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Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária

On-line version ISSN 1984-2961

Rev. Bras. Parasitol. Vet. (Online) vol.19 no.2 Jaboticabal Apr./June 2010

http://dx.doi.org/10.4322/rbpv.01902011 

NOTA DE PESQUISA

 

Ocorrência de Trypanoxyuris (Trypanoxyuris) minutus (Schneider, 1866) (Nematoda, Oxyuridae) em Alouatta guariba clamitans Cabrera, 1940 (Primates, Atelidae) em Minas Gerais, Brasil

 

Occurrence of Trypanoxyuris (Trypanoxyuris) minutus (Schneider, 1866) (Nematoda, Oxyuridae) in Alouatta guariba clamitans Cabrera, 1940 (Primates, Atelidae) in Minas Gerais, Brazil

 

 

Danielle de Paiva SouzaI; Cecilia Maria da Fonseca Ribeiro MagalhãesI; Fabiano Matos VieiraII, *; Sueli de SouzalimaII

IUniversidade Federal de Juiz de Fora - UFJF
IILaboratório de Taxonomia e Ecologia de Helmintos, Departamento de Zoologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF

 

 


RESUMO

Este trabalho teve como objetivo registrar a ocorrência de Trypanoxyuris (Trypanoxyuris) minutus em Alouatta guariba clamitans no estado de Minas Gerais, Brasil, e fornecer dados quantitativos sobre as infrapopulações desses nematoides, além de dados morfológicos e biométricos de machos e fêmeas. Dois espécimes de A. guariba clamitans, mortos acidentalmente, foram necropsiados, visando aos estudos parasitológicos. Apenas o intestino grosso e o ceco estavam parasitados por T. (T.) minutus. A intensidade do parasitismo no intestino grosso foi de 6650 parasitos e a densidade de 2,6 parasitos/cm3 de intestino. No ceco, observou-se uma intensidade média de 6.753 ± 490,73 parasitos, com uma densidade média de 6,23 ± 5,13 parasitos/cm3. O presente trabalho fornece informações sobre a biometria dos adultos de T. (T.) minutus nessa espécie de hospedeiro, e se constitui no primeiro registro dessa espécie em Aguariba clamitans em Minas Gerais, Brasil.

Palavras-chave: Trypanoxyuris (Trypanoxyuris) minutus, Oxyurida, Alouatta guariba clamitans, primatas.


ABSTRACT

This study aims to register the occurrence of Trypanoxyuris (Trypanoxyuris) minutus in Alouatta guariba clamitans, in Minas Gerais state, Brazil. Two specimens of A. guariba clamitans, died accidentally, have been necropsied for parasito-logical studies. Only the large intestine and caecum were infected by T. minutus. The parasitism intensity was 6650 parasites and the density was 2.6 parasites/cm3 of large intestine. In the caecum, the mean intensity was 6753 ± 490.73 parasites, with mean density of 6.23 ± 5.13 parasites/cm3. The present study supplies information on adult nematodes biometry and this is the first record of T. (T.) minutus in A. guariba clamitans from Minas Gerais State, Brazil.

Keywords: Trypanoxyuris (Trypanoxyuris) minutus, Oxyurida, Alouatta guariba clamitans, primates.


 

 

Os primatas do gênero Alouatta são parasitados por diversas espécies de helmintos (STUART et al., 1998), dentre as quais destacam-se os nematoides da espécie Trypanoxyuris (Trypanoxyuris) minutus (Schneider, 1866) (Oxyuridae) (STUART et al., 1998), que ocorrem exclusivamente no ceco e intestino grosso de primatas desse gênero (HUGOT; GARDNER; MORAND, 1996; STUART et al., 1998). Os objetivos do presente trabalho foram registrar a ocorrência de T.  (T.) minutus em A. guariba clamitans no estado de Minas Gerais, Brasil, e fornecer dados quantitativos sobre as infrapopulações desses nematoides, além de dados morfológicos e biométricos de machos e fêmeas.

