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Educação & Realidade

On-line version ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.38 no.2 Porto Alegre Apr./June 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2175-62362013000200002 

SEÇÃO TEMÁTICA: EDUCAÇÃO, PSICANÁLISE E ALTERIDADE

 

Apresentação: educação, psicanálise e alteridade

 

 

Simone Zanon Moschen

Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS - Brasil

 

 

A interlocução entre a Educação e a Psicanálise data de mais de um século. Embora não tenha sido, para Freud, seu objeto primeiro de investigação, a Educação sempre esteve em sua alça de mira. Isso por que a pergunta basilar que orientou a produção freudiana poderia ser enunciada da seguinte forma: como nos tornamos humanos e como transmitimos essa humanidade às gerações vindouras? A noção, articuladora dos estudos psicanalíticos, de que a subjetividade não é imanente ao ser, como organismo vivo, de que a posição de sujeito se conquista no laço ao outro - nossos pares - e ao Outro - atualização de um tesouro simbólico decantado ao longo da história -, torna a interface Educação e Psicanálise muito produtiva - para ambos os campos do saber.

Com o objetivo de adensar a produção operada nessa interlocução, Educação & Realidade lança a seção temática Educação, Psicanálise e Alteridade. Nela, o leitor encontrará um conjunto de artigos capazes de dar a ver a amplitude que a interlocução entre Psicanálise e Educação toma quando seu vetor é a temática da alteridade. A escolha por esse operador como vértice do debate busca seus fundamentos na tramitação da premissa fundamental sustentada pela psicanálise: o sujeito e o outro advêm, concomitantemente, da mesma operação; o que impede considerar um sem ter em conta o outro. De algum modo é isso que faz Freud situar em Psicologia das Massas e Análise do Eu, texto de 1921, que

[...] o contraste entre a psicologia individual e a psicologia social ou de grupo que a primeira vista pode permanecer pleno de significação, perde grande parte de sua nitidez quando examinado mais de perto. É verdade que a psicologia individual relaciona-se com o homem tomado individualmente e explora os caminhos pelos quais ele busca encontrar satisfação para seus impulsos instintuais; contudo apenas raramente e sob certas condições excepcionais, a psicologia individual se acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. Algo mais está invariavelmente envolvido na vida mental do indivíduo, como um modelo, um objeto auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado mas inteiramente justificável das palavras, é, ao mesmo tempo, também psicologia social (Freud, 1974 [1921], p. 91 - grifo nosso).

Encontramos nessa passagem a quebra de uma dicotomia - tão própria ao pensamento freudiano - a qual recorremos, com frequência: individual e social. Situar a alteridade no vértice do debate entre Educação e Psicanálise corresponde a apostar em proposições que transcendam a suposta dicotomia sujeito / outro - ou indivíduo / sociedade.

O tecido social põe em cena os fios com os quais irá se tecer o lugar do sujeito. A configuração que a trama destes fios tomará não está contida nos fios mesmos. Tanto é assim que, com os mesmo fios, vemos ser tecidas posições de sujeito completamente singulares. É nessa medida que podemos dizer do sujeito que ele habita um paradoxo: seu lugar é, estranhamente, relativo, a um só tempo, ao singular e ao coletivo: fazemos-nos com as palavras de todos ordenadas por cada um de nós.

Os artigos que ora o leitor tem em mãos percorrem as questões por eles propostas tendo como causa o E que une sujeito e coletivo (sujeito E O/outro) e dessa forma não se furtam a tramitar sua escrita pelas paragens incômodas dos paradoxos. Paradoxos, como dissemos, que constituem a tônica do trabalho freudiano. Situemos mais um deles...

Freud, em O Mal-estar na Cultura (1930), atribui, ao convívio entre as pessoas, parte significativa do mal-estar que é constitutivo aos humanos. Ao questionar-se acerca da produção de saídas para referido mal-estar é, paradoxalmente, na relação ao outro que o texto freudiano situará a possibilidade de inventar alternativas capazes de dar-lhe vazão. O outro é fonte de mal-estar e, ao mesmo tempo, possibilidade de sua metabolização. No convívio, inventam-se formas de fazer tramitar o mal-estar; formas que decantam, ganham densidade e são transmitidas às gerações vindouras.

Desde os trabalhos de psicanalistas pós-freudianos, como Lacan, a alteridade ganha contornos ainda mais complexos, desdobrando-se em diferentes perspectivas, quais sejam: um Outro diferente, mas assimilável; um Outro diferente e estrangeiro; um Outro diferente e inominável. Somos convocados, como sujeitos e como coletivo, a desdobrar modos de estar no mundo a partir das afetações que essas diversas camadas do outro/Outro produzem, bem como a transmitir os modos culturalmente constituídos de tramitar a vida a partir dessa afetação.

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Nesta seção temática encontramos artigos que acolheram o desafio de, a partir do modo como a alteridade comparece na Psicanálise, pensar questões que se colocam ao campo da Educação. Seus três primeiros textos se tecem complexificando ainda mais o campo, a saber, chamando ao debate autores como Kant, Arendt e Elias.

A Experiência Ético-Formativa da Psicanálise e a Interlocução com Kant introduz a seção temática colocando em primeiro plano os desdobramentos éticos que o debate sobre a noção de alteridade engendra. Lacan, em seu sétimo seminário, toma como centro de seu ensino o tema da ética numa articulação às concepções de sujeito, desejo e criação. Para tanto, recorre a autores como Kant, desdobrando consequências do legado de seu trabalho tanto para ética como para a estética. Lacan, nesse seminário, fará uma crítica contundente a uma moral proposta como um a priori ao sujeito, e sustentará as bases conceituais para pensar o sujeito em sua articulação com um por vir que não elide a responsabilidade, mas que dispensa a prescrição. Como educar sem dirigir-se por noções de bom e de mau, de certo e de errado? A partir do tensionamento que essa questão abre, o artigo desdobra seu argumento, situando a sublimação como ferramenta de ruptura com o instituído; como ferramenta potente de invenção.

É também em torno de uma indagação sobre a articulação entre ética e desejo - a partir do tema da alteridade - que o artigo Para Além da Justa Medida: Arendt, a ética, o desejo e a educação retomará o trabalho de Hannah Arendt. Sabemos da preocupação dessa autora com a transmissão do legado construído por uma geração às gerações vindouras e de sua denúncia sobre os efeitos da perda da força da tradição e da autoridade como garantes desta transmissão. Em sua frase, "nossa herança nos foi deixada sem testamento", de algum modo, Arendt indica o debate na direção da invenção de modos de operar com aquilo que recebemos ou deixamos dos/aos outros. Novamente uma invenção vetorizada pela ética do desejo em sua articulação com a responsabilidade que ela implica.

O artigo Psicanálise e Educação: os paradoxos da alteridade faz um mergulho no trabalho de Lacan com o objetivo de dar consequências aos diferentes modos como a alteridade é proposta. Agora quem coloca a pergunta que merece debate é o trabalho do sociólogo Norbert Elias, quando esse se debruça sobre as formas de figurar a relação entre indivíduo e sociedade. Retomar o trabalho de Lacan, guiados pela pergunta de Elias, permitiu aos autores indicar diferentes camadas, não-hierarquizáveis e interdependentes, de alteridade e suas consequências para a estruturação do sujeito em sua relação ao Outro/outro. É na esteira dessa discussão que se propõe uma melhor especificação do Outro/outro quando se trata de pensar a proposição de políticas de inclusão.

Em A Palavra e as Condições da Educação Escolar, o autor trabalha com um elemento indicado em muitas das pesquisas que buscam mapear a qualidade de ensino, uma variável emocional atualizada pelo professor - absolutamente outra em relação às até então auferidas habilidades técnicas - que em pesquisas recentes tem sido apontada como decisiva no desenvolvimento da atenção dos alunos em sala de aula. A indicação do lugar da palavra do professor - dito fator emocional - abre lugar a indagações que levam o autor a questionar aquilo que tem sido sustentado e instituído pelo Estado, em termos de políticas públicas educativas, uma vez que uma palavra nunca se autoriza de si mesma, mas de seus outros - no caso a sociedade e as instituições por ela criadas e mantidas.

