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Educação & Realidade

Print version ISSN 0100-3143On-line version ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.43 no.1 Porto Alegre Jan./Mar. 2018  Epub Sep 21, 2017

http://dx.doi.org/10.1590/2175-623663733 

Outros Temas

Filosofia da Corporeidade: transversalizações de um corpo intenso de devir

Corporeality Philosophy: transversalizing of an intense becoming body

Andreia Mendes dos SantosI 

Fábio Soares da CostaI 

IPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Porto Alegre/RS - Brasil

Resumo:

Este ensaio discute as relações entre corpo e saúde no exercício da vida em sociedade e apresenta possibilidades de percepção corporal a partir de um paradigma que privilegia emoções, sensibilidades e afetações. O paradigma racionalista da modernidade agora é tensionado por uma ciência contemporânea, que considera a experiência sensível, não mais fragmentando corpo e mente, e sim considerando-os lugar de educação, de construção de pensamento e de conhecimento. O culto ao corpo e o cuidado com este são abordagens que provocam estados diferentes em si quando tratamos de educação e saúde; por isso, o privilégio hierárquico e verticalizado, antes da modernidade e agora, invertido, na contemporaneidade, precisa ser repensado.

Palavras-chave: Corpo; Educação; Educação Física; Saúde

Abstract:

This essay discusses the relationship between body and health in the exercise of social life, presenting possibilities of body perception from a paradigm that focus on emotions, sensitivities and affectations. The rationalist paradigm of modernity is nowadays tensioned by a contemporary science that considers the sensitive experience, not fragmenting body and mind anymore; on the contrary, considering themselves as a place for education, for the construction of thought and knowledge. The cult of the body and care for this one are approaches that cause different states among themselves when dealing with education and health, so the hierarchical and vertical privilege, before modernity and now, inverted, in the contemporary times, needs to be rethought.

Keywords: Body; Education; Physical Education; Health

Abordagens Introdutórias

Para iniciarmos o exercício reflexivo ao qual nos propomos ao estudar as relações que transversalisam corpo e saúde na contemporaneidade, é preciso que nos questionemos sobre que corpo é esse que vemos, vivemos e sentimos nestes tempos. O que entendemos como saúde? Como podemos entender a relação entre essas duas instituições na perspectiva de valorizar o corpo e a saúde em tempos iguais?

Para que possamos fazer essa reflexão, objetivamos com este estudo desajustar o entendimento/senso comum que temos sobre corpo e saúde. E, para isso, nós nos questionamos: quando pensamos em corpo, o que pensamos? Pensamos somente em um corpo material, biológico? E quanto à saúde? Será que pensamos em um estado em que há apenas o silêncio dos órgãos, sem a manifestação de turbulências? Será que estamos sempre em busca da homogeneidade porque pensamos que a felicidade só será atingida se nossa organicidade anátomo-fisiológica, social e psicológica for homogênea?

Apresentamos esses questionamos porque, se as respostas forem consensuais e afirmativas às indagações, estaremos evocando uma heterogeneidade que se tornará conceito importantíssimo nesta reflexão. Ela quem possibilitará a busca por uma diferenciação que fará, não só com que percebamos nossa singularidade, mas também com que não nos conformemos com modelos produzidos por meio da construção sócio-histórica, forjada pelos setores mais conservadores e de concentração política e de capital econômico da nossa sociedade.

Para que possamos tensionar esses questionamentos, trazemos algumas contribuições de Foucault (1982) acerca dos processos de subjetivação. O filósofo francês, em sua obra Microfísica do Poder, apresenta uma genealogia de abordagem dos processos de subjetivação que nos constitui e que nos torna sujeitos. O autor diz que nos tornamos sujeitos a partir das relações que mantemos como o ambiente em que vivemos. São as condições socioeconômicas, políticas e culturais que vão ditando as formas, os modos como devemos nos movimentar ou nos paralisar no mundo. Assim, o autor apresenta o percurso do ocidente ao longo dos processos civilizatórios; ele constrói um corpo dominado, explorado, aproveitado no sentido de produzir sujeitos que sustentam o propósito do Estado.

Atualizando as proposições do pensador, percebemos hoje o hipercapitalismo que vai além de uma prática de disciplina, como acontecia no século XX, mercantilizado, em que os corpos eram treinados para se ajustar ao conceito hegemônico de família, em que os indivíduos deveriam organizar seus corpos para o atingimento de uma meta produzida, como percebemos nas formas predeterminadas de sexualização. Esse hipercapitalismo é composto por uma diversidade de movimentos, iniciativas, grupos, estudos que trabalham numa perspectiva de construir certa resistência a esse modelo predefinido de corpo.

As reflexões a seguir desenvolvidas têm como fundamento referencial o trabalho realizado por Angel Vianna, descrito, interpretado e analisado por Borges (2011, 2013a, 2013b), psicanalista estudiosa das relações entre o corpo, a arte e o movimento. Buscamos Hélia Borges por toda sua capacidade de conectar os devires de Deleuze e Guattari (1996), a insurgência de Foucault (1979; 1982; 1987; 1993) e a base epistemológica da psicanálise Winnicottiana (Winnicott, 2000) para defender que a sensibilidade do corpo é o caminho para o desenvolvimento da saúde corporal e das suas relações com o pensamento e com o conhecimento.

