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Educação & Realidade

versão impressa ISSN 0100-3143versão On-line ISSN 2175-6236

Educ. Real. vol.44 no.4 Porto Alegre  2019  Epub 28-Nov-2019

https://doi.org/10.1590/2175-623686743 

OUTROS TEMAS

Pesquisar com a Arte: ética e estética da existência

Maria Cristina DiederichsenI 
http://orcid.org/0000-0002-8374-5440

IUniversidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis/SC - Brasil


Resumo:

O presente artigo visa a afirmar o potencial da arte enquanto uma via de pesquisa acadêmica capaz de propiciar modos alargados de pensamento e de ação, concebendo a criação e a experiência como elementos centrais do processo investigativo. O artigo revisita a obra de alguns autores da metodologia conhecida como Pesquisa Baseada em Arte, enfatizando a contribuição dos desafios colocados por Jan Jagodzinski e Jason Wallin. Entende a pesquisa com a arte como um dispositivo de ações ontológicas: a composição de uma estética da existência (Foucault) e de um devir-arte (Deleuze). O artigo apresenta a força do ato poético de possibilitar uma compreensão alargada de pesquisa, uma educação enquanto educere e uma humanidade por-vir.

Palavras-chave: Pesquisa; Arte; Educação; Estética da Existência

Abstract:

The objective of this paper is to affirm the potential of art as a means for academic research capable of propitiating broad modes of thinking and of action, conceiving creation and experience as central elements of the investigative process. The paper revisits the work of some authors of the methodology known as Arts-Based Research, emphasizing the contribution of the challenges raised by Jan Jagodzinski and Jason Wallin. It understands research with art as a dispositif for ontological actions: the composition of an aesthetic of the existence (Foucault) and of a become-art (Deleuze). The paper presents the strength of the poetic act to make possible an enlarged conception of research, an education as educere and a humanity to come.

Keywords: Research; Art; Education; Aesthetics of Existence

Chegança: a potência da arte na pesquisa

O presente artigo busca sinalizar e afirmar o potencial da arte enquanto via de pesquisa acadêmica. Ele se ergue a partir de reivindicações que despontaram nos contextos acadêmico e escolar nas últimas décadas; reivindicações de produção, de aprofundamento e de legitimação nas formas de pesquisa que, por utilizarem linguagens artísticas, permitem tocar potencialidades que permaneceriam invisíveis em outras formas de investigação. Os procedimentos artísticos de pesquisa, por conceberem a criação e a experiência como elementos centrais do processo investigativo, podem oportunizar maneiras múltiplas de perspectivar, desde sua complexidade, os sujeitos, as ações e os campos pesquisados, considerando suas sutilezas e especificidades, propiciando um transpassar de horizontes e um alargamento da compreensão do que possa ser pesquisar.

Mais do que buscar conferir legitimidade epistemológica à pesquisa com a arte, almejo, neste artigo, apresentá-la como um acontecimento de imanência ontológica, que, ao produzir maneiras outras de se existir no mundo, inaugura potências de vida e de criação. Aposto na construção de caminhos investigativos que problematizem a maneira como vemos, pensamos e vivemos; e que transbordem os modos ordinários e instituídos de se endereçar ao mundo, desencadeando vivências poéticas, estéticas da existência (Foucault, 1995) e processos de devir-arte.

Já em Friedrich Nietzsche encontramos o convite para fazermos de nossas vidas nossa obra de arte. Para este filósofo, a arte é uma prática imbuída de um sentido ético que permite efetivarmo-nos como obra de nós mesmos, pois “[...] queremos ser os poetas-autores de nossas vidas, principalmente pelas coisas mínimas e cotidianas” (Nietzsche, 2012, p. 179), criando sentidos para a existência:

Como fenômeno estético, a existência é sempre, para nós, suportável ainda, e pela arte foram-nos dados olho e mão e antes de tudo a boa consciência para podermos fazer de nós próprios, um tal fenômeno. Temos de descansar temporariamente de nós, olhando-nos de longe e de cima e, de uma distância artística, [...] precisamos usar de toda arte altiva, flutuante, dançante, zombeteira, para não perdermos a liberdade sobre as coisas [...] (Nietzsche, 2012, p. 179).

Michel Foucault leva adiante a concepção nietzscheana de vida como obra de arte, propondo uma estética da existência:

O que me surpreende, em nossa sociedade, é que a arte se relacione apenas com objetos e não com indivíduos ou a vida; e que também seja um domínio especializado, um domínio de peritos, que são os artistas. Mas a vida de todo indivíduo não poderia ser uma obra de arte? Por que uma mesa ou uma casa são objetos de arte, mas nossas vidas não? (Foucault, 1995, p. 261).

A estética da existência consiste no desenvolvimento de práticas que têm a própria vida como objeto, na criação de uma sabedoria em se viver a vida da forma mais bela e ética possível, e transformar, assim, o mundo. São práticas de nos constituirmos artífices de nossa conduta: em um exercício político de criação de processos de subjetivação não assujeitados ou assujeitadores. São formas de pensar não dogmáticas, que, jogando com as liberdades possíveis, inventam novos sentidos.

Aposto no desafio de trazer para a pesquisa e para a educação, a potência da arte de atravessar as margens que cerceiam o pensamento, a sensação e a criação, de desacomodar as perspectivas condicionadas pelos discursos hegemônicos e “libertar a vida lá onde ela é prisioneira” (Deleuze; Guattari, 1992, p. 222). Há vivências que só podem ser avistadas, experienciadas, instauradas e compartilhadas pelo ato poético. O gesto poético é de uma outra ordem que o ordinário e o científico. O que pode diferenciar a linguagem poética da ordinária seria o fato de “a primeira, mais do que ser uma linguagem metafórica, poder criar metaforicamente a linguagem” (Cometti, 2000, p. 12).

A Poesia é um dos destinos da palavra, [...] onde tocamos o homem da palavra nova, uma palavra que não se limita a exprimir ideias ou sensações, mas que tenta ter um futuro. A imagem poética, em sua novidade, abre um porvir da linguagem (Bachelard, 2009, p. 3).

Fonte: Foto de Paulo Gaiad (2002), publicada em Lima e Gaiad (2010). Nota: Caderno, macarrão e vidro, em caixa de ferro. 23 x 34 x 4 cm

Figura 1:  Receptáculo da memória de Renato Tapado 

Na experiência artística, a relação que se estabelece com a linguagem é de outra natureza. Ela não acontece quando atravessamos o símbolo para ir direto ao que ele se refere, como quando lemos um texto científico.

Diferentemente do método científico, em que o priori epistemológico exerce controle sobre o objeto e a validade da experiência, o artista joga com o acaso e a imaginação ao apreender seus objetos. Ao nutrir-se das ações lúdicas que a experiência sugere, as inflexões de sentido assumem grande importância no processo criativo. Antes de visar conclusões, o processo do artista se atém à experiência em si (Vinhosa, 2011, p. 43).

A arte também pensa e o pensamento artístico escapa à doxa, se realiza por paradoxos, por saltos; não se situa entre oposições, mas fala desses vários lugares - habita simultaneamente e de maneira singular, tanto nossa dimensão infinita, quanto nossa dimensão histórica. A arte cria outras possibilidades de pensamento, de percepção, de sensibilidade, de vida. Cria devires, um povo por vir. Para Deleuze (Deleuze; Parnet, 2004, p. 41) “no devir não há passado nem futuro, nem mesmo presente, não há história”. O devir não é tempo, é um entretempo. Uma intensidade que coexiste com o instante, “uma imensidade onde nada se passa, mas tudo se torna” (Deleuze; Guattari, 1992, p 204). Na concepção deleuziana, o pensamento da arte se dá como acontecimento:

O acontecimento não é o estado de coisas, ele se atualiza num estado de coisas, num corpo, num vivido, mas ele tem uma parte sombria e secreta que não pára de se subtrair ou de se acrescentar à sua atualização: contrariamente ao estado de coisas, ele não começa nem acaba, mas ganhou ou guardou o movimento infinito, ao qual dá consistência (Deleuze; Guattari, 1992, p. 202).

As metodologias artísticas de investigação, nesse sentido, buscam propiciar modos expandidos de tocar, imaginar, pensar e significar a pesquisa nos diversos campos do saber acadêmico. Buscam instaurar danças entre os pesquisadores e seus campos, relações inventivas, movimentos imprevisíveis, acercando e distanciando sujeitos e objetos, oportunizando visadas diversas, versos e reversos que poetizam o processo da pesquisa, tingindo com muitos matizes e Matisses a construção e a desconstrução do conhecimento, atualizando possibilidades de percepção e atuação invisíveis ao olhar ordinário. Suas práticas, tanto empíricas quanto teóricas, visitam e recriam, através do ato artístico, as dimensões do humano, do inumano, da incompletude e da incerteza. Para o pesquisador-artista, a investigação é inerente ao tensionamento e à incompletude que constitui a arte, pois ele busca menos solucionar, responder ou completar, do que impregnar com a potência de vida estas experiências poéticas e plurais. As linguagens artísticas oportunizam, ainda, visitar as relevantes dimensões do inconsciente, as paisagens da imaginação e algumas das mais significantes questões acerca da existência humana, contribuindo, assim, para um alargamento da concepção do que pode ser a atividade de pesquisar.

Recorrer a procedimentos artísticos como maneira de criar, pensar, conhecer e acessar mundos não é algo novo, e vem ao longo da história, como sabemos, acompanhando, permeando e produzindo a construção do conhecimento e da própria humanidade. No entanto, a arte como um instrumento respeitado, aceito e apreciado pelas pesquisas acadêmicas (em diversos campos do saber) é algo ainda bastante recente; esta é uma questão que vem sendo, desde as últimas décadas do século XX, debatida, refinada e fortalecida por muitos autores.

Um longo movimento de filósofos e artistas contribuiu para que a arte desempenhe, hoje, um papel relevante no campo do pensamento contemporâneo. A arte é hoje reconhecida como um campo de conhecimento, terreno de experimentação e problematização do presente, de transformação do humano. Dentre as outras esferas da atividade humana, a arte:

[...] em suas manifestações marcantes, não se faz conivente com o presente estado de coisas, nem aceita ser mera acompanhante, supérflua e descartável, embora divertida, dos acontecimentos decisivos da crise da civilização urbana e industrial. Trabalhando sobre linguagens, que perpassam todo o campo social, a arte é, na atualidade, talvez o mais poderoso gesto de inscrição instaurador de um outro tempo e de um outro espaço históricos no corpo das relações entre os seres humanos, além das fronteiras nacionais e preconceitos de toda ordem (Basbaum, 2007, p. 9).

A pesquisa com a arte, no contexto acadêmico, surge dentre as várias tentativas de atualização desses outros tempos e espaços, desses outros olhares e modos de pesquisar no campo do humano. As potencialidades da arte podem trazer inovações às metodologias investigativas, pois a linguagem simbólica da arte sugere e não afirma. Se o pensamento científico, na concepção positivista, busca respostas finais e definitivas, busca conhecer a verdade, a investigação artística, por não se orientar por uma busca da verdade, oportuniza a necessária modéstia, necessária à abertura de outras perspectivas, que escapem ao controle e à reprodução de um pensamento unívoco e dominante.

A questão da verdade foi discutida por muitos pensadores e problematizada, especialmente, a partir de Nietzsche. Este filósofo criticou duramente a noção de verdade absoluta formulada por Platão, afirmou a relatividade do conhecimento, seu caráter histórico, seu antropomorfismo e sua força de ilusão. Segundo Nietzsche (2005, p. 16) “[...] tudo veio a ser; não existem fatos eternos: assim como não existem verdades absolutas”. Nietzsche (1974) propôs uma transvaloração dos preceitos racionais e ideais platônicos e da concepção de verdade como um valor superior, metafísico, como essência. A verdade platônica teria um caráter moralista, excludente, aprisionador. O que fosse considerado verdadeiro não poderia ser questionado, refutado, transformado, instaurando uma posição dogmática, sufocando o pensamento enquanto criação. Tal verdade seria, na perspectiva nietzschiana, ilusória, pois o conhecimento é sempre uma construção humana, demasiadamente humana; as condições de possibilidade dos conhecimentos são circunstanciais, sociais e políticas. Para Nietzsche (2005), a ilusão de uma verdade metafísica é ingênua, ao passo que a ilusão artística é uma ilusão crítica, pois, não apresentando compromisso com a verdade, ela se assume como ilusão, fantasia, imaginação.

O conhecimento construído pela arte é agudamente atento a sua própria abertura, a sua própria suscetibilidade de ser afetado pelas ondulações do campo em que ele compõe suas veredas, suas passagens, seus intervalos. O conceito de cognição é expandido pela criação (Kastrup, 2007), que lhe confere dinamismo, problematiza o que se encontra instituído, amplia, surpreende, dobra, redobra e desdobra realidades.

Também na ciência contemporânea, é verdade, encontramos um conhecimento fecundado pela criação. A importância do papel da criação na cognição foi pesquisada nos estudos em física de Ilya Prigogine, que, investigando certas dimensões da realidade ignoradas pela ciência moderna, encontrou uma natureza criadora de estruturas ativas e proliferantes (Kastrup, 2007). As bordas entre arte, filosofia e ciência são maleáveis e porosas. Onde elas podem diferir é no que diz respeito ao tipo de fenômeno que cada uma é capaz de trazer à tona, desde suas perspectivas em suas diferentes linguagens, métodos e caminhos que criam e edificam.

Maurice Blanchot (2010) ressalta que o objetivo da arte não é conhecer a verdade ou representar a realidade. A arte e a poesia fundam sua própria realidade, seu próprio mundo, seu próprio espaço. A linguagem poética é distinta da linguagem comum. A linguagem comum é utilitária, um instrumento que se refere ao mundo exterior, visando a estabelecer uma relação entre o receptor e o objeto evocado pela palavra, ou pela imagem. A linguagem poética, na concepção blanchotiana, constitui seu próprio universo como ficção. Não representa algo existente, mas cria, apresenta um objeto. É justamente em seu uso poético que a linguagem revela sua essência: o poder de criar, de fundar um mundo.

A criação artística pode assim ser uns dos “[...] mais poderosos instrumentos críticos de que dispomos hoje para ver além das bordas, para pensar e transformar o modo como as sociedades contemporâneas se constituem, se reproduzem e se mantêm” (Machado, 2004, p. 6). Nesse sentido a experimentação poética tem um caráter fortemente político: metamorfoseia aquilo que não cabia nos lugares da cultura, abre fissuras no campo fechado tanto do senso comum quanto da própria educação, facultando-nos criar visadas inusitadas e jogar com os acontecimentos para transformá-los em oportunidades.

O caráter político da arte para Michel de Certeau (2013), se evidencia na potencialidade de criar perspectivas desviacionistas, que embora estejam dentro de um contexto de dominação, não obedecem à lei do lugar, pois não se definem por este contexto. Uma ação que, “[...] sem sair do lugar onde tem que viver e que lhe impõe uma lei, instaura aí pluralidade e criatividade. Por uma arte de intermediação, tira daí imprevistos” (Certeau, 2013, p. 87). Uma ação necessária para uma educação compreendida como educere, que nos conduza para fora dos discursos padronizados e dos limites que reduzem nossa potência de pensamento e atuação. Uma ação necessária para fazer frente ao estreitamento inculcado pelo discurso tecnicista monossilábico do neoliberalismo globalizado.

Fonte: Foto de Paulo Gaiad (1998), publicada em Lima e Gaiad (2010). Nota: Papel filtro, marcas de arame oxidado e chumbo. 30x30x 10 cm

Figura 2: Cicatrizes 

A potência de criação de outras formas de viver e de outras possibilidades de mundo é de suma importância diante do contexto contemporâneo onde, arrastados pelo capitalismo globalizado, estamos nos aproximando da possibilidade do colapso da humanidade. Entre outras coisas, estamos destruindo recursos naturais imprescindíveis para nossa sobrevivência; há um considerável aumento das desigualdades sociais; os modos de vida consumistas homogeneízam as individualidades, capturando e tornando mercadoria a proliferação de mundos possíveis, manipulando o desejo das populações, desarticulando a cooperação entre as subjetividades, criando assim uma rede de vigilância, controle e disciplina (Foucault, 1987), espalhando um niilismo e um conformismo. Diante do desencantamento e do desgosto (Perniola, 2010), que, muitas vezes contaminam parte das paisagens acadêmicas e escolares, descolorindo e pintando em tons apocalípticos muitas das perspectivas de vida das atuais e futuras gerações, que maneiras outras de viver junto, de produzir solidariedades e afetos, que qualidades de experiência, atenção e presença, que práticas educacionais e investigativas podemos efetivar, no sentido de propiciar um acreditar na possibilidade do mundo?

Considero, inspirada em Deleuze (2013, p. 207), que, se “o vínculo do homem com o mundo se rompeu, reestabelecer este vinculo constitui uma questão ética por excelência” e um sentido premente para a educação e a pesquisa.

Pesquisa Baseada em Arte

A partir das últimas décadas do século XX alguns pesquisadores, no intuito de valorizar, validar e aprofundar a compreensão da arte como instrumento de pesquisa acadêmica, trabalharam na concepção da metodologia que ficou conhecida como Arts-Based Research, Pesquisa Baseada em Arte (PBA). Esta metodologia propõe caminhos de pesquisa que se constituem através de processos artísticos, desde a abordagem dos campos investigados, até a forma de apresentação e de escrita dos trabalhos finais. São propostas que deslocam os modos estabelecidos de pesquisar, visando a transformar o prosaico em poético, enfatizando a vivificação em detrimento da infalibilidade e a singularidade ao invés da universalidade (Lather, 2009). A PBA, segundo seus autores, poderia ser realizada tanto nas áreas da educação, das artes e das ciências humanas, quanto em outras áreas de conhecimento.

Alguns dos autores que criaram, pensaram, sistematizaram e desenvolveram, modalidades de Pesquisa Baseada em Arte são: Elliot Eisner, Tom Barone, Lawrence-Lightfoot, J.H. Davis, Graeme Sullivan, Richard Siegesmond, o grupo de pesquisadores A/r/tografy, Ricardo Viadel, Fernando Hernández, Jason Wallin e Jan Jagodzinski, a quem dou especial destaque neste artigo.

No Brasil, as discussões e debates sobre a PBA se encontram em sua fase inicial. Dos trabalhos acadêmicos realizados, destaco a interessante e consistente tese de doutoramento de Sonia Tramujas Vasconcellos (2015), intitulada Entre (dobras) lugares da pesquisa na formação de professores de artes visuais e as contribuições da pesquisa baseada em arte na educação e o livro Pesquisa Educacional Baseada em Arte: A/r/tografia (Dias; Irwin, 2013), organizado por Belidson Dias e Rita Irwin, com artigos de autores brasileiros e de várias outras nacionalidades.

Há poucos artigos publicados sobre as metodologias artísticas de pesquisa, dentre eles: dois são de Marilda Oliveira de Oliveira, Contribuições da perspectiva metodológica ‘Investigação Baseada nas Artes’ e da A/r/tografia para as pesquisas em Educaçãoe Como ‘produzir clarões’ nas pesquisas em educaçãoapresentados, respectivamente, nas ANPEDs de 2013 e 2015; o ensaio de Sonia Tramujas Vasconcellos e Tania Baibich A Pesquisa Baseada em Artes Visuais na Educação: novos modos de investigare conhecer; um outro artigo de Belidson Dias Preliminares: A/r/tografia como metodologia e pedagogia em artes (2009); e ensaios de autoria de Luciana Gruppelli Loponte (2008, 2018), Cristian Mossi (2015), Irene Tourinho (2013), Sandra Rey (1995, 2010), Maria Cristina Pessi (2009), Miriam Celeste Martins (2011), entre outros.

O 24º Encontro Nacional da ANPAP, Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, realizado em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 2015, contou com um Simpósio (o de n.8) denominado Pesquisa em Educação e Metodologias Artísticas: Entre fronteiras, conexões e compartilhamentos. Este Simpósio, coordenado pelas Professoras Miriam Celeste Martins, Sonia Tramujas Vasconcellos e Marilda Oliveira de Oliveira, e com a participação de 16 integrantes, trouxe importantes contribuições para o aprofundamento e a discussão acerca deste tema1.

Mas voltemos a Jagodzinski. Esse professor pesquisador da Universidade de Alberta no Canadá, autor de uma extensa obra sobre arte, educação, pesquisa, e mídias, escreveu, em parceria com Jason Wallin, o belíssimo livro Arts-Based Research: A Critical and a Proposal (Jagodzinski; Wallin, 2013). Encontrei-me com este livro nas páginas virtuais da internet, quando realizava minha pesquisa teórico-bibliográfica sobre o tema. Eu já havia lido, nesta ocasião, alguns artigos de Eisner, Hernandez, Belidson Dias, Marilda de Oliveira, Irwin, Springgay e Viadel. Eu questionava alguns pressupostos das teorias de Eisner e de outros que pensaram a partir dele, tais como: o de um sujeito existente a priori, a concepção da arte enquanto representação, o caráter epistemológico da PBA, pressupostos que me pareciam naturalizados, não postos em discussão, suposições tidas como uma “verdade que não é pensada, mas que opera como princípio de pensamento” (Kohan, 2007, p.20). Encontrei então, na obra de Jagodzinski e Wallin, elementos de análise, crítica e mesmo de incisão nestas questões, que possibilitaram alargamentos em minhas reflexões, e a criação de perspectivas desviantes para pensar as diversas modalidades de pesquisa artística.

Contribuições de Eisner e Barone

Elliot Eisner é considerado, por alguns autores, o pesquisador que teria inicialmente sistematizado as metodologias de investigação através da linguagem artística. A denominação Arts-Based Research, segundo Eisner e Barone (2012), teria sido criada pelo próprio Eisner em 1993, quando ministrava um curso sobre formas de educação e pesquisa alicerçadas em concepções estéticas, na Universidade de Stanford, onde era professor. Já na década de 1970, Eisner percebia o potencial investigativo da arte no meio acadêmico e o defendia em alguns livros, como The Educational Imagination (Eisner, 1979) e artigos como O que pode a educação aprender das artes sobre a prática da educação de 2002, publicado no Brasil em 2008 (Eisner, 2008, p. 5-17).

Eisner foi um importante teórico do campo da Arte e da Educação. Durante décadas seu pensamento contribuiu, tanto no contexto estadunidense como em vários países do mundo, inclusive no Brasil, para o aprimoramento do Ensino da Arte, para a conquista e a manutenção do lugar da arte nos currículos escolares e para a valorização do papel da arte no desenvolvimento de habilidades estéticas e do pensamento crítico. Trabalhou com entusiasmo, neste sentido, até a data de seu falecimento, em 2014.

Eisner e Barone escrevem o livro Arts Based Research (Barone; Eisner, 2012), resultado de décadas de pesquisa e experimentação acerca do que pode ser uma Pesquisa Baseada em Arte (PBA) e das várias possibilidades de se trabalhar com ela. Neste livro, Eisner e Barone levantam, problematizam e discutem várias questões pertinentes à PBA, demonstrando como e por que esta modalidade de pesquisa pode ser de fato confiável. O propósito central que engendra todas estas reflexões é essencialmente o de buscar conferir legitimidade epistemológica à Pesquisa Baseada em Arte, especialmente no meio acadêmico, onde prevalece ainda o entendimento do pensamento científico como único instrumento válido de pesquisa e construção de conhecimento. Os autores não almejam que as diversas formas de PBA substituam os métodos convencionais de pesquisa empírica, nem tampouco que elas sejam concebidas apenas como um suplemento, algo a ser adicionado à pesquisa científica (Barone; Eisner, 2012, p. 4). O que estes autores defendem, inspirados no pensamento de John Dewey (2010), é que o conhecimento deriva da experiência, tomando como experiência exemplar, a artística.

Eisner e Barone conceituam a PBA como uma pesquisa qualitativa que, através de procedimentos artísticos - literários, visuais, musicais e performáticos - busca oportunizar ao investigador, ao leitor e ao colaborador, experiências e formas de interpretar estas experiências, que desvelem aspectos que não se fariam visíveis em outros tipos de pesquisa. A PBA se aproxima, para estes autores, da Pesquisa Participante e da Pesquisa Ação, na medida em que tem um caráter intervencionista, no qual tanto o perfil investigativo quanto o próprio pesquisador se constroem durante o processo de pesquisar. É como potencialidade de elaboração de processos que promovam a transformação do próprio pesquisador, de problematização das premissas institucionais e de transformação das políticas públicas que as sistematizam, que estes autores entendem o papel ético da PBA.

Para Eisner e Barone, a PBA é “[...] um esforço para se utilizar as formas de pensar [...] e representar que a arte provê como meios através dos quais o mundo pode ser melhor compreendido e através desta compreensão, advenha um alargamento da mente” (Barone; Eisner, 2012, p. xi)2. A PBA pode propiciar uma maior diversidade de perspectivas sobre os campos investigados. Para estes pesquisadores, uma das qualidades essenciais da PBA é a utilização de variadas formas de representação para promover um aprofundamento e uma complexificação do entendimento sobre o ser humano. Algumas representações podem ser discursivas e digitais, outras analógicas, outras figurativas, musicais, gestuais. Estas formas, nunca redundantes, possibilitariam diferentes modos de compreensão de diversos aspectos dos campos estudados. “É a pluralidade de visadas que nós buscamos a longo prazo, ao invés de uma abordagem ‘monoteísta’ da conduta de pesquisa” (Barone; Eisner, 2012, p. 10)3.

Damos sentido ao mundo, de acordo com estes autores, trabalhando com formas de representá-lo. As diferentes linguagens delineiam diferentes modos de expressão, plasmam o mundo de diferentes maneiras, plasmam diferentes mundos. Isto sugere que o conceito de letramento ou de alfabetização precisa ser expandido. A poesia e a literatura são, para os autores, nítidos exemplos de como trabalhar as linguagens de modo a produzir sentidos que de outra maneira seriam inexprimíveis, promovendo poderosas perspectivas sobre nosso mundo. A linguagem artística/poética não pode ser medida, escrutinada e enquadrada, assim como a vida, que também não acontece deste modo.

Embora, para se realizar uma PBA, segundo Eisner e Barone, um pesquisador não necessite ser um profissional em artes, ele precisa ao menos manifestar alguma familiaridade com a linguagem artística escolhida propiciando a criação de um sentido estético acerca do tema abordado. Esses autores sugerem que os programas de pesquisa acadêmica, nos diversos campos de pesquisa social e humana, poderiam ser projetados de maneira a viabilizar pesquisas baseadas em arte, oferecendo oportunidades aos futuros pesquisadores, de desenvolverem habilidades em diversas linguagens artísticas, tanto em desenho, pintura, escultura, música, teatro, performance, quanto em elaboração de vídeos, filmes, fotografias, desenhos animados, arte relacional, criação de instalações etc.

Na esteira de Maxine Greene (1995) e de Herbert Read (2001), Eisner e Barone enfatizam que a experiência estética oportuniza um “alto nível de consciência” sobre o que se vê e o que se vivencia. É esta qualidade ampliada de percepção e fruição, esta plenitude de atenção e de empatia, que os educadores e pesquisadores podem aprender com a arte (Barone; Eisner, 2012).

Em uma PBA é o teor artístico que estrutura e conduz toda a pesquisa. A linguagem artística neste contexto não é utilizada como ornamento de um trabalho produzido cientificamente, mas é a forma essencial de construção de um trabalho e vai determinar o que e como ele comunica e o modo como afeta a recepção da obra. Métodos genuinamente efetivos em PBA são reconhecidos pelas perguntas que engendram, ou seja, não por fornecerem uma resposta ou uma solução correta para um problema, mas por criar questões que estimulem novas formulações e novas atitudes.

O caráter político de uma PBA, para estes autores, pode se edificar de duas formas básicas: a primeira seria no desenvolvimento de temas que sugiram a maneira pela qual o poder e os privilégios são distribuídos, ou mal distribuídos, em nichos culturais específicos (Barone; Eisner, 2012); a segunda, na construção do caráter democrático da pesquisa, de modo a permitir que diversos pontos de vista possam ser devidamente considerados.

Eisner e Barone sublinham que as PBAs podem revisitar o mundo com um olhar de frescor, instaurando maneiras de pesquisar que atendam a uma necessidade básica do ser humano, “[...] a necessidade de surpresa, propiciada pela re-criação advinda da abertura para as possibilidades de perspectivas alternativas sobre o mundo” (Barone; Eisner, 2012, p. 124)4. O pesquisador procura se posicionar não como o dono da pesquisa, e assim criar um texto polifônico, no sentido bakhtiniano, que entreteça uma multiplicidade de perspectivas e que pertença simultaneamente a todos.

Levando adiante a Proposta de Eisner e Barone

A contribuição de Eisner e Barone para a PBA é bastante valiosa e cabe a nós, pesquisadores interessados neste tema, levar adiante a caminhada por eles proposta. Parece-me importante abandonar posturas que se mantêm atreladas às representações epistemológicas modernas e a concepções de sujeito fundadas sobre uma transcendência e uma interioridade já sempre separada do mundo tido como externo. Embora Eisner e Barone afirmem que a perspectiva da PBA questione as “grandes narrativas modernas” (Lyotard, 2011)5, ao proporem uma concepção da arte como representação, de caráter epistemológico e subjetivo, preceitos modernos, terminam por deixar escapar, a meu ver, a força desviante da PBA de criação de novos mundos, que considero sua principal contribuição para o momento atual contemporâneo.

É o desdobramento destes questionamentos que encontraremos na obra de Jagodzinski e Wallin, como veremos a seguir. Estes últimos comentam que as propostas de Eisner são importantes e pertinentes, mas que suas bases teórico-filosóficas não seriam radicais o suficiente para levá-las até onde elas se propõem ir. Sublinham que, para se levar adiante, de uma maneira mais efetiva, a potência criadora que esteia esta modalidade investigativa, é preciso desestabilizar nossas percepções e suposições habituais, em um trabalho profundo de questionamento de nós mesmos e das verdades estabelecidas, a exemplo das micropolíticas de devir, cantadas por Deleuze. Para Jagodzinski e Wallin, é justamente esta postura - abrir-se para o que ainda não é, para o que ainda não sabemos, para o que ainda não somos, potencializando a criação poética de um porvir - que constitui a força da PBA. Caso contrário, advertem, ao invés de “libertar a vida lá onde ela é prisioneira”, a PBA terminará por “repetir uma ação e uma subjetividade que servem aos objetivos dos atuais neo-liberalismo e capitalismo” (Jagodzinski; Wallin, 2013, p. 3)6.

A Ética da Traição em Jagodzinski e Wallin

O livro Arts-Based Research, a critique and a proposal (Jagodzinski; Wallin, 2013) é uma obra de grande densidade filosófica, onde estes autores, além de tecerem críticas acerca de algumas das referências que sustentam a Pesquisa Baseada em Arte, trazem propostas e provocações, buscando contribuir para uma ampliação de suas potencialidades. Os autores se perguntam: qual é afinal a relação entre arte e pesquisa? Elaboram, neste sentido, um cruzamento da PBA com as perspectivas filosóficas de Deleuze e Guattari (1992), para quem um compromisso ético e político requer uma concepção da arte menos como objeto e mais como acontecimento. Para Deleuze e Guattari (1992, p. 213), a arte é bem mais do que um objeto a ser lido, é uma composição de afectos e perceptos, uma força pré-subjetiva libertadora, que transborda, tanto o artista quanto o espectador. Tanto o pesquisador quanto o leitor.

Jagodzinski e Wallin concebem uma Pesquisa Baseada em Arte de caráter eminentemente político. Analisam algumas das maneiras como entendem que algumas formas de PBA estão sendo capturadas pelos interesses capitalistas e afirmam a necessidade de pensá-la e constituí-la, como uma prática desestabilizadora do senso comum e dos discursos dominantes. A pesquisa artística seria mais uma invenção do que uma descoberta.

Estes autores entendem a PBA como dispositivo potencializador de uma ética da traição (Jagodzinski; Wallin, 2013) - a criação de atuações desviantes e perturbadoras que resistam, problematizem, desestabilizem e desloquem a mentalidade normatizadora dos pressupostos culturais hegemônicos contemporâneos. Uma atuação performativa/maquínica criadora de outras realidades, que possa escapar à lógica produtivista do poder moderno que o capitalismo designer coloca em jogo. (Jagodzinski; Wallin, 2013, p. 3)7. Seu foco central não é o que a arte é, mas o que ela pode fazer: desviar o caminhar do pensamento da mesmice representacional, do consumismo e dos apelos midiáticos hegemônicos do neoliberalismo. Tal hegemonia, segundo Deleuze e Guattari (1995), é exercida pela sociedade de controle, onde os movimentos e o espaço estão de antemão coreografados de maneiras específicas, voltadas para fins capitalistas. Da mesma forma, segundo Jagodzinski e Wallin, a criatividade estaria sendo agora teorizada como uma mistura de arte, ciência e engenhosidade, determinando, para a educação, racionalidades atreladas ao empreendedorismo e à formação de trabalhadores flexíveis e criativos para as indústrias. São estas formas que, segundo estes autores, precisam ser traídas.

