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Zoologia (Curitiba)

versão impressa ISSN 1984-4670

Zoologia (Curitiba) vol.28 no.6 Curitiba dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-46702011000600017 

OBITUARY

 

Renato Contin Marinoni (26.III.1939 - 29.VI.2011)

 

 

Albino M. Sakakibara; Dilma Solange Napp; Sionei R. Bonatto

Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paraná. Caixa Postal 19020, 81531-980 Curitiba, PR, Brazil

 

 

 

Obituário, palavra de triste significado para expressar a última homenagem a um amigo. Abranger a multiplicidade do Renato (forma como sempre o chamávamos) em poucas linhas não é tarefa fácil. Ele cumpriu à risca o dizer do poeta: "A vida é muito curta para ser pequena." Usando uma expressão já sem sentido para o futebol, Renato "vestia a camisa do time". Não visava reconhecimento pessoal. Era seu jeito de ser. Tarefa assumida era tarefa cumprida e bem feita. Seu principal objetivo, aliado a sua devoção à família, foi sempre o desenvolvimento do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Ao longo de quase 50 anos no Departamento de Zoologia, Renato Contin Marinoni deixou marcada a sua passagem de forma profunda e indelével, decorrente da sua atuação impecável e construtiva dentro da instituição que o abrigava, quer como administrador ou como docente e pesquisador, contribuindo enormemente para projetar o Departamento como um centro de pesquisa de grande renome. Visto por outro ângulo, ele era uma pessoa, embora de comportamento reservado e quase sempre de semblante sério, fazendo com que alguns estudantes ou mesmo professores, se mantivessem a certa distância. Para os que o conheciam melhor, entretanto, mostrava-se bem diferente, afável, de coração aberto, companheiro e amigo, e de boa conversa. Em termos taxonômicos, essas qualidades eram as suas características diagnósticas e diferenciais, e que fazem com que jamais o esqueçamos.

O seu ingresso no Departamento de Zoologia se deu pouco antes de concluir o Curso de História Natural (1962) que era oferecido, na época, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Paraná. Padre Jesus Santiago Moure era o professor Catedrático de Zoologia, fundador e chefe do Departamento. Como Catedrático, Pe. Moure tinha liberdade de indicar, contratar ou propor nomeação de professor ou funcionário pela Universidade. Inicialmente, admitiu-o como instrutor (sem qualquer vínculo empregatício), auxiliando o professor Dr. Hans Jakobi no laboratório de Fisiologia Animal, que era parte do Departamento de Zoologia. O professor Hans Jakobi era especialista em Copepoda-Crustacea e, isso, talvez, lhe tenha despertado o interesse pela pesquisa com os copépodos, pelo menos nos primeiros anos, publicando, inclusive, alguns trabalhos de taxonomia do grupo.

O Departamento de Zoologia, no começo da década de 60, estava ainda em fase de desenvolvimento, contando com não mais que meia dúzia de professores. A inclusão do Renato no elenco, embora ainda como simples instrutor, trouxe um dinamismo maior. O chefe Pe. Moure passou a ter um "vice" extremamente competente, visto que na sua bagagem de conhecimento trazia a experiência adquirida, ainda quando estudante, no Banco do Estado do Paraná, onde trabalhou algum tempo. Tendo essa experiência, naturalmente lhe foram repassadas as atribuições, antes exclusivas do chefe, concernentes à administração, contabilidade, prestação de contas, elaboração de relatórios, entre outros. A Coleção de Insetos do Departamento de Zoologia ainda era ínfima, constituída de algumas centenas de exemplares não classificados, e guardados em velhos armários. O Renato deu o primeiro impulso para a organização da coleção, assessorando a chefia na confecção de armários padronizados, com gavetas com tampa de vidro, próprias para entomologia, que até hoje estão sendo utilizados. Também, na aquisição de coleções particulares através de recursos obtidos junto ao CNPq, e outras instituições de fomento, incrementando cada vez mais a coleção. Nessas alturas, tomou a decisão de deixar as pesquisas com Copepoda-Crustacea para se dedicar à Entomologia, mais precisamente na área de sistemática e taxonomia de Cerambycidae (Coleoptera).

