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Educação & Realidade

versão impressa ISSN 0100-3143versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.42 no.4 Porto Alegre out./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/2175-623664282 

SEÇÃO TEMÁTICA: NORBERT ELIAS E EDUCAÇÃO

Sexualização e Erotização: emancipação e integração do amor e do sexo

Cas WoutersI 

IUtrecht University (UU), Utrecht/TC - Holanda

Resumo:

O artigo trata das recentes mudanças nas relações românticas e sexuais entre os jovens. A perspectiva centra-se na emancipação de mulheres e jovens desde a década de 1880, momento em que os códigos sociais que dominam as relações entre mulheres e homens, pais e filhos, ganharam maior leniência. Umas e outros tiveram de aprender como se tornar sujeitos sexuais e também objetos sexuais, desenvolvendo um equilíbrio gratificante entre os dois, em processos de tentativa e erro que envolveram esforços de conectar intimidade sexual e relacional em surtos subsequentes de sexualização e erotização. O artigo aponta momentos significativos nesses processos e levanta a questão de onde estamos agora.

Palavras-chave: Sexualização; Erotização; Balança de Poder; Informalização; Regulação das Emoções

Introdução: formalização e informalização

O que sabemos sobre a vida e como vivê-la, isto é, nosso conhecimento e nossos códigos de comportamentos e emoções, é ensinado e apropriado nas relações de amor-e-aprendizado e nos processos de amor-e-aprendizado (Elias, 2009a)4. Os conceitos cunhados por Norbert Elias reconhecem implicitamente que, para o entendimento da história da humanidade em larga escala, bem como da história de qualquer sociedade em particular e de cada ser humano individualmente, a história do amor é tão importante quanto a história do aprendizado. Ambas têm estado intimamente conectadas desde o advento do Homo sapiens, quando surgiram os códigos sociais para suplantar os códigos genéticos como códigos e mecanismos direcionadores para a sobrevivência. Desde então, a descendência humana teve de se ajustar aos códigos sociais prevalecentes e precisou ser iniciada no acervo do conhecimento social. Tanto o aprendizado individual quanto a transmissão coletiva do conhecimento para as gerações seguintes dependem da força coesiva e do calor dos seus laços, particularmente aqueles envolvendo filhos. A importância fundamental das relações e processos de amor-e-aprendizado está espelhada nos seus medos e ansiedades: “[...] geneticamente, a árvore familiar dos medos e ansiedades parece ter uma raiz bifurcada: o medo da extinção física e o medo de perder o amor. Ameaças à vida e ao amor, numa forma bem elementar, parecem ser as situações de perigo originais” (Elias 2009b, p. 140). Em contrapartida, a estrutura dos medos e ansiedades das pessoas, bem como as qualidades dos seus laços de amor, depende dos níveis de organização social, pacificação e civilização que existem nas e entre as sociedades: “[...] [os medos e ansiedades] são sempre determinados, enfim, pela história e pela real estrutura das relações dele ou dela com outras pessoas, pela estrutura da sociedade; e mudam com esta última” (Elias, 2012, p. 485).

Nas redes cada vez mais amplas da interdependência humana, desde o regime do fogo - a organização social do controle do fogo - até os regimes agrário e industrial, os níveis de diferenciação, integração e complexidade aumentaram, bem como o controle social das pessoas umas sobre as outras e sobre elas mesmas (Goudsblom, 1992). À medida que os grupos humanos foram se expandindo, se diferenciando e se tornando mais complexos, o mesmo se deu com seus códigos de conduta e seu estoque coletivo de saber: estes se expandiram e se diferenciaram também, tornando-se mais detalhados e complexos e demandando, assim, níveis mais altos de autorregulação. No todo, esse foi um processo de longa duração de formalização dos códigos sociais, que está documentado no livro On the Civilising Process de Elias (2012)5, e se manteve dominante até a segunda metade do século XIX.

Por volta de 1880, os processos sociais não planejados de diferenciação, integração e complexidade crescente, junto com os constrangimentos sociais para a autocontenção que lhes são inerentes, atingiram um nível crítico, o qual possibilitou - e logo demandou também - uma ruptura parcial nos processos de formalização dos códigos de autorregulação. Isso se deu a partir do momento em que os velhos e rígidos controles sociais, com suas regras fixas de comportamento e sua demanda por obediência não-pensada aos superiores sociais, perderam sua função de manter organizações sociais e tenderam, mesmo, a se tornar contraproducentes. Então um processo de longo prazo de informalização se tornou dominante (Wouters, 2007; 2015). Uma variedade crescente de relações e situações em redes complexas de interdependência passou a exigir graus mais variados de sintonia fina do que em épocas anteriores. Essa sintonia fina implicava manobrar entre maneiras cada vez mais flexíveis e refinadas, de acordo com orientações mais flexíveis, abrindo assim um espectro mais amplo de opções comportamentais aceitáveis.

A escolha entre opções, no entanto, não tornou mais fácil o comportamento, porquanto fazer escolhas certas entre uma multiplicidade crescente de opções passou a depender de habilidades sociais que já não podiam ser aprendidas somente com a obediência a autoridades e regras fixas. Exigia a capacidade de adequar-se aos parâmetros específicos (ou mudanças neles) de cada relação e situação particular. Essas exigências coincidiam com empatia crescente e com abertura, desenvoltura e premeditação reflexiva. As pessoas foram levadas cada vez mais à competição social por aprender as habilidades necessárias e executá-las com desenvoltura; e tal competição se intensificou no curso das décadas seguintes, disseminando-se, a partir de círculos políticos calculadores e empreendedores comerciais, para círculos mais amplos de cidadãos calculadores. Nessa competição, o capital de personalidade de um habitus que possibilita um comportamento mais sutil, mais refinado e mais flexível, converteu-se num habitus nacional e, quase ao mesmo tempo, num habitus internacional do Ocidente.

Como um todo, a transição, em dominância, da formalização para a informalização envolveu também demandas crescentes nas relações privadas, tais como entre filhos e pais, e nas relações românticas, eróticas e sexuais entre mulheres e homens.

Informalização nas Relações entre Pais e Filhos

Processos continuados de informalização envolveram uma dependência crescente das crianças frente à habilidade e à necessidade de aprender as artes da reflexividade e da flexibilidade. Isso implicou demandas crescentes de relações de amor-e-aprendizado e, por conseguinte, interdependência crescente de pais e filhos, através da qual seus relacionamentos ganharam tanto intensidade quanto intimidade por um período mais longo de tempo: tanto a paternidade quanto a infância foram prolongadas (ver Röling, 2006). Essas transformações são captadas na expressão século da criança (Key, 1905). Particularmente nesse século, a emancipação das crianças e adolescentes em relação aos pais e seus representantes - e das mulheres em relação aos homens - implicou, claramente, níveis crescentes de igualdade e também de intimidade.

Desde 1880, aproximadamente, a ênfase tradicional na educação infantil passou da ênfase na subserviência à autoridade institucional e adulta, sancionada por castigos corporais e outros, a uma ênfase nas qualidades ligadas à autorregulação das crianças, sancionada esta pela racionalização e por diferenciações de calor e permissividade. Relações entre pais e filhos ganharam intimidade e calor, bem como sensibilidade e consideração reflexiva. Depois da Segunda Guerra Mundial, o nível de investimentos parentais sobre os filhos começou a crescer novamente, processo que coincidiu com o alargamento dos círculos de identificação, abrangendo desde crianças e mulheres até grupos de índios, negros e animais. O investimento emocional nas relações de amor-e-aprendizado se acelerou, particularmente, desde os anos de 1950 e 1960, época em que essa tendência se viu reforçada por níveis crescentes de segurança material e segurança física. Os pais desenvolveram relações mais íntimas com seus filhos e, em tais relações, os filhos experimentaram um tipo de disciplina ou controle social menos direcionado para a obediência do que para o autocontrole e a autodeterminação, isto é, para aprender a pensar e a decidir por si próprios (cf. Alwin, 1988).

Ao mesmo tempo, ter e criar filhos se tornou cada vez mais importante, por oferecer um sentido não pensado de pertença e uma fonte de motivação na vida, enquanto a religião e a ideologia política, e mesmo a classe social, o gênero e a nacionalidade, perderam muito dessa capacidade. Para um número crescente de pessoas, as relações de amor-e-aprendizado com os filhos tornaram-se não só uma fonte importante de significado em suas vidas como também a sua força motivadora mais intensa. Na criação dos filhos, um controle parental mais tépido, íntimo, flexível e cauteloso sobre o autocontrole dos filhos se disseminou, tornando-se conhecido como disciplina orientada para o amor (Bronfenbrenner, 1958).

Gênero e Sexo: a balança do prazer

A tendência geral à empatia crescente, à abertura e à cautela reflexiva nas relações diz respeito, particularmente, às relações envolvendo sexualidade. A emancipação das mulheres e dos jovens seguiu de par com a emancipação da sua sexualidade; e, ao mesmo tempo, pais - de diferentes classes sociais, em graus variados - passaram a levar cada vez mais em conta os interesses e sentimentos de seus filhos e, ainda mais, a sexualidade dos seus adolescentes. Não obstante, foi somente a partir da Revolução Sexual que as mulheres, incluindo-se as mais jovens, passaram a tomar parte mais ativa nas discussões públicas sobre desejos carnais e como alcançar uma balança do prazer mais gratificante - a balança entre a busca da satisfação sexual e a busca por intimidade mais duradoura de relações. Desde então, grupos cada vez maiores de pessoas vêm experimentando relações exploratórias entre os extremos do amor dessexuado (o desejo sexual subordinado à continuação do relacionamento), o contato sexual despersonalizado, e os extremos de tornar-se um objeto sexual e um sujeito sexual. Esse processo exploratório provocou diversas e cada vez mais variadas respostas para o que poderia ser chamado de questão da balança do prazer6: quando e em que tipos de relacionamento(s) o (quais os tipos?) erotismo e a sexualidade são permitidos e desejados? A partir da década de 1960, tópicos e práticas como o sexo pré-marital, variações sexuais, amasio, adultério, fornicação, casos extraconjugais, ciúme, homossexualidade, pornografia, sexo adolescente, aborto, troca de parceiros, pedofilia, incesto e outros - todos parte de um processo mais amplo de sexualização - implicaram confrontações desalojadoras com a balança do prazer tradicional. As pessoas se viram, pois, confrontadas com a questão da balança do prazer de modo mais frequente e intenso do que nunca.

Essa questão é levantada pela primeira vez na puberdade ou adolescência, quando impulsos corporais e eróticos e emoções que foram banidos da interação desde a primeira infância (exceto nos casos de incesto e pedofilia) são novamente explorados e experimentados. A necessidade original de contato corporal das crianças pequenas e suas explorações subsequentes, francas e espontâneas, ficam sem espelhamento (Fonagy, 2008), parecendo ser restringidas e até paradas quando os adultos começam a experimentá-las como sexuais. Sexualidade e corporalidade são, pois, isoladas de outras formas de contato e compartimentalizadas. Na puberdade e adolescência, quando os desejos e demandas por intimidade e confiança dos adolescentes já estão bem desenvolvidos, o tabu do toque e do contato corporal precisa ser desfeito de maneira gradual. Mais ou menos tomados pelo seu novo desejo de prazer e satisfação sexual, os jovens têm de integrar esse desejo tanto em sua personalidade quanto nos seus relacionamentos. Eles têm de aprender como tornarem-se sujeitos sexuais e objetos sexuais e como encontrar um equilíbrio entre ambos. Para a maioria, esse é um processo de tentativa e erro. No processo da sexualização e erotização, especialmente desde a Revolução Sexual, as mulheres chegaram, coletivamente, a uma posição similar à dos jovens quando se tornam sexualmente maduros: elas e eles entraram no processo de tentativa e erro de se tornar cada vez mais um sujeito sexual.

Tentativa e Erro como Processos Coletivos: sexualização e erotização

No século XX, especialmente desde a década de 1960, esse processo de tentativa e erro tem ocorrido coletivamente. Permitindo diferenças de nacionalidade e classe social, os momentos subsequentes de processos de aprendizagem coletiva determinaram, em grande medida, a gama de opções disponíveis com que os indivíduos que vivem em cada momento se viram confrontados. Desde os anos de 1880, ao longo de décadas em que as mulheres se emanciparam, os homens se acomodaram e os jovens continuaram a escapar das asas de seus pais, essa gama se alargou consideravelmente. Até os anos de 1960, no entanto, uma balança de poder altamente desigual entre homens e mulheres, ao lado de uma sexualidade altamente compartimentada, impediu que os desejos carnais e experiências das mulheres fossem expressos. O mesmo valeu para as relações sexuais que não eram necessariamente confidenciais, mesmo entre marido e mulher. A intimidade sexual não exigia muita intimidade relacional ou pessoal, o que é típico de uma balança do prazer em que o desejo sexual e o anseio por uma intimidade relacional mais duradoura não estão fortemente integrados, podendo ser inclusive altamente segregados.

