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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

versão On-line ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.10 Rio de Janeiro abr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-64872012000400002 

ARTIGOS

 

Gênero, emoções e vitimização: percepções sobre a violência urbana no Rio de Janeiro1

 

Género, emociones y victimización: percepciones sobre la violencia urbana en Río de Janeiro

 

Gender, Emotions and Victimization: perceptions on urban violence in Rio de Janeiro

 

 

Maria Claudia Coelho

Doutora em Sociologia, Departamento de Ciências Sociais - UERJ - Rio de Janeiro, Brasil > mccoelho@bighost.com.br

 

 


RESUMO

Este texto examina emoções relatadas em depoimentos de vítimas de assaltos a residências pertencentes às camadas médias do Rio de Janeiro. Insere-se na área de antropologia das emoções, adotando como perspectiva teórica, o "contextualismo" de Catherine Lutz e Lila Abu-Lughod. O ponto central desta perspectiva é a atenção voltada à capacidade micropolítica das emoções, tributárias de uma "gramática" social, sendo capazes, por isso, de dramatizar/alterar/reforçar aspectos "macro" da organização social que modelam as relações interpessoais. Os dados são um conjunto de entrevistas com casais que vivenciaram assaltos às suas residências. O objetivo é examinar as atitudes "prescritas" em seus relatos como "ideais" ou "eficazes" para lidar com a condição de vítima e sua relação com identidades de gênero. O foco da análise são as formas de "controle emocional" presentes em seus relatos, com ênfase na oposição entre o controle da raiva e o controle do medo.

Palavras-chave: emoção; violência urbana; gênero; vitimização; controle emocional


RESUMEN

Este artículo examina las emociones relatadas en declaraciones de víctimas de asaltos en domicilios pertenecientes a camadas medias de Río de Janeiro. Inscripto en el campo de la antropología de las emociones, adopta como perspectiva teórica el "contextualismo" de Catherine Lutz y Lila Abu-Lughod. El punto neurálgico de dicha perspectiva es la atención puesta en la capacidad micropolítica de las emociones, tributarias de una "gramática" social y, por tanto, capaces de dramatizar/alterar/reforzar aspectos "macro" de la organización social modelada por las relaciones interpersonales. Los datos surgen de un conjunto de entrevistas con parejas que vivenciaron asaltos en sus residencias. El objetivo de este texto es examinar las actitudes "prescriptas" en sus relatos como "ideales" o "eficaces" para lidiar con la condición de víctimas y su relación con las identidades de género. El foco analítico son las formas de "control emocional" presentes en sus relatos, con énfasis en la oposición entre el control de la rabia y el control del miedo.

Palabras clave: emoción; violencia urbana; género; victimización; control emocional


ABSTRACT

This paper analyzes emotions described by middle-class victims of residence robberies in Rio de Janeiro. The theoretical approach adopted is Catherine Lutz and Lila Abu-Lughod's 'contextualism,' within the anthropology of emotions. This perspective's main focus is the micro-political capacity of emotions, which, embedded in social grammars, are therefore able to dramatize/reinforce/alter the 'macro' features of social organization that give form to interpersonal relations. The data analyzed is a set of in-depth interviews conducted with couples who have been victims of residence robberies. Attitudes they prescribe as 'ideal' or 'effective' in dealing with their victim condition are analyzed in relation to gender identities. The analysis focuses on the forms of "emotional control" described in their narratives, emphasizing the opposition between controlling anger and controlling fear.

Keywords: emotion; urban violence; gender; victimization; emotional control


 

 

Introdução

Este artigo discute a relação entre gênero, emoções e experiências de vitimização, inserindo-se na área de investigação da antropologia das emoções e tomando como vertente teórica o "contextualismo" (Abu-Lughod & Lutz, 1990), com sua ênfase na dimensão micropolítica das emoções. O foco está em uma modalidade específica da violência urbana: os assaltos a residências.

O trabalho busca explorar o problema mais geral das relações entre sentimentos morais e percepções da violência no universo das camadas médias do Rio de Janeiro, dando assim continuidade às reflexões desenvolvidas em outro lugar (Coelho, 2010) sobre o trabalho simbólico realizado pelos sentimentos de desprezo e compaixão (entendidos como emoções capazes de demarcar status) em narrativas sobre vitimização em situações de violência urbana. Retomo aqui especificamente questões esboçadas em dois trabalhos anteriores, em particular a dinâmica emocional medo-calma e sua relação com o gênero (Coelho, 2006; Coelho & Santos, 2007). O eixo principal da análise é uma comparação entre o modo como homens e mulheres vivenciam e descrevem essas experiências de vitimização, buscando examinar de que forma a associação tradicional entre a condição feminina e a condição de vítima é vivenciada no universo pesquisado.

A metodologia utilizada foi a entrevista em profundidade. Os dados aqui analisados são um conjunto de seis entrevistas realizadas com três casais que vivenciaram juntos, marido e mulher, experiências de assaltos às suas residências. Os três casais pertencem a faixas etárias distintas: 84/85 anos, 55/52 anos, 43/42 anos. Todos têm filhos, respectivamente em número de dez, dois e um. O primeiro reside em um bairro de camadas médias da Zona Norte da cidade, o segundo, na Zona Sul do Rio de Janeiro e o terceiro, na Zona Oeste, na Barra da Tijuca. Entre os homens, há um funcionário público aposentado, um engenheiro e um gerente de empresa multinacional; entre as mulheres, há uma dona de casa, uma marchand e uma pequena empresária.2

O foco do trabalho é o exame da relação entre identidades de gênero e as atitudes descritas em seus relatos como "ideais" ou "eficazes" para lidar com a condição de vítima. Esta relação é tomada como via de acesso para elucidar a percepção de tais segmentos acerca desta modalidade de violência urbana. O texto está estruturado em duas seções. Na primeira delas, exponho os pressupostos teóricos que nortearão a análise, com ênfase em dois pontos: a) a noção de "etnopsicologia", ou seja, de concepções nativas acerca do fenômeno das emoções, concepção que, nos Estados Unidos e nas sociedades europeias ocidentais contemporâneas, seria fortemente marcada por um corte de gênero que, por sua vez, está associado ao tema do controle emocional (Lutz, 1988); b) a dimensão micropolítica das emoções acima mencionada, ou seja, a capacidade que as emoções têm de atualizar, na vivência subjetiva dos indivíduos, aspectos de nível macro da organização social.

A segunda seção examina os relatos dos entrevistados, com a análise sendo estruturada, em um primeiro momento, nos "pares" (marido e mulher de cada casal). Nesta etapa, quatro são os pontos que merecem atenção: a descrição de si mesmo na cena narrada; a descrição do cônjuge; eventuais descrições de outras "personagens" (vítimas, assaltantes, policiais, vizinhos); e as "figuras da vulnerabilidade", termo com o qual busco me referir a uma "função narrativa" presente em vários depoimentos, ou seja, aquelas personagens representadas como "mais frágeis", as que o narrador precisa proteger. A análise converge para uma reflexão acerca das diferenças entre as formas de (des)controle emocional e suas relações com o gênero, tal como encontradas no universo pesquisado. Na conclusão, procuro traçar um quadro mais geral, levando em conta também a dimensão geracional, recorrendo aí à discussão proposta por Velho (1987) sobre as mudanças nas expectativas quanto às reações masculinas em situações de vitimização, na cidade do Rio de Janeiro, vinculadas às concepções de masculinidade.

