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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.10 no.1 São Paulo Jan./Apr. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2176-457320825 

Artigos

O eu e o outro na enunciação de Jorge Luis Borges

Juciane dos Santos Cavalheiro* 

*Universidade do Estado do Amazonas – UEA, Manaus, Amazonas, Brasil; jucianecavalheiro@gmail.com

RESUMO

O presente estudo aborda a questão da heterogeneidade decorrente do desdobramento do eu, tal como compreendido por Bakhtin mediante a ideia de autoconsciência, aquela que gera sempre um outro para garantir sua própria subjetividade, através do contato com possíveis alteridades: outros gerados como alteridade a partir do mesmo. De acordo com o conjunto ternário (tempo) e trinitário (espaço), teorizado por Benveniste e analisado por Dufour, nossa análise circunscreve-se à abordagem de três contos de Jorge Luis Borges, a saber: O outro, 25 de agosto de 1983 e Borges e eu, em que o duplo e o duplicado são abordados como o mesmo, ainda que outros, pois é a alteridade o que confere condições para o conhecimento do mesmo.

PALAVRAS-CHAVE: Autoconsciência; Alteridade; Outro; Enunciação; Jorge Luis Borges

Introdução

O dialogismo em Bakhtin tem como pressuposto a impossibilidade do sujeito ser reconhecido fora do discurso por ele produzido, sendo apreendido pelas vozes que enuncia. Dessa forma, a enunciação se situa na categoria do nós, para usar uma expressão de Dahlet, entendida como produto de uma voz na outra, uma influenciando a outra, coincidentemente ou não, enfim, "como uma 'construção híbrida', (in)acabada por vozes em concorrência e sentidos em conflito" (DAHLET, 2005, p.56). Bakhtin compreende a linguagem como um processo de interação entre sujeitos situados segundo as particularidades do paradigma espaço-temporal em que se inscrevem. Propõe-se, para além desse diálogo mais pontual – de troca de posições subjetivas –, a pensar a natureza propriamente dita da dialogia, no sentido desta proposta ser, por natureza, um diálogo por vir, perpetuamente inacabado, sempre por ser modificado e/ou alterado. Nesse sentido, faz-se necessária, para a constituição da subjetividade, a alteridade, pois esta se faz presente na busca de si, uma busca de si no outro.

Neste trabalho, propomo-nos a analisar a subjetividade de personagens em contos de Borges, a partir do entendimento bakhtiniano de autoconsciência: "na autoconsciência do herói penetrou a consciência que o outro tem dele, na autoenunciação do herói está lançada a palavra do outro sobre ele" (BAKHTIN, 2008, p.240).

No Ocidente, a partir do século XVII, a ideia do duplo encontra-se "em estreita ligação com o pensamento da subjetividade" ao regular a relação binária sujeito-objeto. Até então, o que prevalecia era a concepção unitária do mundo (BRAVO, 1998, p.263), ou seja, se antes havia uma tendência à unidade, mesmo em se tratando de duplos, a partir do final do século XVI, o "duplo começa a representar o heterogêneo" (BRAVO, 1998, p.264). Assim, no outro – que, por vezes, é o mesmo – o eu busca substância para configurar sua subjetividade. Essa forma de pensar a alteridade, por sua vez, será ampliada, sobretudo na virada do século XIX para o XX, à quebra da unidade subjetiva, avançando à fragmentação do eu, sem limites definidos, o que viria a caracterizar, ao menos em termos estéticos, a modernidade literária e, a partir de sua consciência, o modernismo na literatura. Consideremos, todavia, o fato de que este não se restrinja aos movimentos organizados, muito embora sejam estes sua mais legítima representação.

Se, no âmbito da física, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, no das ciências chamadas humanas, através de artifícios dialéticos, dois ou mais corpos podem fundir-se em um, e um corpo poderá cindir-se em dois ou mais, com vistas à sua multiplicidade cognitiva, dentro de um mesmo tempo analógico e de um mesmo espaço metafísico, como se pode perceber nos contos de Jorge Luis Borges eleitos para esta análise, em que apenas o tempo cronológico separa o narrador de si, o que configura a duplicidade como formadora de uma unidade subjetiva.

