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Educação & Realidade

Print version ISSN 0100-3143On-line version ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.43 no.1 Porto Alegre Jan./Mar. 2018  Epub May 29, 2017

http://dx.doi.org/10.1590/2175-623661605 

Diálogos com Pensadores sobre Educação

Foucault e a Pesquisa Educacional Brasileira, Depois de Duas Décadas e Meia

Foucault and Brazilian Educational Research, After Two and a Half Decades

Julio Groppa AquinoI 

IUniversidade de São Paulo (USP), São Paulo/SP - Brasil


Resumo:

O presente artigo devota-se a oferecer um panorama extensivo da recepção das ideias de Michel Foucault na pesquisa educacional brasileira, por meio dos resultados de uma investigação sobre a produção acadêmica de matriz foucaultiana em 52 periódicos educacionais, entre 1990 a 2014. Consoante a uma estratégia de endereçamento à massa documental que fosse capaz de abdicar do ajuizamento dos usos das ideias do pensador, 401 artigos que sugeriam uma apropriação da teorização foucaultiana como modo de trabalho foram selecionados e, então, analisados em conjunto. Ao final do texto, são formulados alguns apontamentos acerca dos limites atuais e das possibilidades futuras dos estudos foucaultianos na educação brasileira.

Palavras-chave: Michel Foucault; Pesquisa Educacional; Literatura Educacional; Estudos Foucaultianos

Abstract:

This article is devoted to providing an extensive overview of the reception of Michel Foucault’s ideas in the Brazilian educational research, through the results of an investigation on the academic production based on Foucault in 52 educational journals, from 1990 to 2014. Relying on a strategy of addressing to the documents able to renounce judging the uses of the thinker’s ideas, 401 articles suggesting an appropriation of Foucault’s theorization as a working mode were selected and, then, analyzed together. At the end of the article, some reflections about current limits and future possibilities of Foucauldian studies in Brazilian education are presented.

Keywords: Michel Foucault; Educational Research; Educational Literature; Foucauldian Studies

Michel Foucault e a Pesquisa Educacional Brasileira: depois de duas décadas e meia1

Em um texto constante do penúltimo dossiê dedicado ao encontro do pensamento de Michel Foucault com a educação, Alfredo Veiga-Neto e Tatiana Luzia Rech (2014) manifestam-se acerca do que reputam como uma foucaultmania em curso na pesquisa educacional brasileira, responsável por gerar “[...] uma lamentável inflação de escritos que pretendem ser foucaultianos, mas que, muitas vezes, não passam de arremedos medíocres e até mesmo ridículos” (Veiga-Neto; Rech, 2014, p. 78). Os autores formulam, então, uma série de precauções para aqueles interessados em conduzir iniciativas que não redundassem, segundo uma analogia com o universo musical por eles evocada, em uma “[...] cacofonia resultante de uma composição mal composta ou de uma execução mal executada” (Veiga-Neto; Rech, 2014, p. 72). Entre tais precauções:

Faça uso interessado de Foucault. […] Não morra de amores pela moda. […] Tente pensar de outros modos. […] Cuidado com a escolha das ferramentas. […] Aposte em uma leitura monumental. […] Exercite a suspeita. […] Não é o assunto ou a instituição que definem uma abordagem foucaultiana. […] Foucault não é um guru (Veiga-Neto; Rech, 2014, p. 75-78).

Passadas mais de duas décadas de uma intensa produção teórica, desde as iniciativas pioneiras a cargo do próprio Veiga-Neto (1995) e de Tomaz Tadeu da Silva (1994), seria chegada a hora, segundo o arbítrio de Veiga-Neto e Rech, de perspectivar mais acuradamente os usos do pensador francês em circulação no quadrante educacional. Imbuído de propósito semelhante, mas não de todo coincidente aos esforços, afinal, mais assertivos dos autores supracitados, o presente artigo devota-se a elaborar um panorama extensivo da recepção das ideias de Michel Foucault na pesquisa educacional brasileira, dando a conhecer os resultados de uma investigação sobre a produção acadêmica de matriz foucaultiana divulgada em 52 periódicos da área educacional nas duas últimas décadas e meia; mais precisamente, de 1990 a 2014.

Sobre os Procedimentos Investigativos

Uma atualização do quadro das produções devotadas ora a difundir, ora a operacionalizar a teorização foucaultiana em diferentes áreas do conhecimento, permite-nos vislumbrar o seguinte quadro geral2:

• 21 dossiês e números especiais de periódicos, sendo 12 ligados a determinadas áreas do conhecimento (filosofia, sociologia, história e psicologia), bem como nove deles do campo educacional;

• 39 coletâneas, sendo 27 derivadas de eventos acadêmicos (congressos, colóquios, encontros etc.) e outras 12 originadas da reunião de pesquisadores universitários;

• 42 livros de diferentes áreas que se debruçaram sobre tópicos foucaultianos específicos; 21 que relacionam Foucault e outros campos do saber ou temáticas não imediatamente foucaultianas; e 11 que cotejam ou associam Foucault com outros autores.

No caso das obras da área educacional (não computadas na relação anterior), 10 coletâneas e 26 livros individuais (ou em coautoria) poderiam ser considerados parcial ou integralmente adeptos das teorizações foucaultianas, seja do ponto de vista temático, teórico e/ou metodológico. Em termos comparativos, o número significativo de obras educacionais revela-se mais volumoso do que aqueles dos campos de conhecimento historicamente relacionados ao pensador francês, como os da filosofia e da história, ou mesmo do direito ou da medicina. Caminho semelhante percorreram as teses e dissertações que se valeram explicitamente da interlocução com as ideias foucaultianas. Um levantamento sumário junto ao Banco de Teses da Capes3, referente ao período entre 2010 e meados de 2015, aponta o número de 824 trabalhos de pós-graduação cujos resumos citaram o pensador.

Entre as áreas de conhecimento a que tais trabalhos são filiados, a de educação (incluídas as áreas correlatas de ensino: ensino de ciências e matemática, educação de adultos, planejamento educacional e educação em periferias urbanas) é, novamente, a que mais se destaca, apresentando a somatória de 247 trabalhos - equivalentes a 30% do total -, sendo seguida pelas áreas de letras e linguística (173 trabalhos), psicologia (80), filosofia (57), sociais e humanidades (29), e outras 47 áreas.

A patente porosidade dos estudos educacionais às ideias de Foucault impele-nos a dedicar um olhar mais detido ao tipo de produção aí levado a cabo. Mas como fazê-lo a contento? Como perspectivar tal fenômeno, em seus detalhes?

Em outra ocasião (Aquino, 2013), discutimos a dificuldade acentuada das pesquisas voltadas à difusão de determinado autor em um campo de conhecimento, o que pressuporia o manejo de uma simultaneidade de fontes paralelas e, amiúde, não coincidentes: livros (integrais e capítulos); teses e dissertações; trabalhos apresentados em congressos/eventos; e também os artigos publicados nos periódicos da área. E é sobre esse último estrato da massa documental que ora nos debruçamos.

A eleição dos periódicos acadêmicos como continente investigativo ancora-se na premissa de sua relevância como suporte discursivo, já que arbitrado por pares e, supõe-se, passível de ampla circulação entre os pesquisadores. Nesse sentido, trata-se do nicho escritural mais fidedigno do acervo investigativo de um campo do conhecimento, sem com isso invalidar a hipótese de que outros estratos textuais possam ser igualmente elucidativos da recepção do pensador. Exemplo disso é a iniciativa de Glaybe Antonio Sousa Pimentel e Paulo Sérgio de Almeida Corrêa (2015), em que os autores passaram em revista uma amostra parcial (2000-2009) da produção de timbre foucaultiano por cinco cursos de pós-graduação de diferentes regiões geográficas do país: Universidades Federais do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Norte e do Pará, além da Universidade de Brasília.