 

1. A antropologia das emoções: os temas do gênero e do controle

O campo da antropologia das emoções conheceu um forte desenvolvimento a partir de meados dos anos 1980 nos Estados Unidos. Datam dessa década alguns trabalhos marcantes, como o texto de Michelle Rosaldo (1984), em que a autora propõe uma definição das emoções como "pensamentos incorporados"; a etnografia realizada por Lila Abu-Lughod (1986) sobre a expressão dos sentimentos em aldeias beduínas; a etnografia de Catherine Lutz (1988) sobre os Ifaluk da Micronésia, em que a autora esboça uma descrição da concepção euro-americana da vida emocional; e a coletânea organizada por Lutz e Abu-Lughod (1990), cuja introdução mapeia o estado da arte daquele momento dos estudos socioantropológicos sobre as emoções, identificando três perspectivas principais e propondo uma nova abordagem teórica.3

Deste conjunto de ideias, duas são de especial interesse para este trabalho. Em seu esforço para a compreensão da vida emocional dos Ifaluk, Lutz (1988) recorre à noção de "etnopsicologia", entendida como o conjunto de ideias de um determinado grupo social a respeito da vida emocional (aí incluídas emoções específicas), para esmiuçar a visão euro-americana das emoções. Para ela, a etnopsicologia euro-americana está articulada a de duas oposições: emoção/pensamento e emoção/distanciamento. Na primeira oposição, a emoção é o polo negativo, estando ligada ao descontrole e sendo um atributo do feminino, representado como fonte simultaneamente de perigo e vulnerabilidade, exatamente devido a esta associação com o descontrole; nesta oposição, o masculino é o locus da racionalidade e do controle, entendidos como desejáveis e fonte de estabilidade. Na segunda oposição, a valoração se inverte, com a emoção passando a ocupar a polaridade positiva, associada agora à capacidade de envolvimento com o outro, em oposição ao distanciamento que seria típico do masculino, representado como frio e destituído de capacidade compassiva.

Nesta etnopsicologia, dois temas emergem com extrema nitidez e estão fortemente articulados entre si: o gênero e o controle, eixos centrais para se refletir sobre a maneira euro-americana de se entender a vida emocional.

Esta análise de Lutz pode ser considerada exemplar da perspectiva que apenas dois anos depois a própria autora batizaria de "relativista" (Lutz & Abu-Lughod, 1990), em um mapeamento do campo da antropologia das emoções. Neste mapeamento, as autoras identificam três perspectivas para a análise das emoções: a "essencialista" (a qual, como o próprio nome sugere, se baseia na suposição de que as emoções seriam dotadas de uma "essência" natural e, portanto, universal); a "historicista" (ancorada no pressuposto de que as emoções variam como fruto de contextos históricos distintos); e a "relativista" (erigida sobre a noção de "construção cultural", a qual, aplicada às emoções, significa dizer que estas seriam fenômenos culturalmente variáveis).

Contra este pano de fundo, Lutz e Abu-Lughod propõem uma quarta perspectiva: o "contextualismo". Sua fonte de inspiração teórica é a noção foucaltiana de "discurso", entendido como uma fala que mantém com a realidade uma relação não referencial, ou seja, o discurso não se refere a algo que lhe seria extrínseco e preexistente; ao contrário, seria uma fala que "formaria aquilo sobre que fala". Nesse sentido, o discurso sobre as emoções só poderia ser entendido em contexto, isto é, seu "assunto" não seria uma emoção estável e transituacional, mas estaria sempre referido às emoções engendradas pelo próprio contexto do qual o discurso emerge. É esta perspectiva que nos permite falar em uma "micropolítica das emoções". A ideia se refere à capacidade que as emoções teriam de alterar, dramatizar ou reforçar as relações de poder e hierarquia em que se dão as interações entre indivíduos, sendo simultaneamente tributárias destas relações e capazes de colocá-las em xeque.

Um exemplo de tal visão é o próprio trabalho de Lutz (1990) incluído nesta coletânea. Nele, a autora retoma suas reflexões sobre o lugar da emoção no pensamento ocidental, partindo da ideia de que "qualquer discurso sobre emoção é também, ao menos implicitamente, um discurso sobre gênero" (1990:69, tradução minha). Seu foco neste texto é a existência de uma "retórica do controle" das emoções associada ao gênero, o que, em sua visão, faria com que o discurso sobre as emoções fosse também uma fala sobre o exercício do poder.

Com base em um conjunto de entrevistas realizadas com homens e mulheres norte-americanos pertencentes às camadas médias e populares, Lutz desenvolve então uma análise sobre o modo com que o tema do controle aparece no discurso de homens e mulheres. Seu ponto de partida é um paradoxo que identifica no discurso ocidental sobre as emoções: elas seriam, ao mesmo tempo, "sinais de fraqueza" e "uma força poderosa". Este paradoxo estaria no cerne da ambiguidade que cercaria a condição feminina no pensamento ocidental: "a emocionalidade é a fonte do valor da mulher, sua expertise, ao invés da racionalidade, mas ao mesmo tempo é a origem da sua inadequação para tarefas sociais mais amplas e mesmo uma ameaça potencial a seus filhos" (1990:77, tradução minha).

 

2. Gênero e Vitimização

Os três casais entrevistados vivenciaram juntos experiências de assalto às suas residências. O primeiro casal, Rafael e Magnólia, passou duas vezes por esta experiência, em ambas as ocasiões, em sua casa de veraneio. A primeira delas ocorreu 13 anos antes da entrevista; a segunda, poucos meses antes.

O segundo casal (Luís e Joana) narra um assalto sofrido quando estavam em casa dos sogros. O assalto aconteceu 25 anos antes da entrevista. O terceiro casal (Guilherme e Ana) sofreu o assalto em seu apartamento, tendo sido rendido na garagem do prédio quando chegavam. O assalto ocorreu alguns meses antes da entrevista.4

 

2.1 Um olhar faiscante e um anel rasgado: primeiro relato5

Rafael começa sua narrativa contando que estava lendo jornal na varanda de sua casa de praia quando foi surpreendido por "dois mascarados" que lhe apontaram um revólver. Em sua "abertura", há uma estratégia retórica que, através de dois recursos - a ridicularização dos assaltantes por meio de risos e a "dramatização" de um diálogo em que reproduz as falas dos assaltantes em tom ríspido, brusco e elevado, enquanto suas próprias respostas são emitidas em tom sereno, lento e baixo - esboça aquilo que será a tônica de seu relato: uma elaboração de sua identidade (Goffman, 1980) como sujeito com pleno controle de si e da situação. Vejamos:

Sentei na varanda, abri o jornal, comecei a ler. Aí, de repente, surgindo do nada, dois mascarados na minha frente, um aponta o revólver, o outro vem com uma solenidade danada, me bota o revólver na cabeça, '"é um assalto'", eu digo, '"é, eu tôou vendo, que é um assalto eu sei'" (riso de escárnio). E '"quem é que tá lá dentro?'" (imita uma voz ríspida). Eu digo '"quem é que tá lá dentro é minha senhora.'". '"Tem mais gente?'" . Eu digo '"tem, a caseira com o filhinho dela.'".

Esta forma de elaboração de si apresenta um segundo traço: além de uma calma superioridade (traduzida também na escolha do vocabulário - "minha senhora", "o filhinho" - que evocam uma normalidade respeitosa que o entrevistado se esforça por restaurar no plano discursivo), Rafael descreve a si mesmo com vontade de ter reagido ao assalto e capaz de ser bem-sucedido, só não o fazendo por desejo de proteger sua esposa e o filho da caseira:

Quando chegamos na cozinha, eu com o camarada que ficou comigo, porque o outro se dirigiu à casa da caseira, nos fundos da casa. Me deu muita vontade na hora de pegar aquele camarada, que era um naniquinho perto de mim, mas não era pivete, não, era homem feito, pela voz, pela postura, e tudo, me deu vontade de pegar ele, embrulhar e... porque eu dominava ele. Mas eu pensei nela, que estava ainda tirando o soninho dela, e pensei no menininho da caseira, que nessa época era um garotote aí de 7 anos...

Outros elementos se somam, assim, a essa elaboração da própria identidade: Rafael é mais alto, supostamente mais forte ("eu dominava ele") sem ser covarde ("era homem feito"). Tem a vontade de reagir, ou seja, sua submissão ao assaltante é apenas nas atitudes, não correspondendo à dimensão subjetiva; mas tem também autocontrole, e não o faz em nome de uma atitude de proteção não da própria integridade, mas sim daquelas personagens representadas como mais frágeis: a própria esposa (entregue a seu "soninho") e o "menininho" da caseira. Mulheres e crianças emergem de seu relato como "figuras da vulnerabilidade" - função narrativa que, como veremos, está presente em todas as exposições masculinas de vitimização. Este tema - a coragem de reagir versus o controle de si - aparece ainda em outro momento de sua narrativa, quando o casal se engaja em uma descrição conjunta da aparência e das atitudes dos assaltantes e Rafael afirma: "tinha um baixinho e o alto. O baixinho ainda tive vontade de quebrar a cabeça dele, mas elas não deixaram. Mas ia ser muito fácil". Estas três afirmativas - a vontade de reagir, a convicção de poder fazê-lo e o autocontrole em atenção a um temor atribuído às mulheres - conjugam-se assim em uma representação de si na cena do assalto como um sujeito corajoso e controlado, cujo senso de responsabilidade surge na forma de preocupação com a integridade de outros, representados como carentes de proteção: mulheres e crianças.

Este sujeito corajoso e responsável, contudo, faz mais do que controlar a si mesmo: ele também organiza a situação, impondo limites à atuação dos assaltantes e dando-lhes ordens de como agir:

Aí me aparece um cidadão de lá, segurando o garoto pelos cabelos, com um revólver na cabeça dele... "vamos entrar!". Eu digo "não, não, não, assim não, assim não". "Quem vai entrar sou eu, na frente, porque eu é que vou abrir a porta do meu quarto. Eu é que vou chamar a minha senhora. Quem vai abrir tudo sou eu. Vocês não, vocês vêm atrás. Ou então acaba tudo aqui agora".

E eles reagiram como, quando o senhor falou isso?

- Não, aí, um deles disse, "Deixa de conversa. Vamo' embora". Aí eu fui, abri a porta do quarto com força pra acordá-la. Fiz de propósito. Aí (risos) eu disse, "minha filha, não fica assustada, não, porque esses dois rapazes estão nos assaltando".

O desfecho da situação dá continuidade a este trabalho de construção de si. Rafael afirma que os assaltantes "saíram corridos". O recurso à expressão "sair corrido" vem concorrer para esta forma de elaboração de sua identidade na medida em que não há qualquer passagem, em seu relato, em que afirme ter havido algo, em sua atitude ou extrínseco à situação, que afugentasse os assaltantes; ao contrário, em sua narrativa, estes são descritos tendo ido embora por vontade própria no momento em que assim o decidiram.

A polícia também é descrita atendendo ao seu comando: após a saída dos assaltantes, Rafael chama a polícia, que "veio imediatamente". Este exercício da autoridade sobre os policiais surge igualmente no relato do segundo assalto, em que, a princípio, são atendidos de forma displicente na delegacia:

Mas eu já tinha experiência de delegacia, mas ela [a esposa)], coitada, é uma criatura é, sensível, alheia a esses problemas, embora universitária, também, e tal, mas não... porque eu entrei de sola logo (...)[...] o camarada me recebeu [e eu] parecia um príncipe. Aí ela disse '"que é isso, meu filho, que falta de educação!'", não, ccom medo, me recriminando. Porque eu parti logo pra cima do cara, porque o cara tava lá, com a máquina dele, era o rei do mundo e nós, os idiotas. (...)[...] '"Ô camarada, olha aqui, vamo ver logo o negócio aqui como é que é, como é o nome do delegado?'". '"Sabe que eu não sei?'". Eu digo '"ah, não sabes o nome do delegado?'".

Este fragmento de sua narrativa ilustra bem a marca de gênero associada ao exercício da autoridade. Enquanto ele "entra de sola" e em decorrência disso é recebido como "um príncipe", ela o recrimina pela "falta de educação", sendo por isso descrita, de forma meio respeitosa ("embora universitária"), meio condescendente ("sensível, alheia a esses problemas, coitada"), como incapaz de agir naquela situação.

O relato de Rafael deixa entrever ainda uma concepção do masculino como algo inato, em que a capacidade de reagir e dominar fisicamente o outro seria inerente, como um impulso fundamental que ele não está seguro que exista nas mulheres:

[...] porque eu senti naquele momento vontade de reagir, inclusive porque um deles, que era quem... o que tomava conta de nós, era um bobalhão. O que varria a casa era o espertinho, porque ele ia recolhendo tudo, e vinha pra sala e colocava o revólver no chão, largava o revólver no chão, da mão dele, saía da mão dele aquilo... pra ele vasculhar as bolsas e tudo. Eu disse, "ah, meu Deus, se eu tivesse mais um homem dentro dessa casa", entrou um machismo aí, porque talvez a gente se entendesse pelo olhar e a gente dominava, eu tenho a impressão que nós dominávamos, dois homens dominavam. Pode ser até que eu estivesse errado, porque se eu tivesse tomado uma atitude, eu não sei se as outras três mulheres também voavam em cima dos camaradas e dominavam, podia ser que nenhum de nós fosse ferido... até assassinado.

Rafael idealiza uma "essência masculina" comprometida com a não submissão a outro que o desrespeita, se necessário recorrendo à força física para impor-se. E essa "essência" criaria uma cumplicidade, uma capacidade de comunicação tácita que teria como veículo o olhar. E é no olhar, também, que sua esposa Magnólia, em seu relato, identifica o locus da diferença entre homens e mulheres em uma situação de vitimização: a não rendição no plano subjetivo, ainda que em situação de submissão.

Contando a entrada dos assaltantes em sua casa no segundo episódio, Magnólia descreve assim sua reação inicial:

[...] e aí nós ficamos sem entender, o que era aquela invasão que tava acontecendo lá em casa, e a minha sobrinha que elas começaram logo. Um avançou em mim, me arrancou o cordão, me tirou a aliança, me rasgou o anel, e eu não tava entendendo o que tava se passando comigo. O Rafael, sentado lá no canto da mesa, eu olhava pro olho dele, o olho faiscava. Eu dizia "meu Deus do céu, o que que ele vai fazer?", eu já pensando, né. E me apavorando. Ele foi na minha filha, tirou tudo o que ela tinha, também, e tal, mas minha filha tava sentada assim no sofá, pegou ainda a aliança dela, escorregou pro sofá. A minha sobrinha, que também foi depenada, relógio caríssimo, que ela tinha, e brincos de ouro, aquilo tudo, a minha sobrinha ainda tinha coragem de dizer assim "vamos negociar" (risos). E a minha filha fula da vida, dela contando isso depois, esse "vamos negociar" numa hora daquelas. Do Rafael eles arrancaram também relógio, aliança, aliança novinha que tínhamos mandado fazer porque da primeira vez perdemos as alianças de bodas de prata. Agora perdemos as alianças de...

A retórica desta cena é muito eloquente quanto às marcas de gênero na experiência de vitimização na visão desta senhora de 85 anos. A passividade feminina é gritante: a casa é "invadida", os ladrões "avançam" sobre as vítimas e "arrancam" seus pertences, "tirando-lhes tudo", sem que estas mulheres esbocem qualquer reação. A vivência da situação como um "ataque" diante do qual não é possível defender-se é sugerida ainda pela estranheza do uso do verbo "rasgar" para descrever a retirada de seu anel pelo assaltante: por que recorrer a um verbo de flagrante inadequação do ponto de vista da descrição empírica, senão por sua capacidade de evocar uma violência destrutiva e incontrolável?