Um olhar para opções mais amplas e um processo coletivo de tentativa e erro parecem conflitar com o fato de que em muitos países ocidentais a velha regra da abstinência sexual antes do casamento foi mantida, formalmente, até a década de 1960. No entanto, essa impressão de conflito é incorreta, porquanto cada vez mais as pessoas têm falado da boca para fora, não têm vivido segundo essa regra e têm praticado uma política de não pergunte, não conte (don’t ask, don’t tell). Uma pesquisa holandesa mostra que os jovens da geração nascida no início do século XX têm adiado o seu primeiro coito em média até dez anos depois de se tornarem sexualmente maduros. A geração que viveu por volta de 1935 esperou 7 anos, um declínio médio de 10 meses em 10 anos. Essa tendência decrescente prosseguiu, pois a geração de 1970 esperou 5 anos, correspondendo a um declínio de 7 meses em 10 anos. Aparentemente, esse declínio ocorreu num ritmo mais lento que o das gerações anteriores à Segunda Guerra Mundial (Vliet, 1990). E, embora a pílula tenha permitido, obviamente, uma sexualidade mais ampla e mais variada e um maior equilíbrio emocional na busca do prazer sexual, esses resultados, no entanto, parecem permitir a conclusão de que a Revolução Sexual não foi tão revolucionária, em termos de um comportamento sexual crucial como o primeiro amor carnal, quanto o foi em termos de uma abertura do debate público sobre a sexualidade e o banimento da hipocrisia de se manter formalmente a proibição da sexualidade pré-marital.

No entanto, a balança de poder entre mulheres e homens, bem como entre pais e filhos, tornou-se menos desequilibrada, e as possibilidades de relações íntimas mais calorosas e francas aumentaram... tal como a necessidade de desenvolver essas relações. Para os homens, a mudança foi mais no sentido de uma erotização ou sensualização do sexo. O prazer sexual masculino passou a depender mais intensamente da ligação sensual ou erótica com o sexo parceiro, isto é, da intimidade relacional. Os homens passaram também a experimentar mulheres não só como objetos sexuais, mas como sujeitos sexuais. Para as mulheres, a mudança foi no sentido de uma sexualização do amor e de se tornarem sujeitos sexuais tanto quanto objetos sexuais. Juntas, essas mudanças correspondem a um processo integrado de sexualização e erotização que perpassou todo o campo da vida social, tanto privada quanto pública. Como o processo-parte da sexualização atraiu maior atenção, também porque, repetidamente, provocava indignação moral, o processo-parte da erotização tem sido reconhecido apenas parcialmente.

Tentativa e Erro antes dos Anos 1960: duas trajetórias de classes sociais

Até a década de 1960, o processo de tentativa e erro na busca por relações mais tranquilas e solidárias entre homens e mulheres percorreu muitas trajetórias, mas ao menos duas se diferenciam pela classe social. Uma delas envolve a boa sociedade [gute Gesellschaft] e grupos de famílias direcionando-se amplamente para o seu modelo. Nos anos de 1880, os jovens dessas classes sociais tinham oportunidades limitadas de selecionar um parceiro marital - e esse estágio se definia por pais controlando estritamente as atividades de cortejo. Um exemplo é a dança, que era tida como excelente arena de cortejo. Somente num baile privado ou num jantar dançante um homem podia dançar com uma garota de sua classe social. Mas, antes, ele tinha de pedir permissão aos pais dela e, caso fosse incluído no programa de danças da moça, poderia optar por uma segunda dança com ela; mas optar por uma terceira dança geraria expectativas e obrigações, conectadas diretamente com noivar e casar. Esse cenário mudou quando as mulheres jovens saíram para trabalhar em lugares como escritórios, bibliotecas, hospitais e escolas, visando sua independência financeira. Adicionalmente, esportes, bicicletas e a mania dançante da década de 1920 abriram oportunidades menos complicadas de encontros. Passou-se a permitir que os jovens frequentassem lugares públicos de dança e organizassem festas de dança particulares, destinadas somente a eles mesmos.

Na Holanda, a formalização das atividades de cortejo e noivado na boa sociedade consistiu também de uma erosão dessa promessa oficial de casar, com os jovens rompendo mais facilmente o compromisso. Dos anos de 1920 em diante, essa atitude mais fluida está documentada nas queixas, cada vez mais frequentes [de autores de livros holandeses de maneiras], sobre jovens rompendo o noivado tanto por iniciativa própria quanto pelas sugestões, baseadas em tal mudança, a simplificar o noivado, que decai de um compromisso público e formal de se casar até uma reunião relativamente pequena, não mais a grande e cerimoniosa ocasião que o noivado costumava ser.

Nas classes sociais onde as filhas jovens comumente trabalhavam como vendedoras, empregadas domésticas ou em oficinas, os códigos da boa sociedade não serviam como modelos perfeitos, e os pais tradicionalmente permitiam que seus filhos comparecessem a ocasiões de encontros (e namoro), como as feiras e os passeios públicos. Os casais se formariam, e muitos casamentos seriam arranjados depois que uma jovem engravidasse (Hessen, 1964). Em seus casamentos, muitos esposos e esposas seguiam padrões tradicionais de vida conjugal: enraizada fortemente em grandes grupos familiares e caracterizada por uma divisão de tarefas e mundos entre maridos e mulheres que, com efeito, excluía em muito a confidencialidade e a intimidade relacional (Straver et al., 1994). Essas tradições vigoram em muitos vilarejos e bairros operários.

Novas Práticas e Novos Conceitos

A tendência dos jovens a escapar das asas de seus pais e a experimentar relações eróticas de sua própria escolha pode ser representada com um enfoque sobre as novas palavras e práticas. Uma prática nova e importante é indicada pela ascensão, na década de 1920, do termo verkering, derivado do verbo verkeren, que significa estar ou andar em companhia [deste ou daquele]. Nos anos de 1880, a palavra adquirira conotações românticas, particularmente quando se viu transformada no substantivo verkering. Assim, algumas pessoas das classes médias o entendiam como uma relação romântica precedendo um noivado formal, enquanto outras o viam como uma relação ocasional que poderia progredir para um vaste verkering, um compromisso mais fixo (= vast), semelhante ao que veio a ser conhecido como going steady [ir com calma] em inglês. Na boa sociedade holandesa, porém, as pessoas não viam com bons olhos o verkering, tanto a palavra quanto a prática. Em seu modo de ver, tratava-se de um hábito mau e repulsivo das classes média e baixa, e assim continuavam a perceber o noivado como o único arranjo adequado para chegar ao casamento. Desse modo, tentaram banir a prática banindo o termo e continuaram sempre a chamar sua relação exploratória7 de noivado, mesmo se o casal jamais tivesse se submetido a uma cerimônia oficial de noivado (mais detalhes em Wouters, 2004; 2014). Uma demonstração do poder duradouro desse habitus da boa sociedade nos é dada por uma psicóloga e jornalista, em sua resenha ao meu livro de 2012:

Ao longo do século XX, não havia uma palavra [em holandês] para um relacionamento romântico com implicações sexuais. Um casal poderia ser casado ou noivo, mas não havia nenhum nome para a fase anterior, pelo menos não em livros de comportamentos que dão conselhos sobre esses problemas espinhosos. A palavra verkering era usada apenas em língua vernácula e simplesmente não se aplicava a pessoas nos círculos mais altos ou burgueses. Verkering ou vaste verkering era algo que a ajudante de cozinha tinha com o seu soldado. Wouters usa repetidamente o termo em seu livro, numa tentativa talvez de torná-lo aceitável como descritivo e neutro, mas para mim o termo está saturado de associações insuportavelmente mesquinhas e, sobretudo, vulgares (Ritsema, 2012, n. p.).