Em nosso caso, além de focalizarmos a produção contida nos periódicos, recuamos até o início da década de 1990, de modo a contemplar as iniciativas germinais de interlocução direta com o referencial foucaultiano. Primeiro passo: a seleção dos periódicos. Optamos pelos veículos editoriais que compunham os três primeiros estratos avaliativos (A1, A2 e B1) do Sistema Qualis da CAPES, segundo sua versão de 2012 - disponível à época do início dos trabalhos4. Vale dizer que tomamos apenas as produções originais da área educacional, uma vez que várias outras áreas de conhecimento correlatas têm alguns de seus periódicos igualmente contemplados aí. Definida a constelação dos 52 periódicos, o próximo passo consistiu na imersão em cada um de seus 2.511 volumes publicados no período.

Uma das dificuldades enfrentadas se referiu ao fato de que boa parte das revistas não contava com seu acervo integral digitalizado, obrigando-nos a rastreá-las em instituições espalhadas pelo país. Sem dúvida, o acesso aos textos consistiu na tarefa mais morosa e intricada, tendo exigido uma dose adicional de obstinação; atitude, afinal, imprescindível para todo aquele que elege arquivos temporais extensos como lócus investigativo. Trata-se, assim, de uma espécie de atenção contínua ao detalhe, ao gosto do próprio Foucault (2000), segundo o qual a investida genealógica deveria consistir em um gesto minucioso e paciente, do ponto de vista da documentação.

Assim, o procedimento inicial de investigação consistiu no rastreamento dos textos que informaram, em suas referências bibliográficas, ao menos uma das obras de Foucault, efetivamente abordando-a no corpo do texto. Tal busca resultou no montante de 1.821 artigos, incluídos os autores ligados a instituições estrangeiras. Mediante o volume de informações coletadas, tratou-se, em seguida, de discriminar os textos segundo três categorias distintas - a apropriação incidental, a apropriação conceitual tópica e a apropriação do modo de trabalho -, a reboque daquelas empregadas por Afrânio Mendes Catani, Denice Bárbara Catani e Gilson Pereira (2001) no estudo sobre as apropriações de Pierre Bourdieu no campo educacional, ao qual o presente trabalho se alinhou quanto aos procedimentos gerais.

No primeiro caso, conforme o trio de investigadores explicita, trata-se de referências breves, em geral exclusivas, a alguma obra daquele autor, podendo esta constar apenas da listagem bibliográfica, sem menção direta ou substantiva propriamente no corpo do texto. A apropriação incidental refere-se, portanto, a uma relação tênue estabelecida entre a menção ao autor/obra e a argumentação operada.

A apropriação conceitual tópica, por sua vez, é “[...] caracterizada pelo fato de deixar entrever a utilização, conquanto não sistemática, de citações e eventualmente de conceitos do autor” (Catani; Catani; Pereira, 2001, p. 65). Estes são empregados, em maior ou menor escala, para justificar reflexões propiciadas por um enquadre teórico-metodológico não necessariamente coincidente àquele do autor evocado/citado. Em geral, algumas obras deste são referidas.

Por fim, a categoria apropriação do modo de trabalho descreve o emprego coerente da teorização proposta pelo autor citado, seja no que se refere à incorporação de conceitos específicos, seja quanto à ativação de estratégias metodológicas solidárias a tais conceitos. Trata-se de tentativas de articulação da utensilagem teórica ora a problemas empíricos, ora ao debate conceitual. Daí que um conjunto de obras do autor eleito é, em geral, referido explicitamente no percurso argumentativo dos textos enquadrados nessa categoria.

Uma vez discriminados de acordo com as três grandes categorias, apenas os estudos que tomaram o pensamento de Foucault como modo de trabalho foram selecionados para o trabalho analítico, uma vez que, a rigor, eram eles que continham mais explicitamente os processos que nos interessavam.

A seguir, o quadro geral dos dados escrutinados (Quadro 1):

Quadro 1: Distribuição da Produção Integral nos Periódicos Selecionados 

Periódico Artigos que citaram Foucault Artigos de autores estrangeiros Artigos de autores brasileiros
Apropriação incidental Apropriação tópica Apropriação do modo de trabalho
Acta Scientiarum. Education 05 0 01 04 0
Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior 14 06 07 0 01
Boletim de Educação Matemática 20 02 07 05 06
Cadernos CEDES 35 02 26 04 03
Cadernos de Educação 54 08 27 06 13
Cadernos de História da Educação 36 03 26 03 04
Cadernos de Pesquisa 48 12 25 02 09
Ciência & Educação 19 01 11 03 04
Contrapontos 34 01 16 08 09
Currículo sem Fronteiras 57 09 23 04 21
Educação (PUCRS) 52 11 26 03 12
Educação (UFSM) 33 03 21 03 06
Educação & Realidade 180 41 55 25 59
Educação & Sociedade 73 16 34 09 14
Educação e Cultura Contemporânea 16 02 05 04 05
Educação e Filosofia 34 02 20 02 10
Educação e Pesquisa 55 07 26 06 16
Educação em Foco (UEMG) 17 0 12 04 01
Educação em Foco (UFJF) 25 02 19 01 03
Educação em Revista 66 06 28 10 22
Educação Temática Digital 79 14 36 09 20
Educação UNISINOS 43 04 27 03 09
Educar em Revista 56 09 28 05 14
Em Aberto 25 03 17 02 03
Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação 12 0 11 01 0
Estudos em Avaliação Educacional 09 01 06 01 01
História da Educação 43 14 17 03 09
Inter-ação 23 02 15 03 03
Investigações em Ensino de Ciências 06 01 05 0 0
Linhas Críticas 20 02 09 04 05
Perspectiva 49 05 24 11 09
Práxis Educativa 12 05 03 01 03
Pro-Posições 73 09 36 10 18
Psicologia da Educação 11 0 09 0 02
Psicologia Escolar e Educacional 05 0 01 01 03
Revista Brasileira de Educação 66 06 36 08 16
Revista Brasileira de Educação Especial 09 01 06 01 01
Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos 31 02 25 0 04
Revista Brasileira de História da Educação 38 11 24 0 03
Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências 07 01 03 0 03
Revista Brasileira de Política e Administração da Educação 09 02 04 03 0
Revista da FAEEBA 49 02 34 05 08
Revista de Educação Pública 29 02 24 02 01
Revista Diálogo Educacional 21 0 17 01 03
Revista E-Curriculum 17 05 08 01 03
Revista Educação em Questão 23 03 15 02 03
Revista Ensaio: pesquisa em educação em ciências 08 0 07 0 01
Revista HISTEDBR on-line 41 0 34 03 04
Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação 15 0 08 03 04
Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação 57 12 17 10 18
Teias 42 02 19 18 03
Zetetiké 20 01 05 05 09
TOTAL 1821 253 944 222 401

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados.

Uma vez selecionados os 401 textos que sugeriam uma apropriação da teorização foucaultiana como modo de trabalho, algumas questões geradoras impuseram-se: quem eram os pesquisadores envolvidos e suas respectivas filiações institucionais; quais as modalidades narrativas prevalentes; quais as principais temáticas abordadas; qual a abordagem investigativa predominante; quais conceitos foucaultianos foram mobilizados e quais as obras referidas e efetivamente trabalhadas; quais outros autores e/ou comentadores foram evocados e/ou articulados nas argumentações.

Optamos por uma estratégia de endereçamento à massa documental que, atenta apenas a seus movimentos fáticos, fosse capaz de abdicar do ajuizamento de supostos bons, ou maus, usos das ideias foucaultianas, assim como de apropriações mais, ou menos, fidedignas, adequadas, consistentes etc. De modo consonante à manifestação de Michael Peters e Tina Besley (2008) acerca da recepção heterogênea das ideias foucaultianas no mundo anglófono, pautamo-nos na seguinte premissa:

Podemos escolher aspectos de seu pensamento ou influências presentes no seu pensamento para demonstrar uma proposição, elucidar um ponto, examinar um argumento ou enfeitar nossas próprias intuições teóricas. Foucault quase estimula essa apropriação fragmentária, não-sistemática e poética de sua obra. [...] Que um texto estimule e permita novas interpretações é um sinal de sua riqueza, profundidade e complexidade (Peters; Besley, 2008, p. 14).