Numa linha de debate com estas proposições que ressaltam a presença do "fator professor" como um fator decisivo na implementação de uma educação de qualidade, o artigo Educar: da alteridade ao estilo, retoma a noção de estilo proposta pelo ensino de Jacques Lacan para trabalhar a ilusão de uma transmissão unicamente técnica das condições do bem ensinar. Se não podemos recorrer à técnica como garante de uma relação pedagógica que desdobre resultados potentes; se no laço pedagógico está em jogo a transmissão de um estilo enquanto modo singular de relação à falta; se é disso que se trata, temos, em primeiro plano, a responsabilidade pelos laços engendrados e pelas consequências que eles situam. Novamente vemos o trabalho desaguar na marcação da relação entre alteridade e responsabilidade.

O artigo Os Profissionais do Impossível, retoma a conhecida formulação freudiana que situa a educação, junto à psicanálise e à política, como áreas que geram práticas passíveis de serem adjetivadas de impossíveis. Retoma a proposição de um "impossível" para distingui-la do que se estabelece, muitas vezes, como sensação de impotência. A colocação em cena do impossível também permite ao autor retomar a teoria dos discursos em Lacan, na qual se cifram diferentes modos de fazê-lo tramitar. Os percursos por Freud e Lacan permitem lançar os fios que sustentarão a discussão sobre a formação de professores e as políticas de educação inclusiva.

Como referimos ao início, encontramos nos escritos psicanalíticos - notadamente em Freud - diferentes figurações da alteridade. Entre elas está a estabelecida em seu famoso estudo O Estranho (1919). Nele o outro aparece como retorno de um Mesmo recalcado e não reconhecido como próprio. O outro é aquilo que há muito quisemos deixar fora de nosso alcance. É interrogado por essa dimensão do outro, articulando-a aos estudos da filosofia, antropologia e arte, que o artigo Um Entre o Outro e Eu: do estranho e da alteridade na educação proporá o ensino como uma forma de estranhamento.

Em Escrita e Alteridade: um texto em viagem-enigma vemos desdobrar-se a articulação entre subjetivação e escrita através do vértice da alteridade. O campo de proveniência dos enigmas que causam este texto encontra-se no trabalho de escrita próprio à escola e à universidade. Ao escrever sobre o escrever, como nos diz Haroldo de Campos, a autora se faz acompanhar de autores que se constituem em interessantes intercessores teóricos para o campo educacional e psicanalítico, quais sejam, Barthes e Blanchot.

O artigo Tratamiento Social de las Diferencias, Teorías Infantiles y Narrativas parte do estudo freudiano sobre as teorias sexuais infantis como caminho de inscrição psíquica da diferença. A operatividade dessa inscrição depende da tramitação que dita diferença encontra no coletivo a cada tempo. Articulando o estudo freudiano às proposições de Foucault, as autoras indagam, especialmente, o cenário de patologização e medicalização da infância que constatam alargar-se em nossos tempos.

Tomando a alteridade como elemento nodal da estruturação do sujeito e da passagem adolescente, o artigo Alteridade e Adolescência: uma contribuição da psicanálise para a educação procura trazer contribuições aos educadores concernidos pela transmissão do patrimônio cultural aos jovens de nossos tempos.

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O breve recenseamento dos textos que o leitor encontrará na seção temática Educação, Psicanálise e Alteridade dá mostras da potência e abertura que o trabalho com esses significantes engendra. Trabalho esse que, de diferentes modos, coloca no centro do debate a constituição do lugar do sujeito como tributária do laço ao Outro/outro bem como a necessidade de dar lugar à responsabilidade pelos efeitos que esse lugar - inventado - produz para o próprio laço. Invenção, responsabilidade. Significantes que se abrem quando, com a psicanálise, lançamos as determinações do acontecer do sujeito à temporalidade do a posteriori. Nela as determinações estão sempre por ser construídas, não sem os constrangimentos de um percurso anterior, mas, também, não de forma unilateralmente produzida por este percurso. Os artigos aqui reunidos nos fazem atentar para o fato de que a dimensão alteritária da vida situa a imprevisibilidade como centro da experiência do inconsciente e de sua transmissão.

 

Referências

FREUD, Sigmund. O Estranho. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. 17. Rio de Janeiro: Imago, 1974 [1919].

FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1974 [1921].

FREUD, Sigmund. O Mal-estar na Cultura. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1974 [1930].

 

 

Simone Zanon Moschen é psicanalista, membro da Appoa e professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/Rio Grande do Sul.
E-mail: simonemoschen@gmail.com

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