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Educação & Realidade

versão impressa ISSN 0100-3143versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.41 no.spe Porto Alegre dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/2175-623668921 

Número Especial: Itinerários de Instituições de Formação Docente: memórias e narrativas para o amanhã

Apresentação - Itinerários de Instituições de Formação Docente: memórias e narrativas para o amanhã

Foreword - Itineraries of Teacher Education Institutions: memories and narratives for tomorrow

Doris Bittencourt AlmeidaI 

IUniversidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS - Brasil


As instituições educativas, como as pessoas, são portadoras de uma memória. [...] Uma memória gerada por contraposição com outras memórias, que corre ao ritmo do tempo - o tempo da ou das pessoas, o tempo das gerações. Uma memória que encalha no acontecimento. Uma memória em torno do fabuloso e do heroico. Uma memória constituída por relatos e representações, simbólicas ou materiais [...]. Uma memória integrada nas práticas do cotidiano (Magalhães, 1999, p. 69).

No ano de 2016, a Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul celebra seus 45 anos de existência. Ao longo desse tempo, vem promovendo a formação de gerações de professoras e professores, que, na FACED, são estudantes do Curso de Pedagogia, das demais licenciaturas e do Programa de Pós-Graduação em Educação. Em meio aos festejos da comemoração, a Revista Educação & Realidade apresenta este dossiê, reunindo artigos que abordam itinerários de diferentes instituições de formação docente, no Brasil e em Portugal.

O que move a idealização dessa seção temática? Para além do evento celebrativo de aniversário de nossa Faculdade, aqui interessa publicizar estudos que tenham, como escopo de discussão, o desenvolvimento de pesquisas historiográficas referentes a essas instituições educativas. Para Ricoeur (2007, p. 25), "[...] a memória é uma província da imaginação. E, no entanto, nada temos de melhor que a memória para garantir que algo ocorreu antes de formarmos sua lembrança". Neste sentido, reconhece-se o significado das memórias de cada instituição, que se enraízam nos "[...] pormenores cotidianos, articulados numa poética do detalhe e do concreto" (Sarlo, 2007, p. 10). É assim que narrativas orais, informações arquivísticas, museológicas e arquitetônicas se entrelaçam como documentos, que, examinados e articulados aos contextos políticos e legislativos de cada época, permitem a produção de histórias de cada um desses estabelecimentos de ensino.

Essa proposta inscreve-se no campo de estudos da História da Educação, especificamente nos domínios de investigação da história das instituições educativas. No final do século XX, Magalhães (1999, p. 76) postulava que "[...] em boa parte, a história das instituições educativas, como a história das práticas educativas estão por se fazer". Passados mais de quinze anos, em um texto recente, o mesmo autor (2015) destaca que ainda faltam estudos nessa perspectiva historiográfica. Portanto, vê-se o quanto esse campo continua potente, conserva-se vinculado à História da Educação, indispensável "[...] para abrir novas compreensões, para iluminar aspectos que permanecem na sombra" (Nóvoa, 2015, p. 32).

"Organismos vivos" (Magalhães, 2015, p. 12), complexas e multifacetadas, representações de realidades mais amplas, as instituições que comparecem neste dossiê inscrevem-se em diferentes contextos geográficos, compartilham tempos históricos aproximados. Os textos alinhados no presente dossiê discutem trajetórias de Cursos de Pedagogia, muitos destes vinculados a Faculdades de Educação, pertencentes a Universidades brasileiras, públicas e privadas, bem como a Escola do Magistério Primário de Coimbra. Todas essas instituições são estranhadas pelos pesquisadores que buscam, por meio de olhares pretéritos, compreendê-las como lugares que produzem a profissão de professor. Paralelamente, não se esquivam de observar as questões que marcam o tempo presente e, em alguns casos, preocupam-se em projetar o que imaginam para os seus futuros.