Desta feita, de modo refratário a qualquer tentação hermenêutica generalizante das fontes sobre as quais nos debruçamos, preferimos nos aventurar na superfície acidentada de um arquivo extenso, compreendendo-o tão somente como uma prática igualmente acidentada, sujeita, portanto, a um sem-número de revezes. Tratou-se, em suma, do esforço deliberado em favor de uma espécie de ignorância ativa e, ao mesmo tempo, interessada pelo que ali se passava. Guardadas as proporções, coube-nos observar um gesto do próprio Foucault (2014), ao comentar retrospectivamente seu trabalho sobre a loucura:

Tratava-se de não partir de nenhum universal que dissesse: eis a loucura. [...] Era preciso considerar a loucura um x e se apropriar da prática, somente da prática, como se não se soubesse nada e fazendo de modo a não saber nada sobre o que é a loucura (Foucault, 2014, p. 74).

Foucault na Investigação Educacional Brasileira

Iniciemos o trajeto analítico destacando a produção de origem estrangeira que evocou o nome de Foucault entre os 1.821 artigos. Nos 52 periódicos, tal produção equivale a 253 textos - pouco menos de 14% do total -, a cargo de 285 autores (de modo individual, em duplas ou em maior número) oriundos de 20 diferentes países5. Como se pode atestar a seguir (Gráfico 1), a Argentina, ao ocupar posto principal com mais de um quarto do total das filiações autorais (26%), junto com outros cinco países latino-americanos, abriga a maioria dos pesquisadores estrangeiros (43%), seguidos pelos europeus (42%). Contabilizam-se, ainda, aqueles sediados na América do Norte (14%) e, por fim, os australianos (pouco mais de 1%). Não se registrou a presença de autores dos outros dois continentes.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 1 Produção de Origem Estrangeira 

Entre os autores mais assíduos estão o inglês Stephen J. Ball, com sete artigos, e o argentino Pablo Ariel Scharagrodsky, com cinco. Outro argentino, Mariano Narodowski, assim como o colombiano Carlos Ernesto Noguera-Ramírez e o português José Augusto Pacheco tiveram, cada qual, quatro textos publicados. Com um número menor de textos, figuram outros nomes de destaque no âmbito dos estudos foucaultianos, cuja produção tem sido referencial para uma série de estudos nacionais, tais como: Jorge Ramos do Ó e Thomas S. Popkewitz, com três textos cada um; Inés Dussel, Jan Masschelein, Jorge Larrosa e Valerie Walkerdine, com dois textos; bem como Jennifer M. Gore, Olena Fimyar, Colin Gordon, Fernando Alvarez-Uria, Julia Varela e Nikolas Rose, com um texto cada um.

Separado o quadro dos autores estrangeiros, tomamos como parâmetro, tal como já referido, os artigos que se enquadravam na categoria modo de trabalho, sobre os quais nos detivemos atentamente. Conforme se verá abaixo (Gráfico 2), trata-se de mais de um quarto da produção integral (26%), sendo o restante distribuído da seguinte maneira:

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 2 Produção Investigativa Segundo os Tipos de Apropriação 

No que diz respeito à cronologia dos textos, temos que o primeiro artigo explicitamente devotado ao pensamento foucaultiano, da autoria de Maria Juracy Toneli Siqueira (1990), veio a público em 1990, na revista Perspectiva. Vejamos.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 3 Distribuição Temporal da Produção Selecionada 

Se agrupados em faixas temporais mais longas, os dados (Gráfico 3) revelam-se esclarecedores quanto ao crescimento exponencial dos trabalhos devotados a ou inspirados pelo pensamento foucaultiano, chegando, em alguns casos, a mais que duplicar em cada intervalo sucessivo de cinco anos. Vejamos no gráfico abaixo (Gráfico 4):

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 4 Distribuição Temporal da Produção Selecionada Segundo Faixas de Cinco Anos  

Nos últimos cinco anos pesquisados, concentra-se mais da metade do total dos artigos - mostra irrefutável do crescente interesse pela teorização foucaultiana na investigação educacional realizada no país. Quanto aos periódicos propriamente, temos o seguinte:

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 5 Distribuição da Produção Selecionada nos Periódicos 

A maior frequência de publicações relacionadas a Foucault - equivalente a pouco menos de 15% do total - é encontrada em Educação & Realidade (Gráfico 5), periódico ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em cuja Faculdade de Educação foram disparadas as pesquisas em torno do pensador francês e que, conforme se verá adiante, continua a sediá-las com regularidade. Em seguida, aparece um segundo grupo de 12 revistas cuja produção mantém-se entre 22 e 10 artigos publicados. Por sua vez, um terceiro grupo, com 35 revistas, publicou um número menor de artigos - de nove a um - que tiveram Foucault como referência principal. O último grupo, composto por quatro periódicos, não teve artigos computados nessa etapa da investigação, embora contasse com textos que mobilizaram apropriações incidentais ou conceituais tópicas.

Quanto à autoria referida na produção dos 401 artigos, temos novamente um conjunto de dados (Quadro 2) bastante esclarecedores: trata-se de 323 autores, assim distribuídos, segundo o número de artigos de sua lavra (individual ou em parceria)6.

Quadro 2: Distribuição dos Autores da Produção Selecionada 

FISCHER, Rosa Maria Bueno; HENNING, Paula Corrêa. 16
VEIGA-NETO, Alfredo. 11
AQUINO, Julio Groppa; GARCIA, Maria Manuela Alves; KNIJNIK, Gelsa; PARAÍSO, Marlucy Alves. 9
LOPES, Maura Corcini; SILVA, Roberto Rafael Dias da. 8
MARCELLO, Fabiana de Amorim. 7
BUJES, Maria Isabel Edelweiss; SARAIVA, Karla; SIQUEIRA, Vera Helena Ferraz de. 6
CARVALHO, Alexandre Filordi de; CESAR, Maria Rita de Assis; CORAZZA, Sandra Mara; GARRÉ, Bárbara Hees; GONDRA, José Gonçalves; LOPONTE, Luciana Grupelli; RIBEIRO, Cintya Regina; SOUZA, Maria Celeste Reis Fernandes de; TRAVERSINI, Clarice Salete. 5
BAMPI, Lisete; CARVALHO, Rodrigo Saballa de; FABRIS, Elí Terezinha Henn; FONSECA, Maria da Conceição Ferreira Reis; FREITAS, Alexandre Simão de; GALLO, Silvio; LOCKMANN, Kamila; WANDERER, Fernanda. 4
BELLO, Samuel Edmundo Lopez; CAMOZZATO, Viviane Castro; DINIS, Nilson Fernandes; ESPÍRITO SANTO, Shirlei Rezende Sales do; FERRARI, Anderson; GELAMO, Rodrigo Pelloso; GUARESCHI, Neuza Maria de Fátima; LEMOS, Flávia Cristina Silveira; LUNARDI-LAZZARIN, Márcia Lise; PAGNI, Pedro Angelo; PEREIRA, Marcos Villela; RATTO, Ana Lúcia Silva; RESENDE, Haroldo de; RIBEIRO, Paula Regina Costa; ROCHA, Cristianne Maria Famer; SOMMER, Luis Henrique. 3
ABREU JUNIOR, Laerthe de Morais; ALTMANN, Helena; AVELINO, Nildo; CARDOSO JÚNIOR, Hélio Rebello; CARNEIRO, Vera Clotilde Garcia; CARVALHO, Rosângela Tenório de; CHAVES, Silvia Nogueira; CINTO, Gregory de Jesus Gonçalves; COSTA, Marisa Vorraber; COUTINHO, Karyne Dias; DAL’IGNA, Maria Cláudia; DIAS, Romualdo; DORNELES, Leni Vieira; DUARTE, André; DUARTE, Claudia Glavam; FAVACHO, André Márcio Picanço; FERRARO, José Luís Schifino; FERREIRA, Maurício dos Santos; FISCHER, Beatriz Daudt; FONSECA, Márcia Souza da; FREITAS, Lilliane Miranda; GUIMARÃES, Paula Cristina David; HENNIGEN, Inês; HÜNING, Simone Maria; JUNGES, Débora de Lima Velho; KLEIN, Madalena; LEAL, Adriana Bergold; LIRA, Aliandra Cristina Mesomo; LOGUERCIO, Rochele de Quadros; MACHADO, Fernanda de Camargo; MASCIA, Márcia Aparecida Amador; MENDES, Claudio Lucio; MONTEIRO, Sueli Aparecida Itman; NALDINHO, Thiago Canonenco; NEVES, Dimas Santana Souza; OSÓRIO, Mara Rejane Vieira; OSOWSKI, Cecília Irene; PORTOCARRERO, Vera; RATTO, Cleber Gibbon; RECH, Tatiana Luiza; ROTONDO, Margareth Sacramento; SÁ, Márcia Bastos de; SCHULER, Betina; SCHWERTNER, Suzana Feldens; SIERRA, Jamil Cabral; SILVA, Fabiane Ferreira da; SILVA, Gisele Ruiz; SOUZA, Nadia Geisa Silveira de; SOUZA, Regina Maria de; TERNES, José; TOMAZETTI, Elisete M.; VOSS, Dulce Mari da Silva; WEINMANN, Amadeu de Oliveira. 2
ABDALLA, Maria de Fátima Barbosa; AGUIAR, Fátima Rita Santana; ALCÂNTARA, Celina Nunes de; ALMEIDA, Cíntia Borges de; ALMEIDA, Marcos Adriano de; ALMEIDA, Maria Cristina Alves de; ALVARENGA, Lídia; ANADON, Simone Barreto; ANDRADE, Edson Francisco de; ANDRADE, Eliane Righi de; ANDRADE, Silvanio de; ARAÚJO, Inês Lacerda de; ARTUSO, Alysson Ramos;ASSIS, Maria de Fátima Pessoa; ASSMANN, Selvino José; ASTIGARRAGA, Andrea Abreu; BALINHAS, Vera Lúcia Gainssa; BARBOSA, Socorro de Fátima Pacífico; BARREYRO Gladys Beatriz; BARROS, Gislene Valério; BARROS, João Paulo Pereira; BARROS, Suzana da Conceição de; BAUTHENEY, Katia Cristina Silva Forli; BECK, Dinah Quesada; BENEVIDES, Pablo Severiano; BERGER, Miguel André; BERNARDES, Sueli Teresinha de Abreu; BITTENCOURT, Letticiae Portes; BOCASANTA, Daiane Martins; BORDAS, Miguel Angel Garcia; BORGES, Angélica; BOVO, Audria Alessandra; BRAGA, Denise da Silva; CAMARGO, Ana Maria Faccioli de; CANDIOTTO, Cesar; CARDOSO, Lívia de Rezende; CARVALHO, Eliane Vianey de; CARVALHO, Janete Magalhães; CARVALHO, Washington Luiz de; CAVALCANTI, Kátia Brandão; CHAVES, Ernani; CHRISTÓFARO, Alice da Conceição; CLARETO, Sônia Maria; COSTA, Sylvio de Sousa Gadelha; COSTA, Wanderleya Nara G.; CRUZ, Elizabete Franco; CRUZ, Jairo Antônio da; CUNHA JÚNIOR, Carlos Fernando Ferreira da; CUNHA, Álvaro Luís Ávila da; DALBOSCO, Claudio A.; DALLABRIDA, Norberto; DAMÁZIO JÚNIOR, Valdir; DAMETTO, Jarbas; DAMICO, José Geraldo Soares; DEL PINO, José Claudio; DELBONI, Tânia Mara Zanotti Guerra Frizzera; DEUSDARÁ, Bruno; DINALI, Wescley; DOMINGUES, Kátia Cristina M.; DURÃES, Sara Jane Alves; EIZIRIK, Marisa Faermann; ELIAS, Aluizio Ferreira; ESQUINSANI, Rosimar Serena Siqueira; FALKEMBACH, Elza Maria Fonseca; FERNANDES, Ângela Maria Gomes Ribeiro; FIOREZE, Leandra Anversa; FISCARELLI, Rosilene Batista de Oliveira; FLEURI, Reinaldo Matias; FONSECA, Marina Cardoso Gondin da; FURLANI, Jimena; GABARDO, Cleusa Valério; GAMA, Zacarias Jaegger; GARNICA, Antonio Vicente Marafioti; GASPARATO, Giovana Cristina Ferrari; GIONGO, Ieda; GIUSTI, Patricia Haertel; GODOY, Ana; GOMES, Alfredo Macedo; GUARIDO, Renata; GUIDO, Humberto Aparecido de Oliveira; GUIMARÃES, Marcelo Senna; HAGEMEYER, Regina Cely de Campos; HENNING, Clarissa Corrêa; HERMES, Simoni Timm; ICLE, Gilberto; JELINEK, Karin Ritter; KOHAN, Walter Omar; LACERDA, Nilma Gonçalves; LEITE, Miriam Soares; LEITE, Vanessa Caldeira; LEMOS, Daniel Cavalcanti de Albuquerque; LIMA, Ana Cristina Moreira; LIMA, Ana Laura Godinho; LIMA, Francis Madlener de; LIMA, Márcia Machado de; LIMA, Solyane Silveira; LIMA, Walter Matias; LINHARES, Martha Maria Prata; LOPES, Rodrigo Barbosa; MACHADO, Roseli Belmonte; MAIA, Antonio; MAKNAMARA, Marlécio; MALDONADO, Maritza Maciel Castrillon; MARANHÃO, Renata Queiroz; MARÇAL, Katiuska Izaguirry; MARCHI, Rita de Cássia; MARIGUELA, Adriana Duarte Bonini; MARIGUELA, Márcio Aparecido; MARÍN, Dora; MARTINS, Carlos José; MARTINS, Maria Cristina; MATE, Cecília Hanna; MATOS, Sônia Regina da Luz; MENDES, Jackeline Rodrigues; MENEZES, Antonio Basilio Novaes Thomaz de; MIGUEL, Antonio; MONTANARI, Paula Bernadete; MONTEIRO, Alexandrina; MONTEIRO, Francisca Paula Toledo; MONTEIRO, Luiza Pereira; MOREIRA, Leonardo Maciel; MORGENSTERN, Juliane Marschall; MOTA, Maria Renata Alonso; MOTTA, Flávia Miller Naethe; MOURA, Anna Regina Lanner de; MOURA, Maria da Conceição de Almeida; MULLER, Tânia Mara Pedroso; MUTZ, Andresa Silva da Costa; NARDI, Henrique Caetano; NASCIMENTO, Maria Lívia do; NASCIMENTO, Silvania Sousa do; NAUJORKS, Maria Inês; NUNES, Nei Antonio; OLIVEIRA, Ana Claudia Coelho de; OLIVEIRA, Avelino da Rosa; OLIVEIRA, Cláudio José de; OLIVEIRA, Fernando Bonadia de; OLIVEIRA, Guilherme Magalhães Vale de Souza; OLIVEIRA, Maria Lúcia de; OLIVEIRA, Sandra de; OSÓRIO, Antônio Carlos do Nascimento; PAMPLONA, Renata Silva; PARONETO, Glaura Morais; PASSEGGI, Maria da Conceição; PAVAN, Ruth; PEREIRA JUNIOR, Geraldo; PEREIRA, Marcelo Ricardo; PEREIRA, Nilton Mullet; PICOLI, Arlindo Rodrigues; PINO, José Cláudio Del; PINTO, Celi Regina Jardim; PIZZI, Laura Cristina Vieira; POSSA, Leandra Boer; PRATA, Maria Regina dos Santos; PRESTES, Nadja Hermann; QUADRADO, Raquel Pereira; QUEIROGA, Maria do Socorro Nóbrega; REZENDE, Luiz Augusto; RIBEIRO, Carlos Eduardo; RIBEIRO, Marlene; RIBEIRO, Ormezinda Maria; RIBEIRO, Saulo Eduardo; RIBEIRO, Tiago Magalhães; RIOS, Jane Adriana Vasconcelos Pacheco; RITO, Marcelo; ROCHA, Francisca Helena; ROCHA, Marisa Lopes da; RODRIGUES, Luana de Cássia Martins; ROPELATO, Carla Clauber da Silva; ROTHEN, José Carlos; RUIZ, Eliana Maria Severino Donaio; SALES, Celecina; SANTOS, Ana Paula Rufino dos; SANTOS, Cláudia Amaral dos; SANTOS, Lucíola Licinio de C. P.; SANTOS, Tiago Ribeiro; SCHEINVAR, Estela; SCHILLING, Flavia Inês; SCHOLZE, Lia; SENA, Fabiana; SERAFIM, Cássio Eduardo; SILVA, Aline Ferraz da; SILVA, Andréa Costa da; SILVA, Edna; SILVA, Eduardo Pinto e; SILVA, Heloisa da; SILVA, Ivonei Freitas; SILVA, Juriene Pereira da; SILVA, Marluce Pereira da; SILVA, Mozart Linhares; SILVA, Pierre Normando Gomes da; SILVA, Renato Izidoro da; SILVA, Rosane Neves da; SILVEIRA, Rosa Maria Hessel; SIQUEIRA, Maria Juracy Toneli; SOUZA, Antonio Carlos Carrera de; SOUZA, Diogo; SOUZA, Osmar de; STEPHANOU, Maria; STROILI, Maria Helena Melhado; STÜBE NETTO, Angela Derlise; TAKARA, Samilo; TASCHETTO, Leonidas Roberto; TAVARES, Luana Serra Elias; TEIVE, Gladys Mary Ghizoni; TEIXEIRA, Francimar Martins; TERUYA, Teresa Kazuko; TIBÉRIO, Wellington; UBERTI, Luciane; VAL, Gisela Maria do; VALEIRÃO, Kelin; VASCONCELOS, Tânia Mara Pereira; VEIGA JUNIOR, Álvaro; VIEIRA-MACHADO, Lucyenne Matos da Costa; VIEIRA, Jarbas Santos; VIEIRA, Marcilio de Souza; VIEIRA, Virgínia Tavares; VILELA, Denise Silva; VITORINO, Artur José Renda; WEBER, César Augusto Trinta; XAVIER FILHA, Constantina; XAVIER, Maria Luisa M; ZOBOLI, Fabio; ZUBEN, Marcos de Camargo von. 1

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados.

Cabe destacar o fato de que os primeiros 10 autores - menos de 3% do total - concentram mais de um quarto da produção nos periódicos analisados, com o montante de 102 artigos. Conclui-se, portanto, que se trata da reunião dos pesquisadores mais assíduos, sem que isso signifique necessariamente impacto sobre as pesquisas alheias. Mostra disso são as citações mais frequentes nos 401 artigos.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 6 Autores mais citados na produção selecionada 

Como é visto no Gráfico 6 (acima), no caso dos autores brasileiros, salta aos olhos o fato de a obra de Alfredo Veiga-Neto, por meio de seus livros ou artigos, ter sido citada em quase 40% dos artigos selecionados. Ele e Rosa Maria Bueno Fischer, bem como, em menor grau, Sandra Mara Corazza, constituem o trio de autores que lograram um duplo reconhecimento: estão entre os mais produtivos e, ao mesmo tempo, os mais referidos na produção nacional. Não sem razão, os três pesquisadores estão ou estiveram ligados à UFRGS, sede do maior número de filiações institucionais dos trabalhos publicados. Tomaz Tadeu da Silva, também ligado à UFRGS, e Roberto Machado, autor do campo filosófico e um dos introdutores de Foucault no país, somam-se aos autores mais citados, embora, em ambos os casos, eles não figurem entre autores dos artigos.

No que diz respeito aos estrangeiros referidos, trata-se, na maioria das vezes, daqueles pensadores que, nos textos, foram evocados a título ora de conexões, ora de contraponto, ora ainda de atualização teórica do referencial foucaultiano, fosse no quadrante imediatamente educacional - nos casos de Jorge Larrosa e Thomas Popkewitz -, fosse de modo mais genérico - com Gilles Deleuze, Nikolas Rose e Zygmunt Bauman.

A seguir (Gráfico 7), a relação das procedências dos autores brasileiros.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 7 Filiações Institucionais dos Autores 

Novamente, destaca-se a participação dos pesquisadores da UFRGS. Sozinhos, eles são responsáveis por quase 21% do total de filiações institucionais. Porém, se somados aos colegas da UNISINOS, FURG, ULBRA, UFPel, UFFS, UFSM, PUCRS, UNIPAMPA, UCS, UNILASALLE, UNISC, UERGS, INIJUI e UPF, os gaúchos chegam ao patamar de 54% do total de filiações institucionais, tornando-se, de longe, o conjunto mais volumoso de pesquisadores do campo.

Resta-nos, de agora em diante, adentrar o universo propriamente argumentativo dos artigos, de modo a evidenciar as linhas gerais da apropriação das ideias foucaultianas, a começar pela configuração das referências textuais do próprio Foucault mais empregadas pelos pesquisadores. Subdividida em três grandes frentes textuais (livros, cursos e textos isolados (Gráfico 8)), a obra foucaultiana foi empregada nos textos da seguinte maneira (os valores correspondem à quantidade de vezes em que cada um três campos textuais foi mobilizado nos 401 artigos):

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 8 Fontes Bibliográficas de Foucault Citadas na Produção Selecionada 

A maior fonte de inspiração para os artigos são os livros escritos por Foucault, bem como os textos esparsos, representando o dobro das referências quando comparadas com os cursos - uma fonte subsidiária importante das ideias foucaultianas, sobretudo no que se refere às últimas produções do pensador. Pode-se admitir, então, que os livros e os textos esparsos constituem uma espécie de suporte já mais solidificado entre os pesquisadores do que o dos cursos, estes representando um continente ainda por explorar.

Quanto aos livros, temos a seguinte configuração (Gráfico 9)8:

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 9 Livros de Foucault Citados na Produção Selecionada 

Vigiar e Punir foi citado em 44% dos textos. De fato, trata-se da referência capital entre os pesquisadores, precedida apenas por Microfísica do Poder, obra que foi enquadrada, aqui, na categoria dos textos, uma vez que se trata de uma coletânea. O primeiro, publicado na França em 1975 e no Brasil em 1977, atingiu sua 42a edição em 2015, ao passo que o segundo chegou, em 2014, a sua 28a edição.

Ainda no que concerne aos livros, merecem destaque o primeiro volume de História da Sexualidade e A Arqueologia do Saber. Curioso, no entanto, é o escasso interesse dos pesquisadores da área por obras emblemáticas como História da Loucura e Nascimento da Clínica, além das parcas referências a Doença Mental e Psicologia e Raymond Roussel. De todo modo, o interesse da área, expresso nas obras mais referidas, parece ser patente quanto a uma tríade temático-conceitual: disciplina/sexualidade/discurso.

Enveredemos pela segunda frente textual mais utilizada pelos pesquisadores: os textos esparsos (Gráfico 10)9.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 10 Textos Esparsos de Foucault Citados na Produção Selecionada 

Convém lembrar que vários desses textos, englobados na coleção Ditos e Escritos, circularam antes da publicação brasileira de seus 10 volumes, na forma ora de livros, ora de textos publicados isoladamente, ora ainda de publicações elaboradas ou organizadas por outros autores, contendo algumas entrevistas e textos selecionados (p.e., os livros de Hubert Dreyfus e Paul Rabinow; de Carlos Henrique Escobar; de Roger-Pol Droit; e de Gregório Kaminsky).

Vejamos, por fim, a situação dos cursos proferidos pelo pensador, relembrando o fato de que apenas recentemente a totalidade deles (13) veio ao público na França, e que, no Brasil, até o momento, foram publicados apenas 12 deles. Dentre eles, nove foram citados pelos pesquisadores, além do Resumo dos Cursos do Collège de France. Quanto a Do Governo dos Vivos, publicado no Brasil em 2014, as referências utilizadas provêm de uma versão reduzida do livro, a qual contém a transcrição de duas de doze aulas de Foucault do curso de 1979-1980 (Gráfico 11)10.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 11 Cursos de Foucault Citados na Produção Selecionada 

Os dados acerca dos cursos mais referidos não deixam dúvida quanto à atenção dos pesquisadores centrada na tópica da governamentalidade. Dentre os quatro mais citados, três deles estão voltados à tematização da noção de governo. Destaque, igualmente, para A Hermenêutica do Sujeito, curso pertencente à intitulada última fase do pensamento foucaultiano, esta composta por cinco obras, sendo que quatro delas vieram a público apenas nos últimos anos11.

De modo a corroborar as reflexões anteriores acerca do interesse teórico dos pesquisadores, temos, a seguir (Gráfico 12), uma disposição geral dos conceitos mobilizados nos 401 artigos, muitas vezes de maneira simultânea e/ou complementar.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 12 Conceitos Foucaultianos Mobilizados na Produção Selecionada 

De fato, a tópica do governo/governamentalidade parece ser aquela que, com o tempo, foi ganhando mais espaço entre os pesquisadores. Contudo, é inegável a persistência dos estudos em torno dos três temas axiais da obra foucaultiana - discurso/poder/sujeito -, sendo atravessados por outras emergências teóricas.

O sobrevoo pelos usos da obra e dos conceitos foucaultianos nas pesquisas brasileiras não permite, entretanto, uma visão mais apurada daquilo que ali se produziu. Enveredemos, então, pelos tipos gerais de procedimento investigativo, segundo o que foi informado pelos autores, e sua ocorrência nos artigos que tomaram Foucault como modo de trabalho.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 13 Tipos Procedimentais da Produção Selecionada 

Convém esclarecer que a distinção - apresentada no Gráfico 13 - entre ambas as modalidades investigativas reside na estruturação discursiva da análise empregada. No caso dos 246 relatos de pesquisa, trata-se de uma atenção mais imediata a um problema específico, por meio do confronto com dados empíricos, ao passo que, nos 155 ensaios teóricos, a economia argumentativa costuma dar-se mais pelo desdobramento de determinadas ideias advindas de fontes teóricas, a título de interpretação do que ali se afigura como problema, e menos pelo exame de dados empíricos, embora estes estejam, algumas vezes, associados à discussão.

Vejamos, a seguir (Gráfico 14), como as duas modalidades se comportaram ao longo das duas décadas e meia.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 14 Distribuição Temporal dos Tipos Procedimentais da Produção Selecionada 

É evidente o crescimento paulatino, mas exponencial dos relatos de pesquisa - representando dois terços da produção total - a partir de meados da década de 2000. Daí ser possível concluir que a última década viu florescer uma apropriação mais autônoma e, em certa medida, recriadora da teorização foucaultiana.

No caso dos ensaios, modalidade predominante até o início dos anos 2000, a maior parte deles recupera as ideias foucaultianas, seja para retomar, no plano do comentário, alguns pontos centrais e de presumível interesse ao campo educacional, seja para criticar ou reposicionar teoricamente determinadas problemáticas educacionais já assentadas no espectro bibliográfico, seja, por fim, para cotejá-las ou confrontá-las às ideias de outros autores quanto a seu enquadramento educacional.

Assim, enquanto os ensaios priorizam as fontes teóricas no enfrentamento de determinado problema, os relatos de pesquisa, por sua vez, parecem percorrer um caminho argumentativo apoiado primordialmente em dados empíricos acerca desses mesmos problemas. Nesse sentido, pode-se dizer que os ensaios se valem de uma discursividade mais centrípeta, isto é, mais enraizada no exame das ideias do próprio Foucault e de seus comentadores nas articulações com o campo educacional ou nas implicações para este, ao passo que os relatos de pesquisa apresentam um movimento mais centrífugo, já que mais fincado em determinadas injunções concretas não necessariamente antevistas no arsenal teórico foucaultiano, o qual, uma vez selecionado/recortado, finda por ser empregado como crivo analítico daquilo com que ali se deparou.

Mas há ainda outra distinção imprescindível para que se possa melhor circunstanciar os movimentos de apropriação das ideias foucaultianas na pesquisa educacional, segundo um tipo de categorização que nos pareceu mais plausível: o próprio teor da apropriação (Gráfico 15). Ela pode ser de natureza temático-teórica, teórico-metodológica ou, ainda, temático-teórico-metodológica. Vejamos.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados.

Gráfico 15 Modos de Apropriação das Ideias Foucaultianas na Produção Selecionada 

A apropriação de teor temático-teórico é aquela que ocorre quando as ideias do pensador são ativadas prioritariamente na configuração do problema investigativo, sem repercussões diretas no tratamento dos dados. De modo inverso, a apropriação teórico-metodológica é atestada quando a teorização é empregada majoritariamente na análise do material e, por extensão, nos encaminhamentos do estudo. Já a apropriação temático-teórico-metodológica dá-se quando o diálogo com Foucault se perfaz de maneira longitudinal na argumentação, desde a configuração do problema em pauta até as conclusões do estudo, passando pelo crivo analítico empregado. Convém esclarecer que tanto os ensaios teóricos quanto os relatos de pesquisa podem assumir quaisquer das três feições.

Tal como no caso dos relatos de pesquisa - e de modo atrelado a eles -, é a partir de meados dos anos 2000 que se dá o maior crescimento da terceira modalidade de apropriação (temático-teórico-metodológica), conforme se pode verificar no cenário exposto a seguir (Gráfico 16).

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 16 Distribuição Temporal dos Modos de Apropriação das Ideias Foucaultianas na Produção Selecionada 

Partindo do pressuposto de que a pesquisa educacional de base ou inspiração foucaultiana que se apresenta de modo mais consistente é aquela expressa pelos estudos que operaram uma apropriação mais coesa ou intensiva das ideias do pensador, o cenário geral que se nos apresenta revela-se promissor. A fim de corroborar tal asserção, cabe-nos ainda enveredar por um derradeiro conjunto de dados, o qual permite uma visão mais apurada tanto dos materiais empregados nas pesquisas empíricas, quanto das temáticas tratadas nos 401 artigos. No Gráfico 17, a seguir, estão dispostas as fontes/materiais principais das pesquisas empíricas. Ressalve-se, no entanto, que o material analítico analisado em tais artigos, por vezes, não se restringiu a apenas uma categoria.

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 17 Tipos de Materiais Empregados na Produção Selecionada 

Os materiais utilizados distribuem-se da seguinte maneira:

Material documental: 1) documentos escolares contemporâneos (projetos político-pedagógicos; pareceres descritivos; estatutos e regimentos escolares; livros de ocorrências disciplinares; fichas de encaminhamento; portfólios; cadernos; provas; relatórios; materiais didáticos; audiovisual); 2) documentos históricos (testes pedagógicos; exames de concurso; manuais e compêndios didáticos; legislações; cartas; relatórios; coleções de livros; periódicos); 3) documentos legais (leis; planos; campanhas; programas e projetos curriculares); e 4) documentos normativos (de ONGs; movimentos sociais; empresas; órgãos internacionais etc.).

Material narrativo: depoimentos, relatos orais e debates (de e com professores, alunos, gestores e comunidade); grupos de discussão; grupos focais; reuniões pedagógicas; gravações de aulas; diários de observação; questionários.

Material midiático: revistas pedagógicas; revistas comerciais para adultos, jovens e crianças; programas televisivos gerais e específicos (pedagógicos); jornais; filmes de ficção, documentários e vídeos; peças teatrais; obras literárias; canções; conteúdos virtuais (sites, blogs etc.).

Material acadêmico: teses, dissertações e trabalhos de conclusão; periódicos e publicações especializadas (anais e resumos de eventos, fóruns, encontros); obras/textos pedagógicos clássicos e contemporâneos; revisões bibliográficas.

A seguir, a última incursão nos dados levantados permite a visualização, em conjunto, de um plano fulcral para a compreensão da apropriação das ideias foucaultianas no campo educacional, por meio da explicitação das temáticas principais dos estudos, bem como, por extensão, dos nichos temáticos e teóricos da área com os quais os estudos foucaultianos têm mantido relação mais direta, assim como aqueles que, no decorrer do tempo, apresentaram maior porosidade, ou mesmo adesão, ao ponto de vista de Foucault. São eles (apresentados no Gráfico 18):

Fonte: Sítios eletrônicos e fascículos em papel dos periódicos investigados

Gráfico 18 Tipos de Temáticas Focalizadas na Produção Selecionada 

Como era de se esperar, há um conjunto de textos, mormente no âmbito dos ensaios, que se debruçam sobre determinados conceitos ou temáticas no interior da própria teorização foucaultiana. Trata-se de textos marcados prioritariamente pela estratégia do comentário; textos, afinal, reguladores do próprio campo, no sentido de se firmarem como balizas para seus praticantes.

As duas temáticas imediatamente concorrentes revelam uma inequívoca ambição da pesquisa foucaultiana no país: ela tenciona dar conta tanto dos afazeres típicos das práticas escolares quanto daquelas ações de substrato educativo que, muitas vezes sob o timbre das pedagogias culturais (via mídia e TIC, p.e.), ocorreriam para além dos muros escolares, incluídos determinados problemas candentes da atualidade político-social. Destaque, igualmente, aos estudos voltados ao corpo, sexualidade e congêneres, além, e sobretudo, das proposições em torno do imperativo da inclusão, em suas diferentes dimensões.

Os campos subdisciplinares mais atravessados pelo olhar dos pesquisadores vão desde aqueles do ensino universitário, da educação infantil e de jovens e adultos, passando pelo da história da educação, chegando até o ensino de matemática, de filosofia, de educação física e de ciências/biologia. Já no que se refere ao universo discursivo da área educacional, em termos mais paradigmáticos, foram alvo de atenção dos pesquisadores: as ideias pedagógicas, os estudos curriculares, a política/legislação educacional, a formação docente e geral, bem como a própria pesquisa em educação e os mecanismos em torno do ato de escrever.

Desta feita, é possível concluir que e empreendimento dos estudos foucaultianos na educação resulta multifacetado e copioso, tendo adquirido amplitude e consistência argumentativas ao longo dos últimos anos - o que nos leva a contrariar, ao menos em parte, o ajuizamento de Tomaz Tadeu da Silva (2002), segundo o qual teria havido uma acomodação dos estudos de cunho pós-estruturalista, incluindo os foucaultianos, em razão da importação teórica de modo superficial e mecânico.

Somados, o crescimento exponencial dos estudos, a profusão de temáticas abordadas, a intensificação das pesquisas de cunho temático-teórico-metodológico e o próprio espraiamento da pesquisa foucaultiana pelos centros/grupos de investigação em praticamente todo o território nacional, levam a crer que estamos diante de uma espécie de vitalidade investigativa digna de nota, ratificando o fato de que, mesmo após três décadas do desaparecimento de Foucault, seu pensamento continua a emitir sinais, cujos ecos não cessam de chegar a nós.

Considerações Ulteriores

Por meio do estudo de Valentín Galván (2010) acerca da recepção do pensamento foucaultiano no mundo hispânico e, particularmente, no espanhol, sabe-se que uma tese defendida em 1980 na Universidade Autônoma do México tomou Foucault como um de seus teóricos de base. Disposto a analisar as mudanças históricas nos textos oficiais sobre a educação primária no México, o trabalho se obstinou em denunciar os mecanismos estatais, a reboque dos quais eram engendradas, “[...] por meio da educação, a generalização e a assimilação dos valores próprios da burguesia, suas práticas de dominação que, até agora, lhes têm servido para se manter no poder” (Guillén Vicente apud Galván, 2010, p. 279, tradução nossa).

O estudo não teria maiores repercussões, a não ser pelo fato de que seu autor - Rafael Sebastián Guillén Vicente - viria a se tornar, logo depois, o subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional. O estudo conduzido pelo guerrilheiro é emblemático de um tipo de emprego trivial das teorizações foucaultianas nos estudos educacionais, de acordo com o qual se redunda em uma equação explicativa de vocação tautológica e autossuficiente: onde houver educação, haverá poder e, obrigatoriamente, resistência. Ou, mais precisamente: onde houver poder, haverá educação e, com sorte, alguma resistência.

Recorrente nos estudos foucaultianos na educação, tal equação porta um valor explicativo opaco, senão neutro, uma vez que finda por não se distinguir da mão-de-ferro hermenêutica de crivos teóricos afins ou mesmo concorrentes às ideias foucaultianas; a maioria deles enredada em um denuncismo tão reativo quanto jactante, convertido em salvo-conduto crítico entre os estudiosos. Seria preciso ir além, portanto, se se quisesse caracterizar a contento a especificidade dos estudos de orientação foucaultiana, situando-a no intervalo preciso de algumas ideias-compromisso associadas a um plano de ação do intelectual específico, assim sumarizadas por Veiga-Neto (2006, p. 89): “[...] do descentramento do sujeito, da dissolução do antropologismo, do a priori histórico, da prática da crítica constante, do afastamento definitivo das metanarrativas modernas”. A singularidade produtiva dos estudos foucaultianos na educação residiria, nesse caso, em um distanciamento estratégico da idealização atestada de ponta a ponta no discurso educacional contemporâneo, consubstanciada em uma ferrenha vontade de progresso, de autonomia e, inevitavelmente, de afiliação doutrinária - aderente ou resistente aos ditames discursivos da época, tanto faz.

O pesquisador inglês Ansgar Allen (2012, s/p, tradução nossa) bem explicita o intento diferenciador aí possível:

Pesquisadores educacionais que buscam adotar o quadro teórico de Foucault são, portanto, desafiados a evitar fazer julgamentos baseados em um ideal implícito do que a educação é ou deveria ser. Essa injunção antinormativa lhes permitirá interrogar os problemas educacionais com maior cautela e discernimento crítico.

Ponto pacífico, o desapego ou, no mínimo, a discrição no tocante aos apelos normativos do campo implicaria uma contrapartida precisa: tomar o encontro educacional como uma prática histórica pontual - isto é, nem suficiente, nem necessária -, e seus efeitos como resíduos quebradiços do entrechoque discursivo entre diferentes gerações encerradas na intransitividade do próprio presente. Uma prática vitalícia e sempre insuspeita, portanto.

Eis aqui o ponto de virada que permitiria a ultrapassagem da mera constatação dos efeitos saturantes das relações de poder nas práticas educacionais, em direção a outro horizonte analítico mais vibrante, não obstante incerto, em que figurassem propagações inauditas do legado foucaultiano, para além de apropriações de véspera. Nesse caso, é ao Foucault dos últimos cursos no Collège de France que, a nosso ver, se poderia recorrer, nos quais novas chaves analíticas do acontecimento educacional vêm à tona. Perspectiva análoga é a de Collin Gordon, outro inglês estudioso da obra foucaultiana:

[...] ainda há oportunidades de fazer conexões criativas. Especialmente, é claro, porque uma grande parte dos cursos está sendo publicada apenas nos últimos dez anos [...]. Pode-se voltar às mesmas aulas muitas vezes e constantemente encontrar algo novo; nessas fontes há tantas ideias originais que leva muito tempo até esgotar todas as coisas que se pode encontrar nelas (Jardim, 2013, p. 1086).

Se assim considerado o cerne da pesquisa educacional contemporânea a partir de Foucault, despontam não apenas um eixo renovado de problematização das mazelas da atualidade educacional, mas sobretudo certa reaproximação à própria pedagogia, da qual, segundo a visão certeira de Alexandre Simão de Freitas (2012), Foucault foi um crítico e também um amante.

Os textos tardios trazem à tona para o debate pedagógico as formas práticas encaminhadas por indivíduos e grupos para se reconhecerem como sujeitos de sua própria formação, desvelando uma genealogia dos processos formativos apreendidos no âmbito de uma pragmática que correlaciona campos de saber, tipos de normatividade e formas de relação a si (Freitas, 2012, p. 63).

Não por acaso, é aos gregos e romanos que o pensador se volta em seu projeto teórico derradeiro, uma vez que neles encontra algo que difere sobremaneira do primado da libertação, esta tomada usualmente como neutralização das relações de poder: as práticas de liberdade. Afirma Foucault (2004a, p. 268): “A preocupação com a liberdade foi um problema essencial, permanente, durante os oito grandes séculos da cultura antiga. Nela temos toda uma ética que girou em torno do cuidado de si e que confere à ética antiga sua forma tão particular”.

A atenção dispensada por Foucault às formas da mestria antiga impele-nos, assim, a conjecturar uma espécie de triangulação imanente entre pedagogia, cuidado de si e parresía, a partir de determinadas elaborações do pensador em seus três cursos últimos (Foucault, 2004b; 2010; 2011), todas elas apontando para a coragem da verdade, isto é, a “[...] corajosa atividade de alguns que se adiantam, tomam a palavra, tentam persuadir, dirigem os outros, com todos os riscos que isso comporta” (2010, p. 147), como princípio geral do éthos docente. Novamente com Foucault (2004a, p. 270):

O homem que tem um belo éthos, que pode ser admirado e citado como exemplo, é alguém que pratica a liberdade de uma certa maneira. [...] Mas, para que essa prática da liberdade tome forma em um éthos que seja bom, belo, honroso, respeitável, memorável e que possa servir de exemplo, é preciso todo um trabalho de si sobre si mesmo.

Seria possível aos contemporâneos forjar modos de vida em meio às transações entre os mais velhos e os mais novos - aquilo que chamamos educação - que subsidiassem tal potência ético-estilística?

Interditados de qualquer chance de resposta definitiva a tal questão, subscrevemos a conclusão de Bernadette Baker (2004, p. 129), influente estudiosa norte-americana dos usos do pensador na educação: “A contribuição de Foucault para a pesquisa educacional [...] não está tanto naquilo que foi feito com suas histórias, entrevistas e conferências, mas naquilo que não foi feito e, possivelmente, no que não pode ser feito”.

Referências

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1Pesquisa financiada pelo CNPq e pela FAPESP.

2Em virtude da extensão do arquivo, não será possível apresentar a listagem das obras.

3Disponível em: <http://capesdw.capes.gov.br>. Acesso em: 29 ago. 2015.

4Por meio da divulgação recente do Qualis 2014, somos informados de que dois periódicos de nossa seleção anterior passaram do estrato B1 para o B2. Ademais, um novo periódico, antes alocado no estrato B2, passou para B1 – não tendo sido contemplado, entretanto, em nossa seleção. Os demais periódicos, salvo alguns deslocamentos pontuais, permaneceram nas faixas A1, A2 e B1.

5Textos individuais de autores brasileiros, quando ligados a instituições estrangeiras, foram computados na produção estrangeira. Situações inversas seguiram a mesma lógica: a produção individual de autores estrangeiros ligados a instituições nacionais foi considerada nacional. No caso, entretanto, de textos em coautoria entre autores brasileiros e estrangeiros, tratou-se de computá-los individualmente quanto à sua procedência.

6Em apenas dois casos houve parceria entre autores brasileiros e estrangeiros.

7UFRGS: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; UNISINOS: Universidade do Vale do Rio Sinos; FURG: Universidade Federal do Rio Grande; UFMG: Universidade Federal de Minas Gerais; USP: Universidade de São Paulo; ULBRA: Universidade Luterana do Brasil; UNESP: Universidade Estadual Paulista; UFPel: Universidade Federal de Pelotas; UNICAMP: Universidade Estadual de Campinas; UERJ: Universidade Estadual do Rio de Janeiro; UFPR: Universidade Federal do Paraná; UFFS: Universidade Federal da Fronteira Sul; UFPE: Universidade Federal de Pernambuco; UFSM: Universidade Federal de Santa Maria; UFRJ: Universidade Federal do Rio de Janeiro; UFRN: Universidade Federal do Rio Grande do Norte; PUCRS: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; UFJF: Universidade Federal de Juiz de Fora; UFPA: Universidade Federal do Pará; UFSCar: Universidade Federal de São Carlos; UNIFESP: Universidade Federal de São Paulo; UFC: Universidade Federal do Ceará; UFPB: Universidade Federal da Paraíba; FEEVALE: Federação de Estabelecimentos de Ensino Superior em Novo Hamburgo; UFSC: Universidade Federal de Santa Catarina; UFU: Universidade Federal de Uberlândia; UNIPAMPA: Universidade Federal do Pampa; PUCCAMP: Pontifícia Universidade Católica de Campinas; UCS: Universidade de Caxias do Sul; UDESC: Universidade do Estado de Santa Catarina; UFG: Universidade Federal de Goiás; UFS: Universidade Federal de Sergipe; UNEMAT: Universidade do Estado do Mato Grosso; UNILASALLE: Centro Universitário La Salle; UNIMEP: Universidade Metodista de Piracicaba; UNISC: Universidade de Santa Cruz do Sul; PUCPR: Pontifícia Universidade Católica do Paraná; PUCSP: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; UCG: Universidade Católica de Goiás; UERGS: Universidade Estadual do Rio Grande do Sul; UFES: Universidade Federal do Espírito Santo; UFF: Universidade Federal Fluminense; UFMS: Universidade Federal do Mato Grosso do Sul; UFSJ: Universidade Federal de São João Del Rey; UNEB: Universidade do Estado da Bahia; UNIJUI: Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul; UNIUBE: Universidade de Uberaba; UNIVALE: Universidade Vale do Rio Doce; UPE: Universidade de Pernambuco; UPF: Universidade de Passo Fundo; USF: Universidade São Francisco.

8VP: Vigiar e punir. / HS1: História da sexualidade 1. / AS: A arqueologia do saber. / OD: A ordem do discurso. / HS2: História da sexualidade 2. / PC: As palavras e as coisas. / HS3: História da sexualidade 3. / HL: História da loucura. / NC: Nascimento da clínica. / DMP: Doença mental e psicologia. / RR: Raymond Roussel.

9MP: Microfísica do poder. / D&E: Ditos e escritos (versões em francês e português). / SPGE: O sujeito e o poder; Sobre a genealogia da ética. [DREYFUS, H.. RABINOW, P.]. / VFJ: A verdade e as formas jurídicas. / TY: Tecnologías del yo y otros textos afines. / QA: O que é um autor? / DUE: O dossier – últimas entrevistas. [ESCOBAR, C. H.]. / QC: O que é a crítica? / VS: Verdade e subjetividade. / AMV: Da amizade como modo de vida. / TS: Tecnologias de si. / PEX: O pensamento do exterior. / MFE: Michel Foucault, entrevistas. [DROIT, R.-P.]. / EEH: Estética, ética y hermenéutica. / VHI: A vida dos homens infames. / TPH: Nietzsche, Marx & Freud – Theatrum philosophicum. / YM: El yo minimalista y otras conversaciones. [KAMINSKY, G.]. / HD: O homem e o discurso. / EPR: Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. / HB: Herculine Barbin: o diário de um hermafrodita. / INC: Isto não é um cachimbo.

10STP: Segurança, território, população. / DS: Em defesa da sociedade. / HS: A hermenêutica do sujeito. / NB: Nascimento da biopolítica. / OAN: Os anormais. / GSO: O governo de si e dos outros. / PP: O poder psiquiátrico. / GV: Do governo dos vivos. / CV: A coragem da verdade. / RCCF: Resumo dos cursos do Collège de France.

11O curso Subjetividade e Verdade veio a público no Brasil apenas em novembro de 2016; não tendo sido contemplado na presente investigação.

Recebido: 14 de Janeiro de 2016; Aceito: 31 de Outubro de 2016

Julio Groppa Aquino é professor titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação. E-mail: groppaq@usp.br

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