Em 1966, o governo instituiu os Cursos de Licenciatura Curta (em Ciências, Matemática, Física e Química) a serem implantados nas Universidades. Coube ao Departamento de Zoologia ministrar aulas aos alunos de Licenciatura em Ciências. Para atender a essa exigência a Universidade destinou duas vagas para Professor Auxiliar de Ensino, com contrato através da CLT. Um dos indicados pelo Pe. Moure foi Renato C. Marinoni para ocupar uma das vagas. Dessa forma ingressava definitivamente para o quadro docente da Universidade Federal do Paraná, embora ainda de forma precária. Em 1971, consolidava-se a sua posição como professor nomeado da UFPR, após submeter-se ao concurso para Professor Assistente. Logo a seguir foi promovido a Professor Adjunto (1972). Em regime de tempo integral e dedicação exclusiva, assumiu várias disciplinas nos Cursos de Pós-Graduação em Zoologia, Entomologia e Botânica; na graduação ministrou aulas de Zoologia do curso de Licenciaura em Ciências ao de Medicina. Como orientador, formou mais de 40 estudantes de Mestrado, Doutorado e de Iniciação Científica em diferentes áreas. Além de teses em taxonomia, orientou trabalhos em ecologia, faunística e biodiversidade. Brincava, dizendo que qualquer aspirante a taxônomo devia treinar muito no "jogo dos sete erros".

Em 1968, em decorrência da Reforma Universitária decretada pelo Governo Federal, a Reitoria comunicava aos Departamentos a possibilidade de implantação de Cursos de Pós-Graduação. Com essa notícia, o Pe. Moure iniciou imediatamente a tomar providências para criar um Curso de Pós-Graduação no Departamento de Zoologia. Convocou todos os professores para trabalhar na elaboração da proposta, e, não podia ser de outra forma, o Renato ficou encarregado de coordenar a comissão. Portador de um espírito de liderança e de tomada de decisões rápidas e objetivas, juntamente com o esforço despendido por cada um dos membros, em pouco tempo o processo estava pronto para ser encaminhado para o Conselho Federal de Educação, em Brasília-DF.

Em 1969, o Departamento de Zoologia foi reconhecido pelo CNPq como Centro de Excelência em Entomologia, significando que o Departamento de Zoologia oferecia condições para abrigar um Curso de Pós-Graduação, fato que levou o Magnífico Reitor da UFPR a autorizar o início das aulas. Curso de Pós-Graduação em Entomologia e Genética Humana, em nível de Mestrado, foi a denominação dada. Dos dez alunos, o primeiro a se matricular foi o Renato; o primeiro, também, a se titular Mestre em Entomologia (em 1971). Em 1978, solicitou afastamento por um ano para trabalhar na elaboração de sua tese de Doutorado juntamente com o seu orientador, Dr. Ubirajara R. Martins de Souza, no Museu de Zoologia-USP, São Paulo. De volta, repetiu o feito, sendo o primeiro a obter o título de Doutor em Ciências (1979).

Em 1972, com a Reforma Universitária em prosseguimento, a Cátedra Universitária foi extinta na UFPR, assim como a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Com isso, o Pe. Moure passou a Professor Titular; a chefia do Departamento passou a ser um cargo eletivo (lista tríplice). Pe. Moure foi nomeado Chefe e o Renato Vice-Chefe (desta vez oficialmente).

Homem de visão e de ação, ao longo de sua carreira, encabeçou vários projetos de pesquisa financiados por CNPq, CAPES, FINEP, UFPR e outras agências. Em 1981, implantou o Centro de Identificação de Insetos Fitófagos (CIIF) que envolvia os entomólogos do Departamento de Zoologia, cada um atuando dentro da sua especialidade, com o propósito de atender a todos os interessados (instituições, pesquisadores e alunos) na determinação do nome científico do inseto (praga ou objeto de uma pesquisa), ou da sua posição taxonômica. O CIIF funcionou por vários anos atendendo, inclusive, diversos pesquisadores estrangeiros.

