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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.30 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1984-6487.sess.2018.30.18.r 

Resenha

GREEN, James N. 2018. Revolucionário e gay: a vida extraordinária de Herbert Daniel - pioneiro na luta pela democracia, diversidade e inclusão. 1ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 378 p.

Vinícius Zanoli1 

1Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil

GREEN, James N.. 2018. Revolucionário e gay: a vida extraordinária de Herbert Daniel - pioneiro na luta pela democracia, diversidade e inclusão. ., 1ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 378 p.,

O brasilianista James Green, historiador estadunidense e professor de história latino-americana na Universidade de Brown, define sua obra sobre a vida de Herbert Eustáquio de Carvalho - ou apenas Daniel - como uma biografia recuperativa. Trata-se de um gênero biográfico que visa recuperar a trajetória de uma pessoa importante que não foi reconhecida como tal. Assim, é pela relevância de Daniel na luta contra a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), na história da esquerda, nas políticas de diversidade sexual e no combate à epidemia de HIV/Aids que Green ressalta a necessidade de recuperar “a vida extraordinária de Herbert Daniel”. Soma-se a isto, o fato de que, a não ser por seus amigos e familiares, a figura de Daniel foi praticamente esquecida pelos brasileiros.

O livro, escrito com a acuidade de um historiador empenhado na compreensão da história brasileira, segundo o próprio autor, não busca retratar Daniel como uma figura representativa de sua geração, isto é, não se trata de uma obra histórica que visa partir de uma biografia para discutir de modo profundo a história política, social ou cultural do período. Na verdade, ainda que a biografia tenha sido escrita de modo a levar em conta os acontecimentos sociais e políticos da época, o que Green fornece são lampejos de um período caracterizado por profundas transformações sociais que resultaram em reações diretas ao autoritarismo do regime militar, como a luta armada da qual Daniel participou, bem como no florescimento ou reflorescimento de movimentos sociais, como o Movimento Homossexual Brasileiro e o Movimento Negro Unificado, ambos criados em 1978, no período conhecido como “abertura política” (MacRae, 2018 [1990]; Gonzalez, 1982; Pereira, 2008). Além disso, como já afirmado, por se tratar de uma biografia recuperativa, o objetivo central é resgatar as principais contribuições e o legado de Herbert Daniel.

Na introdução, Green revela os motivos que o levaram a se interessar pela biografia de Daniel. Dentre eles, ressalta suas próprias identificações com o “revolucionário gay”, ao contar que, apesar de nunca o ter conhecido, chegou a pensar em encontrá-lo em 1981, quando Daniel voltava de seu exílio em Paris. O que motivava o desejo pelo encontro eram as semelhanças em suas trajetórias, ambos homens gays envolvidos com a militância de esquerda e, ainda que de maneiras distintas, com a luta contra a ditadura militar.

A construção da biografia baseou-se em entrevistas, acervos documentais, artigos de jornais e revistas, alguns vídeos, bem como nos escritos de Daniel, tanto em seus livros, publicados após seu retorno ao Brasil, quanto nos artigos produzidos durante o exílio em Portugal e nos posteriores escritos que preparou para os boletins da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), onde Daniel trabalhou em seus últimos anos de vida. Cabe ressaltar que a utilização dos livros, principalmente aqueles de caráter semiautobiográfico, foi feita de modo cuidadoso pelo historiador, uma vez que, como ele mesmo ressalta, Daniel muitas vezes misturava traços ficcionais em suas narrativas.

De leitura agradável e acessível, sem perder o rigor de um trabalho produzido a partir de uma pesquisa historiográfica cuidadosa, Revolucionário e Gay, além da introdução e de um epílogo, divide-se em 17 capítulos. A não ser pelo primeiro capítulo, que pode ser descrito como uma espécie de abertura da narrativa, os demais tratam especificamente de períodos da vida de Daniel, passando brevemente por seus primeiros dias, infância e adolescência no segundo capítulo, “Ele Adorava Ler (1946-1964)”, até a descoberta de sua infecção pelo HIV em 1989 e seu posterior falecimento, em Copacabana, em 29 de março de 1992, no 17º capítulo, “Quarenta Segundos (1989-1992)”.

