SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.37 número3Professor: produtor e/ou tradutor de conhecimentos? trabalhando no contexto do arco-íris sociocultural da sala de aula índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Educação & Realidade

versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.37 no.3 Porto Alegre set./dez. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S2175-62362012000300001 

EDITORIAL

 

 

Revisitando sua educação escolar, Mia Couto, renomado escritor moçambicano, que esteve em Porto Alegre em novembro de 2012, afirma:

A Educação me deu muitos instrumentos importantes, porém precisei me libertar de alguns deles. Para poder crescer, tive de ser capaz de anular algumas coisas. Portanto, há aqui um processo de aceitar e fazer crescer coisas que a Educação nos ensina, mas também ser capaz de sacudir aquilo que a Educação formata e que não nos ajuda a ser feliz, como, por exemplo, o sentimento de que tudo está certo, de que tudo está estudado, de que não vale a pena duvidar, de que o mais importante é saber dar respostas, quando na verdade o mais importante é saber fazer perguntas, manter um sentimento de inquietação e indisciplina por toda a vida (Couto, 2011, online).

Com sua reflexão, Mia Couto nos dá boas indicações de como analisar a escola e as práticas pedagógicas. Estas têm sido, de fato, loci do silenciamento da pergunta. Mas isso não precisa ser assim. Se a pergunta é o que dá vida à escola e à prática pedagógica, então é preciso examinar, com cuidado e atenção, os obstáculos que se apresentam e que calam a inquietação. A seção temática que ora apresentamos foca a escola e as práticas pedagógicas em seu interior e o faz com este espírito.

Embora sejam centrais ao trabalho em educação, a escola e as práticas pedagógicas não têm, por vezes, a atenção que merecem na pesquisa científica da área. Educação & Realidade centra o olhar, em sua seção temática deste terceiro número de 2012, exatamente nestes fenômenos e traz sete artigos que os examinam.

O primeiro texto, intitulado Professor: produtor e/ou tradutor de conhecimentos? Trabalhando no contexto do arco-íris sociocultural da sala de aula, da autoria da pesquisadora portuguesa Luiza Cortesão, pensa a prática pedagógica escolar e problematiza o lugar do professor neste processo. Propondo que o professor é mais do que um tradutor de conhecimentos da área de origem para um conhecimento escolar, a autora vê este profissional como alguém que, tendo uma escuta atenta, entende e trabalha com a diversidade das salas de aulas contemporâneas e, ao atuar como investigador, instiga o mesmo em seus alunos.  

O segundo texto da seção temática, A Auto-imagem Profissional dos Professores de Educação Física em Portugal, dos também pesquisadores de instituições portuguesas J. António Marques Moreira e António Gomes Ferreira, examina como professores de Educação Física se percebem como docentes. Mostram como profissionais com mais tempo de formação, que receberam sua educação profissional em instituições mais estabelecidas, acabam por aliar rigor à flexibilidade e preocupam-se, em sua prática pedagógica, com uma formação mais integral. Já os formados mais recentemente apresentam uma postura que defende os exercícios físicos ou uma atitude mais saudável em seu trabalho com os alunos e tendem a ser mais entusiastas com seu ofício.

Na sequência temos o artigo, Uma Nova Estética Escolar: juntando os aspectos cognitivos e pedagógicos, de Heloiza H. Barbosa. Em seu texto, a autora enfatiza que, na atual escola pública brasileira, há pouca ênfase em uma prática pedagógica que leve em conta o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem dos alunos. A centralidade da discussão sobre a prática escolar é pedagógica e não procura entender como os alunos aprendem ou por que deixam de aprender. Há, assim, uma separação entre o cognitivo e o pedagógico na vida escolar brasileira, o que acaba por impactar negativamente a aprendizagem dos alunos. 

O quarto texto da seção temática é Entre o Corpo e a Escola: estudo sobre alguns dispositivos de colonização, de Gregory de Jesus Gonçalves Cinto, Sueli Aparecida Itman Monteiro e Romualdo Dias. Em seu artigo, os autores examinam como o corpo existe na escola e como a ternura, que eles consideram um direito das crianças, tende a ser, neste espaço, colonizada. Mostram, seguindo Foucault, que vivemos um empresariamento da vida e que quando sensibilidades singulares aparecem na escola, elas são logo caracterizadas como problemas de aprendizagem. Na tarefa de elaborar a nós mesmos, que a modernidade nos impõe, dizem os autores, a escola perpetua uma distância corporal e mantém a ternura distante das práticas pedagógicas.