Dois espécimes de A. guariba clamitans, do sexo feminino, cedidos pelo Escritório Regional do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), após morte acidental na BR040, em Juiz de Fora (21° 40' 22,03" S e 43° 26' 39,07" O), Minas Gerais, Brasil, sob congelamento, foram necropsiados em abril de 2004. Os hospedeiros foram identificados segundo Gregorin (2006). Os nematoides foram fixados em AFA, acondicionados em etanol 70º GL e clarificados em Lactofenol para identificação da espécie, que foi feita segundo Yamaguti (1961), Hugot; Vaucher (1985); Hugot; Gardner; Morand (1996) e Vicente et al. (1997). As fotomicrografias foram feitas com câmera digital Sony Cyber-shot® DSC-P52, com 3.2 mega pixels de resolução acoplada ao microscópio Olympus® BX41. As medidas são fornecidas em amplitudes, seguidas das médias e desvio-padrão entre parênteses. Os termos ecológicos e os parâmetros quantitativos das infrapopulações foram utilizados de acordo com Bush et al. (1997). Espécimes representativos dos nematoides foram depositados na Coleção Helmintológica do Instituto Oswaldo Cruz (CHIOC), Rio de Janeiro, Brasil.

Trypanoxyuris (Trypanoxyuris) minutus (Schneider, 1866)

Descrição (17 machos e 17 fêmeas): Nematoides com acentuado dimorfismo sexual, sendo as fêmeas maiores que os machos. Tanto os machos quanto as fêmeas apresentaram a extremidade anterior com placas cefálicas com formato quadrangular (Figuras 1c e 1d), com as aberturas dos anfídios entre as papilas dorsais e subventrais. Em ambos os sexos, há a presença de dois lábios: um dorsal, que é bilobado (Figuras 1c e 1d), e outro ventral simples.

Machos (Figura b). Comprimento total entre 2,15 e 2,69 mm (2,46 ± 0,17), a largura na região da junção esôfago intestinal entre 105 e 125 µm (111,94 ± 5,05), o comprimento do esôfago (Figura b) entre 556,25 e 775 µm (681,1 ± 49,97), a distância do anel nervoso à extremidade anterior entre 132,83 e 185,07 µm (161,42 ± 49,5). Possuem um par de asas cefálicas laterais compostas por uma crista. A cauda contêm dois pares de papilas pré-cloacais e 3 pares de papilas pós-cloacais (Figura e), apresenta comprimento entre 11,25 e 17,50 µm (13,64 ± 1,89), o espículo único (Figura e) com comprimento entre 43,75 e 56,25 µm (52,05 ± 2,79) e o espinho ou apêndice caudal (Figura e) com comprimento entre 15 e 22,50 µm (18,93 ± 2,44).

Fêmeas (Figura a): Comprimento total entre 5,52 e 7,86 mm (6,65 ± 0,69), a largura na região da junção esôfago intestinal entre 260 e 385 µm (307,08 ± 44,79), o comprimento do esôfago entre 1,45 e 1,67 mm (1,6 ± 0,05), a distância do anel nervoso à extremidade anterior entre 1,12 e 1,29 (1,23 ± 0,1). Possuem um par de asas cefálicas laterais, entretanto cada asa é composta por uma crista dupla. Distância da vulva à extremidade anterior entre 2,15 e 2,95 mm (2,60 ± 0,23) e a cauda (Figura f) com comprimentos entre 1,37 e 1,63 mm (1,47 ± 0,09). Os ovos no útero (n = 170) (Figura g) possuem comprimentos entre 41,45 e 50,12 µm (47,42 ± 2,8) e larguras entre 21,87 e 24,5 µm (23,45 ± 0,85).

Hospedeiro: Alouatta guariba clamitans Cabrera, 1940 (Primates, Atelidae) (Bugio).

Localidade: Juiz de Fora, Minas Gerais (21° 40' 22,03" S e 43° 26' 39,07" O)

Sítios de infecção: Ceco e intestino grosso

Intensidade parasitária: 6754 ± 490,73 parasitos no ceco (dois hospedeiros); 6.650 parasitos no intestino grosso (um hospedeiro).

Densidade parasitária: 6,23 ± 5,13 parasitos/cm3 do ceco; 2,6 parasitos/cm3 do intestino grosso.

Proporção sexual (machos: fêmeas): 4,90:1 no intestino delgado; 220:1 no intestino grosso.

Espécimes representativos: depositados na CHIOC sob os números 35.647 - 35.649.

Os nematoides do gênero Trypanoxyuris são parasitos exclusivos de primatas das famílias Cebidae e Atelidae (HUGOT; VAUCHER, 1985; HUGOT; GARDNER; MORAND, 1996; STUART et al., 1998). Contudo, o parasitismo por T. minutus é relatado exclusivamente em primatas do gênero Alouatta da América do Sul (STUART et al., 1998; AMATO et al., 2002).

No Brasil, existem os relatos do parasitismo por T. minutus em A. caraya (Humboldt, 1812) (TRAVASSOS; PINTO; MUNIZ, 1927), Aseniculus (Linnaeus, 1766) (TRAVASSOS, 1925), Abelzebul (Linnaeus, 1766) (TRAVASSOS, 1925) e A. fusca (Geoffroy, 1812) (= A. guariba guariba) (TRAVASSOS, 1925), e um relato de morte de um espécime de A. guariba clamitans, associada à alta intensidade populacional de T. minutus no ceco (AMATO et al., 2002). São escassas as informações a respeito da ecologia de infrapopulações de T. minutus em espécies de Alouatta. Amato et al. (2002) registraram a intensidade de 61.870 parasitos no ceco de um espécime de A. guariba clamitans (Cabrera, 1940), que é elevada em comparação com o observado no presente trabalho (6754 ± 490,73 parasitos no ceco, n = 2).

No presente estudo, o único hospedeiro que estava parasitado, tanto no ceco como no intestino grosso, apresentou um maior número de fêmeas no ceco (n = 1350) do que no intestino grosso (n = 30). Essa discrepância populacional não foi observada entre os machos nas distintas infrapopulações (ceco = 5.750; intestino grosso = 6.620). Tal fato talvez se explique pelo fato do ceco ser uma região do trato gastrintestinal mais próxima ao ânus, provavelmente um sítio preferencial das fêmeas de oxiurídeos; em razão dessas apresentarem um comportamento migratório em direção ao ânus, para depositarem seus ovos na região perianal (ADAMSON, 1989; ANDERSON, 2000).

Os primatas são particularmente vulneráveis aos efeitos do parasitismo por frequentemente viverem em grupos sociais estreitos, o que facilita a transmissão dos parasitos (STONER, 1996) que, no caso de Trypanoxyuris spp. ocorre pelo hábito da ingestão fecal e consequente ingestão de ovos (STUART et al., 1998). O contágio intraespecífico é favorecido pelo costume dos primatas manterem essa estreita associação entre os indivíduos que formam um grupo (STONER, 1996), o que talvez explique as altas prevalências e intensidades parasitárias em algumas populações de primatas. Não somente a densidade dos primatas pode influenciar as infecções parasitárias: o confinamento dos indivíduos em corredores estreitos, resultantes do desmatamento, acaba propiciando uma maior transmissão dos parasitos. Essa constante exposição pode resultar em uma alta prevalência e intensidade dos parasitos, podendo existir, em um longo prazo, consequências na longevidade e na estrutura populacional desses primatas silvestres (STONER, 1996).

No Estado de Minas Gerais, esse nematoide até então não havia sido registrado. Portanto, este trabalho é o primeiro registro de T. (T.) minutus em Minas Gerais.

 

Agradecimentos

Ao Escritório Regional do IBAMA em Juiz de Fora, pelo envio dos espécimes de hospedeiros utilizados no presente trabalho.

 

Referências

ADAMSON, M. L. Evolutionary biology of the Oxyurida (Nematoda): biofacies of a haplodiploid taxon. Advances in Parasitology, v. 28, p. 175-228, 1989.         [ Links ]

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Recebido em 15 de Setembro de 2009
Aceito em 1 de Outubro de 2009

 

 

* Autor para correspondência:
Fabiano Matos Vieira
Laboratório de Taxonomia e Ecologia de Helminto
Departamento de Zoologia
Instituto de Ciências Biológicas
Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF
Campus Universitário
Bairro Martelos, CEP 36.036-330 Juiz de Fora - MG, Brasil
e-mail: fmatosvieira@gmail.com

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