Os 17 capítulos podem ser agrupados em cinco partes. A primeira delas, composta pelo primeiro capítulo, “Ousar lutar, ousar vencer (1992)”, pode ser definida como uma espécie de complemento à introdução. O interessante deste capítulo é a estratégia narrativa utilizada: a de abrir sua obra com os últimos dias de Daniel - imortalizados por um vídeo gravado por seu irmão, Hélder, no Natal de 1991, três meses antes de sua morte - e seguir a narrativa com uma breve apresentação do enterro do “gay revolucionário”. A partir das reações geradas pelas matérias de jornal sobre o enterro, Green introduz de maneira rápida a militância de Daniel contra a ditadura militar e seu ativismo direcionado às pessoas vivendo com Aids.

Na segunda parte, formada pelo segundo capítulo, “Ele adorava ler (1946-1964)”, Green fornece algumas informações sobre a família de Daniel, fala de seus primeiros anos de vida e de seus estudos no Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais, retratando-o como uma pessoa extremamente inteligente, reservada e apaixonada por livros.

É também este capítulo que expressa as primeiras tensões de Daniel com seus desejos sexuais por outros homens. Essas tensões se intensificaram desde suas primeiras experiências sexuais, descritas como furtivas e conturbadas. Ao narrar de modo breve as trocas sexuais resultantes das perambulações noturnas do jovem estudante pelo “mundo clandestino da homossexualidade”, Green faz referência a ideias correntes sobre a homossexualidade à época e mostra como Daniel buscava sempre atuar como penetrador (ou ativo) nas relações sexuais, afastando-se do papel de passivo e, portanto, de “bicha”.

Nesse sistema de classificação sexual em voga em parte considerável do território nacional, denominado por Fry (1982) de “modelo hierárquico”, a homossexualidade era atribuída apenas ao homem penetrado em relações sexuais com outros homens. Assim, ao atuar somente como ativo, Daniel se distanciava de uma identidade “bicha”, o que o ajudava lidar melhor com seus “desvios pequeno-burgueses”.

A terceira parte tem início com o terceiro capítulo, “Faculdade de Medicina (1965-1967)”, e se estende até o décimo primeiro, “Cláudio (1972-1974)”. Esse é um dos períodos mais fascinantes dentre os retratados na obra. Nele, Green aborda o engajamento de Daniel com a esquerda desde sua entrada na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e seu posterior envolvimento com organizações de luta armada contra a ditadura civil-militar.

Aqui, Green segue narrando os anos de Daniel na ilegalidade. Nesse período, o revolucionário passou a ser procurado pela polícia em decorrência das expropriações - termo utilizado para denominar os roubos aos bancos - que sua organização empreendera com o objetivo de angariar fundos para a luta armada. Além disso, trata de sua partida de Minas Gerais com destino ao Rio de Janeiro, depois que alguns membros de sua organização foram presos pela polícia.

Assim como no segundo capítulo, os primeiros anos de faculdade são apresentados de modo a enfatizar o desempenho excelente de Daniel nos estudos e seu interesse por leituras, pelas artes e pelo teatro. Foi na Faculdade de Medicina que Daniel começou a desenvolver de forma mais elaborada sua escrita, chegando a produzir algumas peças de teatro para o Show Medicina, evento anual que consistia em esquetes cômicos e sátiras políticas. O show, como argumenta Green, foi importante no desenvolvimento da sensibilidade artística de Daniel.

É também esse trecho que retrata a decisão do revolucionário de suprimir seus desejos sexuais por outros homens. Essa escolha foi motivada por ideias correntes na esquerda de então, na qual a homossexualidade era vista como um desvio pequeno-burguês. A análise arguta se, por um lado, demonstra a homofobia presente nas esquerdas, dentro e fora do Brasil, por outro, enfatiza que não se trata de um processo isolado. Como Green destaca diversas vezes, ideias e comportamentos avessos à homossexualidade eram disseminados no Brasil de um modo geral e, de maneira alguma, eram características restritas à esquerda.

Além disso, é importante salientar que, ainda que o livro reitere a rejeição à homossexualidade presente nas esquerdas, este fato não levou à exclusão total ou à não aceitação de Daniel por parte de alguns de seus colegas. Seus amigos mais íntimos, Dilma Rousseff e Ângelo Pezzuti, sabiam dos desejos sexuais de Daniel por outros homens e de sua paixão por um dos membros de sua organização, Erwin, sem que isto resultasse em desaprovação ou afastamento. Buscando compreender esse comportamento incomum de aceitação por parte dos colegas militantes de Daniel, Green evoca as mudanças presentes na sociedade brasileira no período como possíveis facilitadoras da circulação de perspectivas singulares sobre a homossexualidade entre a juventude brasileira que poderiam resultar em maior abertura à questão.

O último deste grupo de capítulos, intitulado “Cláudio (1972-1974)”, apresenta para o leitor aquele que veio a ser o companheiro de Daniel até seu falecimento, Cláudio Alves de Mesquita Filho. Cláudio, assim como Daniel, era mineiro, mas foi criado no Rio de Janeiro. Green o descreve como alguém simpatizante da esquerda e bissexual.

No momento em que conheceu Daniel, em 1971, Cláudio era casado com Elisalva, mas já havia tido um relacionamento com um homem. Elisalva e Cláudio conheceram Daniel após terem sido convencidos por Léo, primo de Cláudio e militante de esquerda, a cuidar de um “líder revolucionário importante” no apartamento em Niterói onde Daniel estava escondido da polícia. Com a prisão de Elisalva em 1973, resultante de uma denúncia sobre o paradeiro de Daniel, Cláudio e Daniel foram convencidos a deixar Niterói e, posteriormente, no dia 7 de setembro de 1974, a deixar o Brasil rumo à Europa.

O quarto período refere-se ao exílio de Daniel e Cláudio na Europa e comporta os capítulos de 12 - “Cravos Vermelhos (1974-1975)” - a 14 - “De Volta a Rio (1981-1982)”. O primeiro destino do casal foi Paris. Mais tarde, motivados pela Revolução dos Cravos, que em 1974 depôs o governo ditatorial fascista que comandava Portugal desde 1933, decidiram partir para Lisboa. Pouco depois, no final de 1975, com o declínio do poder da esquerda, conservadores passaram a controlar o governo em Portugal, o que os incentivou a voltar a Paris.

Este trecho, além de tratar com detalhes a empolgação de Daniel em viver em um país governado por forças de esquerda e de atuar num processo revolucionário exitoso, versa também sobre a aceitação e a publicização de sua homossexualidade e de sua relação com Cláudio, nem sempre vistas com bons olhos por seus conhecidos exilados em Paris.

O último grupo de capítulos aborda o retorno de Herbert Daniel ao Brasil. Neste segmento, Green retrata a retomada de Daniel da vida profissional de escritor, caminho que começara a trilhar quando preparava críticas de cinema, ainda durante a adolescência, para um programa local de rádio e, mais tarde, na Faculdade de Medicina, quando escrevia peças de teatro. Além disso, aborda o pioneirismo da atuação política partidária de Daniel, seu trabalho na Abia, seu ativismo pelo direito das pessoas vivendo com HIV/Aids e suas propostas no combate à epidemia.

Logo que retornou ao Brasil, Daniel passou a fazer parte do PT (Partido dos Trabalhadores) e mais tarde do PV (Partido Verde). Em 1982, atuou como assessor na campanha de Liszt Vieira, candidato a deputado federal pelo PT. Na campanha de Vieira, foi responsável por desenhar uma plataforma política original que tinha como pautas centrais os direitos dos homossexuais e o ambientalismo. Seguindo propostas similares, Daniel se candidatou a deputado estadual pela coligação PT-PV em 1986. Apesar de ter mobilizado o ânimo de setores do ativismo gay brasileiro, Daniel não conseguiu se eleger.

