SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.38 número2Um entre o outro e eu: do estranho e da alteridade na educaçãoSocial treatment of differences, childhood theories and narrative índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Educação & Realidade

versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.38 no.2 Porto Alegre abr./jun. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2175-62362013000200010 

SEÇÃO TEMÁTICA: EDUCAÇÃO, PSICANÁLISE E ALTERIDADE

 

Escrita e alteridade: um texto em viagem-enigma

 

Writing and alterity: a text in an enigma-journey

 

 

Margareth Schaffer

Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS - Brasil

 

 


RESUMO

Abordamos, neste texto, experiências de escrita e os impasses da subjetivação na atualidade, através dos laços sociais que constituem o sujeito. A ancoragem teórica dá-se através da educação, da psicanálise e da linguagem, bem como de reflexões surgidas das experiências com escritas de orientandos e de alunos, tanto na universidade como na escola. A partir dessas reflexões, propomos tratar a experiência da escrita não como uma transcrição, mas, sim, como um outro sistema - um desejo de escrita -, o qual comporte a noção de inscrição de um ato de singularidade possível, cujo endereçamento - laço social - vise ao enodamento entre a experiência da escrita como viagem-enigma e a alteridade do sujeito.

Palavras-chave: Viagem-enigma. Experiência. Escrita. Alteridade. Laço Social.


ABSTRACT

Approaching, on this text, writing experiences and the troubles about subjectivity in the present, behind the social-bonds that composes the subject. The theoretical approach happens through the psychoanalysis, education and language, as well as reflections rising by the writing experiments with students and advisees in university and college/school. Using these reflections, we propose to treat the experience of writing not as a transcription, but so, like another system - a writing desire - the one that behave the notion of inscription in a singularity act, whose addressing - social-bond- means the interlacement between the writing experience as travel-puzzle and the subject's alterity.

Keywords: Travel-puzzle. Experience. Writing. Alterity. Social-bond.


 

 

Aspectos Introdutórios: a valise

[...] não cair na ilusão narcísica de que a atividade intelectual e acadêmica possa encontrar sua justificação definitiva nesse trabalho de acumulação - pois o apelo do presente, da vida no presente, também exige que o pensamento saiba esquecer. Sobretudo, saiba esquecer de sua complacência erudita para consigo mesmo, saiba desistir de seus rituais de autorreprodução institucional e ouse se aventurar em territórios incógnitos, sem definição nem inscrição prévia (Gagnebin, 2006, p. 12).

Para tratar da escrita como um texto em viagem-enigma é preciso levar a sério o que Gagnebin nos sugere no trecho citado acima. O trabalho de acumulação de conceitos não é suficiente: é preciso o tempo de espera de uma experiência possível. Assim, na tentativa de transformar a experiência de escrita em texto como viagem-enigma, levo comigo uma valise, com materiais de alguns autores que me são caros, na espera que possam produzir efeitos teóricos novos. Como em qualquer viagem, temos que decidir qual o rumo a seguir, e se estamos dispostos a mudar a rota e fazer desvios, quando a escrita esquiva-se de nós e não se submete a uma definição ou inscrição prévia. Trata-se de enfrentar o que se pode chamar de o estranho da escritura, entendendo que por esse caminho encontramos algo mais rico e provocador e com mais possibilidades de criação, na medida em que tal opção permite abrir caminho a outros companheiros de viagem.

As aproximações inquietas que os autores da valise nos provocam levam-nos a inserir diversos pontos de interrogação no texto, convocando o leitor a participar dessa estranha viagem que é a escrita. Schopenhaeur (2008), em A Arte de Escrever, nos coloca a seguinte interrogação: você tem algo a dizer? Como tal interrogação nos situa mais ao lado do objeto do que da experiência do sujeito, acrescento outras interrogações: temos, ainda, algo a dizer sobre a experiência da escrita? Qual sujeito da escrita? Qual escrita? Qual escritura? Qual inscrição? Enfim, uma série de interrogações que advêm, por um lado, das escritas de orientandos e, por outro, das experiências de escrita de alunos, em diferentes níveis de formação. Recordo aqui uma reunião recente de avaliação, no curso de Pedagogia da Faculdade de Educação; a constatação recorrente, por parte dos professores, era a seguinte: nossos alunos não sabem escrever. Em outros termos, como vão ensinar alguém a escrever, quando esse alguém não sabe escrever? Minhas interrogações seguiram: o que significa escrever? Em que consiste o ato de escrever? Qual a implicação do sujeito e sua alteridade nesse processo? O que seria próprio do sujeito e que caberia em tal experiência? Que laços sociais propiciam esse processo? Os sujeitos, na experiência da escrita, têm efetivamente algo a dizer? O objetivo não é responder a todas estas questões, mas, sim, com tais interrogações, construir uma espécie de enodamento entre a experiência da escrita e as estratégias de subjetivação, de forma a estabelecer uma relação que não tem uma inscrição prévia (conforme nos aponta Gagnebin), mas que tem algo a ser dito - pelo sujeito. Sabemos, com Blanchot1 (2001), que a escrita (ou o ato de escrever) implica grande responsabilidade. Escrever sobre tal processo também o é, já que a travessia não é linear; opera por desvios, descontinuidades, tal como a própria experiência da escrita.

Assim, em sentido amplo, pretendemos realizar uma reflexão entre a relação que se estabelece entre a experiência da escrita, a subjetividade e a relação com o Outro. Dentro desse contexto mais amplo, procuramos abordar algumas concepções acerca das experiências de escrita e os impasses da subjetivação na atualidade, através dos laços sociais que constituem o sujeito na sua inserção universitária e em toda a trajetória escolar. A interrogação sobre a produção escrita contemporânea é, assim, calcada em versões de textos escolares e científicos, frutos de nossa experiência na área.

Na contemporaneidade, as questões de subjetividade entrelaçam-se, de forma bastante estreita, com a linguagem, a criação e os laços sociais. A linguagem é vista aqui como um meio de subjetivação que propicia singularidades, formas de criação, para o sujeito instituir-se. Em estudos anteriores, em análises teóricas e empíricas, nos deparamos com questões de subjetividade que ultrapassam o campo das classificações patológicas ou de problemas de aprendizagem. Tais estudos demonstraram que não podemos atrelar a constituição da subjetividade a um campo prévio de nominação, sob o risco de perder-se o sujeito que aí está se constituindo. Sempre há sujeitos e sempre há processos de subjetivação, por singulares que sejam. Aliás, toda a constituição subjetiva do humano é singular e comporta aspectos de criação, entrelaçados com os laços sociais oferecidos. É esse traço de criação, de singularidade, subjacente aos processos de subjetivação, que nos fazem, agora, procurar trabalhar com sujeitos e seus escritos, sem a marca específica de alguma patologia ou problema. Os estudos de Jacques Lacan, principalmente nos últimos escritos, bem como os de outros teóricos fora do campo psicanalítico, nos fornecem subsídios importantes para pensarmos a constituição de subjetividades, da alteridade, da escrita e dos laços sociais. Sendo assim, delimitamos como mote de nosso tema de reflexão o estudo das experiências de escrita universitárias e escolares2, de modo a evidenciar as estratégias de subjetivação e os laços sociais aí implicados, de modo a produzir reflexões para a constituição de uma outra concepção de escrita para a educação.

Para Seligmann-Silva, encontramo-nos já há algum tempo "[...] diante da rearticulação e redemarcação das disciplinas, com base em novos paradigmas teóricos e parâmetros de conduta decantados a partir dessa dupla revolução na técnica e nas formas de experiência histórica" (2005, p. 123). Em função dessas mudanças, o próprio papel do professor universitário é redesenhado, ou seja, revisto. Aliado a esta situação, temos um modelo de identidade ontologizante que constitui, na verdade, "[...] o cerne daquele modelo representacionista e historicista de pensamento que dominou (e ainda domina de certo modo) as nossas Universidades e páginas de jornais" (Seligman-Silva, 2005, p. 11). Neste sentido, o não idêntico, o resto, o outro são postos de lado, imperando modelos de identidade estanques e essencialistas. Na contramão desse pensamento, podemos pensar a identidade como uma vertigem (sem fundo, sem fim), onde o eu "[...] só possui uma casa em ruínas" (Seligman-Silva, 2005, p. 13). No lugar desta casa, é o local da diferença que surge e nos afasta de uma visão de identidade fixa. Isto exige um trabalho de reescritura, baseado em uma crítica radical da sociedade e, em específico, da cultura universitária3 e escolar.

No trabalho de reescritura, de escrita de uma experiência, seria necessário, então, acionar uma concepção de diferença como processo, de limite da representação, de escrita como descontinuidade, enfim, uma concepção plural de identidade e de escrita - que operam por desvios e diferenciação constantes. Trata-se dos limites impostos pela linguagem, um sobre-sentido que nos escapa, pois aí opera o não-eu, o desvio, o outro/Outro, elementos fundamentais para a experiência da escrita.

 

Alguns Elementos sobre Experiência - Experimentum Linguae4

Agamben (2005) pergunta-se se a experiência ainda é possível para o homem moderno, acrescentando que tal questionamento pede uma definição do sujeito do conhecimento. "Apoiado nos estudos de Benveniste sobre as pessoas no discurso, Agamben aponta a consistência puramente linguística deste sujeito. A experiência que está na base desta investigação torna-se então um experimento com a língua" (cfe. texto da contracapa); eu acrescentaria: torna-se um experimento com os limites da linguagem, com o indizível, "[...] de maneira que o indizível é precisamente aquilo que a linguagem deve pressupor para poder significar" (Agambem, 2005, p. 11) Temos, assim, uma estreita relação entre experiência e linguagem. "A experiência aqui em questão é, acolhendo a indicação do programa benjaminiano da filosofia que vem, algo que poderia ser definido apenas nos termos - para Kant decididamente improponíveis - de uma experiência transcedental" (Agambem, 2005, p. 11, grifo nosso). Mas como é possível ter experiência não de um objeto, mas da própria linguagem? Como fazer uma experiência com a linguagem? Para começar, determinar que a experiência com a linguagem não é indivisa é uma experiência cindida entre língua e discurso, potência e ato. Para o autor, na rasteira do que Benjamim já havia diagnosticado em 1933 - "pobreza da experiência" - o homem contemporâneo foi expropriado de sua experiência5.

É esta incapacidade de traduzir-se em experiência que torna hoje insuportável - como em momento algum no passado - a existência cotidiana, e não uma pretensa ou má qualidade ou insignificância da vida contemporânea confrontada com o passado (aliás, talvez jamais como hoje a experiência cotidiana tenha sido tão rica de eventos significativos) (Agambem, 2005, p. 22).

O correlato da experiência é a autoridade e não o conhecimento, "[...] e hoje ninguém mais parece dispor de autoridade suficiente para garantir uma experiência" (Agambem, 2005, p. 23). Não se trata de deplorar tal realidade, mas de constatá-la. Para o autor, talvez esteja em hibernação o germe de uma experiência futura. É esta a nossa aposta, ao articularmos experiências de escrita, subjetividade e alteridade. Tal articulação procura trazer o homem para dentro da experiência, das incertezas destas, as quais são incompatíveis com instrumentos, números e certezas. "Uma experiência que se torna certa e calculável perde imediatamente sua autoridade". (Agambem, 2005, p. 26)6. Assim, no lugar da experiência, a ciência nos propõe o método (méthodos), o caminho para o conhecimento. Desapropria os sujeitos da experiência e coloca em seu lugar um único e novo sujeito: o ego cogito cartesiano, a consciência. Entretanto, não se trata de recuperar a experiência tradicional e, com isso, reencontrar a experiência que se pode, simultaneamente, fazer e ter. Para Agamben, "[...] o velho sujeito da experiência, na verdade, não existe mais. Ele se duplicou. Em seu lugar existem agora dois sujeitos" (2005, p. 33). Eles caminham lado a lado, impossibilitados de articular conhecimento e experiência, de fazer e ter.

Trazendo tais reflexões para o campo da psicanálise, por meio da concepção de inconsciente, a crise do conceito moderno de experiência - ou seja, da experiência que se funda sobre o sujeito cartesiano - chega à sua evidência máxima. "Como manifesta claramente sua atribuição a uma terceira pessoa, a um Es, a experiência inconsciente não é, de fato, uma experiência subjetiva, não é uma experiência do Eu7 " (Agambem, 2005, p. 51). Sendo assim, a psicanálise nos mostra que as experiências mais importantes são aquelas que não pertencem ao sujeito, mas aisso (Es). Há uma passagem da primeira pessoa para a terceira pessoa; nesta passagem podemos encontrar os caracteres de uma nova experiência. Entra aqui a questão da linguagem, tal como Agamben nos propõe, ou seja: "Uma proposição rigorosa do problema da experiência deve, portanto, fatalmente deparar-se com o problema da linguagem" (Agambem, 2005, p. 54). Baseado nos estudos de Benveniste sobre a "natureza dos pronomes" e sobre a "subjetividade na linguagem", o autor afirma que é na linguagem e através da linguagem que o homem se constitui como sujeito. No sentido benvenistiano, Es é a terceira pessoa, uma não-pessoa, um não-sujeito; "[...] nada de surpreendente, portanto, se Lacan nos mostra que também este Es não tem outra realidade que não seja de linguagem, é ele mesmo linguagem" (Agambem, 2005, p. 59). Não se trata da língua em geral, segundo a tradição da metafísica ocidental, que caracteriza o homem entre outros seres viventes, "[...] mas a cisão entre língua e fala, entre semiótico e semântico (no sentido de Benveniste), entre sistema de signos e discurso" (Agambem, 2005, p. 63). Há diferença e descontinuidade, entre língua e discurso.

A passagem do semiótico para o semântico, da pura língua para o discurso, é a história. Mas o que é contar a história, uma história? O que é uma narração? Qual a sua importância para a constituição da alteridade do sujeito? O que isso significa para a experiência da escrita? Enfim, questões a que Gagnebin (1999), na esteira de Benjamim, responde com a seguinte hipótese: "[...] a construção de um novo tipo de narratividade passa, necessariamente, pelo estabelecimento de uma outra relação, tanto social como individual, com a morte e com o morrer" (Gagnebin, 1999, p. 65). No que concerne à escrita, renunciar (morte?) ao tipo de escrita proustiana8, para que surja seu próprio modo de escrever (Benjamim). Entretanto, mesmo que a escrita descreva o trabalho do tempo e da morte, ao dizê-lo, luta contra ele. Trata-se de um paradoxo, que o eu do escritor tem de enfrentar, ao mesmo tempo em que luta contra a morte do não-eu.

Que o eu não fale só de si, mas, sim, ceda lugar a um outro, que não a si mesmo. Estamos falando aqui de uma morte do "eu", para que o discurso advenha e possa existir o entrelaçamento de uma história - do escritor - com o outro/Outro. Para pensarmos um pouco mais esta relação entre eu, sujeito, outro/Outro, experiência, escrita, Gagnebin nos propõe uma renúncia à previsibilidade do pensamento.

Este caminho, certamente cheio de riscos, é também o caminho da escrita. Esta retoma o conceito de atenção flutuante de Freud, para nos dizer que pensamento e escrita também se desdobram à escuta do inconsciente. "Um sujeito, que não fala de si para garantir a permanência da sua identidade, mas que, ao contar, escrever sua história, se desfaz de representações definitivas e ousa afirmar-se na incerteza" (Gagnebin, 1999, p. 91). Trata-se de penetrar nos textos, na escrita, tal como a criança o faz quando, ao virar o bordado9 pelo avesso, ela "[...] se encanta também pelo verso, por esse avesso labiríntico inseparável da ordem do desenho [...]". Direito e avesso da escrita, visível e invisível, nominável e inominável, familiar e estranho são diversas formas de falarmos do labirinto da escrita, do seu enigma sem oráculos, de sua possibilidade de constituir-se como uma experiência de alteridade possível.

Para transmitir a experiência, a função da narrativa é essencial. Sabemos que, conforme Benjamim, o conceito de experiência está ligado à possibilidade de transmissão do vivido (oral, escritural...). Na modernidade, estamos convivendo com a perda da experiência, já que a relação que a sustentava, relação dos sujeitos com o tempo, modificou-se substancialmente. Atualmente, as relações entre tempo e sujeito são tomadas pela rapidez das informações fugazes, produzindo, com isso, "[...] a vivência de um tempo vazio de experiência e, assim, de uma subjetividade igualmente esvaziada" (Kehl, 2006, p. 268). Um tempo que não passa, "[...] porque se apresenta aos sujeitos como tempo sem memória e sem devir, um puro presente comprimido entre dois instantes que hão de passar sem deixar nada atrás de si" (Kehl, 2006, p. 269). Será que o conto, experiência aberta, inconclusiva, poderia ser uma possibilidade de constituir a experiência da escrita? Não poderia ser o conto esta experiência de labirinto, de enigma sem oráculos, abrindo um devir para a experiência da escrita? Na próxima seção, vamos procurar delinear alguns elementos sobre a experiência da escrita, de modo a continuar abrindo nossa questão e continuar a viagem.

 

Alguns Elementos sobre a Escrita: uma página que falta

Para Gagnebin, apesar de existirem diversos tipos de rastros10 que os homens deixam de si mesmos, "[...] continuamos falando de escrita, escritura, inscrição quando tentamos pensar em memória e lembrança" (2006, p. 111). Em outros termos, continuamos falando de experiência, apesar da ênfase, na nossa época, das vivências, fato já detectado, em vários textos, por Walter Benjamim, especialmente quando ele fala do fim da narração e o explica pelo declínio da experiência (Erfahrung)11. Agamben, na seção anterior, nos fala da destruição da experiência, assim como continua falando de experiência da escrita. Poderíamos indagar, com o autor, afinal, "Por que a dominância dessa metáfora da escrita?" (Gagnebin, 2006, p. 111). Talvez possamos responder com Georges Jean: porque a história da escrita é uma "História que se confunde, se entrelaça, com a história do próprio homem, um romance apaixonante do qual nos faltam, ainda hoje, algumas páginas" (Jean, 2002, p. 12).

Observamos, ainda, que há uma intricada relação entre experiência da escrita/escritura12 e ato criador como processo subjetivador, através do laço social. Para trabalhar tal relação, não pretendemos fazer uma longa história dos processos de escrita13 e da subjetividade, tarefa a que muitos já se dedicaram com mestria. Nosso intuito é estabelecer um processo de reflexão dessa intrincada relação na interface dos estudos educacionais, psicanalíticos e de linguagem, de modo a estabelecer como a escrita e a inscrição podem nos ajudar a conceber uma outra concepção da experiência da escrita, a qual comporte um sujeito, por mais ficcional que seja; e também uma outra relação com os textos e escritos escolares e universitários.

Podemos encontrar na escrita/escritura a possibilidade de uma experiência e mesmo de uma gramática da existência. Não se trata da conquista de um Eu ou de uma identidade através da escrita, mas, sim, de uma subjetividade - uma intersubjetividade - que pressupõe uma experiência, bastante difícil, de distância e descentramento, em relação a si mesmo. Isso implica pensarmos o sujeito da escrita no sentido lacaniano do termo, como efeito da escritura, na passagem de um significante a outro. Voltaremos a esta questão mais adiante, para torná-la mais clara.

Já observamos, anteriormente, que a experiência da escrita, para Blanchot, é de uma responsabilidade terrível. Assim,

Invisivelmente, a escrita é convocada a desfazer o discurso no qual, por mais infelizes que nos acreditemos, mantemo-nos, nós que dele dispomos, confortavelmente instalados. Escrever, desse ponto de vista, é a maior violência que existe, pois transgride a Lei, toda lei e sua própria lei (Blanchot, 2001, p. 9).

O autor acentua a exigência de uma descontinuidade no processo da linguagem da pesquisa, de modo que a linguagem seja essencialmente plural. A questão é, para ele, como escrever deste modo. No que diz respeito à escrita, ele se pergunta: "[...] como escrever de tal maneira que a continuidade do movimento da escrita possa deixar intervir fundamentalmente a interrupção como sentido e a ruptura como forma?" (Blanchot, 2001, p. 37). Trata-se de uma interrogação, cuja pretensa resposta configura também uma descontinuidade e uma alteridade radical. Ir à raiz da questão é colocar em cheque o próprio ser da escrita, os modelos contínuos existentes. Só que a própria questão, sendo palavra inacabada, não respondida, é o desejo do pensamento. "A resposta é a desgraça da questão" (Blanchot, 2001, p. 43). Nesse sentido, a questão é uma abertura, uma lacuna não preenchida e, mesmo que a questão espere resposta, a essência da questão não é preenchida por aquilo que responde. Assim, responder à questão acerca do escrito exige uma operação que se dá pelo desvio, pela descontinuidade, pelas bordas ou, em outras palavras, pelas rasuras/arranhaduras e cortes da escrita. É esta experiência do desvio que se trata de incorporar ao escrito/escritura. Tal experiência pode produzir o desencontro, o erro. Talvez o que nos seja dado é apenas a possibilidade de errar melhor.

A questão da escrita/escritura, como uma experiência de descontinuidade e alteridade radical, de desvio, evoca, também, o ponto onde os atos de escrever e de se curvar encontram-se. "A escrita é esta curva que o giro da busca evocou e que reencontramos na curvatura da reflexão" (Blanchot, 2001, p. 67). Tal experiência só pode existir no sentido estrito, "[...] onde algo de radicalmente outro está em jogo" (Blanchot, 2001, p. 91). Este pressentimento do Outro nós o encontramos na escrita, no processo de escrever, onde Ele14 nos despoja, nos rouba de nós mesmos. Assim, "É a linguagem, a experiência da linguagem - a escrita que nos leva a pressentir uma relação inteiramente diferente, relação de terceiro tipo" (Blanchot, 2001, p. 128). O que entra em questão não é mais a polaridade entre um dos termos, mas a própria relação - relação de um ao outro. Tal relação implica um intervalo, uma pausa, para que o próprio do escrever se constitua e para que a alteridade se preserve. Assim como acontece com o falar, está implicada, nesta relação, uma tentativa de acolher o outro como outro, e o estranho como estranho. Entretanto, diz-nos Blanchot, "Infelizmente, a escrita é um enigma, mas não fornece oráculos, e ninguém está em condições de lhe fazer perguntas" (2005, p. 40). Eis, para Blanchot, a experiência da escrita. Mas, talvez, possamos ir um pouco mais adiante na questão - apesar de não nos valermos de oráculos.

A escrita sempre está em compasso de espera. Qual espera? A resolução do enigma que conduz ao escrever. Blanchot, quando se refere ao livro por vir, nos coloca uma questão que também pode ser pensada em relação à escrita. Assim, o livro "[...] está constantemente descentrado com relação a si mesmo, não apenas porque se trata de uma obra ao mesmo tempo toda presente e toda em movimento, mas também porque é nela que se elabora e dela que depende o próprio devir que a desdobra" (Blanchot, 2005, p. 355).

Trata-se de uma outra concepção de tempo que a escrita e o texto engendram. Uma cadência de tempos que Blanchot, nas pegadas de Mallarmé, nos coloca: "Vigiando, duvidando, rolando brilhando e meditando" (Blanchot, 2001, p. 358). É com um talvez, do qual nos apropriamos, que Blanchot nos fala, quando aponta essa espera, devir, tempo e escrita. Um talvez que nos encaminha na direção da impossibilidade de tudo dizer, de tudo escrever (não há aí nada de universal). Há uma indigência que nos faz pressentir que pensar é sempre aprender "[...] a pensar menos do que se pensa, pensar a falta que é também o pensamento e, falando, preservar essa falta, levando-a a fala (à escrita), mesmo que seja, como acontece hoje, pelo excesso de prolixidade repetitiva" (Blanchot, 2005, p. 367).

A experiência da escrita, quando pensada no sentido de pensar menos do que se pensa, quando pensada, também no sentido de acolhimento e alteridade do outro, nos coloca a questão de como pensarmos tal experiência na produção universitária ou nos processos escolares - que parecem caminhar na contramão de tal acolhimento. Será que outro tipo de experiência é possível? Será que a diferença é possível na experiência da escrita? Será que a experiência de descontinuidade, da qual nos fala Blanchot, pode estabelecer uma experiência de escrita onde haja a relação de um ao outro? Quais estratégias de subjetivação seriam necessárias para tornar tal experiência possível? Por fim, quais laços sociais seriam constituintes dessa experiência?