As estimulações de um corpo sensível, seja pela dança, pelas artes, pelas diversas manifestações que são feitas fora e dentro da escola, seja pelas aulas de educação física, são tentativas que fazemos de apresentar saúde e corpo para além das formas, estéticas ou convenções sociais que as relacionam, produzindo corpos modulados e construídos por representações que ignoram a singularidade dos indivíduos. Assim, dá-se nossa pretensa contribuição para um corpo sensível, singular, vibrátil, afetado e saudável.

Biopolíticas do Corpo Transitório: modernidade e contemporaneidade

O corpo, a partir de sua centralidade na contemporaneidade, estabelece importantes relações com as discussões das práticas pedagógicas da educação física escolar e sobre as temáticas que envolvem saúde. Com o movimento humano, objeto da educação física na escola, percebemos essa conexão a partir do que diz Foucault (1993, p. 146): “o domínio e a consciência de seu próprio corpo só puderam ser adquiridos pelo efeito do investimento do corpo pelo poder: a ginástica, os exercícios, o desenvolvimento muscular, a nudez, a exaltação do belo corpo”. Já Prado (2007, p. 1) diz que “O corpo saudável é o da nação e o dos indivíduos que moram no mesmo espaço” e faz um entrecruzamento metafórico que privilegia a relação de que um povo saudável compõe uma nação saudável. Destarte, relaciona que, para isso, as modalizações e o mapeamento que envolvem exercícios físicos, aproveitamento cerebral, cirurgias plásticas, flexibilização do corpo, uso de substâncias hiperpotentes contra a obesidade e a impotência, sempre orientados pela mídia, estão em voga, pois, nos discursos de saúde, o corpo perfeito ocupa um lugar central.

O autor esclarece que o papel da mídia, nesse processo de reificação do corpo moldável que percebemos na contemporaneidade, é materializado nos dispositivos midiáticos que ofertam sentidos e modelos cognitivos modalizadores biopolíticos, os quais fazem com que os consumidores desses produtos moldem seus corpos e suas mentes na busca do prazer, da qualidade de vida e da felicidade, e essa busca provém, é claro, da poderosa tecnociência. Tecnociência essa que faz parte dos processos de ressignificação de sociabilidade que vivemos nos últimos 50 anos, em que a convergência midiática emplacou a relação direta da felicidade pelo gozo, prazer imediato e gratificação, e isso, para a publicidade, é um importante segmento de dividendos financeiros, pois esse ideário de felicidade é líquido, efêmero e insaciável e precisa ser sempre abastecido (Prado, 2007).

Esse é um posicionamento análogo ao de Le Breton (2012, p. 24) quando trata da individualização do corpo e das tecnologias contemporâneas. O autor trata dos corpos pós-modernos e afirma que:

[...] os imaginários sociais que afetam hoje o corpo são múltiplos. Nossas sociedades igualmente conhecem uma forte corrente que denigre o corpo. A sensação é aquela do corpo insuficiente, imperfeito, leia-se mesmo desprezível ou supranumerário, fóssil de uma humanidade fadada ao desaparecimento iminente, sob a égide notadamente das ciências da informação, das quais conhecemos o poderio.

E, ao abordar a cyborgização do corpo, acredita que:

As tecnologias da informação culminam finalmente na invenção de uma humanidade modificada. A fronteira desaparece entre o sujeito o objeto, o humano e a máquina, o vivente e o inerte, o natural e o artificial, o biológico e o protético. Na esteira da cibernética, muitos autores reconhecem hoje sem cerimônia uma continuidade ontológica entre as tecnologias da informação e o humano. Com o triunfo do paradigma informacional (Le Breton, 2012, p. 26).

Hoje há uma:

Exigência de uma liberdade que nada mais reivindica senão o prazer, e nunca a responsabilidade. As tecnologias não são mais exclusivamente percebidas como exteriores ao corpo, mas vindas para assumir seu lugar, para transformá-lo em instrumento mais eficaz, eliminando definitivamente as funções inúteis e suprindo as indispensáveis [...] (Le Breton, 2012, p. 31).

Percebemos que o corpo é reificado, mas não em todas as suas nuanças, não em todos os seus perímetros, em suas circunferências e em seus pontos enrugados. Para constituir-se como núcleo da felicidade de um ser, ele tem de ser como Foucault (1979, p. 147) dizia: “Fique nu [...] mas seja magro, bonito e bronzeado [...]”. Ou seja, o olhar hoje lançado sobre o enrugado e o adiposo responde a mandatos morais, rígidos e implacáveis, que validam apenas o liso e o jovem. Ainda que a pessoa seja sexagenária, se aparência dela assim for, será validada, pois a moral da boa forma, que proporciona a ausência de vergonha para mostrar seu corpo, numa supervisibilidade, exige “[...] contornos planos e relevos bem sarados, como os da pele plástica da boneca Barbie ou como os desenhos bidimensionais dos quadrinhos” (Sibila, 2012, p. 157).

