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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.29 Rio de Janeiro May/Aug. 2018

https://doi.org/10.1590/1984-6487.sess.2018.29.05.a 

Artigos

“Venha se você for homem”: O princípio da masculinidade em orgias entre homens

“Come if you are a man”: The principle of masculinity in orgies between men

“Llegue si eres hombre”: El principio de la masculinidad en orgías entre hombres

Victor Hugo de Souza Barreto1  *

1Museu Nacional/UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil


Resumo:

Neste artigo apresento uma reflexão sobre a masculinidade pensada e gestada entre os participantes de festas de orgia para homens na cidade do Rio de Janeiro. Com base em dados de campo de uma pesquisa etnográfica que desenvolvi ao acompanhar a organização e realização desses eventos foi possível perceber a elaboração de determinados princípios que dão conteúdo e expressão a essas festas. O primeiro deles é o da masculinidade. Apenas homens, e um determinado tipo de homem, podem participar desses eventos. Nesse artigo abordo essa figura do “macho”, suas práticas, sua construção nesse contexto, seus paradoxos e tensões com outros elementos. Procuro tanto apresentar a produção daquilo que surge denominado como “caráter espartano”, quanto problematizar diferentes formas de “habitar a norma” apresentadas nesses contextos.

Palavras-chave: Gênero; Sexualidade; Masculinidade; Interseccionalidade; Hierarquia

Abstract:

In this article, I present a reflection on masculinity thought and gestated among the participants of orgy parties for men in the city of Rio de Janeiro. Based on field data from an ethnographic research that I developed by accompanying the organization and realization of these events, it was possible to perceive the elaboration of certain principles that give content and expression to these parties. The first one is masculinity. Only men, and a certain type of man, can participate in these events. It is about this “macho” figure, its practices, its construction in this context, its paradoxes and tensions with other elements, which I intend to address in this article. I try both to present the production of what they call the “Spartan character” and to problematize different forms of “inhabit the norm” presented in these contexts.

Keywords: Gender; Sexuality; Masculinity; Intersectionality; Hierarchy

Resumen:

En este artículo presento una reflexión sobre la masculinidad pensada y gestada entre los participantes de fiestas de orgía para hombres en la ciudad de Río de Janeiro. Con base en datos de campo de una investigación etnográfica que desarrollé al acompañar la organización y realización de esos eventos, fue posible percibir la elaboración de determinados “principios” que dan contenido y marca pública a esas fiestas. El primero de ellos es el de la masculinidad. Sólo hombres, y un determinado tipo de hombre, pueden participar en estos eventos. Es sobre esa figura del “macho”, sus prácticas, su construcción en ese contexto, sus paradojas y tensiones con otros elementos, que pretendo abordar en ese artículo. Busco tanto presentar la producción de lo que ellos llaman “carácter espartano”, como problematizar diferentes formas de “habitar la norma” presentada en esos contextos.

Palabras-clave: Género; Sexualidad; Masculinidad; Interseccionalidad; Jerarquía

Apresentação

“Venha se você for homem” é o slogan usado na propaganda de uma das festas de orgia entre homens que acontece na cidade do Rio de Janeiro. Segundo o seu organizador, a intenção foi embutir nessa frase-convite dois sentidos de homem para o perfil desejado na festa. O primeiro relacionado a um tom de desafio, de um evento que precisasse de coragem para participar, e o segundo que deixasse claro o direcionamento para homens másculos, de algo para “macho”.

As discussões apresentadas nesse artigo aprofundam algumas das questões que surgiram durante o trabalho de campo para a realização de minha tese de doutorado em Antropologia (Barreto, 2017). Ali propus uma análise sobre a prática do sexo grupal/coletivo realizada entre homens em reuniões ou eventos de orgia. Mais especificamente uma etnografia de festas de orgia entre homens que acontecem na cidade do Rio de Janeiro.

O desenvolvimento desse trabalho deu-se através do acompanhamento, durante dois anos e meio (do início de 2013 a meados de 2015), de quatro dessas festas de orgia. Elas acontecem uma ou duas vezes ao mês, uma delas semanalmente, em diferentes locais e bairros da cidade, seja em clubes, saunas, apartamentos comerciais, ou mesmo em um sítio ou em um barco. Dessas quatro festas, duas fazem o que é chamado de “processo seletivo”, isto é, há uma escolha ou avaliação do público que pode ou não entrar no evento. E as outras duas são abertas a quem quiser ir, desde que corresponda à exigência de ser homem (cisgênero) e apresente um perfil de masculinidade desejado. O número de participantes é variável, entre 150 a 200 homens nos eventos que não exigem seleção e no máximo 50 naqueles em que há o processo seletivo.

Desde o início do trabalho de campo, procurei perceber em torno de quais elementos se centralizava aquilo a que os participantes atribuíam maior importância e assim cheguei ao que estou chamando de princípios dessas festas. Os princípios funcionam como pontos nodais e oferecem diretrizes não só de performance, mas da própria ética local, balizando as relações entre os participantes. São eles que potencializam as interações sexuais, que dão conteúdo e expressão a essas festas e que, ao mesmo tempo, podem se apresentar tanto como norma, quanto como possíveis linhas de fuga. São três os princípios que se destacam: o da masculinidade, o da discrição e o da putaria. Nesse contexto, correlatamente, são produzidas algumas formas de subjetividade específicas: o “macho”, o “discreto” e o “puto”. Estas formas não são tratadas como algo que se encontraria em separado, mas buscadas em conjunto, como fluxos que funcionam agenciados para uma mesma figura de indivíduo desejado.

Neste artigo, detenho-me sobre o primeiro dos princípios dessas festas de orgia, que é o da masculinidade. É sobre essa figura de “macho”, produzida e desejada nesses eventos, que concentro a análise. O que é preciso para ser homem nesse contexto, qual performance é necessária, quais são as práticas, que paradoxos e tensões com outros elementos se apresentam? Como essa figura de “macho” relaciona-se com uma maneira de construção de modelos de masculinidade estabelecidos em contextos de interação erótica entre homens? Minha intenção é explorar o masculino do “macho, discreto e puto” e a sua produção desejante nessas festas. O “macho” desses eventos não é qualquer homem e vai além das configurações de gênero dominantes a que estamos acostumados.

“Entre iguais, só entre machos”

De uma forma geral é possível definir o perfil de masculinidade que é desejado nessas festas a partir das seguintes orientações de seus organizadores, encontradas em blogs de propaganda:

Não é nossa intenção fazer uma festa apenas para pessoas consideradas “perfeitas”, pois, além da perfeição não existir, beleza é algo muito subjetivo. Sendo assim, buscamos, acima de tudo, perfis com os seguintes pré-requisitos: Masculinidade, Discrição, “Conjunto da obra” interessante, Ousadia. Vale ressaltar que a busca pela masculinidade não se trata de preconceito com os ditos efeminados, e sim uma adequação ao tipo de perfil que os próprios clientes dessa festa buscam. Homens másculos (jeito, voz e atitude de homem), discretos e não afeminados independente de serem ativos, passivos ou versáteis são bem vindos. Bissexuais e alguns “Heterossexuais” também participam dessa orgia. Para aqueles que gostam de dar pinta, gritinhos e outras frescuras, favor deixá-las do lado de fora. A festa é para sexo grupal entre machos. Ninguém gosta de, na hora em que está fudendo, que apareça uma pintosa perguntando se está tudo bem com a amiga. Sejamos conscientes, por favor! O local é para fuder, mas não com a paciência.

Um dos clientes definiu o perfil das festas da seguinte forma: “é como se fosse o local onde Super-Homem se encontrasse com o Batman para curtirem uns lances enquanto Louis Lane e Batgirl vão ao shopping. Já o Robin ficaria de fora. Ele é até gostosinho, mas dá muita pinta”.

O perfil de homem desejado, portanto, corresponde a essas imagens de masculinidade que capturam os desejos dos frequentadores dessas festas. Espera-se que os clientes que comparecem nas festas abertas e ainda mais naquelas em que há processo seletivo correspondam e, mais importante, saibam performatizar esse perfil. Percebe-se que a discussão não passa, inicialmente ao menos, por fatores como beleza, aparência estética ou preferências por posições sexuais, como ativo ou passivo, mas por serem todos os frequentadores, a princípio, “machos” e estarem entre iguais. É essa masculinidade compartilhada principalmente no gosto e\ou no desejo de estar entre outros “machos” que diferencia essa reunião de homens e a existência dessas festas.

As imagens e modelos de performance acionados são aqueles que já estão presentes dentro de uma imagética que nos acostumamos à associar a determinada noção de masculinidade. Como no exemplo dos super-heróis acima citados ou mesmo da figura do “homem heterossexual casado”. As imagens usadas nos cartazes e flyers de propaganda dessas festas, por exemplo, utilizam-se de fotos de jogadores de futebol, militares, lutadores de artes marciais, figuras tidas como exemplares de virilidade, que acionam e capturam desejos. A masculinidade aqui, portanto, persegue algumas convenções ou “scripts de gênero” (Gagnon, 2006) que valorizam determinados roteiros já estabelecidos de virilidade1.

Do meu ponto de vista, os espaços dessas reuniões de orgia funcionam como verdadeira “casa dos homens”, ou seja, aquele “conjunto de lugares aos quais os homens se atribuem a exclusividade de uso e/ou de presença” e que “estrutura o masculino de maneira paradoxal e inculca nos pequenos homens a ideia de que, para ser um (verdadeiro) homem, eles devem combater os aspectos que poderiam fazê-los serem associados às mulheres” (Welzer-Lang, 2001: 462). Welzer-Lang está falando da presença em algumas culturas de lugares onde a homossocialidade pode ser vivida e experimentada. Não é só um lugar onde os homens conviveriam entre iguais, mas também no qual aprenderiam a ser homens. Espaços de homossocialidade e de pedagogia. “Nesses grupos, os mais velhos, aqueles que já foram iniciados por outros, mostram, corrigem e modelizam os que buscam o acesso à virilidade” (op. cit.). É o que acontece no contexto pesquisado, onde a dinâmica de uma “putaria entre machos” (e seus roteiros) é algo que se aprende aos poucos, através da interação entre aqueles que já são veteranos na prática e os que estão começando a experimentar. Uma “casa de homens”, portanto, voltada para a gestão e prática de uma masculinidade específica.

A ideia de um local onde “se fazem” homens pode ser vista no exemplo das idas em grupo a essas festas. É muito comum ouvir de alguns dos participantes que, nas primeiras vezes, eles tinham, mais do que receio, um certo medo de ir às orgias sozinhos. Eram levados por amigos ou conhecidos que já frequentavam, alguns acompanhados de seus namorados ou maridos. E a maneira como se comportavam na festa deixava clara sua inexperiência2. Há uma curiosa analogia com o comportamento dos homens de práticas heterossexuais que, dentro de um modelo heteronormativo, vão com amigos para bordéis, clubes ou “puteiros”, ou mesmo a boates “para pegar mulher”, “para a guerra”, etc. Percebe-se a mesma empolgação infantil, risos, conversas próximas para convencer os indecisos. Notei isso várias vezes quando na chegada às festas havia a presença de grupos de amigos decidindo se entravam ou não. Pareciam participar de ritos de iniciação sexual tão característicos do universo masculino (mesmo em contextos não urbanos) e constantemente representado em filmes e livros, por exemplo.

Há a preocupação, portanto, com certa pedagogia nessas festas para que aqueles que estão começando a frequentá-las saibam como agir, como se portar, como ser homem dentro daqueles espaços. Há o esforço de que seja um evento entre iguais. É claro que a busca pelo igual ou “semelhante” esbarra na multiplicidade de participantes que pululam durante as festas e acaba sendo fonte de tensão e conflitos, quando determinadas hierarquias e normas se apresentam com força.

Entre diferentes, uma masculinidade hierarquizada

O princípio da masculinidade nessas festas é atravessado o tempo todo por fatores interseccionais. Há tempos e espaços de masculinidade; há fatores externos que aumentam ou diminuem o desejo entre esses homens. Fica difícil, por exemplo, traçar um perfil relativo à classe, raça, idade ou forma corporal dos participantes das festas. Isso talvez seja mais fácil nas festas com processo seletivo, mas naquelas em que qualquer um pode ir, torna-se quase impossível. A percepção dos próprios participantes não é unânime em relação a quais festas compareceriam as “pessoas mais bonitas”, ou quais têm “mais fortinhos”, mais “negros”, ou mais “velhos e gordos”, ou nas que “dá mais pobre”. Essas percepções são cambiantes entre os frequentadores e muitas vezes se distanciavam das que eu mesmo tinha sobre cada uma dessas festas. Ao que parece, a percepção sobre o público e a qualidade das festas tinha a ver com a presença do tipo de homem que se desejava, que mais atraia e, por exclusão, com a ausência dos que apresentavam características que mais incomodavam, aquilo que era considerado abjeto para os participantes.

O primeiro recorte sempre lembrado tem a ver com o papel do feminino nesses lugares. O tempo todo o que se evita é a figura da “bichinha”. Em pesquisa sobre clubes de sexo paulistas para homens, Braz alerta que a masculinidade nesses espaços não se opõe necessariamente à feminilidade, mas sim à “bichice” (2007, 187). Já que esses eventos excluem a figura da mulher, o que incomodaria e o que a todo momento se esforça por distanciar é a figura ambígua do homem afeminado. A preferência generalizada é por homens “straight acting”, ou seja, homens que, ainda que façam sexo com outros homens, não sejam afeminados, supostamente “passem por” heterossexuais e sejam “palpavelmente masculinos” (Amico, 2001)3.