Outra nova prática e outro neologismo dos anos de 1920 é scharrelen8 (literalmente: mover-se procurando ou tateando, como uma galinha ao ciscar), palavra usada para indicar o envolvimento com uma garota visando ao flerte, ao rolo ou um caso que não se destina a se tornar um relacionamento sério de amor. Garotas que admitiam essa prática podiam ser chamadas de scharrel, correndo o risco de serem vistas como vassourinhas9. Uma palavra similar, de sentido negativo, era amatrice (amateur feminina); dos anos de 1920 aos anos 1950, o termo expressava a preocupação moral das classes alta e média holandesas quanto à moralidade de meninas da geração mais nova. A amatrice foi definida como “[...] a garota que se dá a um amigo num relacionamento fixo-frouxo, pelo qual ela é recompensada sendo chamada para sair várias vezes - o que a distingue da prostituta profissional” (Saal, 1950, p. 62). Essas garotas faziam sexo, coisa que não devia acontecer e, se acontecesse, devia ser mantida em segredo ou até ser negada, pois a simples suspeita de ter cedido ao sexo poderia prejudicar a sua reputação e respeitabilidade e, portanto, as suas chances futuras de um bom casamento. Mas, quando a negação se tornava impossível - por exemplo, porque um número crescente de garotas iam visitar médicos e clínicas por motivo de doenças venéreas -, a palavra amatrice foi inventada:

A entrada em cena da amatrice como uma dramatis persona [...] está ligada ao surgimento de uma sexualidade feminina pré-marital que não podia mais, eventualmente, ser localizada apenas dentro das classes baixas ou listada de modo automático sob o rótulo da prostituição (Mooij, 1993, p. 136).

Essa figura da amatrice se evaporou por completo na Revolução Sexual. Removido o estima moral, a amatrice se converteu numa garota com um relacionamento estável, uma garota normal que tinha verkering ou vaste verkering: que estava, portanto, apenas indo com calma.

Na segunda metade da década de 1930, o controle paterno sobre a geração mais nova se suavizou a tal ponto que pais sábios não pensariam em inquirir um rapaz acerca de suas intenções quando este prestava uma atenção extra à sua filha, “[...] nem mesmo se ele a levasse para sair com frequência” (citado em Wouters, 2004, p. 72-73). Os pais eram aconselhados a tratar com rédea mais frouxa seus filhos adolescentes, sendo tolerantes10, e a permitir de maneira condicional essa prática, o que se combinava, geralmente, com uma política de liberdade vigiada mais cautelosa. Desse modo, tentavam fazer pulso firme11 mediante tentativas discretas, mas perceptíveis de estarem em cena com seus filhos, mantendo assim tanto uma ligação íntima quanto um olho orientador. Parece óbvio, no entanto, que, particularmente a partir dos anos de 1920, as relações exploratórias dos jovens - quer fossem chamadas de noivado [compromisso] ou verkering - estavam se tornando cada vez mais sexuais (detalhes em Wouters, 2004; 2014).

Continuidades de Processo em Diferenças de Classes e após a Década de 1960

A sexualização das relações exploratórias tem sido observada em todas as classes sociais. Faz parte de uma tendência geral, e, no entanto algumas diferenças entre classes sociais se preservaram desde antes da década de 1960, até décadas posteriores. Essas diferenças mudaram, com efeito, em vários aspectos; mas na perspectiva relacional algumas subsistiram e, portanto, podem ser indicadas como continuidades de processo. Uma diferença bastante significativa é que, em comparação com moças e rapazes das classes média e alta, seus correspondentes nas classes baixas se casavam, geralmente, em idade mais precoce. É um dos traços de um padrão tradicional que persistiu entre eles. Outra diferença é que o controle social sobre os jovens é menos direcionado a aprendê-los [os traços] para orientar-se e mais para cobrar a obediência a eles em combinação com uma supervisão mais parcial e uma política tácita de não pergunte, não conte. Tal política está relacionada diretamente com entender a sexualidade florescente de meninos e meninas como uma força natural que encontra o seu caminho e com saber que, entre eles, a aquisição da experiência sexual é tida em alta conta como reforçadora de status. Dentro do mesmo padrão tradicional está a conclusão de que esses jovens geralmente iniciam as relações sexuais numa idade mais precoce do que os seus contemporâneos de classes sociais elevadas e que avançam mais rápido, desde o primeiro contato, para a relação sexual completa. Esses e outros exemplos de maior franqueza sexual são relatados em estudos sociológicos e de sexologia e estão discutidos em Wouters (2012).

Jovens de classes sociais mais altas mostram maiores reservas no desenvolvimento de sua trajetória sexual e relacional. Entre esses, a masturbação desponta com maior frequência. Em média, começam mais tarde o relacionamento íntimo (exploratório) e levam mais tempo que seus correspondentes das classes sociais mais baixas para chegar à experiência do sexo completo. São mais reticentes em chegar porque querem desenvolver um consentimento mútuo que inclui estar pronto para a experiência. Essa reticência se relaciona, provavelmente, como uma educação focada menos na obediência aos pais e a outras autoridades do que em aprender a decidir por si próprios. Ao mesmo tempo, a confiança crescente dos pais nas habilidades de autodireção dos filhos tem reduzido, entre os pais, o velho medo de que seus rebentos careçam de autocontrole e se deixem ceder ao sexo quando o controle social estiver ausente. Parece óbvio que essas diferenças entre as classes concordam com as diferenças no desenvolvimento da autodireção.

Conectando Intimidade Sexual e Relacional: tentativa e erro desde a década de 1960

Apesar de muitas flutuações, acelerações e contracorrentes em vários níveis de complexidade, em geral os processos de tentativa e erro têm seguido na direção de uma sexualização do amor (envolvendo principalmente mulheres) e de uma erotização ou sensualização do sexo (principalmente homens). Particularmente, na busca coletiva de como conectar intimidade sexual e relacional, alguns momentos relevantes podem ser distinguidos. Cinco desses momentos serão mencionados a seguir; quatro estão descritos com maiores detalhes e apoiados mais elaboradamente com dados em Wouters (2004); o quinto, em Wouters (2010).

O primeiro momento é a Revolução Sexual. Nessa época, os jovens estão quebrando os tabus de gerações anteriores a tal ponto que houve uma aceleração na emancipação das emoções e impulsos sexuais - permitindo-lhes adquirir consciência e participar do debate público. As mulheres rejeitaram sua submissão tradicional à superioridade masculina a tal ponto que se tornou socialmente aceitável para elas participar de discussões públicas sobre sexualidade e uma balança do prazer mais gratificante. Elas subjugaram sua tradicional vergonha e os contraimpulsos, decorrentes da vergonha, envolvendo sentimentos lascivos e sexuais; pararam de responder de maneira mais tradicional e conservadora do que os homens a perguntas sobre a sexualidade; e, no início da década de 1970, silenciaram os homens que ainda reclamavam porque suas esposas tinham um orgasmo muito lento, passando a ventilar reclamações sobre maridos que tinham o seu orgasmo rápido demais. Num curto período, a força relativamente autônoma do desejo carnal veio a ser reconhecida e respeitada. Para ambos os gêneros, o sexo pelo sexo passou de um espectro degradante a uma alternativa tolerável e, portanto aceitável, permitindo que mais homens e mulheres experimentassem o sexo com maior entusiasmo e fora dos limites do amor. Na época, o espírito de libertação das amarras das gerações mais velhas prevaleceu, impedindo que maior atenção fosse dada às demandas por libertação.

A partir do final dos anos de 1960, quando viver junto sem ser casado se tornou socialmente aceitável e o casamento deixou de ser o único objetivo justo para iniciar uma relação exploratória, o número de pessoas envolvendo-se formalmente diminuiu bastante e a palavra verkering perdeu muito de sua função, tendendo a se tornar obsoleta. Essa tendência se acelerou nas décadas seguintes, com a disseminação [da expressão] de ter uma relação (com alguém) para indicar uma relação sexual e romântica (pela relação em si, somente). Num aspecto, a palavra relação passou pelo mesmo desenvolvimento que a palavra verkeren: adquiriu uma conotação sexual e romântica - na década de 1950 (Instituut Voor de Nederlandse Taal, 2015) - e, nas décadas seguintes, essa conotação se fortaleceu.

O período entre 1968 e 1974 foi de transições abrangentes e rápidas. Uma indicação é que a experiência sexual relatada dos jovens na Holanda dobrou, enquanto suas atitudes em matéria de sexualidade se tornaram duas ou três vezes mais permissivas. Mais importante ainda é que, nesses anos, surgiu uma tendência, na sexualidade adolescente, que duraria até as décadas seguintes, chegando aos dias de hoje: as principais condições para a autorização dos pais a que seus filhos adolescentes fizessem sexo e também a que fossem a uma festa do pijama romântica e sexual se tornou sentir forte atração um pelo outro, bem como o consentimento mútuo quanto a estar pronto para isso, ou seja, pronto para o sexo como uma exploração de sensações físicas, pessoais e relacionais (Wouters, 2012).

Um segundo momento marcante no processo coletivo de tentativa e erro ocorreu na segunda metade da década de 1970, quando as mulheres mudaram a ênfase da liberação sexual (a partir de códigos sexuais paternos) para opressão sexual (por homens): agora, a oposição era contra os códigos e a moral do sexo dominante, contra a violência sexual, e a pornografia passava a ser vista como (provocadora de) violência sexual. Por volta de 1980, grandes manifestações antipornografia foram conduzidas por mulheres, agarrando-se para isso ao seu ideal romântico e relacional de amor. Ao mesmo tempo, contudo, houve discussões sobre mulheres que gostavam de apenas uma noite, excluindo assim a intimidade sexual de outras formas de intimidade; seu desejo de intimidade relacional passou a ser experimentado como um obstáculo ao prazer sexual. Elas evitavam qualquer envolvimento emocional nas relações sexuais. Segundo a tradição, uma mulher deve ter desejos e fantasias sexuais somente dentro de um relacionamento romântico, que deveria durar a vida inteira. Numa balança do prazer que se inclina para o outro lado, a sexualidade da mulher poderia ser despertada somente fora dessa relação, no sexo breve e quase anônimo. Essa compartimentação da sexualidade ou “separatismo sexual” (Lasch, 1979, p. 338) mostrou, claramente, as mulheres se movendo entre os extremos do amor sem o lastro ou a obrigação do sexo e o sexo sem o lastro do amor.

Como uma subcorrente, essa balança do prazer formava o negativo daquela propagada pelo movimento antipornografia. Em grande medida, esse movimento foi uma cólica emancipacional12, expressando problemas relacionados com a emancipação da sexualidade, pois o ataque contra a pornografia masculina dissimulava, ao mesmo tempo em que o expressava, um medo da liberdade (na famosa frase de Erich Fromm), um medo de experimentar e apresentar-se como um sujeito sexual. Esse receio se expressou no movimento antipornografia, bem como no separatismo sexual; e, de qualquer modo, o sexo oposto foi visto como a origem, mas também a solução, de todas as dificuldades. Mulher nenhuma poderia se esquivar por completo do desenvolvimento e de sua ambivalência inerente, mesmo porque antes da revolução sexual o código social permitia às mulheres expressar apenas um lado da balança do prazer.

Em alguns aspectos, os homens parecem ter passado por uma transição similar. Estudos de sexologia do início da década de 1970 indicam, por exemplo, que muitos homens casados ainda relatavam uma preferência por manter certa distância emocional de suas esposas nas relações sexuais. Essa preferência pelo separatismo sexual provavelmente estava ligada a uma experiência similar de mulheres que separavam intimidade sexual de outras formas de intimidade, até porque a intimidade emocional perturba seu apetite sexual. Em 1981, no entanto, um estudo de sexologia mostrou que o número de homens afirmando preferir uma distância emocional ao ter relações sexuais com suas esposas tinha diminuído consideravelmente. Esses homens já não as queriam, aparentemente, apenas como objetos sexuais, mas também como sujeitos sexuais. No mesmo período, tal mudança também pode ser deduzida a partir de um declínio no percentual de homens que expressaram uma forte aversão a praticar sexo oral em mulheres, caindo de 50% em 1971 para 20% em 1981 (Vennix, 1989).

Um terceiro momento de destaque no processo coletivo de tentativa e erro consistiu de um ressurgimento do prazer. A partir da metade da década de 1980 até o início dos anos 1990, a cólica emancipacional foi superada, e uma visão mais relacional e um ressurgimento do prazer (feminino) emergiu, ao lado de discussões públicas sobre temas como homens como objetos sexuais, adultério feminino, masturbação; e, com o sucesso de grupos de strippers masculinos, tais como os Chippendales13, e o lançamento do pornô feminino, a emancipação da sexualidade feminina e a sexualização do amor se aceleraram novamente, tanto entre uma nova geração de mulheres jovens quanto entre as feministas, das quais uma liderança mais velha viu o movimento antipornografia como uma espécie de puritanismo (Meulenbelt, 1988).

A mudança entre os homens foi, de novo, no sentido de experimentar as mulheres menos como objetos sexuais e mais como sujeitos sexuais. Em 1989, metade dos homens relataram a prática de fazer sexo oral em mulheres como algo regular (Vennix, 1989).

Uma comparação entre os adolescentes da geração de 1980 (nascidos entre 1968 e 1972) com o que seus pais da geração dos anos 1950 (nascidos entre 1938 e 1945) relatam sobre sua juventude (Ravesloot, 1997) mostra grandes mudanças: desde as relações rigidamente hierárquicas, em que muita coisa era obrigada, poucas permitidas, o sexo era tabu e muitas lembranças ficaram das tentativas sub-reptícias de escapar a esse regime rígido... até darem aos seus filhos adolescentes a possibilidade de crescerem como seres humanos sexuais, permitindo-lhes experimentar relações exploratórias até que alguma se torne íntima o suficiente para o jovem poder decidir se está pronto para isso.

O quarto momento no processo de sexualização e erotização ocorreu entre o final da década de 1980 até a década de 2000, quando os dois anseios da balança do prazer foram se integrando num nível superior e permitindo mais sexo e expectativas de mais amor, o que implicou que a emancipação feminina se expressava no reconhecimento não só do princípio do consentimento mútuo, mas também da atração mútua. Nesses anos, houve um ressurgimento do amor e do prazer. Como um ideal, uma pesquisa em sexologia de 1990 conclui que a maioria dos jovens vê o amor e o prazer sexual como os dois lados da mesma moeda, e isso vale para meninos e meninas. Sexólogos também observam que os jovens empurravam o casamento e/ou a geração de filhos para uma idade mais avançada; e relatam, nesse ínterim mais longo, uma tendência dos jovens a terem relações monogâmicas e exploratórias sequenciais, caracterizadas como monogamia serial e fidelidade curta (Vliet, 1990; Vogels; Vliet, 1990).

A emancipação da sexualidade feminina e sua contraparte, a erotização e o cerceamento da sexualidade masculina, foram reforçados não só pela literatura (em publicações feministas), por atividades de protesto (contra a violência sexual e o assédio) e por mudanças na lei, tais como tornar o estupro no casamento passível de penalização e de programas sociais que fornecem a base material para que muitas mulheres pudessem desenvolver uma equanimidade do Estado-Providência (Stolk; Wouters, 1987); como também os homens foram pegos num movimento de pinça, entre seu desejo de uma intimidade duradoura, por um lado, sujeitando-se mais cedo e mais fortemente a limitações mais ou menos rigorosas, como deserção e divórcio ou a ameaça de ambos, e, por outro lado, seu desejo de satisfazer a sua própria sexualidade, que se tornou cada vez mais dependente de seu talento para despertar e estimular os desejos sexuais da mulher.

Um quinto momento marcante no processo coletivo de tentativa e erro em direção a uma maior integração do amor e do prazer ocorreu na primeira década do século XXI, com o surto internacional de um ataque à sexualização e à pornificação. À primeira vista, esse ataque pode dar uma impressão diferente daquela de uma integração contínua de amor e prazer, porque ambos os conceitos, pornificação em particular, carregam conotações morais fortemente carregadas de sentido negativo. A um olhar mais próximo, porém, esses protestos simbolizam, predominantemente, uma nova ênfase no lado amor da balança do prazer, porquanto, em comparação com o amor, o sexo se tornou relativamente fácil. Se o antigo movimento antipornografia significou uma tentativa de mais sexo com amor, o novo simbolizava uma tentativa de mais amor com sexo. Claramente, o processo de longo prazo de sexualização e erotização prosseguiu, como antes, na direção da emancipação da sexualidade e, certamente, não na direção do anterior processo de longo prazo de dessexualização, no qual os tabus sobre a sexualidade tinham se fortalecido.

Na Holanda, a mais recente manifestação da busca pela combinação de intimidade (mais) relacional com a intimidade sexual é o movimento do sexo lento. As pessoas envolvidas nesse movimento do sexo lento atacaram o sexo da pornografia, visto sobretudo como mecânico, vulgar e destituído de amor; mas seu ataque não foi assim tão direcionado à pornografia: foi mais o clamor por uma qualidade maior do sexo - sexo como alta-costura -; e tal qualidade foi buscada numa integração da intimidade relacional com a intimidade sexual. O clamor de maior sucesso veio num livro chamado McSex: die pornofizierung unserer gesellschaft - conforme o título alemão (Hilkens 2010). Sua autora tinha vivido uma vida de busca pela satisfação sexual, até que a experimentou como um vazio; seu ataque contra a pornificação é, sobretudo, em favor da erotização do sexo e, portanto, em favor de uma balança do prazer que integre mais a intimidade relacional e a sexual.

Além disso, os protestos contra a pornificação e a sexualização manterão na pauta as questões da balança do prazer, elevando assim a presença erótica e sexual da mente e a sensibilidade a aspectos eróticos e sexuais das relações. Eles são, portanto, instrumentos para impulsionar mais ainda a sexualização e a erotização, no sentido de uma maior emancipação e integração da sexualidade. Assim, os processos de sexualização e erotização não pararam nem mudaram de direção, muito pelo contrário: parece antes que estão se acelerando (Wouters, 2010).

No entanto, a tentativa dos jovens de integrar desejos sexuais numa balança do prazer pessoalmente gratificante e socialmente aceitável está ainda, em grande parte, em pleno desenvolvimento. Tensões e deslocamentos contínuos na definição social do que constitui uma balança do prazer ideal permitem, além disso, propor a conclusão de que a Revolução Sexual não terminou. Indivíduos, tal como as sociedades, ainda lutam com o seu rescaldo, conforme a confusão, o fervor moral e a indignação moral do ataque à sexualização e aos pedófilos o têm demonstrado mais recentemente.

Em 2015, uma pesquisa HBSC (Health Behaviour in School-aged Children14), coletando dados em 44 países ocidentais, informou que as crianças holandesas encabeçam a lista das que têm boa comunicação com seus pais e acham que podem conversar com eles sobre seus problemas (Kuntsche et al., 2015). Provavelmente, muitos pais e adolescentes também gostariam de falar mais abertamente sobre sexo, mas não sabem como, pois se veem frequentemente dominados por algum tipo de confusão. Discutir problemas da balança do prazer ainda é bastante difícil, pois tais problemas são cercados por níveis relativamente altos de vergonha e embaraço, especialmente quando se trata de discutir problemas, medos e desejos sexuais de caráter pessoal. Mesmo com seus pares, a maioria dos adolescentes tem dificuldade de falar sobre suas próprias experiências e desejos sexuais; mas entre eles e seus pais um obstáculo específico se desenvolveu (exceto em casos de incesto), porque é nesse relacionamento que o toque íntimo e outros tipos de contato físico não têm sido reconhecidos (não espelhados) e, no relacionamento e na conversação, têm sido mesmo proibidos. Ao mesmo tempo, à medida que as crianças foram crescendo, a intimidade emocional nessa relação se elevou a um nível no qual qualquer outra relação se tornaria (ou teria se tornado) sexual. Isso cria uma tensão que pode explicar a confusão acerca dos pedófilos15.

Onde Estamos Agora? Obstáculos, Avanços e Recuos

À medida que tanto o consentimento mútuo quanto o dos pais se tornaram mais dependentes da força dos sentimentos de um pelo outro e da profundidade da relação do que da idade ou qualquer outra coisa, adolescentes puderam se sentir relativamente livres para progredir até o estar pronto para ter relações sexuais com outros. Em 2005, ter sentimentos fortes um pelo outro bastava para 80% (era de 75% em 1995) da população escolar na Holanda (com idades entre 12 anos ou mais), como uma condição prévia para fazer sexo (Graaf et al., 2005). Conforme esses números foram aumentando, a observação tradicional de que as meninas amam meninos mais do que sexo e de que os meninos amam mais o sexo do que meninas foi se desgastando. Particularmente após terem adquirido experiência sexual, “[...] os jovens veem o amor e o prazer sexual como os dois lados da mesma moeda, e isso vale para meninos e meninas” (Vliet, 1990, p. 70-71).

Neste processo, a palavra amor assumiu conotações românticas à moda antiga e, em reação, muitos a evitaram ou exageraram o seu uso, diluindo assim as velhas pretensões, que agora exigem mais cuidado. Particularmente nas fases iniciais das relações experimentais exploratórias, a palavra amor tornou-se pesada demais para ser usada, mas, no mesmo fôlego, praticamente todas as palavras antigas para uma relação de amor foram estigmatizadas como cheirando a uma desigualdade antiquada, de casamentos envolvendo cavalos, carruagens e crianças. Expressões como ir com calma, verkering, estar noivo, vaste verkering e um relacionamento estável são descartadas ou postergadas o máximo possível. Elas tendem a reaparecer, porém, na língua dos pais e professores em creches e escolas primárias, quando se fala sobre as relações íntimas, envolvendo colegas, de crianças pequenas, com idade de três e quatro para cima. Pode-se ouvir, por exemplo, que Olivia é noiva de Sam, que Oskar e Julia estão num verkering e que esses casais estão apaixonados - um exemplo de uso banalizante da palavra amor. O termo puppy love16, porém, é cuidadosamente evitado, tendo desaparecido como a maioria das expressões ridicularizadoras.

Em algumas de suas relações exploratórias, pré-adolescentes e adolescentes evitam mesmo a palavra relação, porque sugeriria que a escolha de um parceiro, depois de feita, estaria fechada e acabada, e que se renunciou à independência. Usam, pois, eufemismos, tais como ficar com alguém17, eles se veem por aí, ou se referem a meu amigo, com muitas variações de ênfase na primeira ou na segunda palavra, mas sem maiores especificações. Grande é a engenhosidade em evitar conotações tradicionais. Jovens holandeses (em sua adolescência final ou já chegando aos vinte anos) introduziram as palavras prela e rela (Julen, 2015), esta última composta das primeiras letras da palavra relação, indicando assim apenas metade do compromisso e das obrigações de um relacionamento completo18 - que é conhecida e reconhecida de maneira mais pública por, pelo menos, pais e amigos. Uma prela se refere a uma fase antes de uma rela. A prela pode ou não ser monogâmica, mas a rela e a relação o são (ao menos supostamente). Antes da prela, pode haver uma fase de dingesen, um neologismo ([equivalente a] thinging [literalmente, coisar, ter uma coisinha]), ou de scharrelen [cortejar], uma palavra antiga que hoje perdeu a sua conotação negativa. Este desvanecimento oferece um bom exemplo das conexões existentes entre a emancipação das mulheres, dos jovens, e sua sexualidade. Atualmente, scharrelen significa ter um caso com alguém apenas por prazer (o caso pelo caso), ou seja, sem intenções sérias ou compromissos ou exigências quanto ao futuro. E a prática do scharrelen se coloca no início de uma série de relações exploratórias como uma fase inicial no aprendizado do amor e do prazer. Numa correspondência pessoal, uma jornalista de vinte e poucos anos me escreveu:

As garotas sempre usam a palavra quando falam como mulheres entre elas. ‘A gente scharrel um pouco’.19 Isso soa destemido: ‘Oh, claro, um homem, mas ah, você sabe, só por diversão’. Muita gente da minha geração acha bem normal ter primeiro um período de scharrelen, antes de entrar em algo mais sério; ninguém quer entrar já de cara numa prela ou numa rela (Sadelhoff, 2015, p. 20).

Outra expressão recente, usada nos Países Baixos, é fluxo; os jovens falam sobre meu fluxo e sobre estar num fluxo com alguém. Essa expressão foi tomada, provavelmente, do conceito de flow [fluxo], tal como desenvolvido pelo psicólogo húngaro-americano Mihaly Csikszentmihalyi, significando basicamente completa absorção naquilo que se faz, e adaptado então para expressar uma relação exploratória envolvendo sexo.

Estes conceitos e expressões, dingesen, scharrelen, ter uma prela ou uma rela e estar num fluxo são vagos e respiram ao constrangimento proveniente do medo de se entrar cedo demais numa relação mais completa e séria. Alguns interpretam essa vagueza como decorrente da relutância dos jovens diante do compromisso, desfrutando de sua liberdade e de um menu sexual variado; a maioria se vê como homens, obviamente. Com efeito, tais pessoas existem, têm diferentes demandas e expectativas, mas, de modo peculiar, deixam de sentir e demonstrar o constrangimento que é característico da busca por conceitos e expressões que podem, eventualmente, expressar as várias e diferentes fases no desenvolvimento do amor e do sexo, das relações e experiências da balança do prazer. A condição mais importante para assumir um compromisso é a atração por alguém; e parece que, enquanto não se chega à raiz dessa atração, o compromisso é adiado. Em vez disso, há uma prela, uma rela, um fluxo ou algo.

A busca por novos conceitos pode ser tomada como outro sinal de que sentir-se fortemente atraído pelo outro, amar e fazer amor têm sido vistos cada vez mais como processos de aprendizagem com vários estágios ou fases. Sob essa perspectiva, é óbvio que todas as fases do processo de tentativa e erro para aprender a desenvolver uma balança do prazer gratificante são tomadas com seriedade cada vez maior. Para muitos jovens de hoje, a duração dessa busca por uma balança do prazer satisfatória, com as suas diversas fases e variedade de relações exploratórias, leva mais tempo e envolve mais parceiros sequenciais do que eles (os jovens) e/ou seus pais poderiam desejar, mas é bem mais provável que ambas as coisas tenham se originado de um aumento do que de um declínio nos seus anseios e demandas por intimidade e confiança.

Os principais motores da emancipação da sexualidade não estão relacionados somente com o aumento dos níveis de igualdade e intimidade entre homens e mulheres, mas também com o aumento das expectativas quanto ao que constitui uma balança do prazer gratificante. Processos de emancipação e desigualdade decrescente nas relações de gênero implicaram que mulheres e homens desenvolvessem expectativas mais altas para sua vida amorosa e, como pais, desenvolvessem expectativas mais altas para sua vida familiar, e que, por conseguinte, tivessem maiores exigências frente ao outro. Há um paradoxo na conexão entre o aumento dessas expectativas e demandas, por um lado, e as relações de fidelidade com duração cada vez mais curta por outro: um número crescente de jovens vive um número crescente de relações exploratórias sequenciais de duração relativamente mais curta, e também adultos tendem cada vez mais a viver em relações de monogamia serial. Aumento das expectativas de amor e as crescentes demandas sobre o outro não impediram que as taxas de divórcio diminuíssem, muito pelo contrário; mas é bem mais provável, também, que esse aumento tenha se originado do aumento, em vez de um declínio, na demanda por intimidade e confiança. Essas demandas e expectativas crescentes explicam em grande medida a nova ênfase no lado amor da balança do prazer neste século e explicam também por que o amor se tornou mais difícil, o amor duradouro em particular.

No entanto, uma vez estabelecidos, os níveis de igualdade e intimidade são susceptíveis de ser conservados e transmitidos para a próxima geração. Espera-se que crianças e adolescentes que crescem num certo nível de intimidade e igualdade nas relações de amor e amizade desenvolvam um nível similar e, se possível, até mais alto com pessoas de sua própria geração. Isso se torna o seu ideal relacional. Desde uma idade muito precoce, tais ideais e expectativas são profundamente integrados no nível do habitus da sua personalidade como um código relacional e ideal, proporcionando importantes fontes de significado e valor na vida. Portanto, os jovens desejarão, em suas próprias relações íntimas, graus de intimidade e abertura semelhantes àqueles que experimentaram na juventude. É muito provável que tais anseios e toda a busca por uma maior integração da intimidade sexual e relacional estimulem uma sexualização e erotização continuadas.

Tradução do inglês de Renato Suttana

REFERÊNCIAS

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3Este artigo é baseado em publicações anteriores, feitas em inglês (2004, 2007 e 2010) e uma em holandês (2012). Esta última é baseada largamente em estudos holandeses sobre sexologia, o que implica uma ênfase sobre processos nos Países Baixos; mas creio, e espero, que a sequência e os detalhes sejam úteis para comparações internacionais e que a linha geral desses desenvolvimentos seja reconhecível em todo o Ocidente.

4Publicado no Brasil com o título de Sobre os Seres Humanos e suas Emoções: um ensaio sob a perspectiva da sociologia dos processos (vide Elias, 2009b).

5O autor se refere ao terceiro volume da edição dublinense de The Complete Works de Norbert Elias, publicado em 2012. O Processo Civilizador foi publicado no Brasil em dois volumes, em 1993, pela Editora Jorge Zahar, com tradução de Ruy Jungmann (N. do T.).

6Lust-balance, no original. Conforme observou Viviane Carvalho Bejarano, a propósito de uma tradução do texto Technology and the Lust Balance of Sex and Love: “[...] traduções mais literais para a palavra lust incluem os termos lascívia, concupiscência e luxúria [...] (Wouters, 2006, p. 1). Neste caso, o autor usa o termo sem sua bagagem moralizante, ou seja, no sentido de desejo sensual ou carnal que pode ou não coexistir com o amor: em um extremo, o sexo sem amor, somente pela satisfação carnal, em outro extremo, o amor desprovido de desejo sexual. O autor dá o nome de lust-balance às possibilidades entre um extremo e outro, ou ainda de combinação entre os dois extremos – o amor sexualizado ou o sexo erotizado (no sentido de sexo com desejo amoroso). O termo pode ser traduzido também, conforme sugestão pessoal do autor, por balança de amor-e-sexo, indicando uma situação multipolar, em que o desejo de criar filhos ou a ambição por posições sociais mais elevadas exercem frequentemente um papel importante. Preferimos aqui a expressão, mais fluente, balança do prazer, relacionando o termo prazer à ideia da gratificação física e psicológica decorrente das práticas sexuais (N. do T.).

7Try-out relation, no original (N. do T.).

8Termo holandês para cortejar, flertar, mas também esgravatar, mover-se livremente, entre outros (N. do T.).

9Town bike, no original. Segundo opinião do autor, a expressão traduz o termo holandês afgelikte boterham (literalmente, sanduíche lambido) (N. do T.).

10Gedogen [tolerar], em holandês no original (N. do T.).

11Hang on, no original (N. do T.).

12Emancipation cramp, no original. A palavra cramp tem vários sentidos, significando, entre outras coisas, grampo, abraçadeira, cólica, câimbra, espasmo, mas também pode, quando verbo, significar restringir, cercear, prender, prender com pegador. Em nota pessoal, o autor esclarece: Emancipation cramp é um neologismo. Achei que seria uma imagem forte de mulheres fisicamente impedidas de atravessar os portões de um Éden erótico por cramp, emancipation cramp. A expressão medo da liberdade que vem na frase seguinte tem aproximadamente o mesmo sentido: paralisia quanto a abrir-se e entregar-se aos desejos eróticos e sexuais (e culpando os homens por fazerem exatamente isso). E muitas daquelas que de fato se entregaram o fizeram apenas em segredo e parcialmente, em turnos de uma noite (N. do T.).

13Famosa companhia de strip-tease masculino, fundada em 1979, nos Estados Unidos (N. do T.).

14Comportamento Saudável entre Crianças em Fase Escolar (N. do T.).

15Conforme foram aumentando os níveis de intimidade entre pais e filhos, suas relações eróticas tenderam a abranger emoções e impulsos que foram repelidos imediatamente, devido à sua alarmante natureza sexual. São, pois, experimentados como extremamente perigosos e, assim, tendem a ser restringidos imediatamente ou quase automaticamente, sendo excluídos da consciência e percebidos como não meus. Na medida em que essas emoções permaneceram inconfessadas ou foram banidas da consciência, tornaram-se pontos cegos da consciência que, abordados, por exemplo, em discussões sobre pedofilia e abuso sexual de crianças, podem ser veementemente contestados em outras (ver Wouters, 1998).

16Literalmente, amor [de] filhote, com referência ao amor adolescente (muitas vezes, amor por uma pessoa mais velha) (N. do T.).

17Having something [a thingy] with someone, no original, ter algo ou alguma coisa com alguém (N. do T.).

18Uma busca pelo vocábulo relation [relação] em dicionários etimológicos do holandês sugere que, quando ele apareceu no domínio da intimidade (primeira metade do século XX), sua principal conotação era sexual, tal como em relação extraconjugal; que adquiriu conotações eróticas/românticas somente mais tarde; e que, em seguida, a última conotação ganhou força, provavelmente acompanhando a emancipação da sexualidade.

19We scharrel a bit, no original (N. do T.).

Recebido: 25 de Abril de 2016; Aceito: 04 de Maio de 2017

Cas Wouters estudou Sociologia na University of Amesterdam. Pesquisador da Utrecht University, e da Amsterdam School for Social Science Research (ASSR). Pesquisa temas como os processos sociais e psíquicos ao longo os do século XX, especialmente, ‘processos de informalização’, os comportamentos, as relações de poder e o controle das emoções, a partir das teorias de Norbert Elias. Suas pesquisas têm sido publicadas em diversos países da Europa e USA. Atuou e produziu com Norbert Elias. E-mail: c.a.p.m.wouters@uu.nl

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