pode ter influenciado na prevalência, pois, avaliaram gatos com mais de um ano e em alguns trabalhos foi constatado prevalências maiores de Ascaridae em animais mais jovens (VISCO et al., 1978; OGASSAWARA et al.,1986). Serra et al. (2003), no Rio de Janeiro, constataram prevalência em gatos domiciliados de 26,1% para Ancylostoma sp., 9,2% para Toxocara sp. e, em gatos errantes, 60,6% para Ancylostoma, 28,8% para Toxocara sp. e 15,2% para T. leonina. Esses autores trabalharam com gatos de idades variadas, sem definição do número de animais por faixas etárias. Oncicola sp. foi identificado pela primeira vez parasitando gatos em Santa Catarina. A presença de Oncicola canis foi relatada em Leopardus pardalis (jaguatiricas), prevalência de 20% (3/15), por Pence et al. (2003) nos Estados Unidos da América e por Soulsby (1987) parasitando vários animais entre eles cães e gatos domésticos na América do Sul.

Na Tabela 2, constam as faixas etárias, número e percentuais de animais positivos para Toxocara sp. Houve diferença estatística (p < 0,01) entre as regiões de procedência dos animais, não havendo interação dessa variável com a classe de idade dos animais (p > 0,05). A idade dos parasitados não influenciou na porcentagem de positividade (p > 0,05), fato também constatado por Martínez-Barbabosa et al. (2003), no México; todavia, Ogassawara et al. (1986) observaram percentuais maiores de T. cati em gatos, principalmente até os seis meses de idade (35,8%) e atribuíram o fato à eliminação de larvas através do leite materno, favorecendo a infecção logo após o nascimento. Visco et al. (1978) e Mc Glade et al. (2003) também encontraram maior prevalência em animais até seis meses. A faixa etária definida na metodologia dos trabalhos, possivelmente é uma das causas de diferenças de prevalências para infecções por Toxocara cati.

Os percentuais de gatos infectados com helmintos intestinais, da região periférica, foram maiores com diferença estatística (p < 0,01), quando comparados com os da região central. Resultados que também podem ser justificados pela utilização de anti-helmínticos nos últimos 12 meses, pois, 55,9% dos proprietários afirmaram ter medicado os animais e deste percentual, 48,6% são da região periférica e 66.7% da região central. Mc Glade et al. (2003), na Austrália, verificaram que, nos últimos 12 meses, 91% dos gatos domiciliados foram desverminados, evidenciando um maior cuidado com a saúde e prevenção das infecções parasitárias, principalmente quando comparados com os resultados do presente trabalho, em bairros da região periférica.

O número de ovos por grama de fezes (OPG) dos animais da região periférica foi, em média, de 32,3 para Ancylostoma spp., 1,5 para Trichuris sp. e 379,4 para Toxocara sp. Na região central, foi identificado somente o gênero Toxocara, com média de 204,6. O número de OPG fornece informações importantes acerca do grau de contaminação ambiental com reflexo no desenvolvimento de formas infectantes. Coelho et al. (2001) coletaram amostras de solo de 30 praças de Sorocaba, SP, e verificaram que mais de 50% destas estavam contaminadas com ovos de Toxocara spp. Muradian et al. (2005), SP, verificaram 29,7% de amostras positivas para Toxocara spp., 16,2% para Ancylostoma spp., 5,4% para Ascaris lumbricoides e 5,4% para Trichuroidea. As áreas mais comprometidas pela presença de Toxocara spp. foram playground e os quintais das casas, ambos com 66,7%. Sommerfelt et al. (2006), em Buenos Aires, na Argentina, examinaram 465 amostras de fezes de gatos coletadas de espaços abertos de instituições públicas e verificaram 58,3% de positividade; destas, 61,2% para Toxocara cati e 14% para Ancylostoma spp. Os dados de literatura, assim como os do presente trabalho, evidenciam deficiências no controle das parasitoses nos animais, e um importante risco para a população humana, uma vez que algumas espécies são responsáveis por infecções zoonóticas.

Aspectos sócioeconômicos e culturais: dos gatos positivos para ectoparasitos, 50% pertenciam a famílias com faixa salarial de dois a quatro salários e destes, 78,6% eram da região periférica. Para helmintos intestinais, 59,5% dos gatos positivos pertenciam a famílias com faixa salarial de dois a quatro salários e destes, 88% estavam na região periférica. Dos gatos positivos para ectoparasitos, 75% pertenciam a proprietários com ensino fundamental e destes, 85,7% eram da região periférica. Para helmintos intestinais, 55% pertenciam a proprietários com ensino fundamental e destes, 90,9% residiam na região periférica do município. É possível que tanto as condições socioeconômicas quanto culturais influenciaram nos resultados, todavia, não foi possível avaliar estatisticamente a influência dessas variáveis, devido ao elevado percentual de exames negativos dentro das faixas salariais e das escolaridades pesquisadas.

Proporção entre população humana e felina: nas 600 residências, foi constatada a presença de 2.187 pessoas, média de 3,6 pessoas/domicílio, dados que estão de acordo com a população urbana do município de Lages, SC. (IBGE, 2000). Nas residências, foi verificada a presença de 203 gatos, média de 0,34, valor superior ao encontrado por Dias et al. (2004), em Taboão da Serra, SP, (0,14) e inferior ao verificado por Alves et al. (2005) em 41 municípios do interior de São Paulo (1,8). A proporção pessoa/gato, na cidade de Lages, SC, foi de 10,7:1. Dias et al. (2004) verificaram que a razão entre a população humana e a felina foi de 30,57:1 e Alves et al. (2005) de 16,4:1. Estes autores salientaram que o conhecimento do tamanho da população felina permite maior efetividade de planejamento e de avaliação dos resultados de ações desenvolvidas no sentido da proteção e preservação da saúde dos homens e animais. Embora, descrevendo sobre cães e gatos errantes, Alves et al. (2005) e Ragozo et al.(2002) sugerem que fatores como a quantidade desses animais, pode estar relacionada a transmissão, bem como a manutenção de agentes patogênicos no ambiente mantendo elevada a incidência de enfermidades nos animais que transitam por estes locais, o que representa também um problema de saúde pública.

Considerando-se a população urbana da cidade de Lages, SC, de 153.582 habitantes (IBGE, 2000), e a proporção pessoa/gato (10,7:1), foi estimada para a cidade de Lages, SC, uma população de 14.353 gatos domiciliados.

 

Conclusões

A maior prevalência de parasitoses ocorre em gatos de proprietários que vivem em bairros da região periférica.

A população humana residente nos bairros da região periférica encontra-se mais exposta aos agentes com potencial zoonótico.

 

Referências

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Autor para correspondência:
Fernanda Magalhães Stalliviere
Departamento de Medicina Veterinária, Centro de Ciências Agroveterinárias,
Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC
Av. Luiz de Camões, 2.090, CEP 88.520-000 Lages - SC, Brasil
e-mail:
festalliviere@gmail.com

Recebido em 27 de Março de 2009
Aceito em 19 de Maio de 2009

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