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Educação & Realidade

versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.38 no.3 Porto Alegre jul./set. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2175-62362013000300001 

Editorial

 

 

Elisabeth Costello, personagem de mais de um dos romances de J. M. Coetzee, profere sua estranha palestra sobre os animais. Ela defende os animais a partir de um viés filosófico segundo o qual nós os comemos em função de uma ética que nos deveria ser estranha e não naturalizada.

Em A Vida dos Animais (2002), a personagem diz que é a razão, como algo parcial e não universal, que nos incita a comer os outros. Metafórica e, paradoxalmente, concreta, a ideia de uma razão visada nos seus limites, nas suas impossibilidades não deixa de ser um ponto fulcral da filosofia. Nas páginas de Coetzee a razão é apenas "[...] a essência de certo domínio do pensamento humano" (2002, p. 29), portanto, na defesa contundente de Costello, ela é limítrofe, temática que sempre foi um dos interesses centrais da Educação: poder problematizar a centralidade da própria condição humana.

Pensar, repensar, refletir, suspender as verdades naturalizadas, colocá-las à prova, eis alguns dos gestos filosóficos que a Educação procura movimentar. Os textos reunidos aqui, não deixam de Filosofar a Educação nessas múltiplas perspectivas, pensando os limites da razão no interior de problemas que se confundem com o próprio objeto da Educação, entre eles, o da formação.

Para além dela e, ainda assim, no interior e no redobrar de sua exterioridade, o tema da formação se estende e se multiplica em diferentes possibilidades de Filosofar a Educação. Com efeito, confundidos num só litígio reflexivo, os limites do que pode a razão se travestem do que pode a Educação.

Assim, Filosofar a Educação não é apenas pensar a formação, as formas de tornar-se sujeito, mas, ainda, e com grande potência, procurarmos mostrar os gestos, os movimentos para além da razão.

Trata-se, então, de textos que privilegiam distintas abordagens e perspectivas plurais em relação a pensar o pensamento.

Os primeiros dois textos aqui apresentados tomam como base o trabalho do filósofo francês Gilles Deleuze. O primeiro texto da seção temática intitula-se Filosofía de la Educación: un aprendizaje e é de autoria de Fernando Bárcena. Nesse trabalho, o autor espanhol explora um modo inovador de escrita filosófica, passeando por sua própria autobiografia para dela extrair elementos para pensar a Filosofia da Educação para além de suas dimensões ontológicas e hermenêuticas. Como se tronar presente no presente é a questão chave que serve de guia para o artigo cotejar entre o percurso do autor um modo poético de descobrimento, tomando-o como um tipo de romance de formação (Bildungsroman).

Numa perspectiva semelhante, ainda que com pontos bastante diversos, o segundo dos textos da seção, de Maria da Conceição Silva Soares, procura tramar três conceitos-chave para o campo, tomados pelo senso comum como díspares e, em muitos casos, opostos, quais sejam, filosofia, ciência e arte. Em Pesquisas com os Cotidianos: devir-filosofia e devir-arte na ciência, a autora cerca o conceito de devir deleuzeano para confrontá-lo à pesquisa com o cotidiano. Nesse confronto o trabalho mostra a fragilidade dos limites entre arte, ciência e filosofia e, sobretudo, as possibilidades de interpenetração.

La Representación en Herbart y en Freud y su Lugar en la Enseñaza vai por um caminho um pouco distinto dos dois primeiros trabalhos. Com um tom um tanto revisicional, Ana María Fernández Caraballo, pesquisadora uruguaia, enfrenta o conceito de representação, tão caro à Educação e o analisa no contexto da Filosofia e da Psicologia, especialmente a partir de Freud e Herbart. De um lado mostra a potência da noção de ensino na obra de Herbart e, por outro, o lugar das noções de saber e conhecimento em Freud.

Entre as Manobras da Mão e do Espírito: o assombro da formação humana é o artigo de autoria de Lúcia Schneider Hardt. Esse trabalho toma outros dois autores importantes para o pensamento filosófico no campo da Educação: Paul Valéry e Friedrich Nietzsche. Com imagens e metáforas de forte impacto, o texto discute questões como beleza, movimento, corpo para cercar sua questão central: a formação humana. A articulista problematiza o fazer em Educação a partir da ideia de manobra, como um modo de pensar diferente.

O quarto trabalho desta seção temática, Educação e as Novas Concepções de Realidade, Interação e Conhecimento, de Francisco Adaécio Dias Lopes e Luiz Carlos Jafelice, toma um dos autores do artigo anterior, Nietzsche, e o coloca na companhia de dois outros filósofos com os quais a Educação tem produzido muito na pesquisa: Michel Foucault e Martin Heidegger. Para uma crítica à modernidade e uma indicação de possíveis caminhos para uma prática educacional no contexto da pós-modernidade, os autores se valem dos conceitos de realidade, iteração e conhecimento, mostrando como os modelos modernos mantém posições absolutas para tais noções.

Para fechar a seção temática e manter sua absoluta diversidade de pontos de vista, apresentamos um último bloco que filosofa a Educação. Trata-se de dois textos que partem do trabalho do brasileiro Paulo Freire.

O primeiro, com efeito, o quinto da seção, chama-se Relações entre a Filosofia e a Educação de John Dewey e de Paulo Freire e é assinado por Darcísio Natal Muraro. O artigo trama os conceitos de Educação e Democracia se debruçando sobre os escritos de Freire e sua leitura do filósofo americano. As prerrogativas de Conscientizar, Humanizar e Libertar são postas à prova como operadores de uma Educação Libertadora. Assim, por fim o texto mostra como a noção de Democracia é tomada na obra Freire-deweyana como uma forma de vida.

Na esteira dessa perspectiva, o último texto da seção, Revisitando os Fundamentos da Educação para a Libertação: o legado de Paulo Freire, de Ronald David Glass, no qual o autor americano mostra as possibilidades de usos das ideias freireanas para a Educação, de forma ampla e genérica. Os fundamentos ontológicos, epistemológicos, éticos e políticos da obra de Paulo Freire são examinados cuidadosamente para a partir deles se alargar as possibilidades e leitura da obra em tela. Ao defender uma determinada ética, o ensaio problematiza noções correntes da teoria de Paulo Freire na Educação, tais como historicidade, práxis, conhecimento, libertação.

Todo esse corpo de trabalhos que filosofa a Educação, que a indaga sobre seus limites, que fricciona e tensiona a razão no interior do projeto educativo contemporâneo, não deixa de estar muito bem acompanhado com um segundo grupo de trabalhos igualmente instigantes.

O trabalho coletivo de Vilene Moehlecke, Tania Mara Galli Fonseca e Andréia Machado Oliveira, com o título de Corpos que (se) Trabalham: relações éticas na construção de si e do coletivo, abre esse segundo bloco, a já tradicional seção Outros Temas que, como de hábito, coloca em conjunto diferentes textos, resultados das mais variadas pesquisas, seja em relação à proveniência institucional de seus autores, seja em relação às temáticas visadas e suas respectivas abordagens teórico-metodológicas.

Esse texto, uma vez mais nesse número, se apoia no pensamento de Gilles Deleuze (e nesse caso também em Spinoza e Schwartz) ao propor pensar as relações de trabalho na perspectiva do corpo. Entrementes, as autoras mostram como o que intitulam de práticas majoritárias podem reduzir as potências de ação e as possibilidades de fabricações de ações singulares.

O segundo texto de Outros Temas, de Quéfren Weld Cardozo Nogueira, toma o esporte para propor a ideia de formação. Segundo Esporte e a Experiência de Jogo como Formação, o desafio educativo está centrado nas possibilidades de articulação, no interior mesmo da atividade de jogo, conhecimentos, relações sociais e modos de comunicação.

O Jovem Milton: a individuação entre a igreja e a educação social é um artigo com um tom bastante original em relação à produção habitual da área, pois nele Geraldo Leão e Paulo César Rodrigues Carrano problematizam a transição entre a juventude e a idade adulta e o fazem mostrando percursos biográficos de jovens participantes de um projeto social.

Essa abordagem é bastante diferente daquela apresentada no quarto artigo da seção: Limites e Possibilidades da Racionalidade Pedagógica no Ensino Superior, escrito por Francisco Kennedy Silva dos Santos. O trabalho investigativo mapeia as racionalidades e os saberes docentes no Ensino Superior, evidenciando como convivem ainda entre nós modos de Educação pautados na noção de transmissão e conteúdos.

Ana Maria Orofino Teles e Teresa Cristina Siqueira Cerqueira nos oferecem o texto A Pedagogia do Si Mesmo: debate sobre a emergência do sujeito que aprende. Uma integração de aspectos distintos, no âmago da subjetividade humana, é exposta como possibilidade pedagógica. Aqui, são apresentados dados de uma pesquisa a partir de um curso online na área da saúde e discutem-se elementos para a compreensão do aprendiz como sujeito.

O texto seguinte segue mostrando a diversidade das abordagens da pesquisa em Educação no Brasil. Trata-se de Políticas Educativas e a Gestão dos Modos de Viver nas Cidades, artigo escrito por Rodrigo Manoel Dias da Silva, Chaiane Paula Busnello e Fabíola Pezenatto, no qual os autores exploram aspectos históricos da relações entre políticas educacionais e gestão dos modos de vida em reformas urbanas. O texto analisa projetos políticos para a educação e suas relações com os respectivos projetos políticos que lhe dão sustentação, enfatizando as questões aí desdobradas para a gestão dos processos formativos.

Função do Diretor na Escola Pública Paulista: mudanças e permanências é o penúltimo texto desta seção Outros Temas. Nele, analisa-se a função do diretor em diferentes perspectivas. As autoras Maria Eliza Nogueira Oliveira, Graziela Zambão Abdian e Graziela de Jesus se debruçam sobre entrevistas com a comunidade escolar para extrair delas as contradições e na percepção sobre a gestão escolar.

Simone Torres Evangelista e Igor Vinicius Lima Valentim assinam o último texto dessa coletânea diversa e, ao mesmo tempo, plural. Seu texto, Remuneração Variável de Professores: controle, culpa e subjetivação, se apoia na questão da remuneração variável e como essa modalidade de retribuição financeira pode constituir subjetividades especificas, formas de controle e culpabilização.

Terminada a seção Outros Temas, com muita satisfação, incluímos o relato Ernani Maria Fiori: un profesor brasilero en tierras chilenas – testimonios, dos professores chilenos Carlos Eugenio Beca e Cecilia Richards e do professor brasileiro Lucídio Bianchetti. Escrito em espanhol e com estilo livre, esse texto relata os anos de exílio do filósofo brasileiro Ernani Maria Fiori no Chile, dando visibilidade para a potência de seu trabalho, durante o período em que esteve compulsoriamente afastado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Enfim, mais uma vez, nossa revista oferece textos de qualidade e nossos esforços de avaliação, edição e revisão de textos, reconhecidos pela CAPES, que atribuiu conceito A1 à Educação & Realidade, e pensados a partir de uma linha editorial clara e em constante movimento, se veem recompensados em função do rigor de pesquisas e ensaios aqui publicados.

Luís Armando Gandin – Editor-Chefe
Gilberto Icle – Editor Associado
Nalú Farenzena – Editora Associada

 

Referência

COETZEE, John Maxwell. A Vida dos Animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.         [ Links ]

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