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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.14 Rio de Janeiro Aug. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-64872013000200002 

ARTIGOS

 

"Frango com frango é coisa de paulista": erotismo, deslocamentos e homossexualidade entre Recife e São Paulo1

 

"Frango com frango é coisa de paulista": erotismo, desplazamientos y homosexualidad entre Recife y São Paulo

 

"Frango com frango é coisa de paulista": eroticism, movement and homosexuality in Recife and São Paulo

 

 

Isadora Lins França

Doutora em Ciências Sociais, Pesquisadora de pós-doutorado do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp. Campinas, Brasil. isa.linsf@gmail.com

 

 


RESUMO

Neste artigo, desenvolvo uma reflexão explorando possíveis articulações entre trânsitos, itinerários, homossexualidade masculina, desejo e marcadores sociais da diferença. Analiso a produção discursiva de sentidos de lugar relacionados ao Recife e a São Paulo a partir de pesquisa etnográfica com homens que se relacionam afetivo-sexualmente com outros homens nas duas cidades – e transitam entre elas – buscando compreender como nesse processo articulam-se convenções de gênero e sexualidade, noções de brasilidade e regionalidade e sistemas de classificação relacionados à homossexualidade. Ao mesmo tempo, tematizo tensões envolvendo relações em que a diferença – de classe social, cor/raça, geração, gênero, regionalidade e sexualidade – atua como motor do desejo entre esses homens, compondo roteiros que mesclam trocas afetivas, sexuais e materiais de variadas ordens, e em que certa dose de risco parece estar implicada.

Palavras-chave: espaço; lugar; gênero; sexualidade; erotismo


RESUMEN

Este artículo desarrolla una reflexión que explora posibles articulaciones entre tránsitos, itinerarios, homosexualidad masculina, deseo y marcadores sociales de la diferencia. Se analiza la producción discursiva de sentidos de lugar relacionados a Recife y a São Paulo, a partir de una investigación etnográfica con hombres que se relacionan afectivo-sexualmente con otros hombres en ambas ciudades –y que transitan en ellas–. Se busca comprender cómo se articulan en ese proceso convenciones de género y sexualidad, nociones de brasilidad y regionalidad, y sistemas de clasificación relacionados a la homosexualidad. Asimismo, se abordan tensiones que involucran relaciones en las que la diferencia –de clase social, color/ raza, generación, género, regionalidad y sexualidad– actúa como motor del deseo entre estos hombres, delineando guiones que combinan intercambios afectivos, sexuales, materiales de variada índole, y en los que parece haber una cierta dosis de riesgo.

Palabras clave: espacio; lugar; género; sexualidad; erotismo


ABSTRACT

This article explores possible articulations among territorial transits, itineraries, homosexuality, desire, and social markers of difference. It addresses the discursive production of a sense of place in the cities of Recife and São Paulo, based on ethnographic research with men who have loving and sexual relations with other men in both cities. The issues explored include: how the men articulate gender and sexuality conventions, notions of Brazilianness, of regionality, and systems of classifications of homosexuality. Class, race, generation, gender, region, and sexual differences, as well as their relation to desire, are explored in situations involving affect, sexual and material exchanges, often implicating a dose of risk.

Keywords: space; place; gender; sexuality; eroticism


 

 

O Recife é a cidade mais libidinosa do Brasil. O Recife é a última cidade do mundo que tem malícia. Aqui tudo acontece com malícia.2 Ouvi estas duas frases de dois homens com quem conversei durante minha estadia no Recife.3 O primeiro passava temporada de alguns meses na cidade, a trabalho, e residia em São Paulo. Nós nos encontramos numa boate famosa – e estigmatizada – por tocar brega e pelo seu perfil popular no Recife, também referida por outros meus interlocutores paulistanos. O segundo era um belga radicado há pelo menos três décadas na cidade do Recife, para onde foi pela primeira vez a turismo. Hoje, é proprietário de um restaurante, que serviu de cenário para nossa conversa, e que se situa num bairro de classe alta. Embora o primeiro tivesse cerca de 30 anos e o segundo já estivesse perto dos 60, curiosamente suas falas encontram-se ao conferir à cidade sentidos relacionados à malícia, ao libidinoso.

Se, no entanto, suas falas parecem descrever um lugar, melhor seria afirmar que são performativas: ao proferir um enunciado, provocam um efeito de atualizar convenções sobre a cidade e, em certa medida, materializá-las.4 Ao mesmo tempo, não se trata de enunciado "solto no espaço", mas parte da construção de uma narrativa sobre Recife, sobre regionalidade e sobre uma ideia de nação. Este trabalho traz uma análise, a partir de notas etnográficas,5 de como se podem articular sentidos de lugar, deslocamento espacial, sistemas de classificação, homossexualidade e erotismo.

A relação entre a produção de lugares – a atribuição de sentidos aos espaços – e as pessoas que por eles transitam é de constituição mútua: ao mesmo tempo em que se produzem diferença e desigualdade a partir desses trânsitos e de diferentes posições de sujeito, também se produz sentidos de lugar.6 Tais deslocamentos envolvem simultaneamente fantasias e convenções em relação ao "outro", expectativas reais e também imaginadas em relação a diferentes lugares (Kaplan, 2005). Os códigos envolvendo cidades e espaços são variados e complexos, porém é razoável pensar que a sexualidade e o erotismo compõem os sentidos adquiridos pelos espaços urbanos (Knopp, 1995), envolvendo ainda moralidades, práticas e sujeitos mais ou menos visíveis nesses espaços.7

No caso de Recife, não me parece que seja possível desconsiderar que já nasce na confluência de trocas e disputas coloniais. De acordo com Leite, bastante apoiado nos escritos de Gilberto Freyre, a partir da dominação holandesa,

a intensificação das atividades ligadas à prostituição, no contexto da permanência das atividades comerciais relacionadas à importação e exportação do porto, reforça a ideia de que o povoado foi, de fato, tornando-se uma área de troca, predominantemente de açúcar e de corpos: para o lazer, as prostitutas; para o trabalho cativo, os escravos (Leite, 2000:107).8

Não seria de estranhar que a combinação entre trânsito comercial intenso, densidade de gente circulando e hierarquias e desigualdades envolvendo raça/cor e gênero, pelo menos, envolvesse também sexualidade como vetor.9 Por outro lado, seria ingenuidade crer que narrativas como as de Freyre, que chega a mencionar uma "Sodoma de judeus e mulatas" (Freyre apud Leite, 2007:107) para se referir ao Recife do período colonial, não tenham desempenhado também um papel na construção das marcas simbólicas da cidade ou mesmo de uma ideia de nação que tem na sexualidade um forte componente. Eventualmente, podem também sugerir algo da leitura sobre a malícia da cidade ou de seu caráter libidinoso, aos quais se referiam meus interlocutores, considerando que a partir de narrativas atuais percebidas em campo são citados e deslocados sentidos de lugar historicamente sedimentados.

Um nome mencionado algumas vezes por meus interlocutores inseridos no meio intelectual da cidade foi o de Túlio Carella, dramaturgo e escritor argentino, que passou uma temporada no Recife na década de 1960 a convite da Universidade Federal de Pernambuco. Carella erra pela cidade, numa espécie de deriva, em que se engaja em trocas com outros homens que, percebendo sua classe social, cor/ raça e procedência, além do seu gestual mais delicado – ou talvez denotando outra origem social – o abordam constantemente.10 Não se pode desvincular o espaço urbano do percurso pleno de voyeurismo, de contatos furtivos e de trocas sutis na narrativa de Carella: nosso estrangeiro no Recife envolve-se numa prazerosa deriva, movendo-se entre galerias, o cais de Santa Rita, o banheiro público do Mercado de São José e as ruas da Boa Vista. A seguir, o autor descreve a atmosfera do Recife como "intoxicante" num sentido erótico, marcando a instabilidade em relação a gênero e identidade sexual e o componente racial de suas relações:

Eu estou perturbado, não sei se por causa do moço ou pela conversa sensual. Vejo-me, cada vez mais, envolvido em compromissos que não procuro, que talvez procure, e não quero aceitá-los, talvez querendo. Na atmosfera do Recife respira-se sexo puro e eu estou me intoxicando. Mas não posso perder tempo sentindo-me culpado; é preciso viver. De repente, vejo que sei muito menos acerca dos homens do que supunha. Nada é como parece; ninguém é o que parece ser. Esses morenos se sentem orgulhosos por darem aos brancos o que têm de melhor. O melhor: seu pênis (Carella, 2011:155).

Por algumas vezes ouvi referências aos escritos de Carella durante a pesquisa, fosse para evocar uma narrativa erótica da cidade ou a relação entre gays – ou frangos, categoria êmica que pode assumir um tom pejorativo – e boys ou cafuçus – rapazes que não se identificam como gays ou frangos e que se envolvem em trocas sexuais com outros homens.

Estamos aqui tratando de convenções que de certa maneira produzem um olhar exotizante, articulado com conteúdos relacionados a uma sexualidade "tropical", "exuberante", muitas vezes atribuída a cidades litorâneas do nordeste do país ou ao Rio de Janeiro, por exemplo.11 Não se trata, portanto, de uma descrição de fato da cidade, não sendo compartilhada por parte importante das pessoas que ali conheci. Trata-se, antes, de um olhar "estrangeiro", constituído certamente em articulação local – e que traz em si também profundos deslocamentos subjetivos na medida em que o autor se depara com possibilidades outras de vivência erótica, diferentes daquelas em que se engajara até o momento – e que provê referências para que uma parcela dos homens que gostam de outros homens produza interpretações sempre situadas das suas experiências e dos contextos em que se dão.

Essa "atmosfera sexual", como define Carella, se manifestaria forçosamente de modo dissimulado entre homens, e o acesso a ela dependeria do manejo de códigos e de uma comunicação no limite da ambiguidade, o que talvez pudesse ser qualificado a partir da categoria malícia, definida por Jean Paul da seguinte maneira:

O bofe daqui gosta de paquerar e de ser paquerado, o homem com H não é fiel, mas a mulher é. Olha o exemplo: estava no mercado, chegou um boy que era segurança, tirou onda com a menina do caixa, ele riu, ela riu e eu ri também. Ele viu que eu estava tarando ele. Ele fez outra brincadeira, eu ri, ele saiu, olhou para trás, dei um sorriso, ele riu mais ainda. E foi embora. É isso a malícia. É essa coisa gostosa, essa brincadeira, essa paquera. O olhar é importante, o sorriso (entrevista informal com Jean Paul, 21 de setembro de 2011).

Antonio, com cerca de 40 anos, nascido no interior do estado e frequentador do meio intelectual da cidade, define o "olhar" como algo marcante da interação entre homens:

Num espaço de frequência dos gays descolados da cidade conheci Antonio, um intelectual bastante ativo na vida do Recife. A festa, aliás, era marcada pela presença de agitadores culturais pernambucanos de diversos campos de atuação, especialmente do cinema e da literatura. Ao comentar sobre meu contato com o texto de Carella, que me foi indicado por um dos participantes da cena de cinema da cidade, também interlocutor da pesquisa, Antonio começa a discorrer longamente sobre o olhar no Recife. Estende-se sobre como isso está presente no texto de Carella e como só há duas cidades no nordeste em que o olhar acontece de modo tão complexo e evidente: Salvador e Recife: "aqui, as pessoas se olham, os homens se olham entre si e, pelo olhar, você já percebe se há interesse, por segurar o olhar ou não. As pessoas não se incomodam com o olhar, apenas retribuem ou não, mas é comum retribuírem" (Diário de campo, 15 setembro 2011).

A partir de falas de interlocutores locais, pude concluir que um dos atrativos dos meus interlocutores paulistanos em relação ao nordeste, de certa maneira, era também o que atraía os meus próprios interlocutores pernambucanos de classe média alta que gostavam dos boys, embora essas duas redes acionassem convenções diferenciadas para se remeterem a isso. Nesse sentido, procuro entender onde esses homens se cruzam a partir de seus desejos eróticos, mesmo considerando as diferenças de origem entre eles e as distintas convenções que mobilizam para falar de marcadores de diferença social na sua articulação com o desejo e com os deslocamentos que produzem.

Compreendo desejo erótico, aqui, na sua dimensão social. Ainda, considero, como já chamava a atenção Perlongher (2009), que tratamos de algo que mobiliza marcadores sociais de diferença na sua constituição. Os estudos de gênero e sexualidade têm colaborado para a construção de perspectivas sobre processos que compreendem a articulação de marcadores de diferença social na produção de subjetividades, desejos e práticas sociais – e também de desigualdades. Como observa Avtar Brah, a incorporação das esferas do desejo e da fantasia à teoria feminista conduziu à crítica em face de uma subjetividade unificada e fixa, origem de uma agência não problematizada (Brah, 2006:366). Os estudos de Brah têm contribuído para o debate das interseccionalidades, enfatizando o aspecto contextual das interconexões entre marcadores de diferença social. Numa linha bastante próxima, Anne McClintock (2010) tem contribuído para o debate, argumentando a partir da perspectiva de que marcadores de diferença social constituem-se em e através das relações que se dão entre si e relacionando esses marcadores à constituição de desejos. Contudo, acredito que, embora as ciências sociais tenham se aproximado da questão do desejo erótico a partir de referencial e metodologia próprios – o trabalho de Gagnon (2006) é um bom exemplo, ao cunhar a noção de "roteiros eróticos" – este é um campo que ainda demanda reflexão.12

 

Frango com frango é coisa de paulista

Retomando as narrativas a respeito da erotização das diferenças e dos sentidos atribuídos à cidade do Recife, embora a cidade tenha um conjunto bastante diverso de estabelecimentos relacionados à homossexualidade, parte dos meus interlocutores de classe média alta, locais ou não, quando buscavam um parceiro, frequentavam estabelecimentos voltados para trocas sexuais – como cinemas e saunas – ou bares e boates mais identificados como de classes populares. Passo a algumas notas etnográficas envolvendo interlocutores paulistas e pernambucanos, em São Paulo e Recife.

Igor é um rapaz de 33 anos, advogado, branco, reside com a mãe num bairro de classe média alta de São Paulo e, apesar de se envolver também com rapazes de sua rede social, gosta de enfatizar seu interesse por tipos que poderiam ser classificados como cafuçu, termo que ouviu pela primeira vez no Recife e optou por utilizar em São Paulo para descrever o tipo de homem rústico, moreno, bem brasileiro pelos quais se sente atraído.13

Eventualmente, Igor frequenta boates e cinemões no deteriorado centrão, onde pode encontrar rapazes deste tipo. Em um de nossos encontros, em São Paulo, o rapaz escolheu um restaurante listado nos guias como uma boa opção gastronômica da cidade, para onde foi após ter resolvido questões burocráticas de negócios da família no centro. Como já estivesse no centro da cidade, aproveitou para passar no cinemão, onde esteve com um turista mineiro, com um rapaz negro e com outro que era o típico cafuçu, descrito como pedreiro que, como já havia me dito, era seu tipo. Ao mesmo tempo em que Igor enfatizava seu desejo por cafuçus, também dizia não estar limitado a isso: em suas palavras, trazendo à baila mais uma vez o sociólogo, Gilberto Freyre já morreu faz tempo. Indicava, assim, uma pluralidade do seu desejo e ao mesmo tempo sugeria a adesão a um "sistema igualitário moderno”.

Igor encontra rapazes que se enquadram no que considera como cafuçus não só nos cinemões, mas também em outros estados do Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, Salvador e Recife, para onde costuma viajar com frequência. Embora relate a existência de amigos que sobem favela em busca desses homens, considera que esse tipo de aventura é muito perigoso. Prefere entrar em contato com rapazes nas cidades para onde viaja por meio da internet, em sites de busca de parceiros, combinando previamente o dia, o local e o horário em que se encontrarão.

