SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.24 issue82The locus of social management in the context of interrelations and tensions between the lifeworld (lebenswelt) and systemElectronic surveillance and resistance in call centers author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Organizações & Sociedade

On-line version ISSN 1984-9230

Organ. Soc. vol.24 no.82 Salvador July/Sept. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1984-9240824 

Articles

Recepções do ideário marxista pelo pensamento administrativo: da oposição indireta à assimilação relativa

The receptions of marxists ideas by the administrative thought: from an indirect opposition to a relative assimilation

Elcemir Paço Cunha* 

Leandro Theodoro Guedes**  3 

*Doutor em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito e Inovação e do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de Juiz de Fora. E-mail: paco.cunha@ufjf.edu.br

**Graduado em Administração pela Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da Universidade Federal de Juiz de Fora. E-mail: ltheodoroguedes@yahoo.com


Resumo

O objetivo do presente estudo é explicitar de maneira crítica as formas pelas quais o ideário marxista se apresentou para Taylor, Mayo, Drucker, Fayol e Etzioni, importantes expoentes do pensamento administrativo, entendendo este último como formação ideal particular e expressão teórica dos interesses da classe dominante. Metodologicamente, a pesquisa foi desenvolvida a partir da leitura dedicada dos materiais mais importantes dos autores, limitando a abrangência aos anos de 1911 a 1969. Adotou-se também uma delimitação temporal do pensamento administrativo ao capitalismo, distinguiu-se os marxismos e seus traços e utilizou-se procedimentos mais detalhados para especificação das obras visitadas dos autores. A pesquisa mostra que as formas de recepção foram a de recusa indireta, de recusa direta, de aceite indireto e de assimilação relativa. Chama a atenção o fato de que não persiste apenas o movimento de oposição pelo pensamento administrativo em relação ao ideário marxista, mas surge também esforço de assimilação de elementos teóricos importantes. A pesquisa mostra também que mesmo essas assimilações, assim como as formas de oposição direta, apresentam problemas na apreensão precisa daquele ideário, denotando contato por meio de suas formas distorcidas.

Palavras-chave Marxismo; Pensamento administrativo; Relações de classe

Abstract

This study aims at describing in a critical manner the forms, which assumes the reception of Marxist thinking by the exponents of administrative thought (Taylor, Mayo, Drucker, Fayol and Etzioni). We understand the administrative thought as a particular ideal formation and theoretical expression of interests of ruler classes. Methodologically, the research was conducted through dedicated reading of author’s most important texts, limiting its scope from 1911 until 1969. We adopted also a temporal delimitation of administrative thought to the capitalism, a differentiation of Marxism’s paths, besides the detailed procedures to a specification of visited texts. The research shows that the forms of reception were four: indirect opposition, direct opposition, indirect acceptance and relative assimilation. It is important the fact that there is not only a movement of opposition inner the administrative thought, but appears also an effort of assimilation of relevant theoretical elements. The research shows also that even this assimilation as the forms of direct opposition have both difficulties to construct a precise understanding of such Marxist thinking. It can indicate that the contact between such thinking and the administrative thought possibly was made through distorted forms of the first.

Keywords Marxism; Administrative thought; Class relation

Introdução: relações de classe e produção das ideias

Uma constatação básica que se ergue a partir do estudo em profundidade daqueles autores, reconhecidamente constitutivos do que se convencionou chamar de teoria geral da administração, não é outra senão aquela que insinua haver maior complexidade e desenvolvimento do que os livros didáticos foram capazes, até agora, de expressar. Se essa dificuldade é patente, o que dizer dos possíveis contatos desses autores com formas de pensamento que frequentemente surgem como opostas às premissas básicas desse corpo teórico da administração?

O objetivo do presente estudo é explicitar de maneira crítica as formas pelas quais o ideário marxista se apresentou para importantes autores daquilo que aqui denominaremos pensamento administrativo. Apreender as formas de recepção do marxismo para um tipo de elaboração teórica alinhada aos interesses econômicos dominantes parece ser, à primeira vista, algo desnecessário, já que a administração e o marxismo não estabelecem qualquer relação proveitosa, a não ser a oposição. Mas uma compreensão mais ampla do pensamento administrativo não estaria nunca bem direcionada se abandonasse ao inapropriado esquecimento as influências de um ideário que deixou profundas marcas nos séculos XIX, XX e também no século corrente. Contrariamente às expectativas, no entanto, as recepções – como pretendemos mostrar – não são sempre diretas e não são também sempre em oposição. O propósito é mostrar criticamente tais formas de recepção, seus limites e alcances. Particularmente interessante é apreender que o ponto de vista mais desenvolvido do pensamento administrativo, isto é, aquele que consegue capturar mais aproximadamente as contradições efetivas por meio das quais a realidade mesma opera, é precisamente aquele que assumiu uma recepção mais direta e amistosa com relação ao ideário marxista, mas não sem limites.

Com isso não queremos propor uma classificação exaustiva, o que também não seria possível. Os grandes traços caracterizadores de tendências no pensamento administrativo são úteis para sustentar o argumento de que as formas de recepção variam da oposição direta a um tipo de assimilação não necessariamente plena ou autêntica do ideário marxista. Particularmente, no presente trabalho, concentraremos a atenção sobre a elaboração de Taylor, Fayol, Mayo, Drucker e Etzioni, abrangendo o período de 1911 a 1969.

A análise do material estará calcada na apreensão dos nexos não mecânicos entre as posições sociais dos autores no interior das relações de classe, como homens práticos e como intelectuais, sobretudo na elaboração das ideias que analisamos. Queremos, com isso, dizer que a formação ideal (ou, com menor precisão: elaboração teórica) não é imune aos interesses sociais, sobretudo em se tratando de uma forma de pensamento que se ergue com vínculos profundos com as necessidades da produção capitalista e com os embates entre capital e trabalho, como é o caso do pensamento administrativo (TRAGTENBERG, 1974; MOTTA, 2001; FARIA, 2004; GURGEL; JUSTEN, 2015). Na verdade, a vida material é condição real para toda e qualquer forma de pensamento; ela é a pressuposição não passiva das formas de pensamento. O estágio da luta de classes, assim como os interesses materiais daí provenientes, está envolvido como condição ativa e forma o pano de fundo para as constatações dos problemas e para as soluções práticas evocadas pelos autores investigados do pensamento administrativo. Com efeito, tal pensamento se torna incompreensível se analisado em desconexão com os interesses e classes sociais no capitalismo.

Nessa direção, seguimos de perto a determinação de Marx e Engels (2007) de que as ideias dominantes são também as ideias das classes dominantes. Essas classes não dominam apenas os meios de produção material, mas também os meios de produção das ideias, das teorias. Essas “[...] ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante, são as ideias de sua dominação” (MARX; ENGELS, 2007, p. 47).

Na própria classe dominante opera uma divisão do trabalho em que uma parte se encarrega de elementos diretamente práticos da produção (homens de negócios, executivos), e outra parte que se constitui dos “pensadores dessa classe, como seus ideólogos ativos, criadores de conceitos” (MARX; ENGELS, 2007, p. 48). Compreensivelmente, essa divisão possui limites em determinados casos concretos, uma vez que podemos encontrar homens profundamente práticos (sobretudo Fayol) espelhando idealmente as necessidades da produção capitalista: em um só homem coexistem o homem prático e o representante teórico dos interesses da classe. Em outros casos (Mayo e Etzioni, como professores universitários), essa divisão se marca com bastante força. E ainda em outros (Taylor e Drucker) podemos encontrar um momento mais intermediário, por conta de suas atividades específicas como “teóricos”, difusores, e como profissionais que prestaram serviços de consultoria a empresas. As formas de recepção no interior do pensamento administrativo, com relação a um ideário marxista, estão certamente implicadas com essas questões das relações de classe e a dominação dos meios de produção das ideias (que tem na produção material sua condição real). Isso é verdade, sobretudo pela natureza da crítica que aquele ideário marxista apresenta às relações sociais de produção capitalista, ideário este como expressão teórica dos interesses das classes dominadas. Trata-se de uma crítica que sugere indiretamente os vínculos profundos e complexos (material e idealmente) entre o pensamento administrativo e as classes dominantes.

É preciso esclarecer que não se trata de determinismo econômico, nem algo linear e mecânico, mas do reconhecimento da operação complexa do nexo entre a posição social e a formação ideal no esforço de teorização da realidade, em que estão implicadas neste último aspecto (da teorização) as constatações e as medidas práticas de atuação sobre os problemas identificados. Em outros termos, a produção das ideias interfere por caminhos diversos na vida social. Esse não determinismo ficará claro quando forem observados nossos principais achados, segundo os quais podemos encontrar algum emprego de terminologia e de constatações que contrariam, ainda que em parte, os interesses mais imediatos das classes às quais pertencem tais autores. Veremos que isso sugere que não se trata de reduzir o pensamento administrativo à falsa consciência, isto é, a uma apreensão distorcida da realidade (cf. nota de rodapé 1, adiante). Além do mais, não se pode deixar de ter em conta a reciprocidade entre as condições reais e a formação ideal, de modo que esta reflui sobre aquelas de formas muito complexas. Tenhamos em mente, como exemplo, os efeitos do taylorismo no território estadunidense em meio às relações conflituosas entre capital e trabalho (levando a uma investigação por parte da comissão da House of Representatives, cf. COPLEY, 1923, p. 9). Ou ainda, para além desse país, os efeitos ao fornecer indicações para os ganhos de produtividade concomitantemente à diminuição dos custos totais com a força de trabalho, indicações as quais serviram de guia para inúmeras práticas nas unidades produtivas singulares – expressando a tendência de diminuição do capital variável na composição orgânica do capital. Para um segundo e último exemplo, basta recordar dos mais de 50 livros publicados por Drucker e que são considerados, entre os homens práticos e também teóricos, imprescindíveis para qualquer um que se aventure no chamado “mundo corporativo”. Não por menos, carrega o “guru” como adjetivação: uma identificação necessariamente religiosa para os dogmas que sustenta.

Com efeito, para apresentar as formas por meio das quais o ideário marxista surge no interior do pensamento administrativo, dividimos o presente estudo em três partes além desta introdução. Na parte seguinte, desenvolvemos em detalhes os problemas metodológicos envolvidos para a delimitação do ideário marxista e do pensamento administrativo, além de elementos que orientam a exposição das formas de recepção. Depois, apresentamos os grandes traços das formas de recepção. Por fim, há as considerações finais do presente estudo.

Questão de método

Existem pelo menos três grandes problemas de ordem metodológica que precisam ser explicitados: (1) o aqui chamado pensamento administrativo; (2) marxismo, marxismos e seus traços; e (3) os procedimentos mais detalhados para especificação das obras visitadas.

(1) O primeiro ponto se resume à delimitação da natureza e abrangência. Em termos de abrangência, não existe uma classificação exaustiva para delimitar quais autores podem ou não ser compreendidos como ligados a um pensamento administrativo. Mesmo que sua natureza possa ser mais bem determinada, como faremos em breve, a abrangência é algo difícil de estabelecer, uma vez que equivaleria à construção de cercas imaginárias e arbitrárias. Em um corte temporal, tomemos como exemplo o texto Econômico, de Xenofonte (1999), ao apresentar o diálogo de Sócrates na busca pela conduta exemplar do homem “belo e bom” a ser seguida na Ática antiga; compare-se à prática corrente nos negócios atuais de imitação entre concorrentes, recomendada como princípio por uma vasta coleção de textos gerenciais. Nesse caso, o princípio facilmente cairia como componente de um pensamento administrativo, mas Xenofonte, que parece sugerir algo semelhante na Ática antiga, não. Para efeito de abrangência, portanto, consideramos o pensamento administrativo como um desenvolvimento mais moderno, ligado fundamentalmente ao desenvolvimento do capitalismo. Trata-se, pois, de uma formação ideal particular correspondente a um estágio desse desenvolvimento.

Por outro lado, é comum também alguma confusão entre administração, economia, sociologia etc. Os currículos dos cursos de administração tradicionalmente trazem a presença de uma “sociologia aplicada à administração”, por exemplo. De alguma forma, esse cenário, sem mencionar as deturpações comuns aos livros didáticos, contribui para a atribuição de determinadas características aos autores da sociologia, mas por emanação das necessidades práticas dadas pela aplicação. Max Weber (1999) e sua sociologia da dominação, por exemplo, foram convertidos em “pai” da burocracia e prescrição administrativa em busca da eficiência, respectivamente. Mas o simples fato de Weber ter descrito em seus termos a burocratização moderna não o torna diretamente um autor do pensamento administrativo, embora este tenha se apropriado largamente de algumas de suas indicações mais famosas – não sem distorções. Para um critério mais limitado, determinamos uma proximidade mais clara com as necessidades práticas da produção de mercadorias como elemento demarcador do pensamento administrativo, abstraindo, portanto, outras possibilidades.

Por esses dois elementos, temos então a proximidade com as necessidades práticas da produção capitalista como critério de delimitação da abrangência do pensamento administrativo. Temos consciência das problemáticas dessa delimitação, ao abstrairmos a dimensão do Estado e outras afinidades mais amplas. Porém, trata-se de um corte metodológico para especificar a abrangência aqui considerada.

A polêmica maior reside na natureza do pensamento administrativo. Não basta designar como algo ligado às necessidades práticas da produção capitalista. A mecânica e a química, por exemplo, também estão diretamente ligadas a necessidades dessa produção, e nem por isso teriam o mesmo estatuto que o pensamento administrativo. Uma distinção importante é que, na qualidade de expressão das ciências do homem sobre o homem, o pensamento administrativo se constitui inicialmente a partir da necessidade de extração da maior produtividade por unidade de trabalho que marca o capitalismo (WOOD, 2001), isto é, como expressão teórica dessa necessidade, e se desenvolve depois, mantendo isso ao fundo, instruindo a manipulabilidade de aspectos objetivos e subjetivos no ímpeto de obrigar os trabalhadores a se venderem voluntariamente, parafraseando Marx (2013). Em outros termos, participa na atuação sobre as consciências durante a formação, por meio de muitas mediações, de uma classe trabalhadora que apreende as “leis econômicas” como “leis da natureza”. O pensamento administrativo, portanto, não apenas tem por condição a luta de classes como atua diretamente em seu interior. Na verdade, é possível dizer que tal elaboração tem por condição os antagonismos de classe. Tomadas as considerações feitas na introdução deste trabalho, é nesse sentido que podemos apreender tal pensamento como expressão teórica dos interesses materiais mais profundamente ligados aos proprietários dos meios de produção, ainda que superficialmente e marginalmente apresentem alguma preocupação com a classe trabalhadora em um sincretismo historicamente forjado a partir das lutas intestinas entre capital e trabalho, sobretudo a partir das revoluções do século XIX na Europa e suas ressonâncias em todo o século XX e, por que não, também no século XXI. Dito de outro modo, as concessões econômicas e políticas aos trabalhadores foram uma necessidade da própria reprodução do modo de produção capitalista, e isso, de alguma forma, se expressa também no pensamento administrativo, como melhorias das condições de trabalho, diminuição das insatisfações etc. Trata-se, pois, da forma teórica do interesse prático do capital.

Essa alternativa de compreensão é mais adequada do que uma definição do pensamento administrativo como ideologia1, conforme feita por Tragtenberg (1974), porque não se trata apenas de uma deformação da realidade ou falsa consciência, nos termos do autor, como adiantamos na introdução, mas um complexo movimento da expressão ideal marcado por interesses sociais de ocultamento no processo de explicitação e de explicitação no processo de ocultamento dos nexos e problemas reais, da efetividade mesma. Em outras palavras, a própria formação ideal aqui em pauta omite e expõe simultaneamente, dentro, porém, das condições de possibilidade objetivamente postas pelas condicionantes sociais dessa formação. Somente uma análise crítica pode revelar seus alcances, seus problemas imanentes, suas verdadeiras posições frente ao complexo de problemas que o mundo efetivo apresenta – o que inclui formas teóricas externas ou mesmo adversárias como parece ser o caso, em parte, do marxismo. Esse aspecto é verdadeiro, considerando as nossas presentes finalidades. Mas tomado o uso prático desse pensamento (instrução e doutrinação nas escolas de administração, guia para ação dos homens de negócio etc.), nossa forma de apreensão não seria suficiente. Por isso, para as nossas finalidades, basta a apreensão do pensamento administrativo como uma formação ideal de interesses materiais determinados. Dito de outra maneira, trata-se da transposição da finalidade do capital para a forma teórica: expressão ideal de interesses materiais dominantes sem necessariamente formar uma unidade intelectual linear, uma vez que comporta diferenças em seu interior, desacordos e discussões duradouras, mesmo entre os homens práticos e seus representantes teóricos nas escolas de negócio.

(2) Do ponto de vista operativo, o segundo problema é mais expressivo. Quais critérios poderiam funcionar para auxiliar na identificação das recepções ao ideário marxista?

Antes de mais nada, os traços podem servir de auxílio, porém são adversos. Os traços são importantes porque é ingênuo e imprudente esperar um tratamento ex professo pelo pensamento administrativo de questões advindas do marxismo. A adversidade, adicionalmente, se dá por não haver apenas um “marxismo”, mas variadas formas mais ou menos alinhadas que dificultam uma delimitação precisa. Como sinaliza Netto (2006, p. 8-9), “não existe algo como ‘o marxismo’”, preferindo “a tese de que há marxismos, vertentes diferenciadas e alternativas de uma já larga tradição teórico-política”. Os traços, portanto, podem ser muito variados, considerando principalmente que a presença das ideias de Marx desde o final do século XIX e início do século XX marca as lutas sociais e políticas na Europa e, logo em seguida, atravessa o Atlântico. Como nos informa Konder (1992, p. 63), “trata-se, porém, de um Marx ao qual se tem acesso quase que exclusivamente através do ‘marxismo’ quer dizer, de uma doutrina organizada em função da necessidade de legitimar um movimento político comprometido com estruturas partidárias cada vez mais pesadas”. Em termos gerais, portanto, é possível determinar que o “marxismo” “foi uma construção teórica posterior à morte de Marx” (KONDER, 1992, p. 75). A variedade de formas pelas quais se propagaram as ideias centrais de Marx (por isso marxianas) por seus colaboradores e adversários criou condições para modificações, reduções e deformações (daí marxismos) desde sua gênese, de tal modo que é prudente esperar que no pensamento administrativo ressoem os efeitos da propagação. De todo modo, a elaboração de Marx (2013) sobre a lógica do capital legou um conjunto de lineamentos fundamentais sobre os elementos determinantes da produção do valor e de suas consequências no mundo social. Tais lineamentos tiveram como ponto de arranque a realidade mesma, mas conjuntamente a uma crítica da economia política de seu tempo, enquanto expressão teórica dos interesses das classes proprietárias. A crítica, por seu lado, pôde se desenvolver com a elevação da luta de classes na Europa dos séculos XVIII e XIX (primeiro com os socialistas utópicos, depois com Marx e Engels e também com o anarquismo). E é com Marx que a crítica atinge seu grau mais elevado de desenvolvimento, e “na medida em que tal crítica representa uma classe específica, ela só pode representar a classe cuja missão histórica é o revolucionamento do modo de produção capitalista e a abolição final das classes: o proletariado” (MARX, 2013, p. 87), isto é, aqueles que não podem viver sem vender sua força de trabalho – algo que, portanto, está para além da mera identificação dos trabalhadores manuais na indústria.

Foi-nos importante, portanto, a apreensão de traços diretamente ligados às ideias centrais de Marx, como também daqueles traços modificados, distorcidos, etc., particularmente comuns no desenrolar dos séculos XIX e XX. Isso certamente ficará mais evidenciado no tratamento dos autores específicos, os quais mais adiante nos servirão de exemplificação das formas de recepção do marxismo no pensamento administrativo. É mais importante, pois, a qualidade da recepção em duas direções fundamentais – e não uma exaustiva avaliação da precisão das avaliações por parte dos autores do pensamento administrativo nessa recepção: i) se a recepção é direta ou indireta, isto é, por meio de citação clara e tratamento imediato das ideias de Marx ou dos “marxismos” ou, por outro lado, de reverberações mais distantes, ecos daquelas ideias, incluindo as distorções e, por outro lado, as bandeiras comuns ao movimento prático de reivindicação trabalhista; e ii) se de recusa ou de aceite que podem figurar como uma clara reticência, crítica e oposição (o que seria mais logicamente esperado do pensamento aqui investigado) ou clara apreensão e assimilação de determinados aspectos. Esse recurso dicotômico (direta/indireta e recusa/aceitação) não segue necessariamente uma cronologia das obras dos autores do pensamento administrativo e não é nada além de um procedimento que auxilie na exposição (e não na investigação) da qualidade da recepção e, portanto, comporta graus relativos entre os extremos. Em termos sintéticos, essa classificação simplificada serve à explicitação dos resultados da pesquisa na forma presente de artigo científico, mas não guiou a investigação propriamente dita. Sobre esse último aspecto, é preciso dizer outros detalhes importantes.

(3) O terceiro problema diz respeito precisamente a esses detalhes aludidos. A investigação se deu basicamente pela leitura de variados autores alinhados ao pensamento administrativo, sobretudo do final do século XIX e do transcorrer do século seguinte. A atenção recaiu centralmente sobre aqueles autores que gozam de reputação histórica e ocupam lugar de destaque naquele pensamento. Tentamos cobrir uma lista considerável de autores, mas terminamos, por uma questão de conveniência, concentrando-nos naqueles que mais frequentemente aparecem citados nos livros didáticos daquilo que se convencionou chamar de Teoria geral da administração. Buscamos identificar os traços das recepções, considerando, ainda que brevemente, os momentos históricos nos quais tais autores chegaram aos seus achados. A leitura dos textos promoveu constatações acerca daqueles escritos mais emblemáticos e consistentes para a problemática em pauta. Terminamos por deixar para outra oportunidade autores como Barnard, Follett, Sheldon, Katz e Kahn etc. Isso nos permitiu maior atenção aos textos de Taylor (Princípios de administração científica, 1911); Fayol (Administração industrial e geral, 1916); Mayo (Problemas humanos de uma civilização industrial, 1933); Drucker (The concept of corporation, 1946, o Prefácio, de 1969, e a nova edição de The end of economic man, originalmente publicado em 1939); e Etzioni (Organizações modernas, 1964), cobrindo um período entre 1911 e 1969, embora nossa investigação tenha começado por textos do início do século XX (Shop management, 1903, de Taylor, e Primer of scientific management, 1912, de Gilbreth) e alcançado publicações dos anos de 1970 e 1980 (In search of excellence, de Peter e Waterman, e The M-Form Society, de Ouchi). Optamos, no entanto, por restringir a exposição ao primeiro período indicado (1911-1969), por conter o espectro da recepção ao ideário marxista que varia da recusa indireta à recepção direta de assimilação, não sem modificações, como veremos.

As formas de recepção

Antes de apresentarmos os elementos que explicitam as formas de recepção nos tópicos subsequentes, cada tópico contém alguns poucos, sumários e aproximados apontamentos sobre os possíveis pontos de contato entre os autores ora investigados e o ideário marxista. Nosso tom especulativo nesses apontamentos se deve ao fato de que cada autor exigiria uma análise mais profunda e uma investigação histórica impossíveis de serem realizadas no atual estágio da pesquisa e expostas nos marcos de um único artigo. As dificuldades seriam muitas, uma vez que seriam exigidos estudos biográficos extensos. No entanto, não podem deixar de figurar alguns enlaces que ajudariam a explicar, sem reduzir a isso, a qualidade da recepção de cada autor com relação ao ideário marxista, embora nosso alvo central sejam os textos elaborados por esses autores do pensamento administrativo.

Nesse último sentido, no e antes do período 1911-69, o ideário marxista circulou de formas muito distintas. Chegou em solo estadunidense por diferentes vias, principalmente pelos artigos de Marx publicados no New York Tribune (1852-61), jornais comunistas existentes no final do século XIX, viajantes americanos que traziam informações do velho continente e também por imigrantes que cruzaram o Atlântico em busca da “terra da oportunidade e liberdade”, nos diferentes fluxos migratórios do século XIX e XX. Como dito antes, esse ideário é forjado por inúmeras influências e correntes, cuja identificação oscila da mera terminologia à indicação direta das ideias de Marx ou dos marxismos.

Recepção indireta de recusa (Taylor)

O norte-americano Taylor2 teve longa experiência com o chão de fábrica e contato direto com operários. A partir daquilo que seu texto (Princípios de administração científica) revela indiretamente, parece ter tido contato por ecos muito distantes das ideias de Marx e do marxismo já diluídas no movimento dos trabalhadores americanos (principalmente sindicalistas e filantropos) e por notícias da situação industrial inglesa, do agravo da luta de classes naque