Nesse sentido, ao falarmos em autoconsciência, a entendemos como uma forma de conhecimento do eu – inscrito de forma não pleonástica, mas sim reiterativa:

Na categoria do eu, minha imagem externa não pode ser vivenciada como um valor que me engloba e me acaba, ela só pode ser assim vivenciada na categoria do outro, e eu preciso me colocar a mim mesmo sob essa categoria para me ver como elemento de um mundo exterior plástico-pictural e único (BAKHTIN, 2003, p.33).

É o que ocorre, por exemplo, no mito de Narciso ou nos contos e poemas de Borges que discorrem especificamente sobre o espelho e/ou sobre o duplo – levando em consideração a polissemia característica da obra literária –, em que a busca da subjetividade acaba por estar circunscrita ao reconhecimento da alteridade, como na duplicação imagética promovida pela observação de um espelho subjetivo, pois é no espelho que o eu e o outro se confundem com a identidade dupla, não duplicada, mas singularizada segundo sua própria subjetividade. Bakhtin aponta para uma certa vigilância ameaçadora do eu por seu outro, ou seja, o um duplicado, ao afirmar que "o contexto de sua autoconsciência é confundido pelo contexto da consciência que o outro tem dele, seu corpo interior esbarra na oposição do corpo exterior que está separado dele e vive sob os olhos do outro" (BAKHTIN, 2003, p.55). Levando a abstração à matéria, sabe-se autobiográfica a afirmação de Borges segundo a qual teria reservas emocionais – para não dizer medo – em relação a espelhos. As reticências de Borges, mesmo se não fossem autobiográficas, situar-se-iam no espaço aberto (e não completamente calculado) entre o ficcional e o quanto deste pode preencher o biográfico do eu, seja este literário ou não.

1 Sobre o eu e o outro

A questão do outro – em que se concentra a parte talvez mais expressiva da literatura ocidental produzida no século XX – reconhece na desapropriação multiplicadora de seus personagens uma de suas mais singulares características de unicidade, a tal ponto que estes, muitas vezes, se configuram como a alteridade fundadora do reconhecimento do mesmo. Ampliando o raciocínio, pode-se afirmar que, até ao momento, a apropriação do outro, ao menos em termos simbólicos, remete a literatura à reconfiguração do eu, não em sentido dicotômico ou excludente, mas sim dialético ou coincidente.

Todavia, esta perspectiva não é exclusivamente contemporânea, pois, ainda que os autores anteriores ao período acima assinalado possivelmente não tivessem consciência de que se estavam duplicando em nome da constituição de um eu, pode-se perceber desde os primórdios da produção estética ocidental a mesma questão. Em outros termos, não haverá de ser descabido afirmar que a literatura dita contemporânea, em muitos momentos conjugada a uma possível teoria literária, tenha observado, na produção de um passado tão remoto quanto o da produção da arte rupestre, questões que já estavam pronunciadas, mas para as quais ainda faltava uma consciente conceituação. Nas cavernas de Lascaux, por exemplo, verifica-se a reincidência do que se convencionou chamar de mão positiva e mão negativa: para a primeira, o artista como que "carimbava" a palma de sua mão diretamente na pedra; para a segunda, espalmava sua mão e soprava tinta por cima, deixando em pedra o interior do contorno da mesma, como um "decalque"; para a primeira, ter-se-á uma alusão ao "mundo dos vivos" ou homens; para a segunda, uma interpretação viável para o "mundo dos mortos" ou deuses. Dessa forma, a mesma mão é a responsável – alterando-se apenas o processo – pela representação da dialética homem-deus, levando-se em consideração que uma (positiva ou negativa) não existirá senão em diálogo com a outra, que é a mesma.

Quando Nietzsche afirma, na virada do século XIX para o XX, que "Deus é morto", não pretende dizer que, a partir daquele momento, Deus (ou o Outro) esteja morto, mas sim que, de forma consciente, podia já, dentro da cultura ocidental, afirmar e sustentar o fim histórico e cultural de uma alteridade supostamente absoluta e maiúscula (o Outro) como elemento fundador do reconhecimento do eu. Dessa forma, pode-se compreender a "morte" do Outro como elemento intimamente ligado ao reconhecimento do eu enquanto instância convergente entre opostos apenas aparentemente excludentes. A partir dessa consideração, Matos (2010) analisa uma possível identificação entre a teoria psicanalítica freudiana e a poesia de Fernando Pessoa, ao verificar que a pulsão de morte é – e, se não o for, nada será – pulsão de vida, pois é apenas a partir do Outro, como limite (morte), que se poderá estabelecer um diálogo consigo mesmo (vida). Desta forma, não será apenas um recurso poético de Pessoa, mas sobretudo uma elaboração conceitual, a criação neologística do verbo reflexivo outrar-se, para reconhecer-se a si em relação direta consigo mesmo enquanto alteridade.

O universo estético, na concepção de Bakhtin, somente pode ser apreendido mediante uma relação de alteridade entre consciências e sujeitos, o que permite dizer que o sujeito não se constitui somente através de uma (sua) subjetividade, mas pela "ativa compreensão responsiva" que atravessa constitutivamente o um(BAKHTIN, 2003a, p.279; 2003b, p.332). Paulo Bezerra, em prefácio à segunda edição brasileira de Problemas da poética de Dostoiévski (2002, p.XI), afirma que

[...] a ideia central do pensamento de Bakhtin é a ideia do outro, ideia da familiarização, do entendimento, do diálogo. Neste sentido, sua estética humanística pode ser sintetizada no par comunicativo 'eu-outro'.

Neste estudo, o nosso olhar incide sobre a "ativa compreensão responsiva" que o eu tem de si e do outro, perceptíveis na autoconsciência e no discurso das personagens dos contos de Jorge Luis Borges eleitos para esta análise.

2 Borges, segundo a alteridade subjetiva

O tema do outro em Borges presentifica-se em seus contos e poemas, assim como também em suas expressões teóricas, e é perceptível, por exemplo, em O livro dos seres imaginários (BORGES, 2007, p.86), onde se verifica, de forma sintética, a presença do duplo na literatura ocidental: em William Wilson, de Edgar Allan Poe, "o duplo é a consciência do herói", atingida somente quando este assassina o outro, e acaba ele próprio morrendo; na poesia de Yeats, "o duplo é [o] anverso, [o] contrário, aquele que [...] completa, aquele que não [é]". É de se notar que Borges, ao incluir o duplo em O livro dos seres imaginários, considera-o como um ser, tão imaginário quanto, por exemplo, a fênix, a esfinge, as fadas, o minotauro.

Consciente de seu tempo, bem como da cultura ocidental como um todo, Borges levou ao extremo a questão da alteridade, ou da multiplicidade, em relação ao eu, pois quando se é outro já se é múltiplo de um, e mais de um é qualquer possibilidade numérica, tendendo ao infinito, como x.

No conto O outro, Borges ficcionaliza um fato ocorrido em um banco com vista para o rio Charles, norte de Boston, Cambridge. O rio lhe traz a herança de Heráclito, e faz com que pense imediatamente no tempo. Situa-se a narrativa em 1969, ainda que só tenha vindo a ser escrita em 1972. Trata-se do encontro entre o narrador (eu-Borges) e um jovem (outro-Borges) que está em 1918.

O eu-Borges, narrador do conto, vive três tempos: parte de seu presente (1972) – futuro em relação ao tempo da narrativa – e retorna ao passado (1969), momento do enunciado, a partir de quando retorna ainda a um passado mais remoto, o tempo em que o outro-Borges tem como presente (1918). Já o outro-Borges, interlocutor do eu-Borges, também vive três tempos: parte de seu presente (1918), "ouve" seu futuro a partir do que lhe é relatado pelo eu-Borges de 1969, mas é enunciado pelo autor-criador-Borges apenas em 1972, a partir de quando toma substância literária. Desta forma, ao mesmo tempo, três tempos estão circunscritos na relação que se estabelece entre autor-criador-Borges, eu-Borges e outro-Borges: o passado do primeiro será sempre presente ou futuro para os outros dois, enquanto o presente do terceiro será passado para os outros que não são ele, e o presente do segundo será passado para o primeiro e futuro para o terceiro.

Assim, é no processo da criação literária que se estabelece a percepção simultânea dos três tempos – passado, presente, futuro –, muito embora o eu-Borges afirme que se trate de dois espaços e dois tempos, ao propor ao seu interlocutor um novo encontro no dia seguinte no "mesmo banco que está em dois tempos e em dois lugares" (BORGES, 2009, p.15). O eu-Borges não é, portanto, Borges, mas apenas parte dele.

Com relação aos dois espaços, o eu-Borges informa a seu interlocutor que estão "em 1969, na cidade de Cambridge"; já o outro-Borges discorda, e diz que está "em Genebra, num banco, a alguns passos do Ródano". Enquanto o eu-Borges fala no plural, "estamos", o outro-Borges fala por si somente, "eu estou", pois o eu-Borges tem ciência do outro-Borges, já que este não é mais do que seu passado. Todavia, neste caso, a recíproca não é verdadeira, já que nem todo passado é consciente, pois a memória é seletiva, ainda que não conscientemente seletiva. Diz o eu-Borges:

O encontro foi real, mas o outro conversou comigo num sonho e por isso pôde me esquecer; eu conversei com ele na vigília e a lembrança ainda me atormenta. O outro me sonhou, mas não me sonhou rigorosamente. Sonhou, agora o entendo, a impossível data no dólar (BORGES, 2009, p.16).

Assim, sonho e vigília se (con)fundem a partir da percepção e da lembrança do eu-Borges, que, se foi o outro-Borges, também teria sonhado em 1918 o encontro (então futuro) de 1969, mas que deste sonho apenas se pode lembrar de um detalhe: a data no dólar. É a partir desta reminiscência que o autor-criador-Borges pode estabelecer a associação entre o sonho que teve, enquanto outro-Borges, e a vigília que narra, como eu-Borges. Diz o outro-Borges: "Se o senhor foi eu, como explicar que tenha esquecido seu encontro com um senhor de idade que em 1918 lhe teria dito que ele também era Borges?" Pondera o eu-Borges: "Não havia pensado naquela dificuldade" e responde "sem convicção": "Talvez o fato tenha sido tão estranho que procurei esquecê-lo" (BORGES, 2009, p.13).

Assim como há três tempos, há também três espaços: o espaço em que se encontra o eu-Borges quando o fato ficcionalmente ocorreu (banco defronte ao rio Charles, em Boston, no ano de 1969), o espaço do outro-Borges (banco próximo ao Ródano, em Genebra, no ano de 1918) e o espaço do autor-criador-Borges (não explicitado, em 1972).

Passamos a verificar agora a questão da alteridade: de fato, trata-se de um Borges duplicado, como constata o eu-Borges ao afirmar: "o senhor se chama Jorge Luis Borges. Eu também sou Jorge Luis Borges". Embora sejam o mesmo, não o são, pois há uma distância temporal que os separa, verificada mais uma vez pelo eu-Borges ao sentenciar: "O homem de ontem não é o homem de hoje". Logo, conforme a constatação do próprio eu-Borges: "Nós dois, neste banco de Genebra ou de Cambridge, somos talvez a prova".

Contudo, conforme Dufour: "Para ser um (sujeito), é preciso ser dois, mas quando se é dois já se é três. [sic] Um é igual a dois, mas dois é igual a três" (2000, p.100, grifos do autor). Observa ainda, a partir do sistema pronominal benvenistiano, que o conjunto trinitário (eu-tu-ele), desdobrado em duas díades – "eu-tu", por um lado, e "(eu-tu)/ele", por outro – fornece uma matriz da dupla articulação1, observável nas diferentes metalinguagens. De fato, "o conjunto trinitário funciona como uma espécie de dispositivo de controle e correção do 'erro' unário" (DUFOUR, 2000, p.103). É o que ocorre, de certa forma, com a análise que Bakhtin faz de O sósia, de Dostoievski, ao verificar a intriga de Goliádkin com o seu duplo, momento em que Bakhtin observa três vozes,

[...] nas quais decompôs-se a voz e a consciência de Goliádkin: o seu "eu para si mesmo", que não pode passar sem o outro e seu reconhecimento; o seu fictício "eu para o outro" (reflexo no outro), ou seja, a segunda voz substituinte de Goliádkin; a voz do outro que não o reconhece, que, não obstante, fora de Goliádkin não está representada em termos reais [...] (BAKHTIN, 2008, p.250).

A dissociação entre o eu e o outro, entre a temporalidade e a espacialidade, volta a aparecer no conto intitulado 25 de agosto de 1983, um dos últimos escritos por Jorge Luis Borges. Assim como no conto anterior, o outro e o eu duplicado são Borges, no singular. Há o Borges, de 61 anos, que, ao registrar sua entrada em um hotel em Adrogué, percebe que seu nome já está escrito, com tinta fresca. Ao entrar no quarto, escuta a voz que costuma ouvir em suas próprias gravações. Apresentam-se: o mais velho, com 84 anos, espera pela morte e o mais jovem relembra que havia alguns anos tinha iniciado o rascunho da história que todos estavam vivenciando2.

Diferentemente do conto anterior, o narrador deste é aquele que está mais distante temporalmente do momento da escrita. Há uma distância de exatos 23 anos: "ontem completei sessenta e um anos. – Quando sua vigília chegar a esta noite, você terá completado, ontem, oitenta e quatro. Hoje estamos em 25 de agosto de 1983" (BORGES, 2011, p.66). Entretanto, embora separados temporalmente, a espacialidade é a mesma: – "Aqui? Sempre estamos aqui. Aqui sonho você na rua Maipú. Aqui estou partindo, no quarto que foi da mãe" (BORGES, 2011, p.67).

Segundo Dufour (2000, p.145), a sequência ternária incide sobre o tempo, ao passo que o conjunto trinitário se refere ao espaço. Nesse sentido são necessários três tempos, ou seja, a temporalidade se apresenta como uma sequência mais anacrônica que diacrônica, visto que é necessária "uma circulação de sujeitos por trás da fixidez das pessoas verbais" (DUFOUR, 2000, p.145). Há um eu, no caso do conto, o eu-Borges-narrador, aquele está sonhando o outro: "– O sonhador sou eu – retorqui com certo tom de desafio" (BORGES, 2011, p.67), mas que, todavia, é tricindido, pois todo um já são três. Contudo, neste passo, o um passa a ser um outro, a partir do que este outro é também o eu, muito embora não o mesmo: "– Borges sou eu, que estou morrendo na rua Maipú." (BORGES, 2011, p.67).

Como sujeito do ato que pressupõe o tempo, estou fora do tempo. O outro sempre se contrapõe a mim como objeto, sua imagem externa está no espaço, sua vida interior, no tempo. Como sujeito, jamais coincido comigo mesmo: eu sou o sujeito do ato de autoconsciência, vou além dos limites do conteúdo desse ato [...] (BAKHTIN, 2003, p.100).

Tanto a sequência ternária e a temporalidade, quanto o conjunto trinitário e a espacialidade, são ocorrências

de uma mesma estrutura fundamental da simbolização. Essa equivalência é a ferramenta que vai permitir estabelecer a unidade dos diferentes sistemas de simbolização: graças a ela, podemos viajar nesses sistemas e passar de um para outro sem hiato (DUFOUR, 2000, p.146, grifos do autor).

No conto de Borges, a diferença e, ao mesmo tempo, a completude entre o espaço e o tempo são o que fazem com que o eu seja outro e, ao mesmo tempo, o mesmo; o espaço continua a ser o mesmo, ainda que outro, devido à ação do tempo, segundo as possibilidades literárias conferidas à "casa na rua Maipú" (BORGES, 2011, p.67).

Borges eleva o duploa mais extrema potência enquanto outro reflexivo, donde o eu e o outro – o eualterado que se conjuga à alteridade incidente sobre o eu – configuram-se como o alicerce do conto Borges e eu. O eu do conto será, porventura, aquele que caminha por Buenos Aires, o que gosta do sabor do café, da prosa de Stevenson. Já o outroserá Borges, a quem acontecem as coisas. Ou vice-versa. Quanto à relação entre eles, é descrita como "hostil", pois o eu vive ou se deixa viver para que o outro possa "tramar sua literatura", sendo que essa literatura é a justificativa da existência do próprio e primeiro eu, se é que este eu há, ao menos, autônomo em relação à alteridade. Ao eu não resta mais que se perder de si, sobrevivendo apenas alguns instantes de si no outro: "eu permanecerei em ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros". (BORGES, 2008, p.55). O eu procura, de certa forma "esconder-se dele, de não dar atenção a si mesmo, de enfiar-se na multidão, tornar-se invisível" (BAKHTIN, 2008, p.243). Essa submissão do eu para com o outro é, por um lado, uma maneira de não se ver a si mesmo, de tornar-se apenas uma sombra do outro; por outro, uma forma de se manter vivo, de saber de si a partir do que a autoconsciência revela de si e do outro.

No final do breve conto, após o eu ter apontado as peculiaridades do eu e do outro, as personagens se reúnem, literariamente: "não sei qual dos dois escreve esta página" (BORGES, 2008, p.55).

Barthes, em A morte do autor, observa que a escritura destrói toda voz, porque ela é "esse neutro, esse composto, esse oblíquo pelo qual foge o nosso sujeito, o branco-e-preto em que vem se perder toda identidade, a começar pela do corpo que escreve" (BARTHES, 2004, p.57). Segundo Barthes, não é o autor quem fala, assim como Borges também, ao afirmar ter o outro conseguido "certas páginas válidas" que, entretanto, não são dele ou de outro alguém, mas sim "da linguagem ou da tradição" (BORGES, 2008, p.54).

Conclusão

Ao analisarmos a alteridade nos contos de Borges, verificamos, a partir da tensão entre o eu e o outro, a inadequação de nos restringirmos a uma lógica binária, tendo-nos sido necessário considerar, tal como teorizado por Benveniste e analisado por Dufour, o conjunto ternário (tempo) e trinitário (espaço). Assim como a compreensão de autoconsciência, tal como entendida por Bakhtin, sem a qual não seria possível ouvir nos contos de Borges o cantar de três vozes (BAKHTIN, 2008, p.253).

Na obra de Jorge Luis Borges, de muito frequentes espelhos, fazedores de outros, o Outro, enquanto morte em potência, dará sustentação à sua própria existência, enquanto motor da vida e do porvir. E, logo, será apenas a partir da ideia de morte, através de um afastamento de si mesmo, que o mesmo Borges poderá ser um eu mesmo, ainda que outro e, só assim, consciente de sua existência.

1 "Por um lado, o sintagma, a metonímia, a continuidade, a aposição, o 'e' – em suma, a transitividade -; por outro lado, o paradigma, a metáfora, a disjunção, a oposição, o 'ou': em suma, a intransitividade." (DUFOUR, 2000, p.104).

2 Verificável no poema Adrogué (BORGES, 2008, p.143).

REFERÊNCIAS

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Recebido: 03 de Outubro de 2014; Aceito: 09 de Abril de 2015

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