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Educação & Realidade

versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.38 no.4 Porto Alegre out./dez. 2013

https://doi.org/10.1590/S2175-62362013000400007 

SEÇÃO TEMÁTICA:
LITERATURA INFANTIL E DIFERENÇAS

 

A literatura angolana para infância

 

The children's literature of Angola

 

 

Eliane Santana Dias Debus

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis/SC - Brasil

 

 


RESUMO

Este artigo visa refletir sobre a inserção das literaturas africanas de língua portuguesa para a infância, produzidas no mercado editorial brasileiro. Para tal, tomamos como leitura os títulos de três escritores angolanos: José Eduardo Agualusa, O Filho do Vento (2006) e Nweti e o Mar: exercícios para sonhar sereias (2012); Ondjaki, Ynari - a menina das cinco tranças (2010) e O Leão e o Coelho Saltitão (2009) e Zetho Cunha Gonçalves, Debaixo do Arco-Íris não Passa Ninguém (2006) e A Vassoura do Ar Encantado (2012). Buscamos destacar nestes textos as características comuns de sua estrutura (tema, enredo, personagens, aspectos linguísticos etc.), bem como o interesse pela escrita de uma literatura de recepção infantil e juvenil.

Palavras-chave: Literatura Infantil. Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Mercado Editorial


ABSTRACT

The present article reflects on the insertion of childhood African literatures in Portuguese produced by the Brazilian publishing market, drawin gupon thereadings of three Angolan writers: José Eduardo Agualusa, O Filho do Vento (2006) and Nweti e o Mar: exercícios para sonhar sereias (2012); Ondjaki, Ynari - a menina das cinco tranças (2010) and O Leão e o Coelho Saltitão (2009) and Zetho Cunha Gonçalves, Debaixo do Arco-Íris não Passa Ninguém (2006) and A Vassoura do Ar Encantado (2012). In the paper, common structure features are highlighted, such as theme, plot, characters, and linguistic aspects, as well as the interest in the writing of a childhood and young-adult literature.

Keywords: Childhood Literature. African Literature in Portuguese. Publishing Market


 

 

A Lei 10.639/2003 e as Demandas para o Mercado Editorial

Precisa, o Brasil, país multiétnico e pluricultural, de organizações escolares em que todos se vejam incluídos, em que lhes seja garantido o direito de aprender e de ampliar conhecimentos, sem serem obrigados a negar a si mesmos, ao grupo étnico/racial a que pertencem e a adotar costumes, ideias e comportamentos que lhes são adversos (Brasil, 2004, p.18).

A criação no Brasil da Lei Federal 10.639/2003 que tornou obrigatório o ensino de História e cultura afro-brasileira na educação básica e a instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (2004) fomentaram a inserção da temática nas redes escolares públicas e privadas, embora a sua implementação e institucionalização não tenham se dado ainda de forma efetiva. As políticas de reparações a partir das ações afirmativas são necessárias em nossa sociedade, porém a inclusão da temática africana e afro-brasileira no currículo escolar não visa contemplar somente a população negra; como focalizam as Diretrizes, o tema se refere ao conjunto dos brasileiros, pois esses "[...] devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no seio de uma sociedade multicultural e pluri-étnica, capazes de construir uma nação democrática" (Brasil, 2004, p. 17).

Não somos uma sociedade homogênea, embora as marcas das diferenças, muitas vezes, tenham sido apagadas em nome de uma política de branqueamento que, de certo modo, contribuiu para a construção de uma imagem idílica de sociedade não racista, isto é, o mito da democracia racial. Nos embates étnico-raciais vividos por crianças, jovens e adultos negros, por certo o do espaço escolar (educação básica e ensino superior) é o mais visível, como comprovam já algumas pesquisas. Desse modo, a escola é um dos lugares privilegiados para a discussão, sendo "[...] necessária a promoção do respeito mútuo, o respeito ao outro, o reconhecimento das diferenças, a possibilidade de se falar sobre as diferenças sem medo, receio ou preconceito" (Cavalheiro, 2006, p. 23).

As Diretrizes propõem uma visada interdisciplinar no que diz respeito ao trabalho da história e cultura africana e afro-brasileira, focalizando as disciplinas de Artes, Literatura e História como campos profícuos para a sua inserção. Desse modo, o mercado editorial que, anteriormente (a partir de 1998), quando da divulgação dos Temas Transversais, já havia se adaptado à demanda da Pluralidade Cultural, se adapta ao novo filão: livros literários que tragam a discussão das relações étnico-raciais - aqui, no caso específico, em relação ao negro.

Por certo, na história da literatura brasileira, bem como na literatura de recepção infantil e juvenil, o negro foi pouco representado e, quando o foi, se concretizou ou pela subalternidade como escravizado e obediente aos desmandos do branco, ou numa visão ingênua de relações pós-escravidão. Em pesquisas nos catálogos editoriais brasileiros que mapeiam a produção literária de temática africana e afro-brasileira para crianças e jovens, embora constatada uma discrepância entre a representação de personagens negros e brancos (Oliveira, 2009), comprovou-se que, após a promulgação da Lei citada e das Diretrizes, houve uma ampliação dessa produção literária para crianças no mercado editorial brasileiro (Debus; Vasques, 2009).

A importância do texto literário na formação do leitor, por certo, se deve à sua feitura, a qual, por meio da linguagem, carrega consigo uma força humanizadora, considerando que, como observa Candido, tais textos "[...] satisfazem necessidades básicas do ser humano, sobretudo através dessa incorporação, que enriquece a nossa percepção e a nossa visão do mundo" (Candido, 1995, p. 240).

Explicitando o seu entendimento de humanização, Antonio Candido afirma:

Entendo aqui por humanização (já que tenho falado tanto nela) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor (Candido, 1995, p. 249).

A palavra ficcional arrebata o leitor para um tempo e espaço que são diversos dos seus, (re)apresentando mundos e personagens que provocam a identificação, ou não, bem como o alargamento do seu horizonte de expectativas. Desse modo, ele experiencia um viver distante do seu, ao mesmo tempo tão próximo, e, ao voltar desse encontro ficcional, já não é o mesmo; ele é capaz de reconfigurar o seu viver.

Se ler o outro e sobre o outro tem importância fundamental na formação leitora do indivíduo, o contato com textos literários que focalizam personagens em diferentes contextos, ou a existência de escritores oriundos de diferentes contextos permitem uma visão ampliada de mundo. Assim, conhecer as literaturas africanas de língua portuguesa, em particular a angolana, possibilita uma relação salutar com outras culturas. Como destaca Amâncio (2008, p. 47), "[...] pensar as literaturas de matrizes africanas pressupõe adentrar não só o universo da tradição oral, mas também o da littera africana". Nesse sentido, buscamos, neste artigo, refletir sobre a inserção das literaturas africanas de língua portuguesa para a infância produzida no mercado editorial brasileiro. Para tal, tomamos como leitura os títulos de três escritores angolanos: José Eduardo Agualusa, O Filho do Vento (2006) e Nweti e o Mar: exercícios para sonhar sereias (2012); Ondjaki, Ynari - a menina das cinco tranças (2010) e O Leão e o Coelho Saltitão (2009) e Zetho Cunha Gonçalves, Debaixo do Arco-Íris não Passa Ninguém (2006) e A Vassoura do Ar Encantado (2012). Buscamos destacar nestes textos as características comuns da estrutura de cada um deles (tema, enredo, personagens, aspectos linguísticos etc.), bem como o interesse desses escritores pela produção de uma literatura de recepção infantil e juvenil.

 

Lendo sobre as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa para a Infância

Trabalhos teóricos e didáticos, publicados em livros impressos ou em formato digital, circulam e se tornam referências importantes para a pesquisa e consulta do professor, estudantes e leitores em geral que se interessam pela temática da cultura africana e afro-brasileira. Ao acessar a página do Ministério da Educação, por exemplo, encontramos vários documentos de referências e livros digitalizados; o mesmo se pode dizer do aumento de pesquisas nas Universidades Públicas, Comunitárias e Privadas. O avanço das pesquisas fica constatado, na área da Educação, por exemplo, na criação do GT 21 - Educação e Relações Étnico-Raciais - na Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação (ANPED).

No que diz respeito ao diálogo com a produção literária de recepção infantil e juvenil, crescem também as publicações nessa esfera, em particular tratando da temática afro-brasileira ou dos recontos africanos por escritores brasileiros, muito embora poucos trabalhos tenham evidenciado as publicações de autores africanos. Nossa pretensão, neste texto, é trazer à cena a produção de autores africanos para a infância, porém, para não silenciar alguns trabalhos já realizados e para não dar a entender que tudo ainda está por fazer nesse campo, traçaremos um breve levantamento de publicações em livro sobre o assunto.

O livro Ensaios sobre Literatura Infantil de Angola e Moçambique: entre fábulas e alegorias (2007), organizado por Carmen Lúcia Tindó Secco, professora e pesquisadora das literaturas africanas de língua portuguesa, registra o resultado dos textos produzidos por acadêmicos do Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2006. Os dez artigos que compõem o livro versam, como o título evidencia, sobre a produção literária de autores angolanos (O cubo amarelo, de Gabriela Antunes; Sunguilando: contos tradicionais angolanos, Óscar Ribas; As Aventuras de Ngunga, de Pepetela; A Montanha do Sol, de Maria Eugénia Neto; O Menino de Olhos de Bimba, de Jorge Macedo; Ynari: a menina das cinco tranças, de Ondjaki; Quitubo, de Dario de Melo; A Árvore dos Gingongos, de Maria Celestina Fernandes) e O Gato e o Escuro e O Beijo da Palavrinha, de Mia Couto. Alguns dos títulos estudados já se encontram publicados no Brasil hoje, mas em sua grande maioria eles estão restritos ao continente africano, dificultando assim o acesso aos livros e às suas leituras.

Articulados teoricamente, os artigos desenvolvem análises dos elementos estruturais que compõem as narrativas literárias em jogo, como narrador, ação, personagem, espaço e tempo, sem, contudo, perder o contexto de produção e de circulação. Ou seja, refletem a produção de escritores do continente africano - Angola e Moçambique: escritores cidadãos de países libertos de um longo período de colonização (novembro de 1975) e, ao mesmo tempo, enredados em outro longo período de guerras civis, que se encerram em fevereiro de 2002, e que trazem para os leitores, de forma ficcionalizada, a dura realidade enfrentada nesses períodos. Segundo Secco (2007, p. 9-10),

O colonialismo, as lutas pela Independência, os problemas internos oriundos das guerras civis provocaram sérias modificações na arte de narrar. Com a liberdade conquistada, tornou-se importante ensinar crianças e jovens a colocarem dentro de seus universos imaginativos o real das lutas guerrilheiras. [...] A euforia pós-independência, as críticas à colonização portuguesa são temas que aparecem recorrentemente nesta literatura infanto-juvenil, publicada em grande parte depois de 1975.

Contudo, sem dúvida alguma, só a partir das décadas de 1980, 1990 e 2000, principalmente com a paz, é que uma nova literatura infanto-juvenil começou a surgir e ser editada em Angola e também Moçambique.

O livro didático-pedagógico África para Crianças: história e culturas africanas na Educação infantil, produzido por Íris Amâncio, pela Nandyala, em 2007, é composto de dois volumes e tem como público alvo a criança de 0 a 6 anos. As atividades de colorir, numerar, ligar, completar e outros jogos pedagógicos buscam trazer e ampliar, de forma lúdica e simples, os conhecimentos do leitor sobre o continente africano. Na última página dos dois volumes, se encontram fragmentos de textos do escritor angolano Ondjaki. Embora tenha o ponto positivo de divulgar uma escrita africana inédita no Brasil, naquele período, infelizmente, não são citadas as fontes de onde foram retirados os referidos fragmentos (no volume 1, temos a parte inicial do livro Ynari: a menina das cinco tranças, e no volume 2, poemas do livro Há Prendizajes com o Xão, ambos hoje publicados por editora brasileira).

O problema da fragmentação pode ser constatado com uma breve espiadela em sites e blogs na internet, onde os referidos textos são reproduzidos de forma recortada, tal como divulgado no material impresso. Exemplo disso pode ser constatado no Conto africano: contos e diversidade disponível na página virtual Linguagens da Infância1.

Organizado por Íris Amâncio, Nilma Lino Gomes e Miriam Lúcia dos S. Jorge, o livro Literaturas Africanas e Afro-Brasileira na Prática Pedagógica reúne quatro artigos das três organizadoras, e, em particular, a produção elaborada junto ao curso de formação realizado com professores da Rede Pública de Belo Horizonte, no ano de 2008, desdobramento do projeto Novos Percursos e Novos Horizontes de Formação: a continuidade das ações afirmativas para universitários negros da UFMG, desenvolvido pelas pesquisadoras, como contribuição para Educação das relações étnico-raciais a partir da formação continuada de professores da Educação Básica.

Os terceiro, quarto e quinto capítulos nos interessam especificamente, pois neles a literatura é discutida como "[...] ferramenta para a efetivação da Lei 10.639/03" (Amâncio; Gomes; Jorge, 2008, p. 47) bem como são descritas as atividades pedagógicas propostas pelas cursistas durante o curso de aperfeiçoamento como o livro literário. No terceiro capítulo, Amâncio descreve um pouco das literaturas dos cinco países de língua portuguesa do continente africano (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe), contextualizando geográfica e politicamente os países e apresentando poemas, em particular aqueles circunscritos ao período da luta pela libertação nacional. Em contraponto, traz os poemas de escritores negros brasileiros e um texto em prosa (literatura afro-brasileira) na tentativa de verificar aproximações (diálogos) entre essa escrita e a africana. No quarto capítulo são listados os dezenove trabalhos elaborados durante a formação, onde se percebe o uso contínuo de poemas e pouco texto em prosa, multiplicando o que foi trabalhado no curso, pois, como já destacado, o poema foi o gênero literário mais recorrente. No quinto capítulo são inseridos fragmentos de textos em prosa de autores africanos e afro-brasileiros.

O livro tem seu mérito, mas constata-se uma fragilidade na reflexão sobre a escrita afro-brasileira, bem como na inserção dos fragmentos dos textos em prosa e dos poemas, como se fossem uma coletânea. Curioso também é que a maioria dos textos se dirige a um leitor que transita com facilidade pela arte de ler, sendo indicados pouquíssimos textos para os pequenos leitores.

O Programa Institucional de Literatura Infantil e Juvenil (Prolij), desenvolvido na Universidade da Região de Joinville (Univille) e coordenado pela professora Sueli Cagneti, publicou, em 2012, um segundo volume de livro de resenhas, agora com a temática africana e afro-brasileira. Seguindo o critério de faixa etária (não longe do que indica o mercado editorial), os títulos resenhados para crianças e jovens estão divididos em três categorias: infantil (12 títulos), infanto-juvenil (15 títulos) e juvenil (14 títulos), sendo, do total, cinco títulos de autores africanos, embora os resenhistas não marquem, em alguns casos, a nacionalidade dos escritores, não permitindo ao leitor saber a origem da escrita.

O livro traz, ainda, duas outras seções de resenhas: 1) teórica (9 títulos) e 2) informativa e biográfica (12 títulos). A primeira abrange obras de cunho teórico e objetiva a reflexão do professor, em particular, sobre a temática étnico-racial, em diversos aspectos; e a segunda remete a livros infantis que, por seu teor didático e informativo, escapolem da categoria literária. Sem sombra de dúvidas, o livro é uma valiosa contribuição para aqueles que buscam informações sobre títulos que tematizam a cultura africana e afro-brasileira, no entanto, seria interessante indicar a nacionalidade dos escritores, já que essa informação, embora à primeira vista irrelevante, pode levar o leitor a uma reflexão sobre as marcas da escrita, se houver, desses escritores.

Em Navegar pelas Letras: as literaturas de Língua Portuguesa (2012), as autoras Edna Bueno, Lucília Soares e Ninfa Parreiras desenvolvem um panorama das literaturas de língua portuguesa produzidas nos nove países da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP): Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Embora o foco das estudiosas não seja a produção para crianças e jovens, alguns contos de escritores foram publicados em livro para jovens. Essa é, sem dúvida, leitura obrigatória para iniciar os conhecimentos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa.

Já o livro Da África e sobre a África: textos de Lá e de cá (2012), organizado por Emília Machado [et al] é dirigido aos professores do Ensino Fundamental I e II (que corresponde aos 9 anos de ensino) e tem como foco o mapeamento da produção de escritores africanos e de escritores brasileiros que tematizam o continente africano. No terceiro capítulo do livro, E aportaram da África, um levantamento preciso de escritas africanas de língua portuguesa publicadas no Brasil confirma a nossa hipótese de aumento das publicações dos livros literários após a Lei 10.639 e a publicação das Diretrizes citadas.

Não cabe aqui fazermos uma análise de todos os títulos, mas, por certo, contribui com o trabalho do educador a seguinte lista de publicações: O chamado de Sosu (2005), de MeshackAsare; Histórias de Ananse, de AdwoBadoe; Cadê você, Jamela? (2006), Feliz aniversário, Jamela! (2009) e O que tem na panela, Jamela? (2006), de Niki Daly; As Tranças de Bintou (2009), de Sylviane A. Diouf; Grande assim (2010), de MhloboJadesweni; Histórias da África (2007), de GcinaMhlophe; A Casa da Beleza e Outros Contos (2006) e Contos da Lua e da Beleza Perdida (2008), de Sunny; O Beijo da Palavrinha (2006) e O Gato e o Escuro (2008), de Mia Couto; Quem me dera ser Onda (2007), de Manuel Rui; A Árvore dos Gingongos (2009), de Maria Celestina Fernandes; Kaxinjengele e o Poder: uma fábula angolana (2012), de José Luandino Vieira.

Desse grupo de escritores, nos deteremos, com já destacado anteriormente, nas produções de José Eduardo Agualusa, Ondjaki e Zetho Cunha Gonçalves. A escolha pela produção desses escritores se deve a vários fatores, entre os quais o de que os três pertencem ao mesmo país (Angola), os três têm publicação no Brasil posterior à Lei 10.639/2003, e os três tiveram livros publicados neste ano de 2012. Interessa-nos analisar se existem características comuns entre as suas produções (tema, enredo, personagens, aspectos linguísticos etc.), bem como o interesse pela literatura de recepção infantil e juvenil.

 

Sobre o Travesseiro, uma Infância que Sonha e é Sonhada

O espaço sagrado da infância [...]. A infância dos remotos costumes ainda preservados: [...] as lendas que as avós contavam, sempre habitadas por bichos falantes e por estranhos seres prodigiosos (Agualusa, 2003, p. 55).

O depoimento de Agualusa sobre a infância como um espaço resguardado pelas tradições orais - as suas narrativas feéricas, povoadas de seres imaginosos/imaginantes/imaginários, se faz presente em seus títulos para infância, ainda pouco estudados no Brasil.

José Eduardo Agualusa nasceu em 1960, na cidade do Huambo, planalto central de Angola. Fez seus estudos universitários em Lisboa, Portugal, formando-se em Silvicultura e Agronomia. De ascendência portuguesa e brasileira, circulou por terras brasileiras desde sempre, a partir do contato com seus familiares. Sua produção literária teve início em 1989 com o romance Conjura, e a partir daí escreveu vários livros em diferentes gêneros (poesia, conto, crônica, novela, dramaturgia), traduzidos para vários idiomas.

No Brasil, Agualusa viveu nas cidades de Recife (1998) e Rio de Janeiro (1999; 2000), e os laços se estreitaram ainda mais com essa terra quando, em 2006, juntamente com Conceição Lopes e Fatima Otero, fundou a editora brasileira Língua Geral, com objetivo de publicar autores de língua portuguesa, exclusivamente. No Brasil, tem, até o momento, 8 títulos publicados: Nação Crioula, O Ano em que Zumbi tomou o Rio, O Vendedor de Passados, As Mulheres de meu Pai, Estação das Chuvas, Barroco Tropical, O Filho do Vento, e Nweti e o Mar: exercícios para sonhar sereias, sendo os dois últimos para a infância, sobre os quais vamos nos debruçar.

Embora nos detenhamos nos dois títulos publicados no Brasil, vale lembrar que o escritor tem mais dois títulos para infância: Estranhões&Bizarrocos: estórias para adormecer anjos (2000), livro de estreia para a infância, e A Girafa que Comia Estrelas (2005), ambos publicados pela editora Dom Quixote (Lisboa). Sobre esses títulos vale a leitura dos artigos e recensões realizadas pelas estudiosas portuguesas Sara Reis da Silva (2005) e Ana Margarida Ramos (2007).

O livro O Filho do Vento (2006) é, segundo Agualusa, um reconto da tradição dos Koi-san, chamados pelos forasteiros de bosquímanos. No Brasil, a mesma narrativa foi recontada por Rogério Andrade Barbosa. As ilustrações que dialogam com a narrativa foram produzidas pelo artista plástico angolano António Ole.

A escolha pela estrutura narrativa da lenda, que tem traços marcadamente orais, já que sua transmissão e multiplicação se efetiva pela troca entre aquele que narra e aquele que se entrega à escuta, aproxima O Filho do Vento da arte ancestral dos povos africanos de narrar histórias, enquanto Agualusa, ao trazer para o escrito a oralidade, se aproxima da figura do Griot, o contador de histórias.

A narrativa, construída de forma sensível, embora possa parecer, num primeiro momento, que traz somente a lenda da criação do vento, resulta em outras três mais: a criação das estrelas, a criação da lua e a criação do amor.

Kuan-Kuan, o filho do vento, de homem a vento, se torna pássaro e, nessa metamorfose, descobre o amor: "Kuan-Kuan abriu as asas e abraçou a mulher. No mesmo instante um grande golpe de vento varreu a Savana. Nessa noite os primeiros homens viram surgir no céu o rosto iluminado da lua - era a namorada de Kuan-Kuan, dormindo feliz entre as estrelas" (Agualusa, 2006, s. p). Em Nweti e o Mar: exercícios para sonhar sereia, Agualusa apresenta uma menina sereia, uma menina que sonha com sereias, uma menina sonhada por uma sereia, três possibilidades que se despregam das páginas. A protagonista é Nweti, menina de seis anos de idade, que tem um travesseiro que cheira a mar e carrega consigo sonhos de golfinhos saltitantes e a amizade onírica do caranguejo Eustáquio. No sonho, ela é sereia.

Na relação entre o mundo real e o onírico, a menina dialoga com o pai, que alimenta esse enredamento: "Eu gostava de viver dentro dos teus sonhos. Não podendo viver dentro dos teus sonhos, gostava de ter uma varanda com vista para os teus sonhos" (Agualusa, 2012, s. p.).

Nas férias, numa praia muito longe da Cidade, pelas mãos de uma sonhada sereia, a menina, que tem lua no significado do nome, encontra Eustáquio, o caranguejo tantas vezes sonhado. A surpresa da personagem-menina e a descrença na possibilidade concreta da existência dos amigos têm a resposta " - Se existimos nos teus sonhos, então existimos realmente. Existimos enquanto tu dormes. Aliás, tudo que existe nos sonhos existe em algum lugar" (Agualusa, 2012, s. p.).

A imaginação prodigiosa de Nweti, observada pelo olhar atento da mãe, entra em debate quando esta encontra a filha com um grupo de crianças e indaga por onde ela andou. A menina, apontando a praia, afirma que o mar está cheio de amigos seus. A voz maternal indaga " - O mar está cheio de amigos teus?! Ás vezes penso que sofres de um excesso de imaginação" (Agualusa, 2012, s. p.).

As imagens que compõem o livro são fotografias confeccionadas pelo olhar sensível de Agualusa, como a casinha com suas aberturas alaranjadas vistas ao longe, pelo retrovisor do carro. Registros de umas férias sonhadas?

Os dois livros de Agualusa seguem caminhos de escrituras diversas. O primeiro dialoga com a tradição oral por meio do reconto; o segundo apresenta uma personagem contemporânea e sua imaginação prodigiosa.

 

O Segredo das Palavras

"Vos agradeço, vos abraço: em criança como agora, eu andava em busca das vossas histórias para fingir e acreditar que os livros sempre inventam essa fogueira de sermos meninos à volta dela" (Ondjaki, 2012, s .p.).

As palavras de agradecimento de Ondjaki, na abertura de seu livro A Bicicleta que tinha Bigodes (2012), são direcionadas a Manuel Rui, escritor angolano, e seu livro de recepção infantil Quem me dera ser onda (1982), e a Luís Bernardo Honwana, moçambicano, e seu livro de contos Nós matamos o Cão-Tinhoso (1964). Livros que, impregnados de encantamento, o levavam para o mundo das narrativas ancestrais que emergem ao pé das fogueiras.

Batizado Ndalu de Almeida, o jovem escritor angolano, nascido em 1977, em Luanda, adotou o pseudônimo de Ondjaki, como é conhecido em seu país e nos demais lugares por onde sua obra circula. Fez seus estudos universitários em Lisboa, formando-se em Sociologia, em 2002. Iniciou sua carreira literária com o livro de poesia Actu Sanguíneo, 2000, e dali para cá já foram vários os títulos publicados em diferentes gêneros (poesia, conto, romance, novela, dramaturgia e documentário para cinema).

Ondjaki reside no Brasil desde 2004 e aqui tem os seguintes títulos publicados: Bom Dia Camaradas, Os da minha Rua, Avó Dezanove e o Segredo do Soviético; a peça teatral Os Vivos, o Morto e o Peixe-frito, Há Prendisajens com o Xão: o segredo húmido da lesma & outras descoisas. Para a infância, o escritor tem quatro títulos: Ynari: a menina das cinco tranças, O Leão e o Coelho Saltitão, O Voo do Golfinho e A Bicicleta que tinha Bigodes. E é nos doisprimeiros títulos que nos deteremos.

O livro Ynari: a menina das cinco tranças (2010), publicado em Angola em 2002, ano em que a guerra civil finda, é um canto de amizade e paz; uma paz conquistada pela destruição da guerra. A narrativa tem início com o encontro da menina-personagem, que tem cinco tranças que não se desfazem, com um homem muito pequenino que guarda o mistério da força que as palavras carregam e ele a ensina a brincar com elas. As palavras pequeno, medo e admiração são deslindadas já no primeiro encontro. No segundo encontro, a menina e o "homem menos pequenino" (Ondjaki, 2010, p. 22) deparam-se, no cimo da montanha, do outro lado do rio, com dois grupos guerreando entre si. Depois de alguns tiros e fugindo em direção à menina e ao homenzinho, um grupo adormece e, magicamente, o homenzinho transforma as armas assassinas em armas de barro, e, logo a seguir, leva a menina para conhecer a sua aldeia.

Na aldeia, como que na terra dos liliputianos, a menina conhece um velho muito velho que inventa palavras e uma velha muito velha que destrói palavras, e com eles a menina aprende os segredos das palavras útil e inútil. Resolve, então, descobrir o seu poder levando a palavra permuta; em sonho a menina o descobre e percorre, junto com o homem pequeno, cinco aldeias.

Cada uma das cinco aldeias tem um problema que a faz guerrear com a aldeia vizinha; a carência de uma habilidade e a inveja as coloca como inimigas, porém a menina das cinco tranças e de voz mansa lhes ensina sobre o desconhecido: elas recebem dela palavras mágicas que completam suas ausências e as fazem transbordar de saberes. Cinco aldeias, cinco palavras findam a guerra: ouvir, falar, ver, cheirar e sabor. Os cinco sentidos se completam: os surdos começam a ouvir, os mudos começam a falar, os cegos começam a enxergar, os sem olfato começam a cheirar e os sem paladar sentem o sabor.

O ritual da sapiência que leva à paz é concretizado por meio de uma festa, do fogo, e de uma cabaça enorme. Por uma a uma, em cada aldeia, Ynari deixa suas tranças:

Ynari pediu que todos os habitantes da aldeia fizessem uma fila, trouxessem do rio um bocadinho de água na mão, e puseram essa água na cabaça, quando Ynari disse algumas palavras, e depois ouviu-se a palavra ´permuta´ . Com a catana do mais velho ela cortou uma trança e deitou-a na enorme cabaça (Ondjaki, 2010, p. 30).

Despedida, encontro e saudade são as palavras seladas entre a menina, agora sem tranças, e o homem que lhe ensinou o segredo das palavras e com elas destruiu a guerra e construiu a paz.

Como vem em destaque no paratexto do livro O Leão e o Coelho Saltitão (2009), Ondjaki reconta uma fábula baseada no relato do escritor David YavaMwau, publicada no livro Viximo, contos da oratura Luvale, de José Samuila Cacueji. A fábula tem sempre a função de ensinar, aconselhar e até mesmo convencer, desenvolvendo uma visão maniqueísta (o bem premiado e o mal castigado) da disputa entre fortes e fracos, do bem e do mal, e o mais fraco acaba sempre por vencer - às vezes pela astúcia; a ganância, a soberba caem por terra e são vencidas.

No caso da narrativa em análise, a falta de alimento na Floresta Grande - provocada por inundações e incêndios - faz com que o Leão e o Coelho se unam ardilosamente e enganem os outros animais da floresta. O plano arquitetado pelo Coelho é logo colocado em ação: fingir a morte de seu cão que, inexistindo, seria substituído pelo Leão no velório, prendendo em um pequeno espaço um grande número de animais que, mortos, seriam divididos e comidos pelos dois.

Na hora do falso enterro, o Coelho canta versos que lembram o poema/cantiga A Casa, de Vinícius de Moraes:

Era uma festa bem pequenina

Não tinha fruta, não tinha nada

Tinha um defunto meio acordado

Eu vou fugir para não ser caçado...

(Ondjaki, 2009, s. p.).

Durante a matança, ecoa na cantiga do Leão a proximidade com outros versos de Moraes:

Olha que festa mais linda

Mais cheia de graça

Cuidado com o cão, veja a trapaça

Com uma doce dentada

Você vai dançar...

(Ondjaki, 2009, s. p.).

No entanto, o Leão logo se esquece dos combinados realizados com o Coelho e quer ficar com toda a carne conquistada, fazendo com que o Coelho saltitão, astutamente, o engane.

 

De Verso e de Prosa: a oralidade recontada

Porque sou eu quem levanta das palavras o dizer

inscrevo nas fábulas o fogo,

o arco e a pedra, a seta envenenada

e o sangue - a sua carne

lacrimejante.

E nenhuma voz (rio adormecendo

a margem frágil) repetirá a voz

deste dizer, a sua caligrafia

do voo

dirá a flecha,

da viagem, os caminhos.

(Gonçalves, 1999, p. 40).

Zetho Cunha Gonçalves nasceu, como José Eduardo Agualusa, na cidade de Huambo, também na década de 1960. Publicou seu primeiro livro de poemas, Exercício de Escrita, em 1979. Logo vieram Coração Limite e Sobre a Sombra do Corpo (1981), A Construção do Prazer e Reportagem do Silêncio (1981), O Outro Mapa da Terra (1997), O Incêndio do Fogo (1983), O Voo da Serpente (1998), A Palavra Exuberante (2004) e Sortilégios da Terra. Canto de Narração e Exemplo (2007). Organizou edições da obra de Mário Cesariny, Luís Pignatelli, António José Forte, Natália Correia, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, e várias antologias da poesia e do conto angolanos. Atualmente mora em Lisboa.

No Brasil, o escritor tem publicado para crianças e jovens os títulos: Debaixo do Arco-Íris não passa Ninguém, A Caçada Real, Brincando Não Tem Macaco Troglodita, e A Vassoura do Ar Encantado. O primeiro e o último título foram escolhidos para leitura neste texto.

Debaixo do Arco-Íris não passa Ninguém (2006) dialoga estreitamente com a poesia de origem oral, como provérbios, adivinhas, motejos, entre outros. Como o próprio autor observa em paratexto ao livro, todos pertencentes à "[...] tradição oral dos povos nganguela, tchokwé e bosquímano, que habitam a província do Cuando Cubango, no sudeste de Angola" (s. p.).

O arco-íris carrega consigo uma forte simbologia e várias superstições e crendices, tanto positivas como negativas. Na tradição europeia ir até as extremidades do arco-íris era importante para aqueles que buscavam encontrar potes de ouro, já que reza a lenda que ali se encontraria um grande tesouro. Por outro lado, passar debaixo do arco-íris faria com que se mudasse de sexo. A letra da canção de Chico Buarque, Imagina, brinca um pouco com essa tradição:

Sabe que o menino que passar debaixo do arco-íris vira moça, vira A menina que cruzar de volta o arco-íris rapidinho vira volta a ser rapaz

A menina que passou no arco era o

Menino que passou no arco

E vai virar menina

Imagina Imagina Imagina

(Buarque, 2012, online)

O livro é composto de 15 poemas e um breve Glossário de 10 palavras. Todos os poemas são denominados como canção, por exemplo, Canção do Bom Dia, Canção do Papagaio Dorminhoco ou Canção do Jacaré Voador. Este último é muito parecido com os refrãos da conhecida cantiga popular Marinheiro só:

Canção do Jacaré Voador

Jacaré voador

Jacaré voador

Quem te ensinou a cantar

Foi a formiga

Foi a formiga [...]

(Gonçalves, 2006, s. p.)

Em A Vassoura do Ar Encantado (2012), o escritor incursiona de forma novidadeira e feliz pela prosa, construindo um texto que dialoga com a tradição oral ao recriar uma lenda de uma pequena aldeia do norte de Angola. Uma aldeia de muitos rios "[...] tantos, que quase se atropelavam uns aos outros nas suas viagens, a caminho do grande e desconhecido mar oceano" (Gonçalves, 2012, s. p.). Rios cantantes, rios narradores das histórias daqueles que por eles passaram nadando, navegando, cruzando de uma aldeia a outra.

Nessa aldeia de rios cantantes, havia duas irmãs bem velhinhas, conhecidas como bruxa Vassoura do Vento e bruxa Vassoura das Nuvens, cujos nomes eram Mutango e Vilengo. Ambas acordavam cedinho, lidavam sozinhas com as miudezas do cotidiano: arrumar a casa, carregar água do rio, buscar lenha, e guardavam os segredos das ervas e das raízes, traziam animais estranhos e os guardavam não se sabia para o quê. Embora estranho,

Toda a gente da aldeia respeitava aquelas duas velhas senhoras, com seus dons e poderes especiais, que conheciam todas as doenças, e sabiam fazer milongos, rezas, cantos e passos de dança mágicos, que curavam as enfermidades e devolviam as forças, a saúde e a grande alegria de viver às pessoas e aos animais (Gonçalves, 2012, s. p.).

A aldeia das duas bruxas, como era denominada, vivia na fartura com as plantações de cafés e muitas criações de animais. Depois do dia de trabalho, os da aldeia se reuniam no Jango - sala comunitária - e intercambiavam suas experiências do dia, e o mais velho contava histórias para os mais novos - histórias que só eram concluídas no dia seguinte " - Já é muito tarde - dizia ele, muito sério. - E a estória, tal como a conhecemos até agora, só poderá continuar a ser contada amanhã, depois do nascer e do pôr do sol. Caso contrário, a nossa aldeia corre sérios riscos de sofrer uma tragédia" (Gonçalves, 2012, s. p.).

Esse era um dos mistérios da aldeia, pois ninguém sabia o porquê de que cada habitante, enquanto dormia, continuava a ouvir histórias, canções, provérbios e acordava com uma história diferente na cabeça. O outro mistério dizia respeito à idade das duas irmãs. Somente Mapoyokele, de 123 anos, que quando menino tinha andado na vassoura das bruxas, sabia que elas eram de Katokô, "[...] uma terra de grandes e respeitáveis quimbandas" (Gonçalves, 2012, s. p.).

Essa aldeia, que prosperava magicamente nas mãos das duas mulheres, já que com suas vassouras as duas traziam ou não as chuvas que faziam com que a plantação ficasse verdejante, era invejada pelas aldeias vizinhas que realizaram várias tentativas frustradas de matá-las. Elas, porém, eram protegidas pelos seus, os quais, em troca, recebiam das duas velhinhas ensinamentos para as crianças sobre as coisas da natureza. Nos dois títulos escolhidos para leitura, pois, encontramos uma forte ligação com a oralidade e a arte de contar histórias que envolvem os povos africanos, na figura do Griot.

 

Onde se Costuram as Três Narrativas e se Alinhava um Fechamento

Os títulos aqui analisados têm em comum, como já destacado, a origem dos seus escritores (angolanos). José Eduardo Agualusa, Ondjaki e Zetho da Cunha Gonçalves são de uma geração que começou a publicar após a independência do seu País, podendo-se perceber que o tema das guerras civis, que se espalharam depois de 1975, está mais presente no título de Ondjaki Ynari, a menina das cinco tranças.

A fonte da tradição oral está presente na produção dos três escritores: na explicação sobre o vento, as estrelas, a lua, de Agualusa; na construção da paz pela morte das palavras ruins, da menina de cinco tranças, de Ondjaki; e nos trava-línguas e canções de Zetho da Cunha Gonçalves. Os livros O Filho do Vento, O Leão e o Coelho Saltitão e Debaixo do Arco-Íris não passa Ninguém pertencem à coleção Mama África, da editora Língua Geral (criada por Agualusa), que busca, explicitamente, resgatar os contos da tradição dos povos africanos.

Dos seis livros analisados, Nweti e o Mar: exercícios para sonhar sereias, de Agualusa, é o único que constrói uma personagem criança inserida na contemporaneidade, convivendo com as tecnologias ao mesmo tempo em que constrói um mundo imaginário, em que o mar é o seu repouso. No entanto, o sonho está presente também em Ynari, a menina das cinco tranças. É por meio do sonho que a menina descobre seu poder mágico e por meio do sonho ela desencanta a Paz; nos sonhos também as duas bruxas das vassouras encantadas, narradas por Zetho da Cunha Gonçalves, libertam múltiplas histórias segredantes para cada morador da aldeia.

Íris Amâncio destacava, há pouco mais de quatro anos, que a produção literária de escritores africanos era rara, cara e recebia pouco investimento do mercado editorial na publicação desses livros. Argumentava, ainda, que, mesmo que compulsoriamente, a Lei 10.639 poderia contribuir para isso: "[...] não só para o processo interno brasileiro de melhoria da qualidade das relações étnico-raciais, como também para o estreitamento das relações entre os africanos a diáspora negra de língua portuguesa" (Amâncio; Gomes; Jorge, 2008, p. 85).

Constata-se que, lentamente, o mercado editorial brasileiro vem se adequando às demandas promovidas pela Lei 10.639, e que as Diretrizes Curriculares e novos títulos de escritores de países africanos de língua Portuguesa adentram o mercado, bem como tem aumentado o interesse dos pesquisadores pelo tema. Não entendemos esse interesse como modismo, como vem anunciado em alguns textos, pois acreditamos que muitos dos escritores que têm se envolvido com o tema se sentem responsáveis por uma proposta de uma educação antirracista em todos os níveis de ensino.

A aproximação de estudantes da Educação Básica das narrativas produzidas por escritores do continente africano, nesse caso específico de Angola, bem como a representação do Outro, por meio de personagens que vivenciam experiências culturais diferentes do leitor brasileiro, por certo colabora para a ampliação do horizonte de expectativas do mesmo, promovendo, por meio desse repertório literário, um encontro singular imerso em pluralidades.

As conjecturas sobre a recepção dos leitores brasileiros frente à leitura dessas narrativas, talvez possam ser evidenciadas com pesquisas que levem em conta a real efetivação da leitura desses textos e o seu caráter de emancipação, ou não, mas isso é fio para outra meada.

 

Nota

1 Disponível em: <http://wwwcibersludicos.blogspot.com/2008/08/conto-africano.html>. Acesso em: 20 de novembro de 2012.

 

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Recebido em 26 de março de 2013
Aprovado em 20 de agosto de 2013

 

 

Eliane Santana Dias Debus é professora do Departamento de Metodologia de Ensino, credenciada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina. Líder do Grupo Literalise: Grupo de Pesquisa sobre literatura infantil e juvenil e práticas de mediação literária. E-mail: elianedebus@hotmail.com

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