Em recente conversa, ele me descreveu o que para ele seria um roteiro ideal no Recife. Tomou o cuidado de mencionar que está atento para que sua viagem não se dê apenas em função do sexo, pois não quer fazer turismo sexual. Para Igor, portanto, o dia ideal em Recife começaria pegando uma praia em Boa Viagem, parada para o almoço num bom restaurante de Olinda, passada pela Termas Boa Vista – a sauna mais famosa do Recife, com uma estrutura próxima à das melhores saunas de São Paulo – ida ao Ponto G – uma espécie de pagode gay – e finalização no MKB. O MKB, cuja sigla indica o nome Meu Kaso Bar, foi descrito por Igor como o paraíso dos cafuçus. Trata-se de uma espécie de "boate popular", com três ambientes: um para o samba, outro para o brega e um terceiro que parece uma boate gay com dance music.14

Quando fui ao Recife, encontrei no MKB um outro rapaz, morador de São Paulo, que estava na cidade por alguns meses a trabalho. Ele me disse gostar do tipo cafuçu, mas dificilmente isto se concretizaria num relacionamento, que acabava ficando restrito a tipos ligados à intelectualidade: gosto de cafuçu, mas só namoro intelectual. No Recife, um de seus lugares preferidos era o MKB, pois ali se podia encontrar do estivador à bicha. Versado nos cantores e no universo brega, meu interlocutor se divertia com um colega pernambucano no lugar e, ambos, a propósito da minha pesquisa, contavam em tom cômico suas interações com boys em diferentes lugares da cidade. Meu interlocutor contou como certa feita convenceu os trabalhadores supostamente heteros de um evento do qual participava a irem para o MKB depois do expediente, relatando-lhes ser um lugar que toca brega, que toca pagode, omitindo qualquer referência à homossexualidade no que concerne à boate. Esse rapaz ficou com um dos convidados e frisava fiquei de transar com o cara! Também mencionou a porção da praia de Boa Viagem próxima à favela Brasília Teimosa – e longe dos trechos conhecidos como gays da praia – que era indicada como o melhor lugar para o contato com os cafuçus, assim como o MKB.

Desprezado por parte dos gays de classe média da cidade, que me advertiam para não ir lá e me indicavam outra boate, o MKB – assim como as Termas – era ponto de encontro não só de dois dos meus interlocutores paulistanos, mas também de alguns dos pernambucanos que se sentem atraídos pelo boy ou pelo cafuçu. Quero reforçar, ao dizer isso, que os homens de classe média alta que são meus interlocutores e residem em São Paulo e que têm esse gosto pelo cafuçu – acionando eventualmente marcadores relacionados à regionalidade quando falam sobre isso – não estão tão distantes assim dos homens de classe média alta que encontrei no Recife, como uma abordagem desavisada poderia supor.

Notar essas semelhanças parece especialmente importante no sentido de afastar diferenças irreconciliáveis entre lugares de origem ou dualidades do tipo sudeste/nordeste. Assim, no intuito de complexificar a análise, minimizando o risco de cristalizar lugares e de recorrer a exotizações, procuro enfocar prioritariamente o modo como convenções relacionadas à regionalidade e à sexualidade são acionadas ou produzidas, mais do que compreendê-las como expressão ou resultado de "diferenças essenciais" (Carrara & Simões, 2007). Meus interlocutores pernambucanos atraídos pelo cafuçu singularizam Recife a partir da evocação de um clima diferenciado no modo pelo qual o erotismo entre homens se apresenta, mas que traduziria, ao mesmo tempo, um jeito brasileiro de lidar com isso. Referem-se, de todo modo, a uma espécie de diferenciação entre Recife e São Paulo, a partir da evocação de um modelo tradicional de classificação da homossexualidade e da figura do cafuçu ou do boy. Descrevo, assim, rapidamente, algumas situações em que aspectos relacionados a modelos de classificação da homossexualidade e noções de regionalidade e brasilidade entram em pauta de maneira bem clara.

Jean Paul é belga, vive no Recife há mais de 30 anos, é branco, tem cerca de 60 anos e é proprietário de uma empresa do ramo de serviços na cidade. Foi bem explícito ao me dizer que ficou chocado ao chegar a Olinda num carnaval, na década de 1980, como turista e, achando-se discreto, ser reconhecido como frango. A partir desse lugar que lhe gerava estranhamento, afirma ter entendido do que gostava:

a homossexualidade europeia era gay com gay, não era como aqui, em que se ficava com machos. [...] Eu transava com pescadores, que chamava para tomar cerveja, e a cerveja, já se sabia, incluía o sexo também. Fui ter minha maturidade sexual, entender realmente do que gostava, no Brasil, descobri que não gosto de frango, não gosto de, como falam aqui, fazer sabonete, gosto de macho (entrevista com Jean Paul, 21 de setembro de 2011).

A fala de Jean Paul não só aciona convenções relacionadas a modelos de classificação da homossexualidade em referência ao que seria uma versão europeia, mas também convenções parecidas com as trazidas por meus interlocutores de Recife em relação a como os paulistas pautariam seus relacionamentos, a partir de um modelo gay com gay ou, em versão local, frango com frango. Ouvi esta expressão quando acompanhei um jantar com um grupo de amigos de cerca de 10 homens, entre 40 e 60 anos, a maioria de classe média alta, alguns deles tendo ascendido através do trabalho artístico ou culinário. Um dos assuntos do dia era o fato de que um deles havia ficado com outro da turma, que não estava no jantar. Acontece que ambos eram qualificados como frangos, o que gerava estranhamento, reprovação e zombaria. Um dos presentes à mesa, possivelmente por conta da minha presença paulista, dizia que ambos estavam se enquadrando muito bem nos modelos paulistas, porque frango com frango é coisa de paulista – em um exemplo de como a diferença evocada pela minha presença em campo por si mesma levava a tematizações a respeito de regionalidade e identidades sexuais.

Fui convidada, nessa ocasião, a explicar a eles o que estava fazendo ali e qual era a minha pesquisa. Uma das pessoas, um artista carioca, disse que viajava ao Recife desde a década de 1970, pois sempre gostara dos boys dali, e agora estava comprando um apartamento na cidade, para onde pretendia, talvez, se mudar. Esse homem se destacava na mesa, pois usava roupas com marcas aparentes e valorizadas em ambientes gays de classe média e em revistas voltadas para esse público e, ao mesmo tempo, era o único que não vivia em Pernambuco. Como era uma pessoa conhecida, além de ser de outro estado e de o tempo todo frisar suas viagens aos Estados Unidos e à Europa, onde tinha imóveis, os demais lhe faziam alguma reverência. Curiosamente, era o mais velho da turma, tendo por volta de 60 anos e era o único negro à mesa.

Ele dizia, direcionando-se especialmente para mim, que a informação sobre os homens de lá não poderia se espalhar, senão haveria muitos gays atrás deles. Tudo isso se mesclava a um discurso que reprovava os tempos atuais em que pessoas do mesmo sexo andavam de mãos dadas e se beijavam na rua e depois não queriam ser repreendidos, como meu interlocutor havia presenciado num parque público da cidade, quando duas moças que se beijavam foram abordadas por transeuntes. Ao ser inquirida sobre o que pensava a respeito do ocorrido, afirmei que acreditava que as pessoas tinham o direito de expressar seu afeto em espaços públicos sem que fossem repreendidas. Minha postura levou à indagação-acusação: você com certeza deve ser petista...? Outros comensais contemporizavam: agora não é mais como antes, hoje muita coisa mudou. De certo modo, esse episódio expressava também tensões em torno de regimes de visibilidade relacionados à homossexualidade em tempos atuais e a disposições eróticas e afetivas.

Atribuo ao fato de ser mulher neste campo de pesquisa a ênfase, nas raras vezes em que tive a oportunidade de também interagir com boys, numa postura galanteadora por parte deles e num jogo em que identidades sexuais eram tematizadas. Em uma situação com Marcinho, um de meus principais interlocutores pernambucanos, conheci um rapaz com quem ele já havia se encontrado algumas vezes no registro boy-frango. Márcio era natural do Recife, proprietário de uma pequena empresa e de um estabelecimento comercial, tinha cerca de 40 anos, era branco, de sorriso largo e fácil, que se classificava constantemente como frango. De gestos delicados, tampouco se tratava de alguém que talvez fosse qualificado imediatamente de efeminado, deixando um lado um pouco menos discreto e repleto de referências ao sexo com outros homens emergir com mais ênfase apenas quando compartilhava o mesmo espaço com outros frangos.

Nós nos encontramos com Josué num cinemão do bairro da Boa Vista ao qual Márcio me levou – e que se configurou como a única situação em que pude frequentar com meus interlocutores um espaço voltado especificamente para trocas sexuais.15 Josué era um rapaz na casa dos 20 anos, moreno, de bermuda, camiseta e boné virado para trás, o que lhe acentuava um certo ar maroto. Como estivera malhando, não perdeu a oportunidade de nos mostrar seu abdômen e peitoral, de músculos definidos, ainda que não pudesse ser considerado exatamente "musculoso”. Tinha uma performance corporal de moleque que, embora inequivocamente masculina, era marcada por alguma leveza, impondo-se de modo pouco agressivo.

Nesse cinema instaurou-se um jogo curioso entre nós. Quando fomos conhecer o espaço do cinema, Marcinho me segredou que o boy Josué discretamente perguntara a ele se estava ficando comigo. Nesse momento, me mostrou o número do rapaz no seu celular, comentando ainda que já havia saído com ele algumas vezes e que conhecia também sua família. Quando nos aproximamos novamente do rapaz, e num momento de distração de Marcinho, Josué me perguntou se eu ficava com homens. Sem saber o que dizer e procurando me safar de qualquer investida sua no sentido de ficar comigo, respondi que ficava com meninas. Ao que o rapaz redarguiu, com um sorriso que ironicamente eu qualificaria de malicioso e numa entonação sedutora do bonito sotaque pernambucano: não tem problema, não. Eu não ligo, não. Aproveitei o ensejo para perguntar a ele se ficava com rapazes também e obtive a resposta de que não ficava com homem, não, contrariando o que me havia dito antes meu interlocutor. Numa segunda visita a Recife, no Carnaval de 2012, soube que Marcinho estava agora namorando o referido rapaz, embora não tivesse riscado de sua agenda o número de outros boys.

Conheci Joaquim, um desses boys,16 numa das festas promovidas por Marcinho. Era um rapaz de cerca de 30 anos, alto, forte, bem vestido, branco e extremamente gentil e prestativo. Novamente, me pareceu desempenhar uma performance masculina, mas que se traduzia em um certo cavalheirismo. Notei nele um interesse em se mostrar atencioso e, logo que me sentei à mesa, Joaquim abriu um espumante e fez menção de me servir. Agradeci e disse que não queria, pois já estava bebendo vinho e não gostava de misturar bebidas. Ele riu e redarguiu, um tanto ironicamente: mas você é brasileira, brasileiro tem que jogar em no mínimo três modalidades, brasileiro não fica numa coisa só. Depois de um tempo, entrei na área interna do restaurante e encontrei o irmão de Marcinho, que também prefere homens e que me perguntou como ia a pesquisa, discorrendo: hoje em dia, no Brasil, cada vez mais tem isso de intensificar a personalidade da pessoa em tudo. Por exemplo, se ela gosta de vinho, só pode gostar de vinho pra sempre, só vinho. E não é assim. A gente pode gostar de outras coisas. Lembrei imediatamente das considerações de Joaquim. Ele, que estava conosco, imediatamente concluiu, reforçando: o que importa é o prazer.

Acredito que as duas situações aqui relatadas nos meus percursos com Marcinho, bem como a fala de seu irmão, referem-se ao avanço de um modelo de classificação da homossexualidade que 1. define identidade sexual a partir do sexo do objeto de desejo da pessoa; e 2. tem a tendência a fixar desejo, prática e identidade, estabelecendo uma separação entre homo e heterossexualidade. Este não é um modelo que se concatena perfeitamente com o modo como se dá parte dos arranjos entre boys e frangos. O deslizamento entre práticas e desejos e a ambiguidade que os acompanham são tidos como traços que compõem o jogo erótico nesses contextos, e se combinam com a atuação de marcadores de diferença social como tensores libidinais, lembrando o termo usado por Perlongher (2009). Arrisco dizer que, quando Joaquim fala ironicamente que brasileiro tem que jogar em pelo menos três posições, está fazendo alusão ao fato de que esse deslizamento e essa ambiguidade são convencionalmente acionados como um traço de brasilidade, de uma certa malícia que não é vista como necessariamente pernambucana, mas brasileira.

 

Aqui não é de brincadeira: relacionamentos, trânsitos, violência

As interações tanto dos locais com boys ou cafuçus como com os que visitam ou se transferiram para a cidade definitivamente compõem roteiros que mesclam desejo, erotismo, diferenças, hierarquias e desigualdades, em arranjos que podem estar de diferentes maneiras mediados, de forma mais direta, pela troca de dinheiro e de bens, ou por trocas mais sutis que envolvem o acesso a diferentes ambientes e o usufruto de bens e serviços. Eventualmente, a violência pode fazer parte desses enredos, pois coloca em prática um delicado equilíbrio entre diferenças e desigualdades, ocultamentos e explicitações, modos distintos de perceber o desejo entre homens. Trago este tema à tona não porque acredite que tais relações estejam fadadas à violência – pelo contrário, muitas narrativas não tematizam esta questão e têm um tom mais voltado para o prazer e o erotismo – mas porque uma ligeira dose de perigo e segredo parece também animar uma tensão erótica neste campo.

Marcinho, por exemplo, tem dois ou três boys fixos, para os quais costuma ligar quando deseja companhia. Diz que os boys gostam dele, mesmo porque não é fácil encontrar um frango bom assim, que leva pra sair, paga cerveja, passeia, que trata bem sem ficar controlando.17 Para Marcinho, os boys do Recife têm um atrativo a mais e se permitem um tipo de relacionamento que, ainda que mediado pela ajuda (Piscitelli, 2008a), ultrapassa os contornos monetários da relação. Embora ainda se trate de uma relação transacional, a dimensão do cálculo parece ser temporariamente suspensa. Isto é significado como algo "do Recife" – embora seja comum também em São Paulo e em muitos outros lugares:

michê tem em qualquer lugar, agora os boys daqui são uma coisa de Recife. Vou te dizer uma coisa: aqui todo mundo faz. E quem não faz é porque é bicha. Aqui é muito fácil. É só olhar, perceber. Os caras são casados, tem a mulher, mas faz. Cada homem! Um mais bonito que o outro. Aqui é diferente, aqui é tudo muito fácil. [...] A relação com o michê é muito automática, tem que negociar: chupa, não chupa, ativo, passivo, vai comer, vai dar. Com o boy, não é assim. E ele gosta. [...] O boy vai com você num barzinho, vai dançar, vai beber, ou vai ficar em casa, vai ver um vídeo, vai ver coisa no youtube, dar risada. Se você fala que tá com fome, ele vai lá, faz um sanduíche pra você. Dorme na sua casa. A gente se sente gostado, é muito bom. No fim de tudo você deixa lá 50, 70 reais, um dinheirinho pra ajudar. E ele fica contente. Mas ninguém precisa ficar falando sobre isso (conversa com Marcinho – diário de campo, 08 setembro de 2011).

Aqui, aparecem apenas os componentes mais positivos da relação, mas a advertência final de que ninguém precisa ficar falando sobre isso deixa claros os limites que devem ser observados e que surgem com força na fala de Jonas, também pernambucano, artista, com idade em torno dos 40 anos. Ao conversar com Jonas numa festa, ele me disse que

Recife é exatamente como descreve o Túlio Carella. É muito forte, tudo acontece, tudo, exatamente como está ali. Mas é muita hipocrisia, é muito provinciano, é muito conservador. É tudo proibido, mas tudo acontece. Aqui é muito perigoso, tudo é muito intenso, não é de brincadeira (conversa com Jonas – diário de campo, 15 de setembro de 2011).