Mas estas mulheres, contudo, apesar de compartilharem a atitude passiva, não reagem subjetivamente da mesma maneira, na percepção de Magnólia. Ela tem dois sentimentos: estupefação (ela retrata a si mesma como sendo despojada de bens materiais que portava em seu corpo, sem qualquer esboço de reação física, privada também da capacidade de compreender o que se passava) e pavor (muito sugestivamente, não diante da possibilidade de agressões pelos assaltantes, mas sim de que o marido reagisse, entrevista por ela em um olhar faiscante). O estado subjetivo de sua filha parece semelhante ao de seu marido: a raiva. A filha, contudo, fica "fula da vida" não com os assaltantes, mas diante do esboço de reação da prima que, paradoxalmente, não é mais do que uma tentativa frustrada de "negociar" com os assaltantes. Esta reação feminina, contudo, provoca apenas risos na entrevistada, sem qualquer menção a um "pavor" semelhante àquele suscitado pela mera percepção de um "olhar faiscante" em seu marido.

Este quadro - três mulheres despojadas de joias e relógios, cuja única reação é por meio da fala, propondo uma "negociação", em companhia de um homem que é também despojado de objetos materiais e que reage somente através de uma raiva que faz "faiscar" o olhar - é completado na sequência do relato, em que ambos, Rafael e Magnólia, contam uma tentativa malsucedida de dar um telefonema, à revelia dos assaltantes, para a casa da filha que mora em frente. O ladrão, contudo, percebe a tentativa e exige a entrega do telefone, no que é prontamente atendido por Rafael. Se, contudo, a sobrinha é criticada por tentar "negociar", não há qualquer crítica a esse esboço de reação, nem sequer aquele medo suscitado pelo "olhar faiscante".

Ao final da entrevista, seus comentários sobre o uso de armas de fogo ilustram bem essa visão de si mesma como incapaz de reagir atacando o outro, mas tão somente fugindo:

Então, eu não sei usar arma, eu não quero arma de jeito nenhum, tenho pavor de arma, porque eu não vou usar a arma e ainda vou dar a arma pra quem vier. Nem faca, nem coisa nenhuma, acho que eu nem teria coragem de fazer. Mesmo que fosse em legítima defesa. Poderia gritar, correr, o que tivesse ao meu alcance, mas arma não usaria, não, porque eu não sei...

 

2.2 Autocontrole, ultraje, covardia: segundo relato

Nas primeiras frases de seu relato, Luís conta que se levantou ao ver um assaltante entrar na sala segurando a cozinheira pelo braço e com um revólver na mão. O assaltante então lhe deu um tapa, ao que ele reagiu dizendo: "fique tranquilo, fique calmo".

Esta passagem anuncia a tônica do processo de construção de sua identidade ao longo do relato: um homem calmo, controlado e com capacidade de liderança, preocupado com as pessoas que percebe como frágeis e vulneráveis. Em outras passagens, o entrevistado descreve o modo como "organizou" o assalto, mantendo-se calmo e dando instruções aos assaltantes:

Outra coisa interessante é o seguinte, eu consegui me manter calmo e eu tentei durante todo o momento organizar o assalto, que era a forma que eu encontrei de fazer com que, na minha visão, o assalto transcorresse da forma mais pacífica possível, que fosse rápido; na verdade durou umas duas horas, tudo isso, até que eles saíssem e nos deixassem amarrados; principalmente, era uma tentativa de evitar que a polícia percebesse.

E a gente tentou coordenar isso, quer dizer, por exemplo, na hora da saída, [quando] eles perguntaram onde estava a chave do meu carro, eu disse onde estava e ele ouviu, esse que comandava, ordenou pra um deles, um dos outros, assim, "olha, entra no carro do Luís", nessa altura ele já me tratava como Luís, pelo nome, já tínhamos estabelecido uma relação assim amigável. É, ele disse assim, "entra no carro do Luís, liga o carro, espera uns cinco minutos, se tudo correr bem, nós saímos". Eu falei, "não, não é isso que você vai fazer". "E o que eu vou fazer?", ele me perguntou. Eu disse: "você vai botar tudo o que você quer levar atrás do portão, quando estiver tudo pronto, vocês abrem o portão, abrem o carro, carregam rapidamente o que querem levar e vão embora". Imagine se esse cara vai ficar parado no meu carro, numa rua de casas, esperando o que, que um vizinho veja? O vizinho sabe quem sou eu e qual é meu carro, "vê o seu amigo lá dentro, vai achar o quê?". "Ah, tem razão, boa ideia. E aceitaram e assim fizeram, graças a Deus.

Luís diz não ter tido qualquer vontade de tentar uma reação, apesar de dispor de uma arma em casa. Afirma sequer ter cogitado essa hipótese, acrescentando ainda que não teria "[...] chance alguma, porque os caras já tavam tomando conta da casa e eu sentado numa poltrona". Luís explica sua não reação como resultado de uma avaliação "objetiva" da situação, em que não há qualquer lugar para sentimentos a serem contidos:

Mas assim, nem te passou pela cabeça tentar nada?

Não, não me passou pela cabeça tentar nada. Você percebe... pra mim tava muito claro que eles eram os senhores da situação. E que a única ação que me cabia era tentar fazer com que aquilo acabasse rapidamente e tentar fazer com que esse assalto ou aquela ação transcorresse em paz. Quer dizer, tentar enxergar o assalto como uma ação prática. O que que eles querem? Dinheiro, joias? Peguem logo e vão embora. Eu consegui ficar calmo diante dessa circunstância, felizmente, né. E eu tenho um temperamento forte. Eu tenho certeza que se eu tivesse a chance de fantasiar um assalto assim, eu acho que nessa fantasia eu teria um papel diferente do que eu tive na realidade. Se eu antes pudesse fantasiar... não sei, acho que eu talvez tentasse alguma... atitude mais heroica, assim, sabe, alguma coisa desse gênero... mas na hora não tive a menor vontade de fazer isso.

E quando ele te agrediu?

Olha, você, você tem... tava tão nítido pra mim a minha condição de inferioridade que não havia a menor chance de eu tentar qualquer reação. Porque veja, primeiro, ele tinha uma arma, segundo, aparentemente eles eram muitos, naquele momento eu nem sabia quantos ainda. Depois eu percebi. Até hoje a gente tem dúvidas se eram quatro ou cinco. Porque a casa é grande e eles se espalharam pela casa. Mas... eu acho que isso foi pra mim marcante, quer dizer, quando eu percebi que a superioridade deles era total e que eu não tinha a menor chance de reagir, pra mim ficou muito claro o que eu tinha que fazer. Quer dizer, qual era a única coisa a perseguir, que era isso que eu te falei: tentar fazer com que o assalto fosse bem-sucedido do ponto de vista deles, do ponto de vista material, sob a ótica deles e que fosse rápido. Que a gente pudesse se livrar rapidamente deles sem o concurso da polícia. Porque pra mim, se a polícia chegasse com eles lá dentro de casa, aí eles iam tentar escapar fazendo um refém.

Na sequência da entrevista, indago a Luís se ele temia por alguém em especial. Ele a princípio diz que sim, e faz uma referência às "mulheres" e, em seguida, lista a relação de vítimas presentes na casa: a sobrinha, os sogros, o cunhado, um casal de amigos e os empregados. Sua preocupação era de que alguém "fizesse alguma coisa com as mulheres" e que "fizesse um refém". Luís não fala de qualquer temor específico em relação a si mesmo, e mesmo a expressão "temer" não é de sua escolha: eu formulo assim a pergunta, mas em sua resposta o "temor" é transformado em uma "preocupação", assim como a possibilidade de que viessem a ser mortos. Luís fala duas vezes sobre essa possibilidade: na primeira, trata-se de uma "sensação ruim de que eles iriam nos matar"; na segunda, de uma "preocupação".

