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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.30 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1984-6487.sess.2018.30.06.a 

Artigos

A metamorfose de Adelina Gomes: gênero e sexualidade na psicologia analítica de Nise da Silveira

The metamorphosis of Adelina Gomes: gender and sexuality in the analytical psychology of Nise da Silveira

La metamorfosis de Adelina Gomes: género y sexualidad en la psicología analítica de Nise da Silveira

Felipe Magaldi1 

1Instituto de Antropología de Córdoba, UNC-CONICET, Córdoba, Argentina

Resumo

Este artigo trata do caso de Adelina Gomes (1916-1984), interna no antigo Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, entre 1937 e 1984, ano de seu falecimento. Adelina tornou-se conhecida pela produção de mais de 17.500 obras, entre pinturas e esculturas. Tal material pôde existir graças à atuação da psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), responsável pelo pioneirismo na implementação terapêutica de oficinas expressivas no hospital em questão. O caso clínico da paciente, tal como analisado por sua terapeuta, é utilizado para explorar o modo pelo qual os problemas de gênero e de sexualidade se imprimiam nas instituições psiquiátricas e nos saberes médico-psicológicos durante o século XX, com especial referência à psicologia analítica de C.G. Jung e sua apropriação por Nise da Silveira. A partir de análise de documentos bibliográficos, sustenta-se que esse saber, embora diferenciando-se da psicanálise freudiana e da medicina somática, opera a partir de uma naturalização em relação ao estatuto do feminino.

Palavras-chave: psiquiatria; psicanálise; psicologia analítica; Nise da Silveira; Carl Jung

Abstract

The case of Adelina Gomes (1916-1984) is analyzed in this article. She was an intern in the old National Psychiatric Center of Engenho de Dentro, in Rio de Janeiro, between 1937 and 1984, the year of her death. Adelina became known for producing more than 17,500 works, including paintings and sculptures. These materials could only exist due to the action of the Alagoas born psychiatrist Nise da Silveira (1905-1999), responsible for pioneering in the therapeutic implementation of expressive workshops in the referred hospital. The clinical case report of the patient, as analyzed by her therapist, is used to explore the way in which issues of gender and sexuality were imprinted in psychiatric institutions and medical-psychological knowledges during the twentieth century, with special reference to the analytical psychology of C. G. Jung and its appropriation by Nise da Silveira. Through the analysis of bibliographic documents, it is arguented that this knowledge, although differing from Freudian psychoanalysis and somatic medicine, operates a naturalization in the statute of the feminine.

Key words: psychiatry; psychoanalysis; analytical psychology; Nise da Silveira; Carl Jung

Resumen

El artículo aborda el caso de Adelina Gomes (1916-1984), interna en el antiguo Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro, en Río de Janeiro, entre 1937 y 1984, año de su fallecimiento. Adelina se hizo conocida por la producción de más de 17.500 obras, entre pinturas y esculturas. Tal material pudo existir gracias a la actuación de la psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), responsable por el pionerismo en la implementación terapéutica de talleres expresivos en el hospital en cuestión. El caso clínico de la paciente, tal como analizado por su terapeuta, se utiliza para explorar el modo por el cual los problemas de género y de sexualidad se imprimían en las instituciones psiquiátricas y en los saberes médico-psicológicos durante el siglo XX, con especial referencia a la psicología analítica de C. G. Jung y su apropiación por Nise da Silveira. A partir del análisis de documentos bibliográficos, se sostiene que ese saber, aunque diferenciándose del psicoanálisis freudiano y de la medicina somática, opera a partir de una naturalización en relación al estatuto del femenino.

Palabras clave: psiquiatría; psicoanálisis; psicología analítica; Nise da Silveira; Carl Jung

Introdução

Adelina Gomes (1916-1984), modesta mulher negra originária do interior do estado do Rio de Janeiro, foi internada no Centro Psiquiátrico Nacional do Engenho de Dentro no ano de 1937, aos 21 anos de idade. Diagnosticada com esquizofrenia, passou o resto de sua vida internada, vindo a falecer no ano de 1984. Nesse período, a despeito de sua existência reclusa, produziu mais de 17.500 obras entre pinturas e esculturas, em sua maioria retratando mulheres e flores.

Tamanho material pôde existir graças à atuação da psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), responsável pela implementação terapêutica de oficinas expressivas no hospício em questão. O encontro de Nise e Adelina, além de ensejar uma profusão de formas e cores, constituiu tema de livros, exposições e documentários. Forneceu, ainda, matéria-prima para a fundação do Museu de Imagens do Inconsciente (1952) no interior da mesma instituição. Em seus textos, a médica registrou um estudo sobre as imagens criadas por sua paciente, associando-as a mitos e símbolos que considerava fazerem parte de um inconsciente coletivo, comum à humanidade.

Este trabalho se propõe a tomar o caso clínico de Adelina Gomes, tal como analisado por sua terapeuta, como uma pedra de toque para explorar o modo pelo qual algumas questões de gênero e de sexualidade se imprimiam nas instituições e saberes psi durante o século XX. A ênfase da análise é conferida aos problemas relativos ao estatuto do feminino em articulação com dualismos, como corpo/mente e natureza/cultura, tal como aparecem a partir do surgimento das teorias freudianas. O exame particular aqui proposto refere-se sobretudo à psicologia analítica, dissidência da psicanálise freudiana delineada pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), e base do projeto terapêutico de Nise da Silveira no hospital em que trabalhou. Dessa forma, busca-se compreender em que medida o acionamento desse saber, assentado em uma noção universalista de natureza humana e no postulado de um inconsciente coletivo, conceituou a especificidade do feminino, em contraste com as tradições de pensamento prevalentes na primeira metade do século em questão.