Em 1986, iniciou o Projeto de Levantamento da Fauna Entomológica do Estado do Paraná - PROFAUPAR. Este projeto, também com a cooperação dos pesquisadores do Departamento, visava o levantamento da fauna de insetos do Estado do Paraná através de coletas intensivas em vários locais do Estado, em pontos previamente escolhidos (levando-se em conta o tipo de vegetação, altitude, clima etc.) com a instalação de armadilhas Malaise e luminosas em ambientes diversos. O PROFAUPAR foi responsável pela expansão extraordinária da Coleção de Entomologia Pe. J. S. Moure (DZUP) que passou a ser reconhecida internacionalmente. Esses dois projetos abriram espaço para a contratação e formação de recursos humanos e serviram de base para inúmeras dissertações de Mestrado e teses de Doutorado de estudantes de vários Cursos do país. Ensejou, também, a vinda de pesquisadores estrangeiros e nacionais que trabalharam diversos grupos taxonômicos dentre o material resultante do PROFAUPAR. Concomitantemente, Renato foi, ainda, Coordenador do Projeto CNPq/Polonoroeste no Departamento de Zoologia (1981-1984). Mais recentemente (1999-2002), coordenou o PROVIVE, projeto de levantamento de insetos nos moldes do PROFAUPAR, porém, restrito ao Parque Estadual de Vilha Velha, Ponta Grossa, Paraná.

Líder nato, sua capacidade, firmeza de princípios e profissionalismo não tardaram a torná-lo um expoente no cenário científico nacional. Para citar apenas alguns exemplos: no CNPq trabalhou na implementação do Plano Nacional de Zoologia - PNZ, foi membro do Comitê Assessor de Zoologia e da Comissão de Coordenação do PRONEX - Programa de Apoio a Núcleos de Excelência; na CAPES, foi membro de inúmeras Comissões de Avaliação e de implantação de vários Cursos de Pós-Graduação na área biológica. Na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, participou do grupo de trabalho para uma "Política Nacional de Biodiversidade"; no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), foi membro do Conselho de Proteção à Fauna; atuou, ainda, em Fundações de Amparo à Pesquisa de vários Estados brasileiros.

No biênio 1988-1989 assumiu a presidência da Sociedade Brasileira de Zoologia (SBZ), período em que iniciou a elaboração do "Diretório de Taxônomos do Brasil", publicado em 1996, e organizou um grupo de trabalho junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA), para elaboração e atualização da "Lista das espécies animais brasileiras ameaçadas de extinção". Durante sua gestão frente à Sociedade Brasileira de Zoologia, iniciou o processo de modernização e informatização de dados da SBZ. Mobilizou a comunidade de zoólogos com a criação dos representantes regionais, ampliando a representatividade da Sociedade em âmbito nacional. Ainda nesse período alavancou e impulsionou a publicação e periodização trimestral da Revista Brasileira de Zoologia (hoje ZOOLOGIA) na década de 80.

Homenagens e prêmios foram justos por sua sempre presente e competente colaboração em qualquer atividade que visasse à melhoria do Departamento e da Zoologia nacional.

Dono de um conhecimento invejável estava sempre aberto a novos caminhos e aborrecia trabalhos que já não apresentavam desafios. Seus últimos projetos foram os de apreender a contribuição da biologia molecular à taxonomia e de criar um banco de dados com os tipos de Cerambycidae fotografados pelo Pe. Moure em suas visitas aos museus europeus e norte-americanos e dos tipos depositados na Coleção Entomológica do Departamento de Zoologia, e disponibilizá-lo para a comunidade científica. Claro está que esse banco de dados teria apresentação diferente de similares disponíveis, em mais uma inovação do Renato (atualmente, pesquisadores ligados ao Taxonline - Rede Paranaense de Coleções Biológicas, trabalha para finalizar este projeto).

Lado a lado com o Renato profissional competente, havia o Renato humano e companheiro. Na juventude, nos idos de 1958, conheceu e apaixonou-se pela Dona Neuza com a qual constituiu família e conviveu harmoniosamente desde então. Devotado à família, seu amor pelas filhas Luciane, Andrea e Patricia, expressava-se, às vezes, de forma protetora e inusitada: nunca permitiu que elas tivessem bicicleta! Na década de 90 tornou-se avô. Igualmente carinhoso e apaixonado pelas duas netas, Renata e Giovana, mas sem os encargos e responsabilidades de pai, foi companheiro de viagens e passeios, inclusive aventurando-se nas montanhas-russas de Orlando.