O medo, contudo, não é o único sentimento ausente em seu relato. Luís não dá também qualquer sinal de ter sentido raiva dos assaltantes. Já bem ao final de seu relato, Luís é explícito ao dizer que "não tem raiva deles". Pergunto-lhe então por que, e ele envereda por uma reflexão sobre a relação entre firmeza moral e condições socioeconômicas, substituindo o exame de suas emoções - um caminho possível para responder à minha pergunta - por uma análise distanciada da situação socioeconômica brasileira e seus efeitos sobre a população excluída do mercado de trabalho.6

Em seu relato, há ainda duas outras personagens masculinas: o sogro e um amigo que chega para visitá-los durante o assalto, sendo também rendido pelos assaltantes. O ponto destacado na reação do sogro é seu enfrentamento dos assaltantes, contado de forma levemente jocosa em dois momentos de sua entrevista:

A reação do meu sogro, que é uma pessoa superpacífica, nunca vi sequer levantar a voz pra ninguém, e ele então, com o dedo em riste no nariz do ladrão, disse assim: "ponha-se daqui pra fora". Quer dizer, o ultraje, né, quer dizer, como é que ele reagia, ele, uma pessoa mais velha, que não tava habituado a esse tipo de coisa, não conviveu com isso... como é que ele reagia a uma situação dessas que pra ele era um ultraje.

O meu sogro reagiu, por exemplo, lá pelas tantas o cara resolveu cortar o telefone, o fio do telefone. O meu sogro dizia assim: '"não adianta, você tá cortando o fio da extensão, você tem que cortar o fio lá de baixo'" . (risos). '"Cala a boca, pô. Acha que o sujeito vai acreditar no senhor? Né? Deixa ele fazer o que ele quer, pô. (...)[...]'". Aí o meu sogro depois teve um ataque, abriu a camisa, rasgando os botões, mandou o cara atirar... são essas coisas interessantes, o sujeito mais pacífico, uma das pessoas mais pacíficas que eu conhecia era meu sogro. Nunca imaginei que fosse capaz disso, de abrir assim... parecendo um super-homem, assim, expondo o peito à bala, '"pode atirar'".

Já o amigo é descrito como um sujeito que, apesar de brigão em situações corriqueiras, teria entrado em pânico diante dos assaltantes, ficando paralisado e sem reação:

E eu me lembro que essa pessoa, o casal, o marido, era uma pessoa desseas que briga na rua, entendeu,em jogo de futebol,. eEu disse, "pronto, agora vai, esse assalto vai ficar fora de controle. Até então tava calmo". Mas ele não disse uma palavra. Chegou, foi amarrado, amordaçado e ficou quieto até o final do assalto. Na verdade, ele tinha claustrofobia, tem claustrofobia, então, quando puseram, a mordaçaram, puseram um pano na boca dele, ele ficou achando que ia morrer sufocado. Fruto disso, ficou anos se tratando com um psiquiatra etc. e tal.

Esta mesma experiência é relatada de forma bastante distinta por sua esposa Joana. Embora as "grandes pinceladas" sejam as mesmas, a maneira de narrar a própria atuação é bem diferente. No relato de Joana abundam referências à própria reação emocional, descrita sem pudores como "pânico", "aflição", "nervosismo", "medo" etc. Sua "entrada em cena" é contada como de imobilização em função de uma arma na cabeça; a entrevistada, contudo, diz ter gritado mesmo assim e ter enfiado um band-aid na boca devido à sua "aflição".

Ela e a mãe são retratadas como "muito nervosas" no momento em que foram rendidas; já o marido é descrito como "líder do assalto". Nesta caracterização, o relato de Joana aproxima-se do de Luís, com uma atenção recorrente sendo dada à sua "calma" e à capacidade de "organizar" o assalto. Joana refere-se em vários momentos de sua entrevista a essa atuação de seu marido:

Que o Luís, tudo o Luís tomava a frente deles, falava, "'vocês não vão fazer isso, vocês não vão fazer isso com a minha mulher, porque nós vamos dar tudo certo, vocês não vão fazer isso com a minha sogra, fica tranqüilo, vocês vão rápido, que a gente vai fazer tudo pra nenhum dos vizinhos perceber nada, que nós tamos querendo que vocês resolvam tudo'", e acalmava eles (...)[...]

Porque o Luís fazia assim, um sinal, que queria falar, aí o cara tirou um pouco o negócio, aí ele falou, "olha, vocês façam isso, abram o portão, saiam", orientou como eles deviam fazer pra não chamar a atenção dos vizinhos. Pra eles terem sucesso porque a gente queria... né... sair dali. Então aconteceu assim, todo mundo, eu... eu fiquei em pânico mesmo, com o maior medo [...]

Há uma passagem de seu depoimento em que Joana descreve de forma particularmente vívida o contraste entre o descontrole geral das vítimas do assalto e a "calma" de Luís:

Agora, a minha mãe ficou completamente doida. Assim, ela não... 'ah, não façam isso, nós já demos tudo, que desarrumação, como é que nós vamos fazer na segunda-feira pra arrumar isso tudo, vocês tão... não façam isso com essas gravatas, são gravatas de muito boa qualidade'. Imagina... O cara lá pedindo não sei o quê, ela falava uns nomes, tá entendendo, quer dizer... completamente fora... assim, do ar, que ela ficou. E meu pai, ficou indignado de alguém entrar na casa dele. Ele não entendia como é que o ladrão não ia embora da casa logo. 'Ponha-se daqui pra fora', ficou muito revoltado. E mandando eles atirarem nele, e tudo, não sei o quê. O Luís foi o único que ficou mais controlado, porque eu acho que ele viu que não tinha jeito, que era ele... o Pedro ficou deitado imóvel... ele fez análise depois, falou com a gente, teve problema anos na vida por causa daquele dia, daquele assalto. Que passou um pânico mesmo...

A reação do pai é descrita no mesmo tom levemente jocoso de Luís em outra passagem de seu depoimento:

Porque meu pai (tom divertido), na hora que viu os assaltantes - ele era um senhor assim muito de outra época - ele arrebentou a camisa, [e] o homem falou, "fica quieto, seu velho, não sei que", ele era diabético, e ele pegou e rasgou a camisa, assim, e falou "Atira se você tem coragem. Ponha-se daqui pra fora da minha casa!". E o ladrão tava pouco ligando pra ele, então amarrou ele, e tal. Então, meu marido começou a dar bronca no meu pai, "fica quieto", "nós vamos fazer, nós vamos ajudar o senhor, nós vamos fazer tudo pra vocês irem embora logo, nós vamos dar tudo, mas vocês não façam nada com ninguém", parará, aquela coisa toda.

O amigo surge também em seu relato, do mesmo modo com ênfase em seu pânico:

[...] quando eles entraram, eles já viram o homem com uma arma na minha cabeça, chegou um outro, imobilizou o Pedro, que era uma pessoa que ficou com doença de pânico depois disso. Ele ficou com um problema, que ele não subia mais escada, não pegava elevador, só subia escada, ficou com um problema sério. E ele, quando foi amordaçado, foi uma coisa muito estranha, porque a mulher dele conversava com os assaltantes antes de ser amordaçada e ele, botaram um pano nele, não sei quê, e ele ficou o tempo todo de bruços de olho fechado, porque ele não olhava pra gente. Ele entrou num processo, coitado, ele ficou completamente... apavorado, em pânico, né, com aquele negócio.

O relato de Joana insere ainda outra personagem masculina, o copeiro, que tendo chegado durante o assalto, refugiou-se dentro do armário em seu quarto, tendo sido convencido a sair de lá por Luís:

Na hora que ele chegou nessa sala, que ele olhou pro vidro, ele deu de cara com um homem com uma arma do lado de fora. Aí, ele saiu correndo e desceu as es... aí ele saiu por essa sala toda e foi pro andar de baixo, onde tinha uma lavanderia e os quartos de empregada... e um salão. E ele entrou dentro do quarto dele, se trancou no quarto e se trancou dentro do armário, tá? Dentro do armário, entendeu? E aí esse assaltante que estava do lado de fora no jardim avisou aos outros, que - nós estávamos lá com três, lá em cima, conosco, - que tinha entrado uma outra pessoa na casa, gritou ali do hall, que dava... que tinha entrado uma outra pessoa e que tava presa lá embaixo, que tinham que resolver. Aí, nesse meio- tempo, também, o Luís uma hora foi desamarrado, que ele foi lá embaixo e falou com o Manoel. 'Manoel, não tem jeito. Sai daí, abre essa porta, porque eles vão arrebentar isso aí mesmo, e nós tamos todos presos.'. Inclusive a irmã dele, tava presa também, amordaçada, a cozinheira... .todo mundo preso lá em cima, junto com a gente, tudo no chão. 'Então, nós já perdemos, mesmo, você tem que sair daí, porque acabou pra gente, são os assaltantes, nós temos que ir embora, e tem que sair.'". Aí ele saiu, abriu a porta e subiu com meu marido e o assaltante [...] e também ficou preso em cima.

