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Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro)

On-line version ISSN 1984-6487

Sex., Salud Soc. (Rio J.)  no.33 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2019  Epub Feb 10, 2020

https://doi.org/10.1590/1984-6487.sess.2019.33.17.r 

Resenha

SILVA, Vera Lucia Marques da. 2018. Sob a égide do chicote: uma leitura do amor na contemporaneidade. Curitiba: Appris. 173 p.

Vladimir Porfirio Bezerra1 
http://orcid.org/0000-0002-7588-1514

1Instituto Fernandes Figueira (IFF-Fiocruz), Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil

SILVA, Vera Lucia Marques da. 2018. Sob a égide do chicote: uma leitura do amor na contemporaneidade. Curitiba: Appris, 173 p.,


O amor. Este é um tema recorrente em pesquisas em todo o mundo e constantemente abordado por alguns autores no Brasil, seja numa perspectiva histórica, psicanalítica, sociológica, filosófica, seja multidisciplinar. Estudos sobre o amor influenciam profissionais das mais diversas áreas a pensar o tema buscando cada vez mais olhares críticos e que tentam ultrapassar o senso comum.

De modo geral, no que diz respeito ao amor, pode-se afirmar que sua noção tem percorrido um longo caminho de visibilidade na história; ele marca presença desde os primeiros registros que são conhecidos da luta pela sobrevivência na pré-história, passando pela invenção da escrita, pelos escritos gregos, pela Idade Média, pelo Iluminismo, pela Modernidade, até chegar aos dias atuais (Lins, 2012a, 2012b). Desejo, sedução, ciúme, infidelidade, separações - o universo do amor é vasto e convoca tanto pesquisadores como leitores a expandir seu campo de visão na tentativa de entendê-lo.

Por estas razões, destaco a sagacidade de Vera Lucia Marques da Silva ao tematizar a concepção de amor presente entre praticantes do BDSM. Este termo, surgido em 1991, deve ser considerado, por sugestão da autora, em pares, uma vez que cada par se refere a práticas que se implicam, ou seja, BD significa bondage e disciplina; DS, dominação e submissão; e SM, sadomasoquismo. A obra é fruto de sua tese desenvolvida no Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro entre os anos 2011 e 2015.

O interesse da autora surgiu a partir do sucesso conquistado pela trilogia Cinquenta Tons de Cinza, escrita por E. L. James, best-seller em diversas partes do mundo. A atenção inicial de Silva recai em três aspectos do romance e da adaptação fílmica: as inúmeras críticas advindas da comunidade BDSM - em especial quanto a uma representação pobre do contrato de consentimento e das práticas BDSM -, o estrondoso sucesso entre o público feminino em geral, e a surpresa de certos homens em face da reação das mulheres ao personagem Christian Grey (retratado no filme a partir de uma perspectiva masculina idealizada: o homem rico e másculo).

O contexto de submissão e a ideia de que no quarto, a portas fechadas, a sexualidade ignora regras, são os pontos de partida de Vera Lucia Marques da Silva para pensar o amor no mundo contemporâneo.

Aqui vale destacar um ponto importante ressaltado pela prefaciadora do livro e orientadora da tese, Sonia Maria Giacomini: em sua investigação sobre o amor, Silva contextualiza o processo e as condições a partir das quais as práticas BDSM podem deixar de ser consideradas patológicas, ao trazer para sua discussão o princípio - dentro do universo BDSM - do “são, seguro e consensual” (SSC). Este princípio consiste, segundo Silva, no reconhecimento de uma fronteira cuja existência permite um forte tensionamento erótico que, sinalizando perigo e risco, é abertura para o inesperado e o desconhecido. Isto torna a obra de Vera Lucia Marques da Silva, logo de início, instigante.

Ao adotar uma perspectiva construcionista da sexualidade, e buscando aporte teórico em autores como John Gagnon, Mary Douglas (2012), Maria Filomena Gregori (2016), Georges Bataille (2013), Jurandir Freire Costa (1998), David Le Breton (2006), entre outros, Silva se propõe a desenvolver uma etnografia virtual, que a leva a websites e fóruns de acesso virtual especializados na disseminação da cultura e da prática do BDSM. Aqui aponto um segundo destaque, pois ao compreender a internet como o lócus de certa liberdade e possibilidade de criação e promoção de discursos de legitimação de grupos considerados estigmatizados, Silva demonstra ser viável a realização de pesquisas que tenham o ciberespaço como campo não apenas válido, mas também como um rico terreno para suas descobertas.

Dividida em cinco capítulos, a obra relaciona, no primeiro, os principais elementos do BDSM, e a tentativa da autora de compreender como se constitui este universo - na visão de seus praticantes e dos pesquisadores sobre o tema - é um presente para o leitor. De maneira leve, porém precisa, Vera Lucia Marques da Silva apresenta as dimensões do BDSM trazendo à discussão elementos como a sua origem, os cenários do BDSM na atualidade, suas estruturas hierárquicas e o que sugere como um “estilo de vida” de seus adeptos, um grande trabalho inicial de pesquisa apoiado não apenas em autores como Anthony Giddens (1993), mas também nos estudos de Gênero e Sexualidade de autoras como Gayle Rubin (2017) e Judith Butler (2008). No que tange à hierarquia no BDSM, elemento central para a erotização do poder, identifica papéis atribuídos aos seus adeptos e nuances particulares que enriquecem o entendimento sobre o tema. “Dominatrix”, “top”, “bottom” e “submisso”, entre outros termos, ganham relações com os processos históricos e o contexto social atual, numa articulação dinâmica entre a teoria e o rico campo de pesquisa da autora.

