SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.19 issue63Government instruments in the implementation of the National Policy for MuseumsArticulating affirmative action policies for afro-descendants through cross-sector partnerships: an argumentative analysis of the Geração XXI case author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Organizações & Sociedade

On-line version ISSN 1984-9230

Organ. Soc. vol.19 no.63 Salvador Oct./Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-92302012000400007 

ARTIGOS

 

Turismo em territórios de grande densidade religiosa

 

Tourism in territories of High religious density

 

 

Siegrid Guillaumon

Doutora pela Universidade Federal da Bahia - UFBA. Professora na Universidade Católica de Brasília - UCB, Brasília/DF/Brasil. Endereço: QS 07, R. 820, Lote 3/ 723, Águas Claras. Taguatinga/ DF. CEP: 71972-540. E-mail: siegrid@ucb.br

 

 


RESUMO

O turismo tem sido entendido por organismos internacionais como atividade com grande potencial para promover o desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, que valoriza a cultura e promove a preservação das paisagens naturais. Seguindo as diretrizes internacionais, no Brasil, o turismo passou a ser entendido como uma indústria com grande potencial para gerar empregos e divisas, e se fortalece por meio da promoção da diversidade cultural, que pode estar associada às diversas culturas materiais e religiosas. Para compreender a gestão do turismo em contextos que articulam cultura, religião e desenvolvimento territorial, este ensaio teórico aponta limitações nos dois conceitos disponíveis na literatura, quais sejam, o conceito de turismo cultural e o conceito de turismo religioso, ao mesmo tempo que propõe o conceito de 'turismo em territórios de grande densidade religiosa', o qual incorpora o reconhecimento das dinâmicas de poder presentes nos territórios como elementos que interferem na forma como se planeja o turismo. Mobilizam-se entendimentos do campo da antropologia e da geografia para a gestão a fim de sustentar que a discussão teórica conduzida tem um potencial explicativo para o turismo em diversas escalas territoriais, e, também, em contextos nos quais existe o diálogo entre turismo e religião.

Palavras-chave: Gestão do turismo. Desenvolvimento territorial. Culturas. Identidades. Religiões.


ABSTRACT

Tourism has been understood by international organizations as an activity with great potential to promote economic development, while valuing cultures and promoting the protection of natural landscapes. Following international guidelines, tourism in Brazil has begun to be understood as an industry with great potential to generate jobs and income and is strengthened through the promotion of cultural diversity which may be associated with material and religious cultures. To understand the management of tourism in contexts that articulate culture, religion and territorial development, this paper identifies limitations in both theoretical concepts available in the literature: the concept of cultural tourism and the concept of religious tourism. It proposes the concept of 'tourism in territories of high religious density' to incorporate acknowledgement of the power dynamics present in the territories as elements that affect the way tourism is planned. The fields of anthropology and geography are used in the management approach to support the theoretical discussion in the paper. This has a great explanatory potential for tourism on different geographical scales, and also in contexts where dialogue between tourism and religions is present.

Keywords: Tourism management. Territory development. Cultures. Identities. Religions.


 

 

Reflexões sobre Turismo e Identidades Culturais

Nas últimas décadas, o turismo tem sido entendido como uma atividade econômica com potencial para desenvolver territórios, especialmente aqueles que se particularizam por riquezas naturais ou culturais. O exemplo do Brasil nos revela que este entendimento fundamenta os esforços do setor público e privado, os quais são empreendidos nas suas diversas regiões por meio de programas governamentais de fomento da atividade turística. Abrangem desde a legitimação de instituições de ordenamento do turismo, até a realização de investimentos financeiros.

O Departamento de Planejamento e Avaliação do Ministério do Turismo declara ter optado pela adoção de um modelo de gestão turística descentralizado, executado por meio de macro programas que desenvolvem ações em parceria com órgãos públicos e empresas privadas. Ainda que o organismo não explicite exatamente como esta concepção é colocada em prática, o modelo seria orientado por um pensamento estratégico que é o de desenvolver a atividade turística de forma sustentável para gerar divisas, empregos e incluir as comunidades e territórios nos processos de produção e consumo do turismo. Esta estratégia estaria centrada na promoção da diversidade histórica e cultural do país com vistas a desenvolver uma oferta para turistas nacionais e internacionais (MINISTÉRIO DO TURISMO, 2011).

Um dos estados brasileiros que exemplifica bem a diversidade social e cultural sob foco das políticas de fomento do turismo é a Bahia. Aqueles que a visitam entram em contato com um território que traduz sua trajetória histórica de diversas formas. Em terras baianas, encontraram-se, no passado, as populações nativas indígenas com as populações africanas e europeias (especialmente portugueses e espanhóis), as quais trouxeram nova cultura, seus valores e modos de vida. Amalgamou-se o que hoje está traduzido em um tecido cultural muito particular, fortemente associado à religiosidade do território, ao sincretismo religioso, à materialidade dos artefatos sagrados, rituais e totens pelos quais determinadas religiões se fazem traduzir.

De maneira geral, aquele que visita Salvador navega pela Baía de Todos os Santos1 até Bom Despacho2 na Ilha de Itaparica; compra balangandãs3, esculturas de caboclos4 e imagens de orixás5 no Mercado Modelo; passeia na Feira de São Joaquim, na qual são vendidos os elementos para preparação dos rituais de candomblé6; adentra algumas das mais de 360 igrejas católicas (muitas de estilo barroco colonial); participa da Festa de Iemanjá, de Santa Bárbara (Iansã), da Lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bomfim7; e come acarajé, vatapá, caruru e outras tantas comidas de 'Santo'. Na maioria das vezes, pouco se dá conta de que consumiu uma série de elementos religiosos materiais e imateriais. Apenas alguns turistas encontram os caminhos dos Terreiros de Candomblé e descobrem seus orixás através dos jogos de búzios. Turistas voltam para casa com seus desejos bem amarrados nas fitinhas do Senhor do Bomfim, após interagirem com uma totalidade religiosa que está presente no território. Consumiram elementos culturais e vivenciaram os encantos da religiosidade sincrética, síntese da tolerância e resistência das religiões.

Alguns autores (BURNS, 2002; FABARÉ, 2005; SENTÍAS, 2006) já identificavam que determinados destinos turísticos reconhecem o potencial de sua identidade cultural para criação de produtos turísticos que atraem grandes contingentes de visitantes, e são capazes de empreender um ciclo virtuoso em que o turismo acaba funcionando como um mecanismo de fortalecimento das identidades territoriais. Ao mesmo, outros destinos turísticos, ao não reconhecerem o potencial da diversidade cultural e ainda não terem desenvolvido mecanismos apropriados de reafirmação das culturas, podem incorrer em processos de descaracterização da cultura local como consequência direta do aumento da atividade turística. Nesse caso, as estratégias empregadas promovem o desenvolvimento de uma forma de turismo que pode estar desvinculada das particularidades culturais e religiosas locais, ou seja, daqueles elementos tangíveis e intangíveis que definem e diferenciam as identidades no território, e se traduzem de forma tão evidente nas diversas dimensões sociais ali expressas.

No caso baiano, tal constatação fica perceptível quando são exploradas informações que o turista acessa sobre o destino turístico que está visitando (páginas da Internet, panfletos, livretos), em que são raros os conteúdos que explicam a formação social religiosa da Bahia ou, sequer, reconhecem o sincretismo religioso. Um exemplo é o site oficial da Secretaria de Turismo de Salvador (SALVATUR, 2010), no qual, embora contenha imagens associadas à religiosidade, sendo a maioria delas fotos de igrejas católicas, não traz qualquer referência ao Candomblé como matriz religiosa presente no território. No site não é possível encontrar informações que ajudem o turista a planejar uma visita a um dos 19 Terreiros de Candomblé tombados como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Além dos terreiros tombados, o mapeamento realizado pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia - CEAO identifica 1165 Terreiros de Candomblé ativos no município de Salvador. O mapa abaixo revela sua distribuição no território.

 

 

O mapa acima deixa evidente a grande densidade de terreiros, como fica notável o fato de a Secretaria de Turismo de Salvador não reconheçer a forte presença das religiões africanas. Além de não reconhecer a contribuição africana à formação religiosa soteropolitana, o conteúdo publicado no site da Salvatur, também, não faz referência às religiões indígenas ancestrais do Brasil. Observações como estas vão fortalecendo a percepção de que a diversidade histórica e cultural nem sempre é vivenciada em todo seu potencial pelo visitante, e que, além disso, processos de transformação e perda das identidades culturais e religiosas podem entrar em curso como consequência da intensificação do turismo. Sendo a valorização da diversidade cultural um dos elementos estratégicos no modelo de planejamento do turismo no Brasil, e entendendo que a religiosidade constitui um evidente traço cultural dos territórios visitados, surge a inquietação para a qual este ensaio se direciona: por que o turismo é muitas vezes planejado de forma desatenta à presença de diversas identidades culturais no território?

Este ensaio teórico tem como objetivo desvendar as limitações situadas nos conceitos de turismo cultural e turismo religioso, amplamente, mobilizados em estudos de caso decantados nas fronteiras do turismo e religiões. Conforme será discutido, essas limitações eventualmente sustentam vieses na concepção, entendimento, planejamento e no desenvolvimento do turismo, especialmente naquilo que concerne à relação com as identidades culturais religiosas presentes no território. Este trabalho inicia-se com a apresentação de pesquisas nacionais e internacionais realizadas nessa temática interdisciplinar, para, em seguida, compreender as armadilhas implicadas nos conceitos de turismo cultural e turismo religioso, e, finalmente, elaborar um conceito contextualizado na realidade brasileira para a compreensão de tal atividade, qual seja, o turismo em territórios de grande densidade religiosa.

 

Investigações da Produção Acadêmica na Fronteira da Gestão do Turismo, Culturas e Religiões

O fenômeno turístico observado na Bahia, e que impulsionou este ensaio teórico, está englobado na inter-relação entre as temáticas da gestão do turismo, desenvolvimento territorial, religião e cultura. Foi realizada uma exploração inicial sobre as pesquisas mais recentes nestas temáticas no Banco de Teses do Portal de Periódicos da Capes e em alguns periódicos de abrangência internacional. A busca por termos conjuntos 'turismo religioso' revelou 76 teses e dissertações, dentre as quais se destacam as teses que estudam casos de romarias no Brasil. Magalhães (2007) estuda a Romaria em homenagem a São Francisco das Chagas, em Canindé-CE, trazendo a abordagem da geografia cultural. A tese de Pinto (2006) trata de aspectos históricos urbanos e o perfil do romeiro em Aparecida do Norte/SP, e tem por objetivo compreender os elementos que fortalecem o turismo religioso nos territórios. Seu enfoque analítico, também, é o da geografia. A tese de Marinho (2008) estuda o turismo no santuário de São Severinho, no município de Paudalho/PE. A perspectiva adotada é a da geografia humana, e estuda os deslocamentos espaciais entendidos como parte de uma rede geográfica do sagrado que interliga diversos centros de devoção naquele estado. Já o estudo de Freo (2007) tem cunho no campo da administração, entrelaçando as temáticas de planejamento estratégico, desenvolvimento territorial e turismo. As teses de Santos (2006) e Castro (2008) têm em comum o fato de estudarem territórios urbanos, especialmente os centros históricos. No primeiro caso, o município de Olinda/PE, e no segundo, São Luiz do Paraitinga/SP. Ambos enfocam uma aglomeração do que se denomina turismo histórico, artístico, religioso e cultural, e os impactos que tais atividades trazem para esses espaços urbanos específicos.

As teses mencionadas até então trazem revelações como: a) a recorrência das abordagens geográficas para tratar do turismo religioso; b) a possibilidade das contribuições do campo da gestão para o turismo religioso, já que essa perspectiva ainda é mais rara; c) a interdisciplinaridade entre cultura-geografia-gestão como possibilidade de perspectiva para o estudo do turismo nos territórios; e d) a esfumaçada fronteira entre cultura e religião quando se estuda o turismo nos diferentes territórios sagrados.

A pesquisa, a partir do conjunto de termos 'turismo cultural e desenvolvimento territorial', aponta 30 resultados no banco de teses. A análise dos resultados disponibilizados permitiu constatar que existem alguns estudos sobre o desenvolvimento do turismo em territórios indígenas brasileiros (JESUS, 2004; LACERDA, 2004; OLIVEIRA, 2007) e cujas temáticas perpassam a degradação da cultura indígena relacionada à ocupação territorial, e a presença do turismo como equivocado ideário da sustentabilidade entre etnias locais.

Esta breve incursão na produção científica brasileira aponta quão timidamente realizam-se reflexões sobre o turismo nos territórios indígenas. As abordagens da geografia parecem prevalecer nos estudos sobre turismo, cultura e desenvolvimento territorial. Identificou-se, ainda, uma tendência a prevalecerem estudos de caso em que o turismo religioso está associado às celebrações e rituais de matriz religiosa católica, tendo sido encontrados, em pequeno número, os estudos sobre turismo religioso relativo às religiões de matriz indígena e africana no Brasil.

A investigação na produção internacional é, também, reveladora. O periódico internacional Tourism Management apresentou, em outubro de 2009, uma lista contendo os 25 artigos mais procurados no período de um ano. Apenas um artigo tratava da temática de turismo étnico, e outro sobre a relação do turismo e desenvolvimento territorial. Dezessete deles estavam inseridos no campo dos estudos de mercado (marketing, estratégia, risco e segmentação). Tal constatação sobre um dos principais periódicos internacionais da área desperta, pelo menos, duas inquietações: a) a escassez dos estudos que aproximam cultura e turismo aponta, por um lado, uma importante lacuna a ser suprida e, por outro, a dificuldade de desenvolver essa perspectiva teórica na fronteira entre administração e turismo; e b) a expressividade dos estudos de mercado mostra uma saturação e repetitividade, e, ao mesmo tempo, a facilidade de replicar estudos de caso em tal perspectiva. Há, assim, uma lacuna nas reflexões multidisciplinares da antropologia e geografia em seu diálogo com o campo da gestão do turismo.

Pesquisando os termos conjuntos 'religious tourism' na página Science Direct8 (2009), são apresentados 355 artigos no Annals of Tourism Research, 193 artigos no Tourism Management, 51 no Futures e 48 no Geoforum. Quanto ao ano de publicação, temos o seguinte cenário:

 

Tabela 1

 

De acordo com a Tabela acima, é crescente o número de trabalhos que tangenciam ambos os temas de turismo e religião nos últimos 10 anos. Isto aponta a relevância que a temática vem adquirindo no mundo. Quando organizados por relevância9, dentre os cinco primeiros artigos, três foram publicados no ano de 1992 (os dois mais relevantes e o quarto mais relevante), um em 2005 e um em 2008. O primeiro mais relevante, Religious sites as tourism attractions in Europe (NOLAN; NOLAN, 1992 ), identifica conflitos de interesse entre peregrinos devotos e turistas seculares na visitação de três tipos de atrativos: centros de devoção; atrativos que combinam história, arte e belezas naturais; e festivais religiosos. O segundo artigo mais relevante, Forms of religious tourism (RINSCHEDE, 1992), traz a ideia (hoje recorrente) de que a peregrinação constitui a forma mais antiga de turismo no mundo, ou seja, a motivação religiosa na história da humanidade teria dado, senão a origem, ao menos a importância ao deslocamento hoje inscrito sob o conceito de turismo.