Os exemplos dessa atitude são inúmeros e vão desde a preocupação dos próprios organizadores - “coloco [como disse um deles] o preço da festa mais caro para nivelar e para evitar as bichinhas ralé, que fazem escândalo” - até as manifestações dos participantes: “não gosto de homem que se demonstra assim… tem que ser homem. Desmonta na hora, não antes!”. Certa vez, um dos participantes me disse em tom crítico que, apesar da grande quantidade de gente na festa, não estava gostando: “muita bicha afeminada, bêbada e quá-quá”. Os comentários desses interlocutores desdobram-se em várias questões: a do autocontrole tanto para não “dar pinta”, quanto para saber quando parar de beber, e a da associação entre afeminação e classe (a “bicha quá-quá”, ou seja, pobre), mas que também pode ser lida no eixo do autocontrole, já que a esse tipo de “bicha pobre” associa-se o não saber se comportar, se conter, se segurar, associando-se ao escândalo, ao chamativo e ao afeminamento.

É curioso perceber como a questão do pertencimento de classe pode aparecer num local como esse, no qual pouco se conversa e com todos os participantes praticamente sem roupa. Ainda que poucos sinais possam ser emitidos, como detalhes das marcas mais ou menos caras de cuecas ou sungas, o cheiro corporal (seja de suor ou da fragrância do perfume, reconhecido como sendo importado ou não) e o uso de alguns acessórios, o recorte de classe vai corresponder a determinados estereótipos compartilhados e, principalmente, ao comportamento e ao autocontrole apresentado nos eventos4.

É igualmente importante o recorte relativo à idade e à forma corporal. A presença de “velhos gordos” seria sempre acionada para denotar a decadência de alguns lugares ou para dizer o quando uma festa foi boa ou não. Como disse um dos frequentadores: “Nossa, a última festa estava horrível, só velho gordo, parecia um baile da terceira idade isso daqui, ou uma clínica geriátrica”. Para além do fato de que, para a maioria dos participantes, esses corpos não serem desejáveis, parecia-me que um dos incômodos gerados pela sua presença era que lembravam a todos o inevitável envelhecimento e o natural “desgaste” físico, como disse um dos interlocutores: “eu nem gosto de ver, já imaginou chegar nessa idade e ficar desse jeito, tendo que vir aqui... eu teria muita vergonha, ninguém ia me querer…”5.

Do meu ponto de vista, a questão da velhice estaria vinculada à manutenção da forma corporal e evitação de uma imagem de deterioração física. Assim, essa imagem negativa atrelada ao envelhecimento podia ser revertida caso comparecessem outros atributos, como corpo musculoso e “atitude de macho”. Como já apontado por Simões (2004), há entre jovens gays, por exemplo, certa valorização da “maturidade”, sendo a “experiência” que viria com a idade um sinal de prestígio. O autor fala de uma mudança do estereótipo relacionado ao “velho”, como símbolo de decadência física e sexual, para a figura do “coroa”: “um homem maduro de modos viris, que tem saúde, disposição física, apresentação pessoal e dinheiro suficiente para frequentar alguns espaços e também tentar a sorte no mercado da paquera” (Simões, 2004: 420). O envelhecimento acompanhado de um trabalho de cultivo de si e de apresentação de determinada imagem, principalmente corporal, poderiam ser fatores de prestígio ao invés de um atributos negativos6.

A descrição da interação que mantive com um dos interlocutores, a quem chamo aqui de Felipe, pode deixar mais clara a hierarquia de masculinidades nesses locais. Felipe é moreno, alto, não apresenta um corpo musculoso, mas deixa claro que costuma se cuidar para não ficar muito fora de forma. Ele tenta uma aproximação comigo e eu lhe digo que sempre o via ali, mas que nunca tínhamos conversado. A aproximação continua com ele dizendo que eu fazia o seu “tipo”. Pedi que me explicasse melhor e ele foi enumerando suas preferências e o que não gostava e não “curtia”:

Isso aqui já foi melhor. Hoje está muito caído. Parecendo até baile da terceira idade! Cheio de negro também...nada contra, mas não curto muito. Não é preconceito não, é que eu não tenho tesão, vou fazer o quê? [Nesse momento entra no quarto um senhor que aparentava uns 60 anos e que usava uma cueca bem apertada e fina que, segundo Felipe, mais parecia uma “calcinha fio dental”]. Eu acho meio deprimente, cara. Vir aqui nessa idade, nessa situação [...] Eu tento não ser grosso, mas eles são abusados! Espero chegar nessa idade com dinheiro para pagar e não precisar vir nesses lugares, ou então estar casado com alguém. Não ficar agarrando o pau dos outros em dark room e ouvindo desaforo. Porque eles pegam à força quase. Tem um negão que vem aqui [...] que sempre vem falar comigo. Já falei que não curto, converso numa boa e ele diz que é porque eu não experimentei um [negro] direito. Besteira, você vê que eles mesmos não se atraem. É tão difícil ver casal de dois negros. O mais comum é um negro com um branco, se for loiro ou loira então! [Tento provocar dizendo que ali no escuro e na orgia talvez fique meio difícil manter isso e selecionar dessa maneira, ao que ele concorda] Ah sim, tô te falando das minhas preferências, todo mundo tem, né? No escuro da putaria é outra coisa… É que nem negócio de dar. Eu sou ativo, não curto dar. É muito difícil chupar alguém ou dar para alguém aqui. Eu precisaria estar com muito tesão na pessoa. Você, por exemplo, eu chuparia fácil. Branquinho e loirinho assim… Só não te daria porque você é muito baixinho para me comer. Acho muito sujo dar para qualquer um nesse lugar. É que nem um loirão gringo que veio uma vez. O cara era lindo, lembra dele? Porra, mas dava para qualquer um que chegasse nele, principalmente para os negões. Era só chegar perto que ele dava para a pessoa!

O mais curioso para mim, que já tinha visto Felipe em outras festas, foi que já o tinha observado fazer tudo isso que ele disse não gostar\curtir\ser: interagir com negros, mais velhos, afeminados, “chupar” e “dar” para outros caras na frente de outros. Mas o fato de ele justificar com “pelo menos não é minha preferência nem prioridade” é característico de como as interações nesses espaços são atravessadas por critérios de hierarquia e exclusão apenas em certo plano do discurso, ou seja, aquele que desenha “a primeira opção”7. Além disso, a intensidade da efervescência nas interações realizadas nesses espaços pode embaralhar divisões e hierarquias.

De todo modo, é preciso explorar melhor o padrão de masculinidade produzido nesses eventos. E tal padrão fica mais claro na construção de um determinado modelo que foi chamado em uma das festas de “caráter espartano”.

“Caráter espartano” x “gaysmo”

A figura do homem de “caráter espartano” me foi apresentada em uma das festas de orgia que acompanhei. Como seu organizador faz questão de enfatizar, sua proposta de evento seria muito mais que uma festa de ou para a “putaria”. Estaria mais próxima a um clube privê, ou seja, um espaço aberto apenas a um seleto grupo de pessoas, um “clube espartano” como ele o define. Segundo declarou, o primeiro o objetivo ali não seria o sexo e sim o flerte, a sedução, a experiência de cobiçar e ser cobiçado. Nele, só entrariam clientes aprovados por ele e para ser aprovado não seria determinante o dinheiro que o cliente estaria disposto a pagar na entrada, mas sim a apresentação corporal e o “dote” (tamanho do pênis):

Para ser sócio do clube o cliente tem que ser fisicamente atraente, não necessariamente sarado e preferencialmente dotado. Meu objetivo é que os sócios do clube sejam atraentes para que eles curtam a experiência de cobiçar e serem cobiçados com discrição, conforto, sofisticação e segurança. Por isso esses pré-requisitos são importantes. Além do mais, sexo é um detalhe. O objetivo é que o cliente relaxe, curta um som maneiro, beba um drink bem feito e saboreie uma comida gostosa. Sem falar que a decoração é bem diferente de um clube convencional. Aqui não tem cheiro de eucalipto!