O "homem calmo", que não reage a agressões, dá ordens aos assaltantes e acalma os outros homens - o sogro ultrajado e o copeiro covarde - parece ser assim uma figura central no relato de Joana. Esta centralidade é ainda mais reforçada pelo relato de outro assalto em que estava em casa de amigos, junto com o filho, porém sem o marido. Neste segundo episódio, foi o marido da amiga quem fez o papel do "homem calmo" que organizava o assalto, dando-lhe tranquilidade:

[...] e eu vi que o [amigo] também era uma pessoa calma, o [amigo] é supercalmo, né, uma pessoa superboa, supercalmo, que sabe falar com as pessoas, e tudo... Ele agilizava tudo, ele deu bronca na [amiga], mandou a (amiga) calar a boca, [...] [ela] era amiga dele, casada com um amigo... então ele mandava ela calar a boca, sabe, mandou todo mundo ficar quieto... E aí eu fiquei tranquila, também, e o [filho] ficou quieto e eu fiquei preocupada com ele.

 

2.3 Uma calma obediente: terceiro relato

Como você descreveria, assim na hora, seu estado emocional?

Fiquei com muito medo. A tônica principal era o medo, eles conseguiram realmente, até por causa da presença da [filha] ali, eles... No meu caso eu fiquei aterrorizado. Eu fiquei aterrorizado. Eu fiquei imóvel, protegendo, segurando a [filha], botando ela aqui no...

Ela ficou no seu colo?

Ela ficou sentada do meu lado, mas com a cabeça aqui pra que ela nem olhasse pra cara deles, eles pediram pra não olhar também e tal, mas também não tavam fazendo muita questão, porque não tavam de máscara, nada disso. Então...

Qual era o seu temor maior?

Acho que o temor maior era morte mesmo. Uma morte traumática. Acho que era... O que eles poderiam fazer, assim, de violência, né? Achei que a gente fosse morrer ali, achei que a gente fosse morrer. Então, era uma possibilidade, mas... Acho que essa foi a maior sensação foi de estar aterrorizado, e de medo de algum tipo de violência, alguma coisa.

Guilherme é explícito ao dizer que seu sentimento, durante o assalto, era de "terror". Como nos demais relatos, sua filha faz o papel também da "figura da vulnerabilidade" que demanda proteção. Entretanto, o entrevistado não teme somente por ela, mas também por si mesmo: "achei que a gente fosse morrer".

O medo, contudo, é o único sentimento que Guilherme diz ter tido. Indagado sobre se teria tido raiva dos assaltantes, ele afirma que não, contrapondo a esta possibilidade emocional um "desejo de justiça":

Mas e raiva agora?

Não. Raiva, eu não tive raiva assim, não. Eu tive assim aquela vontade de ter justiça, entendeu? Esses caras têm que ser pegos! Eu não fiquei com raiva deles assim. Não cheguei a ter raiva, mas eu tive uma sensação assim de... De justiça, de querer justiça. Esses caras têm que ser pegos! Porque isso aí não é justo, eles estão fazendo coisas que poderiam ter tido como poderiam não ter tido. A gente queria que eles fossem pegos realmente.

O depoimento de Guilherme é o mais sucinto de todos. Já sua esposa, Ana, discorre longamente sobre esta experiência. Em sua narrativa, a filha aparece também como locus da vulnerabilidade em mais de uma passagem. O momento mais dramático é quando a menina oferece aos assaltantes os presentes de Páscoa que iria dar às suas professoras:

Aí, ela foi lá de novo, entregou pra eles, aí, esse chegou e passou a mão no cabelo dela, e falei: "é agora que ele vai levar!". Aí me deu desespero, aí nessa hora. Ah! Eles pararam o assalto quando eu comecei a chorar, porque me deu uma certa crise.

Foi nessa hora?

Foi. Um pouco antes eu comecei a chorar. Aí quando aconteceu isso, eu comecei a chorar. Aí que eu comecei a chorar mais ainda, mas sem dizer o motivo, que eu tava com medo de que eles levassem ela.

Essa "crise", contudo, não a impede de dar orientações aos assaltantes. O depoimento acima prossegue com a entrevistada contando o que disse aos assaltantes quando eles se preparavam para sair: "Olha! Vocês não vão por esse elevador, não!". O prédio é antigo, né? O elevador aguenta pouco peso, não aguenta muito peso, não. "Vocês com essas malas todas, é melhor vocês descerem pela escada".

Esta passagem resume bem a descrição de si mesma feita pela entrevistada: uma mulher calma que, apesar das ameaças dos assaltantes de matar sua filha, contraria sua natureza e obedece aos assaltantes, procurando lembrar-se de todos os bens que podem interessar a eles, pedindo instruções ao fim do assalto e, como no trecho já citado, orientando-os quanto à melhor maneira de deixar o prédio. Mas essa "calma" não é algo que substitui o medo: ao contrário, essa calma sobrepõe-se ao medo, também presente e explicitado por diversas vezes ao longo do depoimento. Duas passagens:

Mas a sensação de uma pré-morte, digamos assim, é uma coisa muito amedrontadora, mas eu, graças a Deus, eu consegui manter a calma, ficar ali duro e firme e garantir a eles eu que não havia dinheiro em dólar ali, e não tinha mais joias, as joias que tinha eram aquelas. Eles ficaram satisfeitos lá com os relógios, com outras coisas que eles levaram e... Pronto!

Eu estabeleci, consegui manter um contato muito bom com o que ficou comigo - era o único que tapava a cara - tapava a cara e dizia pra eu não olhar pra ele. Eu não olhava, eu obedecia piamente a tudo o que ele fazia e me deu na hora uma calma que não é minha, eu não sou uma pessoa calma, mas na hora, por muito medo da [filha], da reação da [filha], eu tentei transmitir a maior calma possível [...]

Nesta construção de si, o retrato do marido funciona como um "contraponto". Na sua descrição, ele teria ficado "mudo", razão pela qual ela teria sido "eleita" pelos assaltantes para mostrar onde seus bens estavam. A entrevistada aponta como razão para ter ficado calma o pavor do marido, conforme fica evidente na sequência do depoimento acima: "eu tentei transmitir a maior calma possível, até porque o Guilherme temia. Guilherme é muito grande, sentado num sofá que a gente tinha na época que era baixo, as pernas dele faziam assim".

O medo do marido surge várias vezes ao longo de seu relato, parecendo suscitar nela certa compaixão por sua vulnerabilidade, expressa três vezes com o recurso à expressão "coitado" para se referir à perda de suas medalhas esportivas ("mas no cofre que ele guardava, coitadinho, as medalhas dele"), ou ao seu mutismo diante dos berros dos assaltantes ("e o coitado do Guilherme tava mudo o tempo todo"). Sua caracterização como mais vulnerável do que ela aparece ainda na decisão de não voltarem ao apartamento: "o Guilherme, principalmente, tomou pavor, não queria voltar no apartamento de jeito nenhum".

 

2.4 Masculino, feminino e formas do (des)controle: medo, raiva e calma7

Esta "edição" dos relatos faz saltar aos olhos uma recorrência fundamental: em sua vivência das experiências de vitimização, os três casais fazem uma "divisão sexual do trabalho emocional" em que a um cabe se controlar e conduzir a situação com calma, protegendo todos, e ao outro compete o lugar da "vulnerabilidade", seja por uma condição de gênero, seja por uma condição etária ou emocional.

