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Educação & Realidade

versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.39 no.1 Porto Alegre jan./mar. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S2175-62362014000100001 

EDITORIAL

 

 

Educação & Realidade inicia o ano de 2014 com uma seção temática intitulada Ensino de Sociologia, selecionada entre as propostas de seção submetidas a edital de 2012. Como é usual em propostas dessa natureza, todos os artigos seguiram o fluxo normal de avaliação, pela editoria e por pares.

Bernardo Lahire, em matéria publicada no jornal Libération, em 19 nov. 2012, advoga o ensino de ciências do mundo social, ou ciências sociais, desde a escola elementar, fazendo tal defesa por meio do argumento de sua relevância para a formação cidadã nas sociedades contemporâneas. Para ele, as ciências do mundo social, notadamente a Sociologia e a Antropologia, foram erigidas em oposição à naturalização dos produtos da história, ao etnocentrismo e às mentiras, involuntárias ou deliberadas, sobre a sociedade. O ensino das ciências do mundo social, na visão deste sociólogo estudioso da educação, seria uma resposta coerente à necessidade, tantas vezes evocada, de formação para a cidadania, pois o próprio rigor científico alcançado nesse campo lhe permitiria estar no centro dessa formação, por exemplo, por sua contribuição à conscientização da existência de vários pontos de vista ligados a diferenças de várias ordens ou ao conhecimento de certos processos sociais, na perspectiva da formação de cidadãos que seriam um pouco mais sujeitos de suas ações.

Lahire nos apresenta uma ideia ampla, a do ensino das ciências sociais desde o princípio da escolaridade. No Brasil, uma conquista relativamente recente foi a reinserção da Sociologia, uma das áreas das Ciências Sociais, como disciplina obrigatória do ensino médio. Os artigos da seção temática deste número da Educação & Realidade tratam principalmente desse tema, atual e desafiador. Esse tipo de produção, bem como sua difusão, poderão, quiçá, contribuir no sentido de abrir portas para pensarmos o ensino das ciências do mundo social na educação básica brasileira.

Sete artigos compõem a seção Ensino de Sociologia, organizada por Amurabi Pereira de Oliveira, professor da Universidade Federal de Alagoas. Dispensamos a síntese dos textos neste editorial, pois a mesma faz parte da apresentação da seção, elaborada pelo organizador, que se encontra na sequência.

Na seção Outros Temas, publicamos oito artigos submetidos ao fluxo contínuo da Educação & Realidade.

Inicia esta seção o artigo Cultura e Pedagogia: lições da espacialidade revolucionária de Frank Gehry, de Marisa Vorraber Costa. Partindo da arte do arquiteto-artista Frank Gehry, principalmente de acordo com a narrativa do documentário Esboços de Frank Gehry, de Sydney Pollack, a autora elabora uma reflexão sobre as movimentações intelectuais inspiradas no pensamento pós-estruturalista. Esse profícuo cotejo permite tecer conexões entre cultura e pedagogias contemporâneas.

Na sequência, Marcelo Ricardo Pereira trabalha em torno de uma interrogação que dá título a seu artigo: O Que Quer uma Professora? Com base na psicanálise, em teorias de gênero e em conceitos como feminino e sexualidade feminina, busca problematizar o gênero, a maternagem, a feminização histórica e cultural do magistério e o simulacro masculino da profissão docente. A linha seguida, pois, como explicitado pelo autor, parte de uma polêmica interrogação de Freud: O que quer uma mulher?

O artigo seguinte, também inscrito numa perspectiva de análise de gênero na docência, intitula-se Professoras Transexuais e Travestis no Contexto Escolar: entre estabelecidos e outsiders e é de autoria de Marco Antônio Torres e Marco Aurélio Prado. São utilizadas as noções de outsiders e de heteronormatividade para tratar da emergência, no ambiente escolar, de professoras transexuais e travestis. Os autores vão argumentar que o reconhecimento da cidadania e dos direitos humanos não deslocam estas professoras da posição de outsiders, dada a arraigada permanência da homofobia e da transfobia.

O quarto artigo, escrito por Nicole Mosconi, foca relações de gênero na escolarização. Em Escola Mista e Igualdade entre os Sexos no Contexto Francês, a autora se vale de produções da Sociologia e das Ciências da Educação, da França e da Inglaterra, para situar o tema na produção acadêmica, desde os anos 1960, e, na continuidade, discorrer sobre os modos de transmissão dos estereótipos de sexo na dinâmica escolar e as relações entre gênero e saberes veiculados na escola.

O texto subsequente, Materiais Didáticos Escolares e Injustiça Epistêmica: sobre o marco heteronormativo, de Rosana Medeiros de Oliveira e Debora Diniz, pauta as representações de gênero e sexualidade em materiais didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação, principalmente livros e audiovisuais. Tendo como referência pesquisas que evidenciam a recorrência de materiais oficiais cujo marco epistêmico continua sendo a heteronormatividade, as autoras convocam o rompimento com o mesmo como um desafio ético.

Pensando a História da Educação com Raymond Williams, de Marcus Aurelio Taborda de Oliveira, é o sexto artigo de nossa seção Outros Temas e, nele, o autor se debruça sobre a obra do historiador galês para explorar possibilidades analíticas de compreender a história dos fenômenos educativos. São revisados preocupações e conceitos do historiador, como a história social da linguagem, as noções de cultura e tradição seletiva e as relações entre cultura e natureza, para pensar sobre sua fecundidade para a produção intelectual no campo educacional.

No próximo artigo, cujo título é Mapa de Rede de Impactos para Gestão Estratégica na Universidade, Naomar Monteiro de Almeida Filho, Rogério Hermida Quintella, Denise Maria Barreto Coutinho, Francisco José Gomes Mesquita e Osvaldo Barreto Filho tratam das potencialidades de uso de uma tecnologia inovadora de planejamento a partir de um estudo de caso em instituição pública universitária. Os autores situam a tecnologia Mapa de Rede de Impactos em termos de sua inscrição teórica e contextual e discutem os efeitos de sua aplicação no caso em tela.

Fechando a seção, Karyne Dias Coutinho e Alexander de Freitas sondam as representações de dois episódios de assassinatos de estudantes em escolas, num filme e em edição de uma revista semanal. Em A Invenção das Chacinas Escolares: das representações psi às rotas de fuga, os dois autores, sustentados em teorizações deulezianas, confrontam representações conferidas aos chamados massacres de Columbine e de Realengo, respectivamente, pelo filme Elefante e pela revista Veja.

A síntese dos textos reunidos neste número, que abre as edições de 2014 da Educação & Realidade, evidencia que a revista segue sua trajetória de difundir uma produção acadêmica qualificada e plural, nas fronteiras que demarcam as especificidades e os desafios do pensar a educação.

 

Luís Armando Gandin - Editor-Chefe
Gilberto Icle - Editor Associado
Nalú Farenzena - Editora Associada

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