O estudo acompanhou as publicações internacionais de turismo ao longo de 2009 por meio dos allerts10, coletando informações sobre os estudos de casos e debates mais recentes sobre o campo interdisciplinar de intersecção entre turismo, religião, cultura e desenvolvimento territorial. O único artigo publicado nesta temática, em novembro de 2009, pelo Journal of Sustainable Tourism, foi o de David Weawer (2010), Indigenous tourism stages and their implications for sustainability, que estuda a evolução da relação entre turismo e populações indígenas na Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Estados Unidos.

A familiarização com a temática sugere que, para compreender a gestão do turismo em relação à identidade cultural, é necessário recorrer à construção de abordagens interdisciplinares, unindo geografia, antropologia e gestão. O viés para estudos sobre turismo e catolicismo é notável. No cenário internacional, a crescente importância de estudos sobre turismo e religião contrasta com a escassez de perspectivas antropológicas. O que se verifica é a maior ocorrência de estudos de mercado, apontando que um aprofundamento teórico reflexivo para este campo interdisciplinar pode trazer novas luzes para a gestão do turismo, culturas e religiões.

 

As Limitações dos Conceitos Existentes: turismo cultural e turismo religioso

Após a familiarização com as reflexões que estão sendo publicadas nesta esfera interdisciplinar, realizou-se uma imersão nos conceitos existentes na literatura que vinculam turismo e elementos da cultura e religiosidade11. Pretendeu-se verificar em que medida são produzidas respostas suficientemente explicativas para a inquietação sobre o distanciamento entre o desenvolvimento do turismo e a afirmação das identidades culturais religiosas presentes no território.

Um primeiro conceito muito mobilizado para os estudos na interface entre turismo e cultura é o de turismo cultural. Esse conceito vem ganhando densidade nos últimos anos (PHILLIPS; STEINER, 1999; MCKERSHER; DUCROSS, 2002; SILVEIRA, 2003; FABARÉ, 2005; SENTÍAS, 2006; ANDRÉ, 2006). O conceito de turismo cultural surgiu da tentativa de organizar o fenômeno turístico a partir de tipologias. Já na década de 1970, o turismo cultural, ao lado do turismo étnico, recreacional, ambiental e histórico, surge como uma das classificações do turismo por tipo de lazer. Em seguida, o conceito de turismo cultural foi sistematizado por Smith (1992, p. 18) como: "turismo cuja motivação valoriza o pitoresco e os estilos de vida tradicionais", pautado na curiosidade por países, gentes e lugares exóticos". Nos últimos 30 anos, criaram-se inúmeros conceitos para o turismo cultural amparados na percepção de que em alguns destinos turísticos a viagem era motivada pela busca de algo considerado culturalmente diferente, ainda que não se soubesse explicar o que é diferente e o que é igual, e a partir de qual olhar ou narrativa12.

Com o tempo, discussões mais consistentes sobre o binômio turismo e cultura ocorreram quando foram agregados os instrumentos analíticos da antropologia (BURNS, 2002). Buscava-se entender a cultura em relação à dinâmica do turismo partindo da premissa de que o turismo é um conjunto global de atividades que promove o encontro de muitas culturas, e exigiria um conhecimento mais profundo sobre as consequências da interação das sociedades que geram e recebem turistas (SENTÍAS, 2006). As contribuições da antropologia se deram, especialmente, através do método etnográfico, dos modelos de compreensão da aculturação, bem como da explicitação da ideia de que o turismo é apenas um dos elementos na mudança constante da cultura. A cultura é uma dinâmica e está sempre em transformação. No estudo antropológico do turismo, emergem quatro temas importantes: o paradoxo local/global; turismo e ritual; turismo como aventura mitológica; turismo e mudança social (BURNS, 2002).

Os estudos de turismo cultural se dividiram, cada vez mais, entre uma vertente que enfoca o mercado e outra que enfoca o discurso, a cultura e as representações simbólicas. Na última década, as abordagens críticas da antropologia adquiriram relevância envolvendo no estudo do turismo questões de poder, desigualdade e processos de desenvolvimento territorial (BURNS, 2002). Nessas dinâmicas territoriais, ressalta-se a importância das identidades e da diversidade cultural. Isto aponta que a perspectiva da geografia humanista cultural foi convocada para a discussão de turismo cultural, fato que havia sido constatado na revisão inicial. Bianchi (2009) sugere que a valorização da cultura no âmbito dos estudos do turismo está se configurando como uma disciplina própria, exigindo a reformulação de bases conceituais e emitindo novos olhares sobre os campos simbólicos e vivenciais do turismo (BIANCHI, 2009).

Tal processo ocorre, especialmente, nas reflexões sobre gestão do turismo e cultura, que passam a fundamentar-se no entendimento de que o turismo não é uma atividade aleatória, mas ao contrário, é uma estratégia de desenvolvimento territorial e, portanto, pode ser planejado a partir do fortalecimento dos vínculos de identidade. Por outro lado, pode gerar profundos processos de descaracterização da cultura no território, e resultar na transformação ou aniquilação das identidades culturais (SENTÍAS, 2006). A cultura, entendida como um fenômeno em permanente transformação, não se reduz às suas expressões arquitetônicas, folclóricas, ou fixas nos museus. Além das referências materiais, cada indivíduo é portador de um sistema cultural em transformação, estruturado pelos valores culturais (CLAVAL, 1999; GEERTZ 1989). Tais valores estão mais ancorados na relação que o indivíduo tem com os outros do que na sua relação com o ambiente natural físico. A celebração de ritos faz com que o indivíduo reflita sobre valores que partilha com os outros e sobre aquilo que o grupo julga como temas de identidade centrais. A cultura é um processo dinâmico que, por meio dos contatos estabelecidos entre sociedades, sofre adaptações ao longo dotempo e no nível coletivo de valores culturais (SENTÍAS, 2006).

Quando uma determinada comunidade que vive em um território árido decide que o sistema de divisão da água, um bem escasso, deve ser igualitário, e não proporcional ao papel hierárquico de cada indivíduo no grupo, então, o valor da preservação da coletividade (todos sofrem com a escassez da água em igual medida) é maior do que da preservação da individualidade (alguns sofrem mais e outros menos). Quando essa comunidade festeja em conjunto a chegada da época da chuva, tal evento reaviva a importância do valor da coletividade. Verifica-se, nesse momento, um mecanismo de fortalecimento dos valores identitários daquele grupo13. Trata-se de um processo de institucionalização dos valores culturais no nível individual e coletivo.

Quando os indivíduos praticam turismo e visitam territórios conformados em contextos histórico-sociais diferentes dos seus, confrontam sua construção individual com novas realidades que são observadas e experimentadas, remodelando suas construções individuais. Neste confronto, aquilo que é diferente/desconhecido é percebido com mais facilidade do que tudo aquilo que já é conhecido. As percepções ficam mais atentas ao 'exótico'14. Dentre os elementos de diferenciação, incluem-se aqueles relativos à religiosidade presente em cada território. Essa percepção (seletiva) é atenta tanto a elementos materiais (arquitetura, alimentos, decorações de festejos, vestimentas, cerâmicas, instrumentos musicais, utensílios cotidianos) como imateriais (comportamento, valores, formas de se expressar, músicas, jeitos de ser, de andar, de comer, de narrar histórias).

Assim, o papel dos ritos seria o de fortalecer e garantir a sobrevivência de elementos que um determinado grupo entende como importantes (GEERTZ, 1989; ROSENDAHL, 1999). No caso dos rituais religiosos, o que se pretende fortalecer pode ser um mito narrado no qual reside uma aprendizagem importante para o grupo. Isto incita reflexões sobre o verdadeiro impacto da atividade turística na transformação do sentido dos rituais. Quando o turismo impulsiona modificações nesses ritos, está atingindo todo um conjunto de elementos importantes para determinado grupo, quanto aos mecanismos de institucionalização da cultura no território. Quando um restaurante contrata um grupo 'folclórico' para realizar uma encenação de rituais tradicionais para turistas, tais rituais são descontextualizados, adquirindo um caráter utilitário que não existia inicialmente, e, portanto, já não é mais o mesmo ritual. Por outro lado, a possibilidade de encenação de elementos culturais tradicionais pode incentivar no grupo o resgate do significado originário deste ritual, algo que já estava esquecido no imaginário coletivo. Qual das duas consequências efetivamente ocorrerá a partir do turismo, isto merece uma interpretação cuidadosa, e certamente se diferencia caso a caso15.

Até então, a compreensão que está se apresentando sobre consolidação e transformação cultural, sobre continuidade e ruptura, permite compreender que se o turismo é planejado para valorizar rituais culturais, aquele interfere e modifica estes (já não são 'originais', são simulações). No entanto, se o turismo é planejado ignorando os elementos culturais no território, o simples fato de promover fluxos de visitantes que trazem suas próprias culturas está-se contribuindo para a descaracterização/ interferência nos elementos da cultura local. Portanto, se a atividade turística traz, necessariamente, implicações para o movimento que associa continuidade e ruptura na construção da cultura no território, é importante que essa relação seja assumida, seja implicada no planejamento do turismo; que esta interferência seja explicitada e que permita o diálogo entre os grupos envolvidos.

Sobre a apimentada discussão, se o turismo é o 'vilão' que descaracteriza a cultura local, ou o 'herói' que promove o resgate da cultura dando novo sentido a ela em lugares esquecidos, Wrobel e Long (2001) tecem em sua obra uma pertinente crítica ao reducionismo que subestima a capacidade dos grupos de se fazerem escutar nos territórios onde ocorre turismo, bem como de manifestarem seus desejos de diálogo, seus interesses, ou até sua vontade de omissão e desprezo com relação ao turismo. Esses autores enfatizam que, nem vilão, nem herói, o turismo é apenas mais uma dentre as diversas dinâmicas que vêm transformando a cultura desde que se deram os primeiros agrupamentos sociais no território. Se uma cultura avivada e reconhecida no território é algo importante, o é para seus habitantes, e apenas secundariamente para o turismo, atividade esta entendida, pelos autores, como mais uma forma de catalisar interesses de determinados grupos camuflados sob o discurso da preservação cultural (WROBEL; LONG, 2001).

Assim, o turismo (entendido como deslocamento humano) promove, necessariamente, o encontro de culturas em um território, aferventando a transformação cultural. Considerando que 'culturas em diálogo' estão implicadas no fenômeno do turismo, este estudo deduz que o conceito de turismo cultural é vazio de sentido - é redundante. Turismo implica experimentação cultural. Não existe turismo que não seja cultural. Poder-se-ia imaginar o turismo em territórios com traços culturais tão parecidos com o território de origem, que as diferenças culturais não seriam o elemento de aprendizagem mais destacado. No entanto, sempre há coincidência e interação de culturas num determinado território por meio da vivência do turismo.

Mas, ainda que o termo turismo cultural seja questionado nestas reflexões, o fato é que a maior parte dos estudos sobre a relação entre turismo e cultura enfoca territórios onde existe uma riqueza histórica arquitetônica, ou uma manifestação religiosa dita tradicional. Vai afirmando-se a ideia de que cultura é aquilo que é exótico, e vão estudando-se apenas os mecanismos de gestão daquilo que se convencionou chamar de turismo cultural nesses territórios. No entanto, a cultura é dos um elemento de dinâmica social que constitui os territórios, mesmo naqueles em que, por acaso, o turismo cultural não foi descrito ou percebido.

Parece, então, que o fato de alguns territórios se destacarem sob o vago conceito de 'turismo cultural' não é porque estes retêm alguma particularidade 'cultural' (e são observados como 'exóticos'), mas pelo fato de reconhecerem sua própria cultura, e dominarem, mais do que outros, a arte de afirmar esta cultura para si mesmos, criando a possibilidade de comunicar seus elementos culturais. Ao comunicar sua identidade cultural, facilitam a percepção daquilo que é diferente na relação com 'o outro' - o turista. Sem a capacidade de reconhecer a própria cultura no território, também seria limitado o esforço de se pensar o turismo em relação à cultura, e criar instrumentos de gestão do turismo nesses contextos culturais. Assim, reconhecer a cultura no território é uma atitude anterior ao planejamento do turismo.

Sobre a dimensão religiosa da cultura, os casos de turismo mais pesquisados no mundo são: o Santuário de Lourdes, na França; o Caminho de Santiago de Compostella, na Espanha, Portugal e França; a peregrinação a Jerusalém, em Israel; a peregrinação à Meca, na Arábia Saudita, e a escalada do Monte Kailash no Tibete (SOUDEN, 2007). Com relação ao território brasileiro, os casos mais pesquisados são: o Santuário de Nossa Senhora de Aparecida (SP); Procissão do Círio de Nazaré (PA); Peregrinação de Padre José de Anchieta (ES); Lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim (BA); Festa de Bom Jesus dos Navegantes (BA, ES, MA, RJ); Festa do Divino (diversos estados); Ternos de Reis (principalmente no nordeste); Festa de Nossa Senhora da Achiropita (SP).

Fica evidente como os estudos sobre as atividades turísticas relacionadas à religião tratam, essencialmente, das peregrinações, e, no caso do Brasil, as peregrinações estudadas estão em grande maioria relacionadas à religião católica. Ocorre que esta não é a única matriz religiosa no território brasileiro. A ênfase encontrada em uma das matrizes religiosas para operacionalizar conceitos que relacionam turismo e religião vai sinalizando para a possível existência de uma subliminar relação de poder entre as religiões. Esta relação de poder pode ser compreendida como contexto no qual ocorre o turismo. Em outros contextos históricos, tais relações de poder entre religiões já existiam, ou seja, fazem parte da própria construção social do país.

Para ilustrar brevemente este ponto, relembram-se alguns eventos. Durante o período colonial, houve grandes esforços de conversão das populações indígenas nativas ao Catolicismo, com a criação de missões e empreendimentos jesuíticos. A prevalência de uma crença religiosa e aniquilamento de outra retrata a presença de uma relação de poder que mobilizava instituições. Outro evento é aquele no qual as populações africanas também trouxeram suas religiões tradicionais entendidas como pagãs, portanto proibidas. Isto fomentou processos particulares de sincretismo para sobrevivência da diversidade religiosa-cultural que se instalava no território. Aqui está um novo contexto de poder e, também, de resistência à imposição de uma crença. Nas narrativas da história brasileira, as religiões não-católicas foram sempre perseguidas, mas pouca luz foi lançada, até então, sobre a relação desses fatos com contextos de gestão pública. Um exemplo é o de Negrão (1993), que já sinalizava para o caso da proibição de cultos religiosos africanos, como o caso da suspensão em São Paulo, em 1977, no âmbito do projeto militar nacionalista, como uma tentativa de mobilizar as massas popularescontra os clérigos que não apoiavam o governo vigente (NEGRÃO, 1993)16.

Tendo em vista esses breves exemplos que revelam dinâmicas de poder entre religiões e suas relações com as estruturas de gestão pública, percebe-se que dinâmicas de miscigenação foram intensas e o território brasileiro transborda a diversidade cultural que assim conformou-se. Mas o fato de que apenas as manifestações do turismo religioso católico sejam reconhecidas para estudos acadêmicos pode estar revelando que as relações de poder entre as religiões ainda sejam mais presentes do que se imagina nos contextos de planejamento e gestão pública e privada também do turismo.