Este, contudo, é apenas o traço geral mais marcante; as formas de vivenciar essa "divisão sexual" do trabalho de vitimização apresentam nuances que apontam para a importância do cruzamento gênero/idade-geração para a sua compreensão.8 Nos dois primeiros casais, é o homem quem exibe autocontrole, "organizando" o assalto, com a mulher desempenhando o papel da personagem medrosa cuja fragilidade exige proteção; já no terceiro casal, esta distribuição aparece invertida, com a mulher assumindo o controle da situação para proteger marido e filha.

Mesmo entre os dois homens que fazem o papel do "calmo" há, contudo, diferenças relevantes. No caso de Rafael, a calma surge como capacidade de controle da raiva e do desejo de reagir. Sua contenção se dá em prol da integridade da esposa, da caseira, da filha, da sobrinha, das crianças, representadas como carentes de proteção. Rafael é o único que fala do desejo de reagir, de sua tentativa de telefonar para a filha às escondidas. Em sua narrativa, não há qualquer condenação deste desejo ou desta iniciativa, com a avaliação "objetiva" da possibilidade de sucesso sendo o critério preponderante na definição de sua atuação. Reagir, no entanto, parece ser em sua visão uma prerrogativa masculina, inerente a uma condição generificada, conforme sugere sua suposição de que outro homem compreenderia tacitamente uma iniciativa de reação e a ele se juntaria.

A "reação", no caso de Rafael, parece surgir na forma de "ordens" dadas aos assaltantes em tom peremptório, conforme apontei acima ao comentar o modo como "dramatiza" os diálogos narrados entre ele e os assaltantes e o relato de suas intervenções (por exemplo, quando conta não ter permitido que abrissem a porta do quarto em que sua esposa dormia). Esta "organização" do assalto está presente também na descrição de si feita por Luís, embora com um tom bastante distinto.

Luís não dá "ordens" aos assaltantes: ele conversa, negocia, orienta. Sua calma não é descrita como decorrente do controle de suas emoções, mas sim como resultado de uma avaliação racional e objetiva da situação, que teria tornado evidente a inutilidade de qualquer tentativa de reagir: os assaltantes estavam em maior número, ele estava distante de suas armas. Sua atitude foi "tentar enxergar o assalto como uma ação prática": em seu relato, não há considerações sobre eventuais sentimentos de raiva ou medo. Até mesmo o tapa desferido por um assaltante não suscita nele qualquer referência a estados emocionais: sua reação ao tapa é pedir calma ao assaltante.

A possibilidade de reagir é aventada por Luís como da ordem da fantasia, como no trecho citado acima em que comenta que, se tivesse tido a oportunidade de se imaginar em uma situação como essa, teria fantasiado uma atitude "heroica", a qual, contudo, não teve qualquer vontade de adotar na hora. Se para Rafael "reagir" é uma possibilidade vetada apenas em função de uma avaliação das circunstâncias, para Luís está fora de cogitação, não havendo em sua ação qualquer necessidade de "controlar-se" no plano emocional. Nem raiva, nem medo, nem humilhação: somente uma avaliação racional da situação. Atitudes masculinas como aquelas de Rafael - telefonemas às escondidas, cumplicidades imaginadas com outros homens - parecem fazer parte de uma concepção ultrapassada de masculinidade que beira o risível: Rafael (talvez não por acaso um homem da geração anterior à sua) seria o equivalente, em sua "estrutura narrativa", ao sogro, cujo senso de ultraje é desqualificado em sua narrativa como ineficaz e até mesmo perigoso.

No relato de Luís, a personagem do "herói calmo" tem dois contrapontos. O primeiro é este homem, meio ridículo, meio démodé, que reage com uma coragem quase caricata (seu sogro). O segundo é outro homem, também "descontrolado", cujo desequilíbrio aponta na direção oposta: o pânico que paralisa e que impede qualquer ação no sentido de "organizar" a situação para conduzi-la a um happy end, entendido como a evitação de qualquer agressão ou dano físico às vítimas, ainda que à custa de um despojamento material. Em seu relato, este homem é seu amigo Pedro, cuja reação se aproxima daquela de nosso terceiro entrevistado.

Guilherme é, entre os três homens, o único que explicita ter sentido medo em causa própria. Em seu relato, sua filha aparece como a personagem vulnerável que necessita de sua proteção (em padrão semelhante àquele encontrado nos demais relatos masculinos); a experiência de Guilherme, contudo, é de terror, um terror que o paralisa e não lhe deixa qualquer curso de ação além daquele de procurar proteger a filha evitando que ela olhe para os assaltantes. O medo, aqui, parece substituir a raiva; ao contrário de Rafael, ele diz não sentir raiva dos assaltantes. Em lugar disso, teria apenas um "desejo de justiça", naquele processo tipicamente masculino, já comentado anteriormente, de discorrer sobre uma situação de forma distanciada, sem envolvimento emocional.

Podemos assim identificar entre estes três homens de gerações distintas um continuum que tem início com um controle traduzido sob a forma de contenção de sentimentos, como a raiva e a humilhação (Rafael); passa por um controle internalizado, em que o sujeito é só avaliação racional, sem raiva, medo ou qualquer outro sentimento (Luís); e chega a um (des)controle expresso na forma de uma paralisia provocada pelo terror (Guilherme).

Ben-Ari (1998), em uma etnografia sobre uma unidade militar israelense, discute duas formas de descontrole temidas pelos militares: o descontrole pelo excesso em situação de contato com civis (agressões e violências "desmedidas") e o descontrole pela paralisia em situação de combate (a incapacidade de reagir e lutar). O descontrole de Guilherme parece ser análogo a esta segunda forma, nos permitindo assim colocar em questão a existência de uma relação necessária entre descontrole e excesso, apontando para a possibilidade de "descontrolar-se" de uma maneira que diz respeito não a atitudes ou reações específicas, mas sim a não conseguir o desempenho esperado/desejado.

As três mulheres, contudo, têm medo. Independentemente da geração, as três falam abertamente do medo que sentiram, recorrendo sem maior pudor a expressões tais como "pavor", "pânico", "nervosismo" ou "desespero", todas elas remetendo ao reconhecimento de uma situação de vulnerabilidade. Nenhuma delas sequer aventa qualquer possibilidade de reagir; ao contrário, perceber em alguém essa intenção é motivo para mais medo (a reação de Magnólia ao "olhar faiscante" de Rafael) ou de jocosidade (a reação de Joana ao ultraje de seu pai).

As duas primeiras falam basicamente deste sentimento de medo. Embora em seus relatos surjam também eventualmente aquelas "figuras de vulnerabilidade" - em geral crianças a quem devem proteger - nem Magnólia nem Joana dão ordens ou instruções aos assaltantes. A marca de sua participação nessas experiências de assalto é a passividade.

Entretanto, mesmo a "calma" de Ana e sua atuação como "organizadora" do assalto não são a assunção do papel masculino desempenhado por Rafael e Luís. Há quatro diferenças fundamentais, que introduzem uma dimensão de passividade nesta aparente "liderança" feminina.

Em primeiro lugar, Ana diz ter desempenhado esse papel por decisão dos assaltantes, e não por vontade própria: eles a "elegeram". Em segundo lugar, este não seria seu papel "natural" e "espontâneo": ela o fez em decorrência do mutismo e do pavor do marido ("eu não sou uma pessoa calma, mas na hora, por muito medo da [filha] [...], eu tentei transmitir a maior calma possível até porque o Guilherme temia."). Ou seja: caberia a Guilherme proteger a filha e ficar calmo, mas, diante da impossibilidade do marido em desempenhar este papel, ela o assumiu por designação dos assaltantes.

Em terceiro lugar - e aqui reside a maior diferença entre esta "liderança" feminina e o exercício de dominação realizado por Rafael e Luís - Ana diz ter "tomado muita bronca" e "obedecer piamente" aos assaltantes. Rafael e Luís organizam o assalto dando ordens aos assaltantes, e é assim que tudo transcorre "bem"; Ana realiza o mesmo papel obedecendo às ordens dos assaltantes.