Para tanto, parte-se da observação de que tais saberes, desde sua emergência a partir dos oitocentos, inscrevem-se em uma tensão cosmológica que põe em jogo noções de corpo e de pessoa, entendidas em sua ordem físico-orgânica e moral (i. e. Duarte, 1986; Russo & Venancio, 2006; Venancio, 1993 e outros). Nesse âmbito competem em múltiplos desdobramentos concepções ontológicas fisicalistas (ou organicistas) e psicossociais. Assume-se a hipótese que tal tensão se torna particularmente evidente na formulação das diferenças de gênero e de sexualidade nas teorias e práticas psi, em especial naquelas referentes ao campo da psiquiatria e da psicanálise. Esta aposta é motivada por uma preocupação acima de tudo antropológica, isto é, que assume o comprometimento de uma prática de conhecimento específica com noções constitutivas do Ocidente moderno. O estatuto de “verdade” ou “erro”, bem como a afirmação ou negação da “eficácia” das teorias aqui abordadas são nessa leitura postos em segundo plano.

Trata-se de um exercício em torno de um caso particular de uma pesquisa de doutorado em antropologia social (Magaldi, 2018a), cujo objeto de estudo foi a trama de pessoas, instituições e materialidades constituída com e através da trajetória de Nise da Silveira, desde a década de 1940 até os dias de hoje. O objetivo da tese foi compreender que noções de corpo, pessoa e natureza são delineadas entre os partícipes desse campo (terapeutas, agentes de saúde, pacientes, artistas, intelectuais, militantes etc.), atentando para sua tensão em relação à psicanálise freudiana, à psiquiatria de orientação biomédica e às políticas de saúde mental voltadas para a manutenção do modelo de internações. O estudo foi conduzido por meio da combinação de observação participante em instituições vinculadas ao projeto médico-científico de Nise da Silveira, entrevistas com seus colaboradores vivos e mapeamento de documentos e fontes escritas (livros, artigos, catálogos, entrevistas, biografias, prontuários médicos etc.) relacionados ao tema, contando como antecedentes uma dissertação de mestrado (Magaldi, 2014) e dois artigos publicados (Magaldi, 2016, 2018b).

O presente artigo explora tentativamente uma partícula desse universo, fazendo uso de fontes bibliográficas referentes à relação entre Nise da Silveira e Adelina Gomes. A estrutura do texto compreende, em primeiro lugar, uma breve revisão acerca das formulações de Thomas Laqueur (2001) e Michel Foucault (2006) sobre gênero e sexualidade na medicina moderna, bem como seus desdobramentos com o surgimento da psicanálise. Busca-se demonstrar como no seio dos saberes médico-psicológicos o corpo foi tomado como índice para estabelecer a diferença entre os sexos, seja pela via do dimorfismo, seja pela via do monismo. Em seguida, dedica-se a uma imersão no estudo de caso das imagens da paciente esquizofrênica, delineado em referência à psicologia analítica. Procura-se acompanhar a leitura proposta por sua médica, centrada na repressão do instinto feminino e em sua manifestação em arquétipos. Finalmente, busca-se compreender o lugar da psicologia analítica em relação à construção diferencial do feminino e do masculino no registro psicológico, em contraposição tanto a Freud quanto à medicina somática. Trata-se de entender como o corpo deixa de tornar-se o lugar privilegiado da construção da diferença em favor de noções psicológicas, as quais, no entanto, igualmente operam a partir de uma naturalização.

Gênero e sexualidade nos saberes médico-psicológicos

Antes de avançar, é preciso sublinhar algumas considerações teóricas sobre as relações entre gênero e sexualidade e a construção de suas diferenças nos saberes ocidentais modernos. Uma primeira pista é deixada por Thomas Laqueur (2001), cujo trabalho se dedica a analisar como a concepção de um dimorfismo sexual - isto é, de uma incomensurabilidade entre os dois sexos biológicos, masculino e feminino - pôde ser delineada a partir do século XVIII, em contraposição ao entendimento prevalente da Antiguidade clássica até o Renascimento. O autor aponta para uma grande transformação que desloca a antiga concepção hierárquica - segundo a qual homens e mulheres teriam uma mesma natureza, distinguindo-se apenas pelo grau referente à quantidade de calor vital, responsável pela internalização ou exteriorização dos órgãos genitais - para um novo modelo explicativo responsável por instituir uma diferença radical entre os dois tipos de corpos. Essa passagem teve fundamentos tanto epistemológicos quanto políticos, envolvendo o rompimento da compreensão da grande cadeia dos seres em favor da ascensão do mecanicismo e do empirismo, bem como a divisão entre esfera pública e esfera privada, conferindo aos homens a exclusividade do contrato social.

No campo da medicina, sobretudo a partir do século XIX, a instauração desse grande divisor ensejaria uma preocupação em examinar doenças tipicamente femininas. Destaque-se que, nesse período, o nascimento da clínica era caracterizado por uma articulação entre um ímpeto classificatório e uma anatomofisiologia fortemente assentada nos sentidos e na visualização dos órgãos, sobretudo através de lesões e sinais físicos (Foucault, 2006). O mapeamento das perversões sexuais, autorizado pelos princípios fisicalistas da degeneração, inseria-se claramente nesse escopo (Duarte, 1988; Lantéri-Laura, 2001). Nesse sentido, a medicina passou a entender o corpo da mulher como dotado de uma lógica própria. O surgimento da ginecologia é um dos exemplos mais marcantes desse horizonte, estabelecendo-se como ramo da medicina dedicado a equacionar a mulher à sua função procriativa (Rohden, 2002).

No campo psiquiátrico e neurológico não foi diferente. Neste caso, o enigma da histeria estava entre aqueles que ocupavam mais claramente as preocupações médicas, sendo compreendido como uma patologia atribuída à natureza da mulher. A doença escapava aos preceitos da medicina somática, manifestando-se em uma infinidade de sintomas, e minando as tentativas de circunscrição nosográficas. Se, entre os gregos, a histeria era associada aos fluxos corporais do útero feminino (hystéra), a partir das pesquisas empiristas sobre o sistema nervoso, esta tornava-se um problema da maior fragilidade dos nervos da mulher, que supostamente a tornavam mais sugestionável. A hipótese predominante no saber médico oitocentista era de que se tratava de um problema inscrito no binômio hereditariedade-degeneração. As ditas histéricas eram então percebidas como mulheres inadaptadas ao papel de mães e esposas, tendendo ao adultério e à prostituição (Nunes, 2010). Falar sobre a histeria feminina era, portanto, falar também sobre a constituição corporal e as práticas sexuais das mulheres.