Sobre a seleção dos “sócios”, tanto o organizador quanto alguns clientes afirmam ser questão complicada. Inicialmente havia três formas de avaliação: ser convidado; mandar fotos de rosto e corpo nu via email ou whatsapp; ser avaliado na recepção do próprio evento, como aconteceu comigo em um dos eventos que observei. Digo que havia essas formas, porque com o tempo percebi que a organização estava abrindo mão desse processo. Como declarou um dos organizadores:

Causava muita confusão e era muito estressante para mim ter que barrar a entrada de alguém, dizer que ele não corresponde ao nosso perfil. Hoje faço algo mais cruel: eu deixo entrar, porque acaba que a seleção vai ser feita ali na própria interação naturalmente. O público vai dizer se ela é dali ou não, a própria pessoa vai perceber que não faz parte do lugar, não vai conseguir fazer nada com ninguém, vai ser rejeitada, etc etc.”

E vai ser justamente sobre apresentar ou não um “caráter espartano”, que se elabora o princípio seletivo da masculinidade nesses espaços. A ideia de uma “masculinidade espartana” vincula-se à uma leitura particular das relações que existiriam entre homens na antiga Esparta, tendo sido divulgada no Brasil, em textos publicados na internet e de fácil acesso, através da interpretação dada a tais relações por Ricardo Líper8. Os textos publicados por esse autor são utilizados como base não só da organização e seleção do público, como também da elaboração dos anúncios de propaganda escritos pelo organizador que, a todo momento, nas conversas com os participantes, os divulga e até mesmo os leva para grupos de discussão.

Ser um homem de “caráter espartano”, como entendido aqui, é recuperar uma masculinidade que, de alguma forma, teria se perdido nos dias de hoje. Um jeito de ser homem que só é possível entre outros homens, entre iguais. Daí, inclusive, uma justificativa para a existência de lugares como esses que funcionariam como uma espécie de “casa de homens”, de enclave em que se poderia experimentar essa forma de masculinidade e ser “homem de verdade”. Nesses espaços, se aprenderia e simultaneamente se forjaria uma forma de ser homem baseada nesse “caráter espartano”, que é entendido como um tipo de filosofia, de liberdade de expressão, de liberdade de um desejo e de um jeito de ser, de algo, enfim, muito diferente e oposto do que se entende, nessa lógica, como gay, como “gaysmo”. Um dos cartazes de propaganda distribuídos durante um evento define o que é ser um homem com “caráter espartano”, chegando a funcionar como um código de ética. Nele se lê:

Caráter espartano é ser simplesmente homem; é gostar e se admirar como homem; é ter virilidade; é se bastar como homem; é gostar sexualmente de outro homem sem deixar ou renegar sua masculinidade. Se veste como homem, fala como homem; anda como homem; age como homem; não é separatista; não é colorido; não levanta bandeira; não vive o gaysmo; não é feminino; não curte o afeminado. Sexo entre homens é de homem para homem. Não se droga, não bebe, não perde seu eixo. Tem vida saudável, cuida do corpo, vive bem. É inteligente, discreto, não gera tumulto. Ser um homem de caráter espartano é ser um homem de verdade.

Apesar do tom essencialista, há uma diferenciação que se faz presente nas falas dos participantes sobre ser gay, já que até poderiam ser gays lá fora, mas durante o evento teriam que se comportar de outro jeito9. A ideia de “gaysmo”, portanto, é entendida como todas as “obrigações e separações impostas pelo mundo gay hoje em dia”, atrelada a uma agenda política de identidades que não os representaria e que não seria seguida ou acompanhada pela maioria dos que comparecem a esse tipo de evento. Tal agenda é comparada inclusive a um processo de “lobotomização” que difundiria a futilidade e através do qual se efeminaria a estética masculina e se perderiam os valores viris10.

O desejo pelo “macho”

Se, como pude perceber em campo, a “putaria”, na efervescência das interações sexuais, tem a potência de borrar ou mesmo fazer com que determinados marcadores sociais da diferença percam seu peso e seu poder de hierarquizar,11 isso não ocorre com o princípio da masculinidade. É inclusive nesse aspecto que as diferenças e desigualdades vão ser mais marcadas e assim, motivo de alguns conflitos.

O que parece demarcar mais profundamente as tensões é o esforço em garantir uma masculinidade que, a princípio, poderia ser entendida como minada em sua base, já que se trata de homens cujas práticas sexuais acontecem com outros homens, colocando como contradição a ideia de ser homem (e a posição privilegiada que decorre desse fato em nossa sociedade) e a de ser homossexual (figura subalterna e estigmatizada). O que causa problema nesse contexto não é obviamente o desejo homossexual e sim o medo da homossexualidade enquanto categoria classificatória e identitária agregada a valores desprestigiados. Isso que é atualizado na oposição “caráter espartano” X “gaysmo”.

Duas situações presenciadas durante a pesquisa exemplificam o desconforto mais geral que pode surgir dessa diferenciação entre “homem espartano” e “homem gaysta”. A primeira diz respeito à discussão presenciada entre o organizador da festa e um cliente que se dizia “ativista gay”, que o acusava de homofóbico e de promover reunião de homofóbicos, de querer negar que era gay. O organizador se defendia dizendo que não era homofóbico, apenas não queria seguir as “regras cagadas pelo movimento” e que se ele achava que aquela era uma reunião de homofóbicos, por que continuava a frequentar o espaço? A segunda situação ocorreu durante a apresentação de um show em uma outra festa, que sempre terminava com uma série de apresentações em um palco improvisado. Nele aconteciam performances de drag queens com dublagens ou de humor stand up, seguidas de shows de striptease de modelos contratados e performances de sexo ao vivo nas quais, em determinado momento, os atores se misturavam com a plateia. Em uma dessas apresentações, um cliente incomodado com as piadas referentes gays ou a homens efeminados, subiu ao palco e disse que achava absurdo as “zoações” e xingamentos que tinha ouvido naquela tarde. Disse: “Pra que isso? Vamos deixar claro, aqui todo mundo é gay, não importa o que digam, não tem que se fazer essas separações e muito menos ter preconceito”. Toda a sua fala foi acompanhada por risadas, um princípio de vaia, e gritos de “não atrapalha, para de falar, continua o show”. O rapaz desceu do palco e o organizador disse no microfone: “depois do horário político vamos voltar com nossa programação normal”.

