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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

versão On-line ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.10 Rio de Janeiro abr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-64872012000400001 

EDITORIAL

 

 

O presente número de Sexualidade, Saúde e Sociedade traz contribuições significativas para a reflexão sobre as tensões que, contemporaneamente, estão em jogo e em conflito no campo da sexualidade, configurando novas moralidades, sensibilidades, experiências, além de novos critérios de avaliação sobre o que deve ser considerado normal e saudável. Oferece ainda aos leitores exemplos sobre maneiras inovadoras de abordar tais tensões, recorrendo a aparatos conceituais que buscam superar clássicas dicotomias, como razão/emoção, corpo/cultura, indivíduo/sociedade, saúde/doença. O diálogo entre os artigos aqui publicados se dá em múltiplos planos teóricos e metodológicos e em torno de diferentes referenciais empíricos.

O texto de Orejuela, Piedrahita & Renza sobre a prática e o estilo de vida swinger em Cali traz elementos instigantes para a análise do processo através do qual certas práticas sexuais vão "conquistando", mais ou menos rapidamente segundo os diferentes contextos nacionais, o direito à cidadania (e à normalidade) e o próprio engajamento dos investigadores nesse processo. Em contraponto, a partir de riquíssimo material etnográfico, o artigo de Cunha traz à discussão o modo pelo qual a operação dos modernos dispositivos pedagógicos que incidem sobre as experiências sexuais de jovens vivendo com HIV-AIDS no Rio de Janeiro projeta certos desejos, práticas e emoções como não seguros, não saudáveis e, portanto, não legítimos. É extremamente revelador o fato de os fundamentos para a negação da perversidade em um caso e para a condenação moral em outro serem os mesmos, colocando fora do círculo do social e politicamente aceitável qualquer experiência que não envolva indivíduos supostamente livres, responsáveis e iguais.

A exemplo do artigo de Gomez & Barrientos sobre os efeitos do preconceito sexual na saúde mental de gays e lésbicas de Antofagasta, essa nova configuração moral parece agudizar a sensibilidade social em torno da violência, abrindo espaço para novas percepções sobre o que deva ser ou não considerado preconceito ou discriminação sexual, sobre seus efeitos psicológicos em determinados grupos e, finalmente, sobre os modos de mensurar sua incidência.

Nesse cenário, destaca-se a exigência de autocontrole emocional, a partir do qual novos sujeitos sexuais e de gênero tornam-se inteligíveis. Neste caso, o exemplo trazido pelo artigo de Coelho, cujo objeto são narrativas de casais cariocas de diferentes gerações sobre a experiência comum de terem sido vítimas de assaltos residenciais, é iluminador. Em sua análise, a antropóloga aponta as transformações e as continuidades do próprio sentido de controle e autocontrole emocional para a construção de distintas masculinidades e feminilidades. Ao que parece, tal controle, fundamento da liberdade e da responsabilidade exigidas de modo generalizado desses novos atores, quando não é promovido por técnicas pedagógicas, passa a ser oferecido através da tecnologia médico-farmacológica, como expõe Nucci em seu trabalho sobre os significados sociais da pílula anticoncepcional que, para além do controle da reprodução, é vista como dispositivo capaz de "emancipar" as mulheres de uma feminilidade natural, supostamente responsável por sua inconstância de humores e sua dificuldade de controle regular sobre si mesmas.

Além de sua contribuição empírica, a reunião de artigos aqui publicados não deixa de representar o esforço conjunto de superação de velhos dilemas, particularmente agudos quando se refletem sobre "objetos" que, como no caso da sexualidade, do gênero, da saúde e das emoções, engajam imediatamente o corpo, ou a corporalidade. Nessa direção, colocam-se mais explicitamente as contribuições do artigo de Rodrigues que, revisitando o diálogo entre a teórica feminista Judith Butler e o filósofo Jacques Derrida, aborda uma das mais potentes e influentes teorias críticas do campo do gênero e da sexualidade. Como mostra Rodrigues, tais autores têm sido fundamentais para a impugnação de uma atitude intelectual que, operando através de dualismos incomensuráveis derivados da velha oposição matéria/espírito, acabaria, a seus olhos, por "purificar" a experiência humana a ponto de desfigurá-la (quase) completamente.