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Educação & Realidade

versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.38 no.4 Porto Alegre out./dez. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S2175-62362013000400010 

SEÇÃO TEMÁTICA:
LITERATURA INFANTIL E DIFERENÇAS

 

Dois papais, duas mamães: novas famílias na literatura infantil

 

Two daddies and two mammies: new families in children's literature

 

 

Rosa Maria Hessel Silveira; Gládis E. da Silva Kaercher

Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS - Brasil

 

 


RESUMO

A literatura infantil recente aborda temas que eram banidos dela no passado, como a homossexualidade e particularmente famílias homoparentais. O presente estudo analisa como famílias homoparentais são representadas em sete livros publicados depois de 2007. A tendência mais recorrente tem sido caracterizar o amor entre homens ou mulheres de forma similar às formas com que as relações são tradicionalmente representadas - esboçando o discurso do amor romântico. Alguns dos temas frequentes são a felicidade familiar e discussões relacionadas sobre criação de filhos e cuidados de casa. Entretanto, duas obras escapam dessa tendência maior, enfatizando a curiosidade infantil pelo amor e pela sua origem.

Palavras-chave: Literatura infantil. Famílias Homoparentais. Representações. Leitura


ABSTRACT

Recent children's literature highlights themes that were banned in the past, such as homosexuality and particularly homoparental families. The present paper aims to analyze how homoparental families are represented in seven books published from 2007 on. The most recurrent tendency has been to feature love between men or women in a way similar to the ways heterosexual relationships are traditionally represented - drawing on the discourse of romantic love. Some of the frequent issues are family happiness and the resulting discussions about raising children and/or managing a house. However, two works skip this mainstream tendency, foregrounding children's curiosity for love and birth.

Keywords: Children's Literature. Homoparental Families. Representations. Lecture


 

 

Introdução - O Panorama do Estudo

A literatura para crianças, tradicionalmente conectada a objetivos pedagógicos e formativos, tem se aberto nos últimos anos a temáticas anteriormente a ela vedadas, o que se conecta também a mudanças sociais mais amplas. Dessa forma, se durante o século XIX e várias décadas do século XX, temas como desigualdade social, preconceitos em relação aos diferentes, problemas familiares, separação de pais, alcoolismo, apenas para citar alguns dentre outros possíveis, estavam ausentes da literatura para crianças, nas últimas décadas do século XX e início do século XXI, tal literatura tem se aberto para abrigar tais tematizações. Entretanto, é preciso registrar que, enquanto vários tipos de preconceitos em relação ao diferente - o velho, o negro, o índio, o deficiente, o gordo, entre outros - têm sido tematizados há mais de uma década em livros que se oferecem à criança brasileira (de autores brasileiros ou em tradução), a questão da homossexualidade só muito recentemente - e de forma rarefeita - vem chegando a essa literatura. Certamente, tal presença se articula com as lutas dos movimentos em favor da legitimação da diversidade sexual e pela defesa dos interesses dos homossexuais, que ganharam especial força, no Brasil, a partir da redemocratização brasileira. Por outro lado, a rarefação de tais temas certamente se conecta com a manutenção aberta ou velada do preconceito em relação à homossexualidade, visível na reação de certos grupos religiosos às suas lutas e também nas polêmicas que com frequência envolvem quaisquer medidas governamentais atinentes à abordagem da diversidade sexual no campo da educação. Afinal, como relembra Facco (2009, p. 69), "[...] o sujeito homossexual ainda é condenado à invisibilidade, inclusive discursiva".

Para que possamos melhor situar este texto, podemos referir brevemente três estudos anteriores que, de forma panorâmica ou mais aprofundada, abordaram os poucos livros para crianças e adolescentes disponíveis no Brasil com a temática da homossexualidade.

Silveira (2003), em estudo que aborda o que identifica como abordagens da diferença na literatura infantil (questões de surdez, síndrome de Down, deficiência física, daltonismo etc.), analisa a obra Menino ama Menino, publicada em 2000, da autoria de Marilene Godinho, afirmando sobre a mesma que, nela,

[...] a questão do menino homossexual é abordada de uma forma polifônica e sensível. Ainda que haja um narrador onisciente, sua voz é entremeada pelo discurso indireto livre de sete personagens [...]. Vários pontos de vista são, então, reconstruídos pela autora, numa trama em que os sentimentos de afeto, de estranhamento, de raiva, de angústia se entretecem e secundam atitudes e reações tão conhecidas por nós todos que vivemos em uma sociedade onde o diferente homossexual é, ainda, tão fundamente discriminado (Silveira, 2003, p. 10).

Já Facco (2009), em livro inteiramente dedicado à questão da temática homossexual, no qual percorre, inspirada por Goffmann, a questão mais geral do estigma, preconceito e discriminação, para em seguida discutir a invisibilidade do homossexual, a homofobia, o movimento homossexual e, por outro lado, o campo da literatura infanto-juvenil, analisa alguns títulos que abordam tal temática. É o caso de O menino que brincava de ser, publicado em 2000, de Georgina Martins, obra infantil com final aberto em que, assevera a analista, "[...] a possibilidade de que Dudu [o protagonista] tenha uma orientação homossexual não é confirmada nem descartada" (Facco, 2009, p. 60). Também é relembrada a obra Sempre Por Perto, de Anna Cláudia Ramos, publicada em 2006, em que a protagonista adolescente vive as angústias de contar à mãe que está apaixonada por outra garota. Conforme relembra Facco, na trama da obra, "[...] por mais que a mãe tenha aceitado a orientação sexual de Clara, sente um baque diante da notícia, mostrando que, definitivamente, a homossexualidade ainda não é encarada como uma coisa 'normal'" (Facco, 2009, p. 76).

Burlamaque e Rufatto (2010), em artigo intitulado A Temática Homossexual na Literatura Infantil e Juvenil: ação inclusiva, analisam o que chamam de "tema-tabu homossexualidade" (Burlamaque; Rufatto, 2010, p. 213) em duas obras para o público jovem: À Procura do Encontro, de Cristine Baptista, inicialmente publicada em 2000, e Por que eu não Consigo Gostar Dela?, de Anna Cláudia Ramos (a mesma autora de obra analisada por Facco, acima), publicada em 2009 pelo Instituto dos Direitos da Criança e do Adolescente. A primeira obra, conforme as autoras, tematiza a descoberta da homossexualidade por um personagem masculino adolescente e os conflitos subjetivos e familiares que tal identificação suscita. Também o segundo livro, escrito em 1ª pessoa, aborda a homossexualidade de um jovem adolescente, que não se sente atraído por uma colega, embora seja socialmente cobrado a tomar tal atitude. É importante apontar que esse último livro integra uma coleção de livros de projeto apoiado pelo Instituto dos Direitos da Criança e do Adolescente, o qual distribuiu milhares de seus exemplares para escolas públicas, no sentido de "[...] sensibilizar crianças, adolescentes e jovens para a questão do preconceito e discriminação ainda presentes em nossa sociedade" (Burlamaque; Rufatto, 2010, p. 224), o que aponta para um selo do livro como tendo uma função formativa clara.

Nenhum dos livros analisados por esses três estudos - todos eles publicados a partir de 2000 - entretanto, focaliza a questão da família homoparental, temática que parece ter emergido mais recentemente no panorama dos livros para crianças e jovens. Tal eclosão pode ser articulada a um aumento numérico das famílias com tal configuração, a uma aceitação maior dessa realidade com maior presença de notícias na mídia sobre o tema, assim como a consciência crescente da necessidade de sua abordagem em variados produtos culturais, não obstante a reiterada oposição de setores sociais conservadores, em especial ligados a determinados credos religiosos. Afinal, como registra Mello, em artigo publicado há mais de cinco anos, "[...] as relações amorosas estáveis entre homossexuais podem ser socialmente definidas como uma das modalidades de núcleo familiar conjugal que passa a ter visibilidade social no Brasil dos anos 1990, seguindo uma tendência do mundo ocidental" (Mello, 2005, p. 199).

É dentro desse cenário que propomos como objetivo ao presente trabalho efetuar uma análise de um conjunto de sete livros infantis, editados no Brasil e/ou Portugal, publicados a partir de 2007, que tematizam famílias homoparentais ou, em segundo plano, casais homossexuais. Tais livros pertencem ao acervo da pesquisa Narrativas, diferenças e infância contemporânea, apoiada pelo CNPq, que, entre outros objetivos, se dedicou à constituição, de 2007 a 2012, de um acervo de livros infantis que contemplassem diferenças de etnia, idade, conformação e aparência corporal, deficiência, gênero e orientação sexual. Tal acervo, constituído a partir de consultas regulares a catálogos eletrônicos, sites de editoras e outros sites sobre leitura e literatura infantil, tem ensejado a realização de diferentes estudos sobre as temáticas por ele abrangidas. No caso deste artigo, foram escolhidos os títulos que, dentre os dedicados ao tema orientação sexual, preenchessem os critérios de tematizarem a questão das famílias homoparentais ou de casais homossexuais.

Em tais livros, inspiradas por estudos que têm analisado tanto a dimensão estética como as complexas relações entre produto cultural e destinatário (Silveira, 2002; Colomer, 2003; Cademartori, 2009, entre vários outros), buscamos identificar as formas de representação de tais famílias, o rompimento ou a confirmação de determinados estereótipos (de gênero, por exemplo), o compromisso das obras com intenções formativas e informativas e a incorporação de uma dimensão estética, que se abrisse à polissemia e ao inesperado na leitura. Para tanto, voltamos nosso olhar tanto para os textos verbais quanto para as ilustrações, considerando, além da narrativa central, também os paratextos. Por paratextos, entendemos o "[...] conjunto de fragmentos verbais que acompanham o texto propriamente dito; pode se tratar de unidades amplas (prefácios, textos figurando na capa etc.) ou de unidades reduzidas: um título, uma assinatura, uma data, um intertítulo, uma rubrica [...], comentários na margem" (Maingueneau, 2001, p. 81). É preciso apontar que, mais recentemente, vem se constatando um sensível crescimento de paratextos em livros infantis, como biografias de autores, sinopses da 4ª capa, textos direcionados ao leitor adulto sobre a funcionalidade da obra etc., certamente em consequência do acirramento da competição do mercado editorial, dos intuitos mercadológicos das editoras e da dupla destinação que tradicionalmente possuem os livros infanto-juvenis: por um lado, os jovens leitores; por outro, os pais, professores e outros mediadores.

Dos sete livros sobre os quais nos debruçamos, dois foram publicados em Portugal, em tradução de original espanhol, por uma associação ligada às lutas pelos direitos dos homossexuais e são os que têm data de publicação mais recuada: 2007. Os demais títulos, todos publicados no Brasil entre 2010 e 2011, são constituídos por uma tradução de original francês (Tango tem Dois Papais) e por quatro obras de autores/as brasileiros/as, que se distribuem por editoras diversas (Ática, SM, Companhia das Letrinhas, Mazza Edições, Editora In House). As datas de publicação e a variedade de editoras apontam simultaneamente para o caráter recente da emergência da temática e por um interesse ampliado do mercado editorial em publicações sobre a mesma.

 

Novas Famílias

Já de partida, identificamos coincidências entre elementos dos títulos e das capas de quatro das sete obras analisadas. Os livros Meus Dois Pais, Olívia tem Dois Papais, Eu tenho Duas Mães e Tango tem Dois Papais convergem na referência à duplicação de uma figura parental (pai - mãe), o que, desde o título, prenuncia o tema para um leitor perspicaz e/ou suscita a curiosidade sobre sua abordagem. Desses quatro livros, três apresentam capas em que o protagonista criança (ou um filhote de pinguim, no caso de Tango tem dois papais) está ao centro da ilustração, ladeado por ou com mãos dadas com seus pais ou mães.

Foge a esse padrão a capa de Olívia tem Dois Papais, de Márcia Leite, em que apenas a protagonista menina aparece brincando com um gato e um cachorro (metonímia dos dois pais?), o que, aliás, está de acordo com o teor predominante do livro, que focaliza uma cena do cotidiano da menina em busca de distrações e brincadeiras, envolvendo os dois pais. A protagonista é Olívia, menina negra (informação dada pela imagem e não explicitada no texto escrito) adotada por dois pais (ambos brancos) que ela chama de pai Raul e pai Luís. No decorrer da narrativa vamos conhecendo a família e seu cotidiano: no que trabalham os adultos (um dos pais é artista plástico, outro é professor) e o modo como cada um se relaciona com a menina. Construído com recursos narrativos variados, o livro se inicia com uma breve e original apresentação da protagonista: "Olívia tinha um talento muito especial. Ela sabia exatamente como usar algumas palavras para conseguir as coisas que queria" (Leite, 2010, p. 8). O leitor segue acompanhando as artimanhas da pequena personagem em suas brincadeiras cotidianas e em seu relacionamento com os pais, temperadas pelo fato de que ela tem expressões que usa dentro de um contexto especial, quando está querendo coisas específicas dos pais, como "[...] absurda, óbvio, entediada, desfalecendo, encantador" (Leite, 2010, p. 8). A autora sabe manejar características e pontos de vista infantis, como julgar que muito tempo já se passou desde que um adulto (um pai) começou a trabalhar no computador e que, portanto, está na hora de ele brincar com ela; utilizar subterfúgios que sabe obterem resultado com os adultos, como dizer que está morrendo de fome, o que costuma sensibilizar os adultos responsáveis pela criança.

Assim, a problemática da família homoparental vai se desenhando de forma leve e articulada aos diálogos entre os pais e Olívia e a curtas descrições trazidas pelo narrador em 3ª pessoa. É apenas na página 37 - e a narrativa escrita vai da página 8 à página 41 - que, após muitas conversas, Olívia conta a provocação de um coleguinha, iniciando uma conversa que focaliza a questão da família homoparental.

- O Lucas é muito bobo, papai, ele gosta de me provocar, dizendo que eu não tenho mãe.

- E você fica triste? - o pai perguntou, preocupado.

- Claro que eu fico. Por que ele também não provoca a Isabela e o Tadeu dizendo que eles não têm pai? Isso não é justo! - ela exclamou, contrariada.

- É mesmo uma injustiça, queridinha. E o que você responde para ele?

- Eu falo assim: "Eu não tenho mãe, mas tenho dois pais só para mim"

- Essa é uma boa resposta, meu bem. Mas sabe, não é todo mundo que acha bom ter dois pais ou duas mães. Cada família é de um jeito. E o Lucas só conhece um tipo de família - o pai explicou (Leite, 2010, p. 37).

Entretanto, o texto não termina com qualquer apologia ou lição sobre os direitos das famílias homoparentais e, sim, também de maneira coloquial, chama a atenção para a felicidade que Olívia experimenta ao lhe ser prometido que sairiam os três (os pais e ela) para comprar "maquiagem e perfume de verdade". Afinal, ela "Gostava de se enfeitar e de ficar bonita. Gostava mais ainda de ganhar presentes. E gostava muito mais de papai Luís e de papai Raul. Tanto, tanto, que nunca era capaz de decidir com qual dos dois iria se casar quando crescesse" (Leite, 2010, p. 41).

Os paratextos do livro são econômicos na abordagem da principal temática: assim, as biografias das autoras praticamente não aludem a ela, e a sinopse da quarta capa se centra na apresentação da protagonista em seu relacionamento com papai Raul e papai Luís, finalizando com uma sugestiva mas nada pedagógica afirmação (felizmente!): "A família da Olívia é um pouco diferente, e totalmente "encantadora", outra palavra que ela adora usar" (Leite, 2010, contracapa).

Também escrito com domínio de técnicas narrativas (não por acaso seu autor é conhecido dramaturgo, autor de telenovelas e com produção regular de livros para adultos e para crianças/jovens), Meus Dois Pais, de Walcyr Carrasco, traz um enredo bem mais desenvolvido sobre uma família homoparental, lançando mão do relato em 1ª pessoa pelo menino protagonista. O livro começa apresentando as discussões entre o pai e a mãe do menino e a separação do casal, que a elas se seguiu; entretanto, isso não constitui um problema para o pequeno protagonista. Afinal, na escola o menino percebia-se como mais um, uma vez que a maioria das crianças pertencia a configurações familiares diferentes das tradicionais (pais separados, vivendo um segundo casamento; mães que tinham filhos de produção independente; irmãos dos diferentes casamentos dos pais). A mãe, então, muda de cidade por causa de uma oportunidade de trabalho, e o menino vai viver com o pai e o companheiro, a quem o menino identifica como amigo. Gradativamente, o protagonista vai reunindo pistas - pelo comportamento e por frases ditas pela mãe, pela vó e pelo pai - de que há algum mistério que lhe é vedado e que representa uma ameaça à sua convivência com o pai:

Na despedida, meu pai me abraçou bem forte:

- Naldo, tem muita gente contra mim.

- Por que, papai?

Ele ficou emocionado. E disse aquela frase horrível que os mais velhos usam quando não querem falar de alguma coisa.

- Mais tarde você vai entender.

Que raiva! Por que eles têm essa mania de achar que, por ser mais novo, eu não vou entender? Eu ia responder que já sou bem crescido, quando ele me abraçou de novo:

- Mas eu não vou desistir de você!

Fiquei sem voz. Desistir de mim? Então o caso era muito sério! Sozinho, eu pensava:

- O que o papai fez de tão errado? Por que não querem que eu fique com ele? (Carrasco, 2010, p. 15)

Gradativamente, as dúvidas vão se avolumando e as ilustrações, com uso expressivo de cores, elementos simbólicos e planos diferenciados, acentuam a existência do segredo e a apreensão do protagonista narrador, cuja imagem é retratada despedaçada, em cacos que explodem, na página em que se lê a revelação do mistério:

Convidei o Paulo e o Fê pra fazer um trabalho de grupo. (...) Nem acreditei quando eles recusaram o meu convite.

- A minha mãe me proibiu de ir no seu apartamento - disse o Fê.

Fiquei chateado. Quis saber o motivo.

- É por causa do seu pai.

O Fê se afastou sem querer falar muito. Fui atrás.

- O que o meu pai tem de errado?

Os dois ficaram sem jeito, até que o Fê disparou:

- Seu pai é gay, Naldo! (p. 21)

A essa revelação, seguem-se as reações do menino, a rejeição em relação ao pai e ao seu companheiro e a decisão de ir morar com a avó. No seu aniversário, entretanto, a mãe vem da outra cidade e explica para ele que ela também ficara chocada com a situação no começo, mas que, com o tempo, havia aprendido a respeitar o pai por sua decisão corajosa. No decorrer do diálogo o menino indaga se, por viver com o pai e o companheiro, ele também ficaria como eles, ao que a mãe responde que o pai fora criado pelo avô e pela avó e que "a maioria dos gays veio de lares tradicionais" (Carrasco, 2010, s. p.) (seria essa também uma lição para os leitores?). No final da trama, o menino recebe o pai e o companheiro no aniversário, faz as pazes com os dois e é na própria voz do narrador em 1ª pessoa que se traz o que seria algo como a lição-síntese de toda a história, narrada como uma descoberta (tão ao gosto de finais cinematográficos...): "E, com o coração batendo bem forte de tanta felicidade, eu descobri que o mais importante era ter uma família que amava" (Carrasco, 2010, s. p.).

Em relação aos paratextos da obra, pode-se observar que o texto da quarta capa busca fisgar o leitor para a resolução do mistério, que, como vimos, é o eixo condutor da trama, sem fazer alusão à temática da família homoparental. Entretanto, um paratexto de três parágrafos, intitulado Cada um é de um jeito e assinado pelo próprio autor, inserido ao final da narrativa principal, busca circunscrever a temática, apostando num tom acentuadamente coloquial, através de perguntas e exclamações e um vocabulário despojado. Vejamos o último parágrafo, em que Carrasco, inclusive, alude a seu trabalho com novelas: "O mundo está mudando, que bom! Mas ainda há quem não aceite essa forma de viver. Nas novelas da televisão, eu trato o tema com carinho. É preciso conversar sobre o assunto para entender que alguém pode ser diferente sem ser errado. E que amar é respeitar o jeito de ser de cada um!" (Carrasco, 2010, s. p.).

Já uma terceira obra - Eu tenho Duas Mães - carece de uma maior elaboração estética e literária (assim como imagética), consistindo, a bem dizer, em uma apresentação quase didática, na voz de um menino, da configuração familiar atípica a que pertence (ter duas mães). O autor lança mão de um formato de poema (com rimas) para apresentar tal pertencimento como um dado de sorte do menino: "Enquanto algumas crianças são desprezadas, / eu ganhei um amor de mãe desse tamanho" (Martelli, 2010, p. 5). A família é representada como uma família comum, normal, pois "Família, como a nossa, está ficando comum. Somos iguais a toda gente" (Martelli, 2010, p. 17).

O livro apresenta, com um tom celebratório, a família em questão, que se constitui através de uma relação homoafetiva entre duas lésbicas; na maior parte do texto, o filho simplesmente comenta os ganhos de ter duas mães: uma mais doce, que permite tudo, outra mais dura, que disciplina. Segundo ele, ambas derretidas: "[...] pois ter duas mães é mais do que legal e só posso agradecer a Deus, nosso papai do céu" (Martelli, 2010, p. 23). Pode-se ler, na passagem, uma sutil ironia em relação às fortes objeções religiosas às vivências homoafetivas e a famílias homoparentais. Por outro lado, é preciso observar que, efetivamente, o mundo desenhado pela descrição-argumentação é totalmente positivado e sem percalços - percalços e dificuldades que, por exemplo, foram aludidos nas duas obras que comentamos anteriormente. Tal ambiente - que poderia ser associado às tradicionais propagandas de margarina - pode ser exemplificado por passagens que abrigam estereótipos e clichês sobre a felicidade infantil: "Tudo é multiplicado por dois:/ mimos, delícias e guloseimas no café/ no almoço, além do feijão com arroz,/ completa o prato um suculento filé" (Martelli, 2010, p. 7); "Da vida, eu sei bem o que quero / E, como toda criança, desejo ser feliz/ e das minhas duas mães eu espero / muito amor, muito carinho / e beijos e quero bis" (Martelli, 2010, p. 21). Por fim, nas ilustrações, pouco criativas e estáticas, em que se repete o esquema da capa, do menino ladeado pelas duas mães a protegê-lo e a mimá-lo (ainda, com a utilização do coração como ícone do amor), o que também chama a atenção é que uma das mães é negra e a outra branca, o que não é mencionado no texto. A obra não apresenta paratextos em abundância - apenas as biografias do autor e ilustrador e uma dedicatória; não há texto na quarta capa e, assim, eles não cumprem nenhuma função reforçadora da temática do livro.

 

A Permanência do Amor Romântico

Outra obra do conjunto escolhido também vem marcada por uma evidente intenção celebratória do amor homossexual, mas tem outras características dignas de nota. Trata-se de Flor e Rosa: uma história de amor entre iguais, livro que narra o encontro amoroso de duas mulheres que descobrem suas orientações sexuais e, também, o quanto são diferentes. Constrói-se, no livro, toda uma ambiência romântica através do vocabulário utilizado, das descrições feitas, além de um repertório imagético de elementos tradicionalmente associados à beleza e ao amor: coração, passarinhos, céu azul, flores, borboletas... que se juntam, na capa, ao arco-íris, ícone do movimento LGBT, mundialmente conhecido.

Vários outros aspectos merecem ser ressaltados na narrativa. Em primeiro lugar, a abundância de elogios e a exaltação de qualidades das duas protagonistas parecem implicar, paradoxalmente, uma discriminação ao contrário, como se a beleza, em especial, e a inteligência devessem ultrapassar o mediano nas moças lésbicas, para que elas tivessem o direito ao amor. Vejamos alguns trechos (os grifos de todos os trechos seguintes são nossos):

[...] (sobre Flor, ao nascer) Era uma linda menina de olhos grandes, cabelos caracolados, pele negra e uma doce expressão que, mesmo com aquele choro todo, provocava um encanto envolvente.

Flor cresceu assim cheia de carinho, afeto e cuidados, como toda criança amada. [...] Adorava roupas cor-de-rosa, e sua roupa preferida foi presente de sua vovó, dado em seu aniversário de quatro anos; era um lindo vestidinho rosa, cheio de babados e flores brancas.

A descrição de Rosa criança, recheada de clichês comuns relativos à aparência, não fica atrás da de Flor, no enaltecimento dos seus dotes e da sua capacidade de se fazer amar: "De uma beleza incomparável. Cabelos lisos, boca bem vermelha, pele muito clara e duas covinhas nas bochechas que não se deixavam passar despercebidas. Foi recebida com muita festa" (Brito, 2011, s. p.).

O crescimento e amadurecimento das duas não trazem prejuízo a seus dotes, conforme o narrador onisciente informa a seus leitores: "Flor tornara-se uma linda moça de longas tranças, vestidos justos, esvoaçantes e estampados, a pele ainda mais negra e os olhos muito expressivos. Era uma excelente leitora, sabia conversar sobre todos os assuntos e tirava excelentes notas na escola" (Brito, 2011, s. p.).

Além da beleza e da inteligência, Flor era politicamente correta; negra, "[...] conhecia a história de seu povo negro como ninguém e tinha muito orgulho disso. Detestava qualquer tipo de preconceito, e assumia com orgulho sua identidade negra, pois sabia que era herdeira de reis e rainhas do continente africano" (Brito, 2011, s. p.).

Já à Rosa moça feita, o narrador atribui o que seriam "traços masculinos" - preferência por calças jeans, camisetas, tênis, gosto em jogar futebol (!) - sem, entretanto, deixar de afirmar: "Conservava sua beleza ímpar" (Brito, 2011, s. p.).

Pois bem: quando elas (Flor e Rosa) cruzam seus olhares - convenientemente numa aula de Antropologia sobre identidade (sic) - apaixonam-se como em um conto de fadas: "Esse encontro de olhares provocou um estado de exaltação e felicidade tão intenso em ambas, que era impossível desviarem o olhar" (Brito, 2011, s. p.). E o livro termina com a frase exclamativa: "Ali nascia uma história de amor!" (Brito, 2011, s. p.).

Temos nessa obra, da forma mais exacerbada entre todos os sete livros analisados, a reificação do amor romântico com todos os clichês e lugares-comuns que o compõem e perpetuam: a noção de completude das almas, a menção às reações físicas no encontro do ser predestinado (coração que pula, mãos suando, o olhar brilhante), a eclosão do amor à primeira vista e etc. A esse respeito, Giddens (1993, p. 51) nos relembra, ao historicizar a ideia de amor romântico no Ocidente, que o "[...] 'primeiro olhar' é uma atitude comunicativa, uma apreensão intuitiva das qualidades do outro. É um processo de atração por alguém que pode tornar a vida de outro alguém, digamos assim, 'completa'".

De forma também paradoxal - se supusermos uma pretensa intenção subvertedora de estereótipos no livro em análise - a autora parece reafirmar velhos clichês sobre gênero, ao atribuir, de forma binária, à Flor, o gosto por brincar de bonecas, comidinhas, casinhas, o predicado da vaidade e o gosto por se adornar, enquanto à Rosa cabe não apreciar bonecas, casinha, comidinha, mas gostar de carrinhos, bolas, motocicletas, aviões, como se apreciar brincar com brinquedos culturalmente masculinos e femininos, simultânea ou intercaladamente, fosse algo impensável.

A leitura da obra mostra, de maneira muito clara, a inspiração de militância anti-homofóbica e antirracista que a anima, o que, aliado à utilização de velhos clichês - textuais e imagéticos - sobre amor romântico, emoldurado por uma natureza em regozijo, resulta em prejuízo de sua qualidade estética e de sua abertura a uma leitura menos cerceada e estreitamente direcionada.

 

Famílias Homoparentais no Mundo Animal?

Único livro, do conjunto analisado, em que os protagonistas pertencem ao mundo animal, Tango tem Dois Papais não se situa, entretanto, entre os livros infantis em que os animais são antropomorfizados, conversam, se vestem e, intencionalmente, mimetizam o comportamento humano, como as tradicionais fábulas. Narrado em 1ª pessoa por um menino que adora animais, a história se inicia com o personagem narrando sua visita ao Zoológico do Central Park, onde tem sua atenção despertada por dois pinguins, que são inseparáveis e sobre os quais o tratador informa que são machos. É pela voz do narrador menino que vamos conhecendo a história do casal de pinguins que, a exemplo dos outros casais, também faz rituais amorosos (embora não sejam assim nomeados na obra), preparam um ninho em conjunto e tentam chocar um seixo redondo, como se fosse um ovo, inutilmente. O tratador, então, tendo encontrado um ovo abandonado, resolve colocá-lo no ninho de Roy e Silo (nomes dos pinguins), que o chocam e, posteriormente, dispensam a Tango (o filhote fêmea que nasce do ovo) todos os cuidados habituais da espécie - alimentação, calor - de forma que ela cresce e se torna uma atração do zoológico: "Os visitantes tentam identificá-la. Eles desejam vê-la, pois aqui ela é a única ter dois papais. Assim é, por que não?" (Boutignon, 2010, s. p.).

Ilustrações em aquarela e em tom pastel acentuam a delicadeza e a leveza da história, que não abriga lições explícitas sobre preconceitos, normalidade, nem insiste na exemplaridade, como vimos em alguns outros livros já analisados. Apenas um refrão, repetido de tanto em tanto, após a descrição de certos hábitos ou acontecimentos, convoca o leitor a aceitar a naturalidade dos fatos: "Assim é que é, e por que não?" (Boutignon, 2010, s. p.). E é com esse refrão que se encerra o livro.

Tal economia argumentativa em relação ao que estaria imbricado na história - o caráter natural de famílias homoparentais - não se repete porém nos paratextos, em que a casa editora parece ter se preocupado em destacar a efetiva funcionalidade da leitura. Se, na 4ª capa, a última frase da sinopse é, principalmente, sugestiva - Baseado em uma história verdadeira, este álbum abre conversa com os jovens leitores sobre o tema da diversidade sexual e dos novos modelos de família, o texto de dez parágrafos que segue a narrativa principal, intitulado Ninhos e Pedras e assinado por Fabio Weintraub, destaca a peculiaridade da família e traz uma espécie de historicização da homossexualidade. É importante observar que, ao referir perseguições ao amor entre indivíduos do mesmo sexo, o autor alude à pena de morte que o pune em países como Irã, Arábia Saudita, Mauritânia, Sudão e Iêmen; por oposição, o pequeno leitor pode ficar com a impressão de que nos países ditos civilizados, ocidentais, nos quais ele mesmo mora, tais perseguições (que podem não chegar à eliminação física, mas à exclusão de inúmeros círculos sociais) não acontecem...

E o paratexto prossegue com uma série de questionamentos que extrapolam em muito as indicações do texto principal e se alinham a uma militância em favor dos direitos dos homossexuais, o que sem dúvida é legítimo como luta social, mas - no espaço do livro impresso - soa como um direcionamento de leitura e atribui ao texto o caráter de um libelo contra a intolerância, o que, certamente, ele não é.

 

Outras Possibilidades - a curiosidade infantil no centro das tramas

Os dois últimos livros que analisamos diferem das obras anteriores, tanto em formato e projeto gráfico (são livros pequenos de capa dura), quanto do ponto de vista de abordagem da questão da homossexualidade. Ambos exploram o tema da curiosidade infantil - sobre o passado ou sobre o futuro - e a questão homossexual se insere de maneira orgânica nas narrativas, sem um relevo específico que emirja desde as primeiras páginas, por exemplo.

Por quem me apaixonarei? aborda a curiosidade infantil sobre o amor (o que já é indicado desde o título) e a obra assim se inicia: "Naquela manhã, o professor de Português disse aos seus alunos que dentro de alguns anos, quando crescessem um pouco mais, iam apaixonar-se. Quase todos os alunos começaram a rir porque não se imaginavam a dar beijos" (Pena, 2007, s. p.). A partir dessa situação, cria-se um grande alvoroço - observa-se que o texto escrito é vazado em diálogos vivazes - e as crianças passam a conversar tentando arrumar paixões adequadas para o estilo de cada um e formando casais que combinassem, sem nenhuma atenção a questões de gênero. Como uma menina diz ter ouvido algo acerca da química do amor, as crianças resolvem pedir ajuda ao professor de Química, que, inicialmente, lhes diz que nada pode ensinar sobre tal química, para, em seguida, arrematar:

É assim - concluiu o professor. No amor não se escolhe. Um dia, quase sem dares conta, apaixonas-te e é como se tivesses recebido o maior presente da tua vida. Não podes escolher a pessoa por quem te vais apaixonar. Pode ser um menino ou uma menina, pode ter cabelo louro ou moreno, pode gostar de ler ou jogar.

A essa afirmação, inspirada na ideia de amor romântico anteriormente aludida, segue a última página do texto, em que o narrador refere que André e Marta, duas das crianças preocupadas com seu apaixonamento futuro, resolveram esquecer o assunto e vão brincar, cantando: "Por quem me apaixonarei? Não sei! Não sei! Pela Marta ou pelo André?" (Pena, 2007, s. p.).

A ilustração, com personagens angulosos, talvez de inspiração cubista (lembrando Picasso), enriquece o texto em sua temática. A capa, por exemplo, apresenta três casais abraçados em três planos diversos, permitindo que se identifique não serem casais heterossexuais.

Uma nota interessante diz respeito aos paratextos biográficos com que são apresentados o autor e o ilustrador. Plenos de humor e coloquialismo - fazem referências a pequenas doenças de um deles, à forma de se vestir do outro, por exemplo - terminam ambos com a frase: "Ah, e não é verdade que seja o namorado do Roberto Maján/Wieland Pena" (Pena, 2007, s. p.) , acentuando a naturalidade de tal possibilidade.

Outro livro editado pela mesma Associação se intitula De Onde Venho e é escrito em primeira pessoa por uma menina que, justamente, se indaga sobre de onde veio. Em seu monólogo, ela retoma as hipóteses explicativas mais comuns da infância: a cegonha a teria trazido - ao que ela rebate dizendo "Se a mamã Carlota nem sequer me deixa debruçar-me à janela, como é que ia deixar que uma cegonha me trouxesse pelos ares?" (Pena, 2007, s. p.). Depois, relembra a sugestão de que ela teria sido trazida de Paris, hipótese que ela questiona com as palavras:

Outro dia perguntei ao meu professor se em Paris havia algum armazém de meninos e ele desatou a rir. Eu acho que não há. E como é que nos trazem? Sim, porque alguém há-de trazer e a mamã Carlota e a mamã Ana nunca foram a Paris, que eu já perguntei e elas disseram que não (Pena, 2007, s. p.).

O texto se desenvolve com as sucessivas hipóteses e reflexões da menina - reproduzindo um tom e uma lógica infantil - sobre de onde ela teria vindo e com alusões às suas duas mães, sem que, entretanto, o casal de lésbicas seja caracterizado como uma família diferente, como vimos nos livros editados no Brasil. Ou seja: sem recorrer a didatismos ou lições explícitas sobre casais homossexuais - nem nos escassos paratextos - a obra insere no mundo social normal a existência de famílias homoparentais, como se elas fizessem (e fazem!) parte das inúmeras configurações familiares contemporâneas.

 

Concluindo

Após este breve percurso analítico sobre sete obras recentes para crianças que tematizam a família homoparental e, secundariamente, o amor homossexual, cabem-nos algumas observações sintetizadoras. Temática das mais recentemente incorporadas à literatura para crianças e radicalmente articulada a lutas sociais pelos direitos e pela aceitação irrestrita dos homossexuais, era de se esperar que muitos livros que a explorassem recaíssem no didatismo formativo (explicando a normalidade de tais famílias, por exemplo, e abrigando paratextos pedagogicamente direcionados), quando não abrigassem textos francamente laudatórios e quase apologéticos. De certa maneira, nossa análise identificou tais tendências. Encontramos, pois, em algumas obras editadas no Brasil, um evidente esforço de abordar o tema normalizando as famílias, como se as relações homoafetivas tivessem de ser explicadas e aproximadas ao ideal de família que foi construído historicamente no mundo ocidental, encabeçado por sujeitos de sexos diferentes. Assim, alguns livros reconstroem alguns mitos da família ideal e do amor romântico heterossexual, como pano de fundo para justificar a existência das relações homoafetivas e das famílias com essa nova e específica configuração. Nesse sentido, cabe relembrar o que Mello afirma, a respeito da conjugalidade homossexual no Brasil contemporâneo:

[...] [há] o fato de lésbicas e gays estarem assumindo para si e publicamente, em escala crescente, a linguagem da ternura e da preocupação sentimental em suas parcerias amorosas, bem como dando mostras de uma reedição daquilo que Ariès chama de "sentimento da família", redefinindo padrões de conjugalidade e parentalidade [...] (Mello, 2005, p. 199-200).

Também é preciso pontuar o atravessamento da diferença étnica - em três obras brasileiras - nos personagens centrais das narrativas (uma jovem lésbica, uma mãe lésbica e uma menina adotada por dois pais). Tal caracterização, entretanto, não é feita, em duas delas, no texto escrito, mas nas ilustrações, seguindo uma tendência bastante recente na literatura para crianças, que busca tirar do homem e da mulher branca o privilégio indiscutível de serem mostrados como representantes da espécie humana - o que constitui fato altamente paradoxal para um país como o Brasil - com uma maioria de população afrodescendente - que, entretanto, foi colonizado e instruído dentro de um ideário eurocêntrico.

Para além dos intuitos (in)formativos e, por vezes, diretamente persuasórios, que minam qualquer dimensão estética de várias das obras analisadas, é preciso registrar a existência de outras obras que, não incidindo (ou pouco incidindo) nesta vertente de esclarecimento explícito, logram resultados sensíveis, bem humorados (por vezes), literariamente bem construídos e originais. Certamente, serão tais obras - e outras que vierem a ser produzidas com esta potencialidade estética - as que poderão emocionar, fazer rir, prender a atenção e despertar reações no leitor, assim como colocar, de maneira orgânica, as famílias e o amor homossexual como apenas mais uma forma e situação vivida do polimorfo mundo em que os leitores vivem. E, nesse contexto, paratextos didáticos - produzidos com um olho nos adultos que compram, selecionam e julgam as obras sob um ponto de vista educativo - talvez sejam mais nocivos, ao atribuírem um selo de utilitarismo ao texto, do que desejáveis.

 

Nota

O presente artigo foi produzido a partir de estudos realizados para dois projetos de pesquisa apoiados pelo CNPq: Narrativas, diferenças e infância contemporânea e Literatura infantil: um estudo sobre leituras de obras selecionadas com leitores de anos iniciais, ambos realizados nos Programas de Pós-Graduação em Educação da UFRGS e da ULBRA.

 

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Recebido em 26 de março de 2013
Aprovado em 22 de agosto de 2013

 

 

Rosa Maria Hessel Silveira é professora titular aposentada da Faculdade de Educação da UFRGS e professora colaboradora permanente do PPGEdu da UFRGS, na linha "Estudos Culturais em Educação". Orienta trabalhos de mestrado e doutorado e organizou as obras "Estudos Culturais para professor@s" e "Cultura, poder e educação". É pesquisadora 1C do CNPq e atual coordenadora do NECCSO (Núcleo de Estudos Currículo, Cultura e Sociedade). E-mail: rosamhs@terra.com.br
Gládis E. da Silva Kaercher possui mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1995) e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2006). Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuando principalmente nos seguintes temas: educação infantil, literatura infantil, infância, texto e identidade e diferença. E-mail: gladisk@portoweb.com.br

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