O que vemos é um grande arcabouço semiótico que constrói um mito do corpo moldável, perfeito, magro, liso, jovem e viril, um conjunto de relações que lança um olhar seletivo, que aceita apenas um modelo por vez. E a vez agora é a do que o seu corpo é a sua identidade. Identidade essa imaginada a partir dos dispositivos midiáticos que alavancam um mercado financeiro alimentado por corpos sedentos de moldes, que buscam a perfeição e que consomem as revistas de receitas de corpos perfeitos, ou seja, de “felicidade”.

Essas relações entre corpo e saúde são negociadas dentro da escola e nas aulas de educação física escolar. Essa disciplina oferece inúmeras possibilidades de práticas pedagógicas e de operações, a partir de distintas concepções sobre o corpo, o movimento e o sujeito. A educação física é área do conhecimento interdisciplinar que aborda, sobretudo, um viés historicista sobre as manifestações corporais do homem na busca da consciência corporal, contudo, com um forte caráter biomédico. Além disso, desenvolve suas atividades em meio à conflituosa relação entre os vieses biológico, fisiológico e motor, em contraposição aos de cunho pedagógico e de self corporal1; por vezes, pode reforçar um panorama de intensa inteligibilidade corporal em detrimento de um corpo que, em nosso entendimento, precisa sentir, criar, pensar.

As discussões sobre as questões de gênero e de corporeidade na academia, nas ruas, bibliotecas, jornais e demais locais de exposição de ideias, são fortuitas, sobretudo, sob o ponto de vista epistemológico, pois contribuem para a produção social, simbólica, material, intelectual e de memória das relações entre as pessoas. Construímos e somos construídos por nossos corpos e por uma grande diversidade de gêneros inter-relacionais; assim, somos indivíduos que nos relacionamos politicamente, socialmente e culturalmente por meio dos exercícios físicos, e os jovens, também, durante as aulas de educação física na escola.

O debate sobre as relações entre corpo, saúde e suas repercussões educacionais, sobretudo nas aulas de educação física escolar, proposto para esta investigação, surgiu como problemática a partir de uma visão curiosa, porém não conclusiva, ao observarmos o exercício secundário das minorias (obesos, pequenos, anoréxicos e inaptos para as manifestações esportivas culturalmente eleitas para a prática habitual) em relação ao dos ditos “normais”, ou normalizados, em diversos setores da sociedade. Percebermos que a escola e a família, enquanto instituições sociais são, em grande parte, responsáveis pela inculcação da visão biologizada de corpo entre jovens estudantes. Contudo, observamos que havia, nos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN´s (1998), uma tentativa de intervenção nesse processo para evitar estereotipias corporais, com a defesa da realização de aulas mistas de educação física escolar, com a abordagem de diversas manifestações esportivas.

Essas discussões que envolvem corpo, poder, saúde, educação e aulas de educação física escolar são necessárias e urgentes, visto que, nas últimas décadas, os discursos que narram as atividades corporais da educação física e os esportes, como campo eminentemente dos mais fortes fisicamente, vêm sofrendo cisões, e a emergência, bem como a legitimação de um novo paradigma que envolva a discussão sobre inclusão e igualdade vêm ganhando espaço (Brasil, 1997).

Para localizarmos esses tensionamentos nas aulas de educação física escolar e em quaisquer momentos que envolvam experiências educacionais corporais, sejam formais ou não formais, consideremos os esportes como principal atividade corporal dentro das escolas. Assim, perceberemos o que Fuller (2006) esclarece quanto a fatores como a competitividade e o rendimento esportivos, que representam os valores culturais do esporte; este é ordenado e regulado por tradições e tabus os quais estão relacionados às questões de gênero. Contudo, reconhece que o esporte é uma construção social que exclui, distingue status e poder, principalmente em relação às minorias, como os obesos e os inaptos esportivamente.

A autora utiliza o conceito de hegemonia de Gramsci para fundamentar a dominação masculina no planisfério global e nos esportes, legitimada pela maculine-powered society, reforçando sua defesa principal, a de que o esporte, enquanto fenômeno cultural, é perpassado por discursos e atravessado pelo complexo campo dos gêneros e da linguagem. Para nós, esse fundamento é importante, pois as aulas de educação física na escola são altamente esportivizadas. Os conteúdos abordados e as práticas são esportivizados, principalmente nos últimos anos do ensino fundamental e em todo o ensino médio, sem quaisquer perspectivas críticas, emancipadoras ou superadoras. Daí a importância de uma intervenção pedagógica que privilegie a inclusão dos alunos obesos e com sobrepeso, assim como sua otimização no que diz respeito à busca de uma qualidade de vida mais saudável e com bem-estar.

Por isso, aqui tratamos das aulas de educação física na escola. Ao explorarmos estudos sobre juventudes e corpo, um em particular chamou a nossa atenção: Juventudes e lazer: interações e movimento, de Sales (2013). Esse estudo trata de corpos em movimento, da produção de vida coletiva e de lazer por parte de jovens pobres de um assentamento rural de Chorozinho - CE e de jovens da cidade de uma escola estadual de educação profissional da periferia de Fortaleza - CE.

Consideramos demasiado importante os resultados desse estudo, porque, ao tematizar o lazer e as juventudes, a pesquisadora traz o espaço e as aulas de educação física como locus em que o corpo produz linguagens, gestos, percepções e rompe fronteiras identitárias. Para a autora, “o lazer pode acontecer em um meio de transporte, na escola, em uma quadra, em casa, em espaço virtual” (Sales, 2013, p. 418).

Os resultados desse estudo revelam que “o esporte e a dança são as atividades de lazer mais citadas pelos/as jovens do campo e da cidade, e não necessariamente são times ou grupos formalizados, mas são momentos de encontro, de exercitar o corpo”. Assim, percebemos a importância do espaço e das práticas de educação física na escola, pois elas apresentam a relevância do corpo sobre o lazer e a sociabilidade juvenil, o que vai ao encontro das nossas pretensões de investigação. A autora percebe que os jovens:

[...] sentem-se sobrecarregados pelas exigências e regras impostas pela escola; por isso, ressignificam os espaços e movimentos de sociabilidade no horário do almoço, nos intervalos, nas aulas de educação física. Isso nos faz refletir e questionar sobre o papel da escola na vida dos jovens do campo e da cidade e também como a escola vê os/as jovens (Sales, 2013, p. 419).

Observamos com base no que diz a autora, que as práticas de prevenção, alicerçadas por políticas punitivas da escola, pela disciplina dos corpos, pela normatização do tempo e do espaço, materializadas nas regras que diferem corpos, por suas formas, constroem uma educação disciplinadora, com regras do vigiar e punir, como Foucault (1987) afirma. Todavia, como o corpo produz cultura e é significado pela cultura, sofre influência das mudanças de hábitos, do estilo de vida, da tecnologia, proporcionando ressignificações de corpo; isso é percebido na preferência dos alunos por algumas atividades como o recreio e as aulas de educação física.

Investigar transversalidades entre corpo, educação e aulas de educação física na escola é importante por conta da perceptível dualidade entre as formas dos corpos e as práticas corporais. A ditadura dos corpos moldáveis, padronizados e perfeitos é construída na sociedade, na escola, nas aulas de educação física. E nessa construção o corpo é um vetor importantíssimo; por isso, esta pesquisa é um desafio. Ela procura problematizar o espaço, o tempo, os lugares, o corpo e as gestualidades, explorar saberes, poderes e conhecimentos dentro de um instituto social que é a escola.

Esta pesquisa se justifica pela intensidade com que os conceitos, as significações e as emergências entre corpo e saúde circulam no ambiente escolar e durante as aulas de educação física na escola, no cotidiano em que a educação física está inserida. É como Le Breton (2013, p. 143) diz: “O estudo do cotidiano centrado nos envolvimentos do corpo lembra que nesta espuma dos dias o homem tece sua aventura pessoal, envelhece, ama, sente prazer ou dor, indiferença ou cólera”. Dessa forma, o autor chama atenção para a ideia de um pesquisador atento ao universo flutuante de significações, em que o olhar deve deslizar sobre as coisas, as sensações ou os atos. E assim, Hyvernaud (1985, p. 79 apud Le Breton, 2013, p. 153) nos mostra a importância de uma investigação voltada para um corpo sensível:

A vida do corpo invade toda a vida. É assim. Toda a vida ou quase. Mal restam ainda algumas velhas lembranças desgastadas. E também elas terminam por serem inteiramente usadas, e não sobrará nada além do corpo, suas comichões, suas cólicas, suas constipações, suas hemorroidas, seus piolhos e seus percevejos, o que ele mete dentro, o que ele tira daí, o que o ataca, corrói e destrói.

Neste contexto, “Sob a iluminação da vida cotidiana, o relevo do corpo é mitigado, e o sujeito se vê em uma relação de transparência consigo mesmo” (Le Breton, 2013, p. 153). Por isso, as relações entre educação física escolar, corpo e saúde devem ser cada vez mais exploradas.

Continuamos nossa jornada de pensamento por meio das ideias de Foucault (1982) ao tratarmos de um percurso histórico que contribui para entendermos que corpo foi construído até os dias atuais. Apropriando-se de um pensamento spinozista, o autor recupera uma ideia antiga e grega sobre o “cuidado de si” e o “governo de si”. Essas expressões provocam um problema em nós, materializado no questionamento: o que faz o meu corpo expandir? E contrair? Estamos nos referindo às biopolíticas de dominação que temos hoje, em que os conhecimentos e os saberes se posicionam numa forma de captura que vai para além do desejo. Ou seja, uma obturação do desejo, como forma de domínio dos corpos que tem modos fascistas de funcionar, em que há um desejo de se anular diante do poder do outro. Eu não posso ser quem sou; tenho de ser como o outro é.