Além da atuação político-partidária, esse período foi marcado também pelo trabalho de Daniel na redação do Boletim da Abia, desde 1987; pela posterior descoberta de sua infecção pelo vírus do HIV em 1989, narrada de modo dramático por Green; e pela fundação do Grupo pela Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids (Pela Vidda), organização não governamental liderada por Daniel e mantida em uma sala emprestada pela Abia.

Os anos seguintes foram marcados por um ativismo intenso de Daniel no que diz respeito ao direito das pessoas vivendo com HIV/Aids. Sua atuação política foi tão destacada que ele chegou a ser pré-candidato à Presidência da República pelo PV, tendo sido retirado mais tarde da disputa em decorrência de seus problemas de saúde. Posteriormente, em 29 de março de 1992, veio a falecer, tendo deixado um legado até então esquecido.

O curto epílogo que encerra o livro discorre de maneira breve sobre a depressão de Cláudio após a partida de Daniel, sua infecção proposital pelo vírus HIV e sua morte por ataque cardíaco em 1994. As páginas restantes são dedicadas a retomar o legado de Daniel e sua importância no ativismo de pessoas vivendo com Aids, ressaltando que seu sétimo livro, Vida antes da morte [Life Before Death], um tratado sobre a Aids, foi sua publicação mais bem-sucedida comercialmente.

O tema central que perpassa todo o livro é o exílio, ou os múltiplos exílios de Daniel. O primeiro deles, vivido ainda no Brasil, foi a decisão de esconder sua homossexualidade e deixar de se relacionar com homens. Ironicamente, foi o segundo exílio, na Europa, que permitiu a Daniel, finalmente, aceitar sua sexualidade e viver abertamente seu relacionamento com Cláudio. Esta ideia de que Daniel teria vivido dois exílios é elaborada por Green a partir dos escritos semiautobiográficos do revolucionário. De acordo com Green, em seu livro Passagem para o próximo sonho, Daniel, ao rememorar seu treinamento de guerrilha, afirma que “não era exatamente um militante [da esquerda] homossexual. Era um homossexual exilado”.

Esta obra, que recupera a “vida extraordinária” do “revolucionário e gay” Herbert Daniel, não poderia ter sido publicada em ocasião mais oportuna no Brasil. O atual momento é marcado por um golpe político “constitucional” que atacou fortemente as bases de nossa jovem democracia, ainda em construção, pela forte reação aos direitos sociais, por uma oposição crescente aos poucos direitos e políticas voltados a LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) recentemente conquistados e pelo ataque direto ao Sistema Único de Saúde.

Vale ressaltar que o golpe em questão resultou no impeachment da então presidenta Dilma Rousseff em 2016. Dilma Rousseff foi companheira de Daniel em seus primeiros anos de ativismo contra a ditadura militar e, por isso, colaborou com a construção do livro aqui resenhado por meio de entrevistas concedidas ao autor. Ademais, cabe mencionar que Rousseff é a autora da orelha do livro. Desse modo, a trajetória de Daniel, recuperada na obra de James Green, e da luta armada contra a ditadura militar em função da sua atuação crítica em relação às políticas de HIV/Aids, pode nos servir de inspiração na luta por dias melhores.

Referências bibliográficas

FRY, P. 1982. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Zahar. [ Links ]

GONZALEZ, L. 1982. “O Movimento Negro na última década”. In: GONZALEZ, L. & HASENBALG, C. (eds.). Lugar de Negro. Rio de Janeiro: Marco Zero. [ Links ]

MACRAE, E. 2018 [1990]. A construção da igualdade: Política e identidade homossexual no Brasil da “abertura”. Salvador: EDUFBA. 388 p. [ Links ]

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