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Educação & Realidade

versão impressa ISSN 0100-3143versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.41 no.3 Porto Alegre jul./set. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/2175-623665722 

SEÇÃO TEMÁTICA: EDUCAÇÃO DE SURDOS

Apresentação da Seção Temática - Educação de Surdos: desdobramentos filosóficos, linguísticos e pedagógicos

Lucyenne Matos da Costa Vieira-MachadoI 

Maura Corcini LopesII 

IUniversidade Federal do Espirito Santo (UFES), Vitória/ES - Brasil

IIUniversidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), São Leopoldo/RS - Brasil

Depois da proliferação de políticas sobre diversidade e da Lei Federal 10.436/2002, que reconhece a língua brasileira de sinais como uma língua com estrutura gramatical própria que constitui um sistema linguístico de transmissão de práticas construídas nas comunidades surdas brasileiras, tornou-se difícil não considerar seus desdobramentos na vida e na educação de pessoas surdas. Nos campos educacional e linguístico, seja em relação à análise das práticas educacionais que ocorrem na universidade, na escola e em outros espaços onde a relação com o outro se estabelece, seja na definição de comunidades linguísticas usuárias de libras, isto é, em pesquisas sobre os processos de governamento e subjetivação de sujeitos surdos, o fato é que as discussões sobre o reconhecimento da diferença dos surdos estão vivas do que nunca.

Como é bem sabido, desde a última década do século passado até o presente, os surdos vêm em um crescente gradiente de conquista de seus direitos. Hoje, além de terem a língua de sinais reconhecida como língua dos surdos brasileiros, formam-se em distintos cursos nas universidades brasileiras, prestam concursos públicos, ensinam a sua língua para interessados em aprendê-la, orientam pesquisadores que estão iniciando suas vidas acadêmicas nas universidades, participam ativamente da produção bibliográfica sobre os sujeitos surdos, militam nas ruas, fazem políticas, definem práticas educacionais, exigem intérpretes de qualidade nas instituições, etc. Analisar e problematizar práticas sobre os surdos e sua educação é condição para que possamos produzir novas realidades e manter as lutas contra qualquer forma de discriminação negativa (Castel, 2008) atualizadas e ativas. Ao referirmo-nos às lutas contra as formas de discriminação negativas, fazemos referência à histórica prática de normalização dos indivíduos pela correção de seus corpos e/ou minimização da presença da surdez em suas vidas. Neste dossiê, abordar centralmente a surdez não significa pensá-la como deficiência. Diferentemente disto, a surdez é uma presença no corpo daquele que não ouve. Uma presença que agrega valor de pertencimento a uma comunidade linguística em particular, que compartilha uma forma de vida surda. Portanto, embora a palavra surdez traga com ela muitas histórias de correção da anormalidade dos corpos surdos, ela também somou, ao longo da história dos surdos, representações sociais e culturais que lhe permitem ser lida como condição primordial (Lopes, 2007) para a existência e identificação de um grupo, o dos surdos.

Neste dossiê, partimos da surdez como diferença primordial para discutirmos o que é do surdo e de sua comunidade, deixando de lado o que caracteriza outras comunidades específicas.

Assim, na qualidade de proponentes/organizadoras desta seção temática, julgamos importante ressaltar os aspectos teóricos e metodológicos sob os quais os artigos abaixo listados e brevemente comentados estão articulados. Considerando, então, a surdez como uma materialidade sobre a qual distintas práticas se inscrevem, com destaque aqui para as práticas que criam a diferença cultural surda, interessou-nos reunir pesquisadores que, dos campos da educação, da linguística e da filosofia, nos fornecem elementos para pensar a educação de surdos. De forma mais detalhada, com base no Decreto Federal 5.626/2005, que regulamentou a Lei de 2002, supracitada, eles nos fornecem argumentos para desdobrarmos experiências de educação bilíngue para surdos (libras/língua portuguesa escrita), bem como para problematizarmos experiências de inclusão escolar vividas pelos surdos.

Considerando a atualidade da discussão, o pouco que circula no meio acadêmico de produções sobre o tema e a crescente demanda por novas pesquisas sobre a educação e educação bilíngue para surdos, os autores aqui reunidos socializam os resultados de suas investigações. Eles têm o firme propósito de dividir e fazer circular conhecimentos produzidos em distintos estados brasileiros. Além de pesquisadores brasileiros, compõem o dossiê pesquisadores da Irlanda e da Colômbia. Somados, permitem tornar conhecimentos locais em internacionais.

Diante do exposto, passamos a apresentar, de forma resumida, os textos que compõem o dossiê.

O artigo que abre a seção temática, de autoria de Lucyenne Matos da Costa Vieira-Machado e Maura Corcini Lopes, A Constituição de uma Educação Bilíngue e a Formação dos Professores de Surdos, aborda a constituição de uma educação bilíngue a partir da formação de professores de surdos. As autoras partem da noção de percurso formativo e defendem o professor de surdos como intelectual específico.

Pelo viés da linguística, Carlos Henrique Rodrigues e Hanna Beer Furtado, no artigo Direitos, Políticas e Línguas: divergências e convergências na/da/para educação de surdos, abordam as interações linguísticas em sala de aula, bem como o processo de ensino e de aprendizagem em contextos bilíngues libras/português. A partir de contextos de inclusão de surdos com ouvintes e de uma turma de alunos surdos, problematizam a aprendizagem dos indivíduos.

Voltados para o forte contexto indígena presente no Mato Grosso do Sul, Marilda Moraes Garcia Bruno e Luciana Lopes Coelho, no artigo Discursos e Práticas na Inclusão de Índios Surdos em Escolas Diferenciadas Indígenas, problematizam as condições de aldeias indígenas com integrantes surdos, para estabelecerem o diálogo intercultural no interior da aldeia.

Ao articularem pedagogia e interpretação, Ivone Martins de Oliveira e Keli Simões Xavier Silva abordam, no artigo O Trabalho do Intérprete de Libras na Escola: um estudo de caso, a partir do contexto da educação bilíngue para surdos, o trabalho do intérprete de libras na sala de aula. Ao analisarem observações e entrevistas com intérpretes, as autoras focam os tipos de interpretação utilizados nas escolas e o trabalho de mediador exercido pelo intérprete na relação entre professor e aluno.

Utilizando a filosofia da diferença, principalmente ao estabelecer o diálogo com autores da filosofia francesa, tais como, Michel Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari, Vanessa Regina de Oliveira Martins, no artigo Educação de Surdos e Proposta Bilíngue: ativação de novos saberes sob a ótica da filosofia da diferença, mostra a potência de tal referencial para pensar e problematizar as práticas na educação de surdos.

Na aproximação entre fonoaudiologia e pedagogia, o artigo de Felipe Venâncio Barbosa, A Clínica Fonoaudiológica Bilíngue e a Escola de Surdos na Identificação da Língua de Sinais Atípica, contribui com uma discussão, ainda pouco desenvolvida no Brasil, sobre a educação bilíngue. O objetivo é apresentar um caso de parceria entre um serviço fonoaudiológico bilíngue e escolas para surdos da cidade de São Paulo, na identificação e encaminhamentos iniciais de casos de língua de sinais atípica.

Problematizar discursos e estratégias de governamento utilizados pelas políticas educacionais e linguísticas para surdos é o objetivo do artigo de Adriana da Silva Thoma, Educação Bilíngue nas Políticas Educacionais e Linguísticas para Surdos: discursos e estratégias de governamento. A autora argumenta que tanto a educação bilíngue oferecida na escola comum quanto a educação bilíngue que acontece nas escolas de surdos são estratégias para que as identidades e a diferença surda sejam governadas.

Partindo de um contexto educacional distinto daqueles vividos no Brasil, Patrick McDonnell, em Deficiência, Surdez e Ideologia no Final do Século XX e Início do Século XXI, trata de questões relativas à educação de surdos típicas da realidade europeia e Irlandesa. O autor faz uma discussão sociológica sobre questões educacionais que envolvem sujeitos surdos em nosso tempo.

Já a colombiana Lyda Solange Prieto Soriano analisa, no artigo La Pedagogía por Proyectos de Aula: una alternativa para enseñar castellano escrito a niños y niñas de primer ciclo, um caso de intervenção educativa em uma escola com estudantes surdos na cidade de Bogotá. Abordando os processos de aquisição de leitura e de escrita numa perspectiva bilíngue de educação de surdos, apresenta-nos um pouco mais do que é realizado em um dos países da América Latina.

Resumindo, nosso interesse na organização deste dossiê foi reunir pesquisadores para colocar em circulação um pouco da produção sobre educação de surdos, com ênfase, na temática da educação bilíngue para surdos. Esperamos que a socialização do conhecimento produzido convoque os leitores a pensar a educação de surdos em uma perspectiva bilíngue no presente.

Referências

LOPES, Maura Corcini. Surdez & Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. [ Links ]

CASTEL, Robert. A Discriminação Negativa: cidadão ou autóctone? Petrópolis: Vozes, 2008. [ Links ]

Lucyenne Matos da Costa Vieira-Machado é doutora (2012) e mestre (2007) em Educação a Universidade Federal do Espírito Santo (PPGE-UFES). Realizou estudos de pós-doutorado (bolsa Capes) pela Universidade Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Professora Adjunto II e orientadora de mestrado do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGE/UFES) na linha de Diversidade e Práticas Educacionais Inclusivas. E-mail: luczarina@yahoo.com.br

Maura Corcini Lopes tem doutorado (2002) e mestrado (1997) em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Realizou estudos de pós-doutorado (bolsa Capes) na Universidade de Lisboa (2012). É professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), no Programa de Pós-Graduação em Educação, no qual orienta mestrado e doutorado na Linha de Pesquisa Formação de Professores, Currículo e Práticas Pedagógicas. E-mail: maurac@terra.com.br

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