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Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso

On-line version ISSN 2176-4573

Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso vol.11 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/2176-457323023 

ARTIGOS

MFL em contexto: algumas questões

Adail Sobral* 

Karina Giacomelli** 

*Universidade Católica de Pelotas - UCPel, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil; adail.sobral@gmail.com

**Universidade Federal de Pelotas - UFPEL, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil; karina.giacomelli@gmail.com

RESUMO

A tradução brasileira (2015) do Prefácio de Patrick Sériot para a tradução francesa (2010) de Marxismo e filosofia da linguagem proporciona uma boa oportunidade para discutir a obra e sua relevância no campo das Ciências Humanas, considerando distintas interpretações possíveis. Nesse sentido, este trabalho apresenta uma discussão sobre questões que, a nosso ver, merecem ser abordadas, tanto do trabalho de Sériot (tomado como exemplo de interpretação de MFL) como da obra de Voloshinov.

PALAVRAS-CHAVE: Voloshinov; Marxismo e filosofia da linguagem; Epistemologia e teoria dialógica

Introdução: MFL, tradução e ressignificação

A publicação de uma nova tradução de obras fundamentais como Marxismo e filosofia da linguagem é sempre positiva, pois cada tradução traz não apenas as marcas de sua situação cronotópica per se como as inflexões específicas do(s) tradutor(es) enquanto intérprete(s) legítimo(s) da obra traduzida. A oportuna iniciativa da Parábola Editorial e de Marcos Bagno de traduzir e publicar (sob o título Voloshinov e a filosofia da linguagem) o Prefácio à edição bilíngue russo-francês, com tradução de Patrick Sériot e Inna Tunowski-Ageeva (2010), tornou disponível um relevante documento sobre critérios de tradução enquanto interpretação implícita e sobre interpretações explícitas de obras, algo em que o Prefácio se concentra.

Se, como afirma Sériot (2015, p.22), "Uma retradução é forçosamente um eco, uma alusão, um questionamento implícito da primeira", comentar, num artigo que pretende destacar a importância de Marxismo e filosofia da linguagem para os estudos linguísticos, o Prefácio de uma tradução (que, em 2010, pretende "tentar ficar mais perto de Leningrado-1929 e mais longe de Paris-1977" - SÉRIOT, 2015, p.22), constitui talvez um metaeco, uma meta-alusão, um questionamento explícito, uma avaliação crítica da interpretação da obra que o Prefácio apresenta. Sériot afirma que, ao contrário da tradução de 1977, a sua deixa explícitos os critérios seguidos, e que seu contexto permite uma abordagem "mais serena" (2015, p.23) da obra de 1929. Logo, ele diz a partir de que lugar fala, o que é louvável. Julgamos que são possíveis várias interpretações serenas da obra, e disso nos ocupamos aqui, sempre dialogando com o texto de Sériot, mas não exclusivamente. Seu texto não é, assim, o pivô, mas um exemplo de interpretação a ser a um só tempo considerada e questionada. Também nós dizemos de que lugar falamos.

A busca de contextualização da obra traduzida envolve a intenção de maior proximidade da letra do texto russo; proximidade intentada, obviamente, com os olhos de 2010, e não de 1929, embora o contexto da época seja levado em conta - o que também é louvável. Considerando a imprecisão terminológica de 1929 e especificamente de MFL, essa maior proximidade se dá por meio de uma leitura em 2010 tanto do texto traduzido como da tradução de 1977. A crítica feita por Sériot à tradução de 1977 tem que ver especialmente com a interpretação gerada então, fundada principalmente na ideia de Julia Kristeva de "situar Bakhtin no contexto francês", "acomodá-lo ao olhar francês" (2015, p.23) a que se aliavam outros interesses, políticos e intelectuais. Sériot, a nosso ver, reconhece que a interpretação gerada em 2010 por sua tradução (que, repetimos, pretende ler o texto devolvendo-o ao seu contexto original, de que teria sido tirado por outras traduções) também é influenciada pelo olhar e o contexto franceses de 2010, distintos dos de 1977. O mesmo ocorre com o olhar e o contexto brasileiros de 2015 neste artigo.

Sériot afirma que "As traduções envelhecem [...] enquanto o original não se altera. Mas sua interpretação, sua recepção se modifica em função do tempo e do espaço" (2015, p.23-24), ou seja, uma retradução é outra interpretação, igualmente situada. Ao dizê-lo, Sériot acata a proposição básica do dialogismo. Ele reconhece assim que sua interpretação segue outros critérios que os da de Yaguello/Kristeva, mas não refuta ser ela mais uma interpretação - igualmente questionável, mas útil por desvelar nuanças ausentes de outras interpretações. Deve-se louvar sua crítica a "traduções apressadas" que "criam analogias parciais" (2015, p.24) entre conceitos advindos de distintos universos epistemológicos. Sériot chega a alegar que "existem tantas interpretações [de MFL] quanto traduções" (SÉRIOT, 2015, p.27), algo com que não se pode deixar de concordar.

