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Rodriguésia

versão impressa ISSN 0370-6583versão On-line ISSN 2175-7860

Rodriguésia vol.67 no.5spe Rio de Janeiro  2016

https://doi.org/10.1590/2175-7860201667526 

Artigos Originais

Flora das cangas da Serra dos Carajás, Pará, Brasil: Calophyllaceae

Flora of the cangas of the Serra dos Carajás, Pará, Brazil: Calophyllaceae

Lucas Cardoso Marinho1  3  4 

André Márcio Amorim2  3 

1Universidade Estadual de Feira de Santana, Av. Transnordestina s/n, Novo Horizonte, 44036-900, Feira de Santana, BA, Brasil.

2Universidade Estadual de Santa Cruz, Depto. Ciências Biológicas, Rod. Ilhéus-Itabuna, Km 25, 45662-900, Ilhéus, BA, Brasil. amorim.uesc@gmail.com

3Herbário CEPEC, Centro de Pesquisas do Cacau, Rod. Itabuna-Ilhéus, Km 16, 45650-970, Itabuna, BA, Brasil.


Resumo

É apresentada a descrição de Calophyllum brasiliense (Calophyllaceae) como contribuição à flora rupestre das cangas da Serra dos Carajás. Calophyllum brasiliense possui ampla distribuição no neotrópico, habitando geralmente áreas de restinga e/ou associada a cursos d'água. Adicionalmente, a espécie é ilustrada e comentários taxonômicos são fornecidos

Palavras-chave: Calophyllum brasiliense; Floresta Nacional de Carajás; Malpighiales; Pará; taxonomia

Abstract

Calophyllum brasiliense (Calophyllaceae) is described as a contribution to the rupestral flora of the cangas of the Serra dos Carajás. Calophyllum brasiliense has a wide distribution in the Neotropics, growing usually in restinga areas and/or associated with watercourses. Additionally, the species is illustrated and taxonomic comments are provided.

Key words: Calophyllum brasiliense; National Forest of Carajás; Malpighiales; Pará state; taxonomy

Calophyllaceae

Calophyllaceae J. Agardh possui distribuição pantropical, com maior diversidade nos paleotrópicos (Stevens 1980, 2001). São reconhecidos 14 gêneros e 460 espécies caracterizadas vegetativamente pelo hábito arbóreo-arbustivo, lianescente apenas em Clusiella Planch. & Triana, latescência e folhas espiraladas ou opostas. As flores possuem sépalas e pétalas livres, geralmente de coloração branca ou rósea, e os estames são numerosos, livres ou conatos na base (Stevens 2001, 2006). No Brasil ocorrem sete gêneros (além de Mammea L., que é introduzido) com ampla distribuição em todos os estados do país exceto no Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul (BFG 2015).

1. Calophyllum L., Sp. Pl. 1: 513. 1753.

Calophyllum é caracterizado vegetativamente pelos ramos glabrescentes, presença de exsudato amarelado, folhas opostas com nervuras secundárias e intersecundárias bastante numerosas e próximas umas das outras, alternadas com canais laticíferos. As inflorescências são cimosas, raramente paniculadas, axilares ou terminais com flores uni ou bissexuadas. Em algumas espécies a sépala é petaloide, brancas ou amareladas, e as pétalas podem ser ausentes. Os estames são numerosos e geralmente livres, o ovário possui um lóculo e um óvulo resultando em um fruto do tipo baga (Stevens 2006). Calophyllum é o maior gênero de Calophyllaceae, alcançando cerca de 200 espécies com distribuição pantropical (Stevens 1980). No Brasil ocorrem quatro espécies e apenas Calophyllum brasiliense é registrada no estado do Pará (BFG 2015).

1.1 Calophyllum brasiliense Cambess., Ann Fl. Bras. Merid. (quarto ed.) 1(8): 320-321, pl. 67. 1825 [1828]. Figs. 1a-c; 2a-e

Figura 1 Calophyllum brasiliense - a. ramo com frutos; b. detalhe do pecíolo e base da lâmina foliar; c. flor bissexuada em vista lateral (a. D.M. Neves et al. 1336a; b. V.T. Giorni et al. 336; c. L.V. Costa et al. 599). 

Figure 1 Calophyllum brasiliense - a. stem with fruits; b. detail of petiole and base of leaf blade; c. bisexual flower in lateral view (a. D.M. Neves et al. 1336a; b. V.T. Giorni et al. 336; c. L.V. Costa et al. 599). 

Figura 2 Calophyllum brasiliense - a. habitat; b. hábito; c. detalhe da face adaxial da lâmina foliar; d. detalhe da inflorescência; e. flor estaminada. Fotos: a-b. Pedro Viana; c-e. Cristiane Snak. 

Figure 2 Calophyllum brasiliense - a. habitat; b. habit; c. detail of the adaxial surface of leaf blade; d. detail of the inflorescence; e. Staminate flower. Photos: a-b. Pedro Viana; c-e. Cristiane Snak. 

Árvores com até 6 m alt., exsudato branco a creme; ramos quadrangulares, glabros, nigrescentes in sicco. Pecíolos 10-15 mm compr., estriados transversalmente, glabros. Lâminas foliares 5,5-8,5 × 3,4-4,3 cm, opostas, subcoriáceas, oblongas a obovoides, ápice agudo, arredondado ou obtuso, margens inteiras, revolutas in sicco, base atenuada ou decurrente, face abaxial com pontoações nigrescentes esparsas; nervura central impressa na face adaxial, saliente na face abaxial; nervuras secundárias e intersecundárias numerosas, uniformemente distribuídas até a margem. Inflorescências cimosas, axilares, pedúnculos 3-7 cm compr., glabros à puberulentos; brácteas 3-5 mm compr., lanceoladas, persistentes; pedicelo 6-10 mm compr., glabros à puberulentos; botões florais 2-3 × 2-3 cm compr., esféricos a ovais. Flores actinomorfas, uni ou bissexuadas. Sépalas 2, 2-5 × 2-4,5 mm, cremes a glaucas, orbiculares a ovadas, ápice arredondado, base truncada, glabras a puberulentas na face abaxial, côncavas. Pétalas 2-4, 6,5-7 × ca. 5 mm, brancas, lanceolada a ovada, ápice arredondado a agudo, base atenuada a truncada, côncavas, glabras. Estames 15-20 em flores bissexuais e ca. 33 em flores estaminadas, filetes 1,2-2 mm compr., amarelos, anteras 1,2-1,3 mm compr., amarelas, rimosas, basifixas. Ovário 1,5-2 × 1-1,5 mm, esférico a oval, glabro, estilete ca. 1,5 mm compr., estigma ca. 1 mm larg., peltado, levemente lobado. Bagas 2,5-3 × 2,5-3 cm, verdes, lisas, esféricas. Semente ca. 1,5 × 1,3 cm, livre dentro do fruto quando seca.

Material selecionado: Canaã dos Carajás, Serra Sul, corpo A, 06º20'47"S, 50º25'51"W, 12.X.2008, fl., L.V. Costa et al. 599 (BHCB); corpo A, 06º02'06"S, 05º02'66"W, 630 m, 29.VI.2010, bt., A.J. Arruda et al. 288 (BHCB); corpo A/B, 06°20'46''S, 50°25'49''W, 724 m, 04.X.2009, fl., V.T. Giorni et al. 336 (BHCB).

Material adicional selecionado: BRASIL. GOIÁS: Cristalina, 19.X.2011, fl., C. Snak et al. 718 (HUEFS). MINAS GERAIS: São Roque das Matas, 30.VII.2014, fr., D.M. Neves et al. 1336a (HUEFS).

Calophyllum brasiliense é facilmente reconhecida, mesmo vegetativamente, pelas folhas rígidas, verde-claras, brilhantes, e com nervuras secundárias e intersecundárias numerosas. Frequentemente, C. brasiliense é confundida com espécies de Clusia L. (Clusiaceae), as quais também possuem exsudato e folhas rígidas com muitas nervuras. Podem ser diferenciadas pela posição e arranjo da inflorescência (cimosas e axilares em Calophyllum vs. geralmente flores solitárias em inflorescências terminais em Clusia), e pelo tipo de fruto (bagas 1-loculares em Calophyllum vs. cápsulas com mais de 3 lóculos em Clusia). Ainda, C. brasiliense possui o pecíolo transversalmente estriado (Fig. 1b). Nas cangas rupestres de Carajás, Calophyllum brasiliense geralmente ocorre na margem dos corpos d'água, algumas vezes com parte do caule submerso e, geralmente, coberto por epífitas (Fig. 2a-b).

Calophyllum brasiliense possui distribuição neotropical, ocorrendo desde o México até a Argentina. No Brasil, ocorre em áreas próximas a corpos d'água em todas as regiões do país. Na Serra dos Carajás, foi registrada na Serra Sul: corpos A e B.

Lista de exsicatasArruda, A.J. 288; Costa, L.V. 599; Giorni, V.T. 336.

Agradecimentos

Agradecemos ao projeto objeto do convênio MPEG/ITV/FADESP (01205.000250/2014-10) e ao projeto aprovado pelo CNPq (455505/2014-4), o financiamento. Aos curadores dos herbários BHCB, IAN e MG, o acesso às coleções. A Pedro Viana, a Nara Mota e a Ana M. Giulietti-Harley, o apoio durante a realização do trabalho. Ao CNPq, a bolsa de Doutorado concedida à LCM (141561/2015-7), a bolsa de Produtividade em Pesquisa concedida à AMA (310717/2015-9) e ao Edital Universal (486079/2013-9). Agradecemos também a Cristiane Snak e a Pedro Viana, as fotografias, e aos revisores, a criteriosa análise do manuscrito.

Referências

BFG. 2015. Growing knowledge: an overview of seed plant diversity in Brazil. Rodriguésia 66: 1085-1113. [ Links ]

Stevens, P.F. 1980. A revision of the old world species of Calophyllum (Guttiferae). J. Arnold Arbor. 61: 117-424 [ Links ]

Stevens, P.F. 2001 [onwards]. Angiosperm Phylogeny Website.Versão 12, Julho 2012 [and more or less continuously updated since]. Disponível em <http://www.mobot.org/MOBOT/research/APweb/>. Acesso em 18 janeiro 2016. [ Links ]

Stevens, P.F. 2006. Clusiaceae-Guttiferae. In: Kubitzki, K. (ed.). The families and genera of vascular plants. Vol. IX. Flowering plants: Eudicots: Berberidopsidales, Buxales, Crossosomatales, Fabales p.p., Geraniales, Gunnerales, Myrtales p.p., Proteales, Saxifragales, Vitales, Zygophyllales, Clusiaceae Alliance, Passifloraceae Alliance, Dilleniaceae, Huaceae, Picramniaceae, Sabiaceae. Springer, Berlin. Pp. 48-66. [ Links ]

Recebido: 09 de Maio de 2016; Aceito: 19 de Julho de 2016

4 Autor para correspondência: lcmarinho1@gmail.com

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