Houve, nesse momento, uma pletora de teorias sobre gênero e sexualidade nos saberes médico-psicológicos, cuja revisão total escapa aos fins deste artigo. Vale a pena, contudo, delimitar a atenção nas teorias freudianas, na medida em que serviram de contraste para a ulterior psicologia analítica. O surgimento da psicanálise não escapou do quadro mais amplo acima referido, embora tenha apresentado uma série de rupturas em relação às concepções médicas predominantes. Justamente em torno do fenômeno da histeria surgiria, na virada do século, o saber psicanalítico atribuído à obra de Sigmund Freud. De certa maneira, o intelectual de Viena deslocava o problema da histeria do campo do somático para o psíquico, concebendo a doença como um fenômeno produzido a partir da repressão de memórias traumáticas, somatizadas em um comportamento neurótico. A histeria passava então a ser passível de alívio graças aos poderes transferenciais da talking cure e do método da associação livre (Freud, 2003).

Essa formulação, base da prática terapêutica da nascente psicanálise, associou-se igualmente a uma preocupação de compreensão do funcionamento da sexualidade humana. As teorias freudianas afastavam-se das teorias da perversão oitocentistas, mais nitidamente inscritas no escopo da degenerescência, admitindo uma bissexualidade inerente a ambos os sexos e um polimorfismo para as perversões (Freud, 1972). Particularmente a propósito da sexualidade infantil, Freud viria a conceber o complexo de Édipo, segundo o qual o desenvolvimento psíquico seria um desdobramento do desejo sexual da criança pelo genitor do sexo oposto e de um sentimento de rivalidade em relação ao genitor do mesmo sexo. Esta teoria, escrita e reescrita muitas vezes ao longo da trajetória da psicanálise, compartilhou com o saber médico um interesse por estabelecer uma diferença entre homens e mulheres e pela observação atenta de seus corpos, particularmente das zonas genitais na fase infantil.

Freud, curiosamente ecoando o modelo do sexo único dos gregos, concebia o clitóris como uma espécie de pênis introjetado, conferindo ao falo a centralidade do desenvolvimento da criança e estabelecendo um monismo sexual primário. Nessa leitura, o aparelho genital é único e o mesmo até a puberdade, sendo que só o órgão masculino é reconhecido como índice. A vagina só é descoberta enquanto tal tardiamente ao longo da ontogênese feminina, sendo antes subsumida em uma organização fálica. A partir deste postulado pôde a psicanálise delinear as consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos: menino e menina são assombrados por um complexo de castração, sendo este temor a característica do caso masculino e a inveja do pênis, a especificidade do caso feminino. O mesmo complexo que faz o menino superar a fase edipiana (levando ao desinvestimento da mãe e à criação do superego) leva a menina a reforçá-la (dirigindo-se ao pai na tentativa de substituir a falta do pênis). A inveja do pênis persistiria, assim, por toda a vida da mulher, podendo ser sublimada através do nascimento de uma criança, preferencialmente do sexo masculino. A dissolução de seu complexo edípico seria, portanto, apenas parcial, prejudicando a formação de seu superego. Por este motivo, tal caso ganhou inclusive um nome diferencial, o complexo de Electra (Silva & Folberg, 2008).

Este tão breve panorama das relações entre gênero e sexualidade nos saberes médico-psicológicos, concentrado na passagem entre os séculos XIX e XX e, mais especificamente, no nascimento da psicanálise freudiana, enseja algumas considerações fundamentais para este trabalho. A primeira delas é a da preeminência do corpo na construção da diferença, seja pela via do dimorfismo sexual característico da medicina clínica, seja pela via do monismo fálico intrínseco às teorias psicanalíticas. Útero, ovários, vagina, pênis, nervos, todos estes tornam-se índices cruciais na ambição de distinguir os sexos, seja pela via do fisicalismo médico, seja pela emergente via psicológica.1 A segunda delas é a primazia da hierarquização entre masculino e feminino, embaralhando aspectos físicos e morais. Fragilidade, passividade, lascívia, inveja, atividade, agressividade tornam-se atributos desigualmente distribuídos entre homens e mulheres, atrelando-se a fundamentos científicos. Ainda como corolário desta hierarquização, encontra-se uma preocupação específica com o enigma da mulher, em torno da qual orbita um maior número de práticas de medicalização e de teorias científicas.

Por fim, deve-se considerar esses saberes no escopo de uma explosão discursiva, tal como concebido por Michel Foucault: mais do que censurar ou reprimir a sexualidade, medicina e psicanálise compuseram o efeito-instrumento de sua incitação, articulando-se em instituições, profissionais e práticas terapêuticas (Foucault, 2014). Nesse sentido, a conformação de um dispositivo de sexualidade tornou-se evidente na modernidade através de um jogo entre saber e poder, incluindo os fenômenos compósitos da psiquiatrização das perversões, da socialização das condutas sexuais, da já referida histerização da mulher e da pedagogização do sexo infantil. Nesse contexto, não mais delineado sob a égide de um poder soberano, mas de um poder imanente aos corpos e à vida, a preocupação com o específico da mulher ganhou lugar de destaque, dado o lugar estratégico da maternidade para a reprodução. Trata-se, portanto, de um problema biopolítico, que se relaciona ao ímpeto de controle populacional e da construção de corpos produtivos através da disciplina.