Como se vê, os diferentes modelos de construção identitária existentes na sociedade brasileira12 atravessam o espaço das festas, causando eventualmente essas irrupções de tensão. O que não implica que as relações nesses eventos se dêem em termos de um dilema entre “ser ou estar homossexual” (Heilborn, 1996). Meus interlocutores não parecem se debater em tal dualismo. Porém, o que percebo é um esforço por uma apresentação de homem “macho e discreto” que não perturbe as convenções de gênero e que não motive nenhum tipo de rotulação estigmatizante ou bandeira de luta política, que se passe por um “homem normal”. O mesmo “desejo pela cultura heterossexual e seus privilégios” ou “a premissa de que a heterossexualidade é, em parte, uma fetichização do normal” (Ward, 2015, 35), é também perceptível no contexto que estamos tratando. Um desejo de não ser marcado sexualmente e que só pode ser possível na medida em que se reproduz uma generificação heteronormativa. A própria produção e erotização dos corpos tidos como mais masculinos, viris e discretos vem desse desejo de se relacionar com outros homens sem que isso implique a exposição pública do desejo, “fato compreensível em uma sociedade que tem acolhido homossexuais nos espaços públicos demandando que não sejam reconhecíveis como tais” (Miskolci, 2015, 69).

O centro da discussão motivada pelas festas parece ser o lugar que o feminino pode ocupar. Percebe-se que apesar da força de exclusão, ele não está totalmente ausente. A masculinidade nas festas envolve, portanto, todo um controle principalmente da performance máscula e viril que evite qualquer coisa que lembre o feminino. Até mesmo o silêncio em que as interações acontecem contribue para isso. Não foram poucas as vezes que ouvi reclamações de alguns participantes que após terem transado com uma pessoa em total silêncio, foram para outro espaço e lá, mais à vontade e conversando, ela demonstrou uma “pinta” que desmontava a imagem anterior. “Antes no escuro e sem abrir a boca”, como me disse o parceiro decepcionado. A performance masculina, portanto, não só é passível de falha como também pode ser manipulada pelas pessoas que se reúnem ali.

Aquele que acaba por não corresponder ao perfil ou que não tem o controle de si para performatizar a masculinidade desejada é deixado de lado nas interações sexuais, torna-se motivo de comentários e é lido na chave do humor. O princípio da masculinidade é gerido a todo momento, o controle sobre o próprio corpo para que não se “empolgue” muito ao dançar com a música pop ou eletrônica do ambiente e também sobre a bebida “para que não se solte muito”, mas principalmente durante as interações sexuais. Como comentou um interlocutor:

Acho primordial a masculinidade. A pessoa que vem aqui pode, por exemplo, dar para todo mundo na festa, ser passivo o tempo todo, mas ele tem que ser másculo, não precisa ser afeminado só porque dá.

Pelo princípio da masculinidade produzido nessas festas de orgia entre homens, a diferença entre aquele que penetra e aquele que é penetrado não está posta em termos de hierarquia, ou de alguma posição valorativa13. Nesses eventos não se é mais ou menos homem se você se deixa penetrar, desde que, é claro, você “dê como um macho”. Dentro de uma lógica de “machonormatividade”, como afirma Braga:

A dicotomia ativo\passivo tende a deixar de ser correspondente a masculino\feminino, em um esforço de concentração da masculinidade nos componentes simbólicos de “jeito”, “atitude”, “voz”, “postura”, atualização de certos valores masculinistas clássicos, que passa a incluir não só o sexo entre homens, como a própria posição do passivo, bastando para isso afirmar sua condição de macho, amparado pelos indicadores acima. Assim “macho passivo” deixa de ser uma impossibilidade, através do alinhamento desses dois quadros de referência: o da masculinidade convencional e o da posição sexual dessencializada, por assim dizer. E essa possibilidade se dá através da substituição da dicotomia ativo\passivo como fronteira da “macheza” para uma nova oposição, desta vez entre machos e afeminados (2013, 30)

Quando, por exemplo, alguém se altera durante o sexo e começa a gemer de modo considerado muito alto, em um tom considerado muito fino ou de uma forma muito “aviadada”, é logo admoestado pelo restante do público, seja pelos pedidos de silêncio, seja pela “zoação” mesmo. No dark room, por exemplo, um gemido mais agudo pode ser repreendido com alguém imitando uma voz afetada: “Para de gemer! Até parece que tá doendo assim, sua larga!” Brigas, discussões e xingamentos são comuns durante a festa justamente pelo fato de alguns participantes não saberem se portar segundo os padrões de masculinidade vigentes nesses espaços. A performance do “macho” é a manutenção da “respeitabilidade” nesse contexto. A feminilidade ou a “bichice” são um desrespeito nessas orgias, ferem as regras locais.

Essa “respeitabilidade” envolveria principalmente, claro, uma performance máscula, viril, mas que, ao mesmo tempo, engloba toda uma ética de comportamento específica. A manutenção do princípio da masculinidade funcionaria, portanto, quase como uma dietética, tal como proposta por Foucault para pensar a maneira como as pessoas conduziam a própria vida na Antiguidade (2009).

Há aqueles que não se importam, de fato. Um grupo de quatro ou cinco amigos, por exemplo, que sempre fica em uma das festas reunido na entrada do dark room. Demonstravam ser o contrário do que os princípios da festa buscam produzir. Eram femininos, faziam muito barulho, falavam o tempo todo, usavam gírias do “universo gay”, chamavam a si e aos outros no feminino e ficavam ali “xoxando as pessoas”14 que entravam e saíam do dark: “nossa, mas esse pinto é muito pequeno, parece mais um grelo! Esse daí tira onda de ativo, mas a gente sabe que é passiva”. Comentários na maioria das vezes depreciativos, mas também elogiosos para aqueles que despertavam interesse. O grupo em si representava algo que não é bem vindo ali. Ficavam concentrados num lugar liminar entre a claridade e a penumbra do dark room, onde acontecia a maior parte das interações nessa festa, usando um humor ferino para toda a situação e para todos que passavam, inclusive para si mesmos. Ouviam várias respostas: “Nossa, estão derrubando o armário hoje, hein!” ou “Quanto miado!” e até algumas imitações exageradas. Quando perguntei por que não entravam no dark, responderam-me que não podiam entrar “todas juntas senão daria confusão. Tinha que ser uma de cada vez”. Sabiam que não podiam ter o mesmo comportamento lá dentro, o que poderia gerar alguma briga mais séria, mas mesmo assim dali se faziam notar e incomodavam quem passava, chamando a atenção com o humor.

“Habitando a norma”, o exagero que (des)faz gênero

Ainda que a maioria dos participantes dessas festas tenha um conhecimento geral do circuito de eventos de orgia que acontecem pela cidade, não chegam de fato a acompanhar ou frequentar todos. Quando, certa vez, comentei sobre a existência de uma festa que acontecia em um “club privê” em que se exigia um perfil de “homens magros, sarados, boa pinta, em boa forma física e dotados”, fui interpelado: “nossa, me explica mais como funciona esse clube de arianos bombados”. Esse comentário me causou grande surpresa. Primeiro porque não tinha conseguido entender como a minha fala tinha provocado a compreensão de que poderia ser um lugar exclusivo para pessoas brancas e musculosas. Segundo, e mais importante, porque percebi que, ironicamente, a maior parte dos frequentadores desse club privê eram, na verdade, negros e “ursos”.

