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Rodriguésia

Print version ISSN 0370-6583On-line version ISSN 2175-7860

Rodriguésia vol.68 no.3spe Rio de Janeiro  2017

https://doi.org/10.1590/2175-7860201768335 

Artigos Originais

Flora das cangas da Serra dos Carajás, Pará, Brasil: Marcgraviaceae

Flora of the cangas of Serra dos Carajás, Pará, Brazil: Marcgraviaceae

Pedro Lage Viana1  2  4 

Ana Paula Oliveira Cruz2  3 

1Museu Paraense Emílio Goeldi, Av. Magalhães Barata 376, São Braz, 66040-170, Belém, PA, Brasil.

2Universidade Federal Rural da Amazônia / Museu Paraense Emílio Goeldi, Prog. Pós-Gradução em Ciências Biológicas, Av. Perimetral 1901, Terra Firme, 66077-830, Belém, PA, Brasil.

3Instituto Tecnológico Vale, Prog. Desenvolvimento Tecnológico e Industrial, R. Boaventura da Silva 955, Nazaré, 66055-090, Belém, PA, Brasil.


Resumo

Apresenta-se um tratamento taxonômico para a família Marcgraviaceae na vegetação de canga da Serra dos Carajás, representada por uma duas espécies, Norantea guianensis Aubl. e Souroubea guianensis Aubl. O presente estudo contém descrições morfológicas, ilustrações e comentários taxonômicos das espécies tratadas.

Palavras-chave: FLONA Carajás; Norantea; Souroubea; vegetação de canga

Abstract

This work presents a taxonomic treatment for the family Marcgraviaceae in the ironstone outcrops - canga vegetation - of Serra dos Carajás, represented by two species, Norantea guianensis Aubl. and Souroubea guianensis Aubl. The study comprises morphological descriptions, illustrations, and taxonomic comments for the species treated.

Key words: FLONA Carajás; Norantea; Souroubea; canga vegetation

Marcgraviaceae

Marcgraviaceae Berchtold & J. Presl compreende aproximadamente 130 espécies, distribuídas em 7 gêneros, de distribuição exclusivamente neotropical (Ward & Price 2002). A família divide-se em duas subfamílias: Marcgravioideae Choisy, composta apenas pelo gênero Marcgravia L., com ca. de 60 espécies; e Noranteoideae Choisy, com seis gêneros e ca. 70 espécies (Ward & Price 2002). Marcgravioideae são caracterizadas por possuírem heterofilia, inflorescência em pseudo-umbela, flores tetrâmeras, e nectários extraflorais no centro da inflorescência, que consistem na fusão de uma bráctea com o seu pecíolo (Dessler 2004). As espécies da subfamília Noranteoideae, por sua vez, possuem folhas monomorfas, inflorescência geralmente racemosa, flores pentâmeras (raramente 3-, 4- ou 6-meras em Soroubea), com nectários, e ausência de nectário não associado a flor na inflorescência (Giraldo-Cañas & Fiaschi 2005; Giraldo-Cañas 2007). No Brasil, a família é representada por seis gêneros e 34 espécies (BFG 2015). Na Serra dos Carajás, há registros de duas espécies, Norantea guianensis Aubl. e Souroubea guianensis Aubl., registradas nas formações rupestres sobre canga.

Chave de identificação dos gêneros de Marcgraviaceae das cangas da Serra dos Carajás

  • 1. Inflorescências 28-45 cm compr.; nectários extraflorais sem aurículas na base, inseridos na porção mediana ou no terço distal do pedicelo floral ...................................................................... 1. Norantea

  • 1'. Inflorescências até 20 cm compr.; nectários extraflorais com aurículas na base, inseridos no ápice do pedicelo floral, logo abaixo do cálice ................................................................................. 2. Souroubea

1. Norantea Aubl.

O gênero Norantea possui apenas uma espécie, Norantea guianensis Aubl., que é a mais amplamente distribuída dentre as Marcgraviaceae. Caracteriza-se por serem arbustos escandentes, terrestres, rupícolas ou hemiepífitos, com ramos monomórficos e folhas espiraladas. As inflorescências são terminais, racemosas, com todos os nectários pedicelares associados a uma flor fértil. As flores são pentâmeras, com sépelas e pétalas livres ou levemente conatas na base, estames 15 a 38, adnatos na base às pétalas, e ovário súpero. Norantea distribui-se da América Central, Trinidad e Tobago à América do Sul (Ferreira 1995; Giraldo-Cañas 2007).

No Brasil, ocorre amplamente no domínio do Cerrado e Amazônia, ocorrendo em todas as regiões (Dressler 2017).

1.1. Norantea guianensis Aubl., Hist. Pl. Guiane 1: 554, t. 220. 1775. Fig. 1a-b

Figura 1 a-b. Norantea guianensis - a. ramo florífero; b. detalhe de inflorescência. c-d. Souroubea guianensis - c. ramo florífero; d. flores, em vista frontal e lateral, respectivamente (a-b. Viana, P.L. 5783; c-d. Sperling, C.R. 5837). Ilustrações: a-b. João Silveira; c-d. Alex Pinheiro Araujo. 

Figure 1 a-b. Norantea guianensis - a. flowering branch; b. detail of inflorescence. c-d. Souroubea guianensis - c. flowering branch; d. flowers in front and lateral view, respectively (a-b. Viana, P.L. 5783; c-d. Sperling, C.R. 5837). Illustrations: a-b. João Silveira; c-d. Alex Pinheiro Araujo. 

Arbustos terrestres, rupícolas ou hemiepífitos; ramos horizontais, decumbentes a eretos. Folhas alternas, espiraladas, pecíolo 0,4-1,5 cm comp.; lâminas foliares 4,5-12,8 × 2,5-6,5 cm, coriáceas, obovais a oblongas, base cuneada, ápice retuso, emarginado ou mucronado. Inflorescências terminais, racemosas, raque 28-45 cm compr. Pedicelos 2-7 mm compr.; nectários pedicelares sacciformes, cilíndricos, vermelhos a vináceos, 17-25 × 6-10 mm, pedículo 8-15 mm compr., inseridos no terço proximal até o terço distal do pedicelo; bractéolas 2, sepaloides, opostas a subopostas, carnosas, ovadas a orbiculares, 8-11mm compr.. Flores actinomorfas, ca. 1,1 cm diâm.; sépalas 5, imbricadas em duas séries, reflexas, ovadas a orbiculares, 1,5- 2 mm diâm.; pétalas 5, ovadas, 3-3,5 mm compr.; estames 15-38, adnatos na base das pétalas, anteras introrsas, oblongas, basifixas a sub-basifixas, amarelas, filetes planos; ovário ovado, piriforme a cônico, ca. 1,5 mm compr.; estigma séssil, mamiforme. Frutos globosos, levemente apiculados, 8-12 mm diâm.; sementes reniformes a oblongas, reticuladas, enegrecidas.

Material selecionado: Canaã dos Carajás, Serra Sul, S11D, 6°23'57"S, 50°20'48"W, 771 m, 6.XII.2007, N.F.O. Mota 1083 (BHCB, MG). Parauapebas, Flona Carajás, platô N1, canga arbustiva, 6°01'34"S, 50°07'43"W, 663 m, 31.VIII.2015, P.L. Viana et al. 5783 (MG); Serra dos Carajás, platô N4, 12.I.2010, L.C.B. Lobato et al. 3791 (MG); Serra Norte, 5 km NE of AMZA-Exploration Camp, 6° S, 50°15' W, 15.X.1977, C.C. Berg et al. 550 (MG, UEC). Parauapebas [Marabá], Serra dos Carajás, vegetação de canga aberta, solo rupestre, 25.X.1985, R.S. Secco & O. Cardoso 603 (MG); margem direita da rodovia Marabá Carajás,15.IX.1986, N.A. Rosa et al. 5026 (MG); Serra Norte, near AMZA-Exploration Camp, 6°S, 50°15'W, 600 m, 13.X.1977, C.C. Berg & A.J. Henderson 501 (INPA, MG, UEC).

Norantea guianensis é típica das formações de canga na Serra do Carajás, com suas inflorescências vistosas, vináceas, encontradas geralmente na estação seca. Caracteriza-se por possui flores associadas a nectários pedicelares vermelhos a vináceos e hábito hemiepífita ou rupícula alastrante por caules horizontais a decumbentes. Existe divergência na literatura quanto à aceitação de táxons infraespecíficos para N. guianensis. Segundo BFG (2015), Dressler (2001) e Ferreira (1995), aceitam subespécies ou variedades, como Norantea guianensis var. goyazensis (Cambess.) Ferreira, N. guianensis subsp. japurensis (Mart.) Bedel, N. guianensis var. gracilis Wittm., reconhecidas principalmente por diferenças no comprimento do pecíolo, forma das folhas e textura da superfície do nectário. Dressler (2017) aceita duas espécies e duas subespécies para o Brasil (N. guianensis subsp. guianensis, N. guianensis subsp. japurensis e N. goyazensis Cambess.), baseado no tipo de hábito, forma das folhas e coloração dos nectários. Pelo fato desses caracteres serem de ampla variabilidade, encontrada até mesmo em um mesmo espécime, outros autores como Giraldo-Cañas & Fiaschi (2005), Giraldo-Cañas (2011), Teixeira et al. (2013) consideram os referidos táxons infraespecíficos sinônimos de Norantea guianensis, posição também adotada no presente trabalho.

Espécie de ampla distribuição no neotrópico com registros para a América Central, Trinidad e Tobago e América do Sul. No Brasil é encontrada ao longo dos domínios Cerrado, Caatinga e Amazônia, sendo amplamente distribuída na região Norte, Nordeste, Centro-oeste e Sul (BFG 2015). Na Serra dos Carajás tem distribuição ampla nos platôs de canga, com registros formais para Serra Norte: N1, N4 e Serra Sul: S11D, apesar de ter sido observada em praticamente todos os platôs da área de estudo. Encontrada em campos rupestres de canga, florestas de terra firme, mata de cipó e matas baixas.

2. Souroubea Aubl.

Souroubea possui ca. 20 espécies, considerado o segundo gênero mais rico em Marcgraviaceae (Dressler 2001; Giraldo-Cañas 2007; Teixeira et al. 2013). Caracteriza-se por serem arbustos escandentes ou lianas com ramos monomórficos e folhas alternas espiraladas. As inflorescências são terminais, racemosas, com todos os nectários pedicelares associados a uma flor fértil e inseridos no ápice do pedicelo, logo abaixo do cálice, com base biauricular. As flores são geralmente pentâmeras (raramente 3-, 4-, ou 6-meras), com sépelas e pétalas livres ou conatas até 2/3 do seu comprimeto, estames 5, adnatos na base às pétalas, e ovário súpero.

Souroubea se distribui do México até a Bolívia, incluindo o Brasil (Machado & Lopes 2000; Giraldo-Cañas 2007). Neste último, há registros de cinco espécies e três subespécies com distribuição nas Regiões Norte e Nordeste (BFG 2015). Na Serra dos Carajás, ocorre apenas Souroubea guianensis Aubl.

2.1 Souroubea guianensis Aubl. Hist. Pl. Guiane 1: 244, t. 97. 1775. Fig. 1c-d

Arbustos terrestres, escandentes ou hemiepífitos; ramos horizontais, decumbentes. Folhas alternas, espiraladas, pecíolo 0,4-0,6 cm compr.; lâminas foliares 8,4-10,5 × 4,1-5,3 cm, coriáceas, obovais a raramente lanceoladas, base cuneada a obtusa, ápice obtuso, emarginado ou mucronado. Inflorescências terminais, racemosas, raque ca. 16 cm compr. Pedicelos 17-22 mm compr.; nectários pedicelares cilíndricos, 11-13 × 2-3 mm, sésseis, inseridos no ápice do pedicelo, base biauriculada; bractéolas 2, sepalóides, opostas, carnosas, orbiculares, 2 × 2 mm. Flores actinomorfas, ca. 0,4-0,5 cm diam.; sépalas 5, imbricadas em duas séries, reflexas, ovadas a orbiculares, 1-2 mm diâm.; pétalas 5, ovadas, 2-4 mm compr.; estames 5, livres, anteras introrsas, oblongas a levemente lanceoladas, basifixas, avermelhadas, filetes planos; ovário piriforme a cônico, 2-3 mm compr.; estigma séssil, mamiforme. Frutos globosos, 16-20 mm diâm.; sementes vermelhas.

Material examinado: Serra dos Carajás, Serra Norte, N1, 6°05'S, 50°08'W, 600-650 m, 26.V.1982, C.R. Sperling et al. 5837 (MG).

Material adicional examinado: BRASIL. RONDÔNIA: Porto Velho, UHE de Samuel, 18.I.1989, U.N. Maciel & C.S. Rosário 1519 (MG).

Souroubea guianensis é encontrada arqueando-se sobre pequenas árvores e alastrando-se através de vegetação rasteira, com sua inflorescência tendendo a ereta, de botões vermelhos, pétalas amareladas e anteras avermelhadas. Caracteriza-se principalmente por apresentar nectários pedicelares com base biauriculada, inseridos logo abaixo do receptáculo, contrapondo-se a outra espécie de Marcgraviaceae encontrada na área de estudo, Norantea guianensis, que não apresenta aurículas na base do nectário pedicelar.

Espécie de ampla distribuição na América do Sul, apresentando uma distribuição disjunta, ocorrendo entre o Norte da América do Sul (Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa e Amazônia Brasileira) e a costa leste do Brasil, de Pernambuco e Alagoas a Bahia (Machado & Lopes 2000; Dressler 2001; BFG 2015). Na Serra dos Carajás foi coletada apenas uma vez, em 1983, na Serra Norte: N1, em floresta densa de árvores pequenas e cipós, adjacente à vegetação ferruginosa.

Lista de exsicatas

Berg CC 501, 550 (1.1). Daly DC 1721 (1.1). Giorni VT 295 (1.1). Hiura AL 97 (1.1). Lobato LC 3791 (1.1). Mota NFO 1083 (1.1). Rosa NA 5026, 5027 (1.1). Sales J 11 (1.1). Secco RS 603 (1.1). Sperling CR 5837 (2.1). Vasconcelos LV 865 (1.1). Viana PL 5783 (1.1).

Editor de área: Dr. Marcelo Trovó

Agradecimentos

Agradecemos ao Museu Paraense Emílio Goeldi e ao Instituto Tecnológico Vale pela estrutura e apoio fundamentais ao desenvolvimento desse trabalho. Ao curador do herbário BHCB o empréstimo dos materiais para estudos. Ao ICMBio, o suporte logístico e licença de coletas na FLONA Carajás, especialmente ao Frederico Drumond Martins. Ao projeto objeto do convênio MPEG/ITV/FADESP (01205.000250/2014-10) e ao projeto aprovado pelo CNPq (processo 455505/2014-4) o financiamento.

Referências

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Recebido: 03 de Abril de 2017; Aceito: 04 de Julho de 2017

4 Autor para correspondência: pedroviana@museu-goeldi.br

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