Devotado aos amigos, gostava de reuniões, apreciava uma boa mesa e uma boa conversa onde revelava seu lado bem humorado e brincalhão. Sensível, alegrava-se com as conquistas de seus pares e, nos momentos difíceis, buscava entender e respeitar seus sentimentos e oferecer espontânea ajuda. Sempre aberto a qualquer solicitação, despendia o tempo que fosse necessário quer para questões científicas ou até para achar, pelo Google, o melhor caminho para alguém chegar ao Parque Barigui, local onde despendia tempo para suas caminhadas matutinas.

 

 

Assim, se o Renato pudesse ser definido em uma só palavra, esta seria INTEGRIDADE! Em todos os cantos do Departamento de Zoologia ficaram gravadas as suas ações. No coração, a sua figura.

 

Depoimentos

Conheci o Renato ao redor de 1969 de uma maneira bem peculiar. Aconselhado pelo Pe. Jesus S. Moure, o Renato deveria procurar-me e discutir comigo se o tema escolhido para dissertação de mestrado, uma revisão do gênero Tapeina, era conveniente. Por obrigações na Universidade, ele dispunha apenas dos fins de semana para vir a São Paulo. Como eu ia para a fazenda, em Itu, todo fim de semana, ficamos combinados que me procuraria na fazenda. Renato foi de Curitiba a Itu e pudemos nos conhecer e discutir o tema da dissertação. Desde essa época, nos tornamos grandes amigos.

Fui membro da banca da sua dissertação junto com H. Reichardt Filho e J. S. Moure. Quando decidiu fazer o doutorado, fez jus a uma bolsa para ficar em ano comigo, trabalhando no Museu de Zoologia. A tese era trabalhosa e necessitava muito tempo para fazê-la: um estudo comparado da anatomia das espécies-tipo dos gêneros de Lamiinae. Todos os fins da tarde discutíamos os progressos na tese e cuidávamos de assuntos relacionados com a zoologia. Desde essa ocasião tivemos uma correspondência ativa, sempre preocupados com os destinos da Zoologia brasileira.

Particularmente perdi um grande e querido amigo; coletivamente, a Zoologia perdeu um expoente.

Ubirajara R. Martins - Museu de Zoologia (MZUSP), São Paulo, SP

Meus primeiros contatos com Renato foram através de correspondência quando eu ainda estava no Uruguai, isso deve ter sido em 1964 ou 1965, principalmente trocávamos exemplares de Cerambycidae e informações. Em 1968, durante uma viagem ao Brasil tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, a partir desse momento deixamos de ser apenas especialistas trocando informações para sermos amigos. Quando iniciou a preparação de sua tese de doutorado surgiu um novo problema, a definição do gênero e espécie tipo das tribos de Cerambycidae neotropicais, assim ele publicou um dos primeiros artigos sobre nomenclatura e me incentivou a elaborar e publicar o catálogo dos Cerambycidae neotropicais. Junto com Ubirajara Martins fui membro da banca de doutorado, que ele defendeu após árduos trabalhos de estudo da anatomia das espécies-tipo dos gêneros que dão nome às tribos de Lamiinae.

Os anos foram passando e nossa amizade se fortaleceu, ainda que as ocasiões de conversar com Renato eram restritas à participação conjunta em bancas de mestrado e doutorado. Tomamos vertentes um pouco diferentes no estudo da Entomologia, ele se voltou para trabalhos amplos e ambiciosos de zoogeografia e levantamentos faunísticos, da minha parte permaneci na sistemática de Cerambycidae. Contudo, essas tendências não nos afastaram, pelo contrário, a troca de ideias e informações foi mais fecunda e intensa.

Um grande amigo se foi deixando um vazio impossível de ser preenchido, obrigado pela tua amizade meu querido Renatão.

Miguel A. Monné - Museu Nacional (MNRJ), Rio de Janeiro, RJ