Para eles, não é de se admirar que a PBA e a Cultura Visual tenham tido um aumento de popularidade nas últimas décadas, já que vivemos atualmente em uma cultura da imagem e na imagem também se sustenta todo o discurso padronizante do consumo, tendo nosso olhar sido significativamente territorializado pela estética da indústria publicitária. Jagodzinski e Wallin enfatizam a importância da criação de signos que desafiem as imagens do pensamento. Em termos deleuzianos, a imagem do pensamento se refere a uma forma dogmática de pensamento, a uma forma particular de territorialização que efetivamente faz as pessoas pararem de pensar. A arte tem, para Deleuze, uma pressão secreta que sacode o pensamento:

O que nos força a pensar é o signo. O signo é o objeto de um encontro; mas é precisamente a contingência do encontro que garante a necessidade daquilo que ele faz pensar. O ato de pensar não decorre de uma simples possibilidade natural; é, ao contrário, a única criação verdadeira. A criação é a gênese do ato de pensar no próprio pensamento. Ora, esta gênese implica alguma coisa que violenta o pensamento, que o tira de seu natural estupor, de suas possibilidades apenas abstratas. [...]. Os signos da arte nos forçam a pensar, [...] mobilizam, coagem uma faculdade: seja inteligência, memória ou imaginação. [...] O signo sensível nos violenta [...] impulsiona o pensamento, lhe transmite a pressão da sensibilidade [...] (Deleuze, 2010, p. 91-94).

Fonte: Foto de Logon Zillmer. Fotomontagem (2016)8

Figura 3: Looking for the sun 

Uma abordagem do signo diferente da abordagem clássica: não como um guardador de significado, “um guardador do lugar de um proprietário momentaneamente ausente” (Silva, 2002, p. 50), mas como algo que não representa nada, nem ninguém. O signo poético é lançado pelo outro - aquilo ainda não pensado - é sempre um signo vindo do fora, como sugeria Maurice Blanchot. Segundo este autor, a poesia escapa à “primazia do Eu-Sujeito”, pois, viver poeticamente “é necessariamente viver adiante de si” (Blanchot, 2010, p. 34), é estar aberto para o encontro, quando o “Outro, surgindo de surpresa, obriga o pensamento a sair de si próprio, assim como obriga o Eu a defrontar-se com a falta que o constitui e de que se protege” (Blanchot, 2010, p. 39). O fora é este outro do mundo que é desdobrado pela arte. A poesia, para o autor francês, “aparece como meio de uma descoberta e de um esforço, não para expressar o que sabemos, mas para sentir o que não sabemos” (Blanchot, 1997, p. 81). Viver poeticamente é viver diante do desconhecido:

[...] é entrar nessa responsabilidade da fala que fala sem exercer qualquer forma de poder, inclusive este poder que se realiza quando olhamos, já que, olhando, mantemos sob nosso horizonte e em nosso círculo de visão - na dimensão do visível-invisível - aquilo e aquele que está diante de nós (Blanchot, 2010, p. 35).

A arte, reitera Blanchot, não é mera fantasia, é real, pois é eficaz: “A arte é real na obra. A obra é real no mundo, porque aí se realiza, porque ela ajuda a sua realização e só terá sentido no mundo onde o homem será por excelência” (Blanchot, 1987, p. 212- 213). A obra é onde o ser humano está livre para um começo, para a possibilidade de estar aberto e nu diante do abismo do mundo, apto a fundar um outro mundo.

Uma vez que as imagens e signos do senso comum se tornaram, na atualidade, domínio do marketing, e estão disseminados tanto nos modelos cognitivos de grande parte da população, quanto nas práticas educacionais, é imprescindível o questionamento da fidelidade representacional que eles operam. Jagodzinski e Wallin assumem que o signo precisa ser definido em oposição ao senso comum e à acomodação do pensamento, desestabilizando o modelo de recognição e suas correspondências estáveis que anestesiam a criação. Estes autores ressaltam a necessidade de uma pesquisa e uma educação que nos forcem a pensar, a

[...] assaltar uma espécie de letargia através da qual os signos estão sempre já distribuídos em um campo semiótico. Não obstante, essa fidelidade representativa não efetiva um encontro com o pensar, menos ainda uma forma de educação (educere) capaz de ‘conduzir para fora’, tampouco propicia a criação de um encontro pedagógico com um pensamento do fora, que possa nos forçar a novamente pensar. Esta talvez seja a contribuição mais singular da arte para a educação, na medida em que demanda do ensinar e do aprender algo radicalmente diferente do movimento voluntário da memória (reflexão), da aplicação de matrizes representacionais (transcendência) ou da implantação de leis conhecidas antes daquilo a que se aplicam (moralidade). [...] Este é o começo de uma ética da traição (Jagodzinski; Wallin, 2013, p. 5)9.

A globalização neoliberal demanda uma ordenação tecnicista do currículo educacional que implemente a formação de consumidores e trabalhadores obedientes, não questionadores. Para Jagodzinski e Wallin, as estratégias capitalistas de marketing têm capturado também nossos protestos e clamores por diferença, adotando uma abordagem de colonização do olhar superindividualizada, que apela para um narcisismo extremo. A velocidade da informação se une à velocidade da imagem, instaurando novos hieróglifos e uma “estética do relance”, do instante fugidio. Com a estética do relance, a indústria publicitária captura, “num piscar de olhos” a atenção do consumidor. Tudo devém mercadoria na esfera do capitalismo designer. As estratégias de marketing se aliaram às do biopoder (Foucault, 1988), capturando a imaginação e o desejo e atrelando-os ao status conferido pelo consumo. É o que Jagodzinski e Wallin percebem em movimentos como o capitalismo verde ou o consumismo verde que absorveram boa parte dos discursos e protestos ecológicos, transformando-os em mercadoria.

Para Jagodzinski e Wallin, a Pesquisa Baseada em Arte é também um produto deste zeitgeist (espírito do tempo) da imagem, correndo o risco de entrar nesta onda de formatar a imaginação e o cérebro cognitivo das populações, transformando-as nas massas trabalhadoras que sustentam o império neoliberal. Vivemos uma forma invertida de panóptico, ou seja, os autores sugerem que vivemos em um synóptico, onde poucos são vistos por muitos, que passam a desejar imitá-los. A pornografia é a líder deste gênero de vídeo, instalando um voyeurismo perverso. A avalanche de filmes melodramáticos e sobre zumbis e vampiros mesmerizam o entretenimento espetacular, o que poderia sugerir que estamos atravessando um tempo pós-emocional, onde as “mídias e as telas aliviam os sujeitos de suas projeções emocionais” (Jagodzinski; Wallin, 2013, p. 21).

Fonte: Foto de Jenny Holzer. Instalação na Times Square, NY (1985)10

Figura 4: Proteja-me do que quero 

As vídeo-tecnologias criam mensagens ambíguas afetando o espectador, trazendo-lhe alguma satisfação, mas deixando-o, de alguma forma, sem capacidade de ação. É o poder de um suave totalitarismo, onde as tecnologias oferecem um senso de anestesiamento e, em troca, capturam nossa atenção e nosso desejo. O capitalismo designer

[...] conhece muito bem os jogos dos afectos... O reino pré-individuado do inconsciente suscita todos os tipos de problemáticas para uma pesquisa baseada em arte que deseje se libertar das iscas do capitalismo. Talvez ela não consiga. [...]. O capitalismo, neste sentido, é maquínico, uma monstruosidade alienante que se sustenta indefinidamente através de ciclos contínuos de desterritorialização e reterritorialização. Seu agenciamento animista se manifesta através de práticas ecofágicas, que nutrem uma pulsão de morte freudiana até o ponto em que tudo será esgotado, enquanto nossa espécie é liquidada por seu próprio narcisismo (Jagodzinski; Wallin, 2013, p. 40)11.

Jagodzinski e Wallin propõem a Pesquisa Baseada em Arte como um acontecimento de imanência ontológica, detonador de um processo que possibilite ver e pensar de maneira singular, que resista à normalização e à subordinação aos modos instituídos de se endereçar ao mundo. Propõem formas de PBA que componham táticas de dessedimentação dos hábitos de reconhecimento, que Deleuze e Guattari denominam território. Jagodzinski e Wallin apostam na força desviante dos simulacros, nas potências do falso (Deleuze, 2013) imanentes ao processo artístico, de criarem linhas de fuga, escapando à lógica produtivista do poder moderno, e propiciando novas experiências e novas formas da narração.

É uma potência do falso que substitui e destrona a forma do verdadeiro, pois ela afirma a simultaneidade de presentes incompossíveis, ou a coexistência de passados não necessariamente verdadeiros. [...] todo modelo de verdade desmorona, em favor de uma nova narração (Deleuze, 2013, p. 160-161).

Os autores sugerem que é na medida em que quebramos os hábitos perceptivos do senso comum, que podemos trabalhar com a liberdade e a força da arte. A importância da arte deixa de residir em sua forma e passa a ser sua força. E sua força é a de criar a ética de um vir-a-ser que engendre um acreditar na possibilidade do mundo, que desatrele, fecunde e liberte as potencialidades da vida. Este acreditar supõe sacudirmos as convenções do pensamento, criarmos brechas, estranhamentos, não coincidirmos perfeitamente com nosso tempo. Pois, como nos alerta Giorgio Agamben (2009, p. 73), a possibilidade de estabelecermos uma singular relação com nosso próprio tempo, requer que, ora dele nos aproximemos, ora tomemos distância, através de uma dissociação e de um anacronismo: “Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, não conseguem vê-la.” E muito menos transformá-la… É preciso “não se deixar cegar pelas luzes do século e conseguir entrever a parte da sombra, uma experiência anônima, impenetrável, mas que nos concerne, nos interpela, nos desnuda” (Agamben, 2009, p. 64).

Fonte: Foto de Adriana Varejão (2002)12

Figura 5: Andar com fé 

Para que a vida, a pesquisa e a educação sejam reconectadas com suas potências de devir, as imagens dogmáticas de pensamento pressupostas pelo senso comum precisam ser duplamente atravessadas. O primeiro atravessamento seria realizado ao se criar estranhamentos, ao se fazer gaguejar as convenções do pensamento; e o segundo, ao fazer com que a arte assuma sua força não representacional, sua força monumental, como afirmam Deleuze e Guattari:

A obra de arte é um monumento, mas não o monumento que comemora o passado, é um bloco de sensações presentes que só devem a si mesmas sua própria conservação, e dão ao acontecimento o composto que o celebra. O ato do monumento não é memória, mas a fabulação (Deleuze; Guattari, 1992, p. 218).

A Pesquisa Baseada em Arte pode se tornar um espaço de fabulação de um povo ainda por vir. A arte mobiliza um cintilar irracional do tempo, estabelecendo relações entre potências invisíveis e ritmos visíveis, desatando as amarras das sensações e do que não foi ainda pensado e vivido. A arte opera, assim, paradoxos, se afastando da doxa, dos clichês, instaurando novas forças para se acreditar na possibilidade de devir do mundo. Poderíamos dizer que arte não representa o mundo, mas devém-mundo. Como acontece na obra de Van Gogh, que não simplesmente pinta girassóis, mas devém-girassol.

A arte cria devires produzindo conexões com o que ainda não somos, e é neste sentido que ela é rizomática. Atuar de forma rizomática, porém, nos lembram Jagodzinski e Wallin, não garante um movimento libertário. Conceitos como o de rizoma podem também ser utilizados para dar suporte a novas tiranias. É necessário que as novas ferramentas empregadas pelas pesquisas artísticas desarticulem a reatividade do pensamento representacional, para que se tornem instrumentos políticos capazes de prevenir sua recuperação pela lógica do neoliberalismo.

É em oposição a este modelo que Deleuze (2013) propõe uma vontade-de-arte. Este conceito deleuziano não se refere a um desejo pessoal do artista, mas implica a emergência de algo pré-pessoal e singular, que requer que nos inventemos como outros, inaugurando formas de existir, criando a base de uma teoria impessoal da subjetividade. Um encontro que implica a atuação conjunta de fluxos heterogêneos, compondo um plano de imanência que mantém a diferença e a multiplicidade.

Jagodzinski e Wallin (2013) afirmam que, para se evitar que a educação e a pesquisa com a arte caiam em um padrão alienado, é necessário a efetuação de diferentes processos de subjetivação, onde a criação artística e a prática pedagógica sejam entendidas como acontecimento. É necessário que, tanto sujeito quanto objeto sejam formados no devir do acontecimento; um encontro onde o aprender enfatiza mais o transformar do que o conhecer, algo novo é trazido para o mundo, um novo agrupamento de desejos é formado. No sentido de se desvencilhar dos estilos de vida neo-liberais e criar formas de vida que se evadam das garras do biopoder, a pesquisa baseada em arte precisa ser pensada, não como uma prática advinda de uma criatividade pessoal e de uma expressão individual, mas como uma força que parte de uma produção desejante que é sempre já social.

Para conceber olhares outros e um povo-por-vir, é preciso que o pesquisador perca sua face. A noção de face, neste entendimento, está associada aos signos de classe social, gênero, etnia etc. O sujeito não é anterior à face, é a face que produz o sujeito, como uma tela de significação. A facialidade seria uma máquina-abstrata organizadora e controladora do corpo e da vida, implementada pelo movimento expansionista, imperialista e colonizador que institui sutilmente faces delimitadas. Segundo Deleuze e Guattari (1995), o pensamento criador depende do desmantelamento da face, um ato político que envolve um devir-clandestino e propicia processos outros de subjetivação e de investigação Quais seriam as faces propostas pelo neoliberalismo? Percebê-las, enfrentá-las e traí-las é um importante desafio para a Educação. É o que nos sugere, também, Baudrillard quando comenta: “Os jovens vão achar cada vez mais difícil se desvincular, para buscar, não suas identidades, como vêm constantemente sido demandados a fazer, mas sua distância e estrangeiridade” (Baudrillard, 1997).

Fonte: Foto de Guto Lacaz. Instalação flutuante. 1989. Parque do Ibirapuera, SP. A Metrópole e a arte. SP, Editora Prêmio (1992)

Figura 6: Auditório para questões delicadas 

Jagodzinski e Wallin nos convidam a criar formas de pesquisa que abalem o comodismo do pensamento, nos forçando a pensar. Para isso podemos nos inspirar no estranhamento articulado pelos artistas contemporâneos. Afinal, se podemos aprender a pesquisar com a arte atual é porque ela nos põe diante de um impasse, diante do absolutamente outro, uma aprendizagem pela não-aprendizagem se quisermos comparar com tudo o que sabemos do que seja aprender. “Apreender, no senso comum, é segurar, agarrar, mas aqui, é justamente ver escorregar das mãos todas as possibilidades de agarrar. Estar diante do aberto. Um desafio” (Koneski, 2009, p. 76).

Antes da Despedida

Pesquisar com a arte pode ser, afinal, fabular na educação e na pesquisa, espaços “que desbloqueiem as contingências em favor de linhas de voo, [...] em favor de uma força de excentricidade capaz de levar à descoberta da própria potência” (Garcia, 2002, p. 65). O pesquisador artista, em sua fabulação estética, pode transbordar as paisagens do vivido, os enquadramentos da memória, os estreitamentos pessoais e as determinações culturais. E sua pesquisa poderá tocar o seu eventual leitor, contaminando-o com sua intensidade estética. Talvez a qualidade de uma pesquisa “[...] se avalie pelos movimentos que traça e pelas intensidades que ela cria [...]. Não há nunca outro critério senão o teor da existência, a intensificação da vida” (Deleuze; Guattari, 1992, p. 98-99).

Talvez a pesquisa com a arte propicie movermo-nos nas paisagens incertas contemporâneas, em espaços não determinados a priori, espaços que se criam no processo investigativo, abrindo outras possibilidades de educar e pesquisar. Possibilidades de se escapar da dupla coerção política que a modernidade inventou: “de um lado, a individualização crescente; de outro, e simultaneamente, a totalização e a saturação das coerções impostas pelo poder” (Veiga-Neto, 2011, p. 40). Possibilidades de criar uma pesquisa e uma educação que efetuem uma ética da traição, instaurando formas de desmantelar as ordenações, tanto sócio-políticas como pessoais, de cunho fascista. Esta qualidade de traição é um ato de amor, um ato de fidelidade última, não a alguma pessoa, mas à força da arte e da educação de libertar a potência da vida. Este é o início do que pode significar viver a vida como uma obra de arte.

Podemos experimentar formas de pesquisa e de educação onde nossa pergunta não seja tanto o que podemos saber, conhecer, aprender, ou mostrar ao outro. Que nossa pergunta seja, principalmente, como seremos responsáveis, como responderemos por nossas vidas, por nossas investigações, pelos mundos que criamos?

Pesquisar com a arte pode nos mostrar que a questão vital da pesquisa não é desenvolver metodicamente um pensamento preexistente, mas fazer com que nasça aquilo que ainda não existe. “Não há outra obra, que todo o resto é arbitrário e enfeite” (Deleuze, 2006, p. 213). Afinal, criar perspectivas poéticas é também uma possibilidade de instaurar outras formas de política, como nos sugere Walter Kohan: “em primeiro lugar no pensamento, uma política da experiência e não da verdade, uma política de interrogação permanente sobre a possibilidade e as formas da própria política, que a desinstale do lugar da impossibilidade” (Kohan, 2007, p. 52). Políticas que questionem o que somos, para que possamos vir a ser de outros modos, em nossas formas de viver, pesquisar e, talvez, em nossas formas de educar.

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VINHOSA, Luciano. Obra de Arte e Experiência Estética: arte contemporânea em questões. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011. [ Links ]

1 Estes artigos podem ser acessados nos Anais da ANPAP: <http://www.anpap.org.br/encontros/anais>.

2No original em inglês: “[...] an effort to utilize the forms of thinking and representation that art provides as means through which the world can be better understood and trough such understanding comes the enlargement of mind”. Todas as traduções, que constam neste artigo, dos livros de Eisner; Barone e Jagodzinski; Wallin são traduções livres de minha autoria.

3No original em inglês: “It is the plurality of view that we seek in a long run, rather than a monotheistic approach to the conduct of research”.

4No original em inglês: “[...] a need for surprise, for the kind of re-creation that follows from openness to the possibilities of alternative perspectives on the world”.

5As grandes narrativas modernas são entendidas por Lyotard como explanações que conduzem a significados finais, forjando o conforto de certezas, excluindo teorizações e perspectivas divergentes.

6No original em inglês: “of repeating a subjectivity that serves current neo-liberalism and capitalist ends”.

7Capitalismo designer é um termo cunhado por Jagodzinski, referindo-se à sociedade de controle, como foi descrita por Deleuze e Guattari em Mil Platôs (1995).

8Disponível em: <http://loganzillmer-photography.tumblr.com/>. Acesso em: 15 jan. 2018.

9No original em inglês: “To assault a kind of lethargy by which signs are always already distributed within a semiotic field. However, such representational fidelity is not yet to encounter thinking, last a form of education, educere, capable of ‘leading out’, or otherwise, of creating a pedagogical encounter with an outside thought that might once again force us to think. This is perhaps the most unique contribution of art to education insofar as it demands of teaching and learning something radically other than the voluntary movement of memory (reflection), the application of representational matrices (transcendence), or the deployment of laws known prior to that which they apply (morality). [...] This is the beginning of an ethics of betrayal”.

10Disponível em: <http://www.e- flux.com/.../jenny-holzer-at-printed-matt>. Acesso em: 05 mar. 2012.

11No original em inglês: “It knows full well the game of affect. The pre-individuated realm of the unconscious raises all sorts of problematics for arts-based research that wishes to free itself of the capitalist lure. Perhaps it can’t. [...]. Capitalism in this sense is machinic, an alien monstrosity that sustains itself indefinitely through continuous cycles of deterritorialization and reterritorialization. Its animist agency is manifested through ecophagic practices, which harbour a freudian death drive to the point where everything will be used up, as our species is liquidated by its own narcissism”.

12Disponível em: <http://www.itaucultural.com.br>. Acesso em: 4 set. 2011.

Recebido: 17 de Setembro de 2018; Aceito: 20 de Maio de 2019

Maria Cristina Diederichsen é doutora em Educação, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Licenciada em Artes Visuais no Centro de Artes (CEART), Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Cursou Teatro na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade de Vincennes (Paris VIII). Atua como professora de artes visuais desde 1988 em escolas, tendo trabalhado nos Ensinos Infantil, Fundamental e Médio. ORCID: http://orcid.org/0000-0002-8374-5440 E-mail: timtim54@gmail.com

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