Nas seções seguintes, pretende-se explorar os desdobramentos dessas questões a partir de um caso clínico que toma como base um saber dissidente da psicanálise freudiana, a psicologia analítica. Intenta-se demonstrar como a leitura de um caso de loucura feminina afastou-se dos preceitos da preeminência do corpo e da hierarquização dos sexos em favor de uma teoria psicológica. Por outro lado, argumenta-se que tal saber permaneceu compartilhando com seus predecessores uma concepção universalista de “natureza humana”, incluindo aí as dimensões do gênero e da sexualidade.

Entre flores e mães

Em 1933, após formar-se na Faculdade de Medicina da Bahia, a psiquiatra alagoana Nise da Silveira foi admitida no serviço público, no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospício Nacional de Alienados. Este era o herdeiro do antigo Pedro II, situado na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Três anos depois, durante o regime político do Estado Novo, a médica, envolvida com membros do Partido Comunista Brasileiro, foi denunciada por uma enfermeira devido à posse de livros marxistas. Encarcerada na prisão Frei Caneca, Nise compartilhou no período de mais de um ano as celas do isolamento com Olga Benário e Graciliano Ramos, entre outros militantes de esquerda. Sua libertação não a isentou do perigo de uma nova perseguição. Por este motivo, passou por um longo exílio no interior do nordeste brasileiro, no período que compreende os anos de 1937 a 1944. Com o declínio do varguismo, a psiquiatra pôde finalmente ser readmitida, sendo desta vez alocada no hospital do Engenho de Dentro, que se tornava a nova sede do então chamado Centro Psiquiátrico Nacional (Mello, 2014).

Nos corredores do hospício, Nise conheceu Adelina Gomes, diagnosticada com esquizofrenia. Conforme narrado em uma entrevista televisiva (Silveira, 1990), Adelina não falava de jeito nenhum. A médica passava por ela, dizia bom dia, mas não obtinha resposta. Um dia, uma assistente social correu até ela e disse: “Sabe o que aconteceu? Quando você passou, pouco depois ela lhe atirou um beijo”. No dia seguinte, Nise decidiu voltar ao corredor e, ao invés de desejar bom dia, estendeu a face à paciente. “Ela me beijou. Estava feita a relação”.

Nise da Silveira inconformava-se com as novas técnicas de tratamento que ingressavam na psiquiatria brasileira durante seu período de readmissão. Entre tais técnicas, destacavam-se o eletrochoque, a lobotomia e a injeção de insulina, destinadas a apaziguar os estados de “agressividade” ou de “delírio” que poderiam acometer os pacientes do hospital. A médica alagoana, que passara pelo presídio, concebia uma semelhança entre tais métodos e a tortura, considerando-os agressivos e ineficazes (Melo, 2009). Por negar sua aplicação, foi transferida para a Seção de Terapia Ocupacional e Reabilitação (STOR) no ano de 1944, onde se desenvolviam atividades laborais consideradas menores pela equipe médica. Ali conheceu Almir Mavignier, artista plástico que trabalhava como funcionário na administração burocrática do hospital. Juntos se propuseram a desenvolver novas atividades ocupacionais, com particular destaque para a pintura e a modelagem. Enquanto Almir interessava-se em encontrar talentos artísticos entre os pacientes do hospício, Nise preocupava-se sobretudo em criar um espaço de atividades expressivas que promovessem uma potência terapêutica (Villas-Bôas, 2008).

Adelina Gomes foi uma das primeiras pacientes a frequentar o ateliê. Inicialmente, trabalhando com o barro, e logo depois, dedicando-se também à pintura, Adelina produziria mais de 17.500 obras até 1984, ano de seu falecimento. Seus trabalhos circularam por museus e galerias de arte do Rio de Janeiro e São Paulo, configurando parte de um debate no campo artístico a propósito da validade estética da arte dos “alienados”. Para Nise da Silveira, tornaram-se matéria-prima de uma longa série de estudos sobre a experiência psicótica, ensejando a fundação do Museu de Imagens do Inconsciente no complexo psiquiátrico do Engenho de Dentro, junto aos trabalhos de outros pacientes. A médica sustentava que as atividades expressivas materializavam o que chamava de mundo interno em imagens, possibilitando sua visualização. Curiosamente, para o olhar de Nise, não era só a história de vida pessoal de Adelina que se condensava em seus temas figurativos, mas também temas míticos, comuns à história da humanidade.

Tais formulações encontravam base na psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Nise estudara com o psiquiatra suíço em seu instituto, em Zurique, primeiramente no ano de 1957, onde pôde apresentar os trabalhos de seus pacientes e expor seu inconformismo diante da psiquiatria de seu tempo. Em uma entrevista, ela conta que, em seu primeiro encontro, Jung permaneceu calado, fumando um cachimbo, ouvindo as ainda incipientes hipóteses da médica brasileira sobre o significado das pinturas e modelagens de pacientes como Adelina. “Você estuda mitologia?”, foi a pergunta que quebrou o silêncio. Nise respondeu que gostava de ler, mas que não tinha nenhum conhecimento sistemático sobre os mitos. “Se você quiser fazer um outro tipo de psiquiatria, entender os delírios dos clientes e as imagens que eles pintam, você terá que estudar mitologia” (Silveira, 2009 [1977], p. 143).

A resposta de Jung, mais do que uma indicação trivial, abrigava todo o seu sistema téorico, baseado na teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo. Ex-discípulo e dissidente de Freud, ele concebia que o inconsciente possuía uma camada mais profunda, extrapolando o nível individual para um nível comum à humanidade. O inconsciente coletivo seria preenchido por arquétipos - disposições latentes, sob a forma de matrizes simbólicas ou imagéticas - herdados ao longo da evolução humana, o que explicava a analogia ou mesmo a identidade entre temas míticos e símbolos das mais diversas culturas. Tal proposta punha em homologia o substrato comum da anatomia humana e a psique, a despeito de quaisquer diferenças raciais. Tratava-se, assim, de um entendimento ontologicamente universalista, influenciado pela antropologia evolucionista, concebendo linhas de desenvolvimento psíquico remetentes a um passado remoto (Jung, 2008). Com Jung, Nise aprendera que a produção das imagens dos esquizofrênicos revelavam de maneira privilegiada esses conteúdos arquetípicos, que se confundiam com suas histórias pessoais em múltiplas transformações do ser.

Alguém que viveu um naufrágio, um incêndio, a prisão ou tortura não pode mais ser o mesmo indivíduo, sofre transformaçoes. Imagine-se então quem passa pelas metamorfoses do ser, que são as chamadas doenças mentais. Assim, lá fui eu estudar essas metamorfoses (Silveira, 1981, p. 228).

Retornando ao Brasil, a psiquiatra brasileira passaria a observar os trabalhos de seus pacientes procurando relacioná-los a temas mitológicos, inspirando-se na psicologia analítica que aprendera durante sua estadia em Zurique. O caso de Adelina constituiu uma matéria-prima fundamental nesse sentido. Ao longo das décadas subsequentes, Nise acompanhou atentamente a evolução de seu caso clínico, dispondo suas imagens em série cronológica, analisando seu conteúdo, e buscando explicações para suas transformações. Foi só no ano de 1981, com a publicação de seu mais importante livro, Imagens do Inconsciente, que seu estudo pôde ser conhecido mais sistematicamente.2 Todo um capítulo desta obra é dedicado à vida e à obra de Adelina. Sem a pretensão de uma reprodução exaustiva, retomo-o aqui com o intuito etnográfico de explorar como os temas do gênero e da sexualidade aparecem nesse saber. O capítulo começa com uma exposição geral da trajetória e do temperamento de Adelina:

Adelina era uma moça pobre, filha de camponeses. Fez o curso primário e aprendeu variados trabalhos manuais numa escola profissional. Era tímida e sem vaidade, obediente aos pais, especialmente apegada e submissa à mãe. Nunca havia namorado até os 18 anos. Nessa idade, apaixonou-se por um homem que não é aceito por sua mãe. A moça, como tantas outras jovens no sistema social vigente, sujeita-se ao julgamento materno. Obedece, afasta-se do homem amado. A condição de mulher oprimida é patente. A autoridade inapelável das decisões familiares impede a normal satisfação dos instintos e a realização de seus projetos de vida afetiva (Silveira, 1981, p. 210-211).

Segundo a leitura da médica, o afastamento do homem amado pela mãe tornou Adelina retraída, sombria e irritada. Um dia, a jovem camponesa, num ataque súbito de fúria, estrangulou a gata de sua casa, estimada por toda a família, inclusive por ela própria. Foi o estopim para sua internação, ocorrida em 17 de março de 1937. “A doente está lúcida, orientada no tempo e no lugar. Mostra-se indiferente à sua situação, não desejando sair do hospital. Mímica extravagante. Autismo. Afetividade e iniciativa diminuídas” (p. 211), dizia seu prontuário de internação. Diagnóstico: esquizofrenia. Tratamento: eletrochoque e injeção de insulina.

Em 1946, Adelina passou a frequentar o ateliê de atividades expressivas situado no Setor de Terapia Ocupacional e Reabilitação do hospital. Suas pinturas eram repletas de mulheres, ora imponentes, ora fugidias. Frequentemente se adornavam de plantas, parecendo mesmo confundir-se com elas. Para Nise, tratava-se de um enigma que só foi desvendado quando, através do relato de uma irmã, teve acesso a alguns dados da trajetória da paciente, particularmente em relação a seu apego à figura repressora da mãe. A gata foi identificada com a mãe, que estrangulara seus instintos femininos, desejosos de ir ao encontro do homem amado, foi a hipótese lançada pela médica. Mas faltava ainda explicar o porquê de suas pinturas apresentarem mulheres metamorfoseadas em flores.

(MII, 2002)

Imagem 1: Adelina Gomes, óleo sobre tela 

“Um dia Adelina pintou formas abstratas em tons rosa e lilás. Entregando a pintura à monitora, murmurou, na sua habitual voz quase inaudível, ‘eu queria ser flor’” (Silveira, 1981, p. 206). Esta observação levou a médica a associar o caso de sua paciente ao mito grego da ninfa Dafne, seguindo os ensinamentos de seu mestre suíço. “Por estranho que pareça”, diz Nise, “Adelina, modesta mestiça do interior do Brasil, reviveu o mito da ninfa grega Dafne” (p. 210). Na mitologia grega, Apolo, deus do Sol e da música, apaixona-se por Dafne, filha do Rei Ladão e da Mãe Terra. Ela recusa seu amor, mas Apolo insiste, perseguindo a ninfa pelos bosques e campos, tresloucado. Dafne só consegue se safar ao procurar refúgio com sua mãe, a Terra, que a metamorfoseia em loureiro. “O mito de Dafne exemplifica a condição da filha que se identifica tão estreitamente com a mãe a ponto de os próprios instintos não lograrem desenvolver-se” (p. 210).

Verifica-se aí a primeira de uma série de curiosas aproximações entre temas mitológicos e a trajetória pessoal de Adelina, sempre tomando como parâmetro sua produção imagética. Para Nise, a paciente não conseguiu viver seus instintos femininos, tendo portanto vivido uma metamorfose vegetal, tal como o fez a ninfa Dafne. Por esta razão, Adelina pintava mulheres-flores, revelando sua identificação com o vegetal e seu apego à figura da mãe. O estrangulamento da gata seria apenas um ponto de partida para seu mergulho no reino dos arquétipos, consubstanciados principalmente na figura da Grande Mãe, simultaneamente provedora e megera:

A gata é o inimigo que representa a natureza instintiva, encarnação por excelência dos instintos femininos (...) Estrangulando os instintos cujo desenvolvimento a levariam ao encontro do homem, Adelina tomou o único caminho possível - a fuga para o reino das mães. Isso vale dizer que a libido, introvertendo-se violentamente, seguiu o declive de antemão preparado por sua fixação materna, até alcançar as estruturas mais profundas da psique, onde foi encontrar e infundir vida àquelas grandes mães que estão sempre por trás da mãe pessoal (p. 213).

