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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.18 Rio de Janeiro Sep./Dec. 2014

https://doi.org/10.1590/1984-6487.sess.2014.18.02.e 

Editorial

Editorial


Este número de Sexualidad, Salud y Sociedad apresenta um conjunto de artigos nos quais se exploram itinerários vitais, trabalhistas, identitários, não previstos/previsíveis em face das convenções vigentes de gênero e sexualidade. Discutem-se diferentes situações de deslocamento ou ruptura - o sexo comercial; a infertilidade e suas derivações; o uso recreativo do Viagra; o protagonismo gay, travesti e transexual em festas "juninas" promovidas estatalmente; e a prática do swing - que parecem impor a seus protagonistas (e também aos próprios investigadores) um árduo trabalho reflexivo que procura, ativamente, construir a experiência vivida a partir de novos sentidos, significados e valores.

A ruptura "inesperada" nos cursos de vida das mulheres de classes média e média-alta com dificuldades reprodutivas (as interlocutoras na investigação de referência), que vivem na área metropolitana de Buenos Aires, exigiria - como mostra Luzia Ariza - ressignificar a própria infertilidade. Tal narrativa, construtora da experiência tanto diante si mesmas quanto diante do entorno, rearticula mandatos normativos em relação ao gênero, tenham recorrido ou não a tratamentos de fertilidade assistida.

Outra situação em relação à qual parece ser necessário "dar explicações" seria a daquelas mulheres dedicadas a diversas modalidades do sexo comercial (de "rua", em cabarés ou whisquerias, em pequenos apartamentos, "escorts") daquelas de que trata o texto de Santiago Morcillo. Apoiado em observações e entrevistas efetuadas nas cidades argentinas de Buenos Aires, San Juan e Rosário, o autor procura apreender as fricções entre os sentidos relacionados com o "trabalho" e a sexualidade em contextos do exercício da prostituição. Neste artigo também são focalizados os discursos de mulheres (participantes de organizações ou sem vínculos militantes), em função de captar a produção de significações à margem do debate travado pelos feminismos e que atravessa os mundos de acadêmicos e ativistas, não só na Argentina. Um tema tão sensível aos feminismos latino-americanos como o do trabalho sexual é o aborto voluntário, discutido neste número através da resenha do Rafael Branco sobre a reflexão politicamente comprometida da ensaísta e ativista queer Mabel Bellucci, em seu livro recém-publicado História de uma desobediência. Aborto e feminismo.

O artigo de Rafael da Silva Noleto enfoca os concursos do Miss Caipira Gay e Miss Caipira Mix, auspiciados por diferentes instâncias governamentais em Belém do Pará, no marco das festas de São João. Emerge aqui, uma vez mais, a ruptura com o previsível dentro dos concursos de beleza, já que seus protagonistas são homossexuais masculinos, travestis e sujeitos trans, deslocando expectativas não só a respeito do que se concebe como beleza feminina, mas também em torno da agência estatal em relação à população LGBT, incorporada nesse contexto como parte da "tradição". Este artigo, além disso, retoma perspectivas etnográficas e de análise de Marcia Ochoa, que estudou concursos de beleza, feminina e transexual, na Venezuela, e suas implicações na conformação de um ideário nacional de feminilidade que, graças às suas repercussões midiáticas, tem impacto internacional. Precisamente, neste número de Sexualidad, Salud y Sociedad, o diálogo de Noleto é replicado, já que oferecemos a resenha de Aureliano Lopes sobre o livro de Ochoa, Queen for a day: Transformistas, Beauty Queens and the Performance of Femininity in Venezuela, no qual a antropóloga indaga a respeito das práticas, tecnologias e ideologias através das quais se tornam inteligíveis as feminilidades.

Outras instâncias de inflexão são abordadas por Maria Silvério, a partir da descrição das formas com que as identidades genérico-sexuais estariam sendo replicadas, ressemantizadas ou negadas por praticantes de swing. A masculinidade e, especialmente, a feminilidade e seus presumíveis traços definidores estariam sendo ressignificados no universo de um clube de swing. Estes casais - para os quais nada seria proibido e tampouco obrigatório, se nos ajustássemos ao ideal deste mundo - recriam valores tradicionais e hegemônicos da heteronormatividade, tentando conjugar práticas conjugais contemporâneas com o ideário do amor romântico.

Neste número celebramos a publicação do primeiro artigo produzido em - e sobre - o contexto costa-riquenho. O texto de Paula Sequeira Rovira (re)apresenta outra ruptura no horizonte de expectativas prescritas para a masculinidade, neste caso, a potência, reduzida às ereções penianas, e a previsível clientela de medicamentos como o Viagra. Seu uso recreativo, realizado por homens jovens na Costa Rica, mostra experimentações, rastreadas aqui fundamentalmente a partir da narrativa de usuários deste medicamento sem prescrição médica. Diante de concepções que vivenciariam o pênis como um trabalhador potencialmente cansado - mesmo que não se padeça de disfunção erétil - o consumo de Viagra possibilitaria o reforço de controles sobre os corpos e novas formas de entendimento da saúde, da masculinidade e também das expectativas femininas.

Esperamos, por fim, que as narrativas que investigadores e investigadoras constroem sobre os relatos dos e das protagonistas envolvidos nas múltiplas situações sociais abordadas neste número possam, por sua vez, motivar nos leitores da Revista novas reflexões e outros desenvolvimentos.

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