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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.19 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1984-6487.sess.2015.19.05.a 

Artículos

Corpo aberto, rua sem saída. Cartografia da pegação em João Pessoa

Cuerpo abierto, calle sin salida: cartografía del levante en João Pessoa

Open bodies, dead end streets: a cartography of cruising in João Pessoa, Brazil

Thiago de Lima Oliveira1 

Silvana de Souza Nascimento2 

1Mestrado em Antropologia. Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, Brasil. > petraios@hotmail.com

2Doutora em Antropologia Social. Professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, Brasil. > simples.humano@gmail.com

RESUMO

O presente trabalho se insere na interseção entre os estudos de gênero e a antropologia urbana. A pesquisa etnográfica foi desenvolvida entre os anos de 2012 e 2014 na cidade de João Pessoa. No presente artigo buscamos apresentar agentes e espaços que compõem um circuito caracterizado pela busca de trocas eróticas e sexuais sem vínculos afetivos ou interesses financeiros entre homens que não necessariamente identificam a si mesmos como homossexuais: a pegação. A pesquisa aponta para relações de permeabilidade entre pessoas e lugares, bem como para processos de tensionamento de modelos identitários através de uma experiência marcada pela fluidez e a eventualidade, engendrando um contínuo processo de reinvenção do espaço e dos próprios envolvidos, ainda que submetida a mecanismos de controle social.

Palavras-Chave: sexualidades dissidentes; masculinidades; sexo na cidade; pegação; etnografia

RESUMEN

Este artículo se localiza en la intersección entre los estudios de género y la antropología urbana. Basado en una investigación de carácter etnográfico desarrollada entre los años 2012 y 2014 en la ciudad de João Pessoa, (Paraíba, Nordeste de Brasil), el artículo presenta los agentes y espacios que conforman un circuito de sociabilidad homoerótica caracterizado por la búsqueda de intercambios eróticos y sexuales sin elementos emocionales o intereses financieros, entre hombres que no necesariamente se identifican como homosexuales (el levante). La investigación apunta a las relaciones de permeabilidad entre personas y lugares, así como a los procesos de tensión de modelos identitarios, a través de una experiencia marcada por la fluidez y la eventualidad, generando un continuo proceso de reinvención, tanto del espacio como de los involucrados, sometido a mecanismos de control social.

Palabras-clave: sexualidades disidentes; masculinidades; sexo en la ciudad; levante; etnografía

ABSTRACT

The article is located at an intersection between gender studies and urban anthropology. Based on ethnographic research conducted between 2012 and 2014 in João Pessoa, State of Paraíba (Northeastern Brazil), we present the agents and spaces that make up a circuit homoerotic sociability known to locals as “pegação,” i.e., cruising for erotic and sexual exchanges without emotional ties or financial interest by men who do not necessarily self-identify as homosexual. Findings indicate relations of permeability between people and places, as well as the tensioning of identity models through an experience marked by fluidity and eventuality, generating a continuous process of reinvention of space and of those involved themselves, while subjected to mechanisms of social control.

Key words: dissident sexualities; masculinities; sex in the city; pegação; Ethnography

Introdução

Pegar, verbo transitivo

Pegação é um termo polissêmico. Pode dizer muito e simultaneamente nada. É, para todos os fins, um código. Pode-se chamar de pegação qualquer relação de flerte, paquera e namoro entre desconhecidos, como também se pode chamar assim o local em que essas relações acontecem. Tomada em seu aspecto êmico, a pegação surge como um código na medida em que as práticas descritas pelos colaboradores desta pesquisa como pegação se referem a jogos sinuosos de insinuação e provocação que se estabelecem entre sujeitos que dominam ou se aventuram através de olhares, movimentos e convites – por vezes pouco objetivos. Todos esses elementos são acionados de modo ágil em contexto de interação localizado na interseção de desejo e criatividade, entre a vontade de fazer e a perspicácia de transformar espaços. São rápidos, efêmeros. Cruzam a geografia e a temporalidade, durando apenas o momento do encontro para logo se desfazerem.

Neste artigo apresentamos resultados de uma investigação etnográfica desenvolvida entre os anos de 2012 e 2014 nos assim chamados “pontos de pegação”. Dentro de um circuito mais amplo, pontos de pegação se referem aos lugares onde acontecem os encontros entre homens nos moldes descritos acima. Diz respeito a uma tentativa de fixação no espaço de estratégias e geografias rápidas e fugidias. De modo mais específico, denominam no escopo desse circuito de socialidade masculina marcada pelo erotismo os espaços onde não se cobra ingresso, em geral espaços de rua, públicos ou aqueles em que o acesso é franqueado a todos.

O lócus etnográfico onde a pesquisa se desenvolveu é a cidade de João Pessoa, capital do estado da Paraíba. O município, com pouco mais de 800 mil pessoas, está localizado na porção leste da região Nordeste e tem uma população predominantemente originária de municípios de regiões afastadas do próprio estado e que nas últimas três décadas começou a migrar para a capital na busca de melhores condições de trabalho e acesso a serviços. Nesses termos, como se pode prever, as primeiras gerações de pessoenses nascidos na cidade é fruto desse movimento, ou em menor medida, de pessoas de outros estados e que fixaram residência no município, uma realidade cada vez mais frequente nesta última década. A economia da cidade não é muito distinta daquela das demais capitais do Nordeste; há uma grande predominância de atividades comerciais e algumas indústrias nos bairros mais afastados. Atividades como agricultura e cultivo de animais são desenvolvidas, mas pouco frequentes, exceto nas regiões mais afastadas nas direções sul e oeste, onde estão os bairros com os estratos mais pobres da população.

Ao longo do texto buscamos apresentar os agentes, as dinâmicas e os lugares produzidos e acionados na constituição desse circuito de trocas, bem como as estratégias de gestão das identidades que aí são acionadas pelos interlocutores. Neste último quesito, nosso interesse é apontar especificamente, entre as pessoas com as quais pudemos estabelecer contato, como marcadores sociais da diferença operam na demarcação de fronteiras e limites das interações eróticas.

Movimentos, identidades e estratégias

Ainda que a sexualidade seja um tema que vem sendo exaustivamente estudado pela antropologia, pelo menos, desde o funcionalismo britânico, foi particularmente a partir da década de 1970 que as relações entre sexualidade, (homo)erotismo e a experiência urbana começaram a ocupar um lugar mais consolidado nas investigações sociológicas e antropológicas.

Se as investigações psicossociológicas da Escola de Chicago de alguma forma contribuíram para o estudo da “conduta sexual desviante” através de conceitos como o de região moral, proposto por Robert Parker, foi particularmente nos Estados Unidos com os estudos de sociologia do desvio e da geografia urbana que regimes de sexualidade descomprometidos com a reprodução ou com ideias morais vinculados a noções como família foram se consolidando como fenômenos sociais passíveis de serem estudados academicamente. Característico desse momento são as etnografias que se dedicaram à análise de diversas modalidades de encontros sexuais, a exemplo de Humphreys (1970) sobre relações sexuais entre desconhecidos em banheiros públicos.

A publicação da etnografia de Laud Humpheys em 1970 constitui um marco para o estudo das relações de sexo impessoal em contextos urbanos. Ainda que bastante contestada e criticada pelos colegas acadêmicos da época em função dos procedimentos ético-metodológicos empregados,[1] o empreendimento desenvolvido por Humphreys possibilitou uma maior expansão das possibilidades temáticas e metodológicas de apreensão das relações homoeróticas em contextos urbanos, dando especial atenção aos regimes de sexualidade descomprometidos com uma lógica de disciplinamento dos corpos e dos prazeres desvinculados de ideias reprodutivas – a este conjunto de práticas e discursos sobre a sexualidade passarei a chamar nas linhas seguintes de “dissidentes”.

No Brasil ainda são poucos os trabalhos que contemplam a pegação. Se, por um lado, essa tem sido uma face pouco explorada da experiência homoerótica nas ciências sociais brasileiras, por outro, acreditamos que seja necessário pensá-la dentro de um campo maior de investigações que dizem respeito não apenas à vida sexual de pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo. A ideia de intimidade parece ser mais frutífera para se pensar a produção socioantropológica sobre o homoerotismo de modo que possibilite visualizar as trocas sexuais de forma articulada com outras pautas de investigação, em especial nos campos da militância e da construção de representações políticas e da saúde. Assim, observamos uma proliferação de pesquisas desde a década de 1980 que consideram as experiências eróticas e sexuais a partir de campos como saúde coletiva, psicologia, medicina social e outras áreas interdisciplinares. Ainda nesses termos, é preciso chamar a atenção para a emergência de dois atores importantes e conformadores desse campo: a aids e o que então era chamado de movimento(s) homossexual(/is).

Ambos os atores desempenharam um papel decisivo tanto na conformação de um campo de estudos em sexualidades como também na própria vivência de gerações de homens e mulheres homossexuais, lésbicas, travestis e transexuais.

No contexto brasileiro, trabalhos como os de Perlongher (2008), Trevisan (2000) e Barbosa da Silva (2003) a partir de distintos recortes temporais e espaciais oferecem a possibilidade de pensar as relações e os espaços de troca erótica no meio urbano como forma de sociabilidade por eles tomada como clandestina ou marginal; no fluxo dos contextos e das conjunturas histórico-políticas, tais espaços foram paulatinamente sendo combatidos ou escondidos em um movimento de higienização iniciado pelo Estado e intensificado a partir da erupção do movimento homossexual. Com a epidemia da aids no início da década de 1980 e sua direta associação com a população homossexual, o combate à epidemia por parte dos próprios agentes homossexuais se constituiu como uma estratégia de negociação na medida em que o reconhecimento de uma cidadania homossexual por parte do Estado foi acompanhado por um processo de higienização das práticas tomadas como “imorais” ou “perigosas”, particularmente aquelas inseridas na esfera da “promiscuidade” e da “imoralidade” (García, 2009).

As articulações entre Estado, contextos de pegação e a própria configuração de um sujeito político na trajetória do movimento homossexual para o LGBT não devem, contudo, ser pensadas em termos de uma cisão. Ao contrário, um exame acurado de projetos e iniciativas no contexto etnografado sugere para relações complexas que, através de ideologias como “sexo seguro” e “combate à aids”, foram produzidas conexões estreitas entre os pontos de pegação, seus frequentadores e os propósitos higienistas. Atividades como as buscas ativas, por exemplo, realizadas em regiões como a praia, efetivaram-se de maneira mais produtiva através da distribuição de preservativos para o estabelecimento de trocas de modo “seguro”. As campanhas e os projetos desenvolvidos tinham como objetivo a sensibilização para os riscos aos quais cada um se expunha e promoviam a escolha de estratégias de cuidado de si, para usar uma expressão foucaultiana.

Foi a partir das capitais e dos aglomerados urbanos que movimentos organizados começaram sua atuação visando ao controle da epidemia. Essa atuação tornou possível não apenas a construção de algo que poderia ser descrito como um modo de vida gay socialmente aceitável, quer dizer, o script de determinadas condutas e comportamentos que tornariam mais facilmente aceitável os regimes de desejo e atividade sexual de outro.

O universo da pegação é habitado por um diversificado número de personagens: lolitos, boy-magias, cafuçus, negões, milicos, ursos, barbies, bombados, machudos, entre outros. São essas identidades que, nos primeiros momentos, determinam a forma como cada um dos atores envolvidos é classificado e posicionado no jogo das trocas. As classificações quase sempre se referem a atributos externos, visualizáveis na construção imagética dos atores, seja por meio do corpo enquanto materialidade, seja por meio da performance ou da voz, um importante agente no processo de classificação. Esses modelos classificatórios, como bem coloca Agier (2011), são externos e nem sempre emanados dos indivíduos, mas neles depositados, mas nem sempre sendo assumidos – o que não inviabiliza ou impede que continuem sendo classificados assim.

Entre machos, barbies, ursos, lolitos e cafuçus estabelecem-se contínuos identitários que se organizam em torno de modelos mais ou menos aceitáveis ou hegemônicos de masculinidade, geração, corpo e estatuto social/ cor da pele. Nesses termos, vale ressaltar como no contexto de produção e articulação de diferenças no universo das socialidades homoeróticas há uma intensa profusão de categorias identitárias, as quais produzem limites e separações entre diferentes estilos de vida, interesses e performances. Nesse processo de diferenciação e demarcação de fronteiras, a masculinidade é um capital central.[2]

As barbies são colocadas em oposição aos ursos e aos machos por serem geralmente homens com um corpo hegemônico e em idade jovem, mas que assumem trejeitos femininos ou preocupam-se demasiadamente com o design dos seus corpos. Em contrapartida, os machos seriam “homens de verdade”, em estado bruto, sendo potencialmente qualquer indivíduo de aparência máscula, sem trejeitos ou roupas exageradas; o corpo é padronizado, não obedecendo a grandes exageros, como excessivamente musculoso, gordo ou peludo. Os ursos, por sua vez, corresponderiam a um modelo intermediário de masculinidade, caracterizado pela presença de pelos, sobrepeso e barriga saliente, bem como pela postura – em princípio também máscula, no que se refere a uma conduta mais dura e fechada. Os lolitos são os jovens imberbes, sarados e se não brancos, no máximo mulatos, representando o padrão hegemônico, vez por outra também sendo chamados de twinks. Cafuçus e negões são categorias organizadas em torno do estatuto da pele ou da classe social, sendo a primeira referida ao negão, um modelo de hipermasculinidade adequado ou colocado nos indivíduos negros, enquanto os cafuçus também respondem a um modelo de hipermasculinidade estabelecido para os homens em geral pobres, mal vestidos e frequentemente mulatos.

Desenho do percurso

Os pontos de pegação conformam um circuito que de forma nevrálgica espalha-se por toda a cidade. Constituem-se como espaços diversos, abertos ao público ou de livre acesso, sejam pertencentes a instituições públicas ou privadas. São pontos naquilo que lhes é indispensável: movediços, dinâmicos, precisos. Reinventam, desmontam e remontam as lógicas de lugares de família, de trabalho e de estudo. São demarcações que, logo traçadas, podem escapar no instante seguinte. É o que nos apresenta Otávio.[3]

Não tem muito isso de planejar não. Em geral pode acontecer em qualquer lugar. Você está na rua, numa lanchonete ou num ponto de ônibus, daí passa um cara, olha pra você, você sabe que ele curte, né? Então começa o lance. Daí pode ser que role por ali mesmo... mas, claro, tem uns lugares que você sabe que sempre vai ter cara a fim, sempre vai ter gente querendo fazer pegação.

Otávio, na ocasião do nosso encontro, tinha 27 anos, era estudante e trabalhava em uma loja do comércio popular, na região do centro. Dizia-se “moreno”, que era “discreto, apesar de gostar de curtir”. Não gostava muito de ir a lugares que já eram conhecidos. Prefere o improviso, os encontros ao acaso, ainda que nesses lugares. Os pontos e seus frequentadores fogem e apropriam-se da precariedade, reinventam-se sobre o que é possível. Recortam e desenham uma nova cartografia da cidade. Espaços fugidios, voláteis e efêmeros, mais sociais que materiais. É o que argumenta o antropólogo francês Michel Agier:

As concepções do lugar, principalmente as ligadas ao conceito de linhagens, mostram que a forte densidade cultural de certos lugares, assim como a fixação que sentimos a seu respeito vêm de dimensões que não dependem diretamente das estruturas materiais urbanas. O sentido do lugar é condicionado estreitamente pela existência de uma troca simbólica e social da qual é o suporte (Agier, 2011:113-4).

Sendo assim, é nesse sentido que os pontos de pegação no seu contínuo fluxo de mostrar-se e esconder-se para resvalar o caráter das práticas estabelecidas pelos seus usuários são organizados não em termos de uma materialidade do lugar, mas da possibilidade do espaço tornar possível ou não o estabelecimento das trocas. De modo mais preciso, trata-se de uma propriedade de uso do espaço que o transforma a partir de uma ideia de elasticidade. Mais adiante, assinala Agier, “a questão sobre o espaço físico está bem presente, mas é secundária”, ou para usar uma expressão clássica e mais precisa, “é sobredeterminada pela simbólica das relações sociais que aí se localizam” (2011:140). Lugares se reinventam e são reinterpretados a partir das práticas sociais nele estabelecidas. Uma praça que durante o dia é usada como espaço de passagem por transeuntes e de descanso por trabalhadores, ou de lazer para famílias próximas, durante a noite pode converter-se em uma vitrine de prostituição, ou num ponto de pegação. Há mil possibilidades do espaço. O mapa apresentado abaixo circulou em um grupo presente em uma rede social, o Facebook.[4]

Figura 1 – Cartografia dos pontos de pegação na malha urbana de João Pessoa, PB 

No mapa, pontos já reconhecidos como lugares certos, onde sempre há encontros entre homens, são listados e apresentados. Sua localização é sobreposta ao delineamento de bairros, ruas e monumentos espalhados pela cidade. A cartografia da cidade começa a desenhar-se desde seu início-fim. Já no terminal rodoviário de João Pessoal é possível observar a existência de um espaço – socialmente remodelado por seus frequentadores – para as trocas entre homens.

É entre chegadas e partidas, no ritmo frenético dos passageiros, que se desenvolvem os encontros silenciosos. Nos mictórios do banheiro do terminal homens trocam fluidos, olhares, apertões e movimentos de corpos. Estabelece-se aí um jogo de silêncios e não ditos, um desvio de linguagem comum para um novo conjunto de códigos, uma forma variante de expressar-se. Pernas arqueadas, olhos atentos aos lados e à pia e seu espelho, localizados mais à frente. Movimentos do cotidiano ressemantizados através de outras intencionalidades, da reinvenção do uso. Tais movimentos, lidos em conjunto e de acordo com o contexto, revelam estratégias dos desejos, da intensidade das trocas então travadas. Ali mesmo se aproximam e à distância de pequenas cabinas e mictórios se conectam em olhar, fluido, suor, cheiro.

Há alguns anos, além dos banheiros, o piso superior, onde os acompanhantes e os curiosos vislumbram a chegada e a partida dos passageiros, sediou por muito tempo as trocas e os encontros entre homens. À meia-luz e em pleno fim de tarde, a agitação dos últimos ônibus confundia-se com o silencioso ir e vir dos corpos. Permaneceu assim até que, em 2007, rondas policiais se intensificaram após o flagrante feito por funcionários de uma transa entre um senhor mais velho e um jovem adolescente. O fato foi noticiado amplamente pelos jornais impressos e pela televisão da cidade, afastando por algum tempo as pessoas que ali se reuniam para encontros sexuais.

A presença da polícia no terminal rodoviário limitou não apenas as atividades no banheiro e no piso superior, como também em outros pontos localizados na proximidade, a exemplo do Terminal de Integração do Varadouro. É no terminal que os vários ônibus da malha urbana de João Pessoa conectam-se e os passageiros, sem a necessidade de pagar uma segunda passagem, podem tomar outra condução. O espaço, criado em 2005, vem desde então funcionando como point de encontro de vários grupos, a exemplo de jovens surdos, evangélicos, menores de comunidades mais pobres e esportistas a caminho de locais esportivos, como quadras, ginásios e estádios nas regiões mais afastadas do centro. Ali também, no pequeno banheiro masculino destinado aos passageiros, funcionou durante algum tempo um intenso ponto de pegação. Homens postavam-se à porta e nas proximidades da entrada. Durante o flerte, olhavam-se, apalpavam as genitálias, movimentavam-se como num convite para entrar e seguir alguma rota e, depois, dirigiam-se para o interior dos banheiros.

A região do centro é recortada por uma variedade de espaços usados como ponto de pegação, sejam os mais tradicionais, instituídos no imaginário dos frequentadores – como os cinemas pornôs e as saunas, localizados na parte mais antiga e atualmente menos valorizada do centro da cidade – sejam outros menos conhecidos e de caráter efêmero, em geral estabelecidos a partir de encontros fortuitos entre usuários de outros espaços de trocas tradicionais. É o que acontece, por exemplo, subindo desde a rodoviária em direção à lagoa do parque Solón de Lucena, nas imediações do Theatro Santa Roza, um dos estabelecimentos culturais mais antigos e prestigiados da cidade, e que é constantemente utilizado como espaço intermediário entre os frequentadores do Cine Sex América,[5] que se situa ao lado. É lá que se conhecem, vez por outra flertam ou dão um tempo até que o trânsito na praça reduza para entrarem. Na região atrás do teatro ainda se encontram relativamente próximos uma sauna e outros dois cinemas pornôs, além de algumas pousadas de baixo custo, onde pode é possível ficar por menos de R$ 15 por duas horas.

São frequentes as reclamações sobre o preço das entradas e dos produtos vendidos, a exemplo de bebidas alcoólicas, além de uma constante vigilância nesses dois espaços em termos de controle de relações sexuais que não sejam entre casais/duplas. Ainda assim pudemos observar que as pessoas que frequentam os cinemas pornôs e as saunas também vão seguidamente a outros lugares da rua, pontos de pegação propriamente. Sobre os locais pagos, foi recorrente entre alguns colaboradores menções a eles como suportes para outros encontros que serão estabelecidos fora daquele âmbito, eventualmente em lugares mais acessíveis e baratos, onde não haja um controle tão grande.

Continuando o percurso, é possível encontrar ainda outros espaços para pegação na região do Parque Sólon de Lucena, seja à noite, na região dos bambuzais que desenham os quiosques e os bares do parque, onde os homens costumam masturbar-se eventualmente com a presença de outros, seja, mais uma vez, nos banheiros públicos dos shoppings comerciais e populares, ou de grandes mercados. Esses são lugares pelos quais muitos dos colaboradores desta pesquisa já passaram ou que costumam frequentar principalmente em virtude do fácil acesso, bem como da possibilidade de disfarçar sua estada ali a partir de outras atividades.

O processo de construção e estabelecimento de um circuito de pegação em João Pessoa está relacionado também ao próprio crescimento urbano e à expansão das vias de acesso a regiões antes mais afastadas, iniciada na década de 1970. A região da praia, outrora utilizada apenas como um espaço de veraneio, começou a ser conectada com a região do centro e dos bairros tradicionais nos sentidos norte (com bairros como Jaguaribe, Bessa, Manaíra) e leste (Tambaú e Cabo Branco) com a construção da avenida Epitácio Pessoa (Souza, 2005). Nesse movimento houve então um processo instalação e de transferência de equipamentos de lazer do centro para a região das praias de Tambaú e Cabo Branco. Esse processo, atualmente, continua seguindo um traçado horizontal, com o desenvolvimento urbano e também de centros de lazer e sociabilidade no sentido do bairro do Bessa até Seixas e Altiplano Cabo Branco e, de maneira menos expressiva, em bairros populares em processo de crescimento, como Geisel e Bancários.

Os pontos de pegação apresentam uma dinâmica elástica, o que favoreceu a sua permanência através de um dispositivo de constante atualização. Espaços “novos” podem aparecer sempre e serem frequentados por um número relativamente grande de pessoas, mas, em breve, costumam desaparecer. São processos contínuos e multiplicadores, apesar de efêmeros. A dinâmica social da pegação acompanhou o novo traçado urbanístico da cidade, não apenas em direção à praia, região onde hoje se localiza a maioria dos pontos de pegação conhecidos e já famosos na cidade, mas também acompanhou o desenvolvimento de certos bairros nas regiões mais afastadas do centro, como Bancários, Mangabeira, Valentina, Cristo Redentor e Geisel, que posteriormente culminaram no desenvolvimento de uma pequena mancha de espaços comerciais GLS, ou na consagração de alguns espaços como pedaços de sociabilidade entre homens à procura de outros.

A cidade não pode ser pensada como um aglomerado de pontos distribuídos pelo espaço e desconectados entre si. Eles estão localizados segundo certa historicidade, o que remete muitas vezes à necessidade de espaços formalmente destinados e projetados para encontros com caráter homossocial, e também são constantemente reorganizados e articulados pelos frequentadores nos seus trânsitos e circulação. Os circuitos são compostos pelo aspecto físico-geográfico dos espaços e pelas suas reverberações em outros níveis de realidade, especialmente o mundo online. É comum na pegação, através da utilização de aplicativos para celulares e redes sociais como o Facebook, alguns usuários perguntarem, avaliarem e recomendarem determinados pontos de pegação. Assim, tais redes no espaço online configuram um espaço potencial para conhecimento das potencialidades de sucesso e do perfil de usuários dos locais, como será detalhado adiante.

Curiosidade, reinvenção e novos espaços

Seguindo o sentido da avenida Epitácio Pessoa em direção à praia, observa-se também um processo de diferenciação social entre os grupos e os espaços localizados no centro e seus frequentadores. A região contempla dois grandes pontos de pegação, além de alguns outros onde acontecem encontros de forma esporádica. Tais espaços são o banheiro do Hipermercado Extra, na esquina da avenida Amazonas, e os banheiros do Espaço Cultural José Lins do Rêgo, um dos locais mais tradicionais e comumente referido pelos interlocutores de pesquisa. Segundo Roger, 22 anos: “O Espaço Cultural é um dos melhores! Sempre tem gente, e gente nova, se bem que ultimamente tem caído por conta da reforma e das coisas que tem lá... mas ainda assim vale a pena”.

Roger mora na comunidade São Rafael, entre os bairros de Tambauzinho e Castelo Branco, nas proximidades do Espaço. Quando o conhecemos, estudava no ensino médio e não havia tido qualquer relacionamento com outros homens, apesar de se dizer “um cara pra casar”. Em sua fala, ele faz referência ao processo de reforma do prédio, especialmente da biblioteca localizada no subsolo e de algumas outras dependências, como o Cine Banguê, que se encontram na dependência. O Espaço Cultural é um local destinado à realização de feiras, eventos e festas de caráter cultural na cidade. Ele sedia, além da biblioteca, um teatro de arena, um cinema, um teatro comum, dois mezaninos com vista panorâmica e que são utilizados para exposição, a galeria Archid di Picado, o planetário e tem destinada uma enorme área aberta para a realização de atividades diversas.

O Espaço é administrado pela Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba e nos últimos anos vem sendo utilizado como local para feiras de negócios e eventos de grande porte, mas de caráter comercial, o que, na opinião dos frequentadores da pegação que acontece lá, vem diminuindo a intensidade de visitas. Além disso, as feiras trazem com elas um grande número de funcionários que se distribuem nas tarefas de segurança e higienização de todos os espaços, inclusive de alguns dos banheiros usados prioritariamente, como o que se situa na frente da Galeria Archid di Picado, próximo ao mezanino 1.

Algo semelhante acontece no Hipermercado Extra que, após algum tempo de intenso controle e vigilância por parte dos seguranças no sentido de coibir as práticas e a frequência dos visitantes com tais propósitos “sórdidos”, voltou a ser frequentado. O banheiro é costumeiramente usado por pessoas de toda a cidade, mas em especial por alunos de uma faculdade particular que se situa nas proximidades, os quais, durante os intervalos ou antes do início das aulas, se dirigem para lá para encontrar outros rapazes. Com o processo de intensificação das rondas ao banheiro, a pegação foi temporariamente remanejada para a própria faculdade. Segundo Filipe, estudante de 19 anos da instituição, em geral os encontros são marcados na frente do banheiro, e cada um a sua vez segue até o estacionamento, onde próximo a pilastras ou nas paredes mais ao fundo os parceiros se masturbam, beijam e flertam usando seus corpos a serviço dos itinerários incontáveis do prazer:

Filipe: Nossa!, já fiz loucuras no estacionamento enquanto o Extra estava fechado... se eu te contasse, tu não acreditava.

Pesquisador: É mesmo? Quem sabe eu acredito? Diz aí o que tu já vez.

Filipe: de tudo um pouco, até ser surpreendido pelo segurança e deixar o cara lá sozinho pra puxar ele pela roupa e começar a chupar.

Pesquisador: Poxa. E como foi isso, você sabia que ele curtia?

Filipe: Não, mas acho que se ele não curtisse, não vinha pra cima da gente

Pesquisador: É, pode ser.

Filipe: Mas isso nem foi tudo... outro dia eu te conto mais.

(em conversa, setembro 2012).

Aqui podemos observar configurações semelhantes sendo executadas. Em ambos os locais parece haver uma forte aproximação entre os sujeitos que os frequentam, os interesses que os levam a eles e os próprios lugares em si. No que se refere às práticas desenvolvidas e ao léxico, os colaboradores referiam-se com frequência a determinados espaços, como as cabines nos banheiros, ou a porções mais reservadas em grandes áreas abertas, a exemplo da praia como espaços privados – ainda que a arena fosse pública.

Os banheiros, em especial, têm uma posição sui generis na economia erótica da pegação e na própria arquitetura dos jogos eróticos que ela desenvolve. Como lembra a filósofa Beatriz Preciado (s/d), a organização de tal espaço em termos de um binarismo é cúmplice de uma política de distribuição dos corpos e dos gêneros. No caso dos banheiros masculinos, os mictórios em sua aparição pública oferecem uma ilustração do pênis como objeto público, possível de ser exposto, em oposição à bunda e ao ânus, que devem ser preservados. O ânus é inviolável e privado. Nesse contexto, as trocas estabelecidas pela pegação em banheiros subvertem a lógica primária de organização sociocorporal do espaço dos banheiros através dos usos produzidos pelos agentes engajados na pegação.

Essas situações corroboram com as colocações do antropólogo William Leap em sua discussão sobre as relações entre público e privado nas trocas eróticas entre homens realizadas no âmbito do “público”. Para o autor:

Antes de assumir que interpretações de espaços públicos e privados, como locações fixadas dentro de um terreno, parece mais apropriado tratar público e privado como atributos das paisagens relacionados com lugares em particular, por atores em particular e por razões particulares (Leap, 1995:136).

Tais considerações possibilitam também perceber a paisagem designada por Leap e o que aqui chamamos de circuito da pegação como espaços performativos. A possibilidade de produção de lugares para trocas sexuais pode ser pensada também como um “modo de ver” o espaço, como sugerido pelo autor e, assim, suas interseções com uma noção de gênero em seu aspecto performático – como entendido por Judith Butler (2003) – se afinam. Nesses termos se, para Butler, o gênero é construído de modo mimético e através dele seria mais performativo do que pré-discursivo, para Leap, a paisagem também apresenta em sua constituição um aspecto performativo, na medida em que não é um objeto estável e pronto, ao contrário, é manipulada e reiterada constantemente por meio desses modos de ver. Esses modos de ver estão justamente na interseção de experiências eróticas, agentes e lugares. Ambos são processos. Tais processos apontam simultaneamente para recorrências e repetições, mas também para estratégias e configurações polimorfas que tensionam cisões e problematizam a própria relação dos agentes com os lugares que frequentam e as práticas que neles desenvolvem.

Nenhuma outra região pareceu adequar-se de maneira tão própria à prática da pegação como o litoral, o trecho das praias urbanas, em João Pessoa. Nesses locais podem ser encontrados diversos points que costumam ser frequentados, nos mais diversos horários, por jovens, homens maduros e mais velhos dos mais variados locais da cidade. O desenho desse trajeto do circuito é recortado horizontalmente e estende-se entre os extremos da cidade, da Ponta do Seixas, no lugar comumente conhecido como “Sofá da Hebe”, até o extremo norte e a fronteira com a cidade de Cabedelo. Nessa primeira parte do trajeto, que delimita a área que vai do Seixas a Cabo Branco, a região é fortemente caracterizada pela paisagem natural de vegetação de restinga, com arbustos baixos que se emaranham em labirintos, por onde se dispersam e novamente se encontram corpos fugidios no jogo de esconder e mostrar-se que se executa na mata do Seixas.

A região costuma ser bastante frequentada durante a manhã e a tarde, mas devido ao acesso difícil, não é habitual que receba pessoas de classes sociais mais baixas, pois estas geralmente não dispõem de carros ou motos para chegar lá. Todavia, a dinâmica deste espaço vem se alterando de forma significativa nos últimos anos. Essa mudança ocorreu principalmente em função de a estrada da região fazer parte do itinerário turístico da cidade desde 2009, aproximadamente, com a inauguração da Estação Cabo Branco Ciência, Cultura e Arte, um empreendimento da prefeitura municipal que não apenas tornou a região que antes era conhecida apenas pelo farol do Cabo Branco – um dos cartões-postais da cidade, e que é o extremo leste do continente americano – como também estimulou o crescimento imobiliário da área ao redor.

Se, por um lado, esse novo fluxo de atividades, serviços e pessoas trouxe mais facilidades de acesso e permanência na mata, por outro, vem sendo visto como um processo de reacomodação dos antigos grupos de frequentadores. Não raro escuta-se entre as trilhas desenhadas a pegadas e preservativos que, nos últimos tempos, as coisas têm piorado e os assaltos vêm se tornando mais frequentes por conta desses novos frequentadores. Ainda assim, o que parece haver é mais um processo de advertência e tentativa de reestruturação dos antigos grupos de frequentadores, que não querem perder o seu lugar e manter a forma como ele funcionava quanto ao seu público, possibilidades de atividades, horários e outras coisas mais. Perguntado a alguns entrevistados se já haviam sido abordados de forma agressiva ou se tinham sido assaltados, todos responderam negativamente, mas ainda assim reiteravam as recomendações para tomar cuidado e, se possível, ir para outro lugar.

Ainda na região da praia do Seixas, descendo no sentido zona norte da cidade, chega-se à praça de Iemanjá, uma pequena praça adornada ao fundo com uma imagem da orixá Iemanjá que, há alguns anos, era ponto dos pescadores das regiões próximas para se reunirem para a pesca. Atualmente, com o fim da tarde, a praça também serve como ponto de encontro entre rapazes, geralmente mais velhos e de condição social mais pobre e que não gostam de subir a ladeira para o Seixas. As razões atribuídas frequentemente são o horário que, em geral, por ser durante a manhã, torna-se inacessível aos demais, e a queixa por parte de alguns pela forma como são olhados e muitas vezes ignorados na parte superior.

Em Tambaú, nas imediações do famoso hotel que recebe o nome da praia, também é comum, durante a noite, vislumbrar na parte de trás, já na areia, um intenso fluxo de homens, geralmente brancos, de classe média ou que adotam um estilo de vida próximo a isso em termos de roupas, gostos e preferências musicais. Não há muito espaço para a conversa e, eventualmente, as relações se resumem a sexo oral ou masturbações em dupla. Dentre todos os pontos conhecidos no trajeto litorâneo do circuito da pegação, o hotel, dada a sua centralidade, é o único que recebeu ação ostensiva da polícia no sentido de estabelecer uma limpeza na região.

As ações da polícia, através da cavalaria, consistiam em rondas durante toda a noite na região que compreende desde o busto de Tamandaré até o largo da Gameleira, na divisa entre as praias de Tambaú e Manaíra, sempre passando por trás do hotel a fim de coibir atentados violentos ao pudor e atos libidinosos praticados pelos frequentadores. Entre os usuários mais antigos está Renato que, segundo nos conta, costuma ir ao hotel aproximadamente desde 2001 – época em que chegou à cidade vindo da região do brejo do estado – algumas pessoas chegaram a ser pegas, levadas à delegacia e moralmente constrangidas. Segundo Renato, essas apreensões aconteciam de forma disciplinar: por mais que houvesse grupos de 10, 20 pessoas, apenas um era levado pela cavalaria para prestar esclarecimentos.

O trajeto do litoral é fechado com dois dos pontos mais nobres e frequentados na região: na zona divisória entre as praias de Manaíra e Bessa, próximo ao Mag Shopping, e o final da praia do Bessa, no trecho junto à praia de Intermares, na fronteira entre os municípios de João Pessoa e Cabedelo. O primeiro trecho é bastante conhecido pela frequência de rapazes que gostam de relacionar-se com homens mais velhos, geralmente “pais de família” que costumam frequentar o local após a jornada de trabalho; ainda assim, o lugar abrange uma variedade considerável de tipos, em geral brancos e de classe social média ou superior. O tipo se repete na região final do Bessa, nas imediações do antigo bar Peixe Elétrico, este sim, frequentado majoritariamente por pessoas que não apenas têm um estatuto social mais abastado, como também têm seus corpos mais adequados aos padrões de beleza então vigentes. Não raro se encontram homens “sarados”, “bombados” e “barbies”, como são costumeiramente classificados nas categorias nativas.

Desconstruindo certezas

A aparente imagem de liberdade que a pegação costuma suscitar entre os frequentadores de tais espaços omite um processo mais amplo de regulação e controle. Durante o tempo em que pudemos observar e partilhar das ideias que circulavam nos espaços de pegação, fosse por meio do espaço online das redes sociais, fosse através das observações e conversas in loco, não encontramos qualquer pessoa que fosse excessivamente gorda ou peluda, por exemplo. Estas características geralmente são tidas de forma depreciativa no discurso dos frequentadores que, se não têm um corpo adequado às normas hegemônicas sociais de beleza, ao menos estão mais próximos delas do que aqueles a quem se ridiculariza.

É curioso observar que, apesar da pouca diferença espacial em relação ao Centro, há uma diferença que, apesar de sutil, é bem marcada entre os usuários característicos de cada um dos pontos já mencionados. Uma das marcas da pegação é a circulação e a grande heterogeneidade entre os usuários, mas ainda assim um olhar mais atento possibilita o reconhecimento de certos padrões que se repetem, seja nas práticas adotadas, seja no perfil dos usuários. Assim, não ouvi nenhum relato dos interlocutores com os quais estabeleci trocas nesses locais sobre qualquer prática que não fosse entre duplas e, além disso, as masturbações, sempre que coletivas, nunca eram praticadas com proximidade. Era mais uma masturbação em presença de outros do que propriamente coletiva, com troca e contato físico entre todos.

Os locais também eram bem demarcados: mictórios para encontro e masturbação ou exibicionismo, enquanto as cabines eram reservadas às duplas. Os frequentadores do centro geralmente eram negros ou mulatos, vinham das regiões mais afastadas do centro e quase sempre eram funcionários dos estabelecimentos comerciais localizados nas imediações, como lojas e shoppings e passavam por lá nos intervalos ou nos horários de almoço e saída. Era comum portarem bolsas, sacolas e mochilas onde guardavam a farda e um pequeno saco no qual depositavam o preservativo para ser em breve descartado. O preservativo só poderia ser deixado no local se devidamente escondido em papel higiênico, o que nem sempre era possível. Qual a razão para isso? A resposta é direta e certeira, e vem da boca de Fernando, 24 anos, que conheci no banheiro do Hipermercado Bompreço: o banheiro não era local para pegação.

A higiene e a discrição são valores comumente exigidos pelos usuários. Discrição aqui tem um duplo estatuto, que remete não apenas a evitar trejeitos femininos, como também o engendramento de certo esquecimento ao sair do local. É preciso esquecer. Foi o que aconteceu, por exemplo, certo dia, enquanto caminhava com Fernando pelo centro da cidade, após sair do Bompreço. Ao avistar um rapaz com quem ele frequentemente se relacionava, chamei a sua atenção e disse: “Olha, aquele cara que tu pega vez por outra lá no Bompreço”. Ele olha, se interroga e nega, dizendo não reconhecer a pessoa. Cerca de quatro dias depois, já na pegação do Espaço Cultural, ao chegar avisto Fernando indo em direção ao estacionamento, por volta das 19 h da noite, com o seu “desconhecido” parceiro. Na volta, pergunto se era ele mesmo, o rapaz que havíamos encontrado na rua e que ele não reconhecera, ao que ele respondeu: “pode ser, esse eu fico quase sempre que a gente se encontra”.

Esse esquecimento ou negação da lembrança em muitos aspectos é semelhante ao “esquecimento ativo” etnografado pelo antropólogo Paulo Rogers Ferreira em seu estudo sobre as sexualidades camponesas. Como diz o autor, esse ato-efeito de negar ou esquecer-se não se relaciona a uma amnésia ou similar, mas a uma estratégia, e termina: “existem coisas, no âmbito dos afetos, das intensidades e das paixões que não são para serem ditas” (Ferreira, 2006:127).

Há ainda sobre a discrição um terceiro elemento que se relaciona diretamente com o primeiro estatuto ao qual ela está condicionada. No âmbito das trocas estabelecidas, a discrição é muitas vezes concebida, na relação entre penetrador e penetrado, passivos e ativos (posições estas por vezes intercambiáveis entre os parceiros), como um valor de compensação pela masculinidade de penetrador que faltaria ao penetrado. Assim, é um valor que deve ser assumido por todos, mas desenvolvido de forma potencial por aqueles que no intercurso não assumem o papel de penetrador. Elabora-se ainda uma diferenciação – nem sempre excludente, já que há interdependências – entre “machos” e “homens”, entre penetradores e penetráveis.

Essa discrição, ou enrustimento, nos termos de Perlongher (2008), configura, no seu caso, uma das características mais importantes dos garotos de programa por ele etnografados durante a década de 1980 em São Paulo. Para o autor, esta característica da conduta dos michês e também de parcela dos clientes é resultante de um processo histórico de adaptação das práticas sociais homoeróticas ao contexto de marginalização e clandestinidade em que costumeiramente eram envolvidos (:166). No nosso caso, a discrição é uma característica exigida de todos, ainda que tomada em maior grau no caso dos “homens” que, pela posição assumida no coito, precisariam compensar a masculinidade perdida pela penetração. Assim, expressões do tipo “bem macho, mas passivo”, “todo gostoso, mas na hora vira e dá” parecem apontar não para uma ausência de atratividade ou de desejo, mas sim para uma insuficiência quase matemática daquilo que é por vezes lido como a matéria-prima das trocas.

A construção de uma performance masculina passa também pelas estratégias de uso do pênis e do ânus. Penetrado e penetrador não determinam uma oposição valorativa necessária, isto se estabelece no jogo das performances. Os sujeitos mais masculinizados, que evitam os trejeitos, costumam ter mais sucesso nas trocas e acumulam maior capital erótico, com o qual investem em suas práticas.

Ativo e passivo, penetrável e penetrador no jogo de corpo, pela pegação, são posições. Algumas são repetidamente assumidas por uns, enquanto outros costumam variá-las, ainda assim, com certo cuidado. As trocas são estabelecidas tomando como suporte a masculinidade: é este o bem trocado nas relações entre homens nos pontos de pegação. Os símbolos acionados e produzidos, tais como gestos, olhares, posições, suores, súplicas e palavras não ditas, são apenas simulacro para o elemento que circunscreve a troca. Relações de trocas projetadas e disseminadas pelo desejo de dar, comer, trocar, traçar; trocas roubadas, tomadas por empréstimo sem expectativa de retribuição. Uma dádiva burlada que, se exige para si a retribuição obrigatória, faz-se apenas no imediato, sem um a posteriori, sem reembolso. Apesar da centralidade ocupada pelo material trocado não há uma incorporação e, assim, o que se troca é sobredeterminado pela própria troca, experiência do desejo, da vontade. É a experiência da troca que circunscreve a base da prática social desenvolvida pela pegação, sendo por vezes o próprio termo “troca” um sinônimo para pegação.

Na dinâmica das trocas sexuais estabelecidas nos pontos de pegação, tais categorias são lidas como dispositivos iniciais de flerte, ou seja, os sujeitos são classificados e avaliados como desejáveis, indesejáveis ou perigosos, para em seguida procederem-se as táticas de sedução e o estabelecimento da troca.

As categorias são habilmente manejadas entre os usuários de forma rápida, constituindo um dos primeiros recursos utilizados para o desenvolvimento da tática de conquista. Dependendo do tipo desejado, o sujeito pode vir a comportar-se de maneira mais ou menos aberta, mais agressivo em sua exposição ou mais recolhido, e também pode imaginar até que ponto a sua investida poderá ser bem sucedida.

Estas categorias, por sua vez, não são fechadas em si e dividem-se em diversas lógicas internas que constantemente são remanejadas para tornar um candidato melhor ou pior se avaliado em termos de sua performance, aparência ou dotes sexuais. Assim, um cafuçu, por exemplo, poderá ser reordenado para um cafuçu do bem, ou um cafuçu de luxo à mercê de seus dotes (aparência física e tamanho do pênis) e performances. É o caso de Beto, um jovem de 22 anos que se define como “negro moreno jambo” e “discreto”. Quando conversamos, disse que só aceitara falar porque um dos pesquisadores parecia ser legal e também fazia o tipo dele. Enquanto conversávamos sobre sua vida no estacionamento de um banheiro que costumava frequentar nos fins de tarde, no centro de João Pessoa, Beto era “encarado” por outro rapaz, que por duas vezes entrou no banheiro, convidando-o.

Thiago: E então, moço, você não vai investir? Ele está te olhando...

Beto: Não, já sei quem é, mas não curti.

Thiago: Ah, mas por quê? Ele parece legal. Não é seu tipo?

Beto: Muito cafuçu, estranho...

Alguns instantes depois o rapaz aproximou-se de nós, uma situação pouco convencional, e puxou conversa mantendo-se em pé, encostado a uma parede a cerca de 2 metros de onde estávamos. Enquanto conversávamos, o rapaz acariciava a genitália com a mão sobre a calça e eventualmente olhava para mim e Beto. Escutava nossa conversa sobre os poucos rapazes que naquele momento entravam no banheiro, ou insinuavam alguma coisa. Resolveu então participar, e logo em seguida perguntou por que falávamos sobre aquilo. Expliquei a situação e mencionei que se tratava de uma pesquisa que estava desenvolvendo na Universidade.

Ainda que sem acreditar, resolveu tomar parte da conversa. Chamava-se Lucas, tinha 27 anos, morava no bairro de Cruz das Armas com a família; tinha uma filha, mas não morava com a mãe. Suas incursões aos pontos de pegação eram sintetizadas como “momentos de curtição, só às vezes”, já que seus interesses de fato eram as mulheres, com as quais namorava e pretendia montar família um dia. Em poucos instantes o tema da paquera foi retomado:

Lucas: Mas e aí, que tipo de caras você gostam?

Beto: Eu não tenho muita frescura, só prefiro que sejam discretos. Gosto de machos.

Lucas: Eu também sou assim. Mulher eu já tenho, se for pra curtir [que seja com] um cara macho mesmo...

Thiago: Eu não sei, mas pra mim não tem problema... mas me digam, se vocês curtem o mesmo tipo de cara por que não ficaram então?

Lucas: Eu dei umas olhadas, você não reagiu... te chamei lá [para o banheiro], mas você não foi.

Beto: Tipo assim, não tava muito a fim... tinha um carinha que tava a fim, mas ele já foi embora.

Lucas: Que cara?

Beto: Um magrelo, tipo você, moreninho e de bermuda e tal... cabelo curto.

Lucas: Tô ligado, vi no banheiro, mas era cafuçu demais.

Beto: Não acho, mas se for, pelo menos é um cafuçu de bem... tem um rabo gostoso e não tem cara de favelado.

Poucos instantes depois a conversa toma outros rumos e em alguns minutos Beto segue para o banheiro à procura de outro rapaz. Sem sucesso, sua tarde acaba na companhia de Lucas mesmo. Nessa situação, percebemos o quanto a disputa por categorias e classificações produz imagens positivas daquilo que se deseja valorizar na economia da pegação. A noção de cafuçu do bem que foi acionada pretende desvincular imagens de perigo em favor de atributos compensatórios. Então, nesse jogo, não importa tanto se a pessoa de quem se fala seja um agressor potencial, mas sim os ganhos que sua companhia possa trazer: prazeres, possibilidade de relacionamentos, carona, enfim.

Apesar do clima silencioso e de não ditos, todo o circuito da pegação está em relação constante. As ações, os feitos e os prodígios são relatados não apenas entre amigos que costumam frequentar os espaços em pequenos grupos, mas também nas redes sociais. Assim, alimenta-se um clima de expectativa, controle e avaliação da “produtividade” de alguns locais e também das precauções a serem tomadas e dos tipos que podem ser encontrados.

Considerações finais

Os modos de organização das práticas circunscritas pela pegação, na qual entram em jogo trocas sexuais fortuitas com desconhecidos e sem qualquer caráter essencialmente romântico ou comercial, parecem aderir a uma lógica própria de cidade, apesar de esta não se desenvolver apenas em contextos urbanos, como bem mostra, por exemplo, as experiências dos afetos mal-ditos em Ferreira (2006). Mas, ainda assim, a pegação elabora-se potencialmente como um jogo paradoxal entre polos da vida em grupo, em que os espaços urbanos, projetados para aproximar as pessoas e reduzir os custos da interação social, sob “o desejo de momentos de comunidade”, cotidianamente depositam nossas existências em quadros impessoais, em uma ordem urbana que parece ser marcada pela solidão e pela negação de atividades de troca e reciprocidade. As trocas estabelecidas na pegação estão em um outro plano da ordem, em certo sentido, talvez nem dentro da ordem estejam. Referem-se a uma prática do desejo, insubstancial, tão efêmera quanto mutável e escorregadia. Mesmo assim, não escapam de certos mecanismos sociais de controle, vigilância e intervenção, como se demonstrou ao longo do texto.

São essas experiências que, justamente em função de seu caráter fortuito e de diálogo entre paradoxos que a posicionam como uma suspensão da vida cotidiana, mas por sua vez assumem também um caráter absolutamente banal, apesar de central, como espaço de trocas de símbolos, atualização dos temas importantes para os tipos que costumam frequentar o lugar, enfim, um espaço de sociabilidades entre estranhos. Sociabilidades marcadas por um elemento erótico e outro efêmero que, justamente por seu aspecto absolutamente móvel e descentralizado, tensionam regimes de sexualidade e identidade produzidas pelo Estado, pelos movimentos LGBT e pela própria dinâmica das relações. As identidades nesse contexto são táticas e estratégias não fixas.

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[1] Humphreys passava horas nos banheiros observando os seus frequentadores. Por vezes esperava-os na entrada dos banheiros e, após identificá-los como “desviantes”, anotava as placas dos carros para em seguida pesquisar em listas telefônicas os contatos dos possíveis participantes e entrevistá-los. Para uma leitura mais atenta dos métodos empregados por Humphreys, ver a síntese elaborada pelo autor a respeito de sua investigação em Humphreys (1970).

[2] Sobre esta questão, ver a discussão elaborada por Camilo Albuquerque Braz (2010) a respeito da masculinidade em um contexto próximo ao aqui etnografado: os clubes de sexo. Em sua pesquisa, o autor enfatiza a construção de uma hipermasculinidade nos clubes de sexo para homens na cidade de São Paulo e os modos como essa hipermasculinidade tenciona e provoca convenções de gênero e sexualidades.

[3] Todos os nomes são fictícios com o objetivo de preservar a identidade dos participantes.

[4] O mapa foi construído com base no trabalho publicado por um dos autores, onde a cartografia dos pontos de pegação na cidade é desenhada. Um fragmento do texto circulou em sites da cidade especializados no tema e teve alguma repercussão. Um dos resultados disso foi o desenho desse mapa, uma criação colaborativa.

[5] Durante a realização da pesquisa, o América, como ainda é conhecido por alguns de seus frequentadores, foi vendido e encontra-se sob nova direção. No processo de mudança de administração, os novos proprietários optaram também por mudar o nome e, em agosto de 2014, ele passou a se chamar Cine Phoenix.

Recebido: 24 de Janeiro de 2014; Aceito: 05 de Novembro de 2014

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