Seguindo a leitura nisiana, a fixação na figura da mãe passa então a se revelar progressivamente nos trabalhos de Adelina. “As figuras de Adelina caracterizam-se por um arcaísmo que logo faz pensar nas deusas mães da Idade da Pedra. São mulheres corpulentas, majestosas. Aquelas inicialmente modeladas bem merecem a qualificação de Mães terríveis” (p. 213). É então que o tema mítico de Hécate emerge. Deusa do submundo, associada à morte e à noite, representa a faceta perversa da Grande Mãe - de onde vem o termo hecatombe - sempre acompanhada de cachorros. Nise acopla a essa descrição impressionante modelagens de mulheres e cães.

(MII, 2002)

Imagem 2: Adelina Gomes, modelagem em barro 

Neste ponto surge, finalmente, a teoria que fundamenta sua linha de interpretação:

Como explicar o aparecimento dessa imagem de Grande Mãe, estreitamente ligada ao cão, entre os trácios, os gregos, os germanos, e nos delírios de uma internada no hospital público de Engenho de Dentro (...)? Se não recusarmos os fatos, seremos levados a recorrer à hipótese de C. G. Jung, admitindo que a psique, na sua estrutura básica, encerra possibilidades de imaginar, espécie de eixos de cristalização em torno dos quais se constroem imagens similares em suas características fundamentais, embora variáveis nos detalhes das formas que possam assumir (p. 226).

Mães, flores e gatas ocupariam os desenhos de Adelina por toda a sua vida. A partir de suas variações, Nise avaliava a evolução do caso de sua paciente. Um exemplo notável foi quando Adelina começou a pintar flores que não mais se transformavam em mulheres, ou vice-versa. Tratava-se, segundo a leitura da psiquiatra, de um índice de melhora clínica, revelando uma libertação em relação ao instinto feminino reprimido, antes figurado no mito de Dafne.

Adelina pediu uma tela e pintou, lenta e cuidadosamente, um vaso cheio de flores. A monitora do ateliê de pintura, Elza Tavares, ficou tão emocionada que escreveu no momento sobre o chassi da tela: pela primeira vez de um galho saiu uma flor e não uma mulher. O processo de libertação intensifica-se. Agora, a maioria de suas pinturas representa flores, flores que ela própria colhe no jardim do hospital (...). As melhoras clínicas surpreendem. Adelina está mais confiante, comunica-se conosco e com vários monitores, participa de diversas atividades de terapêutica ocupacional (p. 228).

Por fim, Nise da Silveira concebe que a recuperação de Adelina se verifica por intermédio da mudança do conteúdo pictórico de seus trabalhos. Neste ponto, não é mais a face terrível de Hécate que surge, mas a misericordiosa Maria, Grande Mãe venerada pelo mundo cristão. Seus processos inconscientes, entretanto, não param por aí. A autora encerra sua análise destacando que a progressão dos acontecimentos intrapsíquicos não é linear. Assemelha-se mais a um piano em que oscilam sons agudos, conscientes, e sons graves que, tocados pela mão esquerda, revelam inesgotavelmente as profundezas da inconsciência.

(CCMS, 2014)

Figura 3: Adelina Gomes e Nise da Silveira 

Anima e Animus

Entre a psicanálise e a psicologia analítica há tantas continuidades quanto descontinuidades, embora com frequência estas últimas ganhem mais destaque (Clarke, 1993; Shamdasani, 2003). Recentemente, a tensão entre Freud e seu discípulo Jung foi inclusive tema de um filme intitulado Dangerous Method, de David Cronenberg, exibido em primeiro lugar no festival de Veneza em 2011, tendo seu lançamento agendado para o ano seguinte. Um dos temas abordados nessa produção cinematográfica diz respeito justamente ao entendimento diferencial sobre a sexualidade com que ambos os intelectuais se debatiam. Enquanto Freud creditava aos traumas sexuais a origem das neuroses, conferindo-lhes um caráter central, Jung considerava-os apenas um componente no funcionamento do psiquismo. Curiosamente, a película trata do envolvimento amoroso de Jung com Sabina Spielrein, jovem histérica, paciente de Freud, adepta de práticas consideradas sadomasoquistas.

Nise da Silveira ateve-se em muitos momentos a demarcar a distinção entre esses saberes, filiando-se, evidentemente, à psicologia analítica. Em 1968, a médica publicou Jung: Vida & Obra, introdução ao pensamento de seu mestre que viria a ser reproduzida em mais de vinte edições ao longo das décadas subsequentes (Silveira, 1968). Um dos capítulos desta obra trata justamente de expor a distinção entre o conceito freudiano de libido e o conceito junguiano de energia psíquica. No trecho a seguir, Nise apresenta os fundamentos vitalistas da leitura da psicologia analítica, na qual a energia psíquica é entendida como vontade e intensidade:

Enquanto Freud atribuiu à libido significação exclusivamente sexual, Jung denomina libido a energia psíquica tomada num sentido amplo. (...) Libido é apetite, é instinto de vida que se manifesta pela fome, sede, sexualidade, agressividade, necessidades e interesses os mais diversos. (...) Jung não aceitou que o contato com a realidade fosse mantido unicamente por meio de “afluxos de libido”, ou seja, de interesse erótico (Silveira, 1968, p. 38).

Ora, se para Jung a sexualidade seria diluída em uma concepção de energia psíquica que a ultrapassa, como explicar a leitura do caso de Adelina, tão assentada no tema da repressão sexual e do instinto feminino? Teria Nise da Silveira produzido uma síntese entre Freud e Jung? Pelo contrário. O que se verifica neste caso é a projeção de uma interpretação que aciona justamente uma segunda distinção entre psicanálise e psicologia analítica, qual seja, aquela em torno da já referida existência do inconsciente pessoal e do inconsciente coletivo. O tema da sexualidade, no caso de Adelina, é subsumido na noção junguiana de um fundamento estrutural da psique, comum a todos os “homens” (sic), consubstanciado na ideia dos arquétipos, isto é, das formas instintivas de imaginar. Mas se há um fundamento comum a todos os seres humanos, como explicar a especificidade do feminino conferida às vivências de Adelina? Como explicar seu mergulho no reino das mães e das ninfas que se transformam em árvores? Se o inconsciente coletivo é uma expressão psíquica da identidade da estrutura cerebral, produto da evolução humana, como explicar a emergência das diferenças dessa expressão entre ambos os sexos?