Esse desejo de ser o outro não é mais o desejo puro, é além do desejo; é o desejo que temos de nos destruir, pois não queremos nossa forma de ser, queremos destruí-la e nos transformar em uma forma corporal que não faz parte da nossa singularidade; queremos a forma do outro. Isso pressupõe não nos ouvirmos, nem aceitarmos nossa própria existência; não buscarmos aquilo que nos constitui enquanto ser singular, único, pois a forma como o nosso corpo se organiza no tempo em que permanecemos vivos está desaparecendo. Estamos recorrendo a uma forma de pensamento na qual há um desajuste desse canal, em que o corpo está vinculado ao pensamento. Por esse caminho, pensar significa existir, e o corpo é relegado a um lugar secundário.

Esse modo fascista de tratar o corpo nos faz perceber que o corpo vem sendo colonizado, desde a modernidade até este capitalismo contemporâneo, de maneiras distintas, mas sempre colonizado. A modernidade ofertou, como paradigma, a lógica de Platão, reforçada pelo pensamento cartesiano condensado na célebre frase: “Penso, logo existo”. Esse enunciado apresenta um discurso em que o pensamento, por si só, dá conta da existência. Para o corpo e para as sensações, ficam a obscuridade e a contrarracionalidade.

Todavia, é problemático percebermos que constantemente insistimos em resgatar essa tradição racionalista cartesiana que dissocia corpo e mente sempre na busca por justificar nossas decisões. Por isso, mais uma vez, corroboramos com Foucault (1982) quando este diz que devemos travar uma guerrilha contra nós mesmos, pois essa tradição somos nós, e podemos ressignificá-la.

Pensamos, em consonância com Foucault (1982), que esses movimentos de exercício reflexivo para entendermos o corpo encontram um processo de hiperexcitação proporcionada, especialmente, pela fluidez que os avanços tecnológicos possibilitam, bem como pela perda da fixidez da singularidade humana, que anestesia o corpo, esvaziando-o da sua potência de composição, criação e sensação. Essa configuração é inversa à que chamamos de corpo intenso de devir: aquele que é biológico, mas está para além da biologia. Um corpo de potência de vida, de saúde, que está sempre expandido no mundo, relacionando-se com ele numa fricção que vibra. Pensamos que existir é algo que prescinde corpo e pensamento ajustados.

O que denominamos de corpo intenso de devir pode ser dissecado no exercício das diversas manifestações de arte e da educação física, assim como Borges (2013b, p. 5) enuncia ao tratar da arte de Angel Vianna:

A arte é um dispositivo de captação e de inauguração de mundo e é pelas afecções vividas, pela experimentação poética do corpo, que se manifestam as micropercepções. Assim, nesse intervalo entre a coisa e a força, é que nos instalamos: na quebra sensório-motora resultante das contraimagens abrem-se devires para que novas ações possam emergir.

A partir da defesa acima, percebemos que precisamos acordar o nosso corpo para que os devires sejam potencializados. E a arte é um bom exemplo disso. Segundo Borges (2013b), para muitas pessoas, a arte é a atividade mais inútil do mundo, pois elas não conseguem enxergar sua utilidade, uma vez que não se encaixa num prisma utilitarista capitalista. Mas o que percebemos de útil na arte é a capacidade que ela tem de nos afetar, de promover estranhamentos. É essa experiência do estranhamento que produz um corpo vibrátil, que outrora foi esquecido para dar lugar à razão.

A perspectiva enunciativa de Borges (2013a), que apresenta o método Angel Vianna de arte para materializar seus pensamentos, vincula-se à apropriação que autora faz dos ensinamentos de Foucault e de Deleuze. Para a autora, ao tratar do corpo, esses pensadores não pretendem ser interpretados, inteligivelmente, mas sim afetar. A afetação é o acordar do corpo. É fazer o corpo existir para produzir pensamentos, pois anestesiado o corpo só consegue alcançar a tradição racionalista. O corpo anestesiado pertence a uma lógica antecipatória, ou seja, dizem para nós que isso é assim, e nós repetimos o que nos dizem. Percebemos que o corpo padrão é “aquele”, então vamos moldá-lo para ajustá-lo àquele arquétipo.

Esse ajustamento modular pode ser percebido quando Foucault (1996), em A ordem do discurso, explica que estamos habituados a um pensamento que está fundamentado em discursos. Contrariando esse percurso, diz que o que produz a vitalidade do pensamento não está na representação, mas sim na força que atravessa a representação. E é justamente aí que se insere a arte, pois a linguagem (inclusive corporal) ultrapassa o discurso. O campo vibracional da arte fricciona tudo o que a gente tem no contato com o novo.