Nesse sentido, Grillo (2014), que prepara a tradução de MFL do russo para o português, aborda tópicos como a redução da complexidade de termos originais mediante a adaptação forçada a um vocabulário moderno menos complexo em traduções de MFL: a expressão russa para "gêneros discursivos do cotidiano", por exemplo, foi traduzida para o francês (em 1977) e para o português por "dialetologia social" (GRILLO, 2014, p.80), expressão típica da época das traduções, mas que não mostra a complexidade da expressão de partida. Em inglês, tem-se "behavioral speech genres", que mantém "gênero", mas o reduz à "fala" (speech), apaga "cotidiano" e adiciona um adjetivo que impõe à expressão um caráter comportamentalista (behavioral) que ela, considerando a fortuna crítica de MFL, não pode ter.

As traduções, defendemos, envolvem sempre uma posição entre dois polos: até onde é necessário ser fiel à relação de interlocução original e até onde se deve adaptá-la segundo a nova relação de interlocução que o texto traduzido estabelece? A fidelidade extrema pode afastar o texto do público da tradução caso não crie laços entre as culturas, as terminologias etc.; a infidelidade extrema pode cortar os laços da obra com sua cultura, terminologia etc. e submetê-la aos parâmetros da outra cultura, terminologia etc. Logo, o ideal a ser alcançado é o equilíbrio: mover-se entre esses extremos a fim de mostrar a interlocutores da tradução, e não da obra traduzida, o que essa obra traz de sua própria cultura a fim de que esse leitor da tradução possa criar seu diálogo intercultural. De certo modo, o tradutor traz uma palavra de autoridade nesse processo de "reinterlocução" (SOBRAL, 2008).

Podemos depreender disso que padecem inevitavelmente do mesmo mal tanto uma tradução que enfatize situar a obra num dado contexto de tradução mas a desloque de seu contexto de partida como uma tradução que declare buscar aproximar-se do contexto original mas descarte de alguma maneira o contexto em que vem a existir - embora sejam igualmente legítimas traduções que tenham ênfases distintas mas considerem devidamente tanto o contexto original como o contexto em que são produzidas. Uma tradução legítima, como o provam os modernos estudos de tradução, deve respeitar tanto o contexto da obra traduzida como o contexto da tradução, o que constitui sempre um desafio.

Ora, publicadas na França, em francês, em 2010 e em 1977, nenhuma das traduções está isenta das marcas de seu tempo e espaço nem dos interesses legítimos (e explicitados com maior ou menor detalhe) dos tradutores, do momento, do olhar. Estabelece-se assim o princípio de que toda tradução, por mais fiel, é ainda uma interpretação, que, por mais cuidadosa, meticulosa, respeitosa, não é menos reveladora de sua origem, e, portanto, nem mais nem menos verdadeira do que qualquer outra, mas dotada de um grau específico de veracidade. Todas as traduções enriquecem, com as novas nuanças que descobrem, reconstituem, recriam, o arcabouço de compreensão da obra traduzida.

A seguir, vamos tomar o Prefácio de Sériot como exemplo de interpretação de MFL e dar nossa interpretação dos pontos que merecem, a nosso ver, ser comentados, tanto de sua interpretação como da obra de Voloshinov.

1 MFL: contexto, paternidade, "Círculo de Bakhtin"

O Prefácio de Sériot, mais que explicitar critérios de tradução, traz explicitamente uma interpretação da obra traduzida, uma leitura de 2010 cuja comparação com a leitura de 1977 revela precisamente que o cronotopo e a avaliação social dos locutores deixam marcas no enunciado - como o reconhece o próprio Sériot. É precisamente isso que nos interessa. Para dar alguns exemplos dessas marcas, que apontam para direções enunciativas distintas (e igualmente legítimas): moyen (1977) se torna médium (2010); communication e système de communication (1977) se tornam échange4 (2010); matériau social de signes (1977) passa a ser matériau sémiotique (2010); matériau sémiotique (1977) se transforma em matériau idéologique (2010); e idéologique é traduzido por sémiotique (GUILHAUMOU, 2012, parágrafo 6)5.

É oportuno destacar, antes de tudo, a pertinente crítica que faz Sériot ao "endeusamento" das teses de MFL (que se aplica às teses dos outros autores do chamado Círculo), ao afirmar que pretende nos "livrar da hagiografia e da idolatria que exercem seu peso enorme sobre os estudos bakhtinianos" (2015, p.26). Com efeito, a obra do "Círculo" é fruto da época em que foi escrita, e traz suas marcas; ela pode naturalmente ser lida com vistas ao tratamento de novos objetos e necessidades. Para isso, deve-se construir a partir dela o que se pretende, responsavelmente, sem exigir dela o que não promete ou não é da ordem de suas preocupações. Sériot aponta com propriedade a flutuação terminológica, bem como o caráter metafórico do uso de termos em MFL, criando em alguns casos o que ele denomina "ciranda frenética" (2015, p.26) em que jamais se apresenta, a seu ver, alguma definição. Ele também reconhece que isso é marca da época, algo que traz numerosos problemas para quem pretenda esperar de uma obra russa, de 1929, um tipo de rigor terminológico acadêmico que só mais tarde passaria a ser um valor reconhecido, e, hoje, questionado.

Na época, já havia os chamados "especificadores", próximos de um certo positivismo, a que se opunham grupos como o de Voloshinov; estes últimos propunham um outro tipo de ciência em que a especificação não é tão valorizada; a nauka ou "ciência acadêmica" vs a inonauka ou "um outro tipo de ciência", distintas de antinauka, ou "anticiência" e de nenauka, ou "não ciência", que foi objeto de trabalhos de S. S. Averintsev, por exemplo. Atualmente, para além dos termos e expressões usados e de suas possíveis definições "inequívocas", os bakhtinistas, incluindo a chamada "escola brasileira" (que, apressamo-nos a dizer, não é a rigor uma escola, mas uma tendência brasileira de interpretação do dialogismo), buscam definir os parâmetros da teoria dialógica no âmbito de cada obra e na relação entre as obras, em vez de tentar identificar definições academicamente corretas, algo que lembra a ideia de Wittgenstein de que não importa tanto o termo usado desde que se dê dele uma descrição capaz de atender às necessidades heurísticas do estudo.

Sériot dedica esclarecedoras páginas à questão da real existência de um "Círculo de Bakhtin", questão controversa que chega ao ponto de levar a discutir se o "de" é inclusivo ou exclusivo: o Círculo de que Bakhtin fazia parte ou o Círculo pertencente a Bakhtin ou liderado por ele. O autor conclui que, se existiu, o Círculo não era liderado por Bakhtin, atribuindo a Leontiev a disseminação (em 1967) da expressão "Círculo de Bakhtin" e a G. Superfin o uso de "escola de Bakhtin" - tudo isso fruto da importância que o nome de Bakhtin adquiriu na Rússia e no mundo ocidental, e do fato de Medeviédev e Voloshinov não terem sobrevivido tanto quanto Bakhtin. Coube a V. Ivanov (por motivos que Sériot não conseguiu desvendar) a proposição de serem Medvedev e Voloshinov discípulos de Bakhtin e, mais do que isso, de que seria este o autor oculto das obras daqueles. E Bakhtin, como afirma Sériot, jamais reivindicou haver um círculo seu, ainda que tenha em alguns momentos contribuído para não esclarecer a questão. Sériot levanta e apresenta com isenção as circunstâncias desse comportamento (bem como dos vários currículos distintos que Bakhtin elaborou com diferentes propósitos) e alega que não obteve dados que expliquem a oscilação ou as motivações disso. Sabe-se que Bakhtin, em entrevista a Duvakin citada por Sériot, em 1973 (anos antes de Ivanov ter usado a expressão), fala de um círculo que havia ao seu redor e que segundo ele passaram a chamar de "Círculo de Bakhtin", mas nunca afirma ter havido um Círculo liderado por ele.

O Prefácio, cabe destacar, traz talvez o mais amplo e isento levantamento, com todas as vozes disponíveis, da questão da paternidade das obras de Bakhtin, Medvedev e Voloshinov, discutindo o tópico com seriedade e espírito científico. Constrói assim, com dados concretos, um importante documento a ser levado em conta para uma abordagem sóbria. Precisamos de mais trabalhos voltados para o devido esclarecimento da questão ou, quem sabe, para não mais lhe dar importância, uma vez que ela não é determinante para a compreensão de MFL e outras obras

Para além dessa questão - e de polêmicas vazias a seu respeito -, é aceito hoje por vários grupos de estudiosos que há um conjunto de concepções comuns nas obras de Bakhtin (um filósofo), Medvedev (um estudioso da literatura) e Voloshinov (um estudioso da linguagem), e que estes partem de interesses e ênfases distintos e se ocupam de distintos objetos a partir de um, por assim dizer, núcleo básico de pensamento que unia os membros do grupo - objeto, como também mostra Sériot, de inúmeras discussões na época e desde então. Algumas vezes Bakhtin permitiu que se pensasse ser ele o autor de obras dos companheiros e outras vezes afirmou que não eram de sua autoria, chegando a apontar, como numa carta a Kozinov, os respectivos autores de MFL e O método formal.

De todo modo, as questões de paternidade e do Círculo e "escola" de Bakhtin não interferem na avaliação e recepção das obras em nossos dias. Como diz Gadamer (1999, p.302), ampliando uma alegação mais modulada de Ricoeur, "O sentido de um texto ultrapassa o seu autor não apenas ocasionalmente, mas sempre", o que implica que as questões pessoais de autoria não têm incidência direta sobre a(s) interpretação(ções) das obras, que, na verdade, não carecem de autor empírico, mas de autor concreto. Como não há condições concretas de real reconstituição do contexto, apesar dos amplos dados que o Prefácio (ao lado de outros estudos sérios e não tendenciosamente pró ou contra) arrola, resta-nos a labuta com um conjunto de obras unidas por certas premissas e parâmetros que, a partir disso, constroem um arcabouço capaz de servir de base a uma teoria do sujeito, da linguagem em geral e da literatura em particular, bem como ao estudo de outras linguagens - a partir do trabalho meticuloso e dedicado de cada estudioso

Como afirma Sériot, em conclusão acerca da paternidade:

O mais verossímil é que todas essas obras sejam o fruto de discussões multiformes, que a influência possa ser multilateral e que cada um dos autores tenha elaborado à sua maneira temas que eram discutidos em numerosas ocasiões com interlocutores variados (2015, p.59).

O autor traça um importante esboço biográfico de Voloshinov, muito esclarecedor quanto ao seu perfil intelectual e a incidência deste sobre as proposições de MFL. A seu ver, a obra faz uma seleção de autores e tópicos e de aspectos específicos de autores, como Vossler e Humboldt, por exemplo, com vistas a criar uma síntese do estudo da linguagem no âmbito de uma filosofia marxista. Ocorre que essas propostas não incorporavam as doutrinas comunistas (não necessariamente marxistas) então aceitas, como o mostram as reações negativas que a obra teve na URSS, fruto também do momento "errado" em que veio à luz, algo que pode explicar muitas de suas características. Com isso concorda Sériot:

MFL não podia ter chegado em pior momento: 1929 é o ano da "Grande Virada", movimento em que o discurso científico se torna objeto de controle ideológico do Partido. Até então, havia maneiras muito diversas, frequentemente incompatíveis, de "ser marxista" na União Soviética..." (2015, p.72).

Vários comentadores da obra acabaram por incorporar ou desconsiderar certa confusão entre o marxismo partidário (com sua versão "pragmática" das teses de Marx) e o marxismo acadêmico (como método sociológico de estudo), algo que Sériot reconhece, o mesmo ocorrendo com a desconsideração da presença de teses da filosofia materialista dialética nas obras do "Círculo". Por vezes, essa desconsideração levou alguns a ver em Bakhtin certo idealismo, algo que só seria aceitável se tomado como oposto ao empirismo inglês, situação em que assumiria um valor positivo. Alguns elementos vitais do materialismo dialético estão presentes na obra de Lênin, Materialismo e empiriocriticismo, de 1909, que dá continuidade a trabalhos de Marx e Engels no tocante à construção da filosofia marxista, em seus aspectos teóricos e práticos, a partir do estudo de várias filosofias "burguesas" e do desenvolvimento das ciências naturais e das matemáticas.

Essa obra revolucionária inspira as obras de Bakhtin, Voloshinov e Medvedev, como podemos perceber com uma leitura atenta. Não se trata de uma proposta marxista estrita, seja partidária ou acadêmica, mas uma proposta materialista dialética de cunho filosófico mais amplo, uma visão totalizante (e não totalitária) dos fenômenos. Para dar um exemplo, vemos na afirmação de Lênin a seguir uma das bases da ênfase, nas obras do Círculo, na busca da unidade dos fenômenos estudados, em vez de abordá-los parcialmente ou de um dado ponto de vista parcial:

Desta filosofia do marxismo, fundida de uma só peça de aço, não podemos suprimir nenhuma premissa fundamental, nenhuma parte essencial, sem nos afastarmos da verdade objectiva, sem cairmos nos braços da mentira burguesa reacionária (LÉNINE, 1982, p.247).

Lênin recusa aí tanto a filosofia racionalista (que se afasta do fenômeno concreto) como a filosofia empirista (que cria generalizações indevidas), e insiste na questão da unidade: uma proposta que se empenha em abarcar todas as premissas do método e todas as partes do objeto, a fim de dar conta dele. Nesse sentido, as obras de Bakhtin, Medvedev e Voloshinov se estruturam em geral segundo três movimentos: (1) partem dos fenômenos concretos (indução - a "voz" do objeto) com base em uma concepção teórica declarada (dedução - a "voz" do estudioso); (2) usam os elementos assim obtidos no exame dos fenômenos concretos para alterar, se for o caso, a concepção de partida; e (3) voltam ao objeto com uma nova compreensão. Isso ilustra o método materialista dialético (por razões históricas chamado na época de "marxismo"), que vai além da proposta hegeliana excludente de tese-antítese-síntese ao buscar manter na síntese os elementos vitais da(s) tese(s) e antítese(s) em vez de anulá-los, algo inexistente no marxismo vulgar russo de 1929.

Pode-se ver mais claramente, no artigo de Kanaev, por exemplo, os fundamentos materialistas dialéticos mais amplos dos trabalhos do "Círculo": (1) a distinção entre hipóteses de trabalho e pressupostos subjetivos impostos ao objeto; (2) a tomada de posição pela ciência e a defesa dessa posição de modo fundamentado e explícito, sem assumir uma atitude parcial e sem ver só uma parcela do fenômeno; (3) reconhecer que as generalizações, em vez de ser o ponto de partida, são o ponto de chegada, o que implica considerar as especificidades conjunturais concretas dos fenômenos singulares a ser generalizados e aquilo que os une num plano geral; (4) a consideração dos vários aspectos do objeto, sem criar falsas dominantes ou variáveis exógenas para os sistemas estudados.

Sériot afirma que "MFL não é nem um tratado de linguística nem um compêndio de filosofia marxista, mas uma espécie de psicossociossemiótica do comportamento verbal na interação interindividual" (2015, p.84), mas ao mesmo tempo sustenta (tal como Yaguello em 1977!) que a obra apresenta uma concepção filosófica do signo ideológico, sendo portanto uma obra de filosofia da linguagem. De fato, MFL não é um tratado de linguística nem uma exposição da filosofia marxista, e sim um tratado de filosofia da linguagem de cunho materialista dialético, uma vez que segue a abordagem totalizante do materialismo dialético ao buscar considerar integradamente os elementos envolvidos no fenômeno como um todo: significação e sentido; consciência individual e constituição social do sujeito e do sentido; interações verbais, sempre interindividuais; relação entre sujeito empírico e sujeito enunciador - ao propor a noção de "enunciado concreto".

Considerando a afirmação de Voloshinov de que a consciência só pode surgir e afirmar-se como realidade assumindo uma encarnação material em signos, Sériot alega que MFL propõe um "hiper-semiotismo". Na tradução de 1977, usa-se "consciência" no trecho aludido. No Prefácio de Sériot, temos "experiência": "Não existe experiência fora de sua encarnação em signos" (2015, p.79). Mas no corpo da tradução se mantém "consciência". Pode-se supor que a escolha final do termo para traduzir tenha ocorrido antes da redação do Prefácio. O original é "osоznаniyе", costumeiramente traduzido por "consciência". Considerando a concepção de signo ideológico de Voloshinov, o signo é um fenômeno totalmente exterior, não um conteúdo interior [psíquico tout court] inacessível. Se o termo adequado fosse "experiência", seríamos forçados a concordar com o "hiper-semiotismo", já que se a experiência não pudesse ocorrer sem encarnar-se em signos, tudo seria signo e não haveria realidade. No caso de "consciência", pode-se defender a proposta de Voloshinov, pois que método haveria para se ter acesso à consciência afora sua expressão em signos?

A seguir, Sériot levanta outra importante questão, a de se poder julgar que, segundo MFL, não haveria diferença entre língua e discurso: como as palavras seriam sempre de outrem e já chegariam aos sujeitos valoradas, pareceria haver apenas discurso, e não língua como sistema. Cremos que a possibilidade de se pensar ser essa a proposta de MFL se deve a uma falta de clareza do próprio Voloshinov, no capítulo 7 de MFL, quanto à distinção entre significação e tema - que é precisamente uma das bases da proposta, retomada exaustivamente ao longo da obra.

MFL é de fato vago e repetitivo quanto a isso, beirando o circular, mas pode-se depreender, em meio a esse emaranhado, que ele designa por "tema" o sentido completo da enunciação, individual e irreiterável, para além da frase, e incorporando-a: não se pode entender o sentido valorado da enunciação em seu contexto sem entender sua "significação" na língua; "significação" cobre os elementos idênticos e reiteráveis da enunciação, sendo para MFL indispensável como a base do tema. MFL alerta inclusive que seria um pobre dialético quem se restringisse ao individual e irreiterável, assim como seria um pobre filósofo da linguagem quem se restringisse ao idêntico e reiterável. Vê-se em consequência, em MFL, uma distinção entre vir de outrem e pertencer a outrem, bem como a proposta do signo ideológico como sendo valorado ao ser usado em enunciados, no nível do tema, e não da significação, esta sim da ordem da língua.

Adiante, Sériot alega que sоbytié vizкazivаnia, ao ser traduzido por "enunciação", é uma leitura de Voloshinov via Benveniste (cf., 2015, p.91). Literalmente, como ele mesmo afirma, essa expressão significa "o evento do enunciado", o que se assemelha sobremaneira a uma definição moderna de enunciação: o ato no/do qual surge o enunciado ou o evento de surgimento do enunciado. Não vemos em "enunciação", per se, uma influência especificamente benvenistiana, mas uma tradução, em termos ocidentais, correspondente a "evento do enunciado". Não sabemos que leitura fizeram os tradutores de 1977. Embora não seja, a rigor, um termo equivalente à expressão russa, mais analítica, "enunciação" parece ser, como o indicam vários comentadores, uma legítima versão sintética sua, um termo correspondente que não trai a valoração que ela implica, inclusive porque incorpora "enunciado". Por outro lado, como viskazivanie pode ser traduzido por "enunciado" e sobytié vizkazivania por "evento do enunciado", talvez seja mais produtiva a proposta brasileira (cf. SOUZA, 1999), "enunciado concreto", entendido não estaticamente como produto, mas ativamente como o processo de atuação verbal situada na vida concreta. De todo modo, esses conceitos são, a nosso ver, uma inovação do dialogismo ao falar da interação verbal, uma vez que recusam liminarmente a frase como unidade de análise.

2 Duas versões do conceito de signo

Tratando das relações de Voloshinov com Saussure, Sériot afirma categoricamente que "de Saussure, ele não conserva nada: a rejeição é total" (p.78). Quanto ao primeiro ponto, Sériot faz uma leitura tão específica de MFL que não considera o fato de que, se de um lado a obra afirma que o signo não é entidade mental, mas fenômeno do mundo exterior (o que é uma negação de uma das teses de Saussure), por outro diz que todo signo se constitui opondo-se a outros signos e, mais do que isso, que a compreensão de um signo depende de sua relação com outros signos (o que mantém a proposta de Saussure). Logo, se recusa dicotomias saussurianas para explicar o signo ideológico, MFL também não cai no idealismo de julgar o mundo material construído por signos ou pela consciência, propondo em vez disso uma concepção materialista dialética que mantém a articulação constitutiva entre os vários aspectos do signo que postula, no nível da significação e no do tema. De certo modo, ela amplia o sistema de oposições de Saussure ao levá-lo também para o nível do enunciado concreto, da valoração.

Cabe destacar que uma proposta filosófica materialista dialética não pode, dada sua especificidade, ser julgada em termos de uma concepção de ciência fundada em distinções ou dicotomias absolutas, mas num esforço declarado de cernir os diferentes aspectos disponíveis do objeto estudado, sem se ater a uma dada proposta excludente. É possível que o nascimento da ideia de interdisciplinaridade nas ciências humanas tenha resultado de dois problemas: a tentativa de emulação dos critérios das ciências exatas e as propostas subjetivistas de interpretação dos fatos sociais. MFL mantém esses dois polos em tensão e busca libertar-se de suas implicações propondo um novo modo de ver seu objeto. Deve-se ler esse novo modo em termos de sua produtividade heurística, capacidade explicativa, bases epistemológicas e contexto, não lhe impondo responsabilidades que não são suas. Cremos que essa "tensão" em MFL mostra um de seus aspectos mais positivos da perspectiva do "outro tipo de ciência" em vários aspectos, por exemplo, na distinção entre significação ou significado (znatchiénie) - o domínio do signo saussuriano - e tema ou sentido (smyls) - domínio que não interessava (legitimamente) a Saussure, mas sim ao "Círculo", e que claramente incorpora, não de modo formal, os signos como formados por oposição entre si no sistema da língua.

Uma tensão semelhante envolve a questão da ideologia, que em MFL, opondo-se à teoria do reflexo do marxismo vulgar, tanto depende da consciência individual (no sentido não subjetivista) como é social, e não individual, sem por isso excluir o sujeito do processo de criação dos signos, que são "neutros" no nível da significação (Saussure), mas valorados no nível do sentido (Voloshinov), cobrindo assim os dois grandes domínios atuais de estudo da linguagem. De resto, Saussure se concentra no sistema de oposições, mas não descarta a fala/o discurso, ainda que não o defina nem o mencione como tal, por não ser esse seu objeto. Como diz Guilhaumou, se para ele, "todo termo da língua ocupa o lugar de alguma coisa que não é da ordem do discurso", ainda assim "só o discurso pode atribuir uma significação a essa coisa" (2012, parágrafo 21; trad. nossa)10.

3 Diálogos de Voloshinov com Humboldt e Vossler

Alega Sériot que o Humboldt de Voloshinov é "marxizado" (e "sociologizado") e o Vossler, "sociologizado". Quanto a Humboldt, deve-se destacar antes de tudo que a amplitude e riqueza de suas proposições levou-o a ser apropriado de diferentes maneiras por diferentes teóricos. Para Humboldt, a linguagem serve à comunicação, mas é sobretudo a forma humana típica de constituição dos sujeitos e do mundo, estando vinculada com o pensamento e com as representações do mundo e do sujeito. O centro do interesse de Voloshinov por essa tese de Humboldt é a dialética palavra-pensamento: para Humbolt, a unidade da palavra corresponde à unidade do conceito, uma vez que cabe à palavra tornar o conceito uma entidade do mundo do pensamento. Em outras palavras, o pensamento transforma, mediante a palavra, fenômenos do mundo em objetos da ciência. O pensamento, por sua vez, torna-se, via palavra, objeto do mundo (algo caro a Voloshinov), para além do eu, mas retorna a este último precisamente na forma da palavra, sendo essa unidade que constitui, para Humboldt, a individualidade.

Voloshinov aproveita das propostas de Humboldt os aspectos não cognitivos e subjetivistas, e os torna parte de sua proposição do caráter individual-social do signo ideológico. Deve-se entender ideológico em MFL, repetimos, não em termos das teorias marxistas vulgares, e sim no sentido de elemento concomitante a todo uso de signos: não há signos em uso sem valoração. Assim, há em MFL uma apropriação materialista dialética de algumas proposições de Humboldt. Voloshinov põe em contato Saussure e Humboldt, aproximando-os do ponto de vista de sua proposta de uma filosofia materialista dialética da linguagem, o que nos parece legítimo, ainda que se possa questionar.

Vossler, por sua vez, representante de um subjetivismo para alguns exacerbado, é relido por Voloshinov em termos dessa proposta e também tem aproveitados alguns aspectos relevantes. Porque Vossler, apesar desse subjetivismo, "corrige", ao ver de Voloshinov, a tendência do objetivismo abstrato de descartar o sujeito como centro (mas não senhor) da enunciação, propondo, a partir de Croce, uma concepção antipositivista da linguagem. Assim, Humboldt e Vossler (bem como Saussure) estão presentes em inúmeras propostas de MFL, formuladas em termos de um estudo materialista dialético da linguagem. A partir disso, MFL propõe sua tão pouco explorada análise sintática [porque considera a estrutura da língua] enunciativa [porque baseada em enunciados, logo, a partir da linguagem em uso]. A obra examina magistralmente o chamado "discurso citado", discurso sobre o discurso, enunciação sobre a enunciação - para além da metalinguagem -, mostrando, por exemplo, que o discurso direto e indireto não são apenas estruturas sintáticas distintas, mas atitudes distintas do eu diante do discurso do outro11.

4 Pontos de vista e constituição de objetos

Em vez de recusar por inteiro o objetivismo abstrato e o subjetivismo individualista, MFL aproveita deles os aspectos pertinentes à sua proposta e descarta aqueles que são incompatíveis, algo que nos parece um perfeito procedimento em ciências humanas, que não podem usar, por exemplo, as leis da física. Em termos materialistas dialéticos, MFL busca integrar numa proposta específica as duas principais tendências de estudo da língua/linguagem, da época mas também de hoje. As críticas em MFL têm como centro o fato de que essas tendências, mesmo com algumas propostas válidas, fracassaram, do ponto de vista bem fundamentado de Voloshinov, em considerar outros aspectos, a seu ver relevantes, ou em levar até o fim as implicações do que propõem. Não se trata de refutar in limine ou deturpar as propostas, mas de propor uma síntese, de um dado ponto de vista declarado acerca de um dado objeto.

Sériot afirma que Voloshinov despreza a célebre afirmação de Saussure de que o ponto de vista determina o objeto e o acusa de praticar uma "arte do 'diálogo' particularmente monológica" (2015, p.111). Alega ainda que Voloshinov não percebe que ele e Saussure falam de duas coisas distintas que jamais poderiam encontrar-se, deslegitimando assim a leitura de Voloshinov e, portanto, seu ponto de vista. Haverá nessa alegação uma normativa não declarada sobre como deve ser o método científico em ciências humanas? A nosso ver, boa parte dos estudos em ciências humanas estaria comprometida se não se pudessem integrar exteriores teóricos distintos. Claro que não há encontro em termos ontológicos, mas sim epistemologicamente, no plano do objeto e não do fenômeno. O signo de Saussure não é o signo de Voloshinov, mas nem por isso eles deixam de se encontrar nas propostas deste último. O autor de MFL fez sua avaliação, em seus termos, de várias teorias, como pesquisador, não como juiz. Segundo Faraco,

Um dos aspectos mais interessantes da recepção das ideias do Círculo de Bakhtin no Brasil é, certamente, o fato de os leitores terem se deixado seduzir pela retórica de Voloshinov em Marxismo e filosofia da linguagem.

A crítica que ele desenvolveu, na segunda parte do livro, às duas principais tendências do pensamento linguístico (sic) de seu tempo - que ele denominou de "objetivismo abstrato" e "subjetivismo idealista" - foi tomada, entre nós, como juízo condenatório definitivo daquelas tendências. E, como tal, foi sendo, em paráfrases quase-perfeitas, repetida "ad nauseam" [...] (2006, p.125).

Assim como essa repetição acrítica e errônea traz problemas, a recusa liminar em examinar a legitimidade e as bases da leitura de Saussure por Voloshinov leva a desconsiderar que Voloshinov estava apontando os limites da proposta de Saussure de seu ponto de vista, igualmente legítimo, não no âmbito do universo saussuriano. De modo geral, os precursores pagam um alto preço por sua ousadia teórica, e esse é o caso de Voloshinov (e de Bakhtin). A linguística moderna reconhece hoje que não há estudo da linguagem que prescinda do sistema da língua, a "álgebra combinatória" (a langue), ou do estudo da linguagem, o sistema de uso da língua, bem menos algébrico (que não é propriamente a parole, naturalmente, mas traz ecos dela). Do mesmo modo, já não se atribui ao sistema o poder de dominar os sujeitos nem a estes a posse mental do sistema. Por conseguinte, Saussure e Voloshinov não falam de fenômenos incompatíveis, mas trabalham com distintos objetos e distintas ênfases, ou pontos de vista, igualmente legítimos. A síntese entre as principais tendências de estudo da linguagem na época de MFL continua válida hoje, naturalmente sujeita a críticas e reformulações, sem no entanto se poder descartá-la como uma "cegueira" para pontos relevantes das propostas criticadas.

5 O geral e o particular em Ciências Humanas

Sériot aborda igualmente a questão da generalização, afirmando ser MFL a proposta de uma ciência das singularidades - algo que ela, para seu maior mérito, de fato é. Cabe considerar mais amplamente as dificuldades inerentes à tarefa de generalizar sobre enunciados (que são, por definição, não repetíveis, ainda que a frase possa ser a mesma em distintos enunciados) e reconhecer o esforço pioneiro de MFL, que não se rende ao sociológico nem ao psicológico, nem ao formal nem ao intuitivo, propondo em vez disso uma teoria da enunciação e do enunciado que busca abarcar os vários aspectos desses fenômenos. Nesse sentido, deve-se considerar que, segundo Sobral,

[...] toda generalização a partir de atos singulares traz um duplo problema: como não apagar a especificidade de cada ato específico e como não se perder nessa especificidade e, assim, deixar de apreender o que há de comum entre os vários atos. Porque atos absolutamente singulares exigiriam agentes absolutamente únicos e dessemelhantes, bem como situações de ação absolutamente irrepetíveis, o que impediria toda e qualquer generalização, ao mesmo tempo em que uma generalização que apague o que há de singular nos atos requereria agentes absolutamente iguais entre si, bem como uma única situação de ação, ou seja, uma negação da condição humana (2007, p.11-12).

Tem-se a impressão de que a noção de "enunciado concreto" continua a ser de fato um desafio para os estudos da linguagem, notadamente propostas que querem alcançar um nível de formalização que talvez possa aplicar-se a partículas/ondas, mas não a enunciados ou aquelas que, pelo contrário, veem apenas singularidades. Um estudo de enunciados não pode restringir-se à estrutura da frase (esta sim, repetível), mas também não pode prescindir de um estudo da enunciação sem considerar as frases, ainda que estas sejam apenas o aparato técnico da produção de enunciados, assim como não pode restringir-se às acepções do dicionário nem prescindir delas. Logo, estudar a enunciação é estudar tanto seu "aparelho formal" como seu "agir enunciativo" e, portanto, as situações de enunciação e os sujeitos em suas relações sociais e históricas. As frases são repetíveis e os enunciados são irrepetíveis, mostra-o MFL, e uns e outros são objeto de generalização, mas não do mesmo tipo de generalização.

MFL busca integrar o fenômeno ontológico que são os enunciados efetivamente proferidos - o evento irrepetível de sua proferição num hic et nunc - e seu aspecto epistemológico em sua construção como objeto do conhecimento, campo da generalização, construído a partir de um ponto de vista cuja premissa fundamental é a união entre situação de enunciação e enunciado como os aspectos não verbal e verbal da produção de sentidos. Essa proposta busca unir o sistema formal da língua ao sistema de uso da linguagem mediante a incorporação e subsunção da estrutura formal da significação (contraparte necessária, mas não suficiente, do sentido), descrevendo assim os mecanismos de instauração de sentidos. Esses mecanismos são explicados em termos da interação dialógica, cuja amplitude vê mesmo o solilóquio como uma réplica a possíveis interlocutores in absentia, o que representa uma revolução: a "voz" do outro não requer a presença física, bastando-lhe os ecos e ressonâncias deixados retrospectivamente por seu dizer ou passíveis de vir a existir depois da enunciação, prospectivamente, pois.

Generalizar sobre as singularidades que são os enunciados parece requerer precisamente um procedimento como o proposto pioneiramente por MFL (e também pela filosofia do ato de Bakhtin, em 1916, por exemplo): unir o ontológico (fenômeno) ao epistemológico (objeto) do ponto de vista do "evento do enunciado" ou "enunciado concreto", isto é, um evento irrepetível que compartilha com outros eventos irrepetíveis certos aspectos formais no nível da língua e certos procedimentos sociais e históricos de proferição. Segundo MFL, a significação é apropriada pelo ato de enunciação do sujeito em interação para instaurar sentidos que só podem ser apreendidos se se considerar concomitantemente o enunciado, o ato de enunciação e os sujeitos enunciadores, bem como a situação de enunciação (claro que em termos das marcas que estes deixam no enunciado, unidade do discurso).

Se não se aceita a relação entre singularidades e generalização como passível de ser teorizada a não ser em termos de modelos e hipóteses aceitáveis por alguma perspectiva teórica, mas que não são parte do contexto de MFL, não se vê que o livro propõe precisamente uma maneira de perceber que um fenômeno (dado concreto) se torna objeto de conhecimento mediante uma operação do estudioso para construir esse objeto, do ontológico ao epistemológico. Uma das maneiras de consegui-lo pode ser formalizar hipóteses e propor um modelo, mas as ciências humanas têm provado, há muito tempo, que essa não é uma condição sine qua non e, mais do que isso, que é bem frequente que os modelos de tornem camisas de força em que já não há fenômenos concretos, mas a inútil elegância formal da teoria.

Considerações finais

Em sua conclusão, Sériot afirma: "Era preciso mostrar que não se pode compreender a concepção de Voloshinov sem conhecer o contexto imediato de seu pensamento" (2015, p.119). E isso ele de fato consegue; não só conhecer como dar a conhecer. Diz ainda que "Esperamos que este trabalho venha a suscitar comentários e outras traduções" (2015, p.120). Entendemos "trabalho" aí como sendo a tradução e seu Prefácio, que é um cuidadoso estudo do contexto de MFL e um detalhado comentário, de que se pode discordar, mas que faz sentido do ponto de vista de Sériot.

Com relação ao Prefácio como estudo histórico e comentário crítico, muito valioso e dotado da seriedade que falta a certos detratores das obras do chamado Círculo, esperamos ter contribuído, com nossos comentários, para mostrar seus méritos e para indicar alguns pontos a nosso ver questionáveis, mas que refletem possibilidades legítimas de leitura. Foi-nos necessário, para compreender o Prefácio, conhecer o contexto imediato de Sériot, tal como ele o busca fazer quanto a MFL. Assim, a crítica que fizemos buscou atenuar alguns pontos por compreender que ele, em seu contexto, não podia fazer algumas coisas nem deixar de fazer certas outras. De nossa parte, também não pudemos fazer algumas coisas nem deixar de fazer certas outras. Talvez o que julgamos atenuado seja tido por radical para alguns e por débil para outros. São coisas do que poderíamos chamar de "circuito dialógico".

MFL é, a nosso ver, uma das mais bem sucedidas tentativas de contrapor à nauka (ciência acadêmica) uma inonauka (um outro tipo de ciência) - distintas, como dissemos, tanto da anti-nauka, ou "anticiência" como da nenauka, ou "não ciência". Assim, generalizar sobre fenômenos irrepetíveis consiste, para MFL e para o ponto de vista geral do "Círculo", em identificar o que há em comum entre eles (no caso da linguagem, a estrutura formal da língua e os procedimentos de enunciação), o que se faz presente em todos os enunciados ao ser proferidos, e vê-los igualmente naquilo que têm de singulares, naquilo que os torna distintos em termos de sentidos instaurados. Também de nossa parte esperamos que estas "Notas à Margem de um Prefácio", tão refutáveis e tão marcadas por um dado ponto de vista contextual brasileiro de 2014/2015 quanto o Prefácio comentado o é pelo francês de 2010, suscitem outros comentários e outras traduções, no caso, interpretações distintas.

4Sériot afirma que a palavra russa pode ter essas duas traduções.

5Para um levantamento detalhado, cf. GUILHAUMOU, 2012.

10"[...] tout terme de la langue tient lieu de quelque chose qui n'est pas de l'ordre du discours"; "seul le discours pouvant donner une signification à cette chose".

11Cf. PECHEY, Graham. Mikhail Bakhtin: The Word in the World. London, New York: Routledge, 2007, p.62-3., para a alegação de que são maneiras de ouvir o discurso do outro.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 28 de Abril de 2015; Aceito: 09 de Maio de 2016

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