Jonas havia me perguntando se eu era a pessoa que estava pesquisando sobre cafuçus e indagou se eu conhecia um cafuçu de verdade. Embora não quisesse definir o que seria um cafuçu de verdade, pois isso eu teria de viver, mostrou-me uma cicatriz no braço e disse que era uma facada que levou de um cafuçu, e que era o perigo eo risco. Finalizou nossa breve conversa dizendo: o que é estar morto? O perigo é parte do negócio. Ao enfatizar o caráter muitas vezes subterrâneo das relações entre homens – associando isto ao conservadorismo e à hipocrisia pernambucanos – Jonas me diz que o cafuçu de verdade, na ambiguidade que cerca essa relação e na dependência de um equilíbrio bastante sutil de tensões entre as diferenças que se articulam a partir de cada um dos polos, representa também um perigo que é real: aqui não é de brincadeira. Esses risco e perigo fazem parte do negócio, ou seja, constituem a relação erótica que explora limites e interdições, e anunciam a possibilidade de que a relação escorregue para a violência – em que o frango estaria em posição de ser agredido fisicamente.

Ao conversar com colegas da universidade e do movimento LGBT de Recife, eles imediatamente me perguntaram se alguém falara sobre violência, estranhando meus primeiros relatos em campo sobre a malícia ou o caráter libidinoso da cidade.18 Mais atenta a este aspecto, comecei a prestar atenção nas falas de meus interlocutores e, eventualmente, a perguntar a respeito. A situação descrita anteriormente foi a única em que o assunto apareceu sem que eu tivesse perguntado. Para alguns com quem falei, o risco da violência parecia não fazer nenhum sentido. Para outros, porém, esse perigo existia, mas em parte era resultado da maneira como os próprios frangos tratavam os boys.

Jean Paul, por exemplo, considera que a violência tem relação com a desigualdade social e com a humilhação a que os frangos submetem os boys a partir da grana, em relações de poder que escorregam para a violência física: os frangos tratam muito mal os homens aqui. Humilham a partir da grana. O homem não é para ser tratado assim. O homem é para ser bem tratado. Trato bem os bofes, com delicadeza, não é na humilhação. José Antônio, que se mudou de São Paulo para Fortaleza definitivamente há 10 anos, de 77 anos, branco, ex-empresário, também aciona a ideia da humilhação quando fala sobre violência e me descreve a história de um conhecido que havia sido assassinado por um rapaz:

Sabe por que mataram ele? Ele era caso de um amigo meu, o cara que matou era um michê da sauna. E quando ele foi preso, meu amigo pegou um advogado e foi na prisão visitá-lo e aí perguntou: "mas por que você fez uma coisa dessas"? E ele disse "você não sabe como esse cara humilhou a gente”. Estavam ele, um outro cara e uma menina. “Você não sabe como ele humilhou, o que ele disse pra nós, eu perdi a cabeça”. É isso que acontece em todos os casos de pessoas que estão com pessoas de nível mais baixo. Nenhum ser humano agride assim do nada. A reação é recíproca. Se você dá afeto, você tem afeto. Daí, você vai transar com um cara e droga, álcool, daí começa a agredir o cara e manda o cara embora...? Você sabe que o ser humano quer se achar onipotente. Eu posso. Ele já está numa relação desigual, ele fica potente. Dá uma sensação de que ele é dono, de que pode fazer o que quer. [...] Tá certo que toda regra tem exceção, mas estamos falando de um universo geral (entrevista com José Antônio, em 27 de setembro de 2011 – Fortaleza).

Esta perspectiva, com a qual me deparei mais de uma vez em campo, parece transferir para a vítima a responsabilidade pela violência sofrida, talvez apenas reproduzindo um discurso dos operadores da justiça, como já bem apontaram Carrara e Vianna (2006), mas ao mesmo tempo desloca um pouco esse discurso ao sugerir um perigo que seria inerente a uma relação hierárquica e desigual, inclusive situando a possibilidade da humilhação como risco a que o boy estaria submetido. Embora a violência não seja exatamente o foco deste trabalho, é impossível desconsiderar este tema nas relações de que trato, motivo pelo qual chamo a atenção para o modo como meus interlocutores avaliam os riscos possíveis da manutenção de um equilíbrio muitas vezes bastante frágil no entrecruzamento de diferença, desigualdade, hierarquia e erotismo.

Não me referi, até agora, a relações que se estendem no tempo e pressupõem negociação cotidiana, mas a relações mais fugidias, em que diferenças – não só em relação a gênero e sexualidade – são motor de um desejo que parece encontrar barreiras muito fortes quando tratamos de parcerias mais duradouras. Entretanto, outros arranjos são possíveis e até podem deslocar um pouco as convenções sobre relacionamentos envolvendo diferença e desigualdade entre homens, por um lado, e conjugalidades, de modo geral. Termino este texto sintetizando a trajetória de José Antônio, pois aqui podemos perceber como as diferenças podem atuar como tensores libidinais, como trânsitos e fixações estão relacionados a preferências eróticas – mas não somente – e como se dão possíveis arranjos em diferentes contextos.

José Antônio é amigo de um dos meus principais interlocutores da pesquisa, Renato, que desde São Paulo mediou a possibilidade de que eu entrevistasse José Antônio em Fortaleza. Renato é também apreciador de tipos mais rústicos e viris, mas, embora conheça o nordeste, prefere se restringir a São Paulo mesmo. Afirma que não é preciso ir lá, já que todos estão aqui, referindo-se a um poderoso vetor de migração e encontro marcado por diferenças, em direção inversa ao percurso que realizo nesta pesquisa. Empresário bem-sucedido, Renato costuma frequentar uma sauna para homens heterossexuais no bairro do Bom Retiro, onde pode encontrar outros homens fora do meio gay, como afirma. Também desenvolveu estratégias peculiares para se relacionar com taxistas, seguranças e cobradores de ônibus, minimizando os possíveis riscos dessas interações.

José Antônio é amigo de Renato há muitos anos. Foi um empresário de muito sucesso em São Paulo, tendo se mudado para a cidade de Fortaleza há mais de uma década. É um senhor branco, espirituoso e que me disse ter sido muito sedutor quando jovem, tipo o anjo exterminador, de Pasolini. Hoje, José Antônio tem 77 anos, e seu companheiro, por volta de 40. Aproveitei minha viagem a Recife para passar por Fortaleza, onde pude entrevistar José Antônio no aeroporto, de onde embarcaria para uma viagem à Europa, planejando passar pela Croácia, por Berlim e Paris, junto com seu companheiro, Valtinho.

José Antônio menciona que só foi assumir uma vida homossexual total com 45 anos. Antes disso, havia se casado com uma mulher, tinha três filhos, e seguia uma vida de encontros paralelos com homens. Tinha uma posição social respeitável na sua cidade de origem, no interior de São Paulo e, ao se apaixonar perdidamente por um homem e decidir assumir esse relacionamento, abriu mão dessa posição social e viveu uma grande desilusão amorosa. A partir daí, teve alguns outros relacionamentos, eventualmente com homens em posição social inferior à sua.

Nesse percurso, veio para São Paulo, onde abriu a primeira filial de uma loja que se tornou uma grande rede posteriormente. Trabalhou 20 anos nessa rede e se acabou fisicamente, porque São Paulo é muito complicado para se viver. Conta que vivia doente, fez ponte de safena, angioplastia, ia à terapia duas vezes por semana. Então, há 16 anos teve o que qualifica de um insight, quando seu médico faleceu subitamente: "não quero morrer, sou muito jovem pra morrer, eu não quero morrer e não vou morrer de jeito nenhum”. Fez os cálculos de quanto dinheiro precisaria para viver bem até os 100 anos de idade, vendeu parte dos seus negócios e mudou-se para Fortaleza, onde tinha conhecido um cara numa de suas viagens. O cara em questão é Valtinho, que era balconista numa loja de ferragens. É um rapaz alto, forte, moreno, muito gentil. Sobre sua relação com Fortaleza, a partir de São Paulo, José Antônio descreve:

Eu já conhecia, vinha muito pra cá, adorava, adorava os homens daqui. Era a minha realização vir pra cá. O tipo físico. O biotipo. E eu tinha conhecido um cara daqui que eu estava meio assim, não tive nem dúvida. Peguei, vendi tudo, peguei meu celular e joguei no lixo. Eu vinha todo ano, duas a três vezes por ano, vinha trepar. São Paulo não dava, era muito maluco, eu vinha aqui, fazia as maiores folias do mundo e ia embora. [...] Em São Paulo existem amigos nossos comuns que vivem em terapia. “Quero alguém, quero alguém", mas quando conhece o jardineiro, o pedreiro, não dão a mínima. Só querem saber se tem pau grande e se fode bem. Acabou. Nem apresentam pra ninguém. Têm vergonha. Como que vai apresentar uma pessoa que não seja do nível social? (entrevista com José Antônio, em 27 de setembro de 2011 – Fortaleza)

Neste trecho, José Antônio comenta a respeito de relações entre pessoas de diferentes classes sociais e as interdições que vigoram em sua rede social de origem, em que os parceiros não podem ser apresentados à família ou a amigos – o que também impele a deslocamentos para regiões da cidade fora do itinerário mais comum à rede social ou para outros estados no caso de homens de classe média alta que nutrem desejo por homens de classes populares (França, 2012). Sobre o esquema de seu relacionamento com Valtinho, explica:

Quando Valtinho me conheceu, ele trabalhava numa loja, ganhava 750,00 por mês. E eu falei '750,00 por mês... não é nada'. E guardava todo mês 50 reais. Eu falei 'eu te pago isso, pra você me servir de companhia'. Um acompanhante, um companheiro. Hoje nós moramos num sítio, que se você for lá, você fica embasbacada. Ele cuida de tudo, tudo, tudo. Eu pago por mês, dou um salário, tem carteira assinada, tem tudo. Eu fiz um contrato com ele, porque já estou quase há dez anos com ele, se eu morrer amanhã ou depois, ele vai ficar com minha aposentadoria. E todo Natal, aniversário dele, dia dos namorados, dia de aniversário nosso de casamento, eu dou um dinheiro. [...] Então, eu estou muito tranquilo, porque sei que a hora em que eu morrer, a hora em que eu não estiver mais, ele não vai ficar desamparado. [...] O irmão dele é meu caseiro, a esposa é minha empregada, conheço o cunhado dele, que veio nos trazer aqui no aeroporto agora, eu paguei. Todo mundo sabe. Ele viaja comigo todo ano, nós dormimos junto, não se esconde nada de ninguém (entrevista com José Antônio, em 27 de setembro de 2011 – Fortaleza).

No arranjo produzido por José Antônio e Valtinho chama a atenção o estabelecimento de um relacionamento de longo prazo pautado por diferença de classe social, de gênero, de geração, de cor/raça e de lugar de origem, em que hierarquias estão colocadas e se expressam inclusive a partir de ajudas e presentes em dinheiro e do emprego de parentes, mas convivem também com valores igualitários que incluem a previsão de herança e de um contrato de divisão de bens, o relacionamento com familiares de ambos os parceiros, além da disposição em não se esconder nada de ninguém. Ao mesmo tempo, é também uma relação de trabalho, constituída com carteira assinada e salário mensal. Como já sabia do teor da entrevista, José Antônio me explicou que teve o cuidado de pedir a Valtinho para nos deixar falar em particular, sugerindo que era uma maneira de protegê-lo e ao relacionamento. O arranjo produzido entre os dois me pareceu uma combinação bastante singular, talvez usual neste registro de relacionamento em que não há um roteiro já estabelecido e que nos diz algo sobre a diversidade de arranjos possíveis nos meandros que me propus a abordar.

 

Considerações finais

Iniciei este texto mencionando a proposta de explorar trânsitos e itinerários em escala nacional na sua interseção com o desejo erótico. Invertendo a direção normalmente tratada quando falamos de trânsitos entre nordeste e sudeste, que se pauta pela migração familiar de pessoas do nordeste em busca de trabalho e melhores condições de vida em direção ao sudeste, minha intenção era a de me aproximar de um deslocamento – não necessariamente caracterizado como migratório -que partia de pessoas de classe média alta do sudeste em direção ao nordeste, vinculado não à família ou à busca por melhores condições materiais, mas ao desejo erótico. A aposta era de que isso pudesse me dizer algo sobre como se intersectam convenções de gênero e sexualidade, marcadores sociais da diferença, desigualdades e deslocamentos, a partir de um olhar para o desejo. Tratar disso, porém, não é apenas tratar de itinerários percorridos por homens que portam um desejo já cristalizado: não são apenas percursos relacionados ao desejo, mas também o próprio percurso do desejo, para mais uma vez recorrer a uma expressão de Perlongher (2009:226), que se faz e refaz nesses caminhos. Tentei me aproximar um pouco desses percursos nesta análise.

Alguns estudos recentes no Brasil têm abordado relações entre diferenças, desigualdades, hierarquias, desejo e erotismo. Neste trabalho, não se trata de situações em que a diferença, especialmente relacionada a gênero, é vivida no plano do erótico, enquanto o relacionamento de modo geral se dá muito mais no marco do igualitarismo, como notou Facchini (2008).19 Nos casos que trago, o risco, como afirmou um dos interlocutores, faz parte do negócio.

Não se imagine, porém, que não haja um cálculo desse risco, como já havia observado Perlongher (2009) ao analisar as relações entre michês e seus clientes em São Paulo. Não é um manejo, contudo, como o que acontece no BDSM,20 em que se desloca o risco para o plano da fantasia a partir do estabelecimento de uma série de "regras, hierarquias, ritualizações e codificações" destinadas a manter uma distância entre cena/play/sessão e realidade/cotidiano (Facchini, 2012:15).21 No caso dos relacionamentos a que me reportei anteriormente, o manejo do risco está na manutenção de um frágil equilíbrio que, rompido, pode levar à violência. A negociação deste equilíbrio se dá mais comumente através de regras tácitas, atualizando-se na prática dessas relações que se constituem hierarquicamente a partir de posições de sujeito bastante desiguais. Estamos num terreno arenoso, em que as diferenças e as próprias posições de sujeito podem encetar relações de poder e desigualdades capazes de suscitar contextos de risco e violência, mas também de animar desejos situados no campo do prazer. Podemos dizer, de acordo com Gregori (2008, 2010), que tais desejos e práticas, e as tensões entre prazer e perigo, exploram os "limites da sexualidade", ampliando ou reposicionando fronteiras.

Ao mesmo tempo, se aparecem borradas as fronteiras entre prazer e perigo, em relação aos tipos de relacionamento e engajamento, também me parece impossível traçar uma linha a separar relacionamentos transacionais dos relacionamentos mais claramente do âmbito do mercado do sexo, dos afetivos e familiares. A mesma porosidade surge quando olhamos para as situações de deslocamento e trânsito: as situações de turismo se imbricam com possibilidades de migração, por exemplo, e de deslocamento para trabalho no caso de algumas especificidades locais. Tais constatações somam-se ao que já havia sido discutido por diversos trabalhos que se dedicaram a compreender tais entrecruzamentos no que concerne a relações entre pessoas que não são do mesmo sexo (Piscitelli, Assis & Olivar, 2012).22

Nesse processo, me pareceu importante trabalhar na interseção entre desejos e convenções tanto de pessoas que encontrei no Recife e que sempre moraram na cidade como dos que para ali se deslocaram permanente ou eventualmente. A ideia era complexificar a análise, enfatizando o caráter situado das perspectivas e das narrativas das quais me aproximava e, ao mesmo tempo, como poderiam se intersectar tais perspectivas. Recife, como São Paulo, é uma cidade grande em que convivem e disputam múltiplas convenções de gênero e sexualidade em cruzamento com desejo e erotismo – e meus próprios interlocutores paulistanos fariam cair por terra qualquer associação do nordeste a um sistema de classificação tradicional da sexualidade em oposição ao sudeste (França, 2012). Além disso, minha própria rede de suporte de pessoas que faziam parte da universidade e do movimento LGBT me fornecia um contraste interessante com meus interlocutores de pesquisa, delineando um universo em que valores no registro do igualitarismo eram muito mais preeminentes.

Menciono essa pluralidade para evitar generalizações a partir da oposição tradicional/moderno articulada a espaço/nação/região, já bastante criticada em outras situações no que concerne à produção científica nas Ciências Sociais (Carrara & Simões, 2007). Além disso, como já afirmava Fry (1982), mesmo com o avanço de um modelo igualitário que inclusive marcava a constituição da classe média no Brasil, era importante ressaltar a convivência e a imbricação de diferentes modelos de classificação da homossexualidade.23

Por outro lado, reconhecer essa diversidade não quer dizer que determinadas convenções de gênero e sexualidade não sejam acionadas e atualizadas pelas pessoas com quem travei contato em campo na produção de sentidos de lugar. O fato de que essas convenções não podem ser simplesmente transpostas para o plano da produção científica não significa que não possam ser situadas no plano da análise. Procurei abordar aqui a produção, no plano dos sentidos de lugar e a partir de uma perspectiva situada, de uma Recife e de outras capitais do nordeste associadas ao que seria peculiarmente "brasileiro" no que concerne à sexualidade, envolvendo o deslizamento entre práticas, identidades e desejos entre homens, cujo pivô é a figura do homem rústico e viril. O efeito inverso seria a produção discursiva de uma São Paulo menos brasileira e mais conforme a modelos igualitários de relacionamento. Ana Paula da Silva demonstra como existe um "imaginário de São Paulo oposto ao das cidades turísticas nordestinas e carioca", argumentando que:

embora a cidade de São Paulo se apresente como símbolo de tudo que é moderno no Brasil, ela não escapa de ser uma espécie de "cosmopolitismo tropical" – simbologia bastante explorada pela indústria do turismo. Nesse contexto, não é de se surpreender que a sexcape de São Paulo compartilhe semelhanças significativas com as de outras regiões do Brasil (Silva, 2011:104).

É importante, assim, compreender contextualmente uma produção dos sentidos de lugar que talvez "diga mais sobre o classificador do que sobre o classificado”. Poderíamos tomar de empréstimo o termo "cosmopolitismo tropical", referente a essa produção discursiva da cidade, e dizer que, para meus interlocutores paulistanos, São Paulo é qualificada como não tão brasileira como outras cidades do Brasil – especialmente o Rio de Janeiro e cidades litorâneas do Nordeste – mas ao mesmo tempo não tão cosmopolita como Barcelona, Paris ou Nova York, todas cidades que fazem parte do repertório de lugares e viagens eventualmente mencionado ou referenciado de diferentes maneiras por esses homens. Se Silva (2011) cunha o termo "cosmopolitismo tropical" para se referir a essa produção discursiva sobre a cidade, poderia inverter esta perspectiva e dizer que, para meus interlocutores, São Paulo estaria a meio caminho tanto do "cosmopolitismo" como do "tropical", noções que ajudam a conferir sentido aos seus trânsitos nacionais e transnacionais.

Entretanto, como Gupta e Ferguson sugerem, pensar processos de desterritorialização e reterritorialização no mundo contemporâneo implica também considerar que "localização ou espaço físico" não necessariamente é dimensão privilegiada para pensar a "diferença cultural", mas que "conexão e contiguidade – de modo mais geral, a representação de território – variam consideravelmente graças a fatores como classe, gênero, raça e sexualidade" (Gupta & Ferguson, 2000:47).

Ainda, os autores afirmam que "precisamos sociologicamente dar conta do fato de que 'a distância' entre os ricos de Bombaim e os ricos de Londres pode ser menor do que entre diferentes classes na mesma cidade" (2000:47). De certa maneira, classe social aparece nesta pesquisa como um marcador que aproxima homens de diferentes regiões do país pelo compartilhamento de práticas e desejos, mesmo que discursivamente haja o acionamento de diferenças supostamente regionais. O irônico é que, empregando convenções de gênero e sexualidade como linguagem para marcar diferenças regionais, e supostamente aumentando a distância simbólica entre sudeste e nordeste, meus interlocutores de Recife e São Paulo produzem também "conexão e contiguidade" entre diferentes regiões do país a partir das suas práticas sociais em articulação com sua posição de classe social.

 

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Recebido: 29/03/2013
Aceito para publicação: 24/07/2013

 

 

1 Este trabalho é fruto de pesquisa de pós-doutorado realizada com apoio financeiro da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, sob supervisão de Maria Filomena Gregori. Agradeço a Benedito Medrado e a Regina Facchini pela leitura e por seus comentários sobre este trabalho e a Regina Facchini e Sérgio Carrara, coordenadores do GT 32 "Sexualidade e Gênero: sociabilidade, erotismo e política", do 36º Encontro Anual da ANPOCS, em 2012, onde este texto foi apresentado no formato atual, recebendo críticas e sugestões. Não menos importante tem sido a interlocução com minha supervisora e com colegas e pesquisadoras relacionadas ao Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp, que têm nutrido substancialmente esta pesquisa.
2 Utilizo como convenção, neste texto, o itálico para referir-me a categorias êmicas e a entrevistas e falas de meus interlocutores.
3 Agradeço aos professores Benedito Medrado Dantas e Jorge Lyra, do Núcleo de Pesquisa em Gênero e Masculinidades da Universidade Federal de Pernambuco (GEMA-UFPE) e do Instituto PAPAI, que me dispensaram uma acolhida generosa e me colocaram em contato com seu grupo de alunos e pesquisadores, e a Bruno Albertim, que me apresentou a alguns dos colaboradores desta pesquisa.
4 Diferentes autores têm enfatizado a pertinência da ideia de lugar sem recorrerem a noções de homogeneidade e estabilidade, e pensando fronteiras como maleáveis e interconectadas. Desta perspectiva, lugares são pensados como necessariamente porosos e híbridos (Massey, 1995; McDowell, 1997; Gupta & Ferguson, 2000).
5 O fato de ser uma mulher trabalhando com homossexualidade masculina e com questões relacionadas ao erotismo entre homens me coloca a óbvia barreira de, na maioria das vezes, não poder participar de lugares comerciais onde parte dessas relações se passa. Por outro lado, se isso se configura como problemático até certo ponto, também traz o efeito de deslocar minha investigação desses cenários mais usuais. As entrevistas informais e outras situações aqui relatadas se deram, de modo geral, em locais de lazer, trabalho e convívio social dos meus interlocutores. Acredito que isso permitiu que conversássemos sobre uma variedade de temas e também que eu pudesse perceber a interação entre boys e frangos fora de espaços de trocas sexuais, e também entre frangos entre si, ou gays entre si. Ainda, como explicito no texto, minha posição marcada em termos de gênero (como, aliás, seria qualquer outra) suscitou jogos em que identidades sexuais eram tematizadas a partir da minha presença. Em alguns momentos, me perguntei se eu era a pessoa ideal para realizar tal pesquisa, mas concluí que pressupor isso seria o mesmo que imaginar que, se realizada por um homem, a mesma pesquisa poderia compreender uma espécie de totalidade da realidade, quando já acumulamos reflexão crítica suficiente para ter em mente que nossos saberes são sempre situados e parciais (Haraway, 1995). De todo modo, cabe também lembrar que nossas posições de sujeito, que são também nossos instrumentos de trabalho na relação intersubjetiva que pressupõe a etnografia, não se reduzem a gênero, mas compreendem outros marcadores. Ainda assim, mesmo o gênero não corresponde tão somente ao sexo biológico com o qual fomos assignados ao nascer, mas sim a uma série de atos e performances. Procuro, com esta longa nota, menos justificar o fato de realizar esta pesquisa, e mais suscitar o debate a respeito da posição subjetiva do pesquisador em campo, ao qual muitas vezes não se dá importância quando o sexo com que pesquisadores e interlocutores foram assignados ao nascer coincidem.
6 Gillian Rose (1995:97) descreve o quanto os sentidos de lugar podem ser complexos: "um sentido de lugar pode ser articulado através de muitos meios diferentes [...], traçar uma ou mais escalas geográficas [...] [ou] fazer sentido em relação a mais de um lugar [...]. Um sentido de lugar pode funcionar pelo convite a pessoas para a articulação de sua identidade em termos de pertencimento a um lugar particular, ou um sentido do que um lugar é pode ser estabelecido mediante um contraste com outros lugares representados como alheios àquele; ou um sentido de lugar pode ser contraditório; ou pode ter pouco a ver com a articulação de identidade. [...] Por fim, sentidos de lugar envolvem diferentes grupos de pessoas de diferentes formas. Os mesmos lugares podem se tornar significativos para diferentes pessoas através de diferentes sentidos de lugar”.
7 Não obstante, essa discussão ainda demanda um esforço mais atento nos estudos envolvendo espaço, cidade, marcadores sociais da diferença e relações de poder no Brasil. Muitas vezes as pesquisas, talvez em decorrência do modo como a constituição da antropologia urbana brasileira se deu e do lugar central desempenhado por questões relacionadas à classe social e à pobreza, mantêm um viés oculto em relação a gênero e sexualidade, a partir do qual determinadas experiências e sujeitos se tornam opacos aos olhos do pesquisador. De outro lado, embora haja uma pluralidade de estudos no campo de gênero e sexualidade em interseção com a antropologia urbana, há ainda dificuldades na construção de perspectivas que tomem o espaço como produtivo e produto de relações, e não como mero cenário. Uma interlocução mais estreita, capaz de transpor fronteiras entre o que se convencionou delimitar como diferentes campos de estudos, seria bem-vinda no sentido de refinar perspectivas.
8 A configuração descrita por Leite (2007), ainda seguindo o autor, mantém-se até o século XVIII pelo menos, quando metade da população do bairro do Recife era composta por escravos. Após o fim da escravidão e de inúmeras reformas urbanas por que passou a cidade, a princípio inspiradas em um modelo urbanístico europeu e mais recentemente em modelos de "revitalização" urbana que têm no Pelourinho um de seus mais famosos exemplos no Brasil, o bairro do Recife continua sendo conhecido pela manutenção de precárias condições de vida, pela boêmia e pelo mercado do sexo, ainda que as atividades portuárias estejam se transferindo para Suape nos últimos anos.
9 Em situações contemporâneas em que se desenvolve minha pesquisa, seja no Recife ou em Barcelona, combinação parecida acabou por remeter a trocas sexuais e comerciais bastante permeadas pelo acionamento de diferenças e desigualdades como tensores libidinais (Perlongher, 2009) e também de constituição de hierarquias e violência.
10 Não se pode desconsiderar o espaço urbano como condição do percurso pleno de voyeurismo, de contatos furtivos e trocas sutis na narrativa de Carella: assim como Anne McClintock (2010) analisa os percursos de Munby na Londres vitoriana como a possibilidade de "observar despercebido os perigosos contrastes da identidade social", transformando-se a multidão numa "arena de contrastes voyeuristas" (McClintock, 2010:133-134), nosso estrangeiro no Recife beneficia-se do percurso urbano mediado pelo desejo e pela maneira como é percebido entre os transeuntes, envolvendo-se numa prazerosa deriva. Nos seus escritos, os excitantes passeios pela cidade contrastam fortemente com a participação narrada muitas vezes como aborrecida nos compromissos sociais com colegas da universidade.
11 Alguns estudos têm abordado como marcadores de diferença social se cruzam com noções sobre nacionalidade e erotismo, materializando-se nos corpos e estabelecendo convenções sobre "a mulher brasileira", "o negão" ou "a mulata", por exemplo (Piscitelli, 2004; 2008; Moutinho, 2004; Silva & Blanchette, 2010).
12 Alguns trabalhos no Brasil têm se dedicado a pensar esta questão, trazendo contribuições interessantes a partir de variados pontos de vista (França, 2012; Facchini, 2012; Gregori, 2010; Braz, 2010).
13 Sobre esta categoria, ver França (2012; 2012a).
14 Embora, em minha estadia no Recife, tenha frequentado a boate, não me estenderei aqui numa descrição mais detalhada do espaço e das interações que vi ali, pois a construção textual deste artigo se dá mais em torno dos percursos e das coincidências em campo do que da descrição de interações nos lugares em que me encontrei com meus interlocutores – não desconsiderando a importância dos espaços de interação que percorri durante o desenrolar da pesquisa, mas procurando lançar luz ao entremeado de relações e sentidos que se desnovelou na investigação.
15 Em relação à passagem pelo cinemão, posso apenas dizer que me chamou a atenção o ambiente relativamente banal que encontrei: apesar do espaço de exibição dos filmes e das portinhas privativas no segundo andar, pelo qual circulavam alguns homens, o primeiro andar, no qual me detive, era um espaço marcado pela presença de uma lanchonete e de uma televisão que transmitia o Jornal Nacional e era assistida por alguns clientes, bem como por um espaço ao ar livre. Em dado momento, para meu estranhamento, o dono do cinemão apareceu com sua irmã e o cunhado e permaneceram nesse espaço ao ar livre compartilhando uma cerveja. Sem dúvida, um lugar que não deixava de ser também familiar. De certo modo, uma pontinha de decepção também se delineava: um espaço que para mim até então era inacessível não era assim tão incomum como faziam supor as próprias expectativas criadas pela aura de mistério que se conectava à usual interdição referente à presença de mulheres nesses espaços. Uma descrição e uma análise bastante detalhadas e perspicazes de espaços como este em São Paulo foi realizada por Ricardo Gambôa (2013).
16 Marcinho costumava ter alguns boys como passíveis de serem acionados quando desejasse. Joaquim era um desses rapazes, com performance marcadamente masculina, contrastando com os amigos frangos que estavam no mesmo evento. No próximo item, comento um pouco mais a esse respeito.
17 O termo frango, apesar de muito mal visto pelo movimento LGBT local, era amplamente usado pelos meus interlocutores, por isso o mantenho no texto.
18 Agradeço ao professor Benedito Medrado (UFPE), que me chamou a atenção para esta questão.
19 Em seu trabalho com mulheres que gostavam de outras mulheres (Facchini, 2008), a autora observou que o avanço do igualitarismo não anulava a erotização da diferença, mas deslocava esse processo para o domínio do erótico e para a neutralização do risco.
20 BDSM é sigla para bondage, disciplina, dominação e submissão, sadismo e masoquismo, um conjunto de práticas no plano do erótico envolvendo hierarquia a partir de uma perspectiva consensual. Alguns trabalhos têm se dedicado a compreender esse universo no Brasil (Zilli, 2007; Facchini, 2008, 2012; Gregori, 2008, 2010).
21 O que não significa, não obstante, que tais relacionamentos estejam imunes a situações de violência, como analisa a autora neste volume.
22 É preciso destacar, para o debate que aqui se delineia, a importante contribuição que vem sendo apresentada há anos pelo Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp, especialmente a partir do trabalho de Adriana Piscitelli e das pesquisas que esta autora tem orientado no âmbito do Núcleo. Nesse sentido, minhas considerações vêm ao encontro do que já tem sido sedimentado por esses trabalhos no que concerne a tais temáticas.
23 Ao delinear dois modelos de classificação que marcam o processo histórico de construção da homossexualidade no país, Fry (1982) sustentava que um modelo hierárquico contrastava com um modelo igualitário. O primeiro modelo era definido a partir de gênero, considerando que à díade masculinidade/atividade sexual corresponderia feminilidade/passividade sexual, sendo que, no primeiro polo do par, estariam situados os "homens" e, no segundo, as "bichas" e "mulheres”. As identidades sexuais estariam aí englobadas a partir de gênero. O segundo modelo definia-se a partir do sexo dos parceiros: quando de mesmo sexo, não importando se ativos ou passivos – e masculinos ou femininos – os parceiros seriam definidos como homossexuais. Esse modelo era definido a partir das categorias heterossexualidade/ homossexualidade. O modelo pautado na "orientação sexual" ganhava espaço no país junto com um processo de transformação e mesmo de constituição das classes médias e altas no Brasil, caracterizado pela sua associação com ideais igualitários "modernos", incluindo esse modelo positivado de classificação da homossexualidade.

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