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Educação & Realidade

versão impressa ISSN 0100-3143versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.42 no.3 Porto Alegre jul./set. 2017

https://doi.org/10.1590/2175-623674186 

SEÇÃO TEMÁTICA: MÉTODOS DE EDUCAÇÃO COMPARADA

Apresentação da Seção Temática - Métodos de Educação Comparada

Lesley BartlettI 

Nora KrawczykII 

IUniversity of Wisconsin-Madison, Madison - Estados Unidos da América

IIUniversidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas/SP - Brasil


O campo internacional da Educação Comparada está embasado na noção de comparação. No entanto, existe entre pouca e nenhuma concordância sobre o que são métodos comparados. Talvez isso não surpreenda, dado que o campo é completamente multidisciplinar. Comparação significa coisas distintas para diferentes pesquisadores, que são informados por epistemologias e métodos diversos. Existem duas abordagens gerais para a comparação: aquelas que são orientadas para a variância (e, portanto, tendem a embasar-se em uma epistemologia positivista e a utilizar métodos quantitativos) e aquelas que são orientadas por processo (e assim tendem a empregar uma epistemologia mais interpretativa, construtivista ou crítica e métodos qualitativos).

No campo multidisciplinar da educação comparada, a comparação veio a significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Durante muitos anos, houve um pressuposto subjacente de que a comparação deve ser transnacional. Essa tendência data da década de 1960 e 1970, quando pesquisadores como Harold Noah e Max Eckstein procuraram distanciar o campo de métodos mais historicamente informados rumo a uma ciência social orientada por hipótese, conforme consta no seu livro Toward a Science of Comparative Education (1969). Essa tendência persiste ainda hoje no campo da educação comparada, talvez inconscientemente (Phillips; Schweisfurth, 2014, p. 285). Por exemplo, na sua revisão de publicações em educação comparada, Little (2000) salientou que poucos artigos empregam “uma abordagem explicitamente comparada” porque “a maioria dos artigos enfoca países isolados”. O pressuposto é que a comparação é, por definição, transnacional (ou transcultural, sendo a cultura usada de maneira equivocada para designar grupos ligados pelo tempo e pelo lugar, como um estado-nação) (consulte Bartlett; Vavrus, 2017).

Entretanto, os pesquisadores contemporâneos da educação comparada defendem vigorosamente o valor de outros tipos de comparação. Steiner-Khamsi (2010, p. 327) advertiu os pesquisadores de política educacional para evitarem o nacionalismo metodológico, que é “[...] a armadilha de primeiro definir as fronteiras nacionais, somente para demonstrar depois que estas fronteiras já haviam de fato sido ultrapassadas. Reformas [políticas] não possuem uma base, um território ou uma nacionalidade e, portanto, não ‘pertencem’ a determinado sistema educacional”. Phillips e Schweisfurth (2014, p. 115) também insistiram que o estado não é suficientemente coerente para servir como unidade de comparação exemplar. Argumentaram que “[...] os comparativistas deveriam procurar unidades de análise que sejam intrinsicamente apropriadas à tarefa em questão”.

Importantes pesquisadores no campo têm utilizado abordagens epistemológicas críticas ou construtivistas e métodos qualitativos. Por exemplo, Tobin e colaboradores usaram técnicas etnográficas gravadas em vídeo para comparar a educação pré-escolar nos EUA, Japão e China. No estudo original, Tobin et al. (1989) registraram em vídeo, em um local de educação infantil por país, um conjunto de “incidentes críticos”, como rotinas de sala de aula, separação, mau comportamento e brincadeiras entre crianças de idades variadas. A seguir, apresentaram o vídeo aos próprios educadores, a colegas educadores no mesmo local, e a educadores de outras nacionalidades nos locais homólogos; usaram os vídeos como sugestão para estimular os atores a compreenderem e compararem ações. Em seu inovador reestudo nos mesmos três países, Tobin e colaboradores (2009) introduziram duas comparações explícitas adicionais. A primeira, baseada na indicação de educadores, os pesquisadores selecionaram uma escola “inovadora” adicional em cada país, estimulando a comparação com a escola original. Na segunda, os pesquisadores retornaram às escolas originais, filmando novos vídeos da mesma categoria de incidentes, permitindo assim comparação através do tempo (2009). Esses estudos oferecem uma via metodologicamente inovadora para a comparação. Outros utilizaram métodos qualitativos para desenvolver contribuições conceituais-chave. Por exemplo, Carney (2009) criativamente comparou a “policyscape” educacional de três países (Dinamarca, Nepal e China) em três domínios diferentes (ensino superior, ensino geral, educação docente não universitária). Carney (2009, p. 68) demonstrou como uma policyscape (definida como uma “[...] ideoscape educacional [...] que poderia capturar alguns elementos essenciais da globalização como fenômeno (objeto e processo) e oferecer uma ferramenta com a qual explorar a difusão de ideias políticas e práticas pedagógicas entre diferentes sistemas escolares nacionais”) reúne países distintos, pois reformam seus sistemas educacionais de maneiras que evidenciam “visões, valores e ideologia” marcadamente similares (Carney, 2009, p. 79). Finalmente, muitos pesquisadores em CIE [Educação Comparada Internacional] contemporâneos fazem um extenso uso de comparação intranacional. Por exemplo, em seu estudo sobre educação em direitos humanos (EDH) na Índia, Monisha Bajaj (2012) integrou diversos ângulos comparativos. Bajaj enfocou uma ONG nacional muito influente, o Institute of Human Rights Education (que faz parte da People’s Watch, uma ONG de direitos humanos maior), que era ativa em 18 estados da Índia. Empregando uma perspectiva histórica, seu estudo apresentou os eventos-chave que levaram ao crescimento e expansão dos programas do Instituto. A seguir, Bajaj mapeou a Educação em Direitos Humanos em seis estados, conduzindo levantamentos em centenas de escolas. Bajaj também realizou grupos focais, entrevistas e observações em mais de 60 escolas e junto a nove ONGs diferentes (a maioria afiliada ao Institute of Human Rights Education). Ela estava particularmente atenta a como professores e estudantes interpretavam e assumiam a EDH. Assim, apesar da noção dominante de comparação transnacional usando métodos quantitativos, os pesquisadores no campo utilizam a comparação de diferentes maneiras.

Defendemos que os pesquisadores poderiam se beneficiar ao considerar criteriosamente a gama de significados vinculados a métodos comparados. Neste número de Educação & Realidade, estudiosos de diferentes disciplinas oferecem insights epistemológicos e metodológicos referentes a como a comparação poderia ser mais impulsionada no campo.

No seu artigo, Los Estudios Comparativos: algunas notas históricas, epistemológicas y metodológicas, Piovani e Krawczyk abordam aspectos históricos, epistemológicos e metodológicos relacionados a estudos comparados nas ciências sociais da educação. Começam por interrogar os diversos significados de comparação, desde o método científico a comparações sócio-históricas. Concluem recomendando um foco flexível, transcontextual (transnacional e transcultural), aliado a diversos métodos de pesquisa.

Informado por sua perspectiva como economista político usando métodos quantitativos, Klees, em Métodos Quantitativos na Educação Comparada e em Outros Cursos: são válidos?, levanta questões fundamentais a respeito da utilidade da análise de regressão para inferência causal. Defende que as condições necessárias para que a análise de regressão produza inferências causais raramente são atendidas, se o forem. Encoraja os pesquisadores a considerarem metodologias de pesquisa alternativas.

Em seu artigo, Comparando Políticas em um Mundo em Globalização: reflexões metodológicas, Robertson e Dale consideram as implicações da globalização e da transformação de modos de governança da política educacional para os métodos comparados. Identificam os benefícios e os limites de duas maneiras conflitantes pelas quais a comparação poderia ser empregada para estudar a política educacional. Em resumo, oferecem diversas reflexões metodológicas referentes a lentes a serem empregadas, inclusive tempo, espaço e lógicas de governo.

Partindo de uma perspectiva distinta, porém compatível, Gorostiaga, em Perspectivismo y Cartografía Social: aportes a la educación comparada, utiliza a cartografia social para desenvolver uma abordagem perspectivista que proporciona uma forma de comparação (aqui definida como a análise de semelhanças, diferenças e inter-relações entre diferentes perspectivas). Embasado em uma análise dos debates sobre a reforma educacional latino-americana entre 1996-2008, Gorostiaga esboça as características metodológicas da cartografia social e suas potenciais contribuições para o campo da educação comparada.

O artigo de Bartlett e Vavrus, Estudos de Caso Comparado, enfoca especificamente os métodos de estudo de caso e seu potencial para comparação. Com base em uma revisão e crítica das abordagens dominantes à pesquisa por estudo de caso no campo da educação, as autoras propõem uma nova abordagem - a abordagem de estudo de caso comparado - que utiliza três “eixos” de comparação, incluindo vertical, horizontal e transversal (consulte também Bartlett; Vavrus, 2017; 2014a; 2014b; Vavrus; Bartlett, 2009 para exemplos). Ao desenvolver esta abordagem, propõem uma reconceituação da comparação e compreensões de contexto predominantes.

Com base nas contribuições de Friedrich Tenbruck e Joachim Matthes, Weller faz uma análise cultural crítica dos métodos comparados, em Compreendendo a Operação Denominada Comparação. Apresenta dois estudos de pesquisa internacionais com ênfase nos procedimentos metodológicos, fazendo uma reflexão sobre o valor de diferentes abordagens para a comparação nestes projetos, inclusive revelando desfechos surpreendentes e imprevistos.

Em seu artigo, Interculturalidad y Educación en Argentina desde una Perspectiva Comparativa, Novaro, Padawer e Borton comparam dois estudos etnográficos - um conduzido em aldeias mbyá guarani do noroeste da Argentina e outro realizado em uma área suburbana da cidade de Buenos Aires, habitada principalmente por migrantes bolivianos. Os autores comparam os processos similares pelos quais ambas as minorias passam, incluindo remoções, pobreza e luta para manter as identidades étnicas face à forte pressão por assimilação. Desta maneira, os autores exemplificam o valor inesperado de comparações post hoc de estudos etnográficos.

Tradução do inglês de Ananyr Porto Fajardo

References

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BARTLETT, Lesley; VAVRUS, Frances. Studying globalization. In: STROMQUIST, Nelly; MONKMAN, Karen G. (Ed.). Globalization and Education: integration and contestation across cultures. Lanham, MD: Rowman and Littlefield, 2014b. P. 119-131. [ Links ]

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Lesley Bartlett é professora de Estudos de Políticas Educacionais e membro afiliado em Antropologia. Antropóloga por treinamento que atua no campo da Educação Internacional e Comparada, faz pesquisa em estudos da alfabetização (inclusive alfabetização multilíngue), migração e desenvolvimento profissional dos professores. E-mail: lesley.bartlett@wisc.edu

Nora Krawczyk é mestre em Educação e Sociedade pela Facultad Latinoamericana en Ciencias Sociales - FLACSO/Argentina e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP/Brasil. Atualmente é professora e investigadora do Departamento de Ciências Sociais e Educação da Faculdade de Educação/ Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP e investigadora do Conselho Nacional de Pesquisa - CNPq. Possui experiência nas áreas de política e sociologia da Educação no Brasil e na América Latina. E-mail: 3105nora@gmail.com

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