Essa predominância de negros e “ursos”, segundo eles, não era à toa e tinha tudo a ver com a filosofia do “caráter espartano”. Nesses espaços, seriam justamente os negros e os “ursos” os últimos guardiões dessa masculinidade perdida, tomada pelos valores do “gaysmo” contemporâneo. Os negros, pelo fascínio, já apontado por outros autores, que emana dos atributos sexuais de corpos negros. A masculinidade do homem negro provém de uma associação entre negritude e animalidade, apontada por Perlongher como uma “herança da época da escravidão onde era negada a humanidade do africano e o destinava exclusivamente ao trabalho braçal. Daí o folclore do negro forte, machão, violento, e que possui o pênis de proporções gigantescas” (1987: 152).

“Ursos”, segundo Carlos Figari (2007), perfazem uma determinada forma de representação masculina surgida no final do século XX e início do XXI em contraposição a uma estética “gay”, particularmente a chamada de “Barbie”, representada, por sua vez, pela figura de homens muito musculosos, depilados, de roupas justas e coloridas. Os “ursos” se diferenciariam pela busca em preservar características que são tidas como mais viris e mais másculas: corpo volumoso, peludo, barba, roupas sóbrias, enfim a projeção de uma imagem masculina de aparência bruta, não efeminada15.

Compreendo o espaço das festas de orgia nos termos do que Preciado chamou de “pornotopia” (2010), noção sobre a qual, por ora, não é possível maior aprofundamento, mas da qual caberia destacar a ideia de que existem na cidade “lugares outros” onde representações e normas de gênero e sexualidade podem ser suspensas, contestadas e/ou invertidas; o que se encaixa muito bem no que à primeira vista pode-se perceber desses homens que se reúnem periodicamente para se engajar em uma interação sexual grupal e coletiva. Acontece que o princípio da masculinidade, como produzido nas festas, não difere daquele postulado no restante da sociedade. Como vimos, não há uma busca transgressora no sentido de se forjarem formas “revolucionárias” de ser homem. Muito pelo contrário, há uma busca pela figura normativa de homem, de uma “natureza própria e verdadeira” desse homem, seja ela entendida e chamada de “heterossexual”, de “macho” ou de “caráter espartano”. É essa figura que é desejada e que se busca forjar nesses eventos.

A questão é que esse valor de masculinidade funciona nesses espaços como uma caixa de ressonância, amplia-se e é elevado a outras potências. Espera-se que você aja/seja mais homem que a imagem do homem másculo e viril convencional. Alguns autores marcam isso como valorização de uma “hipermasculinidade” ou “hipervirilidade”. Prefiro pensar que no contexto das festas de orgia o que se pratica é uma masculinidade exagerada. A escolha do adjetivo (exagerado) é para que se perceba que o “ser macho” nesse contexto é tão valorizado que pode alcançar níveis paradoxais, abrindo a possibilidade para aquilo que Butler chama de “paródia de gênero” (2003).

Assim como Pocahy (2011: 42), busco fugir da ideia de “masculinidade hegemônica”16, ainda que reconheça o valor desse conceito. O que percebi em campo foi um confronto diferenciado entre práticas de reiteração das representações de masculinidades agenciadas a práticas de prazer. Para a análise das festas de orgia entre homens que acompanho, além de Judith Butler, recorro a ideias de Saba Mahmood, que vem desenvolvendo de forma inovadora a ideia de agência no campo dos estudos sobre gênero e sexualidade. Se como quer Welzer-Lang, a “casa de homens” é um local de construção de gênero, de forjamento de homens, concordo com Judith Butler quando diz que toda construção de gênero também é uma possibilidade de desconstrução (2004: 67-88). Se a performatividade “faz” sexo/gênero, como diz a autora, um gênero também pode ser desfeito. Ou seja, a agência performativa dos indivíduos abre a possibilidade de (re)produção em que as normas do sistema sexo/gênero e da própria matriz heterossexual podem ser subvertidas ou reconsideradas (2003: 185-201). As práticas de exagero, afetação e paródia, apontadas pela autora como “subversões performativas”, são possibilidades que revelam a mutabilidade dessa construção e linhas de fuga àquilo que é colocado como o próprio princípio das festas e do que é ser homem na sociedade em que vivemos. Como disse um de meus interlocutores, quando estávamos diante de uma performance característica disso que estou chamando aqui de “masculinidade exagerada”:

Olha, eu chego a achar esses caras falsos de vez em quando. É muita “macheza”, é como se fosse uma drag queen de macho! Taí, acho que é isso que a gente estava conversando outro dia, essas festas são como se fossem uma reunião de drags de macho! (grifos meus)

Ao caracterizar a masculinidade exagerada dos participantes da festa como uma forma de “drag do macho”, o comentário chamou minha atenção para o caráter performativo e “teatralizador” que essas performances do gênero masculino ali alcançavam. A “subversão” apontada por Butler está nessa exacerbação imitativa, nessa repetição um tanto quanto parodiada e superlativa do que esses homens acreditam ser um “macho” ou um “homem original”, uma “verdadeira identidade de gênero” masculina. Justamente porque, como afirma Butler, “[e]ssa repetição é a um só tempo reencenação e nova experiência de um conjunto de significados já estabelecidos socialmente; e também é a forma mundana e ritualizada de sua legitimação” (2003: 200). O que importa é esse sucesso na performance, “a obra é tudo” (idem: 48). O exagero, para Butler, é a própria possibilidade de desconstruir a suposta naturalidade ou essencialização da relação entre corpo, gênero e desejo:

“Embora os significados de gênero assumidos nesses estilos parodísticos sejam claramente parte da cultura hegemônica misógina, são todavia desnaturalizados e mobilizados por meio de sua recontextualização parodista” (idem, 197). Sua desconstrução, vale ressaltar, não significa sua destruição (Rodrigues, 2012: 155)17.

É importante frisar mais uma vez que esses espaços não são livres de toda e qualquer produção normativa. Muito pelo contrário. Como espero ter demonstrado com as descrições apresentadas, a relação entre norma\transgressão não é estática, é contextual e contingente. É preciso perceber em que medida há transgressões e em que medida há reiteração das normas. A norma até pode desaparecer por instantes, mas reaparece, causa disputas e conflitos; na maioria das vezes, entretanto, coabita e ressoa nesses eventos. Nem sempre numa lógica de resistência, como no caso do grupo que se postava na porta do darkroom fazendo piadas ou no de discursos “politizados” que irrompem isoladamente, mas muito mais frequentemente em termos do que Saba Mahmood chama de habitar a norma, “os modos pelos quais os sujeitos agem no interior das normas que os mesmos habitam” (Mahmood, 2005: 15). Para a autora, as “normas não são só consolidadas e/ou subvertidas, mas, como gostaria de sugerir, são performadas, habitadas, e experienciadas em uma variedade de maneiras” (Ibidem: 22), podendo ser até mesmo desejadas. Se o grupo da porta do dark incomoda com a performance efeminada e o humor ferino, quando seus membros vão procurar isoladamente outros corpos para as interações sexuais, buscam performatizar em si mesmos justamente aquele modelo normativo que estavam pondo a nu e criticando pouco antes. Sabem que essa é a forma pela qual vão ter sucesso nas interações que ali se derenrolam e que é assim que funciona o princípio da masculinidade nessas festas entre “machos”. E, inclusive, foi por desejar interagir sexualmente com essa figura de “macho” que foram para a festa.

Desejo reiterativo pela norma, desejo do “macho de caráter espartano”, mas que a meu ver também pode acabar por apontar, em suas perfomances exageradas, paradoxos, manipulações e fugas dessas mesmas normas. Uma produção desejante que exacerba a figura do homem e que, na intensidade da “putaria entre machos”, leva-a a seus limites. Nas festas de orgia entre homens a masculinidade é tanta que transborda, e pode transbordar não só no seu “contrário”, mas em outras possibilidades.

Conclusões

A acusação de estar dentro de um “armário” e de querer negar para si um “desejo gay”, ou mesmo a acusação de reprodução de um modelo homofóbico aparece, como vimos anteriormente, de tempos em tempos em irrupções de conflitos durante as festas. Da mesma forma, fui questionado várias vezes durante o período de pesquisa se não estava fechando os olhos para o que acontecia em campo, para algo muito mais normativo e até mesmo “perigoso politicamente falando”, já que essas pessoas representavam um certo “retrocesso” no campo político das questões de gênero e sexualidade. A exigência da discrição, de contatos e relações que tinham que permanecer em segredo, anônimas, em sigilo, e de uma masculinidade que se quer “machonormativa” seria “voltar atrás” conforme as políticas de afirmação de identidades, seria voltar a se esconder em um “armário”.

Não acho que as coisas se deem de modo tão claro assim. Concordo que as reafirmações e preconceitos homofóbicos e misóginos que alimentam tanto a violência simbólica e física em nossa sociedade estão presentes e conformam essas festas. Porém, meus interlocutores estão apresentando, ao mesmo tempo, outros agenciamentos. As relações entre norma e transgressão, prisão e liberdade, armário e exclusão aqui se dão de forma mais complexa e sem que um dos termos da oposição negue o outro. Esses movimentos convivem no mesmo “acontecimento-festa” a partir de fluxos que alternam, torcem, reafirmam ou mesmo endurecem esses discursos. As “pornotopias” das festas de orgia seriam espaços, para usar uma expressão de Barbosa (2005), de “prender e dar fuga”18. Um território onde linhas de força se cruzam no sentido de compor desejos que se querem normativos, mas que também se agenciam a tentativas de fuga, mesmo que “fugas menores”19. O que essas festas de orgia, a meu ver, estão propondo é um modo de existência, de vivenciar determinadas práticas que devem permanecer discretas. Mais por um certo “desejo de invisibilidade” (Lopes, 2007) e autocontrole de informações sobre si do que por um “armário” entendido como desejo negado ou recalcado.

Acredito que não caiba aqui um “pequeno tribunal” no qual possamos fazer o julgamento definitivo desses espaços como “armários” reprodutores de preconceitos ou não, bem como de sua eficácia política (pelo menos, dentro de uma lógica de política das identidades). O que acredito talvez seja produtivo pensar é justamente como funciona a lógica, muitas vezes contraditória, de “habitar a norma” que esses espaços e esses homens produzem, quais são as produções desejantes envolvidas e as diferentes formas de se fazer política, mesmo aquelas que reafirmam a norma ou a reterritorializam em diferentes configurações. Mesmo que seja reterritorializando o “macho espartano” em uma “drag de macho”.

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1 Em uma recente análise sobre a produção pornográfica gay, Mercer (2017) demonstra a persistência de alguns desses modelos representacionais sobre a masculinidade a partir de alguns tensores como idade, gênero, nacionalidade, cor/raça, amadorismo/profissionalismo e a sua importância dentro de uma lógica de mercado homoerótica.

2Pode-se perceber também uma certa erotização da figura do “jovem inexperiente” principalmente se for atrelada à uma apresentação corporal juvenil. São os chamados “twinks”, “novinhos” ou “lekes”, caracterizados por um corpo magro, sem pelos, de aparência adolescente. Um dos participantes que conheci, apesar de ser frequentador fiel de uma das festas, tinha como forma de sedução apresentar-se aos homens mais velhos como alguém que precisasse ser ensinado nas práticas eróticas, performatizando um gestual, um tom de voz e um discurso que faziam com que aparentasse uma idade muito inferior da que realmente tinha.

3As pesquisas que se debruçam sobre algumas performances de gênero que tem como ponto importante o conseguir “passar por”, a chamada “passabilidade”, podem trazer profundidade à análise desse aspecto. É ocaso do esforço de travestis que, até por uma questão de segurança, em suas dinâmicas públicas, procuram “passar” por mulher, ou seja, serem identificadas como mulheres “biológicas” e não “montadas”, (Benedetti, 2000).

4A questão do autocontrole e de uma apresentação performativa masculina dentro de um padrão estereotipicamente generificado também foi abordada por Carrara e Saggese (2011), como elementos que atravessam determinados casos de violência homofóbica em nosso cotidiano. A “postura masculina” pode ser tanto uma estratégia para evitar se expor à agressões (físicas e simbólicas) quanto à própria internalização e reprodução de um modelo machista e homofóbico. Mais uma vez, o que se demonstra é a importância de uma certa “passabilidade”.

5O que não impede a presença de um significativo número de participantes idosos nas festas e mesmo de pessoas com deficiência (visual, auditiva, amputações, ou má formações) e até mesmo usuários de cadeiras de rodas.

6A valorização do “coroa” também é apontada em pesquisa de Braga (2013, 77).

7Frases comuns de “preferências” relativas ao desejo, como “não curto”, “não sou”, “não gosto”, “procuro”, estão fortemente presentes no uso estratégico de aplicativos de celulares para encontros eróticos entre homens, como Grindr, Hornet e Scruff, e também são muito usadas pelos participantes dessas festas. O uso desses aplicativos, as negociações em torno de figuras de homens desejados e certa “gestão de visibilidade” vêm sendo objeto de alguns trabalhos, como os de Miskolci (2015), Braga (2013) e Bonfante (2016).

8Ricardo Líper publicou duas obras sobre o tema: Sexo entre homens e a Tradição Espartana (2005) e Os fundamentos do sexo espartano (2006). O autor divulgou esses trabalhos e suas ideias na Internet, principalmente através do site: www.espartano.org. Nele, podemos também encontrar um “Manifesto Espartano” (que ainda contém uma lista de “Dez Mandamentos”, indicações de livros e de filmes para aprofundamento sobre o conceito). Disponível em http://www.espartano.org/ser%20espartano%20e.htm.

9Não há espaço nesse artigo para o desenvolvimento do “princípio da discrição” (Barreto, 2017) e para a problematização de como meus interlocutores aliam e acionam aspectos externos e extensivos de suas vidas com momentos de intensidade das festas. Isso me impede tanto de generalizar o que se passa nesses eventos, quanto de tomar o tempo das festas como característico de outros momentos da vida dessas pessoas.

10Em uma entrevista, ao ser questionado sobre a presença de certa misoginia dentro da filosofia do “macho espartano”, Ricardo Líper defendeu: “O que existe é sexo entre homens. Se se altera esse fato se cria outra coisa. Sei que pode ser mal interpretado, mas nada tem a ver com misoginia. O que os espartanos querem é manter o gênero masculino como ele é, com todas as suas características, porque não querem androginizar-se. Tornar-se um gênero neutro que é o que os moralistas ou oportunistas querem. O receio dos espartanos é que por culpa ou modismos culturais se imite sempre o sexo entre pessoas de sexo e gênero diferentes, perdendo assim sua característica essencial que é ser sexo entre pessoas do mesmo sexo e gênero. Ele [o “macho espartano”] acha uma opressão, se ele gosta de se relacionar com outros homens, alterar sua masculinidade. Entende que a androginia é compreensível entre um homem e uma mulher para ela não ser oprimida por ele, mas entre dois homens é perder a razão de ser. Seria misoginia se criticasse o fato de uma mulher depilar-se. O que se critica é um homem depilar-se em excesso ou afeminar-se. Por que o homem teria de deixar de ser homem? Porque é politicamente correto isso atualmente. Confunde-se masculinidade com patriarcalismo. Esse é um grande equívoco. É não saber o que é o gênero masculino”. (Fonte: <http://178.79.155.229/kk2011/index.php/Main/EntrevistaComRicardoLiper>. Acessado em: 30/08/2018).

11O princípio da “putaria” não é tema desse artigo, o analiso com mais profundidade em Barreto (2017b, 2018), mas um pequeno exemplo de como ele pode desestabilizar a própria masculinidade foi observado por mim na festa em que conheci Fernando. Fernando era um dos funcionários responsáveis pela limpeza. Tinha uma apresentação corporal e performance que, nesse contexto, podemos ler como feminina. Era baixinho, magro, cabelos longos, sobrancelhas feitas, “voz fina”, calças apertadas (os funcionários não podem andar seminus, estão sempre de calça ou bermuda e com uma camisa padrão). A figura de Fernando ainda trazia ainda mais paradoxos por ele gostar de se “montar” e de, naquele momento, ter começado a tomar hormônios para compor uma figura mais feminina, o que se percebia pelos seios que começavam a despontar embaixo da camisa. Meu contato com Fernando não foi o suficiente para saber se ele se identificava como travesti ou transexual, mas o fato é que sua figura ali era lida como “a menina da limpeza”. Numa das festas, vejo Fernando saindo ofegante e seminu de uma das suítes e pergunto: “Nossa, o que que aconteceu?”. Ele responde: “Fui sugado ali para a muvuca. Que loucura! Olha, até perdi as minhas calças! (dizia cobrindo a nudez com a camisa). Não consigo encontrar naquela bagunça. Me ajuda? Não posso voltar pra lá senão vou me perder! Não queriam me deixar sair, dei para um monte! Tô no trabalho, não posso fazer um negócio desses”. As interações sexuais entre funcionários e participantes são comuns nessas festas, mesmo assim, Fernando já não estaria presente nas festas seguintes.

12Estou pensando aqui especialmente nos modelos já apontados por uma literatura referente aos estudos de gênero e masculinidade no Brasil, principalmente a partir da tensão oriunda da convivência entre dois principais modos de construção de identidades sócio-sexuais, baseados, o primeiro, no princípio hierárquico que organiza as identidades de gênero e, outro, no princípio igualitário que organiza as identidades segundo as diferentes orientações sexuais (cf. Fry, 1982 e Parker, 1992).

13Vários autores já chamaram a atenção para como o estigma em relação ao passivo sexual, do corpo que se deixa penetrar, é constitutivo de nossa sociedade e das relações estabelecidas tanto entre homens e mulheres, quanto entre pessoas de mesmo sexo (Misse, 1978; Fry, 1982; Parker, 1992; Kulick, 2008).

14“Xoxar” ou “gongar” é o mesmo que “zoar”, ou brincar provocativamente com alguém.

15Bons exemplos de como essas subjetividades e categorias de pertencimento a partir de modelos de masculinidade se constituem em um atravessamento entre consumo, identificações e as diferenças de gênero, cor/raça, geração, classe e sexualidade são apresentados na etnografia de França (2012). A autora analisa como diferentes subjetividades são construídas a partir da explosão de um mercado específico para as diferentes homossexualidades na cidade de São Paulo, mais especificamente os processos de reificação dos lugares, tornando-se eles próprios produtos consumíveis. A etnografia se centra na comparação de três espaços de lazer para pessoas LGBT na cidade de São Paulo: uma grande boate de música eletrônica, uma festa voltada aos “ursos” e um samba popular “GLS”.

16O conceito de masculinidade hegemônica foi elaborado no início dos anos 1990 por Connell (1995) para pensar a relação entre construção de gênero e hierarquia social. Influenciou toda uma geração de pesquisadores que se debruçaram sobre os estudos de masculinidade e de gênero ao pensar tanto a existência de modelos generificadores que são tidos como legítimos em estruturas de poder, quanto os chamados modelos de masculinidade “subordinados” ou “alternativos”. A própria autora buscou fazer uma releitura crítica do conceito e um levantamento dos trabalhos que o utilizam em Connell e Messerschmidt (2013).

17Esse fenômeno de afirmação de valores ligados à masculinidade e de uma figura do “homem de verdade” dentro do universo homossexual foi etnografada por Levine (1998), tendo como cenário o final dos anos 1960 e início dos 1970, principalmente em São Francisco e Nova Iorque. O autor trata da ascensão da figura do “gay macho” e de uma “subcultura dos clones”: “Eu argumento que homens gays ordenaram a sexualidade hipermasculina como uma forma de desafiar sua estigmatização como homens que falharam, como ‘bichinhas’” (Ibidem, 5-7). O adjetivo de “clone” tinha para o autor uma importância fundamental no sentido que deixava claro o tom de paródia e exagero que aquela representação masculina tinha: “O que importava era a duplicidade do estilo clone - sua autoconsciência numa quase paródia em referenciar o estereótipo de masculinidade tradicional, e seu abraço consciente desse mesmo estereótipo ao mesmo tempo. O estilo clone era tanto paródia quanto emulação” (Ibidem, 59).

18O autor usa a expressão para pensar as dinâmicas que se dão no espaço e convívio prisional do Rio de Janeiro. A imagem é de linhas de força que atravessam continuamente esses espaços.

19A própria ida a esses lugares é certamente uma fuga, mas não apenas passiva (como uma negação, a fuga pelo/para um “armário”), é também ativa, assertiva e inventiva. A “contra-casa” ou a “pornotopia”, “também é um outro lar, menos sufocante, uma fuga de família, uma família ideal, em que se nutre uma outra forma de intimidade partilhada” (Lins, 2013, 46-47)

*Bolsista PDJ/CNPq (Processo 150721/2017-0).

Recebido: 20 de Julho de 2017; Aceito: 10 de Maio de 2018

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