Borges (2013a) defende que é necessário desajustar essa lógica perceptiva para que possamos enxergar novos mundos, enxergar novos horizontes, e isso só é possível por meio das experiências sensíveis. A autora faz uma analogia ao que Stern (1992) denomina de senso de eu. Ao observar bebês, destacou o senso do eu emergente, em que recém-nascidos são fortemente atravessados pela luz, pelos sons, pela aproximação das pessoas e de outras tantas sensibilidades e intensidades que recebem do mundo. Isso acontece porque o corpo do bebê é tão aberto que tem a capacidade de perceber muito mais as coisas do que os adultos. Seu corpo é totalmente sensibilizado, aberto, deiscente, de recepção plena das sensações. E é disso que estamos tratando, de uma deiscência que podemos fazer emergir de nosso corpo, pois esse estado emergente não se perde; ele permanece em nós.

Defendemos que o corpo deve ser colocado em cena. E, quando o corpo entra em cena, torna-se um corpo vivo, vibrátil e sensível, que resiste à dominação, que atravessa as representações simbólicas. E isso é o que importa. A repressão e a insurgência às representações de corpo têm o poder de desmantelar a tradição impositiva, conservadora e sectária dos modelos de corpo colonizados pelo capital.

Possibilidades de Corpo-Mente e Saúde

A análise que Borges (2013b) faz a partir da abordagem teórico-prática do trabalho de Angel Vianna volta sistematicamente à restauração da fragmentação dissociadora entre corpo e mente; o corpo vivo que está sendo tocado pelas impossibilidades existenciais. A autora percebe essas impossibilidades na linha temporal que passa pela dança moderna até a dança contemporânea; não se procura mais o sentido, o início, o meio e o fim, cartesianamente. Ao contrário, a dança considera o gesto como uma potência de deslocamento que, em algum momento, afeta o outro produzindo uma nova estética. Isso é importante, porque percebemos que, à medida que codificamos, assimilamos e reproduzimos modelos estéticos (de dança, de corpo, de aparência), esvaziamos o corpo de força. Esse paradigma contemporâneo recai sobre uma impotência generalizada do corpo, um esvaziamento das sensações do nosso corpo que prejudica nossa existência dentro desse contexto simbólico contemporâneo, sensível e violento.

Borges (2013b) esclarece que o trabalho de Angel Vianna propõe um corpo sustentável que consegue viver com a dor e alegria da existência, sem ter medo do medo. Um corpo que sustenta suas sensações, suas experiências sensíveis. É importante que a percepção do nosso corpo seja viva, que sentimos dor, torções, que ele é irrigado, enfim, que a fáscia conecte todo o corpo numa intensa complexidade. Nosso corpo é um sistema que funciona com uma lógica de forças de um campo intensivo que não mais se divide. Segundo a física quântica, a nossa percepção é a de que nossos corpos estão separados, mas, na verdade, são extensões uns dos outros. E, para exercitar isso, nós fazemos um contrato com a intimidade do nosso corpo.

Diante desse contexto, propomos um tensionamento quanto às estéticas de corpo que temos hoje. Temos um modelo perfeito de corpo saudável e belo, um esquema nutricional imprescindível para mantê-lo sempre magro, liso e jovem, os suplementos vitamínicos, as séries de movimentos que devemos cumprir para chegar a esse padrão anatômico que representa saúde. Isso provoca um fechamento num modelo de funcionamento, de tal forma generalizado que nos perguntamos: esse modelo serve para nós? Esse modelo constrói um sentido para a nossa existência? A partir desse modelo, conseguimos nos expandir enquanto seres sensíveis? Esse modelo produz um corpo vibrátil?

Para Borges (2011), nosso corpo é uma caixa complexa de sensações que precisa ser afetado para produzir pensamento. Ele precisa ser capaz de perceber alguma coisa que ele nunca viu antes. Ele precisa estranhar, já que esse estranhamento é que dá sentido à vida. Sentido de ir descobrindo novos caminhos a cada acaso da vida, novas possibilidades de ser e de existir. Para a autora, quando cerceamos o devir das possibilidades do corpo, certamente deixamos de criar, de produzir conhecimento, de ampliar as possibilidades, inclusive de educar, pois a educação ainda está fechada nessa ideia e modelo codificados.

Devemos pensar que, quando se retira a possibilidade de movimento de um corpo, retira-se também a possibilidade de criação; retira-se saúde, necessariamente. Um corpo que se movimenta, que está em contato com as sensações mais íntimas, invade a consciência, produzindo movimento do pensamento. É o que esclarece Vianna (2012, p. 9) ao prefaciar a obra Qual é o corpo que dança? de Jussara Miller: “Observando com atenção o andamento e as modificações na estrutura óssea, no equilíbrio, no tônus muscular, nos micro e macromovimentos das articulações, aguçamos a percepção de nós mesmos. A verdade não escapa no nível do gesto”. Um pensamento deve ser criativo e estar em movimento, caso contrário, apenas reproduzirá modelos antigos e já dados.

A reflexão que propomos é a da necessidade de produzirmos resistência a essa modelização, de criarmos novas possibilidades existenciais, pois, como Vianna (1998) já evidenciava, o nosso corpo quase sempre vem funcionando no modo automático de ser, com repetições sistemáticas de gestos automatizados, todavia, não se constitui para isso. O corpo é expressão, e o trabalho a partir dele deve desenvolver sensibilidade, imaginação, criatividade e comunicação. O corpo é histórico e seus movimentos são reflexos de emoções e sentimentos.

Pensamos ser extremamente importante buscar no corpo os movimentos mais sutis, uma experiência sensível que não seja a do corpo que significamos nesse mundo (limpo, belo, saudável), e sim, a de um novo corpo. Esse novo corpo não está ajustado às representações do corpo belo e saudável; é um corpo que contempla todas as experiências sensíveis (digestão, amor, libido, ódio, medo). Mas esse corpo existe?

Esse novo corpo sempre existirá; contudo, precisa ser descoberto. Ele precisa sair do seu lugar cômodo que é o do ajustamento às representações de corpo perfeito, em que a vida é preestabelecida por padrões estéticos de corpo e saúde. Exercer a vida não é repetir modelos, não é se ajustar num olhar pré-moldado; ao contrário, é se constituir a partir daquilo que nos provoca, que nos tensiona, que nos estranha.

Corpo Disciplinado Não! Por um Corpo Sensível

A contemporaneidade tem se destacado simbolicamente pelo fato de, cada vez mais, disciplinar o corpo, organizá-lo e adestrá-lo para um determinado fim, identificado com os ditames mercadológicos do hipercapitalismo pós-moderno. Percebemos, neste início de século XXI, a intensa codificação dos corpos que propaga o caminho para a felicidade por meio das visualidades e dizibilidades dos meios de comunicação, das redes e dos encontros sociais. Contudo, será que realmente existe esse caminho como vem sendo apresentado?

Pensamos de maneira diferente. Enxergamos uma forte onda de submissão modular, uma fixidez corporal que leva somente ao atingimento de metas, que está distante, a qual é apresentada como melhor do que o que a pessoa é. Esse contexto provoca um aniquilamento de sua existência singular, pois há uma busca incessante para ser apropriado, para a aceitação do outro, e não da própria pessoa. É o que anteriormente denominamos como a metáfora do fascismo. Um fascismo estético que necessita da autodestruição para a construção de um modelo constituído pelo outro; uma massa sedenta por servidão estética. Daí, indagamos: Por que isso?

Dezenas de explicações podem vir à tona para responder a esse questionamento, todavia pensamos na lógica do capitalismo social selvagem que nos ajusta à necessidade de pertencermos a um modelo para que possamos ser aceitos socialmente. É um processo de colonização do interior do corpo que se materializa para a estética modular. Por isso, precisamos empreender resistências, radicais ou tímidas com as micropolíticas de poder, conforme diz Foucault (1982). Ainda que haja forças hegemônicas de colonização do corpo, podemos produzir a aceitação de nossa própria existência singular. Desse modo, haverá a libertação do olhar constrangedor, que humilha e inferioriza aqueles que não fazem parte do modelo eleito pela maioria.

Para que possamos estimular os processos de reflexão propostos neste texto e defender uma política de reconhecimento do corpo e do seu estado de saúde que não se distancie da experiência sensível, não poderíamos deixar de recorrer à Deleuze (1974) e Deleuze e Guattari (1996). Em suas contribuições literárias, procuram sempre afetar, fazem-nos sentir por meio da complexidade e da ampliação de nossas percepções.

Percebemos em Deleuze (1974), quando trata da lógica do sentido, que nossas percepções somente serão ampliadas se nos destituirmos das lógicas do senso comum, se conseguirmos praticar a loucura, a monstruosidade e o estranhamento, pois o novo acontece nesse momento. Momento em que novos conceitos são criados a partir dessas experiências. Assim, a desterritorialização do conceito de saúde do corpo vai acontecer com as experiências do corpo. Pensamos aqui um conceito de saúde que não se coaduna com os processos de tratamento curativos, preventivos e que nos protegem do medo, da dor e da ansiedade. Ao contrário, a saúde do corpo tratada por nós é aquela que possibilita sustentar uma existência que é contraditória, paradoxal, sofrida, sutil, minuciosa.

Desse contexto tentamos capturar as relações dessas possibilidades com as diversas manifestações da educação física e encontramos um paradigma em que a ciência contemporânea trata as atividades físicas como a redenção para a aquisição e manutenção da saúde. A falta do movimento, o sedentarismo da vida moderna e contemporânea nos faz tão mal que isso se transformou em um movimento cultural mundial de combate à inatividade física. As orientações para uma vida mais saudável estão em muitos programas de TV; vários grupos se reúnem para praticar exercícios físicos de todas as naturezas; as academias e os clubes estão lotados. Mas essa prática significa aumento de potência corporal? Ela torna o indivíduo mais sensível? Promove mais saúde de devir?

Como no título, para além dessa conjuntura educacional e de saúde em que a educação física se insere, pensamos também em uma contribuição epistemológica que absorva possibilidades de uma filosofia crítica da corporeidade. Por isso, estamos propondo um olhar diverso; um olhar que perceba diversas práticas de exercícios físicos ajustadas a um processo de colonização, que oriente e determine como o seu corpo tem que funcionar; isso, na melhor das hipóteses, trará a prevenção de doenças e/ou a manutenção do estado de saúde física que o corpo precisa para longevizar. Todavia, irá adequar-se a uma estética pós-moderna que já olha para Narciso.

Essa corporeidade, a partir de um corpo intenso de devir, só acontece por intermédio das afetações corporais, das experiências sensíveis, que possibilitam transformações dos significados das práticas físicas voltadas ao sentido da existência. As atividades físicas que afetam o corpo são processos que servem para a melhoria da singularidade, e não para dar conta de um funcionamento social em que todos devem fazer isso ou aquilo, estar aqui ou ali, comer isso ou aquilo e praticar esse ou aquele esporte. O que não valoriza a singularidade termina por dificultar o acesso àquilo que constitui o indivíduo.

Considerações Finais

Nossa proposta de reflexão tem o intento de nos aproximar dos problemas de pesquisa tensionados ao longo do texto, especialmente daqueles que conectam corpo, saúde, pensamento, conhecimento com educação física. Entendemos ser inadequada a perspectiva de práticas que procuram se adequar a uma certa forma de estar no mundo que faz sucesso, que traz aceitação social, que produz possibilidades de reverberação do estar naquele espaço, que interessa apenas às forças sociais, políticas e econômicas que são sustentadas por essas mesmas práticas. Apresentamos fundamentações que contrariam essa forma de ser, pois privilegiamos a saúde sensível, o conhecimento e a experiência criadora. Esse tipo de prática se coaduna com um conjunto diverso de atividades físicas que se caracteriza por ser intimista, pessoal. Essas práticas têm o poder de libertar, de proporcionar a sensibilidade das capacidades singulares do corpo intenso de devir.

Concluímos que um corpo disciplinado, conforme Foucault (1987) apresenta, é um corpo esvaziado da condição de poder entrar em contato com aquilo que é o próprio constituinte do corpo, aquilo que nos faz sentir o próprio corpo. Paradoxalmente, se não nos sentirmos, perderemos a capacidade de enxergar o outro como ente coletivo; apenas o veremos como alguém que nos reconheça por nossas práticas conformadas e forjadas numa coletividade modulada. Assim, entendemos que o importante é que o movimento tenha a função de resgatar no corpo a experiência da sensação que transforma o pensamento, enriquecendo-o, engravidando-o, fazendo com que ele ultrapasse os limites do corpo, os quais vão além da pele, pois será um corpo atravessado.

Precisamos protagonizar e potencializar a vivência do soma, desse corpo sensível, por meio de seu exercício exploratório, não mecânico, mas pensante, atento à inutilidade que a mera aquisição de habilidades promove. O corpo hábil deve ser questionado, tensionado pelo corpo lábil, instável e de provisoriedade que permite a multiplicidade de sentidos, de devires, a fim de que seja transformado pela percepção de si próprio.

Concluímos nosso estudo com o entendimento de que cultuar o corpo, priorizando o físico em detrimento do intelecto é um risco; todavia, não podemos retroceder ao modernismo cartesiano que tudo apostava no intelecto e ignorava a sensibilidade corporal. Pensamos que é preciso travar um conjunto de resistências, de microrresistências aos processos de colonização do corpo, ao adestramento, às impossibilidades sensíveis da singularidade. Precisamos desconstruir os modelos para que possamos libertar a sensibilidade do corpo. Pensamos que a cultura corporal oferece duas opções não dicotômicas que são geradas no momento em que valorizamos o corpo. Porém, que corpo valorizamos? O corpo do outro (ideal - uma ideia de corpo) ou o nosso corpo sensível, vívido?

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1Acolhemos a abordagem de self corporal desenvolvida por Florêncio et al. (2016, p. 259) que relaciona imagem corporal e sua satisfação, de maneira multidimensional e influenciada por diversos fatores (culturais, sociais, neurológicos e psicológicos), determinando o comportamento individual do sujeito quanto aos cuidados consigo.

Recebido: 04 de Abril de 2016; Aceito: 23 de Novembro de 2016

Andreia Mendes dos Santos é professora adjunta da Escola de Humanidades e do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUCRS, coordenando o Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Infância(s) e Educação Infantil. É integrante da Linha de Pesquisa Pessoa e Educação (PPGEDU) e coordena o Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Questões Sociais na Escola. É psicóloga, mestre e doutora em Serviço Social. E-mail: andreia.mendes@pucrs.br

Fábio Soares da Costa é professor de Educação Física das secretarias de educação dos estados do Piauí, Maranhão e da Faculdade do Médio Parnaíba. Licenciado em Educação Física pela UFPI, Especialista em Supervisão Escolar pela UFRJ, Mestre em Comunicação pelo PPGCOM da UFPI e Doutorando em Educação pelo PPGEDU da Escola de Humanidades da PUCRS. E-mail: fabiosoares.com@hotmail.com

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