A tentativa de responder a estas questões impele para um aprofundamento no filão psicologia analítica que diz respeito à conceituação arquetípica do feminino e do masculino. Trata-se das noções de anima e animus, que ocuparam boa parte do pensamento junguiano. Para Jung, toda pessoa possui qualidades do sexo oposto, seja no sentido biológico (por exemplo, em relação à secreção de hormônios), seja no sentido psicológico. A propósito deste, afirmou que a anima constitui a face feminina interna à psique masculina, e o animus, o lado masculino da psique feminina. Homens e mulheres comportariam elementos masculinos e femininos. Ademais, o equilíbrio entre anima e animus em cada indivíduo seria um fator crucial para o bom funcionamento da psique. Jung chama a atenção para o subdesenvolvimento desses arquétipos decorrente do desprezo da civilização ocidental em relação à feminilidade dos homens e à masculinidade das mulheres, o que conformaria sujeitos divididos, desencorajados.3 Como aponta o autor:

Todo homem leva dentro de si a imagem eterna da mulher, não a imagem desta ou daquela mulher em particular, mas sim uma bem definida imagem feminina. Esta imagem é fundamental inconsciente, um fato hereditário de origem primordial gravado no sistema vivo e orgânico do homem, uma impressão ou arquétipo de todas as experiências ancestrais da fêmea (Jung, 1981, p. 198).

É com base nessas proposições que Nise da Silveira delineia seu estudo sobre o caso clínico de Adelina. Pôde-se observar como o sufocamento da feminilidade da paciente esquizofrênica em seu ambiente familiar repressivo é descrito, acima de tudo, em referência a uma imersão inconsciente em um mundo de imagens arquetípicas femininas, com as quais a jovem camponesa se funde em uma série de transformações ontológicas: gatas, flores, mães, símbolos universais do feminino. Fosse Adelina um homem, não obstante, semelhantes transformações poderiam ter sido igualmente descritas, pois a existência da anima garantiria a feminilidade no organismo biologicamente masculino.4 Ademais, chama a atenção como, na contracorrente dos saberes médico-psicológicos aqui revistos, nenhum aspecto corporal da paciente é descrito ao longo de todo o estudo de caso. A despeito do tema inscrever-se claramente em uma interpretação familiarista, nenhuma referência a falos, vaginas, nervos ou úteros é posta em questão. O princípio do feminino torna-se uma manifestação psicológica de uma ancestralidade biológica que se perde no tempo, em uma acepção quase etérea. E foi em torno dessa manifestação que se verifica este caso particular de uma vontade de saber que permeou o espírito científico de Nise da Silveira.

Considerações finais

As colocações deste artigo permitem delinear algumas pistas iniciais a propósito da construção do gênero e da sexualidade na psicologia analítica. Observa-se um afastamento tanto do dimorfismo sexual da medicina somática oitocentista quanto do monismo freudiano. Para o saber aqui examinado, não se trata de afirmar dois corpos radicalmente distintos, tampouco de elucidar as consequências da diferença entre falo e clitóris para o desenvolvimento psíquico. A referência ao exame do corpo é, na verdade, secundária, revelando um afastamento do fisicalismo em favor de uma noção de pessoa mais marcantemente psicológica. Nessa leitura, trata-se antes de referir-se a uma natureza humana universal, em cuja evolução superpõem-se os princípios inconscientes dos arquétipos do masculino e do feminino. Em comum, o que subjaz a todas essas leituras é uma naturalização, que encontra em uma base biológica sua justificativa, seja ela verificável através do exame corporal, seja por teorias psicológicas. Em outras palavras, não é a dimensão biológica que é escamoteada na psicologia analítica, mas sim o ímpeto de exame e de visualização corpórea típico da medicina e também da psicanálise freudiana.

Também se destaque que, no caso desta psicologia analítica, não parece haver nenhuma hierarquia intrínseca em relação à dualidade dos sexos. O que existe, sim, é o reconhecimento do descompasso social da tradição judaico-cristã e ocidental, que confere uma primazia ao masculino em detrimento do feminino. Nesse sentido, já se esboça alguma sobreposição ao determinismo do sexo genital, embora sem ainda entrar no registro de um gênero culturalmente construído (no máximo, de um gênero arquetipicamente herdado, fato da evolução humana, que pode se imprimir em homens ou mulheres). Em outras palavras: masculino e feminino independem do sexo biológico de cada indivíduo, mas não deixam de ser naturais, essencializados, na medida em que produzidos a partir da filogênese da espécie humana. Sua distinção torna-se, desse modo, problema de um instinto ancestral.

Jeffrey Weeks (1981) oferece um interessante argumento para mapear as diversas leituras do sexo na história da ciência. Para o autor, os trabalhos em torno do tema podem ser divididos em dois grupos, que não se excluem mutuamente. Há, em primeiro lugar, uma abordagem naturalista, que opera através da classificação e categorização das formas sexuais que existem numa natureza tomada como dado. Esta orientação incorpora obras como a Psychopathia Sexualis de Krafft-Ebing. Há, ainda, uma segunda abordagem, meta-teorética, de orientação psicodinâmica ou psicanalítica, cujo atributo fundamental é a precedência de modelos teóricos em detrimento da evidência empírica. Em ambas as abordagens, de todo modo, o que se verifica é a reificação de um essencialismo, segundo o qual o sexo é uma força soberana, instintiva, capaz de moldar o indivíduo e a sociedade, o comportamento e as instituições. O sexo é, assim, subsumido à natureza, a uma noção de base biológica que será subsequentemente controlada pela matriz cultural. Há ainda uma terceira tradição, que aglutina série de trabalhos originários de distintas tradições ao longo do século XX. Em comum, seus autores tinham como objetivo desconstruir a naturalidade do próprio sexo, que imperava de Krafft-Ebing a Freud. Foram exemplares deste contexto a tradição interacionista, representada por Simon e Gagon; a reinterpretação da psicanálise, empreendida por Lacan; assim como a vertente discursiva de Michel Foucault. Para Weeks, estes autores rejeitam a noção de sexualidade enquanto domínio autônomo.

