SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.38 número1Ações de formação em EJA nas prisões: o que pensam os professores do sistema prisional do Ceará?Conceitos numéricos na educação infantil: uma pesquisa etnográfica índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Educação & Realidade

versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.38 no.1 Porto Alegre jan./mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2175-62362013000100012 

OUTROS TEMAS / OTHER THEMES

 

A análise Foucaultiana do discurso como ferramenta metodológica de pesquisa

 

Foucaultian discourse analysis as a research methodological tool

 

 

Mauricio dos Santos FerreiraI; Clarice Salete TraversiniII

IMestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorando em Educação na UFRGS, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Atua como analista técnico da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul – FIERGS. E-mail: mauricioferreira@hotmail.com
IIDoutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. É professora do Departamento de Ensino e Currículo e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS, em Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul. E-mail: clarice.traversini@ufrgs.br

 

 


RESUMO

Este artigo tem por objetivo operar com a noção de discurso, a partir de Michel Foucault, como ferramenta metodológica de pesquisa. Selecionamos os Cadernos Empregos & Oportunidades do jornal Zero Hora, publicados em 2008 para analisar como o perfil profissional desejado pelo mercado de trabalho contemporâneo constitui-se a fim de sustentar discursos neoliberais como verdades. O estudo operacionalizou-se, inicialmente, fazendo trabalhar a noção de discurso em uma espécie de laboratório para compreender sua potencialidade. Posteriormente, analisamos excertos do jornal operando com um dos procedimentos internos do discurso – o autor –, visto como função que dá nós de coerência aos textos e não como propriedade intelectual.

Palavras-chave: Michel Foucault. Discurso. Perfil Profissional. Trabalhador Flexível.


ABSTRACT

Based on Michel Foucault's work, this paper aims at operating with the notion of discourse as a research methodological tool. We selected the Jobs & Opportunities section from Zero Hora newspaper published in 2008, to analyze how the professional profile desired by the contemporary work market has been constituted in order to support neoliberal discourses as truths. The study was initially carried out considering the notion of discourse in a kind of laboratory so as to understand its potentiality. Later, we analyzed excerpts from newspapers by operating with one of the internal procedures of discourse – the author – regarded as a function that, rather than being an intellectual property, provides the text with coherence.

Keywords: Michel Foucault. Discourse. Professional Profile. Flexible Worker.


 

 

Mas, o que há, enfim, de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e de seus discursos proliferarem indefinidamente? Onde, afinal, está o perigo? (Foucault, 2007b, p. 8).

Eis as questões que Michel Foucault apresenta na aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 02 de dezembro de 1970, intitulada A Ordem do Discurso (2007b). Suas indagações são encaminhadas no sentido de compreender as formas pelas quais os poderes ligam-se a determinados discursos, a fim de produzir efeitos de verdade. Apesar de o filósofo ter esmiuçado sobre o tema em A Arqueologia do Saber (2007a), respondendo aos críticos a respeito de suas escolhas investigativas, é naquela aula primeira que são explicitadas as potencialidades da análise do discurso como ferramenta metodológica1. Assim como várias pesquisas têm recorrido a esse conceito, também o fizemos para construir um percurso teórico-metodológico que nos permitisse analisar e problematizar como o perfil profissional desejado pelo mercado de trabalho contemporâneo constitui-se de forma a sustentar os discursos, na governamentalidade neoliberal, como verdades.

Para tanto, consideramos o caderno dominical Empregos & Oportunidades do jornal Zero Hora como um dos espaços privilegiados dos discursos do mercado de trabalho contemporâneo. A escolha desse artefato deu-se em razão de sua ampla circulação no Estado do Rio Grande do Sul e por seu conteúdo apresentar reportagens contendo conceitos, dicas, testes de habilidades, que posicionam os sujeitos na sociedade. Ao pretender informar (ensinar) a respeito de como se tornar um profissional aceito pelo novo capitalismo, essa mídia impressa contribui para a produção de subjetividades flexíveis. Esses são alguns dos perigos de quando se fala, pois ao enunciarmos algo mais que nomear ou apontar posições, estamos, sobretudo, produzindo aquilo o qual dizemos.

O presente artigo, portanto, objetiva compartilhar uma forma de realizar pesquisa em Educação a partir da perspectiva dos estudos foucaultianos, que nos permitiu visibilizar, entre outros pontos, o funcionamento de alguns procedimentos de interdição discursiva. Para melhor compreensão do leitor, organizamos este artigo em três seções: na primeira, objetivamos fazer trabalhar o conceito foucaultiano de discurso em uma espécie de laboratório; na segunda, destacamos como essa mesma teorização serviu-nos para traçar um percurso metodológico de pesquisa; na terceira e última, apresentamos, a título de ilustração, algumas conexões entre poder e discurso e verdade que as análises possibilitaram visibilizar.

 

A Ordem Discursiva do Curriculum Vitae

Antônio Carlos Gil (2006) ensina-nos que a análise do curriculum vitae deve ser realizada cuidadosa e paulatinamente pelo recrutador nas empresas, sobretudo se há uma grande quantidade a ser examinada em um processo de seleção. Lê-los, todos ao mesmo tempo, pode incorrer em dificuldades na assimilação das informações. Acrescenta o autor que, "[...] para facilitar a decisão [de qual é o melhor candidato], convém agrupar os currículos em três pilhas: prováveis, com possibilidade e sem possibilidade" (Gil, 2006, p. 99). Determinados critérios são seguidos para a organização desses materiais, como: competências profissionais; desejo de permanência no emprego e de seguir carreira; experiência prática; adequação ao grupo; vontade de trabalhar e de aceitar novos desafios; orientação para os lucros e melhoria de desempenho.

Sem entrarmos no detalhamento desses critérios apontados pelo autor, vemos nessas considerações a constituição de estratégias sobre uma ação comum ao mercado de trabalho. Não se analisa de qualquer forma um curriculum vitae, muito menos se elabora sem levar em conta certo número de procedimentos. Educa-se o olhar para ver tanto a sua composição geral quanto os detalhes do texto, as relações, os esforços empreendidos na carreira. Nesse processo perceptivo, temos o sujeito que ensina; o sujeito que analisa e seleciona; o sujeito que elabora o currículo; o sujeito acadêmico de administração que lê o livro; o sujeito pesquisador; todos – e tantos outros – são envolvidos e posicionados por uma prática social muito específica a qual Foucault (2007a, p. 136-137) chamou de discurso. Para o filósofo, o discurso é:

Um bem – finito, limitado, desejável, útil – que tem suas regras de aparecimento e também suas condições de apropriação e de utilização: um bem que coloca, por conseguinte, desde sua existência (e não simplesmente em suas "aplicações práticas"), a questão do poder; um bem que é, por natureza, o objeto de uma luta, e de uma luta política.

Afastando-se do entendimento do discurso como um conjunto de signos que expressaria um pensamento, ou algo que distorceria a realidade ou mesmo que faria as coisas "falarem" – trazer a tona seus significados ocultos – por meio da palavra, Foucault propõe entendermos o discurso como discursos, no plural, e manter-se no que foi dito. Para que Gil (2006) pudesse escrever sobre os requisitos necessários para ser um bom profissional, a partir do conceito de gestão de pessoas, ele seguiu certas regras que lhe permitiram falar e ser ouvido. O que ele elabora não se dá em um campo deserto, sem relações com o tempo e espaço de onde se está. Ao definir como critério a "orientação para os lucros", por exemplo, isso o conecta a outras práticas que permitem a emergência desse crivo de seleção como pertinente na escolha de trabalhadores contemporâneos.

Para isso acontecer, foi necessária a sua inscrição nos discursos que constituem o mundo ocidental capitalista em que vivemos. Isso, entretanto, não ocorre de forma tranquila, traz para a arena social disputas, imposições, pelo que é válido ou não. Portanto, os discursos que circulam ou são interditados encontram no poder as suas condições de existir. Se as características do operário-padrão2 não são mais válidas ou foram posicionadas de outra forma, não se trata de uma descoberta, uma evolução nas teorias da administração ou nas ciências humanas, e sim se trata da formação de uma complexa rede de relações na sociedade que permitiram que outros discursos surgissem, se combinassem com os já existentes, produzindo o contexto atual.

Sabemos que mesmo o recrutador não seleciona apenas com base em características pré-definidas pelo gestor solicitante e que as ferramentas de seleção (testes, dinâmicas de grupo, entrevistas, etc.) são escolhidas dentro das políticas de gestão de pessoas da organização. Essas, por sua vez, são gestadas, a partir do posicionamento da empresa diante do mercado que, geralmente, veem as pessoas como fontes de lucros e investem sobre estas, tanto selecionando-as como capacitando-as. Mas para que a produtividade seja alta, parte-se do princípio de que as pessoas devem se identificar com a organização3.

Os discursos disseminam-se pelo tecido social, infiltram-se nas fábricas, nas escolas, nos lares, nos programas televisivos, nas conversas cotidianas, nas universidades, nas academias de ginástica, nos hospícios, nas prisões, nos jogos de videogame, nas marcas e nas campanhas publicitárias, nas páginas dos jornais, sem limitar-se a nenhuma dessas maquinarias. Com suas regras internas e externas, os discursos organizam e ordenam os sentidos por onde passam. Seguindo, portanto, o que anunciamos linhas acima, reunimos, nessa seção, alguns apontamentos da tematização de Foucault acerca dos discursos para melhor entender o seu funcionamento na sociedade. Iniciaremos esboçando os entendimentos dos procedimentos de exclusão e interdição dos discursos.

Aprendemos com Foucault (2007a) que as sínteses discursivas, que nos chegam e são aceitas como naturais do mundo social, precisam ficar em suspenso. Não é negá-las ou ignorá-las; é trazê-las para o centro da discussão e mostrar que resultam de uma complexa trama que as permite aparecer dessa forma neste momento. É compreender o quanto, por exemplo, orientação para os lucros e melhoria de desempenho justifica-se dentro da lógica neoliberal, que necessita de pessoas que pensem e busquem habilidades ajustáveis às oscilações do mercado. É, também no campo da educação, problematizar os resultados de um ensino que prepara profissionais com essas capacidades. São essas formas que precisam ser desnaturalizadas, colocadas em suspenso. Para ilustrar esses efeitos nas carreiras e na educação dos trabalhadores, recorremos a uma observação de Bauman (2001, p. 186) sobre os mecânicos automotivos que estão obliterando seus patrimônios técnicos profundos à sombra de uma crescente rarefação de conteúdo alinhados à dinamicidade da produção flexível:

Não são treinados [os mecânicos] para consertar motores quebrados ou danificados, mas apenas para retirar e jogar fora as peças usadas ou defeituosas e substituí-las por outras novas e seladas, diretamente da prateleira. Eles não têm a menor ideia da estrutura interna das "peças sobressalentes" (uma expressão que diz tudo), do modo misterioso como funcionam.

Como práticas que seguem regras, os discursos foram tomados neste exercício "[...] na qualidade de monumentos. Não se trata de uma disciplina interpretativa: não busca um 'outro discurso' mais oculto. Recusa-se a ser alegoria [...]" (Foucault, 2007a, p. 157). Essa apropriação marca uma sutil e produtiva forma de abordar os materiais analisados. Se os encarássemos como documentos, partiríamos do princípio que são registros de uma história, de um fato, que estão ali representados e que precisaríamos atravessá-los, constantemente, para chegar ao real. Investiríamos na direção de verificar se são verdadeiros ou apócrifos. Indagaríamos sobre o que de fato Gil (2006) quis dizer com vontade de trabalhar e de aceitar novos desafios. Ao renunciar a isso, mantivemo-nos na materialidade do discurso. Ao escrever tal critério, os escritos de Gil (2006) produzem efeitos de verdade sobre como analisar currículos; ao elaborar a definição, segue certas regras que em conjunto com outras é possível apreendê-las; temos, portanto, diante dos olhos, monumentos constituídos por fragmentos que não nos são dados a analisar internamente e, sim, "admirá-los" em seus traços e formas exteriores, em sua positividade, em sua forma contemporânea.

Ao analisar os discursos levamos em conta suas especificidades (Foucault, 2007a; 2007b). Com isso queremos dizer que o funcionamento dos discursos não está pré-definido à espera de nossas leituras, como se bastasse irmos com um arsenal de ferramentas metodológicas e um "modelo" de dinâmica discursiva para decifrá-lo. Cada discurso tem suas peculiaridades que as teorias que o analisam, amplamente, não dão conta de todas as suas idiossincrasias, até porque, no seu exterior, povoam inúmeros discursos distintos que lhe alteram a constituição e ordenação interna. Foi através da análise do próprio material, pela sua materialidade, que apreendemos, parcialmente, os discursos ao "[...] mostrar em que sentido o jogo das regras que utilizam é irredutível a qualquer outro; segui-los ao longo de suas arestas exteriores para melhor salientá-los" (Foucault, 2007a, p. 157). Enfim, o filósofo mostra uma forma diferente de trabalhar, o que lhe permite avançar e traçar uma segunda definição dos discursos:

Práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. E esse "mais" que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever (Foucault, 2007a, p. 55).

É o "mais" que deve aparecer nas análises discursivas. O discurso que autoriza emergir prescrições sobre a experiência prática não apenas descreve a situação através de palavras e significados, como cria uma realidade possível. Não existe, previamente, esse sujeito trabalhador que traz toda uma carga de experiências voltadas à mudança. Ele foi e está sendo produzido no projeto neoliberal de que o livro de gestão de pessoas, até aqui mencionado, é apenas uma das inúmeras maquinarias que efetiva, torna concreto, material, palpável, esse discurso. Apresentados esses poucos e importantes sinalizadores metodológicos, passamos a descrever, tanto quanto possível e produtivo, os procedimentos que, ao mesmo tempo, controlam, selecionam, organizam e redistribuem o discurso em nossa sociedade e que objetivam "[...] conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade" (Foucault, 2007b, p. 9).

Na Ordem do Discurso (Foucault, 2007b), o autor destaca procedimentos que são exercidos tanto no exterior quanto no interior dos discursos. No que diz respeito àqueles exercidos no exterior, há os procedimentos de exclusão que operam de três formas. Inicialmente os procedimentos de interdição consistem no controle do que pode ser dito, em que circunstância e a quem é permitido falar. O desejo e o poder mantêm uma ligação intrínseca com a interdição, uma vez que os próprios discursos formam o objeto do desejo, ou seja, luta-se pela dominação dessa prática social. A exclusão é exercida também pela separação e rejeição, segundo procedimento de exclusão. É pela palavra que se identifica o louco, diz Foucault (2007b). O que antes era ignorada ou tomada como representação excepcional de uma razão não-comum e separada das consideradas ajuizadas, a fala do louco é ouvida por médicos, pedagogos, psicólogos, que nem por isso deixam de operar a separação: de um lado o doente que lhe é dada a oportunidade de expressar-se; do outro o sujeito que ocupa a posição de autoridade no discurso que concede a palavra ao louco e a interpreta, analisa, a partir do que é considerado verdade. Em outros termos, "[...] se é necessário o silêncio da razão para curar os monstros, basta que o silêncio esteja alerta, e eis que a separação permanece" (Foucault, 2007b, p. 13).

O terceiro procedimento de exclusão não se restringe à relação entre verdadeiro X falso por ser um binômio que se altera conforme a época, os lugares e as pessoas. O que se exerce ao longo dos tempos é a vontade de verdade.

Assim, só aparece aos nossos olhos uma verdade que seria riqueza, fecundidade, força doce e insidiosamente universal. E ignoramos, em contrapartida, a vontade de verdade, como prodigiosa maquinaria destinada a excluir todos aqueles que, ponto por ponto, em nossa história, procuraram contornar essa vontade de verdade e recolocá-la em questão contra a verdade, lá justamente onde a verdade assume a tarefa de justificar a interdição e definir a loucura (Foucault, 2007b, p. 20).

A vontade de verdade tem funcionado, segundo o autor, como direção para os outros dois sistemas de exclusão já apresentados – palavra proibida e segregação da loucura. Característica preeminente das sociedades ocidentais contemporâneas, essa vontade tem se deslocado ao longo da história ao definir as formas, os domínios dos objetos e as técnicas de apoio pelas quais confere aos discursos o status de verdade por determinados períodos.

Apoiando-se em suportes institucionais, a vontade de verdade é conduzida por práticas discursivas que são, por sua vez, reforçadas nesse jogo. O seu produto último, a verdade, ou melhor, a "verdade verdadeira", também executa essa condução imanente ao ligar-se aos saberes e, assim, seguir os modos pelos quais esses são aplicados, valorizados, distribuídos, repartidos e atribuídos na sociedade. A vontade de verdade, portanto, a partir de instituições e de pontos de distribuição e apoio disseminados por todo tecido social, tende a exercer poder de influência sobre os outros discursos (Foucault, 2007b).

Tinha-se, conforme o filósofo, nos poetas gregos, o discurso verdadeiro como aquele pronunciado por quem seguia determinado ritual, que proferia a justiça, que anunciava o futuro e selava, de certa forma, os destinos. Entretanto, a partir do século VII "[...] a verdade se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação, para o próprio enunciado: para seu sentido, sua forma, seu objeto, sua relação e a sua referência" (Foucault, 2007b, p. 15). Sem parar de deslizar ao longo dos anos, a vontade de verdade se expressa por uma nova forma a que chamamos ciência moderna. Esse movimento pode ser identificado, por exemplo, no esforço de Quesnay em transformar a economia em uma ciência semelhante às regras de funcionamento das ciências naturais; da justificativa em tornar os Estados modernos racionais e lógicos por meio de uma ciência (a estatística); do empenho de Taylor em construir sequências lógicas das atividades burocráticas, criando, assim, a administração científica.

Mobilizado pela vontade de verdade - vontade de tornar-se verdadeiro, eloquente - o discurso neoliberal busca apoio, sustentação, nos lugares e saberes que operam no interior de regimes de verdade. Apresentando-se de forma sedutora e atrativa, esse discurso coloca-se como quase inquestionável ao articular afetos e ciência. Bauman (2005), Lazzarato (2007) e Sennett (2006) demonstraram, em seus estudos, o quanto os cidadãos, em particular os trabalhadores, têm se assemelhado cada vez mais a consumidores. Esses tecem relações muito específicas e diferentes daquelas mantidas no capitalismo pesado com as mercadorias, os serviços, o entretenimento, o trabalho e a política.

O científico enlaça-se à vontade de verdade ao recorrer a teorias de motivação, trabalho em equipe, clima organizacional – todas partindo de saberes sobre o sujeito. Em um outro ponto de ancoragem científica do discurso, encontramos planejamento estratégico, gestão do conhecimento, gestão de projetos, sustentabilidade dos negócios, inteligência corporativa – cada uma recorre a campos de saberes específicos que lhe legitime como verdadeira.

Esses procedimentos – interdição, separação e rejeição, vontade de verdade – são exercidos, de certa forma, no exterior dos discursos; são independentes deles e lhes impõem limites de circulação. Outros, contudo, localizam-se internamente4, são desempenhados pelos próprios discursos e têm a função de controlar a sua dimensão de acontecimento - suas características aleatória e dispersa. O comentário, primeiro procedimento interno, mantém um desnível solidário com o texto que se refere. Quando se comenta sobre a teoria de gestão de pessoas, abre-se a possibilidade da criação de novos discursos acerca do tema, atualizando-lhe indefinidamente. Por outro lado, o comentário quer "[...] dizer enfim o que estava articulado silenciosamente no texto primeiro [...]" (Foucault, 2007b, p. 25). Portanto, o comentário transforma o aleatório do que foi dito – aquilo que surge a partir do discurso e que não havia sido previsto ou pensado antecipadamente – em parte constituinte do próprio discurso. Assim, sempre há a oportunidade de retomar o que foi falado, escrito, gravado, filmado, retratado.

O segundo procedimento interno, o autor como "princípio de agrupamento" – e não como sujeito consciente que tenha proferido ou escrito um texto – é restrito àqueles discursos que exigem essa função. Há os discursos que circulam pelas conversas de corredor, na viagem de ônibus, instruções técnicas, sem a necessidade de fixar alguém como sendo a sua fonte. Já, em campos especializados como a filosofia, literatura, ciência, um autor é requerido; faz parte mesmo da sua existência. O autor, portanto, "[...] é aquele que dá à inquietante linguagem da ficção suas unidades, seus nós de coerência, sua inserção no real (Foucault, 2007b, p. 28). O filósofo não propõe que ignoremos a figura do indivíduo real, mas entendê-lo como alguém que ocupa esse lugar na ordem do discurso pelo fato de cumprir as suas regras internas e externas. Assim, como essa determinada pessoa diz-se autora, outros também poderiam ser na medida em que procedessem dessa e não de outra maneira. Os acessos ao discurso ficam, dessa forma, restritos, pois nem todos podem ser considerados autores, nem todos estão investidos do poder de falar aquilo que é considerado verdade.

As disciplinas – na condição de campos de saberes – formam um terceiro grupo dos princípios de limitação interna. Elas agem no sentido inverso do comentário e do autor. Contrárias a este, as disciplinas estruturam-se de forma anônima à disposição de qualquer um que possa acessá-las. Distanciam-se do comentário por partir do que é requerido para criação de novos enunciados, e não da busca pela essência daquilo que já foi dito, muito menos se lançam ao descortino de algo no discurso que seja revelador e por isso deva ser repetido. Uma disciplina pode ser definida como "[...] um domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpus de proposições consideradas verdadeiras, um jogo de regras e de definições, de técnicas e de instrumentos [...]" (Foucault, 2007b, p. 30). Neste ponto, o filósofo destaca que uma disciplina não é a soma de tudo que foi dito como verdadeiro sobre alguma coisa ou o conjunto do que pode ser aceito sobre tal realidade. Para pertencer a uma determinada disciplina, uma proposição precisa usar os instrumentos conceituais ou técnicas que são por ela definidas e recorrer ao seu horizonte teórico para encontrar-se no "verdadeiro". Voltando ao exemplo do currículo, uma proposição do tipo "ter capacidade de inovação" é tomada como verdadeira na disciplina da administração de recursos humanos por justificar a necessidade gerada pela flexibilização da produção e por seu embasamento nas teorias de gestão de pessoas.

Um último grupo limitador dos discursos são os de:

Rarefação, desta vez, dos sujeitos que falam; ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfazer a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo. Mais precisamente: nem todas as regiões do discurso são igualmente abertas e penetráveis; algumas são altamente proibidas [...], enquanto outras parecem quase abertas a todos os ventos e postas, sem restrição prévia, à disposição de cada sujeito que fala (Foucault, 2007b, p. 37).

Esse procedimento limitador interno recorre a rituais que definem quem atende as condições para entrar na ordem discursiva. O discurso da empregabilidade5, por exemplo, cerca-se de rituais que definem as habilidades de um candidato, as atitudes a serem assumidas diante de determinadas situações, os tipos de projetos dos quais o indivíduo deverá participar. Quem não segue o protocolo está fora do discurso e não é admitido nas empresas. Um último procedimento interno é formado por grupos de estudos, associações às instituições especializadas (ABRH, FGV, FEDERASUL, OAB)6, comparadas ao que o autor chamou de "sociedades de discurso" em que os indivíduos que a elas pertençam acessam a determinadas partes dos discursos que não estão disponíveis a todos. Existe, entretanto, a "[...] apropriação social dos discursos [...]" (Foucault 2007b, p. 43), disponibilizada por uma rede ampla e complexa de processos que "ensinam" os discursos à determinada população. São veiculados pela mídia, redes de Ensino, bibliotecas, museus, espaços esportivos, marketing. De forma resumida, a educação é a forma de alterar os acessos e limites dos sujeitos aos discursos, aos saberes e aos poderes que a eles se associam (Foucault, 2007b).

Com essa retomada percebemos como a noção de discurso torna-se produtiva para compreender a relação entre a constituição do perfil profissional desejado na contemporaneidade e o processo de ensino. Em relação ao último aspecto Foucault (2007b, p. 44) pergunta a si mesmo:

[...] o que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação e uma fixação dos papéis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e seus saberes?

Quanto mais conectados por tecnologias digitais, quanto mais aprendizagem realizar, quanto mais liberdade alcançar, maior a possibilidade de subjetivação do trabalhador. O perfil profissional desejado é ensinado e aprendido nas escolas, nos livros, nos cursos, mas também o é nos artefatos culturais, tal como o jornal. Já o discurso circula por todas essas instâncias, inextricavelmente, imbricado com o poder. Queiramos ou não somos tomados pelos discursos até mesmo quando estamos sozinhos em casa refletindo, pois essa prática é privilegiadamente uma prática discursiva.

Procuramos, nessa seção, realizar um breve exercício de "fazer trabalhar" o conceito foucaultiano de discurso como ferramenta. A análise do curriculum vitae, tal como apresentada por Gil (2006), serviu-me de local de ensaio da analítica que armamos, pois os sujeitos que buscam oportunidades de trabalho constroem os seus currículos (de vida) profissionais de forma a atender às exigências do mercado que, por sua vez, estão numa valorizada ordem discursiva. Sabíamos dos riscos desse tipo de exercício didático de enquadrar as teorizações, sobretudo quando estamos lidando com Foucault. Mas precisávamos traçar dessa forma a apresentação dos conceitos utilizados na pesquisa em razão do nível de detalhamento que o autor opera sobre o discurso. Se assim não procedêssemos, poderíamos ficar no "reino das tautologias", como escreve Fischer (2001, p. 201) ao referir-se à obra foucaultiana em que tudo tem uma conexão.

 

Mapeamento Discursivo das Páginas do Jornal

Foucault não está aí para nos dizer as verdades sobre as coisas, mas sim para nos ajudar a compreender de que maneiras, por quais caminhos, tudo aquilo que se considera verdade tornou-se um dia verdadeiro (Veiga-Neto, 2006, p. 87).

Como vimos há pouco, existe uma verdade instalada que seleciona os discursos passíveis ou não de circulação no mundo do trabalho. Precisávamos armar uma estratégia para fazer funcionar o discurso como ferramenta analítica, a fim de desmontar essas verdades e entendê-las como coisas inventadas por uma rede discursiva anônima, mobilizada de determinada forma em virtude das relações de poder. Segue, então, o detalhamento, tanto quanto possível, da metodologia organizada para empreender as análises do material empírico. A opção de trazer em seu início a questão da verdade é para registrar que enquanto construíamos a metodologia de pesquisa, juntamente com o manuseio das reportagens da Zero Hora, não estivemos preocupados em criar meios para encontrá-la; ao contrário, quisemos pensar formas que dessem, minimamente, conta de mostrar a contingência do perfil profissional desejado e dos discursos que são por ele sustentados. O que teria para além? Outras invenções. Nesse sentido, a ressalva que Veiga-Neto (2006) faz a respeito da importância de Foucault para o campo da Educação, e que citamos como epígrafe da seção, orientou-nos a respeito dos possíveis usos do filósofo para a formulação metodológica de como selecionar os prazos, recortar os excertos, organizar os fragmentos, compor os corpus e, em seguida, analisá-los.

Na primeira fase da pesquisa, depois de muitas voltas, dúvidas, inseguranças e muita leitura, investimos na seguinte questão: Como o perfil profissional desejado pelo mercado de trabalho contemporâneo – materializado nas páginas do caderno Empregos & Oportunidades do jornal Zero Hora – constitui-se de forma a sustentar os discursos na governamentalidade neoliberal como verdades?

Posteriormente, realizamos uma leitura prévia dos cadernos Empregos & Oportunidades do período de janeiro a outubro de 2008, a fim de poder ver que temas, sujeitos, estratégias, eram suscitados. Selecionamos dez meses porque nos pareceram um período abrangente para visibilizar as continuidades e descontinuidades do discurso. O jornal Zero Hora circula nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Foi fundado em 04 de maio de 1964. Pertencente ao grupo Rede Brasil Sul (RBS), é o principal veículo de mídia impressa dessa companhia. Sua tiragem dominical é de 280 mil exemplares e o seu caderno Empregos & Oportunidades traz reportagens sobre o mundo do trabalho, concursos, orientações ao pequeno empresário, cursos abertos e anúncios de vagas de emprego e estágio. Especificamente, entraram para o rol de análise as seguintes seções desse caderno: Reportagem da Capa, apresentada, resumidamente, na capa e desenvolvida em seu interior; reportagens internas, geralmente, abordando questões sobre os segmentos do mercado de trabalho; Concursos públicos; Seu Negócio, seção voltada a profissionais liberais e aos empregadores.

Para nos auxiliar na construção do Mapeamento Discursivo desse artefato cultural, inspiramo-nos em Saraiva (2006, p. 144) que elaborou forma de organização dos excertos de sua pesquisa que a possibilitou comparar, posteriormente, os inúmeros fragmentos dos periódicos que analisava. A pesquisadora percebeu que "[...] a definição de como se irá proceder já é uma parte da análise. O modo como se interage com o material já é, em si, uma imposição de significados".

Iniciamos o mapeamento pensando em classificar as reportagens por temáticas, desdobrando-as em subcategorias conforme fosse possível. Abandonamos essa ideia logo que iniciamos o manuseio do material empírico, pois percebemos que em uma mesma reportagem, cujo tema, por exemplo, era ascendência profissional, vários outros temas cruzavam-se no decorrer do texto, tais como prazer, investimento na formação, escolha da profissão, comprometimento, família. Portanto, os temas ora se confundiam, ora se afastavam, de tal forma que nos questionávamos se isso ou aquilo era relevante em relação ao assunto geral do Caderno Empregos & Oportunidades ou da pesquisa. Passamos, portanto, a classificar os excertos pelos procedimentos de limitação interna e rarefação dos discursos e os organizamos em quatro limitadores: Autor, Comentário, Disciplina e Rituais. Ao lado, abrimos uma coluna onde lançávamos o que era limitado, constrangido, na sua potencialidade de acontecimento. Criamos outras colunas voltadas para a identificação das edições do jornal. 

Vejamos como ficou a versão final da planilha eletrônica:

 

 

Esse mapeamento gerou 454 excertos distribuídos pelos procedimentos de limitação discursiva. Desses, selecionamos 76 para a análise os quais, à medida que eram utilizados também eram marcados com outra cor no Mapeamento Discursivo para evitar que se repetissem na argumentação. Ao aplicar filtros nas colunas, pudemos perceber que entre os diferentes procedimentos, alguns temas, agora, eram possíveis de serem pensados sem a necessidade de nos fixar aos assuntos definidos pelas manchetes do jornal. O que fizemos, ao fim e ao cabo, foi impor ao material outra organização, que gerou temas que atravessavam as edições dominicais. Assim como Sommer (2003), também pudemos experienciar o quanto o pesquisador, o objeto de pesquisa e a teorização estão imbricados na produção de sentidos.

Com esse processo teórico-metodológico visibilizamos os seguintes tópicos: capacitação, carreira, desempenho profissional, gênero, investimento financeiro, organização do trabalho, recrutamento e seleção, responsabilidade social, segurança do trabalho e qualidade de vida.

Diante desse volume de temas gerados pelos procedimentos discursivos, obrigamo-nos a selecionar apenas os dois primeiros, entendendo-os como os mais pertinentes para o momento, deixando os demais para posteriores desdobramentos. A partir desses dois eixos, construímos seis corpus de análise que possibilitaram examinar o perfil profissional desejado, de forma mais ampla, como ponto de apoio de uma rede de redes discursivas. Concluída essa etapa, voltamos à mesma discursividade para visibilizar os procedimentos de limitação e rarefação dos discursos e suas articulações. Lembramos o leitor que esses procedimentos têm a função de controlar, selecionar, organizar e redistribuir, tanto do que será dito quanto daqueles que terão acesso à discursividade.

Importante ressaltar, ainda, que o olhar lançado sobre os textos não esteve focado na "[...] intenção dos seus autores (jornalistas, publicitários, redatores, etc.), nem realizarei qualquer exercício de recepção dos textos selecionados junto aos leitores" (Gerszon, 2006, p. 35). Portanto, tivemos como campo analítico os discursos que circulam pelas páginas do jornal, produzindo sujeitos trabalhadores.

Larrosa (1994) toma a teorização foucaultiana para pensar as "tecnologias do eu" exercidas no campo da Educação, sem a pretensão de enquadrar, "auditar", a realidade ou os conceitos do filósofo francês. Da mesma forma, também o fizemos com respeito aos procedimentos internos e de limitações expostos por Foucault (200b). Para dar continuidade ao exercício analítico ora proposto, dentre tais procedimentos, destacamos a seguir a unidade do autor e sua especificidade presente nas páginas do jornal Zero Hora.

 

Especificidades do Poder e do Discurso nas Páginas do Jornal

Ao entendermos o Caderno Empregos & Oportunidades como um dos locais em que os poderes e os discursos operam, trabalham e deixando seus rastros, visualizamos as práticas acionadas na produção de verdades sobre o mercado, sendo que algumas agem sobre o fazer do trabalhador, geralmente voltadas para os fins imediatos do seu trabalho; outras incidem sobre a alma por meio de técnicas direcionadas ao eu do próprio indivíduo; e existem aquelas verdades que recaem sobre a sua vida social, tomando as relações como se fossem diferenciais competitivos. Forma-se, assim, uma rede discursiva na qual o perfil profissional desejado constitui um dos seus pontos de apoio.

Com tal entendimento, podemos retornar aos procedimentos internos de limitação e vê-los como ferramentas do discurso que conjuram os acontecimentos a fim de manter certa regularidade nas suas estratégias. Uma vez que se luta pelo próprio discurso, por estar nele e dele apoderar-se, é cabível que haja formas de controlar o novo, seja banindo-o ou assimilando-o. É o que se pode analisar nos seguintes excertos:

A volta de profissionais já aposentados [Engenheiros] ao mercado está se tornando mais frequente: Principalmente de pessoas que saíram de estatais privatizadas e estão atualizadas com as necessidades do mercado - afirma Lange. [do CREA/RS] (Zero Hora, p. 1, 17 de fevereiro de 2008).

Várias modalidades de cursos levam ao caminho da qualificação, palavra-chave para ser uma referência na área onde se atua, conquistar uma recolocação ou mesmo o primeiro emprego. A qualificação de mão-de-obra é, segundo o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, o grande desafio do mercado brasileiro (Zero Hora, p. 1, 24 de fevereiro de 2008).

A carreira é como um diamante que precisa ser lapidado. Se não for lapidado, será um cascalho a vida inteira - compara Ligia Nery da Silveira, vice-presidente de Eventos Científicos da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Estado. Para Ligia, quase sempre que se dá ouvidos ao prazer, no que diz respeito a uma profissão, atinge-se o sucesso (Zero Hora, p. 1, 9 de março de 2008).

Uma maneira de controlar o trabalho fora da base é com o uso de tecnologias de assinatura eletrônica que gera relatórios com as atividades realizadas pelo funcionário, bem como o tempo gasto, explica Gilberto Stürmer, professor de Direito do Trabalho da PUCRS (Zero Hora, p. 5, 26 de outubro de 2008).

Aposentar-se não aparece como impedimento para que o sujeito possa voltar a trabalhar naquilo que fez durante anos. No entanto, exige-se uma atualização acerca das demandas atuais do mercado. Parece que não é mais da mesma posição que estamos falando. A aposentadoria foi, no Brasil, durante anos, a condição de todos aqueles que trabalharam durante suas vidas, contribuíram para a Previdência e que ao chegar a tal situação mereceriam descansar, pois o ritmo do indivíduo já não acompanharia mais as mudanças. Percebemos uma ruptura no significado de aposentadoria. Essa descontinuidade é marcada por uma nova regularidade que se afirma na fala de Lange. Na condição de representante do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA), sua avaliação sobre os movimentos da profissão desempenha um papel legitimador da prática do retorno ao mercado de trabalho.

Nessa mesma direção, o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, apresenta-se como uma personalidade que tem, em razão de seu cargo, condições de definir os desafios para jovens e adultos trabalhadores brasileiros. Não se limita a elencar a qualificação como um dos objetivos a serem alcançados, declara, ainda, que existem muitas formas para obtê-la. Se centrarmos na questão de que "[...] o Estado não é nada mais que o efeito móvel de um regime de governamentalidades múltiplas [...]" (Foucault, 2007c, p. 96). Lupi produz sua ação enunciativa, não a partir de um lugar que seja a fonte do discurso e do poder. Não tem esse peso em nossa análise, mas aparece, sim, como porta voz de um regime que posiciona o Governo ao dar-lhe uma função de estimulador do autogerenciamento das carreiras e, consequentemente, da sociedade. Ao invés de regras a serem cumpridas pela população de trabalhadores ou mesmo a indicação de programas de educação profissional, o ministro dedica-se a pontuar a importância de seguir o "caminho da qualificação", cada um como bem entender. Veiga-Neto (2000, p. 202), ao comentar Donzelot, registra que essa postura do Estado não deve ser vista como "afrouxamento ou minimização" de suas funções, mas "[...] pode ser vista como uma nova tecnologia de governo, na medida em que, para pertencer a um grupo e para torná-lo atuante/efetivo, é preciso que cada um assuma responsabilidades e conduza suas ações segundo modelos apropriados e aprovados pelos demais grupos".

Mais uma vez, a responsabilidade do sujeito por fazer suas escolhas é registrada nos excertos. Caso não sejamos bons profissionais, é porque não soubemos "lapidar" nossas carreiras a partir daquilo que nos dá prazer. Essa constatação não é feita pela simples observação da redação do jornal Zero Hora, ou por um poeta que verse sobre o mundo do trabalho, muito menos por algum estudante anônimo. É Ligia Nery da Silveira da Associação Brasileira de Recursos Humanos/ABRH que marca sua presença no discurso como uma das disseminadoras da gestão das próprias carreiras. Parece-me que seu nome posto no fragmento confere certa concretude à demanda de fazer o que se gosta, pois Ligia está ligada a uma das mais conhecidas associações de formação profissional do país. Suas afirmações são relevantes porque estão embasadas, assim parece, nos contatos com empresas, empresários e acompanhamentos de várias trajetórias profissionais. Em outras palavras, partem da "realidade" do mercado, daquilo que está efetivamente acontecendo.

Por fim, o último excerto refere-se ao impacto que as NTIC (Novas Tecnologias da Informação e Comunicação) geram no mundo do trabalho. Podendo ser rastreados a qualquer momento, "[...] os trabalhadores, assim, trocam uma forma de submissão ao poder – cara a cara – por outra, eletrônica" (Sennett, 2005, p. 68). O que é mais instigante, aqui, é perceber como os discursos apoiam-se uns nos outros para manterem o status de verdade, ou seja, dependem de uma série de estratégias advindas de outras formações discursivas para serem aceitos. Não podemos pensar em termos de imposição ou de superioridade, pois os discursos se equivalem e o que lhes confere níveis diferentes são as condições provisórias herdadas das lutas em torno da significação. A razão, segundo o nosso entendimento, de trazer a fala de Gilberto Stürmer sobre a aplicação das tecnologias digitais no trabalho marca esse entrecruzamento, pois esse professor não é da área de TI, tão pouco da Administração, e sim do Direito. Sua individualidade desempenha, nesse fragmento, a função de mostrar que as novas configurações de trabalho, mediadas (e produzidas) pelas tecnologias digitais, são legitimadas pelo discurso legal.

Os temas aposentadoria, qualificação, projeto de carreira e NTIC estão dispersos no Caderno Empregos & Oportunidades. Entretanto, ao combiná-los, agrupá-los, estamos operando sobre os documentos, "[...] desde seu interior, ordenando e identificando elementos, construindo unidades arquitetônicas, fazendo-os verdadeiros monumentos" (Fischer, 2001, p. 205). Quando abordamos a questão do discurso como ferramenta metodológica, dissemos que, na teorização foucaultiana, o procedimento interno definido como autor deve ser visto como uma função que dá "nós de coerência" aos textos. Em outras palavras, ao responsabilizar uma individualidade específica pela produção textual, inventiva, pretende-se, com isso, limitar o aleatório, o acontecimento, dos discursos. A partir desse momento, "[...] pede-se que o autor preste contas da unidade de textos posta sob seu nome; pede-se-lhe que revele, ou ao menos sustente, o sentido oculto que os atravessa; pede-se-lhe que os articule com sua vida pessoal e suas experiências vividas, com a história real que os viu nascer" (Foucault, 2007b, p. 27-28). Mesmo referindo-se à prática literária, o autor lança pistas que nos ajudam a pensar essa função nas páginas do jornal.

Nos excertos destacados, os temas abordados solicitam a identificação de alguém confiável, mas para que tais sujeitos possam emergir como autores, com opiniões válidas, alguns itens do procedimento discursivo podem ser percebidos. Primeiro, devem pertencer ao campo do Trabalho, no caso do recorte que fizemos, as referências são o CREA, o Ministério do Trabalho e Emprego, a ABRH e a Faculdade de Direito da PUCRS. Nesse sentido, Castro (2009, p. 47) diz que a função-autor "[...] está ligada ao sistema jurídico e institucional que rodeia, determina e articula o universo dos discursos. Os discursos são objetos de apropriação." Na análise foucaultiana, mais relevante do que a propriedade intelectual sobre o que foi escrito, é a apropriação de um discurso pelo autor que o permite poder falar e ser ouvido e isso não é realizado de "lugar-nenhum", liga-se a sistemas que o habilitem a essa tarefa. Não quer dizer, por exemplo, que Ligia da Silveira da ABRH não tenha a opção para escrever e inventar, mas, sim, que responde de forma apropriada na Contemporaneidade ao discurso neoliberal. Parece-me que esse ponto limitador do acontecimento marca, de forma objetiva, a relação entre discurso, sujeito e instituição.

Um segundo item percebido é que a função-autor, no jornal, tem uma especificidade. Apesar das exigências sobre o autor não serem as mesmas de um livro, de uma obra construída ao longo da vida, ele desempenha um papel agregador. Não no sentido de uma variedade de textos produzidos ao longo do tempo, no qual o nome de quem os concebeu permite ao leitor e aos críticos atribuírem-lhe um estilo, fases e tendências, criando, assim, uma ligação que a princípio não existiria. O que o autor faz nas páginas da Zero Hora é criar, a partir de si, um nexo entre discursos independentes: o trabalho do aposentado e a formação continuada; a qualificação, a autonomia do sujeito e a função do Estado; a carreira e o prazer; tecnologias e leis trabalhistas. Pensar que essas formações estão naturalmente ligadas, que são óbvias as suas relações, é não se dar conta dos efeitos de verdade que os discursos e os poderes produzem. Com isso, não estamos ignorando a trama urdida a partir de outros excertos, e sim assumindo que a identificação de uma individualidade que confirme tais descontinuidades e regularidades tem a função de dar coerência ao perfil profissional desejado. Enfim, o autor "[...] não se exerce uniformemente e da mesma maneira em relação a todos os discursos, em todas as épocas e em todas as civilizações" (Castro, 2009, p. 47). Estamos diante de uma forma específica de funcionamento desse procedimento que controla e classifica aquele sujeito o qual os discursos dão voz e autoria.

Para encerrar, lembramos que o exercício realizado neste artigo foi uma experiência metodológica e investigativa que nos pareceu produtiva para compreender as conexões entre o jornal Zero Hora, as demandas das vagas de emprego e a vida profissional dos sujeitos na Contemporaneidade. É esse exercício que desejamos compartilhar com os leitores, não como um modelo a ser seguido, mas como uma forma de uso do discurso como ferramenta de pesquisa, permitindo nos dar conta de que há uma ordem discursiva contemporânea, que valoriza a construção de um perfil profissional centrado na flexibilidade. Além disso, tal exercício nos mostrou que, se outrora tínhamos nos processos de escolarização a principal maquinaria de subjetivação, hoje, a escola compete com outras estratégias, sobretudo, midiáticas e digitais. Se aprendemos a ser trabalhadores não é somente por meio da educação formal, é, também, abrindo o jornal em busca de vagas e lendo as reportagens do Caderno Empregos & Oportunidades.

 

Notas

1 Em diálogo com Foucault sobre o papel do intelectual e o poder, Gilles Deleuze diz: "[...] uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem haver com o significante [...] É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. [...] Não se refaz uma teoria, fazem-se outras; há outras a serem feitas" (Deleuze; Foucault, 2008, p. 71).

2 Em substituição à Campanha Motorista-Padrão, promovida pelo jornal O Globo, foi lançada, em 1955 em âmbito estadual, a Campanha Operário-Padrão. A partir de 1965, o SESI assume a coordenação do programa e o promove nacionalmente como o objetivo de "[...] homenagear os anônimos construtores da riqueza que, pela sua dedicação ao trabalho, à família e à comunidade, tornaram-se credores do reconhecimento público" (Correio do Povo, 12 ago, 1970, p. 19).

3 Para uma melhor compreensão da produção do sujeito trabalhador na governamentalidade neoliberal, sugerimos a leitura da aula de 14 de março de 1979 do curso Nascimento da Biopolítica, ministrado por Foucault no Collège de France, cujo tema principal é a problematização da Teoria do Capital Humano.

4 O interno, aqui, não se refere a uma suposta essência, natureza íntima do discurso. Para manter coerência com o entendimento dos discursos como monumentos, acredito que seja importante registrar que funcionamento interno, procedimento interno, dizem respeito à lógica a qual seguem os discursos na produção de sentidos. Eles não acontecem simplesmente, estão imbricados com o poder, possuem intenção – são interessados. A utilização do termo interno e suas variações servem para marcar que cada discurso possui suas peculiaridades de funcionamento, conforme já foi dito.

5 Termo recorrente no atual mundo do trabalho. Segundo Meister (1999), empregabilidade é a capacidade potencial de um profissional de reconhecer e lidar com situações novas e desafiadoras, ou seja, capacidade de encontrar trabalho que julgue significativo dentro ou fora da empresa em que se está.

6 Respectivamente: Associação Brasileira de Recursos Humanos; Fundação Getúlio Vargas; Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul; Ordem dos Advogados do Brasil.

 

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.         [ Links ]

BAUMAN, Zygmunt. Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2005.         [ Links ]

CASTRO, Edgardo. Vocabulário de Foucault: um percurso pelos seus temas, conceitos e autores. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.         [ Links ]

DELEUZE, Gilles; FOUCAULT, Michel. Os Intelectuais e o Poder: conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 25. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2008. P. 69-78.         [ Links ]

FISCHER, Rosa Maria Bueno. Foucault e a Análise do Discurso em Educação. Cadernos de Pesquisa CEDES, on-line, [S.1.], vol. 114, p. 197-223, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/n114/a09n114.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2008.         [ Links ]

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007a.         [ Links ]

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 15. ed. São Paulo: Loyola, 2007b.         [ Links ]

FOUCAULT, Michel. Nacimiento de la Biopolítica. Curso em el Collège de France: 1978-1979. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 2007c.         [ Links ]

GERZSON, Vera Regina Serezer. A Mídia como Dispositivo da Governamentalidade Neoliberal: os discursos sobre educação nas revistas Veja, Época e Isto É. 2006. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006.         [ Links ]

GIL, Antonio Carlos. Gestão de Pessoas: enfoque nos papéis profissionais. São Paulo: Atlas, 2006.         [ Links ]

LARROSA, Jorge. Tecnologias do Eu e Educação. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). O Sujeito da Educação: estudos foucaultianos. 4. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1994. P. 35-86.         [ Links ]

LAZZARATO, Maurizio. Gobierno del Miedo e Insubordinación. In: LAZZARATO, Maurizio. Politicas del Acontecimiento. Buenos Aires: Tinta Limón, 2006. P. 9-24.         [ Links ]

MEISTER, Jeanne C. Educação Corporativa: a gestão do capital intelectual através das universidades corporativas. São Paulo: Pearson Makron Books, 1999.         [ Links ]

SARAIVA, Karla. Outros Tempos, Outros Espaços: internet e educação. 2006. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006.         [ Links ]

SENNETT, Richard. A Corrosão do Caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. 9. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.         [ Links ]

SENNETT, Richard. A Cultura do Novo Capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006.         [ Links ]

SESI Reedita Concurso Operário-Padrão do RGS. Correio do Povo. Porto Alegre, p. 19, 12 ago. 1970.         [ Links ]

SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). O Sujeito da Educação: estudos foucaultianos. 4. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1994. P. 35-86.         [ Links ]

SOMMER, Luís Henrique. Computadores na Escola: a produção de cérebros-de-obra. 2003. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. 2003.         [ Links ]

VEIGA-NETO, Alfredo. Educação e Governamentalidade Neoliberal: novos dispositivos, novas subjetividades. In: PORTOCARRERO, Vera; BRANCO, Guilherme Castelo (Org.). Retratos de Foucault. Rio de Janeiro: Nau, 2000. P. 179-217.         [ Links ]

VEIGA-NETO, Alfredo. Na Oficina de Foucault. In: KOHAN, Walter Omar; GONDRA, José (Org.). Foucault 80 Anos. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. P. 79-91.         [ Links ]

 

 

Recebido em 30 de outubro de 2010
Aprovado em 17 de outubro de 2011

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons