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Rodriguésia

Print version ISSN 0370-6583On-line version ISSN 2175-7860

Rodriguésia vol.69 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/2175-7860201869302 

Artigos Originais

Flora das cangas da Serra dos Carajás, Pará, Brasil: Dicranaceae

Flora of the canga of the Serra dos Carajás, Pará, Brazil: Dicranaceae

Fúvio Rubens Oliveira-da-Silva1 

Anna Luiza Ilkiu-Borges1  2 

1Museu Paraense Emílio Goeldi, Av. Magalhães Barata 376, São Braz, 66040-170, Belém, PA, Brasil.

Resumo

Duas espécies (Holomitrium arboreum e Leucoloma tortellum) de Dicranaceae foram registradas nas áreas de canga na Serra dos Carajás, no estado do Pará, para as quais é apresentada descrição, ilustração e comentários morfológicos.

Palavras-chave: Brioflora; FLONA Carajás; musgos; taxonomia

Abstract

Two species (Holomitrium arboreum e Leucoloma tortellum) of Dicranaceae were recorded in areas of canga in the Serra dos Carajás, Pará state, including description, illustration and morphologic comments.

Key words: Bryoflora; FLONA Carajás; mosses; taxonomy

Dicranaceae

Dicranaceae Schimp. reúne 40 gêneros de musgos acrocárpicos (Goffinet et al. 2009), dos quais 15 gêneros com 54 espécies foram registrados no Brasil (Costa & Peralta 2015). A família é caracterizada por plantas geralmente robustas, filídios com costa larga na base, células da lâmina alongadas de paredes grossas e porosas, células alares frequentemente diferenciadas, caliptra mitrada ou cuculada, peristômio simples com 16 dentes divididos até a metade ou em direção à base (Gradstein et al. 2001; Goffinet et al. 2009). Nas cangas das Serras dos Carajás foi registrada uma espécie de Holomitrium Brid. e uma de Leucoloma Brid.

Chave de identificação dos gêneros de Dicranaceae das cangas da Serra dos Carajás

  • 1’. Filídios limbados (bordas hialinas com células lineares). Células superiores pluripapilosas .......................................................................................................................................................... 2. Leucoloma

  • 1. Ausência de filídios limbados (elimbados). Células superiores lisas ........................... 1. Holomitrium

1. Holomitrium Brid.

Existem aproximadamente 15 espécies no Neotrópico e cinco ocorrem no Brasil (Gradstein et al. 2001; Costa & Peralta 2015). As espécies desse gênero crescem como epífitas em ramos e troncos de árvores, frequentemente no dossel, ocasionalmente crescem sobre rochas e solo (Allen 1990; Gradstein et al. 2001). Esse grupo é identificado pelos filídios crispados ou torcidos em espiral, elimbados, margem distintamente serrilhada, costa estreita e simples, filídios periqueciais longos, células alares bem desenvolvidas, cápsulas eretas e peristômio com dentes não divididos (Allen 1990; Gradstein et al. 2001).

1.1. Holomitrium arboreum Mitt., J. Linn. Soc., Bot. 12: 58. 1869.Fig. 1a-f

Figura 1 Holomitrium arboreum - a. opérculo; b. margem do filídio; c. hábito; d. margem bi-estratificada do filídio; e. base do filídio; f. filídios. g-j. Leucoloma tortellum - g. filídios; h. margem do filídio; i. hábito; j. base do filídio. Barras: a, c = 1000 µm; b, d, e, h, j = 50 µm; f, g, i= 500 µm. 

Figure 1 Holomitrium arboreum - a. operculum; b. leaf margin; c. habit; d. bi-layered leaf margin; e. leaf base; f. Leaves. g-j. Leucoloma tortellum - g. leaves; h. leaf margin; i. habit; j. leaf base. Bars: a, c = 1000 µm; b, d, e, h, j = 50 µm; f, g, i= 500 µm. 

Plantas verde-escuras, 6‒12 mm de comprimento. Caulídio ereto, pouco ramificado. Filídios fortemente crispados quando secos, ereto-expandidos quando úmidos, ovalado-lanceolados, base ovalada, estreitando-se para o ápice lanceolado, 2,5‒3,5 × 0,3‒0,7 mm, ápice agudo a agudo-acuminado, margem serrilhada do meio ao ápice da lâmina, bi-estratificada, costa percurrente. Células do ápice do filídios quadradas, 7,5‒12,5 µm, lisas, estendendo-se ao longo das margens até a região basal, células da base longo-retangulares a lineares, 50‒75 × 7,5‒17,5 µm, porosas, paredes grossas, células alares aumentadas, ovalado-retangulares, 37,5‒75 × 20‒25 µm, de coloração amarelada a alaranjada. Filídios periqueciais lanceolados, 7,2‒9,7 × 0,3‒0,5 mm. Seta ereta, 8‒10 mm de comprimento, cápsula cilíndrica, 2,2‒2,7 × 0,7‒0,8 mm, dentes do peristômio frágeis, papilosos, perfurados ao longo de uma linha mediana, opérculo com um longo bico, 1,6‒2 mm de comprimento, caliptra cuculada, lisa.

Material selecionado: Canaã dos Carajás, S11C, 6º22’57,9”S, 50º23’07”W, 29.IV.2015, A.L. Ilkiu-Borges et al. 3476 (MG). Parauapebas, N3, 31.III.1993, C.S. Rosário & J.S. Ramos 924 (MG).

A espécie é caracterizada pelos filídios fortemente crispados quando secos e ereto-expandidos quando úmidos, células quadradas a sub-quadradas no ápice, longo-retangulares a lineares na base e células alares aumentadas de coloração amarelada ou alaranjada, margem bi-estratificada e serrilhada do meio ao ápice da lâmina e filídios periqueciais longos, quase do tamanho da seta. Segundo Allen (1990) e Buck (2003), Holomitrium arboreum ocorre principalmente como corticícola e ocasionalmente sobre rochas e solo. Nas cangas da Serra dos Carajás, essa espécie ocorreu sobre rocha em mata baixa e em tronco vivo sobre córrego temporário de drenagem natural.

América Central e América do Sul. No Brasil: AM, BA, PA, PE, RJ, RO, RR e SP. Serra dos Carajás: Serra Norte: N3; Serra Sul: S11C.

2. Leucoloma Brid.

Este é um gênero pantropical com centro de distribuição em Madagascar (La Farge 1998). Possui cerca de 12 espécies no Neotrópico, das quais quatro ocorrem no Brasil (Gradstein et al. 2001; Costa & Peralta 2015). As espécies deste gênero crescem como epífitas, ocasionalmente sobre troncos em decomposição e rochas (Gradstein et al. 2001). Se caracterizam pelas plantas contorcidas quando secas, filídios limbados, borda hialina com células lineares, costa estreita e simples, células do ápice curtas e pluripapilosas, células alares bem diferenciadas, podendo ser aumentadas ou retangulares (La Farge 1998; Gradstein et al. 2001; Buck 2003).

2.1. Leucoloma tortellum (Mitt.) A. Jaeger, Ber. Thatigk. St. Gallischen Naturwiss. Ges. 1870-1871: 413. 1872.

Poecilophyllum tortellum Mitt. Journal of the Linnean Society, Botany 12: 94. 1869.Fig. 1g-j

Plantas verde-claras a amarronzadas, 6‒10 mm de comprimento. Caulídio ereto, pouco ramificado, crescendo em tufos frouxos ou dispersos. Filídios fortemente crispados quando secos, ereto-expandidos quando úmidos, oblongo-lanceolados, base oblongo-ovalada, estreitando-se para o ápice lanceolado, 1,8‒3,5 × 0,2‒0,4 mm, ápice subagudo a obtuso, densamente papiloso, margem inteira, formada por duas fileiras de células hialinas e lineares, costa sub-percurrente a percurrente, obscurecidas pelas papilas. Células do ápice do filídios sub-quadradas a arredondadas, 2,5‒5 µm, densamente pluripapilosas, células da base sub-retangulares, 25‒50 × 5‒10 mm µm, lisas, células alares infladas, retangulares, 37,5‒87,5 × 15‒25 mm, de coloração amarelada a alaranjada.

Material selecionado: Canaã dos Carajás, Serra do Tarzan, 6º19’49”S, 50º07’53,8”W, 01.IX.2015, A.L. Ilkiu-Borges et al. 3677 (MG). Parauapebas, N3, 24.X.1992, C.S. Rosário & J.S. Ramos 2070 (MG).

A espécie é identificada principalmente pelas células superiores densamente pluripapilosas e a margem inteira, formada por duas fileiras de células hialinas e lineares. Nas cangas da Serra dos Carajás, essa espécie ocorreu sobre rocha de ferro em canga aberta e em mata baixa sobre canga.

América Central e América do Sul. No Brasil: AM, CE, MG, PA, RO e RR. Serra dos Carajás: Serra Norte: N3; Serra Sul: Serra do Tarzan.

Lista de exsicatasIlkiu-Borges AL et al. 3476 (1.1), 3677 (2.1), 3488 (1.1). Rosário CS & Ramos JS 924 (1.1), 2043 (2.1), 2065 (2.1), 2066 (2.1), 2070 (2.1).

Editor de área: Dr. Alexandre Salino

Agradecimentos

Agradecemos ao Museu Paraense Emílio Goeldi e Instituto Tecnológico Vale, a infraestrutura e demais apoios fundamentais para o desenvolvimento deste trabalho, assim como à Dra. Ana Maria Giulietti Harley e ao Dr. Pedro Viana, coordenadores do projeto conveniado MPEG/ITV/FADESP (01205.000250/2014-10) e ao projeto aprovado pelo CNPq (processo 455505/2014-4), o financiamento; ao ICMBio, em especial ao biólogo Frederico Drumond Martins, a licença de coleta concedida e suporte nos trabalhos de campo; ao CNPq, a bolsa de Mestrado concedida ao primeiro autor e a bolsa de Produtividade em Pesquisa concedida à segunda autora.

Referências

Allen BH (1990) A prelimintary treatment of the Holomitrium complex (Dicranceae) in the Central America. Tropical Bryology 3: 59-71. [ Links ]

Buck WR (2003) Guide to the plants of Central French Guiana. Part 3. Mosses. Memoirs of The New York Botanical Garden 76: 1-167. [ Links ]

Costa DP & Peralta DF (2015) Bryophytes diversity in Brazil. Rodriguésia 66: 1063-1071. [ Links ]

Goffinet B, Buck WR & Shaw AJ (2009) Morphology and classification of the bryophyta. In: Goffinet B & Shaw AJ (eds.) Bryophyte Biology. Cambridge University Press, Cambridge. Pp. 55-138. [ Links ]

Gradstein SR, Churchill SP & Salazar-Allen N (2001) Guide to the bryophytes of Tropical America. Memoirs of the New York Botanical Garden 86: 1-577. [ Links ]

La Farge C (1998) The infrageneric phylogeny, classification, and phytogeography of Leucoloma (Dicranaceae, Bryopsida). The Bryologist 101: 181-220. [ Links ]

Recebido: 10 de Novembro de 2017; Aceito: 08 de Janeiro de 2018

2 Autor para correspondência: ilkiu-borges@museu-goeldi.br

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