O conceito mais recorrentemente mobilizado para a compreensão do diálogo entre gestão do turismo e a dimensão religiosa da cultura é o conceito de turismo religioso. O turismo ocorre valorizando, observando, usufruindo do patrimônio religioso, e acaba por imprimir novas dinâmicas sociais nestes lugares. Turismo religioso foi definido como:

uma forma de viagem na qual a motivação principal é a religiosa, no entanto, podem ocorrer outras motivações, tais como a curiosidade ou interesse cultural em compreender as manifestações tangíveis e intangíveis de determinada cultura religiosa. Turismo religioso é aquele empreendido por pessoas que se deslocam por motivações religiosas e/ou para participação em eventos de caráter religioso. Compreende romarias, peregrinações e visitações a espaços, festas, espetáculos e atividades religiosas. (DIAS; SILVEIRA, 2003, p.17).

Nesse primeiro conceito de turismo religioso, o fator que diferencia tal modalidade de outras formas de turismo é a motivação para a viagem, de cunho religioso, seja pela adesão religiosa, seja pela curiosidade religiosa. As formas mais recorrentes pelas quais o turismo religioso se manifestaria seriam, principalmente, as peregrinações e participação em eventos religiosos. Andrade (2000) elabora um conceito de turismo religioso mais amplo e menos vinculado à motivação religiosa:

É o conjunto de atividades com utilização parcial ou total de equipamentos e realização de visitas a receptivos que expressem sentimentos místicos ou suscitem fé, esperança e caridade aos crentes ou pessoas vinculadas às religiões. (ANDRADE, 2000, p. 77).

Nesse segundo conceito, a motivação da viagem importa menos do que o caráterreligioso materializado nos equipamentos turísticos. É a materialidade da religião que vai despertar um sentimento de cunho religioso nos visitantes, seja porque partilham da mesma religião consubstanciada no atrativo, seja porque são sensibilizados pela religião. Outro conceito de turismo religioso esta pautado na sacralidade do lugar:

É uma atividade turística que consiste em realizar viagens (peregrinações) ou estadas em lugares religiosos (retiros espirituais, atividades culturais e liturgias religiosas) que, para os praticantes de uma religião determinada, supõe um fervor religioso por serem lugares sagrados de veneração ou preceituais segundo sua crença. (MONTANER; ANTIACH; ARCARONS, 1998, p. 380).

Sob tal conceito fica implícita a ideia de que o turista religioso frequenta os espaços religiosos de uma religião congruente com a sua adesão religiosa; e o deslocamento que ocorre por conta disto é o que caracterizaria o fenômeno do turismo religioso. Os conceitos de turismo religioso variam pouco quanto ao seu conteúdo, associando a ideia de lugar sagrado, mobilidade de pessoas e tradução da religião em elementos materiais. A ideia subliminar é a de que a motivação para o deslocamento está vinculada ao significado religioso do destino turístico. Ou seja, os turistas fariam uma decisão sobre o destino a ser visitado que está, fundamentalmente, pautada no sentimento de pertencimento a uma determinada religião, ou na curiosidade por uma religião, e o destino visitado é representativo dessa religião.

Em tais conceitos, ficaria excluído do fenômeno do turismo religioso o deslocamento cuja motivação religiosa não é a principal, mas na qual o território visitado tem significado sagrado para a sociedade que lá vive. É o caso do turismo de aventura ou alpinismo no Himalaia17. O visitante escolhe o destino pela possibilidade de realizar uma escalada nas montanhas mais altas, que são também, espaços sagrados para aqueles que partilham do budismo. Alpinistas visitarão uma série de templos budistas, mesmo que esta não tenha sido a motivação da viagem. Comprarão bandeirinhas coloridas com mantras escritos e amarrarão junto a tantas outras no topo das montanhas, imitando o comportamento dos monges que lá vivem. Mas os turistas não são praticantes do budismo. O conceito de turismo religioso não traduz esse tipo deslocamento e comportamento humano.

Os conceitos de turismo religioso que se apresentam na literatura até então, pelo fato de associarem a identidade religiosa do turista à motivação do turismo, acabam por limitar a capacidade explicativa do conceito, pois: 1) partem do entendimento de que o destino visitado tem significado sagrado primordialmente para uma religião (e não diversas religiões, ou sincretismos); 2) pressupõem a congruência da religião do visitante com o lugar visitado, excluindo do fenômeno aqueles que visitam templos sagrados de religiões da qual não partilham; e 3) suas construções teóricas estão embasadas, em grande maioria, na observação de fenômenos turístico-religiosos de cunho católico-cristão, menosprezando a presença de outras matrizes religiosas nos territórios. O fato de o território baiano condensar muitas matrizes religiosas, e receber turistas que não procuram o destino turístico mobilizados por um sentimento de fé, é um exemplo da limitação na operacionalização desses conceitos.

 

O Ensaio de Novas Concepções para a Gestão do Turismo em Contextos Culturais e Religiosos

Diante da impertinência dos conceitos de turismo cultural e turismo religioso para as reflexões teóricas aqui presentes, desenvolve-se a possibilidade de consolidar o conceito de turismo em espaços sagrados. Pretende-se com tal artifício desvincular os dois elementos: motivação da viagem e características do espaço visitado. O conceito de espaço sagrado foi desenvolvido, no Brasil, por Rosendahl ainda na década de 1990, nos marcos do paradigma humanista cultural, no campo que se denominou Nova Geografia Cultural18. Qualquer concepção religiosa, segundo Rosendahl (2002), implica em uma distinção entre o sagrado e o profano. O sagrado relaciona-se com a divindade, e pressupõe a separação e distinção entre as experiências que envolvem a divindade daquelas que não a envolvem, o que seria, por conseguinte, o profano. "A experiência do sagrado remonta comportamentos individuais e coletivos bastante remotos na história da humanidade" (ROSENDAHL, 2002, p. 232), ao passo que o processo de secularização sempre esteve presente, fazendo com que os indivíduos vivenciem o mundo sem recorrer às interpretações religiosas. O sagrado se refere à "alquimia que a sociedade tem que realizar para conservar os sentimentos coletivos em intervalos regulares, reforçando sua unidade e identidade" (ROSENDAHL, 2002, p. 232). A escolha do lugar sagrado se dá pela hierofania, que é a manifestação direta da divindade em pessoas ou objetos.

Imagina-se que o conceito de 'turismo em espaços sagrados' contemplaria algumas especificidades. Com esse artifício, ficaria superada a necessária ligação entre o sentimento de pertencimento do turista a uma religião, ligação esta presente no conceito de turismo religioso. O turismo em espaços sagrados seria aquele praticado em espaços que são sagrados para determinados grupos que compartilham determinada fé e que os habitam. No entanto, tais espaços não seriam, necessariamente, espaços sagrados para o visitante.

Ocorre que nalgumas sociedades (recorrentemente definidas como 'tradicionais') a separação entre cotidiano e religião não existe. Este é o caso dos xamanismos indígenas19 e do hinduísmo20. Neste último caso, um dos fundamentos religiosos é o de que a religião é a vida, e, portanto, todo o espaço é sagrado - a vida é sagrada. A dissociação entre sagrado e profano, embora faça sentido para algumas vertentes religiosas, não o faz para todas. Ou seja, a distinção entre espaço sagrado e profano, com objetivo de estudar a gestão do turismo nesses espaços diferenciados, em muitos casos, ignoraria relevantes valores culturais dos grupos sociais nos determinados territórios com os quais interagem os turistas. A crítica ao conceito de turismo religioso apontou a necessária dissociação da referência de valor de sacralidade, especificamente, na relação entre o turista (que se desloca) e o espaço visitado. No entanto, isto não se estende ao conjunto de indivíduos que atribuem sacralidade ao espaço e que estabelecem com este um sentimento de pertencimento e um complexo sistema de significados no lugar. Tal dissociação não é possível sem a incursão em inúmeras limitações e considerações.

Enquanto o conceito de espaço no campo da geografia sempre foi elemento de debates que vêm evoluindo à luz de diversos paradigmas21, o fortalecimento das perspectivas críticas impulsionaram e fortaleceram o conceito de território. Empiricamente, identificavam-se novas formas de afirmação da diversidade e identidade de grupos que não poderiam continuar sendo ignoradas (CLAVAL, 1999; RIBEIRO; MILANI, 2009). Dentre muitas consequências, isto resultou na substituição do conceito de espaço pelo de território, o que envolve poderes disputados, ameaçados e explorados. Integra-se àquela dimensão natural (espaço) uma outra de natureza sociopolítica (como sistemas de poder e controle) e, também, uma dimensão cultural, como o conteúdo simbólico que captura a totalidade da identidade de grupo (CLAVAL, 1999)22.

Diante desses esclarecimentos, experimenta-se o conceito de 'turismo em territórios sagrados'. A compreensão do turismo a partir do território seria muito apropriada por recuperar as inquietações anteriores sobre a prevalência dos estudos sobre turismo religioso de cunho católico no Brasil, deixando implicado que existe uma relação de afirmação de poder no território entre as diversas religiões presentes. Além disto, tal conceito ajudaria a superar as limitações dos conceitos de turismo cultural, turismo religioso e turismo em espaços sagrados, as quais foram apresentadas anteriormente. O conceito de 'turismo em territórios sagrados' implicaria a ideia de que as religiões no território, também, manifestam relações de poder entre si e por meio do turismo. Traduziria a ideia da sacralidade como algo pertencente a uma totalidade socioterritorial temporal e historicamente contextualizada.

A partir dessas reflexões, vai confirmando-se a possibilidade de tratar o fenômeno do turismo em territórios onde ocorrem manifestações religiosas como 'turismo em território sagrado', entendendo que as religiões manifestam relações de poder entre si, transformando o território. Permaneceria, no entanto, a questão do sujeito: para quem é sagrado o território onde ocorre o turismo? O que diferenciaria a gestão do turismo no território sagrado, daquela gestão do turismo no território profano? Essa diferenciação é pertinente?

Para a superação da subjetividade implicada no conceito de território sagrado (discutida anteriormente), propõe-se que tal subjetividade não seja negada, mas sim, envolvida/implicada no próprio conceito. Para esclarecer esse ponto, temos o seguinte movimento reflexivo: a questão inicial, ou seja, para quem um determinado território seria considerado sagrado, enquanto para outro seria considerado profano, seria substituída e superada pela seguinte afirmação: trata-se de um território onde determinado grupo social que partilha de valores religiosos construiu um sentido sagrado. Nesse território, insere-se a atividade turística. Ou ainda: trata-se de um território onde diversos grupos construíram relações de sacralidade em uma dinâmica complexa (de afirmação, negação e resistência) ao longo do tempo, e onde se estabeleceram dinâmicas de poder.

Esse entendimento ficará melhor traduzido no conceito 'turismo em territórios de densidade religiosa' -conceito que está sendo proposto neste ensaio teórico, sinalizando que, nesses territórios particulares, a sacralidade se manifesta através de artefatos, comportamentos e rituais de maneira densa. Quando o turista visita um desses territórios, é a esta densidade cultural religiosa que ele acessa, consome, ainda que não partilhe da religião que envolve os grupos que constituíram o território, que efetivamente apropriaram-se dele. Como todos os territórios possuem alguma densidade religiosa, e alguns se diferenciariam de outros pelo fato da densidade religiosa se traduzir de forma muito expressiva, propõe-se um atributo que traduza tal intensidade: 'turismo em territórios de grande densidade religiosa'.

Define-se o conceito nos seguintes termos: o 'turismo em territórios de grande densidade religiosa' é uma forma de deslocamento turístico no qual, independentemente da motivação para viagem, ou da crença religiosa do turista, visitam-se territórios em que a religiosidade local permeia, impondo-se nas diversas dimensões sociais com tal evidência que é impossível que o turista passe por esses territórios sem que ocorra uma sensibilização, ainda que involuntária, para elementos da religiosidade local, ou que ocorra a vivência da identidade religiosa ali presente.

A figura abaixo representa os elementos do conceito ensaiado.

 

 

Nos territórios de grande densidade religiosa podem ocorrer múltiplas religiões em interação, religiões sincréticas, ou mesmo uma religião hegemônica. Cada uma das vertentes religiosas define seus espaços sagrados, seus templos. A presença de uma configuração religiosa num dado momento histórico temporal é a própria expressão do resultado das dinâmicas de poderes religiosos; e o turismo interage com essa condição traduzida, revelada no contexto. Imaginar a densidade religiosa no território (ao invés de turismo religioso) traz implicações para a forma como a gestão do turismo é concebida: planejar o turismo nesses territórios que se particularizam pela sua densidade religiosa implica em conhecer e reconhecer esta densidade, como ela se manifesta e qual importância tem para os grupos sociais ali presentes, reconhecendo, também, as limitações dos mecanismos de planejamento formulados em um contexto territorial sempre em transformação, resultado da constante afirmação de poderes entre religiões.

Considerando que o planejamento do turismo pautado nas culturas tem a finalidade de ser um mecanismo com potencial para dinamizar o desenvolvimento local, deve incorporar o objetivo de fortalecer e respeitar os vínculos de identidade no território. Essa ideia subliminar deve estar sempre presente no conceito de 'turismo em territórios de grande densidade religiosa', já que as religiões integram as identidades de grupos. Mas, é conveniente implicar ainda a ideia de que o turismo, também, se desenvolve a partir da valorização das identidades culturais nos territórios. O mecanismo se fortalece ao fortalecer seu contexto: identidades culturais e as outras dinâmicas locais (inclusive de trocas econômicas).

Por dedução teórica, o desenvolvimento do turismo em territórios de grande densidade religiosa está relacionado à habilidade que suas instituições de gestão têm para capturar as formas de expressão das identidades religiosas, que foram modeladas na trajetória histórica por meio de dinâmicas de afirmação de poder, e apresentá-las para o visitante.

Portanto, a gestão do turismo em territórios de grande densidade religiosa se-ria: a arte de reconhecer a densidade religiosa no território e de estabelecer diálogo com os diversos grupos, definindo e explicitando pactos de interesse na afirmação da religiosidade; arte esta que recorre ao turismo como um mecanismo para promover a aprendizagem sobre a diversidade religiosa para todos os indivíduos em interação no território, inclusive turistas.

A Figura 3 é uma representação que consolida o ciclo estabelecido entre componentes do conceito de turismo em territórios de grande densidade religiosa para pensar sua gestão. Conforme representado, no ciclo abaixo, os organismos de gestão do turismo de fato têm o papel inalienável de capturar a densidade religiosa do território e apresentar para os potenciais turistas de forma a educá-los para a visitação. Esse papel, realizado da melhor forma possível, afeta a possibilidade de expressão e preservação da multiplicidade de identidades culturais religiosas, influenciando na manutenção do contexto de densidade religiosa que enriquece o território. Tal concepção reforça a ideia de que os organismos de gestão devem estar atentos para o fato de que o turismo é um mecanismo cujos poderes entre religiões estão representados da mesma forma como o estão no tecido social. Assim, turismo e religiões no território estão entretecidos de forma indissociável.

 

Considerações Finais

Este ensaio teórico foi realizado para discutir a gestão do turismo em relação à diversidade cultural religiosa nos territórios. Entende-se que o turismo, em muitos casos, pode ser planejado de forma desvinculada da presença das culturas locais. Esse fato, além de não ser notado, supostamente, ocorreria devido a uma lacuna teórica e conceitual a ser suprida. Diante de tal lacuna, o presente ensaio teve o objetivo de desvendar limitações situadas nos conceitos até então disponíveis: turismo cultural e turismo religioso. Detendo foco nas reflexões teóricas, evidenciou-se que o conceito de turismo cultural é desconfortável porque, a partir da perspectiva de uma totalidade territorial, não existira a possibilidade do turismo não promover contato entre culturas. No caso do conceito de turismo religioso, o fato de implicar a necessária ligação entre a motivação para o deslocamento e o valor de sacralidade no território visitado, limita seu potencial explicativo. Para tanto, ensaiou-se a construção de um novo conceito, mais apropriado para enfatizar relações de poder e interesses de grupos de preservação da identidade cultural no processo de planejamento do turismo, e que respondesse, de maneira satisfatória, à diversidade de religiões presentes e em interação nos territórios.

O conceito de turismo em territórios de grande densidade religiosa é uma abstração teórica em construção e sinaliza para a articulação de saberes da antropologia e do campo da geografia para ampliar o escopo da gestão do turismo. A interdisciplinaridade permite que a concepção do turismo, a partir da compreensão do território, aponte novas possibilidades de planejamento da atividade na medida em que diferentes elementos do território são ressaltados, como o necessário diálogo institucional entre organismos de gestão do turismo e organismos de preservação cultural, com objetivos de pactuar interesses. Apenas em seguida, é possível facilitar a aprendizagem sobre diversidade através da vivência turística. Destaca-se que a transformação cultural que ocorre como consequência do turismo merece ser não apenas considerada, mas explicitada no processo de planejamento, o que proporcionaria uma melhor ponderação sobre aquilo que é favorável ou não para os diferentes grupos interessados na afirmação da identidade, e, enfim, como o turismo desenvolve territórios. Finaliza-se este ensaio com a expectativa de que futuros estudos de caso possam ajudar a aperfeiçoar o conceito que foi desenvolvido nesta reflexão teórica. Espera-se que tais estudos ajudem a construir critérios de análise e compreensão dos territórios de grande densidade religiosa, permitindo responder como a densidade religiosa é consumida pelo turista, e, para tanto, ajudem a compreender como o turista percebe e vivencia a densidade religiosa no território, e quais as relações com o reconhecimento e a preservação da diversidade cultural religiosa.

 

Referências

ANDRADE, J. V. Turismo fundamentos e dimensões. São Paulo: Ática, 2000.         [ Links ]

ANDRÉ, M. Políticas locales de dinamización turística y grandes atractivos culturales:el caso de Figueres. In: SENTÍAS, J.F. Casos de turismo cultural: de la planificación estratégica a la gestión del producto. Barcelona: Ariel, 2006. p. 269-277.         [ Links ]

BIANCHI, R. Critical turn in tourism studies: a radical critique. Tourism Geographies, v. 11, p. 427- 443, nov. 2009.         [ Links ]

BURNS, P. Turismo nas relações locais-globais: o turismo gera desenvolvimento? In: Turismo e antropologia: uma introdução. São Paulo: Chronos, 2002. p. 95-108.         [ Links ]

CASTRIOTA, L.B. Patrimônio cultural: conceitos, políticas, instrumentos. São Paulo: Anablume, 2009.         [ Links ]

CASTRO, A.M. Caracterização dos impactos provocados pelo turismo na paisagem urbana do centro histórico de São Luiz do Paraitinga - SP, entre 2002 e 2007. 2008. 154 f. Dissertação (Mestrado Profissionalizante em Ciências Ambientais) -Universidade de Taubaté, Taubaté, 2008.         [ Links ]

CENTRO DE ESTUDOS AFRO-ORIENTAIS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA. Disponível em: <http://www.terreiros.ceao.ufba.br>. Acesso em: 01 jul. 2012.         [ Links ]

CLAVAL, P.A. Geografia cultural: estado da arte. In: ROSENDAHL, Z.; CORRÊA, R.L. (Org.). Manifestações da cultura no espaço. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999. p. 191-218.         [ Links ]

CORRÊA, R.L. Espaço, um conceito-chave da geografia. In: CASTRO, I.E. et al. Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 85-111.         [ Links ]

DIAS, R.; SILVEIRA, E. Turismo religioso: ensaios e reflexões. Campinas: Alínea, 2003.         [ Links ]

DUARTE, M.B.; MATIAS, V.S. Reflexões sobre o espaço geográfico a partir da fenomenologia. Caminhos de Geografia. on-line, v. 17, n. 16, p. 190-196, 2005. Disponível em: <http://www.ig.ufu.br/revista/volume16/artigo17_vol16.pdf>. Acesso em: 01 out. 2009.         [ Links ]

FABARÉ. J.C.M. Turismo cultural: manual del gestor de patrimônio. Barcelona: Editorial Almuzara, 2005.         [ Links ]

FREO, A. O turismo na perspectiva do planejamento estratégico: um estudo de caso da Região do Médio Alto Uruguai. 2007. 202 f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento, Gestão e Cidadania) - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Ijuí, 2007.         [ Links ]

GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro, LTC, 1989.         [ Links ]

GIBBONS, D. Croyances et religions du monde: qui croit quoi? où? quand?comment? Paris: Acropole, 2007.         [ Links ]

GIUMBELLI, E. A presença do religioso no espaço público: modalidades no Brasil. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 28 , n. 2 , p. 80-101, 2008.         [ Links ]

HAESBAERT, R. Concepções de território e para entender a desterritorialização. In: SANTOS et al. Território, territórios: ensaios sobre o ordenamento territorial. 3. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2007. p. 43-70.         [ Links ]

ISAIA, A.C. Huxley sobe o morro e desce ao inferno: a Umbanda no discurso católico dos anos 50. Revista Imaginário, v. 98, n. 4, p. 28-42, 1998. Disponível em: <http://www.cieaa.ueg.br/public/upload/huxley-sobe-morro.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2012.         [ Links ]

JENSEN, T.G. Discursos sobre as religiões afro-brasileiras: da desafricanização para a reafricanização. Revista de Estudos da Religião, n. 1, p, 1-21, 2001. Disponível em: <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/conteudo/artigos_teses/ENSINORELIGIOSO/artigos/discursos_religioes_afro.pdf>. Acesso em: 20 jul. 2012.         [ Links ]

JESUS, D. L. A transformação da reserva indígena de Dourados-MS em território turístico: valorização sócio-econômica e cultural. 2004. 172 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Aquidauana, 2004.         [ Links ]

JUNG, C.G. Psicologia e religião oriental. Petrópolis: Vozes, 2009.         [ Links ]

LACERDA, M.A. As perspectivas de desenvolvimento local entre os Terena, na aldeia urbana Marçal de Souza, em Campo Grande-MS, através do etnoturismo. 2004. 151 f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Local) - Universidade Católica Dom Bosco, Cuiabá, 2004.         [ Links ]

MAGALHÃES, A.C. Permanência e rupturas na construção do espaço em Candice-CE em função da romaria em homenagem a São Francisco das Chagas. 2007. 135 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Federal do Pernambuco, Recife, 2007.         [ Links ]

MARINHO, A.L.S. O sagrado na teia das redes geográficas do turismo em Pernambuco: um estudo sobre o Santuário de São Severino, Paudalho - Pernambuco. 2008. 110 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Federal do Pernambuco, Recife, 2008.         [ Links ]

MCKERSHER, B.; DUCROSS, H. Cultural tourism: the partnership between tourism and cultural heritage management. New York: Haworth, 2002.         [ Links ]

MINISTÉRIO DO TURISMO. Disponível em: <www.turismo.gov.br> Acesso em: 10 fev. 2011.         [ Links ]

MONTANER, J.; ANTIACH, J.; ARCARONS, R. Diccionário de Turismo. Madrid: Síntesis, 1998.         [ Links ]

MONTERO, P. Religião, modernidade e cultura. In: TEIXEIRA, F.; MENEZES, R. As religiões no Brasil: continuidades e rupturas. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 249-251.         [ Links ]

NEGRÃO, L. N. Umbanda e questão moral: formação e atualidade no campo umbandista em São Paulo. 1993. Tese (Doutorado) - Universidade de São Paulo, São Paulo,1993.         [ Links ]

NOLAN, M.; NOLAN S. Religious sites as tourism attractions in Europe. Annals of Tourism Research, v. 19, n. 1, p 68-78, 1992.         [ Links ]

OLIVEIRA, V.M. Turismo e modernidade: um estudo indígena Krahô, estado do Tocantins ( Amazônia Legal Brasileira). 2007. 187 f. Tese (Doutorado em Geografia Humana) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.         [ Links ]

PARSONS, E. C. Pueblo indian religion. Chicago: Bison Books, 1996.         [ Links ]

PHILLIPS, R.; STEINER, C. Unpacking culture: art and commodity in colonial and postcolonial worlds. Berkeley: University of California Press, 1999.         [ Links ]

PINTO, A.G. O Turismo religioso em Aparecida (SP): aspectos históricos, urbanos e o perfil dos romeiros. 2006. 97 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Estadual Paulista Julio Mesquita Filho, Rio Claro, 2006.         [ Links ]

RIBEIRO, M.T.F.; MILANI, C.R. (Org.). Compreendendo a complexidade socioespacial contemporânea: o território como categoria de diálogo interdisciplinar. Salvador: EDUFBA, 2009.         [ Links ]

RINSCHEDE, G. Forms of religious tourism. Annals of Tourism Research.1992. Vol. 19, issue 1, p. 51-67.         [ Links ]

RODRÍGUEZ, S. Acequia: watersharing, sanctity and place. Santa Fe: School for Advanced Research Press, 2006.         [ Links ]

ROSENDAHL, Z. Espaço e religião: uma abordagem geográfica. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2002.         [ Links ]

______. O espaço, o sagrado e o profano. In: ROSENDAHL, Z.; CORRÊA, R.L. Manifestações da cultura no espaço. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 1999. p. 231-243.         [ Links ]

SALVATUR. Secretaria de Turismo do Estado da Bahia. Disponível em: <http://www.turismo.salvador.ba.gov.br>. Acesso em: 20 jan. 2010,         [ Links ]

SANTOS, A.D. O Turismo histórico, artístico, religioso e cultural na cidade de Olinda como desenvolvimento local. 2006. 120 f. Dissertação (Mestrado Profissionalizante em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste) - Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2006.         [ Links ]

SENTÍAS, J. F. Casos de turismo cultural: de la planicación estratégica a la gestión del producto. Barcelona: Ariel, 2006.         [ Links ]

SILVEIRA, E. Turismo religioso, mercado e pós-modernidade. In: DIAS, R.; ______. Turismo religioso: ensaios e reflexões. Campinas: Alínea, 2003. p. 42-59.         [ Links ]

SMITH, V. Anfitriones e invitados: antropología del turismo. Madrid: Endymion, 1992.         [ Links ]

SOUDEN, D. Pelos caminhos da fé: vinte jornadas para inspirar a alma. São Paulo: Rosari, 2007.         [ Links ]

WALTERS, A.L. The spirit of Native America: beauty and mysticism in american indian art. Vancouver: Chronicle Books, 1989.         [ Links ]

WROBEL, D.; LONG, P. Seeing and being seen: tourism in the American West. Kansas:University Press, 2001.         [ Links ]

 

 

Artigo recebido em 14/12/2010.
Última versão recebida em 01/03/2012.
Artigo aprovado em 22/05/2012.

 

 

1 Nome da Baía formada pela península onde Salvador está localizada.
2 Despacho é a oferenda realizada aos Orixás (deidades na mitologia Yorubá africana) como parte da ritualística do Candomblé (religião afro-brasileira).
3 Peças feitas de prata que funcionam como amuletos. São símbolos característicos dos Orixás.
4 Entidades espirituais indígenas remotas que aparecem no sincretismo das religiões presentes no Brasil.
5 Deidade. Yemanjá, Iansã, Ogum, Oxumaré, Oxossi são alguns dos Orixás Yorubá que foram correlacionados a Santos Católicos no processo histórico de sincretismo religioso.
6 Especialmente mantimentos para preparo das comidas de devoção como Caruru, Vatapá, Acarajé.
7 Santo Católico.
8 Reúne os periódicos internacionais vinculados à Editora Elsevier e disponibiliza estatísticas sobre downloads.
9 Critérios estabelecidos pela editora.
10 Os allerts são mecanismos que permitem o acompanhamento de novas publicações por correio eletrônico.
11 Os conceitos de religião e cultura mantêm relações inconstantes e mal definidas. Religião já foi entendida como cultura, parte da cultura, identidade, símbolo e como condição humana. A evolução do conceito de religião e sua relação com a cultura pode ser encontrada em Montero (2006). Neste trabalho, adota-se o entendimento de Geertz (1989): a religião como dimensão da cultura.
12 Para uma discussão mais aprofundada sobre turismo cultural, considerado "o mais antigo dos tipos de turismo no fenômeno turístico contemporâneo", suas vertentes analíticas e evolução conceitual, ver McKersher e DuCross (2002).
13 Exemplo do sistema de irrigação por diques e acequias, encontrado no México e no sudoeste dos Estados Unidos da América (RODRÍGUEZ, 2006).
14 Isto justifica por que a ideia mais recorrente de amparo ao conceito de turismo cultural é a ideia de visitar um lugar exótico.
15 Gennep (1960, como citado em Burns, 2002) avança explicando o papel dos ritos no contexto sagrado, e para a compreensão deste contexto. Os ritos ajudam, no entendimento de Burns (2002, p. 97), a reforçar o sentimento coletivo e a integração social.
16 Alguns autores apresentam análises sobre as construções que relacionam Estado e a institucionalização de Religiões Afrodescendentes na história do Brasil, adotando, para tanto, perspectivas críticas. Para aprofundamento dessa temática, ver Isaia (1998), Jensen (2001), Monteiro (2006) e Giumbelli (2008).
17 Pesquisa de campo realizada em novembro de 2008.
18 A Nova Geografia Cultural é um campo da geografia que se desenvolveu a partir de 1950, substancialmente, na França, e tem aderência ao paradigma da geografia humanista cultural. No Brasil, seu corpo teórico foi adensado principalmente pelos estudos do Departamento de Geografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), cujas investigações se centram na geografia da religião. Importantes autores deste campo são: Paul Claval, Zeny Rosendahl e Roberto Lobato Corrêa.
19 Conforme apresentado nos estudos de Parsons (1996) e Walters (1989). Montero (2006, p. 249-251) acrescenta que a distinção entre fato religioso de outras ordens de fato é um fenômeno originado no "cristianismo primordial, que estabeleceu a verdadeira fé e o verdadeiro deus", objetivando a religiãocomo diferença cultural. À margem do evento cristianismo, não existiria o fato religioso como categoria independente.
20 (JUNG, 2009)
21 Nos marcos da geografia tradicional (1850 a 1950), o espaço foi entendido como espaço vital, base indispensável para a vida do homem. Na geografia crítica, o espaço é concebido como locus da reprodução das relações sociais de produção. Na geografia humanística e cultural, o espaço é percebido como reflexo da sociedade que se transforma nele. Para conhecer os principais autores ver Corrêa (1995) e Duarte e Matias (2005).
22 O conceito de território vem sendo utilizado não apenas na geografia, mas também na ciência política, com relação ao Estado, e na antropologia, com relação às sociedades tradicionais. As diversas concepções são agrupadas por Haesbaert (2007) em duas vertentes teóricas: 1) aquela que pontua o binômio materialismo/idealismo; 2) aquela que privilegia a historicidade do conceito. Para compreensão aprofundada sobre o debate em torno do conceito de território, ver Haesbaert (2007), Ribeiro e Milani (2009).

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License