A quarta e última diferença diz respeito ao tipo de autocontrole exercido por Ana para poder desempenhar este papel. Ana fala, sem maiores constrangimentos, até com certa jocosidade, ter sido repreendida pelos assaltantes e tê-los obedecido; as atitudes mais próximas de uma "reação" são uma "mentira" (quanto ao modelo de seu computador) e uma súplica aos prantos, ambas provocadas pelo desejo de preservar um trabalho que estava em seu computador. Não há qualquer menção à raiva ou a desejos de reação. Se em Rafael os sentimentos contidos são a raiva e a humilhação e em Luís não há qualquer esforço emocional, esta atuação exige de Ana o controle do medo: trata-se aqui de controlar a paralisia provocada por uma percepção de si como sujeita a agressões, e não, como no controle da raiva, de conter uma percepção de si como sujeito de agressões.

 

Conclusão

Em texto publicado na segunda metade dos anos 1980, Velho (1987) apontou para a existência de uma mudança em curso, na cidade do Rio de Janeiro, nas atitudes prescritas como "ideais" para os homens em situação de vitimização. Esta mudança dizia respeito a uma substituição do modelo tradicional que prescrevia como valor supremo a "defesa da honra" (exigindo uma reação sob pena de acusações de "covardia") por uma "ideologia da sobrevivência" (na qual a vida é o valor maior, sua preservação legitimando a submissão ao agressor).

Em sua reflexão, Velho sugere a hipótese de que o Rio de Janeiro estaria vivendo um momento de transição, em que códigos conflitantes estariam coexistindo, tornando "gramaticais" tanto as reações quanto as submissões: na base desta fragmentação, haveria "representações e orientações diferenciadas sobre o significado do indivíduo" (1987:2). Velho refere-se à noção de "desmapeamento", proposta por Figueira (1981) para designar justamente esta convivência de códigos contraditórios na experiência individual, apontando para um traço essencial desta forma de fazer antropologia urbana: a atenção para as mudanças de curto prazo, com foco nas articulações entre ideários compartilhados - ideologias, ethos e visões de mundo - e subjetividade individual.

O quadro aqui desenhado da relação entre gênero e experiência de vitimização parece inserir-se nesta tendência apontada por Velho. A experiência emocional de Rafael seria aquela do homem "à moda antiga", regido pela honra como valor supremo, sentindo raiva e humilhação, desejando reagir e contendo-se em rendição à sua avaliação do que acontecia, motivado pela proteção às mulheres e crianças; já Luís é o homem da "ideologia da sobrevivência", para quem o controle começa internamente, sem sentimentos de raiva ou humilhação por estar sendo submetido pelos agressores.

Em nosso quadro, contudo, pouco mais de 20 anos depois deste "diagnóstico" proposto por Velho das transformações em curso, surge um novo tipo de homem: Guilherme, um homem capaz de se descrever como paralisado pelo medo, sendo defendido por sua esposa, sem aparentar qualquer sentimento de vergonha ou ser alvo da parte dela de qualquer crítica. A contrapartida desta nova figura masculina é a emergência de uma mulher capaz de estar à frente na relação com os agressores, enquanto o marido, aterrorizado e mudo, protege a filha.

Não se trata, contudo, de uma inversão plena. Esta "liderança" feminina é eivada de traços do modelo feminino tradicional, associado a uma vivência passiva da vitimização. Ela é escolhida pelos assaltantes para desempenhar este papel em decorrência da paralisia de seu marido, e obedece às suas ordens. E seu trabalho emocional, ao contrário daquele feito pelo "homem tradicional", não é o controle da raiva, mas sim o controle do medo.

Diversos autores, em estudos devotados à raiva ou ao medo, mostram o modo como estes sentimentos entrelaçam-se na experiência individual, não por acaso compartilhando a referência a Freud em sua visão da natureza da civilização como uma busca de apaziguamento entre a necessidade do outro (gerada pelo desamparo fundamental da condição humana) e a agressividade em relação ao outro (gerada pelo princípio do prazer). Este entrelaçamento pode ser encontrado na análise de Delumeau (1989) sobre o medo, entendido como intrínseco à natureza humana embora histórica e culturalmente variável; ou na obra de Elias (1993) sobre o processo civilizador, em que o medo é visto como um potencial humano historicamente configurado; ou ainda no exame de Gay (1995) sobre a dinâmica medo-agressividade na experiência dos estudantes alemães no duelo conhecido como Mensur, em que o medo de não demonstrar coragem através da agressão ao outro engendra formidáveis dramas.

A partir de uma perspectiva interacionista, Katz (1988) discute uma dinâmica emocional que faz com que autores de homicídios passem de um sentimento de humilhação para um sentimento de raiva que os conduz à agressão, naquele momento entendida como único gesto capaz de salvaguardar uma identidade percebida como ameaçada pelas atitudes da vítima. Este conjunto de ideias, se tomado como pano de fundo para o exame dessas atitudes masculinas e femininas diante da vitimização, sugere que o autocontrole, quando o sentimento em questão é o medo, fala de uma percepção de si como pessoa vulnerável e desamparada, sujeita a agressões; já o controle de si, quando o sentimento em pauta é a raiva, fala de uma percepção de si como indivíduo perigoso e potente, um agressor em potencial.

Uma mulher que controla a situação contendo o medo mescla assim um traço fundamental da representação ocidental do feminino como lugar da vulnerabilidade (que lhe reserva a posição preferencial de vítima na eclosão da violência9) com um aspecto tradicionalmente associado ao masculino como espaço da dominação. Por sua vez, um homem que controla a situação contendo a raiva faz o movimento inverso, realizando, nesta subordinação estratégica ao outro, uma conciliação paradoxal entre submissão e controle. Postos lado a lado, coexistindo em um ambiente fragmentado e perpassado por tensões de toda sorte, esses homens e mulheres nos mostram a natureza filigranada dessas representações do feminino e do masculino em sua relação com a experiência da vitimização em situações de violência urbana, evidenciando ao mesmo tempo a relevância analítica da atenção para as emoções nos estudos sobre percepções da violência.

 

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Recebido: 7/01/2012
Aceito para publicação: 19/03/2012

 

 

1 Este artigo traz resultados do projeto intitulado "Moral, Alteridade e Sentimentos: percepções da violência", desenvolvido no âmbito do PROCIÊNCIA da UERJ. Uma primeira versão foi apresentada na VIII Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), Buenos Aires, Argentina, em setembro de 2009.
2 Há duas outras entrevistas realizadas para este projeto com duas mulheres que vivenciaram, também em companhia de seus maridos, assaltos às suas residências. Entretanto, como seus maridos não aceitaram dar entrevistas, seus depoimentos não são aqui utilizados em função do desenho adotado neste trabalho, que procede através da comparação entre as percepções de cada membro dos casais entrevistados.
3 Para um mapeamento do campo da antropologia das emoções, ver Coelho e Rezende (2011).
4 Os nomes dos entrevistados, como de praxe, são fictícios.
5 Por escolha dos entrevistados, a entrevista foi concedida conjuntamente pelo casal.
6 Em outro trabalho, comentei essa forma distanciada de narrar esse tipo de experiência como um atributo do masculino. Rezende (2004), em artigo sobre a experiência de intelectuais brasileiros no exterior, comenta também sobre essas marcas de gênero na forma de narrar.
7 Em outro trabalho realizado a partir de um conjunto distinto de entrevistas, abordamos a dinâmica medo-calma em relação com o gênero (Coelho & Santos, 2007).
8 Considero a idade dos entrevistados no momento de realização da entrevista, por entender que esse processo de construção de si aqui discutido é relativo ao relato, e não ao acontecimento narrado.
9 Para comentários e problematizações recentes sobre a associação entre o feminino e a vitimização, ver Sento-Sé (2009), Silveira (2009), Soares (2009), Coelho (2009) e Sarti (2009).