Buscou-se demonstrar neste artigo como a psicologia analítica, que rejeita a centralidade da sexualidade para o entendimento da psique, bem como a hierarquia dos sexos biológicos, constrói à sua maneira uma naturalização do masculino e do feminino, inserindo-se, portanto, no segundo grupo elencado por Weeks. O caso de Adelina Gomes, tal como interpretado por sua psiquiatra Nise da Silveira, com base nas teorias de Carl Jung, pode ser uma pedra de toque para o entendimento das relações entre gênero e sexualidade nos saberes médico-psicológicos delineados na primeira metade do século passado, particularmente no que diz respeito às repercussões das teorias freudianas.

Sabe-se que recentes desenvolvimentos do feminismo e da teoria queer têm lançado severas críticas à psicanálise por seu comprometimento com uma matriz androcêntrica e heteronormativa responsável por uma hierarquização dos gêneros. Tais críticas são conferidas sobretudo a Freud (especialmente em relação ao androcentrismo subjacente à teoria do complexo de Édipo) e Lacan (cujo comprometimento com o estruturalismo associou-se à concepção de um psiquismo invariante, a-histórico e intocado por conflitos de classe) (Wittig, 1992; Butler, 2003). Incluir uma referência a autores como Jung e Nise da Silveira parece um caminho interessante para borrar esses modelos de análise. Por mais que estes últimos autores também apresentem conceitos aparentemente problemáticos para algumas perspectivas de gênero e sexualidade mais contemporâneas (pensa-se sobretudo naquelas vinculadas ao pós-colonialismo e ao pós-estruturalismo, com seu rechaço a noções reificadas de natureza), nada impede que, por outro lado, sejam acionados e ressignificados por outros setores.

É verdade que a psicologia analítica traduziu a diferença entre masculino e feminino em termos essencialistas, equacionando-a à oposição entre, por um lado, razão e objetividade e, por outro, intuição, emoções e subjetividade. Contudo, ao fazê-lo, deslocou sua coincidência com o sexo biológico, e suspendeu sua ordenação ao criticar a hegemonia do primeiro termo sobre o segundo. Nesse sentido, não deixou de ensejar alguma denúncia da desigualdade de gênero constitutiva da tradição ocidental. Reconhecer este fato não deve implicar a problemática afirmação de que Carl Jung seja “um percursor do moderno feminismo” (Stupak & Stupak, 1990, p. 275). Jung, assim como Nise da Silveira, jamais se filiou a qualquer filão desse movimento. Deve, sim, levar à percepção de que suas ideias podem encontrar tanto dissidências quanto caminhos férteis nessa seara, demandando uma análise histórica correspondente.

As críticas de gênero e sexualidade e a psicologia analítica encontraram nas dinâmicas socioculturais da contracultura e nos movimentos emancipatórios do segundo pós-guerra um solo comum de reprodução (Noll, 1996). Nesse momento, questões relativas ao sujeito e à subjetividade - incluindo nesse escopo o corpo e o comportamento, temas preferenciais dos saberes psi - se acrescentavam ao tradicional tema da luta de classes no âmbito da arena política das sociedades ocidentais capitalistas (Velho, 2001). É possível, assim, que algumas continuidades se verifiquem, sobretudo nas dimensões da militância feminista que se atêm a fundamentos naturalistas de feminilidade e maternidade, e/ou a aspectos espirituais e religiosos que estabelecem distinções entre práticas sagradas e profanas. Investigar esses desdobramentos, sem subscrevê-los, mas também sem condená-los a priori, é a tarefa futura deixada por este exercício em torno de Nise e Adelina.

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1 Ainda que a psicanálise freudiana tenha promovido um certo deslocamento das questões somáticas para as psicológicas (como no caso da histeria), a importância das características anatômicas permanece fundamental para seus desenvolvimentos teóricos (como no referido caso do complexo edipiano), sobretudo aqueles relativos à constituição da sexualidade. Deve-se entender este fato levando-se em consideração que os saberes psicológicos - psiquiatria, psicanálise e psicologia - são delineados sob a égide do dualismo corpo/mente, e que seus múltiplos desdobramentos constituem tentativas de (re)definir a natureza da relação entre tais termos (seja pela manutenção do dualismo, seja por sua aproximação, seja por sua redução em um monismo fisicalista) (Serpa, 2004).

2O caso também ganharia uma versão cinematográfica graças a Leon Hirszman, diretor de trilogia homônima, produzida entre 1983 e 1985.

3Por outro lado, o mesmo autor que defende a garantia da dualidade masculino/feminino em cada sujeito aponta para o travestismo como decorrente de um desequilíbrio entre anima e animus, no qual o arquétipo do sexo oposto seria inflacionado em detrimento do sexo biológico (Hall & Nordby, 1973).

4É o que ocorre, por exemplo, no caso clínico de outro paciente, Isaac Liberato, que costumava pintar a imagem da mulher amada. Segundo a interpretação de Nise, “esse ser que é a um só tempo a mulher amada e a mulher interior, componente intrínseco dele mesmo, encarnação do princípio feminino existente em todo homem (anima)” (Silveira, 1992, p. 56). Ver O Mundo das Imagens para mais detalhes.

Recebido: 29 de Junho de 2017; Aceito: 14 de Agosto de 2018

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