O capítulo traz, ainda, uma minuciosa revisão bibliográfica de maneira a levar o leitor a entender como o BDSM designa uma reunião de práticas sexuais que configuram não só um “estilo de vida”, mas também uma “escolha” pessoal implícita no estilo de vida. Logo, ao apresentar o BDSM como um estilo de vida “adotado” e não “outorgado” (: 31), Silva se alinha a pesquisadores como Bruno Zilli (2018) e Maria Filomena Gregori (2016), apontando a possibilidade de compreender o BDSM segundo uma ótica que se distancia de visões preconceituosas e ligadas a valores morais.

Brinquedos sexuais, ritos específicos, objetos ressignificados, tudo se torna possível para o que a autora chama de “maximização do humano”. Nas palavras de Silva (: 58),

no universo BDSM, em que se busca a maximização do prazer, de uma perspectiva integral do corpo, ou seja, sem se restringir ao sexo genital, o uso de brinquedos tem um papel importante, seja para limitar alguns sentidos do corpo (vendas), para conter os movimentos (por exemplo, amarras, cruz de Santo André), para acentuar o prazer em certas áreas erógenas (os “nós” do shibari, os vibradores) ou na articulação de dor e prazer (velas, chicotes, palmatórias).

No segundo capítulo, ao explorar o processo histórico de termos como “perversão” e “fetichismo” no escopo dos estudos de sexualidade no século XIX, e ao trazer como contraponto o caminho percorrido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), Silva demonstra como alguns elementos do processo histórico ensejaram a organização de práticas sexuais a partir das categorias “normal” e “patológico” - fator que, em certo grau, coloca o BDSM no espectro de práticas estigmatizantes.

Numa exploração minuciosa sobre a preocupação da medicina desde meados do século XIX a respeito das perversões, a autora oferece a seus leitores panoramas gerais esclarecedores sobre a importância dos estudos de Kraft-Ebing, Havelock Eliis, Magnus Hirshfield nos campos da Sexologia e Psicologia - leituras obrigatórias para estudantes e profissionais que se dedicam a estudos relacionados ao gênero e à sexualidade nos dias atuais. Além disso, ao empreender uma leitura dos manuais de diagnósticos de transtornos mentais e mapear suas transformações ao longo das décadas, Silva evidencia como práticas sexuais - entre elas o fetichismo e o sadomasoquismo - se enquadraram e deslizam ainda hoje entre as noções de “patologia”, “desvio sexual” e “transtorno psicossocial” (: 67).

No terceiro e quarto capítulos - considerados pela autora o coração de sua pesquisa - Vera Lucia Marques da Silva adentra no debate sobre como os adeptos do BDSM aos quais teve acesso percebem o que convencionalmente é chamado de “amor romântico”. Ela vai além em sua investigação ao mapear as principais tensões presentes entre essa noção e as práticas BDSM em si. No decorrer desses capítulos, a autora - com base em websites especializados e fóruns on-line - aborda também alguns elementos próprios do imaginário dos praticantes do BDSM, como, por exemplo, suas subjetividades, convergências e divergências em relação às ideias tradicionais de relacionamento na contemporaneidade. Trata-se de detalhar nuances das práticas de submissão e dominação masculina e feminina, fantasias que permeiam o imaginário de seus praticantes (e leitores) e regras que subvertem padrões socialmente impostos.

Especificamente neste ponto de sua investigação, destaco a forma como a autora explora um de seus achados: grupos de praticantes do BDSM que têm como filosofia de vida a “supremacia feminina”.

Segundo Silva (: 84),

no universo Ds, para além da “natureza” dominadora ou submissa, há quem defenda uma filosofia chamada Supremacia Feminina, que está pautada na afirmação de que, de fato, a mulher é superior ao homem. A filosofia da Supremacia Feminina baseia-se em sete valores, apresentados em site de mesmo nome. São eles: confiança, cumplicidade, coragem, amor, lealdade, obediência e respeito.

Eis aqui o resultado do movimento de Silva em ultrapassar o óbvio daquilo que a temática apresenta; a autora mergulha nos elementos de seu campo e traz junto o próprio leitor, afastando-o da superfície rasa de uma leitura, na análise das peculiaridades que segue descobrindo o universo BDSM, especialmente no que se refere às pistas que indicam um caminho para se entender como o amor é representado segundo este grupo. Ressalta-se seu trabalho de pesquisa que elenca, por exemplo, as fantasias que permeiam o universo de seus adeptos, a escravidão dos homens, a traição do par, a erotização do trabalho doméstico, a inversão de papéis, a castidade, os jogos de poder, apenas para citar algumas.

Se, no mundo “baunilha” - categoria nativa utilizada para identificar as relações afetivo-sexuais “normalizadas” socialmente -, o homem deve ser sempre aquele que domina, “o caçador” (: 99), no mapeamento dos manuais de BDSM e dos fóruns on-line Silva descobre ricas descrições de como, por exemplo, se “constrói” um homem escravo, num processo que requer “treinamento” (: 93-94) e que não deixa de se confrontar (com) e por vezes subverter as normas sociais.

Assunto “recorrente e polêmico no meio” (: 149), a autora revela que o amor surge a partir de falas que denunciam duas vertentes: a primeira, que o amor representa um grande desafio para os envolvidos, “[...] porque traz em si elementos que se opõem diretamente ao ideário BDSM, tais como ciúme, insegurança, desejo de posse [...]”; a segunda, defendida por pessoas submissas, “que acreditam que o amor a quem as domina é [...] uma extensão do amor que sentem pela própria submissão” (: 150).

Todas estas descobertas se desvelam como significativos elementos para pensar o amor pela ótica BDSM. Sem perder seu rastro, a autora indica uma primeira pista: a de que, entre os adeptos do BDSM aos quais teve acesso, o amor aproxima-se muito mais da ideia de uma “vivência” da relação e seus consensos do que da concepção de que o amor enseje a relação por conta de sua existência. O amor, neste ponto do universo da pesquisa de Silva, é introduzido como um elemento que é transferido da dimensão danosa do conceito “baunilha” para o campo da interação prazerosa, movida por um “contrato móvel”, que preza pelo prazer recíproco - o amor “confluente”, aspecto que paulatinamente desenvolve no decorrer dos capítulos.

No quinto e último capítulo, a autora - ao tomar a noção de “erotismo” de Georges Bataille como um “elemento de transgressão social e perturbação das normas” (: 141) - empreende um último salto, o de verificar se os praticantes de BDSM em tempo integral (ou “24/7”, como chamam os adeptos) revelam o amor nessas relações e, em caso positivo, a partir de quais valores.

Realizando aproximações entre a noção de “amor romântico”, “amor confluente” e “amor BDSM”, Silva aponta o fato de que, ainda que vivam uma sexualidade considerada “pouco convencional”, alguns dos sentimentos listados por Jurandir Freire Costa (1998) como típicos do amor romântico -parceria, confiança, disponibilidade, entre outros - também se encontram presentes no código amoroso BDSM; contudo, observa uma peculiaridade, a de que estas características são desassociadas daquilo que seus praticantes consideram “negativo” - a concepção de um amor sublime, que pressupõe a ideia de “felizes para sempre”.

A autora finda seu trabalho tecendo algumas considerações sobre o BDSM, como a de que tal prática “desarruma certas convenções sociais com as quais dialoga, entre elas a matriz heteronormativa e os papéis de gênero” (: 146). Além disso, ao comentar autores como Bataille e Gregori, Silva propõe que o BDSM - em algum grau - esgarça as fronteiras do “normal” e do “patológico”, com base em encenações e dramatizações da ultrapassagem de limiares, ressignificando elementos, particularmente o amor, o foco de sua investigação; apresenta-se assim um convite ao leitor para pensar outras práticas na mesma perspectiva.

Longe de ser uma obra que resolve a questão do amor na contemporaneidade, o agradável passeio por Sob a égide do chicote: uma leitura do amor na contemporaneidade se configura como um sopro de ar fresco em face do atual contexto sociopolítico brasileiro, à medida que oferece uma leitura sobre o amor que compreende a multidimensionalidade do próprio termo “amor”; na obra, o amor compõe inúmeros universos, o político, o social, o psicológico, apenas para citar alguns.

Ao discutir o amor na perspectiva dos adeptos do BDSM, Vera Lucia Marques da Silva proporciona aos seus leitores a experiência de explorar, junto com ela, um rico universo de representações que - mais do que objeto para as ciências humanas, para a saúde e para o campo dos estudos em sexualidade e gênero - fazem parte, em certo grau, de nós mesmos.

Referências bibliográficas

COSTA, Jurandir Freire. 1998. Sem fraude, nem favor: estudos sobre o amor romântico. Rio de Janeiro: Rocco. 221 p. [ Links ]

GREGORI, Maria Filomena. 2016. Prazeres perigosos: erotismo, gênero e limites da sexualidade. São Paulo: Companhia das Letras. 283 p. [ Links ]

LINS, Regina Navarro. 2012a. O livro do amor. Vol. 1. Rio de Janeiro: Best-Seller. 361 p. [ Links ]

LINS, Regina Navarro. 2012b. O livro do amor. Vol. 2. Rio de Janeiro: Best-Seller . 362 p. [ Links ]

SILVA, Vera Lucia Marques da . 2018. Sob a égide do chicote: uma leitura do amor na contemporaneidade. Curitiba: Appris. 173 p. [ Links ]

ZILLI, BRUNO. 2018. A perversão domesticada: BDSM e consentimento sexual. 1. ed. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens. 128 p. [ Links ]

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