Respeitando a diversidade existente entre Blanchot e Gagnebin, por exemplo, poderíamos pensar que há neles um entrecruzamento no que diz respeito aos processos de descontinuidade, de desvio e, principalmente, ao papel que a escrita/escritura pode exercer na existência do homem. A relação entre escrita e tempo está presente em ambos os autores; há uma luta contra o tempo e contra a morte, na escrita. "Luta que só é possível se morte e tempo forem reconhecidos, e ditos, em toda sua força de esquecimento, em todo o seu poder de aniquilamento que ameaça o próprio empreendimento do lembrar e do escrever" (Blanchot, 2005, p. 146). Blanchot nos fala em pausa, em interrupção, em indizível no processo de escrita; Gagnebin nos fala de dispersão, perda e de indizível. Já que não podemos sair da linguagem nem do mundo, para observar e refletir como se relacionam entre si, então, "Entre a palavra e o mundo que enuncia e a realidade que ela quer apreender, sempre haverá um abismo que ela pode, sim, atravessar, mas nunca abolir" (Blanchot, 2005, p. 209).

No processo de escrita, da linguagem, no atravessar o abismo, o sujeito não preexiste como sujeito-que-sabe15 ; ele passa pelo escrito, coloca ali algo de si, mas o faz sem garantias de abolir o abismo entre a palavra e o mundo. Pensando no discurso universitário e escolar, os quais pretendem, na maioria das vezes, abolir o abismo e tudo dizer, invocamos Barthes (2004a), no seu interesse pela psicanálise, quando diz que o discurso científico aparece-lhe como indesejável discurso da Lei; e a escritura, discurso do desejo, será sua última opção. Retornaremos a esta questão, nas Considerações Finais, quando tratarmos das relações entre escrita, alteridade e psicanálise.

Quando nos referimos ao sujeito e à experiência da escrita, não estamos tratando da categoria Eu, de um Eu que escreve e põe em ato sua experiência do escrever16. Estamos no terreno daquilo que Blanchot nomeia como passagem do semiótico para o semântico, do eu para o tu, para o outrem, onde é a relação que está em jogo. Não se trata do sujeito pensante da filosofia idealista, mas, sim, de um sujeito despojado de sua unidade, de um Eu, "[...] perdido no duplo desconhecimento de seu inconsciente e da sua ideologia, e só se sustentando por uma sucessão de linguagens" (Barthes, 2004a, p. 41). Ou, como diria Lacan, no Seminário 23 (2007), trata-se de uma suposição de sujeito. Para Barthes, se o sujeito não é anterior à linguagem; só se torna sujeito na medida em que fala, então não há sujeitos e, portanto, não há subjetividade (Barthes, 2004b). No rastro de Benveniste e também de Lacan, o que há é enunciação, interlocução. Será que, ao falarmos em enunciação, em interlocução, podemos falar, também, em intersubjetividade? Para alguns autores, teríamos que falar em transubjetividade, já que na relação eu-tu sempre há um terceiro em questão, que é a sociabilidade, a qual denominamos, neste texto, de laços sociais. O Outro é social, diz-nos Lacan. Essa é mais uma das questões que nos colocamos nesta discussão sobre a escrita. Interessante observar que tanto Agamben, Blanchot, Lacan, Barthes, assim como outros teóricos, recorrem a Benveniste, um linguista, para sair do escopo do subjetivismo.

Estamos enlaçando, nessas reflexões, as experiências de escrita com a subjetividade e a intersubjetividade, e não com o subjetivismo. Por isso é que falamos em laços sociais. A pergunta que pode ser colocada agora é como falar desta relação no sentido psicanalítico. Uma possibilidade de resposta é procurar articular os laços sociais, nas suas especificidades (aqui, universitárias e escolares), aos seus efeitos subjetivos e intersubjetivos.

Em Lacan, os laços sociais são laços discursivos; as relações de linguagem entre as pessoas definem as maneiras diferentes de distribuição de gozo. O discurso, um discurso sem palavras, mas, não sem linguagem, dá conta das relações intersubjetivas. Essas relações constituem-se a partir da circulação de certos elementos que, ao transitarem por diferentes lugares, produzem laços sociais específicos e promovem diferentes efeitos ou sintomas (Rosa, 2004, p. 338).

Os diferentes efeitos ou sintomas tendem a tomar a forma da cultura à qual pertencem, produzindo diferentes organizações subjetivas, advindas de diferentes processos sociais e particulares, advindo, daí, um sujeito e uma alteridade possível. O que está em questão é uma realidade transindividual do sujeito, o que nos permite dizer, de certa forma, que o inconsciente é a linguagem enquanto ordem social, que organiza previamente todo o campo da experiência possível.

Ao falarmos de laços sociais, é impossível escapar da seguinte pergunta: quais laços sociais são possíveis hoje? Já está problematizada, em nosso tempo, a questão do terceiro para fazer a mediação, a passagem de um ao outro, da qual nos falava Blanchot anteriormente. "É ao preço da aceitação de ser educado para a fala e para a língua que se estabelecerá a instância terceira, e que em retorno o sujeito poderá conseguir ser ele mesmo reconhecido por essa dita instância" (Blanchot, 2005, p. 142). Através da língua, da fala, da escrita, enquanto instâncias coletivas, poderemos perceber as coerções que nos determinam. Entretanto, se concebermos o laço social apenas como um conjunto de interesses individuais, privados, autônomos, como se cada sujeito valesse só por si mesmo, nos voltamos contra nossa própria condição de seres falantes/faltantes. O coletivo, que aqui denomino de laço social, apresenta dificuldades para encontrar seu lugar: de um ao outro, do singular ao coletivo, na condição de passagens, relações, para poder fundar um ato ético possível. Não é o homem, mas os homens que povoam nosso planeta. É a pluralidade e a alteridade. Só assim podemos falar de uma posição ética dos sujeitos no seu laço social.

Pergunto-me: será que Dufour tem razão quando diz que se inaugura, assim, "[...] um triste destino para esses novos alunos mal instalados na função simbólica: eles se encontram, de algum modo, privados de enigma. Ao não falarem mais segundo a autoridade da palavra, do laço social, eles também não podem mais escrever e não podem mais ler" (Dufour, 2005, p. 135).

Em outras palavras, se o aluno não pode ser mais aluno, "[...] por que seria preciso ainda professores e, com eles, alguma coisa a ensinar?" (Dufour, 2005, p. 136). Se for um sujeito subtraído de sua faculdade de julgar, falar, escrever que está sendo engendrado, temos, pois, um sujeito empurrado a gozar sem desejar. Tanto para Lacan como para Blanchot ou Barthes, para fazer tais coisas, é preciso desejar. Não há questão possível, enigma, sem esta possibilidade.

Pensando na cultura universitária e escolar, que sujeitos, através de suas diferentes experiências de escrita e de relações com o laço social, podem daí advir? As experiências de escrita podem constituir o elo entre subjetividade/intersubjetividade e laços sociais? Vejamos alguns encaminhamentos que a psicanálise pode nos indicar.

 

Alguns Aspectos sobre Escrita, Alteridade e Psicanálise: viagem-enigma

Para continuar a interlocução com os autores/atores anteriormente trabalhados, bem como para ampliar o escopo de nossas reflexões, vamos recorrer a algumas concepções psicanalíticas17, principalmente dos últimos escritos de Jacques Lacan. Para iniciar este diálogo, é necessário ressaltar, desde o início, que a escrita, para Lacan, não se restringe à produção de um texto. Também não é uma transcrição, mas um outro sistema. O interesse de Lacan diz respeito "[...] à indagação do que é que se produz, quando se faz literatura" (Costa; Rinaldi, 2007, p. 12) Assim,

O avanço maior nessa questão está colocado no Seminário O Sinthoma, onde o autor se indaga sobre a singularidade de uma escrita. Ele vai lidar com dois elementos: a análise da produção da obra de Joyce - autor que, para ele, foi além da literatura, numa tentativa de dissolver a própria linguagem - e a produção do nó borromeu. Lacan vai afirmar que o nó é algo que se escreve e, como escritura, sustenta o Real, já que não há outra idéia sensível do Real. Nesse sentido, a escritura não vem do significante, mas do Real. Na análise da produção joyceana ele vai dizer que a escrita suporta o ego de Joyce. Para Lacan, a produção literária joyceana é o enigma 'levado a potência de escritura', na medida que reescreve a própria língua (Costa; Rinaldi, 2007, p. 12).

Levando em consideração a citação acima, podemos dizer que há um elemento de criação na escrita joyceana, suporte/resultado de uma inscrição. Entretanto, não podemos confundir escrita com inscrição, sob o risco de cair em uma versão interpretacionista, buscando, assim, revelar o que o texto joyceano supostamente estaria velando. Para Leite, "[...] trata-se de distinguir a produção de um texto de sua forma de escritura" (2007, p. 301, grifos do autor). A elaboração de um texto é diferente da estrutura que o condiciona. A estrutura diz do inconsciente, enquanto o texto (tecido) escrito coloca o equivalente do inconsciente em suas dobras e desvios. Vale a pena citar Lacan, em relação a esta dobra/desvio:

[...] a crítica, assim como a literatura, encontrará ocasião de tropeçar na própria estrutura. É porque o inconsciente necessita a primazia de uma escritura que os críticos serão levados (deslizarão) a tratar a obra escrita como se trata o inconsciente. É impossível que a obra escrita não ofereça a todo instante de que interpretá-la, no sentido psicanalítico. Mas emprestar-se a isso, por pouco que seja, é supô-la o ato de um falsário, uma vez que enquanto está escrita ela não imita o efeito do inconsciente. Ela coloca dele o equivalente, não menos real, por forjá-lo na sua inflexão (Lacan, 1977, apud Leite, 2007, p. 304).

O que do escrito podemos saber são as dobras e desvios que o circunscrevem. Tal questão já foi assinalada anteriormente, neste texto, nas referências a Blachot e Barthes, quando eles acentuam a questão do desvio e da descontinuidade, inerente à escrita/escritura. Assim, podemos entender que a obra não imita a estrutura, incitando-nos a um desvelamento, mas "[...] ela é, enquanto ficção, estrutura verídica" (Lacan, 1982, apud Leite, 2007, p. 306). Então, se não está em questão a interpretação do inconsciente do sujeito que escreve, mas, sim, esse trabalho de texto "[...] que sai do ventre da aranha, a sua teia" (Lacan, 1982, p. 126), não podemos pensar que haja coalescência entre sujeito e escrita. Não se trata de depreender dos escritos um sentido e uma verdade, já que é nas entre-as-linhas que algo se diz, limite de todo o representável. Entretanto, tal escrito, para ser lido, e tentar dar conta da experiência e da alteridade, como registros organizados em uma série, em uma espécie de palimpsesto, exige que se deva decidir a ordenação que será dada aos fragmentos. Lacan, referindo-se à metáfora utilizada por Spinoza, para se referir ao texto, nos diz que

Se me fosse permitido dar-lhe uma imagem, eu a tomaria facilmente daquilo que, na natureza, mais parece aproximar-se dessa redução às dimensões de superfície que a escrita exige, e de que já se maravilhava Spinoza - esse trabalho de texto que sai do ventre da aranha, a sua teia. Função verdadeiramente milagrosa, ao se ver, da superfície mesma, surgindo de um ponto opaco desse ser estranho, desenhar-se o traço desses escritos, onde perceber os limites, os pontos de impasse, os becos sem-saída, que mostram o real acedendo ao simbólico (Lacan, 1982, p. 126).

Novamente, não se trata de extrair um sujeito-autor, a fórceps, de um texto escrito18, mas sim de assinalar os pontos de descontinuidade, desvios e impasses que o texto apresenta. Recorro à metáfora19 do desvio, de forma a assinalar, dentro deste contexto, como podemos continuar tentando seguir em viagem. Operar por desvios não é sem consequências e pode nos conduzir a impasses que talvez não possamos resolver neste momento. É um risco que corremos ao tratar o texto universitário e escolar, não somente como uma escrita científica, mas como experiência de escrita que comporta um sujeito, sua singularidade/criação e os laços sociais que o inscrevem em uma rede discursiva, em um discurso. Tratar a experiência da escrita não como uma transcrição, mas, sim, como um outro sistema, um desejo de escrita, o qual comporte a noção de inscrição de um ato de singularidade possível, cujo endereçamento - laço social - vise ao enodamento entre a experiência da escrita, a intersubjetividade e a alteridade do sujeito. Talvez isto seja possível, se levarmos a sério a fala de Gagnebin no início deste texto.

Escrever, para além de uma transcrição, leva-nos para fora de nós mesmos, sem nenhuma garantia que a objetividade poderia nos oferecer. É um remédio, mas também é um veneno. É uma viagem/enigma que deve continuar para uma abertura às coisas sem conceito e para as feridas da linguagem, esperando que algo se escreva. Assim, no sentido psicanalítico, diante do texto escrito, estamos do lado do enigma e nunca na posição de transcrição ou psicobiografia. A escrita, portanto, não é decalque ou impressão do significante, mas sim de seus efeitos na língua. Diferentemente da escrita visível, gráfica, a escrita sempre aparecerá no limite ou buraco do discurso. Mas, o que é um enigma? Lacan, lendo Joyce, afirma que um "[...] enigma é uma enunciação de tal ordem que não lhe encontramos o enunciado; há um dizer, mas o que é dito nos escapa" (Lacan, 2007, p. 137). Eu diria que é uma arte entre-as-linhas e não um jogo de ocultação-revelação do sentido. Mesmo porque não há uma enunciação pura, pois esta é o próprio Real20 e, como este não pode ser dito, nem escrito, o que nos resta é a distância entre enunciado e enunciação. Mas, através da distância, saímos dela, em uma orientação subjetiva do desejo.

A viagem-enigma da escrita pode ser comparada a labirintos escriturais, como o feitio de uma dobra. É um escrever sobre o escrever21, um reviramento sobre si mesmo, do próprio ato de escrever. Tal escrita convoca o leitor a participar, ativamente, na incessante construção do que está escrito, forma para o desencanto da presença entre sujeito-objeto, que permeia a noção de individualidade psicológica. Não é sempre que isto acontece; quando acontece, produz-se uma experiência e uma alteridade. E, nesse sentido, a criação de algo novo está sempre em causa, produto da articulação entre experiências de escrita, intersubjetividade e laço social. Finalmente, tal como nos referimos no início deste texto, a escrita é uma obra em viagem-enigma (é uma ruptura no processo semântico que produz enigmas), que precisa esperar o tempo de uma experiência possível; uma aposta, tal como diz Lacan na apresentação dos Escritos (1998), para que o sujeito possa colocar algo de si naquilo que escreve. Trata-se de saber errar como errante nesta viagem, de modo que se possa produzir o fracasso do conceito e da própria representação, e para que algo de singular surja na escrita de nossos alunos. É preciso, pois, suportar uma perda, já que escrever é ser desmembrado e, com isso, abrir espaço para eventos singulares, onde alguma coisa nova é performada como ato de escrita, desde que suportemos a estranheza da própria produção. Estranho e familiar, tramas e urdiduras que marcam a presença do outro/Outro em nós, e que a escrita convida a enfrentar, já que estes estão encravados no bojo mesmo de nossa constituição. Assim, bem antes de escrever, estamos escritos, pois toda palavra pressupõe uma experiência compartilhada que, para Lacan, é o que "[...] buscamos na história de uma palavra, no lugar onde ela se constitui, são efeitos para os quais muitas outras palavras contribuíram" (Lacan, 1998, p. 754).

Muitas palavras, muitas escritas se fundem a outras escritas e escritores, as quais nos põem a trabalhar, de modo que, tal como observado acima, a escrita nos permita colocar algo de nós nisso que se escreve. É na espera, justamente, que uma experiência de escrita se constitui em enodamento com o laço social, de modo que esse algo de si se inscreva e o sujeito possa se representar, mesmo que às custas de um descentramento subjetivo e de uma perda. O sujeito se faz e se desfaz nessa viagem-enigma, à procura de um estilo e de uma alteridade que diga do seu desejo e de sua posição subjetiva; isso se dá, mesmo que tal procura, por tratar-se da tessitura e da inscrição mesma do sujeito psíquico, seja sempre um relançar-se em direção a uma outra escrita, a um outro escrever e a uma outra inscrição, tal como nos aponta Gagnebin, quando nos fala em nos aventurarmos em terrenos incógnitos e não inscritos. Uma grafia da vida no encontro com o leitor, um outro sistema de escrita, que permita aos alunos inscreverem sua alteridade no encontro com o outro/Outro.

 

Notas

1 Pensador francês, preocupado com os rumos da literatura, segundo o qual ler e escrever desempenham, hoje, um papel muito novo e muito diferente do que tinham tempos atrás.

2 Tais experiências não serão aqui descritas, pois constituem o conjunto de uma pesquisa mais ampla. Trazemos, apenas, as reflexões produzidas a partir de tais experiências de escrita escolar e universitária (ver, a propósito, Schaffer, 2009).

3 Para Seligman-Silva "Vivemos um momento de profundas mudanças no design das disciplinas universitárias e nossa esperança é que discutindo o aporte desses pensadores possamos reencaminhar essas transformações em uma direção que permita uma relação mais direta entre o 'sistema acadêmico' e o mundo que lhe contém" (2005, p. 15).

4 Termo utilizado na obra de Georges Agamben (2005).

5 Em um certo sentido, a expropriação da experiência estava implícita no projeto fundamental da ciência moderna. "A experiência, se ocorre espontaneamente, chama-se acaso, se deliberadamente buscada recebe o nome de experimento" (Agamben, 2005, p. 25).

6 "A ideia de uma experiência separada do conhecimento tornou-se para nós tão estranha a ponto de esquecermos que, até o nascimento da ciência moderna, experiência e ciência possuíam cada uma seu lugar próprio. E não só: distintos eram também os sujeitos de que lançavam mão" (Agamben, 2005, p. 26).

7 A que coisa então se refere eu? "A algo assaz singular, que é exclusivamente linguístico: eu se refere ao ato de discurso individual no qual é pronunciado, e designa seu locutor. É um termo que não pode ser identificado senão em uma instância do discurso [...] A realidade à qual ele remete é uma realidade de discurso" (Agamben, 2005, p. 57).

8 Proust buscava a clarificação e a objetividade para a reconstrução poética através da recordação involuntária, precisamente o que Benjamim buscava alcançar e erigir em verdade através do conceito. Assim, o pensamento deve alcançar a densidade da experiência, sem, contudo, renunciar a seu rigor.

9 A autora está se referindo a um texto de Berliner Kindheit, 'A caixa de costura', onde "O menino só se reconcilia com o gesto feminino de costurar ao apropriar-se dele neste jogo de bordado no papel, dado às crianças como exercício preliminar à escrita [...]" (Gagnebin, 1999, p. 92).

10 Cabe observar que os conceitos de escrita e rastro não são sinônimos. "[...] rastros não são criados - como são outros signos culturais e lingüísticos - mas, sim deixados ou esquecidos" (Gagnebin, 2006, p. 113).

11 Ver os seguintes textos: "Experiência e pobreza" e "O narrador: Reflexões sobre a obra de Nicolai Leskov", em Benjamim (1985).

12 Sobre os conceitos de escrita/escritura, remeto o leitor à obra de Derrida (2004).

13 Existem, há dezenas de milhares de anos, inúmeros meios de transmitir mensagens através de desenhos, sinais, imagens. Entretanto, a escrita, propriamente dita, só começou a existir a partir do momento em que foi elaborado um conjunto organizado de signos e símbolos, por meio dos quais seus usuários pudessem materializar e fixar claramente tudo o que pensavam, sentiam ou sabiam expressar. Tal sistema não surge do dia para a noite, A história da escrita é longa, lenta e complexa (Jean, 2002, p. 12).

14 O Outro, o Ele, mas na medida em que a terceira pessoa não é uma terceira pessoa e coloca em jogo o neutro (Blanchot, 2001, p. 126).

15 Jamais atingiremos um estado em que o homem estivesse separado da linguagem, que elaboraria então para 'exprimir' o que nele se passasse: é a linguagem que ensina a definição do homem, não contrário (Barthes, 2004a, p. 15).

16 Em outros termos, o eu de quem escreve eu não é o mesmo que o eu lido por tu. Essa dissimetria fundamental da linguagem, esclarecida por Jespersen e Jakobson sob a noção de shifter ou de encavalamento da mensagem e do código, começa finalmente a preocupar a literatura, mostrando-lhe que a intersubjetividade, ou, talvez melhor dizendo, a interlocução, não se pode efetuar pelo simples efeito de um voto piedoso relativo aos méritos do 'diálogo', mas por uma descida profunda, paciente e muitas vezes desviada, no labirinto do sentido (Barthes, 2004a, p. 21).

17 Utilizamos a expressão "algumas concepções psicanalíticas", na medida em que não consideramos a psicanálise como um discurso totalizante sobre a educação.

18 Lacan, na Revista Opção Lacaniana, nos oferece uma pista, dizendo que a escrita não imita o efeito do inconsciente e a obra não imita nada. Com isso, não há possibilidade de fazer uma psicologia do autor ou uma psicanálise aplicada ao escritor ou à obra.

19 É importante despertar as metáforas para reconhecer que, na verdade, há uma estrutura comum aos dois campos, psíquico e escritural, que comporta a escrita psíquica, a escrita enquanto tal (visível), a aquisição da escrita, a escrita científica ou matemática e a escrita da história (a narrativa em geral). Esta estrutura comum seria a teoria psicanalítica do traço, da letra e da escrita que daria conta do funcionamento do inconsciente, da constituição do sujeito e das produções subjetivas e coletivas (Rego, 2006, p. 15).

20 Real e Letra são operadores conceituais que, neste texto, ficam para uma próxima viagem.

21 Sobre esse tema, vide Schaffer (2009).

 

Referências

AGAMBEN, Georges. Infância e História: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.         [ Links ]

BARTHES, Roland. O Rumor da Língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004a.         [ Links ]

BARTHES, Roland. O Grau Zero da Escrita. São Paulo: Martins Fontes, 2004b.         [ Links ]

BENJAMIM, Walter. Obras Escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1985.         [ Links ]

BLANCHOT, Maurice. A Conversa Infinita: a palavra plural. São Paulo: Escuta, 2001.         [ Links ]

BLANCHOT, Maurice. O Livro por Vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005.         [ Links ]

COSTA, Ana; RINALDI, Doris. Escrita e Psicanálise. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 2007.         [ Links ]

DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 2004.         [ Links ]

DUFOUR, Dany-Robert. A Arte de Reduzir as Cabeças. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005.         [ Links ]

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Sete Aulas sobre Linguagem, Memória e História. Rio de Janeiro: Imago, 1997.         [ Links ]

GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e Narração em Walter Benjamim. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1999.         [ Links ]

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar Escrever Esquecer. São Paulo: Ed. 34, 2006.         [ Links ]

JEAN, Georges. A Escrita Memória dos Homens. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.         [ Links ]

KEHL, Maria Rita. Tempo e Narrativas. In: COSTA, Ana; RINALDI, Doris (Org.). Escrita e Psicanálise. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 2007. P. 255-270.         [ Links ]

LEITE, Nina V. de Araújo. Escrita e Escritos. In: COSTA, Ana; RINALDI, Doris (Org.). Escrita e Psicanálise. Rio de Janeiro: Cia. De Freud, 2007. P. 302-306.         [ Links ]

LACAN, Jacques. O Seminário: livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1982.         [ Links ]

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.         [ Links ]

LACAN, Jacques. O Seminário: livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2007.         [ Links ]

REGO, Claudia de Moraes. Traço, Letra, Escrita: Freud, Derrida, Lacan. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.         [ Links ]

ROSA, Miriam Debieux. A Pesquisa Psicanalítica dos Fenômenos Sociais e Políticos: metodologia e fundamentação teórica. Revista Mal-Estar e Subjetividade, Fortaleza, v. 4, n. 2, p. 329-348, set. 2004.         [ Links ]

SCHAFFER, Margareth. Escrever sobre o Escrever. Psicologia e Sociedade, Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais, v. 21, Edição Especial, p. 105-111, 2009.         [ Links ]

SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Escrever. Porto Alegre: L&PM, 2008.         [ Links ]

SELIGMANN-SILVA, Márcio. O Local da Diferença: ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução. São Paulo: Ed. 34, 2005.         [ Links ]

 

 

Recebido em 04 de setembro de 2012
Aprovado em 10 de março de 2013

 

 

Margareth Schaffer é doutora em Educação e Professora Titular do Departamento de Estudos Básicos e do Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da UFRGS em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul. Coordena, pelo Cnpq, o grupo de pesquisa Educação, subjetividade e linguagem. Desenvolve, atualmente, pesquisa sobre Experiências de Escrita, subjetividade e laço social.
E-mail: margareth.schaffer@ufrgs.br

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons