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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.10 no.2 São Paulo May/Aug. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2176-457322177 

Artigos

Embate dialógico entre leitura e escrita: manifestação de uma ética da ação discursiva a partir do Círculo bakhtiniano

Angela Maria Rubel Fanini* 

*Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR, Curitiba, Paraná, Brasil; CNPq; rubel@utfpr.edu.br

RESUMO

Esta investigação, fundamentada em conceitos de Bahktin e Volochinov, discute a relação entre leitura e escrita. A partir dos conceitos de dialogismo, exotopia, autoria, dentre outros, percebeu-se que leitura e escrita constituem uma ação social de dimensão ética. Para o Círculo, leitura e escrita são processos criativos e dialógicos, visto que leitor e autor entram em profundo diálogo em que posições, muitas vezes díspares, se confrontam. Ao ler um texto, o leitor o faz com seu repertório cultural, mediando a leitura por vieses: contexto, gênero, classe social, axiologia, etc., recriando-o a partir dos seus parâmetros. O texto, entretanto, resiste, visto que foi concebido por outrem, cujo horizonte axiológico, temporal e contextual é outro. Qual a possibilidade de convergência e/ou discordância entre autor e leitor? As respostas a essa problematização demonstraram que o processo leitura/escrita é constituído por uma perspectiva ética de base dialógica: a presença do outro ocorre como alteridade, levando à necessidade de se fazer escolhas, intervenções, opções que podem destruir, carnavalizar, exaltar e idealizar esse outro. A centralidade da linguagem na constituição do ser social mostrou a ética discursiva dialógica como categoria fundamental para a compreensão da leitura e da escrita.

PALAVRAS-CHAVE: Leitura e escrita; Embate dialógico; Ética discursiva; Coautoria

Na cultura, a exotopia é o instrumento mais poderoso da compreensão.

Mikhaïl Bakhtin

1 A centralidade da linguagem e do dialogismo e a tradição marxista

Para encetar essa discussão, partiremos de um princípio fundamental para o Círculo: o conceito de dialogismo entendido em seu caráter epistemológico e ético. O dialogismo é princípio fundante do ato de conhecimento, de comunicação, de interação verbal, de formação tanto do homem quanto da consciência humana e também de um agir e interagir no meio social. O dialogismo é a condição necessária pela qual conhecemos a nós mesmos, ao outro e ao mundo e nos comunicamos, lendo, escrevendo, falando. A atitude dialógica é central para a constituição do ser social. O dialogismo é uma ação social e ética, pressupondo a alteridade. Para nos relacionarmos com o mundo quer seja pela linguagem ou pela ação (trabalho, técnica) há que se passar pelo outro. O ser humano, para se tornar ser social, precisa se inter-relacionar com o outro, sendo o dialogismo uma ontologia. A orientação dialógica pressupõe a relação entre mim e o outro e essa relação é incontornável. Nunca estou só no mundo e a presença desse outro é inevitável e inelutável, forçando-me a com ele dialogar, a ele responder, refutar, criticar, acompanhar e interagir. A linguagem é, em sua essencialidade, um processo dialógico dado por intermédio de relações intersubjetivas.

Lendo a obra do Círculo, sobressai que o dialogismo é um princípio do qual derivam a linguagem, as relações sociais, a cultura, a história, as lutas concretas e a constituição do humano. Entretanto, a linguagem é também condição humana essencial e o estudo e a experiência com a linguagem se dão a partir de uma perspectiva dialógica. Bakhtin e Volochinov (1986), especificamente nessa obra, embora vinculados à tradição marxiana, alertam que a linguagem foi relegada a segundo plano por essa tradição. Sabe-se, sobejamente, que todo o arcabouço teórico-político marxiano enfatiza a centralidade do trabalho, do fazer humano e da práxis. Nesse passo, o marxismo destaca a ação e a luta humanas e não a linguagem, esta, muitas vezes, entendida como apenas um instrumento de comunicação. Na tradição marxista, o agir humano antecede o falar em termos qualitativos.

Para os teóricos russos aqui citados, a situação é outra, ou seja, a linguagem não é uma derivação da práxis. A linguagem é atividade, ou seja, dá-se entre sujeitos históricos concretos e insta-os à ação e à luta. A linguagem é campo de luta e acompanha toda nossa práxis social. No dizer dos teóricos: "A palavra como fenômeno ideológico por excelência, está em evolução constante, reflete fielmente todas as mudanças e alterações sociais. [...] É impossível, evidentemente, estudar a evolução da língua, dissociando-a completamente do ser social que nela se refrata e das condições socioeconômicas refratantes" (BAKTHIN/VOLOCHINOV, 1986, p.194). Assim, o Círculo inaugura uma discussão bastante inédita dentro da tradição marxista visto que esta, hegemonicamente, destaca o caráter derivado da linguagem, posicionando-a como secundária no processo de formação do ser social à medida que prioriza o trabalho como primeira instância de mediação entre o homem e a natureza e dos homens entre si. Os pensadores russos, contrariando essa tradição de centralidade do trabalho, enfatizam que a linguagem é formadora do ser social já em suas primeiras instâncias de relacionamento social. O homem não tem uma linguagem da qual pode se apossar para se relacionar, mas se dá enquanto linguagem e esta parte das condições materiais de existência, constituindo-se nas relações concretas do cotidiano, ou seja, tem uma base material. Entretanto, diferentemente da tradição marxista, a linguagem, embora seja oriunda das condições concretas do existir humano, refletindo essas circunstâncias, também as refrata, pois não é reprodução do real, ou simples nomeação.

A linguagem também cria e recria essa realidade visto que ocorre em meio a lutas, opiniões, posições axiológicas, não podendo ser um simples código que acompanha a ação, o trabalho, o devenir concreto da práxis humana. A linguagem é por isso atividade humana, agindo, modificando e instituindo o real. As relações entre infraestrutura e superestrutura são de duplo sentido para o Círculo, afastando-se da tradição marxista mais ortodoxa e hegemônica em que a infraestrutura determina a superestrutura, vinculando-se a uma perspectiva materialista reducionista. Também se afasta de uma posição idealista que nega a existência do referente histórico para a linguagem. Essa vincula-se ao real e dele parte, mas o cria, altera, deforma e carnavaliza simultaneamente. Bakhtin e Volochinov (1986)apresentam uma seção completa de discussão sobre as relações entre infraestrutura e superestrutura, respondendo, com certeza, a uma das questões mais pertinentes e de disputa na tradição marxista até o presente momento, que consiste na crítica ao marxismo no tocante à determinabilidade monológica do econômico sobre o campo das ideias, linguagem e ideologias constituídas.

Outro ponto que o Círculo discute e que esclarece essa questão é a dimensão da "ideologia do cotidiano", bastante importante para os teóricos e que comprova a relevância das relações sociais concretas do agir humano e como esse cenário é fonte de constituição da linguagem, comprovando-se o seu caráter materialista. O contexto imediato da práxis é importante, mas o Círculo também destaca o contexto de longa duração mobilizado nos discursos, pois a enunciação é sempre uma resposta ao já dito e uma antecipação da réplica, englobando não só o imediato, o presente, mas o passado e o futuro remotos. A contribuição do Círculo para o debate marxista sobre linguagem é inédita, enfrentando um dos pontos mais críticos da tradição de esquerda até o presente momento, ou seja, a problemática do determinismo econômico. A inserção da discussão sobre linguagem no campo marxista é inovadora e instaura uma ética do agir na prática cotidiana.

2 Objetivismo Abstrato e Subjetivismo Individualista: a superação e a introdução de uma ética da ação discursiva orientada por uma perspectiva dialógica

Desse modo, dependendo de como me relaciono com a palavra do outro, instauro aí uma ética da ação discursiva. Vivo nas palavras de outrem e, consequentemente, no mundo de outrem, respondendo a eles. Nesse passo, tanto a escrita quanto a leitura, visto que são linguagem, concretizam-se sempre de modo fronteiriço entre o autor e o leitor. Tanto o leitor quanto o autor são responsáveis pela produção, circulação e significação do texto. Não há como se enfatizar só o autor ou só o leitor. A orientação da leitura e da escrita é sempre de caráter dual. A perspectiva dialógica com que se concretiza a leitura e a escrita, distancia-se completamente de uma posição monológica em que um dos polos é destacado. Na perspectiva dos teóricos aqui citados, o autor tem poder sobre o texto, mas o leitor também. O texto vive e se torna significativo na fronteira entre um e outro:

Vivo no universo das palavras do outro. E toda a minha vida consiste em conduzir-me nesse universo, em reagir às palavras do outro (as reações podem variar infinitamente), a começar pela minha assimilação delas (durante o andamento do processo do domínio original da língua), para terminar pela assimilação das riquezas da cultura humana (verbal ou outra). [...] Essa redistribuição de tudo o que está expresso na palavra, e que dota o ser humano de pequeno mundo constituído de suas palavras pessoais (percebidas como pessoais), representa o fato primário da consciência humana e da vida humana que, como tudo que é primário e evidente, até agora foi pouco estudado (pouco conscientizado) (BAKHTIN, 1997, p.383).

Vê-se nesse trecho que não se está dissertando sobre linguagem do ponto de vista instrumental, mas sim, de um mirante a partir do qual o homem como ser social e cultural se forma e se constitui. Tomando-se, portanto, esse caráter fundante da linguagem e do dialogismo para toda relação social, entende-se que o sujeito nunca está sozinho no ato de comunicação, interpretação, fala, ação na sociedade, escrita e leitura. Em Marxismo e filosofia da linguagem, os autores questionam duas correntes teórico-filosóficas que visam explicar a relação dos sujeitos com a linguagem, com a cultura e também com a vida. Embasando-se em uma perspectiva dialógica, demonstram que tanto o Subjetivismo Individualista, que advoga um sujeito fundante e originário do saber, da fala, da leitura, da comunicação e da ação, quanto o Objetivismo Abstrato, em que os sujeitos se submetem a um código linguístico, cultural, filosófico ou de ação que lhes é anterior e superior, são inapropriados para explicar como ocorre a relação entre o sujeito e a linguagem, entre o sujeito e a cultura, entre o sujeito e a história. Destacaremos mais o campo da linguagem, mas conscientes de que as questões culturais, históricas, econômicas e existenciais estão implícitas no debate, uma vez que para o Círculo a linguagem é constituinte do ser social e, nesse sentido, não há como se pensar a linguagem fora da corrente da ação humana na vida.

Para os autores, o sentido da linguagem não está nem no indivíduo isolado, nem no sistema que o assujeita. Os sujeitos, por intermédio de relações dialógicas em que um pressupõe o outro, utilizam-se de um código verbal social dado e o mobilizam em suas relações sociais, imprimindo significados novos e evênticos aos signos advindos desse código. É no embate e no confronto de posições axiológicas que o código é acionado e ali se lhe confere significado. Longe se está de um sujeito isolado que mobiliza um código dado, significando-o a partir apenas de suas vivências subjetivas, falando em uma espécie de "idioleto". Longe também se está de sujeitos que utilizam um código estável para apenas se comunicarem, reforçando o sistema e reproduzindo-o de modo eficaz.

Nessa perspectiva, a leitura não é ação isolada do leitor; tão pouco é direcionada unicamente pelo autor ou por um código literário dado. O autor não se submete ao leitor e vice-versa. Ambos resistem em suas particularidades. Ambos se utilizam de um código partilhado, dado cultural e socialmente, mas cada um o mobiliza de acordo com sua posição axiológica. Há estabilidade e instabilidade. Entretanto, para que ambos se encontrem e se entendam, devem partilhar valores e posições, mas nunca poderão convergir totalmente. Caso contrário, um anula o outro. Se predominar somente o texto do autor, o leitor é inexistente. Caso apenas prevaleça o leitor, o texto é vazio de sentido e de situacionalidade histórica e pode ser preenchido com qualquer leitura. São dois sujeitos particularizados, mas que partilham uma dada cultura, encontrando-se no texto e ali se confrontando, sendo um irredutível ao outro, como ocorre na vida dos seres humanos concretos em que a tentativa de anular o outro nunca se concretiza totalmente. Mesmo em épocas ditatoriais, monológicas, de extrema censura e violência, é difícil a anulação total daquele que pode comprometer o sistema. Tanto o autor como o leitor são sujeitos axiológicos, particularizados e não se anulam, mantendo suas especificidades. Assim, percebe-se que a teoria do Círculo é também procedente para a reflexão da existência humana e não apenas mais uma teoria linguística ou cultural da qual se lança mão para se analisar tecnicamente certo corpus. A partir das ideias do Círculo, podemos extrair orientações políticas e éticas para atuar no cotidiano de nossas vidas, em sala de aula e na Ágora, respondendo às questões sociais, históricas, econômicas e existenciais. O Círculo entende a condição humana em sua capacidade de resistência, de alteridade e de irredutibilidade ao outro.

Neste artigo, no entanto, focalizaremos as relações entre leitor e autor por intermédio dessa dimensão dialógica, ou seja, por meio de uma "ética da ação discursiva orientada por uma perspectiva dialógica"1 que aposta no fundamento da alteridade e da resistência ao outro.

Percebe-se que o Círculo dialoga com a tradição sobre a problematização ética. A contraposição do Círculo ao Subjetivismo Individualista aponta para uma crítica à dimensão ética pautada no agir e pensar a partir do "egoísmo ético" em que se apregoa um agir de acordo com interesses e demandas particulares, desconsiderando-se o outro. Nessa linha de raciocínio, a leitura que faço do texto ou do outro que emerge desse texto e a interpretação e análise aí desenvolvidas são as únicas possíveis e certas, pois a perspectiva do outro me é estranha. Na sala de aula, sobretudo, teremos a leitura do professor erigida à máxima universal, sendo esperada que se replique e multiplique entre os alunos. A genealogia dessa dimensão egóica é bastante longa na história do homem, remontando há séculos, sendo reforçada, mormente, na época moderna quando a perspectiva individualista se exacerba.

Nesse viés, o indivíduo surge fortemente destacado do social como fonte de dizer, de regras, de liberdade, de ação. A tutela do Estado, da religião, das regras tradicionais são questionadas por esse indivíduo que passa a ser sujeito de sua história. No período da Ilustração, sobretudo, com o ascenso burguês e o aparato ideológico liberal, essa postura ética egóica se fortalece e o indivíduo surge como uma mônada, um átomo, de onde promana o poder de agir, julgar, opinar, opondo-se às regras tradicionais ou dogmáticas. Bakhtin e o Círculo advogam outra postura, questionando esse sujeito libertário, isolado e fortalecido individualmente. Colocam-no em contato direto com o outro que lhe resiste e o constitui em uma relação de intersubjetividade. Aí está outra visão ética que aposta na alteridade. A centralidade da ação humana desloca-se do sujeito para o intersubjetivo. O Círculo também se opõe fortemente ao Objetivismo Abstrato como mencionado e aqui podemos levantar a questão ética aí decorrente.

Nessa linha, a dimensão ética se pauta, majoritariamente, em regras universais e iguais para todos e que submetem as ações individuais. A perspectiva "norma-deontológica" é destacada, uma vez que há um código de conduta de comunicação, de fala, de escrita, de análise, de leitura e de ação que pode se universalizar. Nessa perspectiva, oblitera-se o sujeito particularizado, o outro, as divisões de classe sociais, os embates, os dissensos, pois se acredita que se pode chegar a universais válidos para todos. Na época da Ilustração também essa corrente se exacerba, enfatizando a racionalidade como propulsora de universais válidos para todos. Já para o Círculo, essa normatividade é questionada. Aposta-se em outra solução dada pelo embate existente entre forças centrípetas que reforçam essa normatividade, essa universalidade, essa fixidez e as forças centrífugas dadas na luta de posições entre os sujeitos sociais, quer estejam próximos quer distantes. Bakhtin e o Círculo advogam uma dimensão ética do outro e esse outro sendo diferente e resistindo ao "universalmente válido". Não há uma verdade monológica do sujeito isolado e também não há uma verdade objetiva do sistema de normas. Entretanto, tanto o sujeito quanto o código não são obliterados, mas significam a partir da dimensão da alteridade, ou seja, é na interação social, cultural, histórica e verbal que os sentidos se vislumbram, vivem, padecem, alteram-se e se constituem.

Para o Círculo, a centralidade da palavra é uma questão ética, ou até meta-ética, pois as palavras tomam sentido no embate cotidiano de posições ideológicas. Como é possível haver um consenso sobre o sentido das palavras, por exemplo, "justiça", "liberdade", "sujeito", "deve-ser" e "moral"? Não há uma estabilidade de sentido das palavras visto que os homens diferem entre si. Assim sendo, não é possível se advogar uma ética quer seja individual, do ser isolado, particularizado, quer seja universal, dada racionalmente por uma esfera trans-histórica, visto que o Círculo percebe o movimento, o processo, a luta de posições que muitas vezes levam ao dissenso e não ao consenso, não podendo haver uma padronização do falar, do agir, do ler, do escrever para todos. Distante se está tanto do indivíduo como ser autônomo para decidir e tomar decisões quanto à língua, à escrita, à leitura e aos destinos da pólis quanto dos imperativos categóricos válidos para todos, independente de classe, gênero, etnia, faixa etária, cultura etc. As decisões não emanam só do indivíduo isolado, ou seja, do individualismo, tão pouco promanam exclusivamente de normatizações, sistemas e padrões que se impõem a todos. Nem tudo é passível de uma generalização pela via da racionalidade como apregoa a corrente da qual deriva o Objetivismo Abstrato. É dentro dessa perspectiva crítica em relação, sobretudo, a essas duas grandes e fortes matrizes culturais ocidentais, o Subjetivismo Individualista e o Objetivismo Abstrato, que passamos a entender o processo ético da ação discursiva e dialógica da leitura e da escrita. É a partir de uma "ética discursiva" que entende a linguagem como sistema não abstrato, mas partilhado cultural e historicamente entre sujeitos, mas que também não oblitera o sujeito, mas o vê em confronto e embate com o outro, no campo intersubjetivo, que podemos perceber e experienciar a leitura e a escrita. Ambas as correntes, o Objetivismo Abstrato e o Subjetivismo Individualista são recuperadas, revisitadas e superadas em outra chave analítica, ou seja, a do dialogismo e da ética discursiva e dialógica.

Para o Círculo, a linguagem é dialógica por excelência, ou seja, para se falar, escrever, debater sobre algo, há que se passar pelo embate discursivo em torno do objeto. O sujeito não chega ao objeto a partir de uma consciência transcendente e racional que o define, conceitua e classifica claramente. Aqui, há uma contraposição direta à Metafísica racionalista ocidental, que vê a relação sujeito e objeto por intermédio de uma consciência transcendente capaz de dizer a verdade sobre o objeto. Essa perspectiva cartesiana se encontra distante do Círculo. Este vai em direção oposta. Somente Adão mítico foi direto ao objeto, nomeando-o:

A expressividade de um enunciado nunca pode ser compreendida e explicada até o fim se se levar em conta somente o teor do objeto do sentido. A expressividade de um enunciado é sempre, em menor ou maior grau, uma resposta, em outras palavras: manifesta não só sua própria relação com o objeto do enunciado, mas também, a relação do locutor com os enunciados dos outros (BAKHTIN, 1997, p.317).

Os homens, vivendo em sociedade, agrupados, falam, escrevem, dissertam sobre a realidade, sobre os objetos, sobre os acontecimentos, sobre sua ação no mundo e essas falas, essas posições verbais são divergentes, são embates discursivos. Não há como, nessa perspectiva, destacar-se a palavra correta sobre a coisa. Para se chegar à coisa, há que se lutar com os discursos que a dizem e muitas vezes de modo diverso. Passamos pelo discurso do outro sobre o objeto. Sendo assim, tanto a escritura quanto a leitura de um dado texto são sempre interdiscursivas e intersubjetivas. Para ler, precisa-se entrar na teia discursiva que o texto agencia para ser construído. Para escrever também se passa pelo discurso do outro sobre o objeto. A dupla orientação da palavra, ou seja, seu caráter dialógico, confirma-se com os autores que acompanhamos:

Essa orientação da palavra em função do interlocutor tem uma importância muito grande. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986, p.113).

Para Bakhtin, a questão da situacionalidade espacial e temporal do texto é fundamental. Ela não é só o contexto imediato como quer uma teoria leninista do reflexo, ou seja, a cada mudança da infraestrutura ocorre uma mudança homóloga na superestrutura. Inclusive as articulações entre base e superestrutura em Marxismo e filosofia da linguagem são tratadas de modo não mecanicista uma vez que a linguagem não deixa de ser sensível a todas as mudanças materiais da existência dos homens e aí, obviamente, destaca-se a questão econômica, mas a linguagem, sendo constitutiva dos homens e ocorrendo na luta diária entre eles, tem o poder de refratar, carnavalizar, criticar, confirmar e reparar a realidade, atuando de modo decisivo sobre ela, como já referido anteriormente. Assim, a visão do Círculo afasta-se de uma vulgata marxista em que predominam as explicações mecanicistas e economicistas que subjugam a superestrutura e a linguagem a apenas um reflexo da realidade. Desse modo, o contexto imediato tem influência sobre a leitura e a escrita, mas isso não implica que esse cronotopo seja o único a instituir a leitura e a escrita.

Além disso, para os Formalistas Russos, com quem o Círculo dialoga em contraponto, o cronotopo não interessa quando da leitura de uma obra, pois se investigam as formas composicionais e estruturais do texto, procurando encontrar um modelo que se repete nos textos, independente do tempo e espaço. Essa visão de cronotopo negativo não interessa ao Círculo visto que todo texto, toda enunciação parte de alguém que responde a outrem. Para o Círculo, o tempo do autor e o tempo do leitor são importantes. Há ainda, a temporalidade de longa duração trazida pela intertextualidade que tanto o autor como o leitor são capazes de acionar no ato de escrever e ler. Na perspectiva do Círculo há uma rejeição da dicotomia, ou seja, não podemos dizer: "Dai-me o tempo do autor e tereis a obra ou dai-me o tempo do leitor e tereis a obra". Isso não se sustenta uma vez que seria uma atitude monológica. O autor também dialoga com discursos de longa duração. Há memória discursiva no texto do autor e o leitor deve acionar essa memória para entrar em uma dialogia complexa com o texto. Para ler um romance como Esaú e Jacóde Machado de Assis, por exemplo, há que se perceber a intertextualidade. Machado mobiliza outro discurso de longa duração no Ocidente. O leitor que não conhece certas narrativas bíblicas perde boa parte da leitura. O tempo do autor, o tempo do leitor e a mobilização de temporalidades anteriores ao texto fazem parte do mesmo, tornando-o bastante complexo e a leitura se torna mais rica se soubermos ler esse cronotopo plural. Nas palavras de Bakhtin:

K. Marx dizia que, somente ao ser enunciado na palavra, um pensamento torna-se real para o outro e, portanto, para si mesmo. Mas esse outro não é unicamente o outro imediato (destinatário, segundo). Em sua busca de uma compreensão responsiva, a palavra sempre vai mais longe (1997, p.357).

Tanto a escrita quanto a leitura são atos enunciativos visto que são respostas ao discurso do outro e voltados para um outro. O Círculo não trata da frase do ponto de vista gramatical, mas sim da enunciação enquanto ato de comunicação vivo entre seres humanos que se respondem mutuamente. Assim, leitura e escrita são atos fronteiriços, ou seja, não há como não se misturarem. O texto exige do leitor um posicionamento e uma leitura. Caso contrário morre, pois não é lido. Deve haver semelhanças entre autor e leitor, ou seja, um repertório comum cultural para que ambos entrem em dialogia. Quem escreve, responde e pergunta, quem lê também responde e pergunta. Nas palavras de Bakhtin:

A compreensão de uma fala viva, de um enunciado vivo é sempre acompanhada de uma atitude responsiva ativa (conquanto o grau dessa atividade seja muito variável); toda compreensão é prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz: o ouvinte torna-se locutor (1997, p.290).

3 Exemplos concretos de relação dialógica e ética entre autores e leitores

Nesta seção, ilustraremos com alguns exemplos essa relação entre autor e leitor que se instaura de forma tensa, orgânica, dialógica e ética. Por exemplo, toda a obra marxiana é uma resposta à sua época, à Revolução Industrial, ao Capitalismo, à burguesia e seus discursos. Seria um trabalho muito interessante, via Análise Dialógica do Discurso - ADD2, recuperar na fala de Marx, as vozes de seus interlocutores, vendo-os no contexto narrativo de Marx. Vemos que muitos contemporâneos de Marx são explicitados ali, inclusive, chamados pelo seu nome real, mas também na fala do teórico alemão afloram discursos de longa duração, sobretudo quando se reporta a períodos históricos muito anteriores à escrita de sua obra. Marx é um leitor de textos tanto do contexto imediato quanto de escritos de longa duração e com eles dialoga tanto em conflito quanto em consonância.

Os leitores de Marx precisam ler a sua obra tanto a partir de seu cronotopo imediato quanto perceber que é também fruto de cronotopos anteriores, mobilizados pelo autor. Marx aciona cronotopos milenares dada sua vasta cultura erudita e, nesse complexo discursivo, é que temos que nos encontrar para ler Marx. Além disso, como é autor canônico e muito lido, quando nos aproximamos de sua obra, vemo-nos diante de leituras que já mitificaram, carnavalizaram, aprofundaram, distorceram a obra. Essas leituras também interferem em nossa leitura. Não iremos jamais direto às obras, mas passaremos por elas já impregnados de outras falas que as dizem. Textos canônicos dificultam a leitura uma vez que sofrem inúmeros comentários no decorrer de sua existência nas sucessivas leituras a que são submetidos. Essa complexa malha discursiva na qual o texto vige é assim exposta por Bakhtin: "Repetimos, o enunciado é um elo na cadeia da comunicação verbal e não pode ser separado dos elos anteriores que o determinam, por fora e por dentro, e provocam nele reações-respostas imediatas e uma ressonância dialógica" (1997, p.320).

Pena é vermos, sobretudo na tradição de esquerda, que a leitura que se faz da obra marxiana desconhece essa orientação dialógica. Não raras vezes, percebemos que o autor alemão é interpretado como uma voz única, fonte exclusiva de seu dizer, e que detém a verdade sobre a sua época. Oblitera-se o intenso diálogo com seus contemporâneos e com as vozes anteriores à sua e também se mitifica a sua capacidade de dizer e definir o objeto. A sua obra se transforma em uma verdade absoluta, definitiva e fechada sobre o Capital, o proletariado e a burguesia. A atitude monológica impera sobre uma perspectiva ética discursiva. Marx surge como uma voz que não se pode questionar, emergindo como uma fonte única e irrepetível do dizer e da verdade absoluta e universal. Os autores russos, ao destacarem a importância da ideologia do cotidiano, enfatizam a recepção ativa das obras no seio da comunidade que as lê: "A obra estabelece assim vínculos com o conteúdo total da consciência dos indivíduos receptores e só é apreendida no contexto dessa consciência que lhe é contemporânea. A obra é interpretada no espírito desse conteúdo da consciência (dos indivíduos receptores) e recebe dela uma nova luz." (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986, p.119). Ainda sobre a vida ideológica da obra escrita, temos:

O livro, isto é, o ato de fala impresso, constitui igualmente um elemento da comunicação verbal. Ele é objeto de discussões ativas sob a forma do diálogo e, além disso, é feito para ser aprendido de maneira ativa, para ser estudado a fundo, comentado, criticado no quadro do discurso interior, sem contar as reações impressas, institucionalizadas, que se encontram nas diferentes esferas da comunicação verbal (críticas, resenhas, que exercem influência sobre trabalhos posteriores, etc.) (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1986, p.123).

O autor, como já enfatizamos, é também um leitor. Como exemplo, temos a releitura da tragédia Medéia de Eurípedes por Chico Buarque em sua obra Gota d'água. O dramaturgo brasileiro está colado a Eurípedes visto que o aciona para a escritura de seu texto, mas dele se afasta também quando o ressignifica. É autor e leitor simultaneamente. Há também o caso do diálogo entre Adélia Prado e Carlos Drummond de Andrade que se encontram a partir de posições díspares em torno do poema "E agora, José", já emblemático na literatura brasileira. Adélia, lendo o poema de Drummond, desloca-o para o seu campo axiológico e o recria em contraponto. Em seu poema "Agora, ó José", a poetiza opõe-se a uma visão de fechamento do humano, instando a personagem José a lutar e aceitar a sina. É também leitora e autora simultaneamente.

Dalton Trevisan e Vinícius de Moraes são outro exemplo. Aquele, ao recuperar o famoso poema deste, "Receita de mulher" provoca uma dialogia tensa em que desdiz, critica e desmerece Vinícius, recriando a figura feminina, idealizada em Vinícius, e carnavalizada em sua releitura. O contista paranaense é leitor de um clássico e o traz para perto de si, colorindo-o e modificando-o. Em todos esses casos, os escritores são também leitores que constroem suas obras em diálogo com outras, respondendo a elas de modo às vezes respeitoso, às vezes irônico ou crítico.

Temos que nos perguntar, então: Como Chico Buarque, Adélia Prado e Dalton Trevisan recebem e respondem os autores com os quais dialogam? A partir de descontinuidades, continuidades, deslocamentos, contrapontos, confluências. Que dimensão ética os move ao se depararem com o outro e o seu texto? Como leem a obra do outro e como mobilizam o diálogo? De forma carnavalizada, respeitosa, oficiosa? O discurso do outro os constitui visto que é daí que partem. Que ação discursiva ética os move ao retomar a fala de outrem e a recontextualizar? E nós, como recepcionamos o discurso, a voz do outro? Qual nossa atitude ética em relação a esse outro? A recepção, a assimilação e a incorporação das palavras do outro é tema de suma relevância para os teóricos russos. São muitas as formas que possibilitam esse diálogo com o outro e isso vai depender da própria formação socioeconômica da sociedade, e, sobretudo, das relações de poder e hierarquia ali definidas.

A questão da exotopia e da finalização também interfere na escrita e na leitura. Para Bakhtin, o eu só se dá a conhecer pelo olhar do outro e pela contraposição ao outro. Não há conhecimento isolado de si. Os outros têm o poder de nos finalizar, pois apresentam uma visão exotópica de nós. Assim, pela leitura é possível construir um olhar sobre o autor e sobre a obra, no entanto, tanto o autor como a obra resistem à redução exotópica. O outro me lê, interpreta, define, classifica e finaliza, mas também pode me reduzir, definindo-me de modo a me ridicularizar, enfraquecer, desqualificar, etc. Entretanto, essa finalização do outro sobre mim pode ser relativizada em outra leitura que poderá me enaltecer, por exemplo, vendo-me em uma chave positiva.

Uma obra é finalizada pela leitura, mas continuará aberta na sua existência a outras leituras. O texto pode ser finalizado e limitado por uma certa leitura, podendo ser enaltecido por outra, vivendo assim uma dinâmica ininterrupta. Por exemplo, um certo discurso considerado científico e de orientação darwinista lê o discurso criacionista-bíblico a partir de uma perspectiva mundana, secular que o desqualifica, desmerece. Essa leitura está consoante à episteme moderna em que uma certa racionalidade da empiria e da verificação constituem as falas e o critério de verdade. Entretanto, em outro cronotopo, esse discurso que apela para o transcendente, será lido como verdadeiro e certo. Os leitores finalizam esse discurso, mas ele permanece aberto em sua existência para ser lido de maneiras diferentes. Nas palavras de Bakhtin:

Quando contemplo um homem situado fora de mim e à minha frente, nossos horizontes concretos, tais como são efetivamente vividos por nós dois, não coincidem. Por mais perto de mim que possa estar esse outro, sempre verei e saberei algo que ele próprio, na posição que ocupa, e que o situa fora de mim e à minha frente, não pode ver (1997, p.43).

O autor cria um mundo a partir da escrita desse universo e o leitor o recria a partir de uma tradução desse mundo para a sua perspectiva. Todo ato enunciativo, quer seja da escrita ou da leitura, é sempre criativo, ou seja, o autor cria um mundo e o leitor o recria também. O leitor cria o seu Drummond, o seu Guimarães Rosa, a sua Adélia Prado, mas não sem sentir a resistência deles. Não há uma monologia da leitura e interpretação corretas de determinada obra. Há sim ressignificações do texto, mas a partir do que ele também propicia.

O Círculo opõe-se a um pensamento hegeliano em que se percebe o movimento da consciência e do espírito como um movimento contínuo entre o exterior e o interior, atingindo seu ápice em uma consciência unitária que chega à autoconsciência. Para os teóricos russos, o movimento é ao contrário, ou seja, do unitário ao outro. Chega-se ao ápice da consciência linguístico-ideológica quando se percebe que não se está sozinho, ou seja, a minha consciência se dá na fronteira com a consciência do outro, diferente de mim. O movimento da história do homem não vai no caminho da síntese dialética que supera os contrários em uma visão do mesmo, do uno, da monologia. Se há alteridade, a leitura e a escritura não podem convergir e sim cada uma tem uma dose de autonomia, pois só me formo pela contraposição ao outro. Para o Círculo, não há a possibilidade de se fortalecer uma perspectiva dialética, em que os contrários são superados em uma síntese apaziguadora dos conflitos. A dimensão da eterna agonística é mais promissora aos pensadores russos, visto que aí não há a estabilidade da síntese hegeliana do espírito absoluto e da síntese marxiana do fim da luta de classes. Leitor e autor não apresentam a mesma posição axiológica, mas entram em interação. Bakhtin, inclusive, destaca o fato de que, na tradição discursiva ocidental, o fenômeno da interação verbal e da centralidade da palavra dual e dialógica na constituição do ser social não foi estudado suficientemente, para não dizer, negligenciado, como já destacado anteriormente.

Na leitura pode ocorrer que o texto seja trazido para uma zona de rebaixamento crítico, ou seja, o leitor pode desconstruir e diminuir, desqualificar o texto do outro. É o que ocorre tanto com textos jornalísticos quanto com enunciações da ideologia do cotidiano onde circulam os textos diários, falados e escritos. Os textos canônicos são menos desqualificados porque estão de certa forma blindados pela tradição, como já enfatizamos. Ao nos aproximarmos, por exemplo, da obra de Fiodor Dostoiéviski, considerado pelos discursos críticos como um clássico, dificilmente poderemos carnavalizar ou desqualificar a obra, pois há aí uma certa blindagem da mesma, oriunda das sucessivas leituras enaltecedoras que a reconstroem de modo positivo. É difícil algum leitor recepcionar de modo negativo um texto de Dostoievski. Por outro lado, textos da mídia jornalística, dados na zona de fronteira com a ideologia do cotidiano, das relações concretas, pragmáticas e imediatas do dia-a-dia, são mais passíveis de leituras críticas e destrutivas. A exemplo, textos do periódico nacional Veja, ou da emissora de televisão Rede Globo, encontram recepção muito negativa por parte significativa de leitores, sobretudo os de orientação considerada de esquerda. São textos facilmente trazidos para uma zona de carnavalização e rebaixamento por parte dos leitores. Outro exemplo: Veja-se como leitores marxistas recepcionam textos não marxistas. O que fazem? Desqualificam? Qualificam? Pensar em como seguidores de Marx leem Marx. Muitas vezes, de modo monológico, jamais criticando, ou encontrando limitações ou contradições na obra marxiana. Só a entronizam e a imobilizam, tratando-a como detentora da palavra verdadeira. A leitura pode ser monológica e fechada, tomando o texto como a última verdade. Entretanto, ele está aberto a outras leituras que o acionam de modo diverso. O leitor pode aderir ou recusar o autor, carnavalizando-o ou entronizando-o. Aí se configura uma postura ética frente ao texto, ao autor, ao outro. Como tratá-lo? Desqualifico-o ou não?

Outra visão importante para o Círculo é que todo ato enunciativo é uma tradução. Para ler um texto, devo traduzi-lo para o meu repertório, vendo-o a partir de meus valores, mas obviamente, que se não houver partilha entre a leitura e a escrita, faremos uma leitura monológica, sem respeito ao outro. Daí que toda leitura é também um ato ético, pois ao me defrontar com um texto, defronto-me com o outro que ali está. Todavia, quando escrevo um texto também dialogo com o outro e o tenho como meu interlocutor. Aí também há uma relação ética, pois como devo lhe responder? Como devo lhe perguntar? O que e como devo lhe narrar os fatos? Com que propósito escrevo? Que contribuições mais humanísticas há em meu texto? O meu texto poderá e em que medida atuar na transformação social? E a minha leitura do texto, mobilizará que práticas sociais? Assim, toda escrita e toda leitura são práticas sociais e por isso se constituem em atos éticos de um dever ser e agir em sociedade. Toda enunciação é autoria e coautoria. Vem de mim e do outro. Vem do autor e do leitor. Nesse embate, vamos construindo o mundo visto que as pontes entre as palavras e as coisas se dão pela luta discursiva de todo o dia que se criam e recriam práticas sociais e culturais que nos guiam em nosso cotidiano. "O encontro dialógico de duas culturas não lhes acarreta a fusão, a confusão; cada uma delas conserva sua própria unidade e sua totalidade aberta, mas se enriquecem mutuamente" (BAKHTIN, 1997, p.368).

Há ainda a questão dos gêneros do discurso e do contexto de leitura que predeterminam, em parte, tanto a escrita quanto a leitura. Comunicamo-nos por gêneros e lemos e escrevemos a partir deles. Há aí certa estabilidade da escrita e da leitura. "Se não existissem os gêneros do discurso e se não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo de fala, se tivéssemos de construir cada um de nossos enunciados, a comunicação verbal seria quase impossível" (BAKHTIN, 1997, p.302). Qual o propósito de se quebrar protocolos discursivos e se romper parcialmente com certo gênero discursivo? Há aí uma postura de resistência, de luta, de embate político via linguagem? Mas pode haver uma submissão total, revelando medo, respeito oficioso, comportamento reacionário.

Percebemos que Bakhtin e o Círculo dão uma contribuição bastante substantiva para não se monologizar a leitura e colocar a ênfase só no leitor ou só no autor. Além disso, há ainda um interlocutor interno à obra, pois sem interlocução não existe linguagem, mas o interlocutor externo também se apropria da obra. É o caso da obra Manifesto Comunista de Marx e Engels que, em parte, dirige-se ao proletariado. Obviamente que há outros interlocutores ali presentes no texto, pois os pensadores alemães endereçam suas críticas a partidários do liberalismo, socialismo utópico e burguesia fabril. Todavia, o sujeito de mudança é ali definido e instado a agir, ou seja, é o proletariado mundial e fabril. Então há um interlocutor que é acionado na obra e ali está constituído. A obra traz uma ética, ou seja, a possibilidade de um "dever-ser" para o interlocutor:

A obra, assim como a réplica do diálogo, visa a resposta do outro (dos outros), uma compreensão responsiva ativa, e para tanto adota todas as espécies de formas: busca exercer uma influência didática sobre o leitor, convencê-lo, suscitar sua apreciação crítica, influir sobre êmulos e continuadores, etc. A obra predetermina as posições responsivas do outro nas complexas condições de comunicação verbal de uma dada esfera cultural (BAKHTIN , 1997, p.298).

Porém, nós, passados mais de um século da publicação da obra de Marx e Engels, somos também os interlocutores dessa obra e devemos lê-la em toda a sua complexidade. Por intermédio de uma ADD, aproximar-nos-emos do texto, investigando seu contexto imediato e lendo-a também a partir de nosso cronotopo que contém o anterior em um processo dialógico tenso. O autor se manifesta ali em toda a sua plenitude intelectual e política e eu como seu leitor vou também me manifestar ética e politicamente em relação ao seu texto. Como ajo perante esse texto que utopicamente promete ao homem a vinda de uma sociedade melhor na visão do autor? Essa é a instigação ética da leitura.

Consideração final

Finalizando essa investigação, acreditamos que Bakhtin e o Círculo nos premiam com uma obra extensa e complexa que não deve servir para ser aplicada a determinado corpus para se finalizar apenas um trabalho acadêmico, mas sim, deve ser lida e relida para ler e reler a nossa própria vida, nossos relacionamentos sociais e permitir que a voz do outro floresça, sem contudo que precisemos com ela sempre concordar. A proposta do Círculo é que se tenha em mente e em ação a presença do outro. É uma perspectiva da alteridade. Posso respeitar, desentronizar, desqualificar, carnavalizar ou reafirmar esse outro. O que não posso é anulá-lo, pois ele é o incontornável em nossa existência. Essa a grande sacada do grupo russo do início do século XX. Nas palavras do Círculo: "A objetivação ética e estética necessita de um poderoso ponto de apoio, situado fora de mim, de uma força efetiva, real, de cujo interior seja possível ver-me enquanto outro" (BAKHTIN, 1997, p.51). Ter o outro como mirante, como interlocutor, como presença constante é a transcendência necessária, a exotopia fundante, para sairmos do insulamento a que uma ideologia do individualismo nos tem encarcerado há muito tempo3. Uma ética discursiva dialógica pode nos proporcionar a compreensão de que as várias vozes sociais não devem ser neutralizadas visto que emergem dos sujeitos reais com os quais convivemos. O outro é presença real e incontornável na perspectiva do Círculo.

1A partir de nossa leitura das obras do Círculo, acreditamos que seja possível utilizarmos esses termos para compreender o processo de escrita e leitura de textos.

2Utilizamos o termo ADD a fim de diferenciar de outro mirante teórico que constitui em AD, advindo sobretudo de inspiração de teóricos franceses. Brait (2011) esclarece a necessidade de diferenciar os termos visto que, embora haja pontos de contato, também há especificidades concernentes às ideias dos pensadores que integraram o Círculo russo. A pesquisadora brasileira salienta que essa terminologia, no entanto, não se vincula a uma conceituação exata e aplicável a determinado corpus no sentido de esclarecê-lo e investigá-lo de modo a nomeá-lo e defini-lo com acurácia. A terminologia deve ser mobilizada de modo a entender as complexas relações do sujeito com a linguagem, com o outro e com o mundo, e de como esse sujeito se constitui como ser social por intermédio da corrente da comunicação viva e concreta em que se acha dado. A perspectiva da ADD se distancia de uma análise técnica e instrumental de certo corpus em que se procura demonstrar, verificar e comprovar, em definitivo, as hipóteses aventadas. Para a ADD, a relação entre o sujeito da pesquisa e o objeto é sempre dada e mediada por intermédio dos discursos sociais que dizem esse objeto.

3Outros pensadores contemporâneos, salvaguardadas as devidas diferenças, também apontam para a perspectiva da alteridade como caminho para uma possível emancipação humana. A dimensão do outro como fundante de relações sociais mais libertadoras é também destaque, sobretudo, no pensamento de Martin Heidegger (o respeito à apresentação, à presença do outro via aletheia), de Jürgen Habermas na aposta da razão e ação comunicativas, de Hans Jonas para quem há que se ter uma nova ética para a sociedade tecnológica e que leve em consideração o outro diferente de mim e de Zygmunt Bauman que enfatiza a necessidade da reinstalação da ágora como forma de compromisso ético com o outro. Citamos esses autores para lembrar que o pensamento do Círculo não é único, mas revela pontos de convergência com outras obras de autores importantes do século XX e XXI. Há ainda a orientação ética para o outro bastante presente e substantiva na tradição do texto bíblico que também exerce influência sobre esses autores uma vez que é um discurso cultural e histórico muito revisitado e também constituinte de nossa tradição discursiva ocidental.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 21 de Fevereiro de 2015; Aceito: 10 de Junho de 2015

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