"Somos constitutiva e ontologicamente memórias" (Escolano, 2015, p. 49). Produzir histórias dessas instituições, tomadas como patrimônios educativos, implica em fazer uma imersão em seu interior, valorizar suas idiossincrasias, entendendo que cada uma delas constitui-se em um somatório de memórias e de olhares individuais e grupais. O presente também comparece no ato de narrar o passado. Assim, importa compreender os sujeitos pretéritos e contemporâneos, procurando interpretar "[...] o sentido daquilo que elas formaram, educaram, instruíram, criaram e fundaram, enfim, o sentido da sua identidade e da sua singularidade" (Sanfelice, 2006, p. 24).

O texto que inaugura o dossiê, Um Lugar Memorável: A Faculdade da Educação/UFRGS, entre afetos e trabalho (1970-2016) tematiza memórias desta Faculdade, privilegiando narrativas de memória oral de professores como documentos. A discussão tem sua principal ancoragem na década de 1980, a partir da análise do processo de guinada empreendido na Faculdade, o qual provocou grandes mudanças no Curso de Pedagogia, em suas interfaces com o contexto político vivido no país.

Com o objetivo de analisar as trajetórias do Curso de Pedagogia e da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Maria Helena Camara Bastos, apresenta o estudo Do Curso de Pedagogia à Faculdade de Educação/PUCRS: (Porto Alegre/RS - 1942-2015), em que articula documentos institucionais às legislações do ensino universitário no período, em suas interfaces com os contextos local e nacional. O texto atravessa o século XX, chega ao século XXI, promovendo uma discussão acerca dos movimentos do referido Curso nesta instituição. Para investigar as origens desta Universidade, destaca a vinda dos Irmãos Maristas para o sul do Brasil e suas iniciativas educacionais.

A Escola do Magistério Primário de Coimbra, entre 1942 e 1974, é o tema abordado por António Gomes Ferreira e Luís Mota, no artigo Uma Instituição de Formação de Professores do Ensino Primário em Coimbra (1942-1974). Contando com uma variada documentação, o autor investiga espaços e estrutura arquitetônica, as áreas pedagógica e didática, bem como a dimensão sociocultural que caracterizam essa Escola. A partir de um cruzamento de fontes, identifica processos de mudanças e permanências, com o objetivo de explicar como se constituiu um determinado modelo pedagógico da instituição.

Uma abordagem acerca dos percursos da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo é o que propõem Diana Vidal, Bruno Bontempi Jr. e Maria Angela Borges Salvadori, no texto Tempos Pretéritos e Escolhas de Futuro: a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e a formação docente. A narrativa organiza-se em três partes, inicia pela década de 1930, articulada ao Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, chega à criação do Instituto de Educação de São Paulo e à fundação da Universidade de São Paulo, inscrevendo, nesse processo, a constituição da Faculdade de Educação (FEUSP), em sua história mais recente. Os autores valorizam a busca por determinados rituais que estiveram nas origens da instituição, percebendo seus desdobramentos ao longo do tempo.

Nadia Gaiofatto Gonçalves e Carlos Eduardo Vieira, no texto Formação de Professores no Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná (1938-2010), discutem a formação de professores em nível superior no Estado do Paraná, tendo como fio condutor da análise aspectos relacionados à criação da primeira instituição de ensino superior do Estado, designada a partir de 1950, como Universidade Federal do Paraná (UFPR), com destaque à implantação e consolidação do Curso de Pedagogia.

Por meio de uma escrita autobiográfica, Maria Juraci Maia Cavalcante produz uma narrativa que articula suas reminiscências desde o ingresso na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará como socióloga, explorando os modos como construiu sua identidade profissional naquele lugar. Avalia as transformações vividas pela Faculdade, percebendo as dificuldades enfrentadas contemporaneamente, especialmente as questões que envolvem a formação docente no escrito intitulado Memórias de uma Socióloga Professora na Faculdade de Educação da UFC - Ceará (1986-2016).

Os conceitos de tradição e inovação, associados às instituições jesuíticas, transversalizam o estudo apresentado por Luciane Sgarbi Grazziotin e Viviane Klaus, Entre Tradição e Inovação: percursos da história da educação de uma instituição jesuíta (Unisinos - 1953-2016). Nele, procuram compreender o Curso de Pedagogia da Universidade do Vale dos Sinos, sobretudo suas circunstâncias históricas e as relações estabelecidas com a comunidade, a partir das questões que envolvem pesquisa, ensino e extensão, na perspectiva de continuidades, descontinuidades e rupturas, tendo como temporalidade o período compreendido entre 1953 e 2016.

E, por fim, Leda Scheibe e Vera Lúcia Bazzo, no artigo O Centro de Ciências da Educação da UFSC: relatos de uma trajetória, descrevem os caminhos percorridos pelo Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina - CED/UFSC, considerando-o como o principal lócus de formação de professores no Estado de Santa Catarina. Neste sentido, discutem a constituição da Escola Normal Catharinense e da Faculdade Catarinense de Filosofia, relacionando-as com a posterior fundação da Universidade Federal de Santa Catarina.

O conjunto desses oito textos constitui-se em uma contribuição para o campo da História da Educação. Por meio de sua leitura, é possível reconhecer questões teóricas comuns que os atravessam, bem como identificar o propósito dos pesquisadores em trabalhar com uma diversidade documental, articulada a distintas metodologias de pesquisa. A reflexão acerca de cada instituição representada neste dossiê permite que se conheçam histórias desses espaços educativos, permite que se percebam suas especificidades, que se identifiquem seus sujeitos, que se compreendam facetas de suas práticas culturais. Cabe ainda dizer que, como produtos da historiografia da educação, os artigos que compõem o dossiê carregam um efeito de verdade. Expressam conhecimentos importantes que podem fomentar tantas outras discussões referentes a contextos pretéritos e atuais relativos à educação superior no Brasil.

Referências

ESCOLANO, Augustin. Arqueologia y Rituales de la Escuela. In: MOGARRO, Maria João (Org.). Educação e Patrimônio Cultural: escolas, objetos e práticas. Lisboa: Edições Colibri, 2015. P. 45-60. [ Links ]

MAGALHÃES, Justino Pereira. O Estudo das Organizações Educativas: novas perspectivas. In: ALVES, Luís Alberto Marques; PINTASSILGO, Joaquim (Org.). História da Educação, Fundamentos Teóricos e Metodologias de Pesquisa: balanço da investigação portuguesa (2005 - 2014). Lisboa: Universidade de Lisboa, 2015. P. 11-24. [ Links ]

MAGALHÃES, Justino Pereira. Contributo para a História das Instituições Educativas - entre a memória e o arquivo. In: FERNANDES, Rogério; MAGALHÃES, Justino Pereira. Para a História do Ensino Liceal em Portugal - actas dos colóquios do I centenário da reforma de Jaime Moniz (1894 - 1895). Braga: Secção de artes gráficas das oficinas de trabalho, 1999. P. 63-77. [ Links ]

NÓVOA, António. Carta a um Jovem Historiador da Educação. In: ALVES, Luís Alberto Marques; PINTASSILGO, Joaquim (Org.). História da Educação, Fundamentos Teóricos e Metodologias de Pesquisa: balanço da investigação portuguesa (2005 - 2014) . Lisboa: Universidade de Lisboa, 2015. P. 205-214. [ Links ]

RICOEUR, Paul. A Memória, a História, o Esquecimento. Campinas: Editora da UNICAMP, 2007. [ Links ]

SANFELICE, José Luis. História, Instituições Escolares e Gestores Educacionais. Revista HISTEDBR, Campinas, n. especial, p. 20-27, ago. 2006. [ Links ]

SARLO, Beatriz. Tempo Passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Cia. das Letras, 2007. [ Links ]

Doris Bittencourt Almeida é professora de História da Educação da Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Educação/UFRGS. E-mail: almeida.doris@gmail.com

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