Marco Antônio Silva nos traz o texto A Fetichização do Livro Didático no Brasil, no qual faz um histórico do livro didático no Brasil até chegar ao momento mais recente do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Defende que os livros-texto, principalmente na área de História – foco do autor –, acabam pautando o trabalho pedagógico dos professores. Mostrando e analisando o processo de avaliação dos livros didáticos no Brasil, o autor também enfatiza o fato de que este se tornou um negócio milionário em nosso país. Ao se tornar um fetiche, algo que não espelha as complexas relações que o produzem, o livro didático acaba encobrindo, afirma o autor, problemas sérios nas condições de formação e do trabalho pedagógico dos professores no Brasil.

O sexto artigo, Valores Práticos do Magistério e Facetas de Práticas Pedagógicas, de Marieta Gouvêa de Oliveira Penna, apresenta a escola como um espaço que moraliza e disciplina os alunos. A autora examina como a educação familiar dos professores estudados ajuda a entender sua opção pela profissão – opção esta marcada por questões de gênero e de ascensão social, para uma grande parte destes profissionais –, mas também a forma como eles moralizam e disciplinam seus alunos. Por fim, a autora mostra como o trabalho pedagógico na escola é entendido como uma missão civilizadora, por parte dos professores.

Fechando a seção temática, temos o artigo A Autoridade do Professor e a Função da Escola, de Ademilson de Sousa Soares. No seu artigo, o autor demonstra como o professor, em sua prática pedagógica escolar, está afastado, em função de suas inúmeras tarefas, do seu papel como livre pensador. A escola, como espaço público, acaba ameaçada se este professor não consegue distanciar-se criticamente de sua vida cotidiana. Educar, segundo o autor, exige a necessidade de superação do que ele chama de localismo reducionista, universalismo ilusionista, nacionalismo ufanista e voluntarismo assistencialista. Para que a prática pedagógica faça sentido na escola é preciso, afirma o autor, que os professores se desloquem em direção aos alunos para que eles se sintam responsáveis por eles.

Os artigos desta seção temática têm incorporado o espírito proposto por Mia Couto: tratam de superar, em sua pesquisa sobre escola e prática pedagógica "[...] o sentimento de que tudo está certo, de que tudo está estudado, de que não vale a pena duvidar, de que o mais importante é saber dar respostas" (Couto, 2011, online). Trazendo pesquisas que incorporam a pergunta como fonte primeira da investigação, nos permitem vislumbrar também uma escola e uma prática pedagógica onde este seja o centro da ação.

Após a seção temática, temos mais oito artigos que compõem a seção Outros Temas. Estes são textos do fluxo contínuo, aprovados no rigoroso processo de avaliação de Educação & Realidade. Os textos e seus autores são: Corpo, Gênero e Sexualidade nos Registros de Indisciplina, de Anderson Ferrari e Marcos Adriano de Almeida; De onde Falamos Nós? Uma análise da produção da diferença a ser incluída, de Pablo Severiano Benevides; Os Universitários como um Público: educação e governamentalidade neoliberal, de Roberto Rafael Dias da Silva e Elí Terezinha Henn Fabris; Relação Sociocultural dos Brinquedos Artesanais Vendidos em Feiras Livres, de Djavan Antério e Pierre Normando Gomes-da-Silva; Alfabetização Rural no Brasil na Perspectiva das Relações Campo-Cidade e de Gênero, de Alceu Ravanello Ferraro; A Universidade e o Desafio de Escrever para Professores, de Carla Ariela Rios Vilaronga e Flavia Medeiros Sarti; A Teoria da História de Jörn Rüsen entre a Modernidade e a Pós-modernidade: uma contribuição à didática da história, de Wilian Carlos Cipriani Barom e Luis Fernando Cerri e, por fim, Método Valéry-Deleuze: um drama na comédia intelectual da educação, de Sandra Mara Corazza. São artigos que abordam a diversidade que compõe a área da educação e trazem aos leitores contribuições para revisitar nossos entendimentos sobre campos tão diversos quanto a universidade, a indisciplina, a didática, a alfabetização, a inclusão e os brinquedos e sua relação sociocultural.

Boa leitura e que sigamos, como Mia Couto, fazendo perguntas.

Luís Armando Gandin – Editor-Chefe
Gilberto Icle – Editor Associado
Nalú Farenzena – Editora Associada

 

Referência

COUTO, Mia. Depoimentos reproduzidos na seção Educar para Crescer. São Paulo: Editora Abril, 2011. Disponível em: <http://educarparacrescer.abril.com.br/depoimentos/mia-couto-educacao-me-deu-muitos-instrumentos-importantes-635814.shtml>. Acesso em: 01 nov. 2012.         [ Links ]

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons