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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.10 Rio de Janeiro Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-64872012000400008 

RESENHAS

 

 

Jorge Leite Jr

Professor do Departamento de Sociologia da UFSCar - São Carlos, SP, Brasil > jcabelo@uol.com.br

 

 

DUQUE, Tiago. 2011. Montagens e desmontagens - desejo, estigma e vergonha entre travestis adolescentes. São Paulo: Annablume.

Ao estudar pessoas que transitam entre os gêneros, mais especificamente travestis, transexuais e drags, um dilema se apresenta a quem escreve sobre este tema: como falar sobre mudanças em corpos, gêneros e uma infinidade de outros marcadores sociais de diferenças se a própria escrita já é uma maneira datada de engessar aquilo que tem como característica principal a fluidez? Estranho paradoxo o da ciência em geral e o das pesquisas sobre as vivências trans em particular: encontrar o constante no território do transitório, analisar aquilo que "é", ainda que momentaneamente, dentro do universo do "vir a ser".

Pois é justamente neste delicado campo que reside a originalidade do livro de Tiago Duque: Montagens e desmontagens - desejo, estigma e vergonha entre travestis adolescentes, recém-publicado pela editora Annablume. O autor, doutorando em ciências sociais, educador e militante dos direitos humanos, através de sua aguçada percepção, adquirida em muitos anos de amizade e trabalho com a população estudada, consegue apresentar ao leitor um dos elementos mais importantes (e difíceis de captar) nas pesquisas sobre travestis feitas no Brasil: as transformações que estão ocorrendo neste grupo e que podem apontar para uma mudança maior na vivência da travestilidade.

Para isso, Duque não trabalha com a ideia de um ser "travesti" em geral, mas concentra sua pesquisa entre as travestis adolescentes da cidade de Campinas. E aqui já encontramos um exemplo dos objetivos do autor, fortemente influenciado pela teoria queer: a desnaturalização não apenas dos conceitos de gênero, sexo e raça, mas também da própria ideia de adolescência, tantas vezes tomada como um elemento "natural" e um fato "biológico". Assim, vemos como os corpos de muit@s d@s menin@s entram em conflito com os rígidos padrões que organizam desde o visual e os comportamentos esperados - e cobrados - para homens e mulheres, aos documentos oficiais que determinam com que idade começa e acaba a adolescência. Este embate fica claro no livro, exemplificado por algumas das pessoas entrevistadas que foram abrigadas em instituições que visam à proteção de jovens em situações de perigo ou vulnerabilidade. Nestes ambientes, sem uma clara separação entre a Igreja e o Estado, e submetidas às regras de ambos, elas aprendem cedo o quanto estar abrigada é próximo de ser obrigada.

A lógica da institucionalização parece ser a grande marca desta geração que aprendeu, desde que nasceu, a conviver com ONGs, políticas públicas e programas privados de cuidados e prevenção em relação às DSTs/ Aids, que sempre fizeram questão de ressaltar para certas pessoas que elas fazem parte da população "vulnerável", enquanto outras não.

Trabalhando essas conexões e ressignificações entre instituições de acolhimento, família e o universo do trabalho e da sobrevivência cotidiana, Tiago Duque desenvolve um dos mais criativos e importantes conceitos de seu livro: a noção de "montagem estratégica". Nesta recente maneira de vivenciar a travestilidade, a fluidez entre o masculino e o feminino, a racionalidade e o desejo, o "ser travesti" e o "fazer a linha travesti", a montagem - ou seja, colocar roupas, cabelos e adereços femininos, adotando os jeitos e os trejeitos esperados de uma mulher "de verdade" - não pressupõe uma mudança física definitiva, mas pontual, localizada e, mais importante, muito bem pensada. E é de fato nesta montagem que reside um dos contrastes e os possíveis conflitos com as travestis mais velhas: no uso moderado possivelmente reversível de modificações corporais.

Como o tornar-se travesti é encarado como uma oportunidade e não um destino, e a possibilidade de reverter a feminilidade está sempre presente, o uso constante de hormônios, a colocação de próteses para os seios e a aplicação de silicone industrial são atitudes adiadas ao máximo. Desta forma, a passagem difusa entre "homem" e "mulher", "gay" e "travesti", "garota de programa" e "michê" ressalta o quanto estas categorias são um devir sem modelo final, não um ponto de chegada ou partida. Estratégica então não é tanto a montagem em si mas, principalmente, a maneira criativa de lidar com a vergonha e o estigma com que as pessoas que transitam entre os gêneros têm de conviver desde muito cedo.

Trabalhando com alguns/algumas d@s principais autor@s desta temática no Brasil, como Larissa Pelúcio, Berenice Bento, Marcos Benedetti e Don Kulick, Duque também se apropria de intelectuais clássicos e recentes, como Goffman, Deleuze, Butler, Ochoa e Miskolci, para dar conta dessas mudanças através, em especial, da Teoria Queer. Vemos então uma competente análise de como gêneros, raça/cor e classe se confundem, interagem e geram dinâmicas próprias de distinção e mobilidade, conforme o divertido e sensível exemplo da travesti que, ao mudar a cor dos cabelos, também muda sua classificação de cor de pele.

Outras importantes transformações são captadas neste trabalho: a diminuição da influência das religiões de matriz afro-brasileira na vivência das travestis e o aumento daquelas que possuem relações diretas ou indiretas com religiões cristãs. Além de reforçar os já conhecidos dados sobre o crescimento destas últimas, em especial as neopentecostais, isto aponta também para um possível fenômeno novo: o aumento do respeito e da tolerância destas vertentes religiosas para com a diversidade sexual e de gênero, não apenas entre as chamadas "igrejas inclusivas".

Assim também, a relação dessas travestis adolescentes com suas famílias parece estar sofrendo uma pequena alteração: algumas das entrevistadas pelo autor, apesar dos corriqueiros conflitos com pais e outros parentes próximos, não são expulsas de casa ou encontram no abandono do lar a única saída para viverem sua travestilidade, buscando um ambiente menos claustrofóbico. Mesmo com o fantasma do desprezo e da agressão rondando essas vidas e habitando dentro de seus lares, a relação familiar também pode se tornar estratégica, seja por não se apresentarem "como mulher" dentro de casa, seja por contribuírem com seu dinheiro para o sustento da família (este, sim, um dado antigo neste grupo).

E aqui podemos encontrar um ponto de interseção com o que parece ser uma constante no universo das travestis brasileiras: o trabalho na prostituição. Apesar de Duque perceber que a prostituição não é mais a única fonte de renda, oportunidade de trabalho e fonte de referência de feminilidade para essas adolescentes travestis, principalmente por se montarem apenas em lugares e períodos específicos, ela ainda aparece como pano de fundo e saída de emergência na vida de grande parte dessas pessoas.

Da mesma forma, outro sinistro elemento continua assombrando de maneira persistente esse universo: a violência, não apenas simbólica mas, em especial, física. Assassinatos, suicídios e "acidentes" fatais ainda são, de forma trágica, parte do cotidiano dessas pessoas, sendo inclusive a "montagem estratégica" uma maneira de tentar escapar de tais situações. É impressionante como a imensa maioria d@s pesquisador@s deste tema já conheceu alguma travesti que morreu de forma violenta. E, infelizmente, o trabalho de Tiago Duque não é uma exceção. Mesmo sem desenvolver esta temática, a violência está presente neste trabalho, seja nas entrevistas, seja nos relatos de campo do próprio autor, que logo no início do livro nos apresenta uma jovem "finada". Poderíamos dizer: uma jovem que bem cedo (na vida e no livro) foi finalizada.

Apesar desta amarga constatação, a leitura deste trabalho nos deixa otimistas e esperançosos. Com todo o rigor conceitual e científico com que o autor faz suas análises, este trabalho ressalta a potência criativa dos desejos indomáveis, dos corpos nunca definitivos, das transformações planejadas. Nas entrelinhas das mudanças analisadas por Duque, uma boa nova parece se apresentar: as recentes gerações de travestis prometem criativas estratégias de enfrentamento ao estigma, à vergonha e à violência, sem estagnar o fluxo dos desejos. Pois, conforme o autor, "Talvez seja na percepção não racional de que se pode fugir dos acasos que a montagem estratégica surja na experiência das novas travestilidades" (Duque, 2011:108). Com sua refinada análise e seu importante e criativo conceito de "montagem estratégica", este livro já surge como uma significativa referência destes estudos e merece ser lido por tod@s @s pesquisador@s das temáticas de sexualidade e gênero.